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13 de fevereiro de 2023

Alquimia


O filósofo suíço Titus Burckhardt, conhecido no meio perenialista por suas obras de estilo claro e conciso, escreveu em 1960 um livro sobre alquimia que rapidamente se tornou referência entre os estudiosos de religiões comparadas e do público em geral. O objetivo aqui não é apresentar os detalhes da obra, os quais o leitor faz bem em consultar diretamente a fonte, mas fornecer um panorama geral do que o autor entende ser a essência da alquimia.

Alquimia não tem a ver exatamente com transformar metais comuns em ouro, nem com a ideia de que a alquimia teria sido uma precursora da química moderna. Embora ambas as posturas de fato existiam de certa maneira no meio alquímico, Burckhardt as denuncia como fruto do preconceito moderno contra as antigas artes esotéricas, cujo objetivo se encontra mais além dos fins meramente utilitários e imediatos que a modernidade pressupõe.

De início, a título introdutório, Burckhardt salienta o fato de que o espírito humano, ao afastar-se da multiplicidade das coisas do mundo e ao mesmo tempo ao aproximar-se da unidade indistinta, ganha uma nova “visão” que não poderia ser detalhada e analisada tal como a visão que temos deste mundo. No entanto, este mundo passa a ser-lhe transparente, e o que deixa transparecer é o brilho dos arquétipos eternos, ou, caso a visão ainda não tenha se estabelecido por completo, deixa entrever ao menos os símbolos neste mundo que despertarão a “memória” ou a “intuição” desses arquétipos. Eis o que Burckhardt chama de “contemplação hermética da natureza”. Portanto, a despeito de ser uma visão vertical exata dos arquétipos, será necessariamente uma visão horizontal inexata do cosmo.

Ora, se os arquétipos “reúnem” a multiplicidade do mundo, ademais das possibilidades de manifestação que lhes são próprios, é justo que nos perguntemos o que causa essa multiplicidade. Trata-se, claro, da matéria, pois é ela o elemento passivo e receptivo de toda manifestação. No entanto, e aqui está um elemento importante para entender os processos alquímicos, a “matéria psíquica” também se comporta assim, ou seja, ela é similarmente o polo passivo e receptivo da alma.  Por outro lado, o polo essencial, formal, da alma é o espírito. Quando o espírito se projeta sobre uma matéria psíquica, imprime nela a “forma pessoal” da alma e, assim, constitui o ser pessoal. Assim como a luz de um ambiente se projeta em todos os lados, mas ao atingir uma superfície qualquer o raio de luz se reflete de acordo com as características dessa superfície, assim também o espírito ganha certa "pessoalidade" ao projetar-se sobre uma matéria psíquica. Assim, não é descabido nos referirmos a esse “espírito refletido” como o espírito pessoal do ser individual em questão.

Para que a alma se livre de suas turbações é preciso que alma e espírito se livrem de seus vínculos toscos e superficiais. É como se ambos se divorciassem para se casarem novamente depois. Tipicamente, a matéria amorfa se põe ao fogo, derrete, purifica e, finalmente, concreta-se em um cristal perfeito. Aqui entra uma curiosa associação entre a alquimia e a astrologia, já que ambas derivam do mesmo legado hermético, assim como a Terra e o Céu se relacionam entre si. Enquanto o astrólogo indica o significado do zodíaco e os planetas, o alquimista indica o significado dos elementos e os metais. Os doze signos do zodíaco são uma imagem simplificada dos arquétipos que, de forma imutável, contém o espírito. Por outro lado, os elementos fogo, ar, água e terra mostram materialmente as diferenças fundamentais da materia prima (cabe não confundir materia prima, conforme entendido pelos escolásticos e pelos adeptos do perenialismo, com a matéria-prima da indústria moderna; cf. RenéGuénon). Observe, portanto, que “acima” estão os astros, que “espelham” o espírito, e “abaixo” estão os elementos, que “espelham” a matéria. À medida que os planetas se situam em suas distintas posições mútuas, eles “realizam” as possibilidades contidas no zodíaco, representando temporalmente as possibilidades contidas nesse zodíaco, representando assim os modos de operar do espírito que “descende” do Céu à Terra. Da mesma forma, os metais (prata, mercúrio, cobre, ouro, ferro, estanho, chumbo) são os primeiros frutos da materia prima maturados pelo espírito. Em suma, as propriedades cósmicas se manifestam ativamente nos planetas e passivamente nos metais. Por ser passivo e inerte, os metais expressam um estado de conhecimento íntimo, desligado de formas racionais, isto é, trata-se de um conhecimento interior do próprio corpo caótico, opaco, embaçado pelas paixões e hábitos. No corpo, a alma e o espírito encontram-se como que “viscosos”, obscurecidos, misturados com a terra; no entanto, uma vez purificado, o “metal nobre” adquire um modo de existência espiritual.

