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28 de maio de 2025

O homem virtuoso não é bonzinho


Você é uma pessoa boa ou uma pessoa boazinha? Suas virtudes são conquistas pessoais ou são mera expressão de temperamentos inatos? Quando age com valor o faz somente em momentos pontuais ou o faz habitualmente? Você demonstra inteligência prática no trabalho, mas em casa assume outro caráter?

Antes de versarmos sobre as virtudes humanas (dentre as quais se incluem as famosas virtudes cardeais), vejamos algo sobre as virtudes teologais, pouco discutidas no ambiente psicológico porque não são adquiridas pelo homem, mas infundidas por Deus (embora tenham que ser exercitadas mesmo assim, ao contrário dos “dons do Espírito”, que são apenas recebidos com docilidade, tal como a metáfora do remo e da vela):

(a) : ver tudo com os olhos de Jesus Cristo, que tudo encaminha para nosso bem (Romanos 8:28), abraçando renúncias e abnegações em nome da santidade.

(b) esperança: a convicção de que nos espera o abraço eterno de Deus após a morte e, por isso, nos faz crescer a magnanimidade, a audácia e a humildade.

(c) caridade: é a fusão de amor de Deus com o amor ao próximo, fazendo-nos dar a nossa vida pelos nossos irmãos (1 João 3:16).

Quanto às virtudes em geral (aqui inclusas as cardeais), eis as 4 etapas de sua formação:

(1) olhos (sentidos): é quando guardamos a imagem das pessoas virtuosas que, com sua existência concreta, nos servem de exemplos vivos.

(2) coração (apetência sensível): ao ver as virtudes autênticas, o coração arde em desejo e admiração.

(3) cabeça (contemplação intelectual): a beleza do bem contemplado nos impele a refletir sobre as virtudes, a conhecê-las e aprofundá-las.

(4) vontade (apetência inteligível): é a decisão de viver, na prática, no dia a dia, as virtudes.

Observe a passagem dos sentidos para as paixões, destas para a inteligência, que capta o bem que há na ação virtuosa e, por fim, a vontade, que se apetece por este bem e o persegue. Eis, portanto, a diferença entre o bom e o bonzinho: no bom há uma deliberação, uma decisão consciente e voluntária de perseguir a virtude; no bonzinho há meros atos mecânicos, rotineiros, costumes, habituações, reações ao instinto de “ficar bem” perante os outros.

E como cumprir esse passo (4)? Eis as posturas necessárias:

(a) ter mente que a mortificação (esforço, sacrifício, “matar um mal”) é fundamental para combater a moleza, a gula, a sensualidade descontrolada, o mau-humor etc.

(b) fazer esforços cotidianos em pontos concretos.

(c) o que quer que seja feito tem de ser feito por amor, não por costume ou “voluntarismo”, ou seja, não por um desejo de provar a mim mesmo que sou capaz de fazer o que me proponho.

(d) acompanhar o processo, ou seja, não deixar o desenvolvimento das virtudes ao sabor da improvisação, mas fazer um exame constante para que a espontaneidade não desperte e, “de repente”, voltemos ao padrão anterior de pensamento e comportamento.

As virtudes cardeais

Prudência

Ser prudente significa apenas e tão-somente agir de modo pensado, racional. Como dizia o imperador bizantino Miguel II Paleólogo: “Não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus”. Ou como dizia Tomás de Aquino: “O homem prudente é lento na reflexão e rápido na execução”. É típico do prudente vencer o comodismo e o medo de que não dê certo e, por isso mesmo, não cair na “cautela medrosa”.

Justiça

Inicialmente, a virtude da justiça exige que tenhamos imenso respeito por todo e qualquer ser humano por ser ele imagem de Deus e, ademais, porque foi por ele que Jesus Cristo morreu e que está destinado à bem-aventurança eterna. Mas o fato é que desprezamos e zombamos das deficiências alheias e, pior ainda, de sua falta de categoria intelectual, profissional e social. Mas Deus não despreza ninguém.

Urge que vejamos os nossos defeitos, que não sem frequência são do mesmo tipo que nos incomodam ver nos outros. Condenar alguém com ódio e agressividade é anticristão. O justo é, quando possível ajudar e, se for o caso, corrigir. Lembre-se: há ladrões de carros, casas etc., mas o pior ladrão é aquele que rouba a reputação, a fama, a honra, o bom nome. As motivações vão desde o orgulho (“sou superior ao outro”) até a inveja (refúgio dos infecundos). As únicas razões objetivas para falar sobre o próximo são o bem público, o bem de uma pessoa inocente ou o bem próprio (como legítima defesa).

Observe aqui que a base da justiça é a veracidade, isto é, a virtude de ser verdadeiro no agir e no falar. Trata-se de um dever porque o homem deve a outro a manifestação da verdade. No entanto, isso não significa que devemos sempre dizer a verdade. Por quê? Porque ninguém é obrigado a revelar a verdade a quem não tem o direito de conhecê-la, ou seja, a quem faria um uso injusto e daninho da verdade e em quem provocaria uma dor ou um dano desnecessário.

Ademais, não há mentira quando não existe intenção de enganar, como as mentiras jocosas (brincadeiras, piadas) e as mentiras sociais (expressões inexatas que já não enganam ninguém). Note que dizer a verdade pode ferir gravemente a caridade, dependendo da intenção e do modo como é dita. Isso é comum entre aqueles que se consideram “muito sinceros”, que apenas o são para usar a verdade como arma para ferir.

Por fim, cabe mencionar que a verdade deve ser omitida para respeitar o direito à intimidade porque a intimidade, com deixa claro a palavra, é algo que não nos pertence.

Fortaleza

Entre as inúmeras fraquezas que podemos enfrentar, incluem-se: (1) fugir de ideais, tarefas e deveres porque são difíceis, (2) encolher-nos ante obstáculos, (3) medo do sacrifício, (4) medo do sofrimento, (5) acomodar-nos para não complicar a vida, (6) ser do tipo mole e frívolo, (7) achar que fez muito e cansar.

Combater essas fraquezas exige a conquista de três forças: (a) a força do ideal (motivo poderoso pelo qual valha a pena viver e morrer; o Amor, eis o grande ideal), (b) a segurança da fé (Mas Cristo disse-me: Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a minha força se revela totalmente (2 Cor 12:8-9), (c) a têmpera do sacrifício (é a mortificação da moleza sobre a qual versamos acima).

Não desprezes as pequenas coisas, porque, através do contínuo exercício de negar e negares-te a ti próprio, nessas coisas, fortalecerás, virilizarás, com a graça de Deus, a tua vontade, para seres, em primeiro lugar, inteiro senhor de ti mesmo.

