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4 de agosto de 2026

George MacDonald


A lei da Natureza

Ele agitará o céu e a terra, para que apenas o que é mais firme permaneça: é um fogo inextinguível, que faz com que somente aquilo que não pode ser extinto permaneça eternamente de pé. Tal é a natureza de Deus: tão terrivelmente pura que destrói tudo o que não é puro como o fogo, o que exige que haja pureza em nossa forma de adorá-Lo. Ele sempre terá pureza. Não se trata de que o fogo vá nos queimar se não O adorarmos; mas de que continuará ardendo dentro de nós até que tudo o que é alheio a Ele se renda à Sua força — não mais com dor e consumição [aflição, inquietação], mas como a consciência mais elevada da vida: a presença de Deus.

Poderia servir-lhes, de algum modo, de consolo, que se lhes diga que Deus os ama tanto que arderá neles até purificá-los? ...Eles não querem estar limpos, e não querem suportar um suplício.

Porque aquilo que não pode ser removido deve permanecer. O que é imortal em Deus deve permanecer no homem. A morte que há neles deve ser consumida. Nisso consiste a lei da Natureza — isto é, a lei de Deus —: que tudo o que é destrutível deve ser destruído.

O homem cujos atos são maus teme as chamas. Mas as chamas não deixarão de vir apenas porque ele as teme ou as nega. É inútil fugir. Pois o Amor é inexorável. Nosso Deus é um fogo inextinguível. Ele não se manifestará até que tenha exigido o último centavo.

Cavernas e películas

Se Deus vê esse coração corroído pela ferrugem das atenções, carcomido em cavernas e películas pelos vermes da ambição e da avareza, então teu coração é como Deus o vê, porque Deus vê as coisas tal como são. E um dia serás forçado a contemplar — não, a sentir — teu coração como Deus o vê.

E não é que esta lição se aplique apenas àqueles que adoram Mammon [i.e. dinheiro, riquezas, a avareza em geral]… Aplica-se igualmente àqueles que adoram o transitório; aos que buscam o louvor dos homens mais do que o louvor de Deus; aos que estão dispostos a montar um espetáculo exibindo ostentação de riqueza, gosto, intelecto, poder, arte ou qualquer tipo de genialidade, para colecionar elogios que guardem em um depósito terreno. E não apenas a esses, mas também àqueles cujos prazeres têm uma natureza ainda mais evidentemente passageira, como os prazeres sensuais em todas as suas variantes — mesmo os que contam com indulgência legal, se a alegria de ser se centra neles —, é preciso compreender a terrível advertência contida nestas palavras. Pois o dano não está em que tais prazeres sejam falsos como as ilusões da magia, porque essa não é sua natureza; nem porque sejam passageiros e deixem atrás de si uma amarga decepção — isso é, de longe, o melhor que se pode dizer deles —; o dano está em que o imortal, o infinito, criado à imagem e semelhança do eterno Deus, se liga ao que se deteriora e declina, aderindo a isso como se fosse seu bem; permanece agarrado até que se torna infectado e impregnado por suas enfermidades, que assumem no eterno uma forma mais terrível, proporcional à superioridade de sua natureza.

Os milagres

O Pai disse: Isto é uma pedra. O Filho não diria: isto é um pedaço de pão. Nenhum fiat criativo pode contradizer o outro. O Pai e o Filho são uma só mente.

O Senhor podia ter fome, estar à beira da inanição, e ainda assim não transformaria em outra coisa aquilo que o Pai havia criado. Não houve mudança desse tipo quando as multidões foram alimentadas. Os pães e os peixes eram pães e peixes anteriormente... Nesses milagres —e creio que em todos— houve apenas uma aceleração das aparências: o fato de que algo fosse feito em um só dia, aquilo que em condições normais teria levado mil anos, porque para Deus o tempo não é o mesmo que para nós. Ele o faz... E não se trata do mais milagroso dos processos. Na verdade, a maravilha do milho que cresce é, para mim, maior do que a maravilha de alimentar milhares. É mais fácil compreender o poder criativo que age num instante —imediatamente— do que aquele que opera nas incontáveis e gentis, aparentemente esquecidas maravilhas do milharal.

Nem só de sentimento vive o homem

Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; e, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. (Mateus 4:1-4)

No aspecto mais elevado da primeira tentação, partindo do fato de que um homem não pode sentir as coisas que crê senão sob certas condições de bem-estar físico que dependem do alimento, a resposta é a mesma: um homem não vive por seus sentimentos mais do que vive por seu pão.

A liberdade que nos une a Deus

Não é que Deus, pelo dom instantâneo de Seu Espírito, faça sempre com que nos sintamos bem, que desejemos o bem, que amemos a pureza, que aspiremos a Ele e a cumprir Sua Vontade. Disso se conclui que ou Ele não quer, ou não pode fazer tal coisa. Se não quer, é porque não seria bom que assim fosse. Se não pode, então é porque não o faria se pudesse, pois, do contrário, seria concebível para a mente de Deus uma condição melhor do que a do próprio Deus... Eis a verdade: Ele quer que sejamos feitos à Sua imagem e semelhança, que escolhamos o bem, que rejeitemos o mal. Como poderia conseguir isso se Ele nos movesse a cada instante desde dentro, como faz nos intervalos divinos, em direção à beleza da santidade?... Porque Deus fez tanto nossa individualidade quanto nossa dependência, e a primeira é até uma maravilha maior. Ele criou nossa separação dEle, que, por meio da liberdade, deveria unir-nos divina e amorosamente a Ele, com uma nova e inescrutável maravilha de amor; pois a Divindade ainda está em sua [nossa] raiz, é a seiva que alimenta nossas raízes individuais, e quanto mais livre é o homem, tanto mais forte é o vínculo que o une Àquele que forjou sua liberdade.

Deus é o Pai de todos e não apenas meu

Nunca poderemos, digo, descansar no seio do Pai, até que a fraternidade se revele completamente a nós no amor por nossos irmãos. Pois Ele não pode ser nosso Pai, a menos que seja também o deles; e se não O vemos e O sentimos como Pai deles, não poderemos saber que é o nosso.

A ação do amor

Se um homem não ama, a falta de amor deve parecer racional. Pois ninguém ama porque vê o motivo, mas porque ama. Não se pode dar razão humana alguma para a necessidade mais elevada da existência divinamente criada. Porque as razões sempre descem de cima para baixo. [Em outras palavras, embora MacDonald certamente não tenha isso em mente, pelo menos não desta forma, os princípios da virtude do intellectus seriam as “razões que descem de cima para baixo”, ou seja, são elementos que vêm de fora (ou melhor, do alto). Veja algo sobre isso aqui. Mas nada disso explica a ação do amor em si, ou seja, o amor é algo cuja existência é “divinamente criada” em nós, faz parte da natureza humana. A inatividade do amor em si não pode, portanto, ser explicada pela ausência ou mesmo presença de razões.]

A zombaria como perda da fraternidade e sinal da inatividade do amor

Mas como podemos amar uma mulher ou um homem… que é mesquinho, desagradável, queixoso, vacilante, hipócrita, egoísta, vaidoso? Como amar alguém que pode até zombar de nós (essa, a mais desumana das faltas humanas, pior em essência que a própria morte)? Não há maneira de amar isso. O melhor dos homens o detesta acima de tudo; o pior dos homens não pode amá-lo. Mas são esses “o homem”? … Não existe dentro do homem e da mulher um elemento divino de fraternidade, algo amável e amante —que se apaga lentamente, talvez—, algo que morre submetido ao feroz calor das paixões vis, ou ao ainda mais horrendo e frio sepulcro do egoísmo, que, apesar de tudo, está ali?... É a própria presença dessa humanidade que se desvanece que torna possível odiarmos. Se fossem apenas animais, e não homens e mulheres, os que nos ferissem, não odiaríamos: apenas mataríamos.

[...]

O homem não foi feito para a justiça em relação ao seu irmão, mas para o amor, que é maior que a justiça e, além disso, a supera. A mera justiça é uma impossibilidade, uma ficção da análise. [Sim, pois a justiça é uma virtude moral que só faz sentido quando integrada à prudência e, por sua vez, à inteligência.] Para que a justiça seja justiça, precisa ser muito mais do que justiça. O amor é a lei de nossa condição, sem a qual não podemos fazer justiça — assim como um homem não pode caminhar em linha reta quando anda na escuridão. [A exemplo do que ensinou Santo Agostinho, a saber, que o que rege o Estado não é a justiça, mas o amor, e o que ensinou Santo Tomás de Aquino, a saber, que o mundo foi criado na misericórdia, ou seja, no amor, não na justiça].

É difícil satisfazer a Deus, mas é fácil agradá-Lo

Sustento com toda a força do meu coração que apenas um cumprimento perfeito satisfará a Deus; mas pensar que nada mais Lhe importa é uma das mentiras do inimigo. Que pai não se alegra ao ver os primeiros passos, ainda vacilantes, de seu pequeno? Que pai ficaria satisfeito com algo diferente do passo firme do filho adulto e maduro?

O propósito imediato dos mandamentos nunca foi que os homens chegassem a cumpri-los, mas que, ao perceberem que não podiam fazer o que devia ser feito — ao perceberem que quanto mais tentavam, mais se lhes exigia — fossem levados à fonte da vida e da lei — de sua vida e de Sua lei — para buscar nEle o vigor vital necessário para que o cumprimento da lei se tornasse possível, sim, tão natural quanto necessário. [O Pe. Seraphim Rose, citando São Macário de Optina,ensinava algo parecido em relação à leitura dos Santos Padres, a saber, para que cresçamos em humildade].