No entanto, para converter os metais comuns em prata e ouro é necessário antes reduzi-los à sua materia prima. Assim também é necessário que a alma se livre de suas concreções e contradições interiores sob pena de não ser dúctil o bastante para que o espírito lhe imprima uma nova forma. A materia prima da alma é a substância básica da consciência, mas, também, é a substância de todas as almas e de todo o cosmo. Mas que não pense o leitor que a alquimia tenha qualquer valor psicoterápico. Não se trata disso, mas, pelo contrário, o alquimista necessita antes dissolver suas inibições e “complexos” preexistentes para estar apto a executar a obra alquímica. A redução alquímica da alma, ou seja, a redução do consciente diferenciado (individualizado) ao consciente indiferenciado, produz um obscurecimento da alma, uma entrada a um estado caótico, a um estado que Burckhardt chama de “matéria bruta” (me parece algo semelhante à materia secunda dos escolásticos), estado no qual a alma, embora não esteja em seu estado de pureza original (não é materia prima), contém possibilidades diferenciáveis, ou seja, possibilidades ainda não definidas de maneira clara e ordenada. Mas o consciente descobrirá, mais adiante, o “fundo da alma”, ou seja, o espelho da alma humana, a materia prima, capaz de refletir a luz do espírito universal de maneira límpida. Assim, o caos da alma, a “matéria bruta”, é como o chumbo, e o fundo da alma é como a prata.

A materia prima, como essência receptiva, é afim à Natureza, ou seja, à “força unitária” que dá ritmo universal tanto ao mundo exterior quanto ao mundo interior. É a shakti, que, segundo Burckhardt, abraça amorosamente a todos os seres e, ao mesmo tempo, tiraniza todos os seres com sua força destruidora, com a morte, com a ação do tempo e do espaço. A cor da shakti é escura. A Natureza é a força motriz das transmutações, é a “energia potencial” das coisas. Aqui cabe observar que a obra da Natureza, da shakti, é uma ininterrupta sucessão de dissoluções e cristalizações, na qual a dissolução é apenas um primeiro passo para a conjunção de uma nova forma na matéria. Similarmente, o alquimista, sob o lema solve et coagula, dissolve as concreções imperfeitas da alma, as reduz à sua matéria e as cristaliza novamente em uma forma mais nobre. Mas como isso ocorreria? Ora, a obra só pode ser realizada em harmonia com a Natureza, com a shakti, como se ela provesse uma espécie de “vibração” espiritual engendrada durante a obra e que enlaçasse o reino humano com o reino cósmico. Na Natureza, o enxofre alquímico representa o polo ativo e o mercúrio representa o polo passivo, e não é difícil deduzir que a relação mútua de ambos polos é simular à relação sexual do homem com a mulher. Por conseguinte, na psique humana, o enxofre denota o espírito, a vontade, enquanto o mercúrio denota o aspecto receptivo, passiva ou “plástico” da alma. Da perfeita união de ambas as causas procriadoras nasce o ouro. No campo físico a Natureza se manifesta em quatro propriedades, a saber: calor e secura (enxofre) e frio e umidade (mercúrio).

Aqui cabe citar Burckhard textualmente:

As quatro propriedades naturais ou modos de operação associados, respectivamente, com enxofre e mercúrio, podem, de acordo com o ciclo de cristalizações e dissoluções, ser variadamente ligados entre si. A geração só ocorre quando as propriedades do enxofre e do mercúrio se interpenetram. Se a secura do enxofre se unir exclusivamente ao frio do mercúrio, de modo que a fixação e a contração se acumulem sem que o calor expansivo do enxofre e a umidade resolutiva do mercúrio neutralizem a combinação, então um congelamento é produzida em todo o organismo psíquico ou corporal; no plano vital é o congelamento da velhice, e no plano ético, a ganância; de forma mais geral e ao mesmo tempo profunda, é a limitação da consciência individual a si mesma, o estado de morte da alma que não conservou sua receptividade e vitalidade originais em relação ao espírito ou ao mundo dos objetos. Ao contrário, uma associação exclusiva das propriedades calor-umidade, ou expansão-dissolução, determina a volatilização das forças; equivale ao estado de dissolução da paixão, do vício e da dispersão do espírito. É significativo que ambos os desequilíbrios geralmente se manifestem ao mesmo tempo. Ocorre que um engendra o outro: o congelamento das potências da alma leva à dispersão, e o fogo de uma paixão desenfreada causa a morte interior; a alma mesquinha em si mesma e fechada ao espírito será arrastada pelo turbilhão das impressões que se dissolvem. O equilíbrio criativo é alcançado quando a força expansiva do enxofre e a força adstringente do mercúrio mantêm o equilíbrio no fiel da balança, enquanto a força fixadora do elemento masculino se liga frutuosamente com a faculdade resolutiva do feminino. Este é o verdadeiro "casamento" de ambos os polos.

O alquimista alcança a plenitude graças à obra hermética, pois ela domina as forças primordiais do enxofre e do mercúrio que nele se encontram em estado de “matéria bruta”, caótica e latente em sua alma. O corpo do alquimista serve de ponto de apoio da obra, desde que esteja limpo das febres da paixão, pois será ele que atuará como “ponte” objetiva ente o microcosmo humano e o macrocosmo e permitirá ao alquimista atingir um estado contemplativo.

Do ponto de vista psicológico, o ego não apenas não é o núcleo da personalidade como é algo que separa a consciência (eu) da luz do espirito puro, ou seja, é o ego que impede que a luz atinja a consciência. A Psicologia é por definição incapaz de observar a luz porque a alma humana é incapaz de sair de si mesma e observar sua própria fonte, assim como é impossível iluminar o sol com um espelho. Portanto a consciência, o campo psíquico, encontra-se como que envolta por dois inconscientes: um inconsciente espiritual (cf. Jean-Claude Larchet), que vem de cima e é impenetrável, e um inconsciente inferior, que vem de baixo, e em si é amorfo e puramente potencial.

A obra alquímica se divide em fases, as quais Burckhardt relaciona com a cosmologia hindu. Novamente vale a pena ler tal descrição em suas próprias palavras:

Sem dúvida a divisão mais antiga é a que designa as fases ou etapas da obra com cores, e possivelmente se deriva de um determinado processo metalúrgico, como a limpeza e coloração de um metal. A partir do enegrecimento (melanosis, nigredo) da matéria ou da “pedra” se dá o branqueamento (leucosis, albedo) e, por fim, a vermelhidão (iosis, rubedo). [...] É curioso que as três cores básicas – negro, branco e vermelho – designem, na cosmologia hindu, os três movimentos básicos (gunas) da materia prima (prakriti), a saber: o negro se associa ao movimento que se aparta da luz original e que simbolicamente se dirige para baixo (tamas); o branco representa a ascensão em direção à luz da origem (sattwa), e o vermelho simboliza a tendência à expansão no plano da própria manifestação (rajas). Se transferimos estes significados à obra alquímica, nos surpreende que seja o vermelho e não o branco a cor que represente o resultado final, enquanto a doutrina hindu do cosmo estabelece que, primeiro, tamas, a força descendente, se ancora na obscuridade; então rajas, ao estender-se em sentido horizontal, desenvolve a pluralidade, e, por fim, sattwa sobe como uma chama branca e luminosa e a devolve à sua origem. No entanto, precisamente as três cores alquímicas na cosmologia hindu indicam com clareza o ponto de vista da alquimia e o alcance de seu simbolismo. Depois da “espiritualização do corpo” que, de certa forma, representa o branqueamento e que procede o enegrecimento ou putrefação, se produz, finalmente, a “corporificação do espírito”, com sua cor púrpura.