[...]

Quer dizer que toda impaciência tem como causa a falta de amor, de amor a Deus ou de amor ao próximo, ou de ambos. É lógico, portanto, que a causa das nossas impaciências seja o contrário do amor, isto é, o amor-próprio egoísta.

Temperança

A temperança mantém a harmonia entre a dimensão espiritual e a dimensão corporal do homem. Há três modos de intemperança: (a) usar o bem como instrumento para o mal (transformar comida e bebida para perder a saúde física e psíquica), (b) tiranizar-se a ponto de se escravizar (crack, álcool, cocaína, sexo obsessivo-compulsivo), (c) os meios se tornam fins (o sentido da vida é sentir prazer).

O Abade Cassiano, no século V, escrevia no seu manual de espiritualidade intitulado Collationes: “O primeiro combate que devemos empreender é contra o espírito de gula, contra a concupiscência da excessiva comida e bebida. É preciso frisar que a abstinência corporal não tem outra razão de ser senão conduzir-nos à pureza do coração”. Os excessos na comida, e sobretudo na bebida, insensibilizam a alma, fazem com que a dimensão corporal abafe a espiritual. A idolatria do prazer material do homem, através dos excessos no comer e no beber puxa para a tirania do sexo.

Além do aspecto concupiscível, há evidentemente a temperança do aspecto irascível, ou seja, moderar a paixão da ira (ou “indignação”). Diz São Gregório Magno: “A razão enfrenta o mal com grande combatividade, e a ira contribui para isso”. Diz São João Crisóstomo: “Quem não se indigna, quando há motivo, peca. [...] A falta de indignação ante o mal semeia vícios, alimenta a negligência e facilita que não só os maus, como também os bons, pratiquem o mal”. No entanto, quando a ira não é contra o mal, mas contra a pessoa que fez ou propagou o mal, torna-se ódio. Como dizia Santo Agostinho: “Detestar o erro, mas amar o que erra”. A mansidão, vejam só, não é a virtude dos fracos, mas dos fortes.

Fonte: Franscisco Faus, A conquista das virtudes, Cultor de Livros, São Paulo, SP, Brasil, 2021.

6 de março de 2025

O valor do pobre está na necessidade


Já vimos a parábola de Lázaro e o homem rico no contexto da vida após a morte. Desta vez, vejamos quais os nove castigos da pobreza de acordo com São João Cristóstomo, que se apoia na mesma parábola:

(1) Pobreza. É algo verdadeiramente terrível pois nenhuma palavra consegue descrever a grande angústia que e suportada por aqueles que vivem como mendigos sem conhecer a sabedoria. [Aqui o santo provavelmente se refere ao desconhecimento da causa final da pobreza e do sofrimento, ou seja, a falta de sabedoria implica numa visão horizontal da pobreza].

(2) Doença. Muitos adoecem com frequência sem que lhes falte o necessário para a subsistência. Outros vivem em extrema pobreza, mas desfrutam de boa saúde. Um bem se torna um consolo para o outro infortúnio. Mas em Lázaro os dois infortúnios se apresentaram juntos.

(3) Solidão. Mesmo se não está na própria casa, pelo menos em público Lázaro poderia receber a piedade daqueles que o veem. Para Lázaro, porém, a ausência de protetores tornou seus dois infortúnios ainda mais dolorosos.

(4) Desencorajamento. A ausência de protetores tornava-se ainda mais dolorosa ao se encontrar diante da porta da casa do rico. Ele passou a sentir uma aflição mais aguda.

(5) Percepção mais aguçada dos infortúnios. Além de tudo isso, Lázaro tinha diante de seus olhos o espetáculo de um homem rico e bem afortunado. É da nossa natureza compararmos nossa situação com a prosperidade alheia. O rico se saía bem em todos os aspectos, apesar de viver com crueldade e desumanidade, enquanto Lázaro, vivendo com virtude e bondade, sofria terríveis infortúnios. Era como se tivesse vindo ao mundo com esse exato propósito, para ser testemunha da boa fortuna alheia.

(6) Isolamento espiritual. Lázaro não podia observar outro Lázaro. Mesmo se sofremos de uma infinidade de problemas, ao contemplar Lázaro podemos pelo menos obter algum consolo e encorajamento. Encontrar quem partilha das mesmas misérias, em histórias ou em fatos, traz um grande consolo aos que vivem em aflição. Mas ele não encontrava ninguém com sofrimentos semelhantes aos seus.

(7) Achatamento existencial. Lázaro não podia encontrar consolo na ideia da ressurreição. Acreditava que tudo se resumia à vida presente, pois encontrava-se entre aqueles que precederam o tempo da graça. Não podia praticar tal sabedoria.

(8) Calúnia. A maioria das pessoas julga a vida do outro por suas dificuldades e acha que foi a iniquidade, sem dúvida, a causa de tanta miséria. Dizem entre si muitas tolices. Por exemplo, se Lázaro fosse amado por Deus, Deus não teria permitido que sofresse na pobreza nem se submetesse a tantos infortúnios.

(9) Extensão temporal. Lázaro suportou sua pobreza uma vida inteira, não apenas um ou dois dias.

* * *

Mesmo quando não buscamos a virtude talvez sejamos capazes de obtê-la se pelo menos a louvarmos. E mesmo quando não evitamos o mal, talvez sejamos capazes de escapar dele se pelo menos o censurarmos.

* * *

Verdade seja dita, o rico não é aquele que reuniu muitos bens materiais, mas aquele que precisa de pouco. E o pobre não é aquele desprovido de bens, mas aquele que a tudo cobiça.

* * *

O rico costuma ser o mais pobre de todos. Se retirardes a máscara, abrirdes a consciência e entrardes na mente, encontrareis uma grande pobreza de virtude: descobrireis que ele pertence à classe mais baixa de todas.

* * *

Realmente também é roubo não compartilhar as posses. [...] Os ricos guardam os bens dos pobres mesmo se foram herdados dos pais ou adquiridos de qualquer outra forma. [...] É por isso que Deus permitiu aos ricos ter mais: para ser distribuído a quem necessita. O homem rico é uma espécie de intendente do dinheiro que deve ser distribuído aos pobres.

* * *

Um juiz é uma coisa, um benfeitor é outra. A caridade recebe este nome porque é praticada mesmo com os indignos. Façamos o mesmo, eu vos imploro, sem mais questionamentos do que o necessário. O valor do homem pobre está apenas na sua necessidade. [São João Maximovitch, por exemplo, foi visto vários vezes dando esmola a um notório bêbado. Questionado por que o fazia, dado que o dinheiro certamente seria gasto para sustentar seu vício, o santo respondia que ele não era melhor que o homem bêbado. Em outras palavras, o valor de ambos, santo e bêbado, reside na natureza humana, que lhes é idêntica. A transmissão da bondade pelo benfeitor, mesmo diante de uma "má necessidade", está acima da indignidade do vício. Eis a autêntica filantropia: amor e compaixão pelo próximo, a despeito de quem seja. Uma magnanimidade incomum, sem dúvida]. 