Servidão

Um homem está nas mãos daquilo de que não pode se separar e que é menor do que ele.

A estratégia perdedora dos acumuladores de carniça

“Não posso ser perfeito; é inútil; e Ele não espera que eu o seja.” Seria mais honesto se tivesse dito: “Não quero ser perfeito; contento-me em ser salvo.” Como se não lhe importasse ser perfeito como seu Pai o é no céu, mas apenas ser o que se costuma chamar de salvo.

Ou estás tão satisfeito com o que és, que nunca buscaste a vida eterna, nunca tiveste fome e sede da retidão de Deus, da perfeição do teu ser? Se essa é tua condição, então tens razões para te sentir aliviado: o Mestre não pretende que vendas teus bens e dês aos pobres o que obtiveres. O que deves fazer é segui-Lo e anunciar a boa nova! Tu, que não te preocupas com a retidão! Não és um daqueles cuja companhia convém ao Mestre. Fica tranquilo, digo-te: Ele não te exige nada, não te pedirá que abras tua bolsa para Ele; podes dar teu dinheiro ou guardá-lo, para Ele isso nada significa... Vai e cumpre os mandamentos. Já tens o bastante com os mandamentos. Já não és um filho no reino. Não te importam os braços de teu Pai; só valorizas o abrigo que Seu teto pode oferecer. Quanto ao teu dinheiro, que os mandamentos te mostrem como usá-lo. É apenas uma triste presunção de tua parte perguntar se te é pedido tudo o que tens... pois pedir ao Jovem Rico que vendesse tudo e O seguisse seria conceder-lhe o título de nobreza de Deus — e a ti não se oferece tal coisa.

Isso te consola? Tanto melhor para ti! ... Teu consolo é saber que o Senhor não tem necessidade de ti; que não te exige que te desprendas do teu dinheiro, que Ele não se oferece em troca. É verdade que não O vendeste por trinta moedas de prata, mas estás satisfeito por não ter que comprá-Lo com tudo o que tens.

O homem que, pela consciência do bem-estar, depende de algo que não seja a vida — a vida essencial — é um escravo; apega-se a algo que é menor do que ele... As coisas nos são dadas — e este corpo, a primeira entre elas — para que, através delas, exercitemos tanto a independência quanto a posse genuína. Devemos possuí-las, e não permitir que elas nos possuam. Seu uso próprio é como meio, como formas e manifestações de menor grau daquelas coisas que são invisíveis — isto é, invisíveis em si mesmas —, as coisas que pertencem não ao mundo do discurso, mas ao mundo do silêncio; não ao mundo do que se mostra, mas ao mundo do ser, o mundo que não pode ser removido, aquele que deve permanecer. Essas coisas invisíveis tomam forma nas coisas do tempo e do espaço; e não é que venham a existir, pois existem em e provêm da eterna Divindade; mas seu ser deve ser conhecido por aqueles que se exercitam para o eterno, pois são essas coisas — as invisíveis — que devem possuir os filhos e filhas de Deus. Mas, em vez de estender o braço para alcançá-las, eles se apegam às suas formas, contemplam essas coisas visíveis como as que devem possuir, e se enamoram dos corpos em vez de fazê-lo das almas.

O sagrado presente

A próxima hora, o próximo momento, estão tão além de nosso entendimento e do cuidado de Deus quanto o que acontecerá daqui a cem anos. Preocupar-se com o próximo minuto é tão tolo quanto preocupar-se com o amanhã ou com qualquer dia dos próximos mil anos: em todos os casos, nada podemos fazer, pois é Deus quem faz tudo. As exigências de preparar o amanhã pertencem à tarefa de hoje; o momento que coincide com o trabalho que deve ser feito é o momento que importa; o instante seguinte não existe em lugar algum até que Deus o tenha feito.

A preocupação que ocupa tua mente neste instante — ou aquela que apenas espera que deixes o livro de lado para te assaltar — essa necessidade que não é necessária é um demônio que está bebendo a fonte da tua vida. “Não; a minha é uma preocupação razoável, uma que é inevitável, de fato.” Trata-se de algo que precisas fazer exatamente agora? “Não.” Então estás permitindo que ela usurpe o lugar daquilo para o qual verdadeiramente és chamado neste momento. “Não sou necessário para nada neste momento.” Não, mas há isso — a maior coisa para a qual alguém pode ser requerido. “Peço-te, do que se trata?” De confiar no Deus vivo... “Já confio nEle quanto aos assuntos espirituais.” Tudo é um assunto do espírito.

Deus não chuta a porta

Deus também não forçará nenhuma porta para entrar. Pode enviar uma tempestade sobre a casa; o vento de Sua advertência pode agitar as portas e janelas, sim, estremecer a casa até seus alicerces; mas nem então, nem mesmo assim, Ele entrará. A porta deve ser aberta por uma mão voluntária, antes que o pé do Amor atravesse o umbral. Ele vê como a porta se move por dentro. Cada tempestade não é senão um assalto no cerco que o Amor realiza. O terror de Deus não é mais que a outra face de Seu Amor; é amor que está do lado de fora, que estaria dentro; amor que sabe que a casa não é realmente uma casa, mas apenas um lugar — até que Ele entre.

Oração de intercessão

E por que o bem de alguém deveria depender da oração de outra pessoa? Só posso responder a isso invertendo a pergunta: “Por que meu amor haveria de ser impotente para ajudar outro?”.

A sublevação eterna

Há espaço infinito para a rebelião contra si mesmo.

Concessão corretiva

Mesmo aqueles que pedem em vão podem às vezes receber resposta às suas preces. O Pai nunca dará ao filho que pede pão uma pedra; mas não estou certo de que nunca lhe dê uma pedra, se foi isso que pediu. Se o Pai diz: “Meu filho, isso é uma pedra, não um pão”, e o filho responde: “Tenho certeza de que é pão; eu o quero”, não é bom que ele prove o seu “pão”?

A justiça corretiva é inócua nos assuntos espirituais

É insignificante para ti se o homem te concedeu teu direito ou não: é questão de vida ou morte para ti se lhe concederes o dele. Pague ele ou não o que te deve, tu estarás obrigado a pagar-lhe tudo o que lhe deves. Se lhe deves uma libra e ele te deve um milhão, deves pagar-lhe a libra, quer ele te pague ou não o milhão; não se podem estabelecer aqui paralelos com o mundo dos negócios. Se ele, devendo-te amor, te entrega ódio, tu, que lhe deves amor, tens de pagá-lo. [Veja o que diz Ivan Ilyin sobre a equidade e o ódio]

Ponto morto

Ao homem é difícil obter o que deseja, porque não deseja o melhor; a Deus é difícil dar, porque Ele daria o melhor, e o homem não o aceitaria.

A vida não existe só na alegria

A vida é tudo. Muitos, sem dúvida, confundem a alegria de viver com a própria vida e, ao sentir falta da alegria, definham com uma sede ao mesmo tempo pobre e insaciável; contudo, essa sede aponta para uma única fonte. Ela [a pessoa] ama o “eu”, não a vida, e o “eu” não é senão a sombra da vida. Quando se toma o “eu” como a própria vida e se o coloca no centro do homem, ele se transforma em uma morte viva dentro do homem — um demônio que ele adora como seu Deus — e esse verme da morte eterna é colocado como um broche no peito, como seu único gozo.

Acima de tudo, evitemos o falso refúgio que oferece a derrota pelo cansaço, a rendição desesperançada às coisas tal como são. É a vida que há em nós que está descontente; precisamos de mais daquilo que está descontente [da vida], não mais da causa do descontentamento [do eu].

Fogo divino

O fogo de Deus, que é Seu ser essencial, Seu amor, Seu poder criador, é um fogo que não se assemelha ao seu símbolo terrestre neste ponto: só queima à distância; quanto mais alguém se afasta dEle, mais abrasado se torna.

Criação

 Empregar a palavra “criação” para designar o mais nobre êxito do gênio humano parece-me zombar da humanidade, que está ela própria em processo de criação.

A realidade é feita de coisas (ou, Os objetos da ciência não são reais)

A verdade da flor não consiste nos fatos sobre ela, por mais corretos que sejam como ciência ideal, mas no brilho, no semblante radiante, na alegria, na coisa paciente sobre o trono de seu caule — aquilo que impele ao sorriso e à lágrima... A ideia de Deus é a flor: Sua ideia não é a botânica da flor. A botânica é apenas o meio, o caminho, o pincel e a tela em relação ao quadro na mente do pintor.

O oxigênio e o hidrogênio são a ideia divina da água? Deus uniu ambos os elementos apenas para que o homem os separasse e os descobrisse? Ele permite que Seu filho desmonte os brinquedos em peças; mas foram feitos para serem despedaçados? [...] Não há água no oxigênio, nem água no hidrogênio; ela vem borbulhante e fresca da imaginação do Deus vivo, a toda velocidade desde o grande trono branco do glaciar. [...] Essa água é seu próprio ser e sua própria verdade, e por isso é também uma verdade de Deus.

A verdade de uma coisa, portanto, é seu florescimento — aquilo para o que foi feita, a pedra superior colocada com alegria; a verdade na imaginação de um homem é o poder de reconhecer essa verdade de uma coisa.

[Edward Feser, em seu Scholastic Metaphysics, explica precisamente isso: os átomos de hidrogênio e oxigênio existem apenas virtualmente na água, ou seja, suas formas substanciais não estão realmente ali. Em outras palavras, a forma substancial da água é algo que não se explica pela mera soma, ou conjunção, ou composição, de seus átomos. Em ainda outras palavras, a forma substancial da água é da água, apenas e tão-somente da água, e também dos átomos que naquele momento a compõe. A forma substancial da água permeia horizontalmente (em seus átomos) e, ao mesmo tempo, verticalmente (a água como um todo).