* * *

É um grande bem ter vossas esperanças de salvação depositadas em vossos próprios atos virtuosos.

* * *

Quando somos testados em circunstâncias difíceis, lembramo-nos dos antigos pecados.

Fonte: São João Crisóstomo, A riqueza e a pobreza, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022.

27 de janeiro de 2017

O caminho da felicidade


Introdução

Chamamos de “asceticismo” a prática constante de boas obras, e quem se esforça na prática de boas obras chamamos de “asceta”.

O treinamento espiritual consiste em esforçar-se para a realização de boas obras e refrear os maus hábitos e aspirações da alma que se opõem a esse treinamento. Não é uma tarefa fácil visto que vem sempre acompanhada de esforços árduos e quase sempre por uma batalha digna de martírio, a qual os Santos Padres e ascetas chamam, não sem razão, de autocrucificação, de acordo com as palavras de São Paulo: E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. (Gálatas 5:24)

O ponto aqui não são as obras, mas a disposição interior do homem, a vontade boa ou má de sua alma e a condição virtuosa ou depravada de seu coração, do qual as boas e más obras brotam naturalmente. O próprio Cristo Salvador se manifestou a respeito disso: Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. (Mateus 15:18-19)

É óbvio, portanto, que o centro de gravidade da vida espiritual não está nas obras em si, mas nas disposições da alma e no estado interior do homem das quais elas resultam. “Tema os maus hábitos”, disse um dos maiores professores do asceticismo, Santo Isaque, o Sírio, “mais do que os demônios”.

“Esforço” [podvig] é uma palavra tipicamente russa e que corresponde perfeitamente ao espírito da palavra grega “asceticismo” [askesis].

Mas será que todos os cristãos deveriam ser ascetas?

Fazer essa pergunta é a mesma coisa que perguntar se todas as pessoas criadas por Deus estão destinadas à comunhão espiritual com seu Criador. Ora, o asceticismo é para todos, e não apenas para monges.

Pois a felicidade, conforme a experiência da vida demonstra, não está fora do homem, onde ele inutilmente a procura, mas dentro dele: a felicidade está na disposição pacífica da alma, na paz interior serena proveniente da profunda satisfação interior que provém da conquista do mal após desarraigar os maus hábitos que tiranizam a alma.

Quem se abstém do asceticismo é inimigo de si mesmo, privando-se do maior dos bens: a paz de consciência e a comunhão abençoada com Deus.

O discernimento espiritual

Normalmente as pessoas afirmam que o órgão responsável pelos sentimentos é o coração humano. Isso acontece porque todas as emoções – alegria ou tristeza, desalento ou prazer, gostos ou desgostos, raiva ou disposição pacífica do espírito, calma ou agitação – sempre ressoam no coração, seja agregando-lhe energia ou diminuindo sua atividade. O coração registra aquilo que dá prazer ou desprazer. Dado que as pessoas naturalmente buscam aquilo que dá prazer e desejam evitar aquilo que é desagradável, o coração se torna o centro de nossas vidas, o lugar onde tudo o que entra de fora fica contido e do qual advém tudo o que está no interior.

A vontade controla os desejos da pessoa e não está localizada em nenhum órgão específico. A vontade age em todas as partes do corpo, e são essas partes que põem o corpo em movimento, ou seja, é a decisão da vontade que age nos músculos e nervos.

O homem moderno no mais das vezes não é capaz de diferenciar as ações do corpo, da alma e da vida espiritual, e acaba misturando tudo, gerando uma grande confusão. É por isso que hoje em dia absolutamente qualquer coisa é associada à expressão “vida espiritual”, menos o que é autenticamente vida espiritual. A ciência, bem como todo tipo de descoberta e invenção – cinema, teatro, balé, e até o circo – são hoje em dia tidos como elementos da área da espiritualidade. Em outras palavras, tudo aquilo que é emocional ou natural é tido como espiritual, e tudo o que está totalmente relacionado à vida secular é confundido com “vida espiritual”.

Contudo, não importa o quanto tentemos suprimir de nosso interior as necessidades do espírito, essas necessidades vão exigir seus direitos. O espírito aspira por Deus, mas, incapaz de encontrar um meio de realizar suas aspirações sob a pressão violenta da pesada opressão do orgulho humano, o espírito se satisfaz com seus substitutos, os quais são inventados pelo próprio orgulho humano com o intuito de acalmá-lo. No lugar da autêntica religião, o espírito se embebe de doutrinas filosóficas nebulosas, seja a teosofia, seja o espiritismo, seja o que for. No lugar da Igreja, o espírito busca o “templo” da ciência, do teatro, do balé etc. – ou seja, qualquer coisa da vida mundana que seja capaz de cativar a pessoa. Esse tipo de falsificação, ou seja, a substituição da espiritualidade por elementos emocionais, é o traço característico de nossos tempos.

Por exemplo, muitos de nós, russos, no passado e no presente, vão à igreja com o intuito de desfrutar de sentimentos estéticos, de ouvir belas canções. Não há dúvida de que os sentimentos estéticos sejam, evidentemente, uma sensação exaltada, o senso do belo na alma, o reflexo de uma Beleza divina superior. Porém, na medida em que essa sensação permaneça inconsciente, ou seja, desconectada de uma consciência de atração por Deus, ela permanecerá no âmbito do mundanismo e alheia à verdadeira espiritualidade.

O homem moderno acha que as coisas “emotivas” são “espirituais”. A genuína vida espiritual está sempre totalmente desprovida de paixões, tão exaltada que chega ao ponto de elevar a pessoa acima da terra, sem lhe oferecer quaisquer sensações mundanas. Por outro lado, todo estado mundano e natural, por mais elevado que seja, irá, sem dúvida alguma, despertar sensações mundanas e carnais – por exemplo, batimentos cardíacos acelerados, agradáveis cintilações nervosas, arrepios – os quais sempre surgem quando a pessoa ouve belas músicas e canções. Esse amplo predomínio do emocionalismo no homem contemporâneo explica porque o canto eclesiástico genuíno, que satisfaz apenas a espiritualidade, é atordoante e tedioso para a grande maioria das pessoas, mesmo para aquelas que frequentemente vão à igreja.