Mario Ferreira explica a mesma coisa com outras palavras, tanto em seu Ontologia e cosmologia quanto em seu Filosofia concreta. Como lhe é característico, ele diria que a relação dos átomos de oxigênio e hidrogênio é real, mas não é concreta.  A relação desses átomos explica a passagem da água em potência para a água em ato, mas a relação, ela mesma, precisa dos átomos, por isso ela mesma não é concreta. Ela contém, nas palavras de Mario Ferreira, o “germe do esquema”. Isso significa que a água em ato contém seu próprio esquema concreto (esquema desta água), mas a mera relação entre as partes não é este esquema concreto (ou “tensão”, ou “arithmós”).]

A via do “animal santo” não existe

Aquele que fosse em direção à verdade por mero impulso seria um animal santo, não um verdadeiro homem. Relações, verdades, deveres — tudo isso se mostra ao homem além de si mesmo, para que ele possa escolhê-los e ser um filho de Deus, escolhendo a retidão como Ele. Daí a imensa tristeza que há na história vitoriosa dos humanos, e a glória no que será revelado.

A liberdade do Deus que deseja que suas criaturas sejam livres está em disputa com a escravidão da criatura que cortaria o próprio caule de suas raízes apenas para poder dizer que eram suas próprias raízes e amá-las; aquele que se regozija de sua própria consciência, em vez de fazê-lo da vida dessa consciência; aquele que mantém o equilíbrio apoiando-se na parede vacilante de seu próprio ser, em vez de apoiar-se na rocha da qual essa parede é feita. Alguém assim contempla o domínio que tem sobre si mesmo —a norma do maior pelo menor [ele se refere ao conceito de servidão, a saber, a submissão do maior por algo que lhe é menor]— como uma liberdade infinitamente maior que a correspondente ao universo do ser de Deus. Se diz: “Pelo menos faço do meu jeito!”, eu respondo: não sabes qual é o teu jeito e qual não é. Não tens ideia da procedência de teus impulsos, teus desejos, tuas inclinações, tuas preferências. Às vezes podem brotar como por acaso, como se te pedissem as entranhas; outras, do rugido de um diabo incorpóreo que passava por ali; outras, da avareza anárquica de algum ancestral de quem te envergonharias se o conhecesses; ou talvez provenha de algum acorde distante de uma orquestra celestial. De qualquer modo, no momento em que entra em tua consciência, tu o chamas “teu próprio jeito” e te glorificas nisso.

A vergonha é para os magnânimos

Podemos confiar em Deus com nosso passado com tanto entusiasmo quanto confiamos nEle com nosso futuro. Isso não nos fará mal, enquanto não tentarmos esconder algo, enquanto estivermos dispostos a inclinar nossas cabeças com sincera vergonha sempre que for adequado nos envergonharmos. A vergonha é algo de que se envergonham apenas os que querem aparentar, não os que querem ser. A vergonha é algo de que se envergonham aqueles que apenas desejam passar de ano, não os que querem penetrar no cerne das coisas... Ser humildemente envergonhado é mergulhar no purificador banho da verdade.

Cada um porta a luz à sua maneira e deve compartilhar com os demais

Cada um de nós é algo que o outro não é, e portanto sabe algo —ainda que saiba sem saber que sabe— que nenhum outro sabe; e... é tarefa de todos, como membros do reino da luz e herdeiros dele, oferecer sua parte ao restante.

É melhor ser homem do que ser herói

Aprendi que não é a mim mesmo, mas apenas à minha sombra que perdi. Aprendi que é melhor... para um homem orgulhoso cair e receber uma lição de humildade do que erguer a cabeça orgulhoso com uma inocência fingida. Aprendi que aquele que será um herói dificilmente será um homem; que aquele que não será mais do que o realizador de seu trabalho pode estar seguro de sua humanidade.

Depois da morte a vida se enriquece

“Agora você provou o sabor da morte”, disse o Velho. “Gostou?”. “Sim, gostei”, disse Mossy. “É melhor que a vida.” “Não”, disse o Velho. “É apenas que contém mais vida.”

É somente nEle que a alma tem espaço suficiente. Em conhecê‑Lo está a vida e sua alegria. O segredo do teu próprio coração jamais poderás conhecer; mas poderás conhecer Aquele que conhece esse segredo.

Ensinamos ao próximo pelo exemplo, não pelo discurso

Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos tornarão a medir. E por que reparas tu no cisco que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, e eis uma trave no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Mateus 7:1-5)

Se eu tivesse mais da sabedoria da serpente... talvez soubesse que tentar com demasiado empenho fazer com que as pessoas sejam boas é uma maneira de torná-las piores; que o único modo de torná-las boas é ser bom, lembrando em todo momento o cisco e a trave; e que o momento ideal para falar raramente se apresenta, enquanto o ideal para agir está sempre aí.

Recordatório

Queixar-se diante de Deus nos aproxima muito mais dEle do que se fôssemos indiferentes.

Fonte: C. S. Lewis, George MacDonald, Ediciones Rialp, Madrid, Espanha, 2017, trechos selecionados e reorganizados.

16 de julho de 2026

Mera sensatez


O progresso

Há dois tipos de progresso. O primeiro tipo, o mais comum, é o progresso da construção de uma casa, por exemplo. Uma casa meio construída não serve: é necessário que se atinja um mínimo de avanço, digamos, 99%, para que a casa se torne habitável. É um progresso que leva a um fim (a habitação dessa casa, por exemplo). O segundo tipo é mais sutil, a exemplo do progresso educacional de uma criança. Uma criança meio educada, sim, “serve”: não é necessário que atinja um mínimo de avanço para que a criança seja considerada uma criança. É um progresso de algo que já é um fim. Isso vale para um amor, uma amizade, um paciente etc. Portanto, uma coisa é progredir para um fim, outra coisa é um fim progredir. Aqui é óbvia a distinção entre substância e acidente.

Em especial chama a atenção a questão do progresso tecnológico. Ele é oferecido às massas, mesmo que sutilmente, como necessário à condição humana. É claro que se trata de erro de raciocínio: a humanidade em si já é humanidade, não precisa de “progresso tecnológico” para melhorar uma condição que já possui em sua integralidade. A tecnologia, por mais exuberante e útil que seja, toca apenas acidentalmente a existência humana, enquanto substancialmente mantém-se alheia. Ocorre que o estado atual da cultura praticamente nos obriga a considerar o novo, o recente, como melhor. Lewis acredita que essa distorção psicológico-cognitiva surgiu com a ascensão das máquinas.

O mesmo vale para a história, que, tal como a tecnologia, não tem sentido em si (ambas fazem parte do devir, do mundo do movimento, do mundo do acidente, do acessório). Isso não significa que não devamos nos esmerar, na vida prática, em termos uma casa, equipamentos tecnológicos ou prestar atenção à dinâmica da história. Mas isso significa, sim, que não devemos atribuir a nada disso a substancialidade que não tem. Uma habitação é uma condição necessária para a vida? Sem dúvida, assim como comida, bebida, sexo, sono. Mas melhorar sua vida não fará de você “mais” ou “menos” ser humano.

Os seres espirituais

Lewis faz uso do termo numinoso, criado por Rudolf Otto, que seria um tipo de sentimento absolutamente singular que não se reduz a conceitos racionais, morais ou teológicos. É aquilo que constitui o “sagrado” antes de qualquer elaboração intelectual. Lewis entende que esse pavor de algo estranho é muito mais que um medo de algo perigoso. Não temos medo dos fantasmas pelo que eles podem fazer, mas simplesmente temos medo deles.

Ser ético é antiético

Ninguém quer estar com gente que é limpa, honesta e gentil por dever. Gostamos de estar com gente que gosta de ser limpa, honesta e gentil. A mínima suspeita de que alguém está sendo gentil e amoroso por dever basta para envenenar a relação. O moralismo é autodestrutivo. As obras não salvam ninguém. Lewis cita Tyndale quando diz que o Evangelho veio para nos salvar da moralidade. Um dos objetivos da religião deveria ser abolir a moralidade ensinando às pessoas como serem boas, e não como cumprirem regras morais. A educação moral é ensinar a fazer as coisas com gosto, e não a fazer as coisas por obrigação.

A vida espiritual

Que a vida espiritual transcenda a inteligência e a moralidade é óbvio. Mas isso não significa que a vida espiritual deixe de englobar a inteligência e a moralidade ao transcendê-las. Assim, por exemplo, como a poesia transcende a gramática sem excluí-la. (Ou seja, a vida espiritual não é como a álgebra que, sim, exclui a gramática).

A felicidade

Deixar de buscar sua própria felicidade soa belo, mas é falso. Como ensinam os antigos, a felicidade de um povo é a felicidade de seus integrantes. Deixar de buscar sua própria felicidade parece belo porque é o altruísmo tentando se apresentar como antônimo do egoísmo, quando não é. O antídoto do egoísmo é o amor, não o altruísmo.

A vida pública

O bem comum passa longe de temas como saneamento público e demais bens materiais. As sociedades humanas se formam de acordo à natureza humana, e nem teria como ser diferente. Os homens são sociais porque são racionais. Isso significa que constituímos comunidade somente onde a palavra for o centro. É nessas comunidades onde podemos deixar uma marca no próximo, quando podemos aprender uns com os outros, quando encontramos refúgio uns nos outros. Ninguém vive no Estado, assim como ninguém vive na família. As comunidades humanas se formam em instituições intermediárias a essas duas, a saber, em grupos de amigos, instituições educativas, clubes esportivos, movimentos espirituais, partidos políticos etc.