Todos os entretenimentos modernos agem como álcool e cocaína no homem contemporâneo. Os entretenimentos de hoje em dia anestesiam a vida espiritual do homem, paralisam os impulsos espirituais e suprimem a voz da consciência e das normas morais.

Amor evangélico e altruísmo humanista

Sem fé em Jesus Cristo como Filho de Deus não há verdadeiro amor a Deus ou ao próximo. O verdadeiro, puro e desinteressado amor a Deus e aos homens é impossível exceto sob a ação da fé na divindade do Cristo Salvador – fé no fato de que Ele é o Filho de Deus encarnado, o qual desceu à terra para salvar a humanidade.

Pois somente esse tipo de fé no Filho de Deus – uma fé ardente e viva nAquele que se humilhou por nós homens e se entregou a uma morte desgraçada e tortuosa – é capaz de despertar em nós uma grata resposta de amor a Deus. Esse amor nos inspira a um desejo ardente de viver segundo Sua vontade e a nunca ofendê-Lo e, consequentemente, a amar o próximo como semelhante e filho de Deus, como nosso irmão em Cristo para o qual Cristo nosso Salvador também derramou seu puro e precioso sangue.

Além disso tudo, nossa natureza encontra-se tão quebrantada pelo pecado que, sem essa fé na salvífica graça de Deus a nós dada pelo sofrimento do Filho de Deus na cruz, sem essa santificação e iluminação cheia de graça, somos incapazes de fazer qualquer coisa realmente boa; somos incapazes de amar pura e desinteressadamente a Deus e ao próximo. Sem a santificação e a iluminação que vêm do alto, nosso amor – se é que realmente está dentro de nós – permanecerá desprovido da pureza e da santidade do Evangelho. Nosso amor estará envenenado de amor próprio e egoísmo, o qual é tão sutil e difícil de identificar que nem mesmo conseguimos notá-lo. Pensamos que verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, quando na verdade tudo isso não passa de amor próprio, não de amor a Deus e ao próximo.

Os defensores da moralidade autônoma atacam a moralidade cristã como se esta fosse motivada por princípios morais primitivos: medo dos futuros tormentos no inferno e desejo de ser recompensado na vida futura. Ora, já passou da hora de rejeitarmos essa ideia católica romana de que Deus nos recompensa por boas obras e nos pune pelas más ações.

A única motivação da moralidade  cristã é o amor, isto é, amor a Deus como nosso Pai e Benfeitor.

Se Deus não existe e não somos todos irmãos, então qual o propósito de fazer o bem ao próximo? Não seria melhor que cada um de nós vivesse única e exclusivamente para nosso próprio prazer, a buscar nossos próprios objetivos e interesses?

Outro aspecto da moralidade irreligiosa que frequentemente nos passa despercebido é a vaidade. Este sentimento de vaidade é quase sempre a motivação por trás dos fundadores e administradores das sociedades filantrópicas, das pessoas ricas que doam uma parte insignificante de suas riquezas para boas ações, ou seja, para se mostrarem como pessoas boas. Muito frequentemente a vaidade é a força que compele as pessoas sentimentais, aquelas pessoas que sinceramente se consideram pessoas decentes, que fazem o bem e choram por causa de suas ações benevolentes. Muita gente pensa, com toda a sinceridade, que essas pessoas estão fazendo o bem pelo bem quando, na verdade, estão apenas alimentando suas próprias vaidades.

É absurdo sustentar que alguém possa ser realmente virtuoso – no sentido cristão da palavra – sem fé em Deus, sem amor a Deus. Pois qual é o propósito e em nome de quem a pessoa restringirá seus próprios impulsos egoísticos?

Dostoyevsky dizia que “se Deus não existe então tudo é permitido”. Isso acontece não apenas quando não há medo de castigo pelos pecados, mas acima de tudo quando não há um estímulo poderoso para a vida moral, ou seja, o amor a Deus.

Não é raro o caso em que as pessoas que aceitam os frutos das ações sociais não apenas não experimentarem nenhum calor humano, mas frequentemente certa degradação moral.

Adquirindo o amor evangélico

Muitas pessoas que pensam amar a Deus na verdade amam apenas suas próprias fantasias, amam a si mesmas, deleitam-se em suas próprias emoções e sentimentos.

Para adquirirmos o amor evangélico devemos suprimir de nós quaisquer manifestações de orgulho, pois é imperativo termos um coração humilde e um espírito contrito. A pessoa orgulhosa não ama a Deus, mas ama seu amor a Deus, admirando-o, deleitando-se em suas experiências emocionais e em seus nervos excitados. Imaginando que ama a Deus, a pessoa orgulhosa ama apenas a si mesma e as suas sensações emocionais, as quais ela preza acima da fé genuína e da devoção a Deus.

Na realidade, quem verdadeiramente ama a Deus, não apenas em palavras e ações, é aquele que luta com todas as suas forças para cumprir os mandamentos de Deus, os mandamentos do Santo Evangelho.

Mesmo que o desejo inato pelo verdadeiro amor evangélico resida em nossos corações, é difícil alcançá-lo. “Não pensem vocês, amados irmãos”, disse o Bispo Ignácio, “que o mandamento de amar o próximo esteja próximo de nosso coração caído. O mandamento é espiritual; nosso coração é comandado pela carne e pelo sangue. O mandamento é novo, mas nosso coração é velho”.

“Nosso amor natural foi ferido pela queda”, diz o Bispo Ignácio. Está envenenado pelo egoísmo. Quem ama as pessoas que lhe são próximas – seja família ou amigos – com amor natural, os ama em maior ou menor grau egoisticamente.

Por esta razão o Evangelho não tem em alta conta aquilo que é da carne e puramente emocional e que advém dos sentimentos do coração natural. É sobre isto que diz o Cristo Salvador: Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os seus familiares. (Mateus 10:34-36).

A muitos estas palavras soam difíceis de entender, às vezes até mesmo duvidam delas. O ponto essencial aqui é que o amor carnal-natural, o amor egoístico, interfere com o verdadeiro amor espiritual do Evangelho. Por esta razão é necessário minimizar a importância deste amor corporal inferior, considerá-lo digno de desprezo, a fim de adquirirmos o amor evangélico superior. Ame ao próximo com amor santo, sem qualquer mescla de egoísmo, e puramente, sem quaisquer sensualidades ou paixões.

O que é inaceitável, e especialmente ruim para a vida espiritual, é o fato de o amor natural estar sempre acoplado a certo viés e injustiça para com o próximo. Quem ama com amor natural o faz com parcialidade prejudicial para com o amado, idealizando a pessoa, incapaz de enxergar defeitos, pronto a prover todas as suas falhas, a machucar e ofender as pessoas por sua causa, e mesmo a cometer maldades se isso agradar ao amado. Em outras palavras, o amor natural é cego, injusto e escraviza a quem o possui.