É neste sentido que Aristóteles ensinava à Nicômaco em seu Livro VIII da Ética que a amizade (amor) é o que há de mais necessário à vida. Claro que Aristóteles não se refere à subsistência humana (neste sentido há coisas muito mais necessárias), mas à boa vida, à vida bem-sucedida. A pessoa pode passar toda sua vida sem amigos, mas sua vida ao final será um fracasso. E será um fracasso porque passou toda sua vida sem querer o bem do outro.

O ideal cavalheiresco

“O ideal cavalheiresco representa o único escape de um mundo dividido entre lobos que não entendem nada e ovelhas que não sabem defender as coisas que tornam esta vida desejável”. (C. S. Lewis)

O cavalheiro não é um compromisso entre a ferocidade e a mansidão. O cavalheiro é aquele que sabe pelo contexto quando deve ser sumamente feroz e quando deve ser sumamente manso. O cavalheiro é aquele que tem seus pensamentos, sentimentos e comportamentos sob controle, e não aquele cujos pensamentos, sentimentos e comportamentos o controlam.

O inferno

A pessoa está psicologicamente no inferno quando se encontra totalmente fechada em seu próprio eu, de modo que nem Deus nem ninguém pode entrar ou tirá-la de lá. Como disse Lewis na voz de Aslan, o leão-protótipo de Cristo: “[Essas pessoas] não deixam que as ajudemos pois escolheram a astúcia ao invés da fé. A prisão existe somente em suas mentes e, no entanto, estão verdadeiramente fechadas nelas”. Às vezes Lewis substitui astúcia por orgulho ou soberba.

A força do orgulho é tão brutal, tão intensa, que ela é capaz de aplacar outros vícios em prol de sua glória. Há certos vícios que superamos porque julgamos que “não somos dignos deles” e, pela força do orgulho, os transformamos em algo pior. O orgulho não é um vício meramente carnal, mas espiritual. A “usina de força” do orgulho é negar nossa dependência de Deus e dos demais homens. O eu cresce a tal ponto que impede que nos enriqueçamos com as outras pessoas. Afinal, sair de nós mesmos é a principal tarefa da vida.

A saída do orgulho é alargar o horizonte cultural. Não que a literatura, a filosofia e a psicologia sejam, em si, garantia do que quer que seja, mas a pessoa melhor cultivada vê aumentadas suas chances de reconhecer que a realidade é no mínimo muito excêntrica, e que, longe do que supunha, pouca coisa está realmente resolvida. A verdade última, ao invés de parecer algo remoto e fantástico, entra no campo da estranheza e, dessa forma, abre-se um caminho possível para que a fé possa trilhar. Uma genuína experiência literária pode ser uma saída para o soberbo, o astuto, o “esperto”, o orgulhoso.

Fonte: Manfred Svensson, Más allá de la sensatez, Editorial CLIE, Barcelona, Espanha, 2011.

25 de março de 2024

Trechos selecionados de C. S. Lewis sobre os Salmos


Por que às vezes um colega lhe explica melhor a matéria do que o próprio professor?

O colega de classe pode ajudar mais do que o professor porque sabe menos. A dificuldade que queremos que ele nos explique é a mesma com a qual ele teve de lidar recentemente. O especialista a superou há tanto tempo que já se esqueceu. Ele agora vê o assunto de uma maneira mais genérica e sob uma luz tão diferente que não consegue perceber o que está verdadeiramente inquietando o aluno; enxerga dezenas de outras dificuldades, menos a que realmente perturba o estudante.

A imagem cristã de justiça é perfeita. Mas a imagem judaica, embora humana, é muito útil também. Ninguém é bom ante a justiça divina. Mas também ninguém é bom ante a justiça humana.

Acho que há razões muito boas para considerar a imagem cristã do juízo de Deus como muito mais profunda e muito mais segura para nossas almas do que a judaica. Mas isso não significa que a concepção judaica deva ser simplesmente descartada. Eu, pelo menos, acredito que ainda posso alimentar-me bem dela.

Ela complementa a imagem cristã de uma forma muito importante, pois o que nos amedronta na imagem cristã é a pureza infinita do padrão a partir do qual nossas ações serão julgadas. Sabemos, porém, que nenhum de nós jamais se aproximará desse padrão. Estamos todos no mesmo barco. Devemos todos concentrar as nossas esperanças na misericórdia de Des e na obra de Cristo, não em nossa bondade. A imagem judaica de uma ação civil, por sua vez, nos lembra claramente que talvez estejamos em falta não somente em relação aos padrões divinos (o que é óbvio), mas também a um padrão absolutamente humano que todas as pessoas lógicas reconhecem e que nós, em geral, desejamos impor sobre os outros. É quase certo que haja demandas não satisfeitas, demandas humanas, contra cada um de nós; afinal, quem seria capaz de acreditar que, em meio a tantas relações entre empregadores e empregados, marido e mulher, pais e filhos, entre querelas e colaborações, tenha sempre agido (excluindo-se os atos de caridade ou generosidade) com absoluta honestidade e justiça? É claro que esquecemos a maioria das injustiças que cometemos. As partes injustiçadas, no entanto, não esquecem, mesmo quando perdoam. E Deus não esquece. E mesmo o pouco que conseguimos lembrar é terrível o bastante. Poucos de nós temos, em plena medida, dado a nossos alunos, pacientes ou clientes (ou como quer que chamemos nossos “consumidores”) aquilo que recebemos. Nem sempre cumprimos com a justa parte que nos cabe em algum trabalho cansativo quando encontramos um colega ou parceiro que possa ser enganado a fim de carregar todo o fardo.

Quanto mais elevado intelectual e espiritualmente, maior o potencial para a perversidade e impiedade. Quanto mais próximo de Deus, maior o pecado. Por outro lado, a suposta inocência das pessoas ignorantes e carnais deve ser encarada com muita cautela.

Parece haver, no universo moral, uma regra geral que pode ser formulada da seguinte maneira: “Quanto mais alto se é, mais perigo se corre”. O “homem sensual comum”, eventualmente infiel à esposa, que às vezes fica embriagado e é sempre um pouco egoísta, que de vez em quanto (mesmo sem desrespeitar a lei) se revela leviano em relação aos seus ideais, certamente é, de acordo com os padrões comuns, um tipo “inferior” se comparado ao homem cuja alma está ocupada com alguma grande causa, à qual ele submeterá seus prazeres, sua riqueza e até mesmo sua segurança. Mas é o segundo homem que pode verdadeiramente fazer algo perverso – um membro da Inquisição ou do Comitê de Segurança Pública. São os grandes homens, os potenciais santos – e não os homenzinhos comuns – que se tornam fanáticos impiedosos. Os que estão mais bem preparados para morrer por uma causa podem facilmente se tornar os que estão mais preparados para matar por ela. Observa-se o mesmo princípio em ação em um campo (comparativamente) tão irrelevante como a crítica literária; a obra mais brutal, o mais irritante entre todos os críticos, odiado por quase todos os autores, talvez seja o mais honesto e desinteressado, o homem que se importa mais apaixonada e abnegadamente com a literatura. Quanto mais alta a aposta, maior a tentação de entregar-se ao jogo. Não devemos sobrevalorizar a relativa inocência das pessoas pequenas, sensuais e frívolas. Elas não estão acima, mas abaixo de algumas tentações.

[...]

Os judeus pecaram mais do que os pagãos, não porque estivesses mais longe de Deus, mas porque estavam mais próximos dele. Pois o sobrenatural, quando adentra uma alma humana, faz com que ela se abra para novas possibilidades do bem e do mal. A partir desse ponto, a estrada se divide em duas: um caminho para a santidade, o amor, a humildade, e o outro para o orgulho espiritual, a hipocrisia, o zelo perseguidor. E não há caminho de volta para as virtudes e os vícios triviais de uma alma adormecida. Se o chamado divino não nos tornar melhores, nos tornará muito piores. De todos os homens maus, os homens maus religiosos são os piores. De todos os seres criados, o mais maldoso é aquele que originalmente ficava na presença do próprio Deus. Parece não haver saída para isso.

Esvaziar a natureza (trovão, planetas etc.) de divindade a torna mais, e não menos, divina. Adorar a natureza a priva de seu caráter divino, ao contrário do que se poderia supor.

[E]mbora sutil, é significativa a diferença entre ouvir no trovão a voz de Deus ou a voz de um deus. Como vimos, mesmo nos mitos de criação, os deuses têm uma origem. A maioria deles tinha pais e mães, e nós frequentemente sabemos quais foram seus locais de nascimento. Não é uma questão de autoexistência ou de eternidade. A existência lhes é imposta, como a nós, por causas precedentes. Eles são, como nós, criaturas ou produtos, embora sejam mais afortunados que nós por serem mais fortes, mais belos e imortais. Como nós, eles são os atores do drama cósmico, e não seus autores. Platão compreendeu isso plenamente. Seu Deus cria os deuses e os preserva da morte por seu poder, então a imortalidade não é inerente a eles. Em outras palavras, a diferença entre acreditar em Deus e em muitos deuses não é uma questão puramente aritmética. Como já foi dito por alguém, a palavra “deuses” não é efetivamente o plural de Deus, pois Deus não tem plural. Assim, quando ouvimos a voz de um deus no trovão, assustamo-nos, pois a voz de um deus não é, em verdade, uma voz do além-mundo, do incriado. Vamos ainda mais longe quando abstraímos a voz desse deus – ou quando imaginamos esse deus como um anjo, como um servo do outro Deus. O trovão torna-se não menos, e sim mais divino. Ao esvaziar a natureza de um teor de divindade – ou, melhor ainda, das divindades – nós a associamos à deidade e ela passa a ser, então, a portadora das mensagens. Há um sentido no qual a adoração à natureza a silencia – como se uma criança ou um selvagem ficassem tão impressionados com o uniforme do carteiro que deixassem de receber as cartas.