O amor espiritual não conhece nenhuma parcialidade injusta; é razoável e estrito, desejando ao amado não tesouros terrenos e enganosos – e frequentemente danosos –, mas os tesouros verdadeiros e espirituais. O amor espiritual – puro, santo, livre, completamente dedicado a Deus – é o Espírito Santo agindo na alma. Quem ama ao próximo com amor santo, espiritual, deseja acima de tudo ajudá-lo naquilo que é mais importante: na salvação de sua alma, no seu progresso espiritual, na aproximação a Deus.

A liberdade cristã

Por que Deus criou o homem com livre arbítrio? Isso é fácil de entender: a única e exclusiva motivação de Deus ao criar o homem foi Seu amor. E o amor sempre deseja o maior bem ao seu amado. Ademais, o amor deseja uma resposta livre – amor por amor – que de forma alguma seja forçado. Apenas esse tipo de amor é digno: o amor que flui de um coração amoroso, sem compulsão ou coerção.

Daí conclui-se que a verdadeira liberdade é a capacidade de viver segundo a vontade de Deus, sem impedimentos. Aquele em quem o pecado não excita, sobre quem o pecado não tem poder, que progride corajosamente em direção ao ideal de perfeição moral, eis a verdadeira pessoa livre.

Aquele que se entrega às paixões e vícios começa a experimentar, já nesta vida, a força plena dos tormentos do inferno que aguardam o pecador na vida após a morte.

Ocorre que a concepção de liberdade do homem moderno é completamente diferente. Ele entende a liberdade como sendo o direito e a oportunidade de fazer o que quiser. Ninguém pode impedir o homem-deus no exercício de sua liberdade. “Eu quero, eu tenho o direito” se tornou o slogan do homem moderno. E em verdade a vida se tornou uma batalha: uma batalha feroz pela existência, ou melhor, pelo senhorio, pela predominância, pela posse exclusiva de todos os bens terrenos.

Tudo isso deriva de um entendimento incorreto da liberdade. Ao invés de liberdade de cometer pecados, as pessoas começaram a lutar pela liberdade para cometer pecados. A verdadeira liberdade, a liberdade do espírito, a liberdade cristã, começou a ser vista como “despotismo”, “coerção”, como opressão da Igreja, enquanto a devassidão da vontade pecaminosa, a qual leva à escravização do espírito, tornou-se um ideal de vida.

Hoje vislumbramos o que a realização dessas “liberdades” resultou. Ao invés da esperada liberdade, do paraíso na terra, o que colhemos é crueldade, escravidão, não apenas espiritual, mas também física. Ao invés de liberdade do mal, o que existe hoje é a liberdade para o mal.

Guiando o coração em meio às distrações da vida

Por que as distrações são tão prejudiciais? A resposta é óbvia: a pessoa distraída é incapaz de vigiar a si mesma. Ela está constantemente preocupada com as coisas que estão fora de si. Como conseguirá ela observar seu próprio coração quando o principal objeto de sua atenção não está em sua vida interior, mas nos eventos do mundo exterior. Ela não está preocupada em reduzir o influxo de impressões externas, mas, ao contrário, vive totalmente voltada a essas impressões externas. Ver, cheirar, sentir e provar tudo o que se lhe apresentar, eis o sentido e o propósito de sua vida.

“Como a borboleta que voa de uma flor a outra, a pessoa distraída voa de um prazer terreno a outro, de uma preocupação vã a outra”, diz Santo Ignácio. “A pessoa distraída é como uma casa sem portas e trancas: nenhum tesouro pode ser guardado em uma casa assim, pois está aberta a ladrões e prostitutas”.

O orgulho autoconfiante que prevalece na sociedade contemporânea não almeja a purificação do coração, mas o acúmulo do máximo de benefícios e proveitos para o ego, e esses desejos todos são considerados legítimos e dignos de serem imediatamente satisfeitos. É como se o homem moderno tivesse medo de omitir algo, de deixar de aproveitar um único conforto desta vida terrena e carnal. Podemos dizer com segurança que a vida do homem moderno não passa de uma busca frenética por todo tipo de conforto e prazer terreno.

Resistindo ao mal

Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes. (Mateus 5:38-42)

Nós, cristãos, jamais podemos ficar indiferentes ao mal, não importa quando e como ele surja. É necessário apenas que a batalha contra o mal seja livre de componentes pessoais. A batalha contra o mal deve sempre ser baseada puramente em princípios, não sob o ponto de vista pessoal. Ademais, nossa batalha, que é uma batalha de princípios contra o mal, deve ser livre de sentimentos de vingança, de desejo de nos vingarmos contra quem nos desagradou ou contra quem seja nosso inimigo. As palavras mencionadas acima pelo Salvador devem ser entendidas desta forma. Sem se referir a batalha contra o mal em geral, essas palavras apenas nos alertam contra o espírito de vingança, contra a tendência de querermos nos vingar contra alguma ofensa pessoal que nos é lançada.

Em primeiro lugar, devemos eliminar/superar o sentimento de vingança, que é natural em função de nossa natureza ferida pelo pecado.

Porém, não é verdade que toda e qualquer paz seja agradável a Deus, nem é necessário cultivar toda e qualquer paz. Os Santos Padres, os instrutores da vida espiritual, afirmam que pode, sim, existir uma “discórdia gloriosa” assim como “unanimidade desastrosa”. Devemos amar apenas a boa paz, aquela que tem o bom propósito de nos unir a Deus. O próprio Mestre do Amor, nosso Senhor Jesus Cristo, afirma que nem toda paz é agradável a Deus e que não é necessário louvar toda e qualquer paz: Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. (Mateus 10:34) Esta “paz de Cristo”, que sobrepuja todo entendimento, é uma paz muito específica, uma paz que não tem nada em comum com a paz humana. Esta é precisamente a “boa paz” que, segundo a expressão dos Padres, “tem bom propósito e nos conecta a Deus”. Qualquer outro tipo de paz, por mais atrativa que seja, deve ser considerada sedução satânica.

É necessário lembrarmos constantemente que quando o Evangelho fala de perdoar pecados e ofensas o que se tem em mente são os pecados pessoais e ofensas pessoais. Porém, o que nós normalmente entendemos é o contrário. O orgulho humano autoconfiante perdoa qualquer coisa, exceto as ofensas pessoais.

O direito à vingança pertence a Deus, não a você.

Travando a guerra invisível

O cristão deve lutar contra todo tipo de mal, onde quer que surja, mas esta batalha, antes de qualquer coisa, deve ser uma batalha travada em sua própria alma. A batalha contra o mal deve começar dentro de si, e somente aí é que a batalha será correta, razoável e sólida. Quem lutou e conseguiu extirpar o mal de sua alma lutará com muito mais facilidade contra o mal na alma das outras pessoas; quanto menos mal restar na alma do soldado de Cristo, mais bem sucedida será esta batalha.

No entanto, a “batalha visível” tomou o lugar da “batalha invisível” na vida do homem moderno. E a batalha contra o mal que o homem moderno trava não é bem sucedida porque as pessoas não lutam exatamente contra o mal, mas contra as outras pessoas, ao mesmo tempo em que conservam esses mesmos males em suas almas.

Eis porque uma vasta e ilimitada avenida está aberta para que laboremos contra o mal que está em nossas almas e semeemos a virtude que nelas faltam.

Nas palavras dos Santos Padres, quem se engajar nesta batalha invisível estará lutando contra si mesmo, ou melhor, contra seu amor próprio, seu amor auto-centrado, ou em linguagem secular, contra o egoísmo que está enraizado no orgulho humano autoconfiante.

Portanto, os Santos Padres dizem que quem deseja a vitória na batalha invisível deve estabelecer em seu coração as seguintes quatro disposições ou inclinações: (1) nunca, jamais, confiar em si mesmo, (2) sempre preservar em seu coração uma esperança resoluta e inabalável no Deus único, (3) laborar sem cessar e (4) estar sempre em oração.

Desde os tempos da queda de nossos antepassados, apesar da evidente fraqueza de nossos poderes espirituais e morais, em geral nós pensamos que somos grande coisa. Embora a experiência do dia-a-dia não canse de nos convencer da falsidade desse tipo de pensamento, continuamos a acreditar, num incompreensível autoengano, que somos “alguma coisa” ou mesmo “pessoas especiais”. Essa opinião auto-exaltada que nutrimos sobre nós mesmos impede que a graça de Deus entre e habite em nós.

Os Santos Padres indicam as seguintes quatro disposições:

(1) Tente perceber sua fraqueza observando todas as experiências de sua vida, e mantenha constantemente a consciência do fato de que você não pode fazer nada de bom sem a ajuda de Deus. São Pedro Damasceno diz o seguinte: “Não há nada melhor do que perceber sua fraqueza e sua ignorância, e não há nada pior do que não estar consciente delas”. São Máximo, o Confessor, ensina que “o fundamento de toda virtude é perceber a fraqueza humana”. São João Crisóstomo confirma: “Somente aquele que sabe que não é nada sabe de alguma coisa”.

(2)  Peça a Deus em oração para que Ele lhe dê a percepção da sua fraqueza e insignificância, mas antes consolide em você a convicção de que você não tem essa consciência e que ela só pode ser adquirida como um dom de Deus.

(3)   Sempre desconfie de si mesmo e seja cauteloso com respeito às ardilosas armadilhas de Satanás, contra quem é impossível lutar sem a ajuda de Deus.

(4) Se acontecer de você cometer algum pecado, reconheça imediatamente sua fraqueza e total impotência. Convença-se do fato de que Deus permitiu esta queda para que você perceba sua debilidade e insignificância ante Deus e aprenda a desdenhar de si mesmo.

Portanto, o que é mais necessário para o sucesso na batalha invisível é o reconhecimento de sua própria fraqueza e total insignificância sem a ajuda de Deus. A consciência disso é tão necessária que Deus, em Sua providência, permite que as pessoas cometam pecados, especialmente os pecados contra os quais se consideravam fortes o suficiente para evitar.

Mas como conseguimos saber se estamos realmente livres de confiar em nós mesmos e esperar completamente em Deus?

Eis como. Algumas pessoas imaginam que não confiam em si mesmas e que depositam toda sua esperança em Deus. Bem, quando cometem algum pecado, elas se desesperam e entram em um estado de melancolia; sua alma se torna lúgubre. Esta tristeza excessiva, lúgubre, é um sinal de que elas esperavam não em Deus, mas em si mesmas, e que portanto a traição de sua autoconfiança, através do pecado, é algo particularmente difícil e tortuoso de aguantar, o que as leva ao desespero. Mas quem realmente não confia em si mesmo, quem não confia em seus próprios poderes, não vai ficar muito surpreso pelo pecado que cometeu e, portanto, não vai se deixar cair em tristeza excessiva; ele sabe e entende que isso aconteceu por causa de sua fraqueza e que nada de bom pode-se esperar dele.

A batalha cristã

Ao forçar-se a fazer o bem, o fiel demonstra que busca a virtude. Eis o que realmente atrai a poderosa graça de Deus, a qual, em conjunto com o esforço humano, torna a pessoa vitoriosa sobre o mal em sua alma. Eis o propósito supremo da batalha invisível.

O asceticismo é o único caminho para a tão desejada felicidade que as pessoas buscam. A experiência da vida mostra que a felicidade não está fora do homem, onde ele inutilmente a busca, mas dentro. A felicidade está no estado pacífico da alma, na serenidade e calma interiores, que advêm da satisfação interior em vencer o mal e a erradicação dos maus hábitos que tiranizam a alma. Os hábitos pecaminosos criam caos e confusão. As inclinações malignas jamais serão pacíficas, calmas e alegres. A única maneira de pacificar a alma é suprimir e erradicar os maus hábitos por meio do asceticismo, de um estilo de vida ascético.

Os pecados são cometidos segundo um padrão bem consistente. O primeiro estágio do pecado é o estágio da “sugestão”, quando pensamentos e sugestões pecaminosas entram de maneira não-intencional, por acaso, contrariamente à vontade, na alma da pessoa, seja  através dos sentidos, das emoções ou da imaginação. Nesta fase ainda não há pecado, mas apenas um prelúdio de pecado. O “aceite” é a recepção da “sugestão”, ou seja, é prestar atenção àquilo que foi sugerido, o que nem sempre ocorre sem pecado. O “consentimento” é quando a alma se deleita no pensamento ou na imagem que lhe foi apresentada; nesta altura é grande o perigo de realmente cometer o pecado com ação. O próximo estágio é o “cativeiro”, ou seja, quando a alma se sente tão fortemente atraída pelo pecado que o estado pacífico da alma se perde. Por fim vem a “paixão”, que nada mais é do que o deleite habitual e prolongado dos pensamentos e sentimentos pecaminosos, chegando ao ponto de cometer o pecado com ações. Eis a completa escravidão ao pecado, e aquele que não se arrepende e não expulsa sua paixão estará sujeito a tormentos eternos. Porém, aquele que está possuído por uma ou outra paixão começa a experimentar, ainda nesta vida, uma prefiguração do que será o tormento eterno na vida futura. Nesta altura, somente uma batalha intensa e persistente, aliada à graça de Deus, será capaz de extirpar o pecado que se tornou a segunda natureza da alma.