Prestar louvor, agradecer e elogiar são atos típicos de pessoas humildes, equilibradas e capazes. Quem elogia e agradece pouco ou com dificuldade são pessoas potencialmente desajustadas.

Nunca havia notado que toda apreciação transborda espontaneamente em forma de louvor a não ser que (a às vezes até mesmo se) a timidez ou o medo de incomodar os outros forem deliberadamente evocados. O mundo está cercado de louvor: amantes elogiam seus amados e suas amadas; os leitores elogiam seu poeta preferido; os caminhantes elogiam o campo; os jogadores elogiam seus jogos favoritos; há o louvor ao clima, aos vinhos, às louças, aos atores, aos carros, aos cavalos, às faculdades, aos países, a personagens históricos, a crianças, flores, montanhas, selos e insetos raros e, às vezes, até mesmo a políticos e estudiosos. Eu não havia notado como as mentes mais humildes e, ao mesmo tempo, mais equilibradas e capazes prestavam mais louvores, enquanto as excêntricas, desajustadas e descontentes elogiavam menos. [...] Exceto onde as circunstâncias intoleravelmente adversas interferem, o louvor parece quase ser uma manifestação de saúde interior.

[...]

Penso que temos prazer em louvar o que apreciamos porque o louvor não somente expressa como também complementa a apreciação; ele é a própria consumação dessa apreciação. Quando amantes continuamente dizem um ao outro o quão belo ele (ou ela) é, não o fazem apenas por dever; o prazer é incompleto até que seja expresso.

Fonte: C. S. Lewis, Lendo os Salmos, Editora Ultimato, Viçosa, Brasil, 2015.

2 de outubro de 2022

Os seis amores


Antes de versarmos sobre os quatro (na verdade, seis) amores, é importante desde o início mencionar que Lewis identifica nos amores três elementos:

(a) Amor-doação: é o amor propriamente dito, em sua forma mais pura. É por exemplo o amor de Deus aos homens, um amor totalmente desinteressado, sem trocas, sem barganhas.

(b) Amor-necessidade: é o amor exercido sob o impulso de algum desejo subjacente. Há um interesse, uma intenção, por trás do ato de amor. É por exemplo o amor dos homens a Deus: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos" (Novo Testamento) ou "abre bem a tua boca, e ta encherei" (Velho Testamento). O amor-necessidade se manifesta de duas maneiras:

* por semelhança: no exemplo do amor dos homens a Deus trata-se da racionalidade, da grandeza, da fecundidade humanas. Os amores humanos se exercem por semelhança. Eles imageam o amor divino, e por isso mesmo caso se tornem deuses em si se tornarão imediatamente em demônios.

* por aproximação: trata-se da união, da visão, da contemplação de Deus.

(c) Amor-apreciação: é o amor resultante da impressão de que objetos, situações, cenários, grupos, instituições etc. devam existir em si e por si, de que lhes temos uma dívida a saldar, de que lhes devemos homenagear mantendo-os vivos e ativos. O amor a uma obra de arte, por exemplo.

Esses três elementos não existem de maneira isolada. Eles se sucedem um ao outro. Por exemplo, um homem pode amar uma mulher a ponto de não conseguir viver sem ela (necessidade), a ponto de querer provê-la de alegria, conforto, proteção, riqueza (doação), e a ponto de admirá-la enquanto pessoa, de agradecer pelo simples fato de tal pessoa existir (apreciação).

1. Amor sub-humano

Às vezes nos referimos às coisas que nos dão prazer (às coisas que "gostamos") como se as amássemos. "Amo batata frita", por exemplo. É certamente um uso pouco exigente da linguagem. No entanto, em linhas gerais, podems identificar dois tipos de prazer: 

(a) prazer-necessidade: tomamos um copo d'água por necessidade, mesmo que sintamos prazer nesse ato. Uma vez atendida a necessidade (ou "desejo", se quiser), cessa o prazer.

(b) prazer-apreciação: passamos em frente a uma floricultura e sentimos o agradável perfume das flores. Isso nos dá prazer a despeito de não haver uma necessidade (ou "desejo") precedente. No entanto, aqui, além de não haver uma necessidade que "empurre" o prazer, há um senso de gratificação, de remuneração, que "puxa" o prazr e lhe concede uma espécie de direito de existir. Em suma, se há prazeres que existem por cruda necessidade, há prazeres que sentimos que lhes devemos o direito de existir.

Uma vez compreendido o prazer-apreciação (que evidentemente está relacionado ao amor-apreciação mencionado acima), Lewis se concentra nos dois principais amores sub-humanos:

(I) Amor à natureza: os amantes da natureza não estão procupados com os elementos individuais da natureza (flores, árvores, animais), mas é o "estado de espírito" ou "ânimo" que a natureza lhe proporciona. O perigo aqui, o "demönio", é o espírito do botânico profissional, que, pelo contrário, se ocupa dos elementos específicos e quantitativos da natureza.

(II) Amor à patria: esse amor se manifesta como amor ao entorno, ao bairro, aos velhos conhecidos, às paisagens familiares, ao passado da cidade/província/país, às estórias heróicas da formação do país. Assim como o convívio fmiliar é um passo para romper parte do egoísmo do idivíduo, o convívio nacional é um passo para romper parte do egoísmo familiar. O perigo aqui, o "demönio", é o espírito do historiador profissional, que enaltece os elementos negativos da formação e desenvlvimento do pais e nivela moralmente os fatos, o racista/ultranacionalista, que nega a dignidade de outros povos/países, e o cínico, que rejeita completamente o sentimento de patriotismo para com seu país movido por um senso ético distorcido, exagerado, como se as causas de seu país devessem ter o status de causas divinas.

2. Amor da afeição (storge)

A afeição (ou "empatia" como diríamos hoje em dia) é de longe o mais humilde, o mais furtivo e o mais difundido dos amores. É uma espécie de "amor democrático", no sentido de que é um amor cuja expressão não apenas se deseja, mas se espera, que seja encontrado em praticamente qualquer ambiente que se frequente. A afeição é aquele amor no qual há uma espécie de satisfação em estar junto. Simples assim. Praticamente qualquer pessoa pode ser objeto de afeição. Na verdade, nem mesmo é necessária uma afinidade prévia para seu exercicio, ou seja, não é necessário que as pessoas "se combinem" física ou psicologicamente para que a afeição entre elas desperte. Não há barreiras etárias, sexuais, educacionais, econômicas. Nem mesmo entre espécies, já que aqui se encontra também a afeição do homem por um animal e vice-versa. 

Há, no entanto, um traço que necessita estar presente na relação afetiva: o fato de que as partes têm de compartilhar certa familiaridade, certa intimidade. É curioso como aqui entram coleguismos e camaradagens entre pessoas as mais insuspeitas: pessoas que à distância jamais se combinariam se veem ligadas afetivamente de maneira quase cômica.

A afeição, assim como os demais amores, apresenta o elemento de amor-necessidade. É mais ou menos intuitivo que a amizade e o amor erótico exijam certo mérito, certo esforço, para serem mantidos. A afeição também, mas ocorre que sua presença é tão generalizada que por vezes as pessoas querem que esteja presente, como se fosse algo natural. Não é bem assim. Esperar que o afeto desperte é razoável, mas presumir que temos o direito de que desperte é estupidez. Se não há normalidade e tolerância entre as pessoas a relação se transformará em aversão exatamente com a mesma naturalidade e velocidade da afeição. Traços de incivilidade, de afirmações dogmáticas, de contradições, de ridicularizações, de referências insultuosas: a ideia de que o afeto tudo suporta, que a intimidade tudo permite, parece tão verdadeira, mas é falsa. Um erro crasso, fatal. 

Ocorre que a regra fundamental do convívio público -- todos somos iguais, ninguém tem prioridade ou superioridade sobre os demais -- é deixada de lado no ambiente privado. Mas é precisamente o contrário que deve acontecer. Embora as formalidades não existam no âmbito privado, isso não significa que a regra fundamental do convívio possa ser igualmente dispensada. As formalidades existem precisamente porque não existe um nível profundo, sutil e sensível de cortesia entre as partes. No ambiente privado, as boas maneiras devem ser ainda mais observadas exatamente porque os rituais da formalidade estão ausentes. Quem não é cortês em casa também não é cortês em público: a pessoa macaqueia a cortesia em público, mas não a exerce realmente.

Outro aspecto curioso da afeição é o ciúme que porventura surge quando uma das partes rompe a familiaridade. Dois amigos, por exemplo, podem ter seu laço de afeição rompido, ou perturbado, se um deles se interessa por algo novo, por um esporte, religião, hobby, plano, filosofia etc. novo. O outro, por ciúmes, tenderá a ridicularizar o novo interesse.

E quanto ao elemento amor-doação? Ele está presente na afeição? Aparentemente sim, mas não exatamente. Pensemos no amor maternal. Dar à luz, dar de mamar, dar atenção...tudo remete a doação. Mas observe que se a doação não for feita haverá consequências graves à mãe e ao bebê. O que há na verdade é uma necessidade de doação e, ao fim e ao cabo, uma necessidade de ser necessário. De qualquer forma, esse elemento do "precisar ser precisado" pode ser perfeitamente pervertido e transformar-se num demônio. É o caso da mãe que seguidamente cuida da família, que cozinha quado não é necessário, que limpa quando não é necessário, que cuida da saúde dos filhos quando não é necessário. E por que o faz? Porque o que está por trás do instinto de doação não é a doação em si, mas a necessidade de doar. A doação deve ocorrer até que se torne supérflua, até que deva ser abdicado. O mesmo pode ocorrer na relação professor-aluno, chefe-empregado, dono-cão. 

O elemento doação do afeto pode invalidar o objeto do amor. O afeto só produz felicidade em meio ao bom-senso, à racionalidade, à decência. A mãe que supercuida é a mãe que se compraz no sofrimento que sente a despeito do bem-estar alheio. A justiça deve regular o afeto sob pena de tornar-se um demônio.

3. Amor da amizade (philia)

Muitos confundem o companheirismo com a amizade. O companheirismo, a camaradagem, o convívio no sentido mais amplo da palavra, é fruto da afeição. O companheirismo, é verdade, é a matriz a partir da qual surge a amizade, mas cabe que não as confundamos. 

A amizade é o menos natural dos amores, ou seja, a raça humna, biologicamente falando, não a necessita para sobreviver. A amizade é um relacionamento estabelecido por livre escolha, no qual impera um ambiente racional, tranquilo, luminoso. É uma relação humana do mais alto grau de individualidade. Ela surge quando duas pessoas, em geral dois homens ou duas mulheres, descobrem que compartilham um insight, um interese, um gosto, uma visao, em comum. É o momento que dizem: "O quê?! Quer dizer que você também pensa assim? Eu achava que só eu pensava assim", ou "Você vê a mesma verdade que eu vejo? Você se importa com essa mesma verdade que vemos?" Neste instante se estabelece uma imensa solidão entre eles. É como se houvesse uma união intelectual que, ao mesmo tempo que é uma união, é uma exclusão dos demais.

Se o companheirismo tem a ver com fazer algo juntos, a amizade tem a ver com fazer algo imaterial, intangível, insubstancial, juntos. É como se estivessem percorrendo um caminho secreto. Pouco importa os detalhes da vida pessoal, se são casados, solteiros, onde trabalham, onde estudaram, quantos filhos têm ou não têm etc. O que importa é percorrer a estrada juntos. Esse efeito "bolha" da amizade pode despertar naqueles que não pertencem à bolha, ou naqueles que desconhecem o amor da amizade, um sentimento de inveja, ou seja, um desejo de que a bolha seja destruída.

O que acontece quando um homem e uma mulher se tornam amigos? É quase certo que a amizade evoluirá para um relacionamento amoroso. Isso pode ocorrer até mesmo em questão de minutos. Na verdade, se não houver nenhum fator físico, nenhuma repulsa moral, que impeça o surgimento do amor romântico, é praticamente inevitável que ocorra. E vice-versa: o amor romântco pode facilmente despertar a amizade entre o casal.

O elemento mais característico da amizade é o amor-apreciação. Da amizade surgem o respeito, a admiração, a confiança, e tais sentimentos, como dissemos acima, são a base para o desejo de que os objetos do amor, no caso o amigo, simplesmente permaneçam, simplesmente existam em si e por si. O amigo passa a deter uma espécie de "direito de existir".

Mas há perigos na amizade, há um risco de que ela se transforme num demônio. Ocorre que o elemento excludente da amizade é forçosamente negativo: se minha amizade está assentada sobre certa visão sobre uma questão filosófica, por exemplo, então seremos indiferentes a uma visão alternativa a essa questão. O perigo está em que essa indiferença no varejo se transforme em indiferença no atacado. Em outras palavras, o círculo de amizade pode se transformar numa espécie de "classe" cujo combustível é o senso de superioridade em relação a quem está do lado de fora. O problema está na migração, ou exacerbação, do senso de superioridade. Não são só nossas ideias, ou tipo artístico, ou visão de mundo, ou estilo musical, que são superiores. Nós somos superiores. A amizade não mais se assenta sobre um tema ou visão que a delimita, mas se assenta na própria exclusão em si, no próprio orgulho em pertencer a essa classe de pessoas superiores.

A amizade é um amor espiritual, quase angelical. O antídoto para esse demônio deverá ser também espiritual: a humildade. A amizade parece ter sido um ato de escolha. Não foi. Deus usa a amizade como instrumento para que admirem um no outro suas belezas.

4. Amor romântico (eros)

O amor romântico, também chamado de amor erótico, é o estado de estar apaixonado. O que normalmente ocorre é o amante começar a desenvolver certa preocupação com a amada, algo ainda leve, um tanto esporádico. Não se trata, no entanto, de uma preocupação com algum aspecto ou circunstância sobre a amada, mas uma preocupação com a pessoa em si, em sua totalidade. Neste estado, o que o amante quer, acima de tudo, é simplesmente pensar na amada.

Há um momento, no entanto, em que o amor romântico efetivamente irrompe e, como um invasor, trata de reorganizar todo a vida interior do amado de maneira a orientá-la à amada. O amante deseja a amada, a pessoa em si, não o prazer que eventualmente ela pode provê-lo. Observa-se claramente aqui que o amor romântico não porta o elemento do amor-necessidade, mas do amor-apreciação. O prazer sexual é apenas um subproduto da relação romântica, um efeito colateral, digamos. Na verdade, a abstinência sexual é mais fácil de ser cumprida no estado de estar apaixonado, sem que, no entanto, o desejo sexual em si seja diminuído.

Está claro que o amor romântico não almeja o prazer sexual, mas não esta tão claro que ele tampouco almeja a felicidade. Prova disso é que mesmo os amantes que entendem racionalmente que seu relacionamento será um fracasso, que seu casamento será infeliz, preferem estar juntos e infelizes do que separados e felizes.

O amor romântico se transforma em deus, e portanto num demônio, quando seu alcance extrapola os limits do bom-senso e da decência e adentra o território dos crimes passionais, suicídios, perseguições, assassinatos, desprezo aos próprios pais, filhos, traições, infidelidades a amigos etc. É o amor romântico exigindo sua existência a todo custo. É o amor romântico que se transformou numa cláusula pétrea, numa religião.

Outro aspecto demoníaco do amor romântico é imaginar que tem de durar para sempre enquanto o casal estiver junto. É claro que isso não vai acontcer: os egos do casal furtivamente voltarão a manifestar-se. E logo descobrirão que o mero sentimento não é suficiente para sustentar a relação, que deverão trabalhar de maeir diligente e intencionalmente para manter vivo parte daquilo que o amor romântico lhes havia mostrado.

5. Amor transcendente (agape)

Os amores naturais que elencamos até agora não são autosuficientes. Em geral diz-se que para exercitarmos os amores naturais devemos acrescentar algo de "bom-senso" neles. Pois este bom-senso nada mais é do que o amor transcendente da caridade (não tem necessariamente a ver com filantropia, com "fazer caridade"), o amor a Deus. Assim como Deus criou o Jardim e posicionou o homem entre Ele e esse Jardim, assim também Deus plantou os amores naturais no homem e posicionou o amor a Deus entre Si e esses amores naturais. De pouco ou nada servem se não estivrem moldados e de certa forma enquadrados dentro do amor transcendente a Deus.

Algumas pessoas, preocupadas com o devido exercício do amor a Deus, concluem que os amores naturais não apenas não contribuem como rivalizam com esse amor transcendente. Trata-se evidentemente de um exagero, de um zelo desmedido e farisaico. ou, na melhor das hipóteses, de um medo de correr o risco de amar travestido de cálculo racional. Basta uma simples e honesta reflexão sobre meus próprios sentimentos para concluir que a verdadeira rivalidade reside muito mais entre meu ego e o ego alheio, entre minha auto-imagem e meus semelhantes, entre meu orgulho e o próximo. Sim, claro, há também a rivalidade entre o ego humano e Deus. Mas, convenhamos, há muito mais que se corrigir antes que possamos nos dar ao luxo de debruçarmos sobre a oposição ego-Deus. Quem sou eu para invocar tal rivalidade quando sou incapaz de transmitir os amores mais humanos e naturais?

Por outro lado, há aqueles que preferem não amar seus semelhantes, seja desenvolvendo uma simples empatia (afeição), seja uma amizade ou amar uma mulher, porque não querem correr o risco de se sentirem frustrados ou de se frustrarem de novo. A ideia de substituir os amores humanos pelo amor a Deus é tola porque supõe que possamos entregar a Deus um coração íntegro, inteiro, conservado. Ora, exercitar o amr a Deus implica precisamente em entregar seu coração partido a Deus. Se no exercício dos amores humanos seu coração partiu, e ele vai partir, que seja. É exatamente isso que você deve entregar a Deus. Quando Jesus Cristo diz que devemos odiar pai e mãe etc., o contexto é odiá-los quando eles rivalizam ou bloqueiam o amor a Deus. A ideia não é "um ou outro", mas "um e outro".