O que essencialmente precisamos nos lembrar na batalha contra as paixões? “Toda resistência às demandas da paixão a enfraquece; a constante resistência à paixão a destrona. Por outro lado, o apego à paixão a fortalece; o apego constante à paixão escraviza a pessoa que por ela se afeiçoou” (Santo Ignácio (Brianchaninov)).


Fonte: Archbishop Averky (Taushev), The Struggle for Virtue, Holy Trinity Publications, Jordanville, EUA, 2014, trechos selecionados.

28 de fevereiro de 2014

Quanto mais escura a noite, mais brilham as estrelas


Os sofrimentos dos infiéis são como as tempestades que tudo destroem, mas as lágrimas dos fiéis são como as chuvas finas e graciosas que fazem florescer as belas flores da virtude na alma. Eis uma das mais extraordinárias características de nossa fé cristã: ela traz a paz mesmo em meio ao sofrimento. Ela transforma os sofrimentos em júbilo.

[...]

Devemos então nos lamentar quando Deus nos manda os sofrimentos? Não, não devemos, mas devemos, isso sim, beijar a Mão que nos pune. Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, diz o Apóstolo Paulo, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. (Hebreus 12:6-8)

Não há um santo sequer que não tenha trilhado o caminho do sofrimento. São João Crisóstomo afirma: "Quando as tribulações [sofrimentos] vierem, não permitamos que esses sinais de Deus sejam tomados como abandono, mas devemos considerá-los como sinais de que o Senhor se preocupa conosco, pois, ao permitir que as tribulações recaiam sobre nós, Ele limpa nossos pecados". Deus não abandona a quem envia os sofrimentos e tribulações, mas, pelo contrário, Ele demonstra Sua proximidade. Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito. Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor o livra de todas. (Salmos 34:18-19) Quanto maior a angústia, mais próximo Deus está; quanto mais escura a noite, mais brilham as estrelas.

Cristão, sê confortado na angústia que sofres. Saibas que Deus não pune apenas os que vendem sua alma ao diabo para desfrutarem de alegrias e prazeres terrenos. Deus não castiga apenas aqueles que não são Seus. Como bom Pai, Ele não está preocupado com a correção e a educação dos filhos dos outros; todo pai castiga seus próprios filhos. Se Deus te manda tribulações e castigos, não fiques desconsolado, mas alegra-te, pois tu és um de Seus filhos e Ele ocupa-se de tua salvação! Lamenta-te um pouco. Isso não é pecado. Mas lamenta-te com fé!

Fonte: Arquimandrita Seraphim Aleksiev, The Meaning of Suffering, St. Xenia Skete, Wildwood, CA, EUA, 1994.

Imagem: Sofrimento Inconsolável, Ivan Kramskoy, 1884, Rússia.

31 de maio de 2013

Oração antes da leitura espiritual


São João Crisóstomo

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo: Ó Senhor Jesus Cristo, abre meu coração para que possa ouvir e entender Tua palavra e fazer Tua vontade, pois sou um residente temporário nesta terra. Não oculte Teus mandamentos de mim, mas abre meus olhos para que possa compreender as maravilhas de Tua lei. Dizei-me as coisas ocultas e secretas de Tua sabedoria. Em Ti deposito minha esperança, ó Deus meu, de que Tu iluminarás minha mente e meu entendimento com a luz de Tua sabedoria, não apenas para cultivar as coisas que estão escritas, mas para cumpri-las, para que não peque ao ler as vidas, obras e provérbios dos santos, mas para que sirvam à  minha restauração, iluminação e santificação, para a salvação da minha alma e herança da vida eterna. Pois Tu és a luz daqueles que residem nas trevas, e de Ti vem toda boa obra e dádiva. Amém.

9 de setembro de 2010

A raiva


A vitória sobre a raiva é uma das maiores vitórias de um soldado de Cristo. Geralmente ficamos com raiva daqueles que desejamos que renunciem ao pecado e dos que nos caluniam. Entretanto, agindo desta maneira, esquecemo-nos que a raiva é um pecado mortal e, desejando a salvação dos outros, perdemos a nossa própria salvação, segundo São Macário. A raiva contra os inimigos é freqüentemente ligada a outro impulso maligno: o desejo de vingança. Santo Eupisíquio subjugou a paixão da raiva em si mesmo, tanto é que ele entregou uma parte de sua enorme riqueza aos pobres e outra aos seus caluniadores, por quem ele estava sendo torturado e morreria. Ele tinha seus caluniadores por benfeitores. São João Crisóstomo disse: "Cortemos fora as asas da raiva, e o mal não voará tão alto. A raiva é uma doença demoníaca que pode destruir nossas almas... A raiva é um fogo terrível que engole tudo... Se um homem irado pudesse ver a si mesmo no momento em que está com raiva, jamais necessitaria de outro conselho nem se irritaria, pois não há nada mais desagradável que uma face raivosa." Abba Amon confessou sobre si mesmo: "Passei catorze anos em Scetis, orando a Deus dia e noite, para que me concedesse vitória sobre a raiva."

Fonte: Prólogo de Ochrid, São Nicolau Velimirovich

31 de maio de 2008

Como escolher uma esposa

Eis os trechos principais de uma homilia de São João Crisóstomo intitulada "Como escolher uma esposa", publicada na seleção On Marriage and Family Life (pág. 89-114). A tradução para o inglês é de Catherine P. Roth e David Anderson e a editora é a St. Vladimir´s Seminary Press (Crestwood, Nova York, 2003).

* * *

1) Portanto, quando fordes escolher uma esposa, não examineis somente as leis do Estado, mas, antes, examineis as leis da Igreja. Deus não vos julgará no último dia segundo as leis do Estado, mas segundo Suas leis.

2) Não é mesmo uma tolice? Quando estamos sob ameaça de perder dinheiro, tomamos todos os cuidados possíveis, mas quando nossa alma está sob risco de ser eternamente punida, nem ao menos prestamos atenção.

3) Tu sabes que tem duas escolhas. Se tu escolheres uma má esposa, terás de enfrentar aborrecimentos. Se não aceitares enfrentá-los, serás culpado de adultério por divorciar-te dela. Se tivesses investigado as leis do Senhor e as conhecesse bem antes de te casares, terias tomado muito cuidado e escolhido uma esposa decente e compatível com teu caráter desde o início . Se tivesses te casado com uma esposa assim, terias ganhado não apenas o benefício de não te divorciares dela como o benefício de amá-la intensamente, conforme Paulo ordenou. Pois quando ele diz Maridos, amem vossas esposas, ele não pára por aí, mas fornece a medida deste amor, como Cristo amou a Igreja.