Deus implantou nos homens, dizíamos, os amores naturais. Mas também implantou em nós dois dons, ou capacidades, que não são naturais, ou pelo menos não são explicáveis do ponto de vista puramente individual, egocêntrico. Dissemos que o amor de uma mãe pelo seu bebê contém o elemento amor-doação. Bem, mais ou menos. Além de ser necessário amá-lo para que não sofra e, pior, não morra, o bebê é em si mesmo um objeto amável, ou seja, porta em si certos traços que o tornam amável: doçura, inocência, purea, beleza etc. Ou seja, o amor-doação não é tão doação assim. Ocorre que há certas instâncias em que o exercício do amor parece ser puramente doação. É o caso, por exemplo, dos objetos que não são nada amáveis em si: leprosos, doentes, estúpidos, criminosos, inimigos, miseráveis etc. Segundo Lewis, esses dons, esses exercícios de amor, essas caridades, não são naturais, mas são fruto da energia divina. E mais: o amor dos homens a Deus tampouco é natural e também provém, paradoxalmente, das energias divinas. Somos levados por Deus a amá-Lo. Curioso.

Há ainda um elemento adicional no amor transcendente: Deus implantou nos homens a necessidade de nos amarmos mutuamente. E outras palavras, o próprio amor, em si e por si, é uma necessidade. Se não amamos, sofremos, seja um sofrimento pontual, seja um sofrimento crônico e difuso. E mais: os homens também precisam, têm necessidade, de amar a Deus. Não se trata portanto de mera doação, mas de uma necessidade também. Amamos nossos pais, esposas, amigos, não apenas porque são amáveis, mas porque o Amor está neles.

É no exercício dos amores naturais e transcendentes que, por semelhança, reconhecemos a Jesus Cristo. Quando nos encontrarmos com Ele face a face, com o Amor, seremos capazes de responder positivamente à Sua presença porque esse Amor já havíamos encontrado antes, embora de forma semelhante apenas. Ele nos será algo um tanto familiar, um convívio que já existia de certa forma. Observa a importância e a gravidade de amarmos ao próximo como a nós mesmos.

6. Amor divino (theosis)

Aqui não há semelhança, mas aproximação. Aqui não há necessidade nem doação, mas apreciação pura e simples. Aqui não há se exercita o amor, mas se é o Amor. Aqui não há dois, amante e Amado, mas dois-em-um. Eis o objetivo da vida humana e da vida angélica, eis o centro e sentido último de nossa existência. É a união com Deus.

Lewis praticamente nada versa sobre este amor. Se sente incapaz de fazê-lo. É compreensível.

Fonte: C.S. Lewis, The Four Loves, HarperCollins Publisher, San Francisco, EUA, 2017.

6 de fevereiro de 2014

Luto


Ninguém me disse que o luto se parecia tanto com o medo. Não estou com medo, mas a sensação é a mesma. [...] Quando falo do medo, quero referir-me ao medo puramente animal, ao recuo do organismo diante da possível destruição, ao sentimento asfixiante, à sensação de ser um rato numa ratoeira. Esse sentimento é intrasferível. A mente pode até compreender; já o corpo menos. (p. 29 e 37).

No momento seguinte [ao golpe repentino de lembranças acaloradas], passa-se às lágrimas e à autopiedade. Lágrimas piegas. Quase prefiro os momentos de agonia. Pelo menos, eles são puros e honestos; mas o banho de autopiedade, o afundar-se nela, o prazer repugnante de entregar-se a ela – isso me enoja. Se eu der rédea solta e esse estado de espírito, em poucos minutos terei substituído a mulher real [Joy Davidman, a recém-falecida esposa de C. S. Lewis] por uma simples boneca pela qual vou chorar desesperadamente. (p. 30).

Enquanto isso, onde está Deus? Esse é um dos sintomas mais inquietantes. Quando você está feliz, muito feliz, não faz nenhuma ideia de vir a necessitar dEle, tão feliz, que se vê tentado a sentir suas reivindicações como uma interrupção; se se lembrar e voltar a Ele com gratidão e louvor, você será – ou assim parece – recebido de braços abertos. Mas, volte-se para Ele, quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio. Bem que você poderia dar as costas e ir embora. Quanto mais espera, mais enfático o silêncio se torna. Não há luzes nas janelas. Talvez seja uma casa vazia. Será que, algum dia, chegou a ser habitada? Assim pareceu, certa vez. E essa semelhança era tão forte quanto agora. O que isso pode significar? Por que em tempos prósperos Ele mais parece um comandante e em tempos conturbados Sua ajuda é tão ausente?

Não que eu esteja (suponho) correndo o risco de deixar de acreditar em Deus. O perigo real é o de vir a acreditar em coisas tão horríveis sobre Ele. A conclusão a que tenho horror de chegar não é “então, apesar de tudo, Deus não existe”, mas “então é assim que Deus é realmente. Não se iluda”. (p. 31-32).

É difícil ter paciência com pessoas que dizem: “A morte não existe”, ou “A morte não importa”. A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece tem consequências, e tanto a morte quanto as consequências são irrevogáveis e irreversíveis. Você pode, do mesmo modo, dizer que o nascimento não importa. Ao olhar para o céu noturno, pergunto-me se há algo mais certo do que isto. Em todos os tempos e espaços, se me fosse dado sondá-los, não encontraria em lugar algum o rosto dela, sua voz, seu toque. Ela morreu. Está morta. Será que a palavra é tão difícil de se aprender?

Não tenho nenhuma boa fotografia dela. Não posso sequer lhe ver o rosto claramente em minha imaginação. Não resta dúvida: a explicação é por demais simples. Vimos o rosto dos que mais conhecemos de modo tão variado, de tantos ângulos, sob tantas luzes, com expressões tão diversas – acordando, dormindo, rindo, chorando, comendo, conversando, pensando –, que todas as impressões preenchem nossa memória ao mesmo tempo e se anulam num simples borrão; mas sua voz ainda é vívida. A voz lembrada – que é capaz de transformar-me a qualquer momento num menino chorão. (p.39).

Fala-me acerca da verdade da religião e ouvirei de bom grado. Fale-me acerca do dever da religião e ouvirei resignadamente; mas não me venha falar sobre as formas de consolo que a religião fornece, caso contrário desconfiarei que você não sabe do que está falando.

A não ser, claro, que você seja daqueles que acreditam literalmente em tudo que se diz nas reuniões típicas de família a respeito “do outro lado do rio”, retratando uma perspectiva completamente irreal e terrena; mas nada disso é bíblico e não passa de hinos e litografias ruins. Não há na Bíblia uma palavra sequer sobre o mundo vindouro. Além disso, soa falso. Sabemos que não poderia ser assim. A realidade nunca se repete. Não existe nada que seja tirado de nós e, depois, é-nos devolvido do mesmo jeito que se apresentava. Como os espíritas sabem fisgar as pessoas! “As coisas deste lado não são tão diferentes, afinal de contas”. Há charutos no Céu. Pois é isso que todos nós apreciaremos. Um passado feliz reconquistado.

E é por isso, só por isso, que grito, enlouquecido, no meio da madrugada, lançando súplicas vazias no ar.

E o pobre C. [um conhecido de Lewis] faz-me a seguinte citação: “(...) não se entristeçam como os outros que não têm esperança.” (I Ts 4:13). Espanta-me o modo pelo qual somos convidados a pôr em prática palavras endereçadas de maneira tão óbvia aos que são superiores a nós. O que o Apóstolo Paulo diz só pode consolar os que amam a Deus mais do que aos mortos, e aos mortos mais do que a si mesmos. Se uma mãe se lamenta não por aquilo que ela perdeu, mas por aquilo que seu filho morto perdeu, é um consolo acreditar que o filho não perdeu o objetivo para o qual foi criado. E é um consolo acreditar que ela mesma, ao perder sua principal ou única felicidade natural, não perdeu algo maior – que ela ainda pode esperar “glorificar a Deus e usufruí-lo para sempre”. Um consolo para o espírito voltado para Deus, espírito eterno que há dentro dela. Mas não para sua condição de mãe. A felicidade propriamente materna deve ser anulada. Nunca, em nenhum lugar, em tempo algum, ela terá o filho em seu colo, nem lhe dará um banho, nem lhe contará uma história, nem fará planos para o seu futuro, tampouco verá o filho de seu filho.

Dizem-me que H. [Joy Davidman] agora é feliz, que está em paz. O que faz essas pessoas terem tanta certeza disso? Como essas pessoas têm tanta certeza de que toda a angústia termina com a morte? Mais da metade do mundo cristão e milhões no Oriente têm uma crença diferente. Como podem saber que ela está agora “descansando”? Por que deveria a separação (se nada mais o puder), que tanto angustia a pessoa que ama e ficou para trás, ser indolor para a pessoa a quem amou e agora parte?

“Porque ela está nas mãos de Deus”; mas, se assim for, ela estava nas mãos de Deus durante todo o tempo, e vi o que lhe fizeram aqui. Será que de repente as pessoas se tornam mais gentis conosco no momento em que deixamos o corpo? E, se for dessa maneira, por quê? Se a bondade de Deus não é coerente com o ato de nos ferir, então, ou Deus não é bom, ou não há Deus algum: pois, na única vida que O conhecemos, Ele nos fere de um modo tal, além de nossos piores pavores, acima de tudo o que podemos imaginar. Se essa bondade for condizente com o ato de nos ferir, então Ele pode muito bem fazer isso depois da morte de maneira tão intolerável quanto antes dela. (p. 47-50).