4) Vejamos, porém, se a beleza e a virtude da alma da noiva atraiu o Noivo. Não, ela não era atraente nem pura, conforme estas palavras de Paulo: Ele se entregou por ela para a santificar, purificando-a com a lavagem da água (Efésios 5:25-26). [...] Apesar disso, Ele não abominou sua feiúra, mas neutralizou sua repulsividade, remoldando-a, reformando-a e remitindo seus pecados. Tu deves imitá-Lo. Mesmo que tua esposa peque contra ti mais vezes do que podes contar, tu deves perdoá-la em tudo.

5) Quando surge uma infecção em nossos corpos, não cortamos o membro fora, mas tentamos curar a doença. Devemos fazer o mesmo com uma esposa.

6) Mesmo que ela não apresente melhoras em função de nossos ensinamentos, assim mesmo receberemos uma grande recompensa de Deus pela nossa paciência e por termos mostrado tanto auto-domínio em temor a Ele. Nós conseguimos suportar as maldades dela com nobreza, sem cortar o membro fora. Pois uma esposa é como se fosse um membro nosso, e por causa disso devemos amá-la. É precisamente isto que ensina Paulo: Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos...Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Cristo à Igreja; porque somos membros do Seu corpo, da Sua carne, e dos Seus ossos (Efésios 5:28-30).

7) Devemos amar nossa esposa também porque Deus estabeleceu uma lei a esse respeito quando disse: Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne (Gênesis 2:24; Efésios 5:31).

8) Assim como o noivo deixa a casa de seu pai e junta-se à noiva, assim também Cristo deixou o trono de Seu Pai e juntou-se à Sua noiva.

9) De maneira geral, a vida é composta de duas esferas de atividade: a pública e a privada. Quando Deus a diviviu assim, Ele designou a administração da vida doméstica à mulher, mas ao homem designou todas as tarefas relativas à cidade, às questões comerciais, judiciais, políticas, militares e assim por diante. [...] De fato, o que quer que o marido pense sobre questões domésticas, a esposa o saberá melhor que ele. Ela é incapaz de administrar as questões públicas competentemente, mas ela é capaz de cuidar bem dos filhos, que é o maior dos tesouros. [...] Se Deus tivesse dotado o homem para administrar ambas as esferas de atividade, teria sido fácil aos homens dispensar o gênero feminino. [...] Por isso Deus não concedeu ambas as esferas a um sexo, para que nenhum deles pareça supérfluo. Mas Deus não designou ambas as esferas igualmente a cada sexo, para que a igualdade de honra não engendre rixas e conflitos. Deus preservou a paz reservando a cada um sua esfera adequada. Ele dividiu nossas vidas em duas partes, e deu a mais necessária e importante ao homem e a parte menor e inferior à mulher. Assim, Ele organizou a vida de maneira a que admirássemos mais o homem do que a mulher, pois seus serviços são mais necessários do que os dela, e para que a mulher tivesse uma forma mais humilde e, assim, não se rebelasse contra o marido.

10) Assim sendo, eis o que tu deves buscar em uma esposa: virtude de alma e nobreza de caráter, para que desfrutes de tranquilidade, para que luxuries em harmonia e amor duradouro.

11) O homem que se casa com uma mulher rica se casa com um chefe, e não com uma esposa. Porém, o homem que se casa com uma esposa em iguais condições ou mais pobre se casa com uma ajudante e aliada, trazendo inúmeras bênçãos para dentro de casa. Sua pobreza a força a cuidar de seu marido com muito cuidado, obedecendo-o em tudo. [...] Portanto, o dinheiro é inútil quando se trata de encontrar um parceiro de boa alma.

12) Assim sendo, deixemos de lado as riquezas da esposa, mas examinenos seu caráter e sua piedade e recato. A esposa recatada, gentil e moderada, mesmo que seja pobre, irá transformar a pobreza em algo muito melhor do que a riqueza.

13) Antes de mais nada, tu deves aprender qual o propósito do casamento, e por que ele foi introduzido em nossas vidas. Não te perguntes mais nada. Qual seria, então, o objetivo do casamento, e por que Deus o criou? Ouve o que Paulo diz: Mas, por causa da tentação à imoralidade, cada um tenha a sua própria mulher (I Coríntios 7:2). [...] Portanto, não despreza o maior nem busca o menor. A riqueza é muitíssimo inferior ao recato. É somente por este motivo que devemos buscar uma esposa: para evitarmos o pecado, para nos libertarmos de toda imoralidade.

14) A beleza do corpo, se não estiver aliada à virtuda da alma, será capaz de atrair o marido somente por uns vinte ou trinta dias, mas não conseguirá ir além disto antes que a perversidade da esposa destrua toda sua atratividade. Quanto àquelas que irradiam beleza de alma, quanto mais o tempo passsa e sua nobreza se evidencia, tanto mais aquecido será o amor do marido e tanto mais ele sentirá afeição por ela.

15) É por meio do recato que o marido conseguirá atrair à sua família a boa vontade e a proteção de Deus. É assim que os homens de bem dos velhos tempos se casavam: buscando nobreza de alma em fez de riqueza monetária.

16) Quando te decidires por uma eposa, não corre atrás de ajuda humana. Volta-te a Deus, pois Ele não se envergonhará de ser vosso casamenteiro. Foi Ele mesmo quem prometeu: Buscai primeiro o Reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mateus 6:33). Não te perguntes: "Como posso ver a Deus? Afinal, Ele não falará nem conversará comigo de maneira explícita, e portanto não conseguirei Lhe fazer perguntas". Estas são palavras de uma alma de pouca fé. Deus pode facilmente organizar tudo da maneira que Ele quiser, sem o uso da voz.

17) A castidade é algo maravilhoso, mas é mais maravilhoso ainda quando está aliada à beleza física. As Escrituras nos falam sobre José e sua castidade, mas antes mencionam a beleza de seu corpo: José era formoso de porte, e de semblante (Gênesis 39:6). Em seguida, as Escrituras versam sobre sua castidade, deixando claro, assim, que a beleza não levou José a licenciosidade. Pois nem sempre a beleza causa imoralidade ou a feiúra causa recato. Muitas mulheres que resplandecem em beleza física resplandecem ainda mais em recato. Outras que são feias em aparência são ainda mais feias de alma, manchada por inúmeras imoralidades. Não é a natureza do corpo mas a inclinação da alma que produz recato ou imoralidade.