Sentimentos, e sentimentos e sentimentos. Em vez disso, vamos tentar pensar. Do ponto de vista racional, que novo fato a morte de H. trouxe ao problema do universo? Que bases me concedeu para duvidar de tudo aquilo que acredito? Eu já sabia que essas coisas, e coisas piores, aconteciam diariamente. Eu teria dito que as havia levado em consideração. Eu fora alertado – eu alertara a mim mesmo – quanto a não contar com a felicidade terrena. Tínhamos, até mesmo, a promessa de sofrimentos. Eles faziam parte do programa. Até mesmo nos disseram: “Bem-aventurados os que choram...”,  e eu aceitava isso. Não há nada que eu não tivesse considerado. É claro que é diferente quando as coisas acontecem conosco, não com os outros, e na realidade, não na imaginação. Sim, mas deveria, para um homem são, fazer tanta diferença assim? Não, e não faria para um homem cuja fé houvesse sido a fé verdadeira, e cuja preocupação com as tristezas dos outros fosse preocupação real. O caso é muito comum. Se meu castelo ruiu com uma tacada, é porque era um castelo de cartas. A fé que “levou essas coisas em consideração” não era fé, mas imaginação. Levá-las em conta não era compaixão verdadeira. Se houvesse realmente me preocupado, como achei que havia, com as tristezas do mundo, não deveria estar tão assoberbado quando minha própria tristeza chegou. Foi uma fé imaginária, que jogava com fichas inofensivas, rotuladas de “Doença”, “Dor”, “Morte” e “Solidão”. Achei que havia confiado na corda até que se tornou importante saber se ela suportaria o meu peso. Agora que isso importa percebo que não confiava nela.

Jogadores de bridge explicam-me que deve haver um pouco de dinheiro no jogo “ou, então, as pessoas não vão levá-lo a sério”. Aparentemente é assim. Sua aposta – Deus ou nenhum Deus, um bom Deus ou o Sádico Cósmico, a vida eterna ou a não-entidade – não vai ser levada a sério se nela nada de valor estiver em jogo. E você nunca perceberá como ela era séria enquanto as apostas não estiverem muitíssimo altas, enquanto você não descobrir que está jogando não pelas fichas, nem pelos seis centavos, mas por todo centavo que há no mundo. Nada menos que isso abalará um homem – ou, pelo menos, um homem como eu – e seu pensamento puramente verbal e suas crenças meramente conceituais. O homem deve ficar fora do ar antes que recobre os sentidos. Só a tortura trará a verdade à luz. Só sob tortura é que o homem a descobrirá. (p. 58-59).

Quanto mais acreditamos que Deus fere apenas para curar, menos nos é dado crer que haja alguma utilidade em suplicar por ternura. Um homem cruel pode ser subornado – pode cansar-se de seu esporte imoral – pode ter um acesso temporário de bondade, como os alcoólatras têm acessos de sobriedade; mas suponha que aquilo com que você se bate seja um cirurgião cujas intenções são inteiramente boas. Quanto mais gentil e consciente ele for, mais impiedosamente prosseguirá cortando. Se ele desistir diante de suas súplicas, se ele se detiver antes que a operação chegue ao fim, toda a dor até àquele ponto terá sido inútil; porém é crível que semelhantes extremos de tortura sejam necessários? Bem, faça sua escolha. As torturas ocorrem. Se elas são desnecessárias, então não há Deus nenhum, tampouco um Deus mau. Se há um Deus bom, então essas torturas são necessárias. Pois nenhum Ser que fosse bom, mesmo de maneira comedida, provavelmente seria capaz de infligi-las ou de permiti-las caso elas não fossem necessárias.

Seja o que for, não há como escapar.

O que as pessoas querem dizer quando afirmam: “Não tenho medo de Deus porque sei que Ele é bom”? Será que nunca foram ao dentista? (p. 63-64).

Pode um mortal fazer perguntas que Deus não considera passíveis de resposta? Absolutamente, sim. Todas as perguntas sem sentido não são passíveis de resposta. Quantas horas há num quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? Provavelmente, metade das perguntas que fazemos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – pertencem a essa categoria. (p.85).

Fonte: A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação (A Grief Observed) – C. S. Lewis – Editora Vida – 2006 – São Paulo.

13 de janeiro de 2014

Analogias bíblicas vs. abstrações teológicas


As Escrituras não se dão ao menor trabalho de expor a doutrina da Impassibilidade Divina. Pelo contrário, somos constantemente levados a despertar a ira ou a piedade divina. Até mesmo “enlutado” deixamos Deus. Sim, eu sei que essa linguagem é analógica. Mas quando dissemos essas coisas não devemos achar que, no fundo, deveríamos jogar fora as analogias e manter apenas a verdade pura e literal. O máximo que conseguiremos é substituir as expressões analógicas por algumas abstrações teológicas. E o valor das abstrações é quase sempre negativo. Elas evitam que façamos extrapolações vulgares e tiremos conclusões absurdas das expressões analógicas. Por si só, a abstração “impassível” não nos leva a lugar nenhum. Na verdade, ela pode sugerir algo muito mais enganoso do que a mais ingênua das expressões de um Jeová emotivo e irado do Velho Testamento poderia sugerir. Ou sugere algo inerte, ou algo do tipo “Ato Puro” no sentido de que não se importa ou não toma ciência dos eventos do universo que criou. 

Sugiro aqui duas regras exegéticas: (1) nunca interprete as expressões literalmente; (2) quando o propósito das expressões – o que elas comunicam a nossos medos, esperanças, vontades e afeições – estiver em conflito com as abstrações teológicas, confie sempre nas expressões, nunca nas abstrações. O pensamento abstrato nada mais é do que um tecido de analogias: uma contínua modelagem de realidades espirituais em termos legais, químicos ou mecânicos. Ora, seriam essas abstrações mais adequadas do que as expressões sensuais, orgânicas e pessoais das Escrituras – luz e trevas, rio e poço, semente e colheita, mestre e escravo, galinha e pintinhos, pai e filho? As pegadas do divino são mais visíveis nesse solo rico do que em rochas ou entulhos. É por isso que a chamada “desmistificação” do Cristianismo é, na verdade, uma “remistificação” do Cristianismo – só que substituindo uma mitologia rica por outra mais pobre. As abstrações teológicas parecem menos ingênuas e antropomórficas do que as expressões das Escrituras. Na verdade, a única diferença é que nas abstrações o antropomorfismo está mais bem escondido e é de tipo muito mais danoso.

Fonte: C. S. Lewis, Letters to Malcolm, Harcourt, Inc., 1963, Orlando, EUA.

10 de janeiro de 2014

Partidas são sempre iguais; é a chegada ao destino que coroa o viajante


Há uma opinião que tem ganhado cada vez mais fama e que é extremamente plausível. Diz-se que místicos das mais diversas origens religiosas deparam-se com as mesmas coisas. Tais coisas têm pouco ou nada a ver com as doutrinas professadas por suas respectivas religiões – Cristianismo, Hinduísmo, Budismo, Neoplatonismo etc. Portanto, segue o argumento, o misticismo, por evidência empírica, é o único contato real que o homem já teve com o invisível. O fato dos exploradores concordarem em seus relatos é prova de que todos estiveram em contato com algo objetivo. É portanto a religião única e verdadeira. O que chamamos de “religião” nada mais é do que ilusões ou, na melhor das hipóteses, os diversos pórticos através das quais se pode adentrar à realidade transcendente.

Bem, tenho sérias dúvidas quanto a essas premissas. Teriam Plotino, Juliana de Norwich e São João da Cruz realmente deparado-se com “as mesmas coisas”? Mesmo que admitamos alguma similaridade. O que é comum a todos os misticismos é a interrupção temporária da consciência ordinária espaço-temporal e da razão discursiva. O valor da experiência negativa deve depender da natureza da positiva, seja ela qual for, a qual engendrou. Ora, mas a experiência negativa não deveria mesmo ser sentida sempre da mesma forma? Se os copos de vinho tivessem consciência suponho que estar vazio seria a mesma experiência a todos, mesmo que alguns já estivessem vazios, alguns cheios de veneno e outros quebrados no chão. Todo mundo que parte em uma viagem pelo mar vai “deparar-se com as mesmas coisas” – a terra sumindo no horizonte, o rastro de água atrás da embarcação, a brisa com aroma salgado. Turistas, comerciantes, pescadores, piratas, missionários – todos passam por isso. Mas essa experiência idêntica não confere absolutamente nada à utilidade, à legitimidade ou à finalidade de suas jornadas. A utilidade, a legitimidade e a finalidade da jornada mística em nada dependem do fato de ser mística – ou seja, do fato de ser uma partida --, mas dos motivos, técnicas e experiências do viajante, e da graça de Deus. Partidas são sempre iguais; é a chegada ao destino que coroa o viajante. O santo, por ser santo, prova que seu misticismo (se ele for místico; nem todos os santos o são) o levou ao destino certo; o fato de ter praticado o misticismo em nada prova sua santidade.

* * *

A nossa dificuldade em rezar é em boa parte explicada pelos pecados, conforme qualquer bom professor dirá; pela inevitável imersão nas coisas do mundo, pelo desprezo à disciplina mental. E pelo pior tipo de “temor a Deus”. Intimidamo-nos ante a perspectiva de um contato íntimo, pois tememos as exigências que nos serão impostas. Como dizia um velho escritor, tem muito cristão por aí que reza baixinho “para que Deus não o ouça, coisa que, coitado, não era mesmo sua intenção”. Mas os pecados – os pecados individuais e reais– talvez não sejam a única causa do fracasso na oração.

Pela própria constituição que a mente humana hoje possui – não importa como era quando Deus a concebeu – é difícil concentrar-se em algo que não é nem sensível (como batatas) nem abstrato (como números). Aquilo que é concreto mas imaterial só pode ser mentalmente concebido com muita dificuldade. (p. 114).


Fonte: C. S. Lewis, Letters to Malcolm, Harcourt, Inc., 1963, Orlando, EUA.