Portanto, Burckhardt conclui que a transformação de metais comuns em ouro não é o verdadeiro propósito da alquimia. Pelo contrário, quem persegue este objetivo jamais o obterá. O que o alquimista deve almejar é que a obra, a obtenção do elixir, sirva de apoio simbólico à sua transformação interior. Burckhardt não descarta a possibilidade, bastante plausível em sua opinião, de que o alquimista, portador já do “ouro” em seu interior, obtenha ouro também na obra alquímica, ou seja, que se realize uma transformação metalúrgica a partir de uma transformação espiritual. Tal opinião se sustenta na ideia de que tal “milagre” não seria menos espantoso do que o milagre da transformação interior. O salto que se produz no interior do homem, que necessariamente tem de contar com a ajuda do Alto, também pode perfeitamente se produzir na obtenção do ouro na obra alquímica.

Fonte: Titus Burckhardt, Alquimia, Plaza & Janes Editores, Esplugas de Llobregat, Espanha, 1976.

28 de novembro de 2005

Ciência Moderna e Sabedoria Tradicional

O germano-suíço Titus Burckhardt (1908-1984) dedicou sua vida ao estudo da cosmologia, da metafísica e das artes tradicionais. A exemplo de René Guénon e de boa parte da chamada escola tradicionalista (ou escola perenialista), Burckhardt centra suas análises a partir de aspectos antitradicionais da modernidade. Ele nos lembra que há, sim, um conhecimento que transcende a razão; no entanto, há dois grandes obstáculos que impedem o homem moderno de alcançá-lo. Primeiro, o significado da simbologia simplesmente nos é desconhecido. Segundo, o pensar estritamente científico, no sentido moderno e quantitativo da palavra, limita nossa imaginação.

Os quatro ensaios que exporei abaixo, escritos em alemão ao longo da década de 1970, procuram precisamente explicar, sob diferentes aspectos, que tipo de conhecimento é esse e como a modernidade o perverteu. Reunidos posteriormente numa edição espanhola intitulada Ciencia Moderna y Sabiduría Tradicional (os ensaios III e IV também foram traduzidos para o inglês e podem ser encontrados aqui), Burckhardt começa introduzindo o leitor nos fundamentos da cosmologia perene, para então mostrar como sua má aplicação prejudica o entendimento moderno em três ciências: Física, Biologia e Psicologia. Há ainda um quinto ensaio sobre a Divina Comédia (Dante Alighieri), que deixarei para analisar em outra oportunidade.

Sempre é bom lembrar que o resumo foi feito com minhas próprias palavras, a partir do entendimento que pude extrair da leitura. Às vezes, traduzi frases inteiras nos trechos que enfrentei maior dificuldade de entendimento. De qualquer forma, todas as incongruências devem ser debitadas na minha conta, jamais na do autor.


* * *

I - Cosmologia Perene

No mundo tal como é realmente, corpo, mente e espírito se entrelaçam numa ordem mais complexa do que somente "coisas" espalhadas e niveladas igualmente. Segundo as doutrinas tradicionais, o universo divide-se em três esferas: a corpórea (dada pela matéria, pelo número, pelo espaço e pelo tempo), a psíquica (livre das codições corpóreas mas ainda limitada) e a espiritual (totalmente livre de condições existenciais).

Para o homem moderno, no entanto, somente os dados registrados e medidos são reais, o que acaba engendrando uma visão um tanto totalitária do mundo. Mesmo a psicologia moderna, que poderia aliviar a visão totalitária do homem moderno, não consegue mais do que fazê-lo oscilar entre a "realidade" única das coisas exteriores e um subjetivismo psicológico desorientativo.

Ora, dizer que a Terra é plana, como os antigos poderiam eventualmente supor, é um erro muito menor do que afirmar, como os modernos o fazem, que a percepção sensorial é apenas um processo físico. Isso porque aquele é um erro sobre um aspecto particular do mundo criado enquanto este é um erro sobre a natureza do mundo criado.

Uma ciência que se limita ao corpóreo não pode ser designada como "cosmologia". Isso se explica pelo fato de que kosmos, em grego, implica em forma, uma lei interior que, conforme vimos em estudos anteriores, é negada pelos modernos. Esse aspecto qualitativo não pode ser apreendido somente pela razão, mas principalmente pela intuição espiritual, que Guénon denominava intuição intelectual.

A intuição espiritual, ao contrário do que o consenso moderno ensina, não é feeling nem premonição. A verdadeira intuição espiritual é ainda menos subjetiva do que as verdades às quais a razão chega. Por exemplo, a intuição espiritual, em seu grau mais elevado, pode referir-se à essência do próprio Deus. Ora, trata-se de uma verdade muito superior a qualquer teologia. Em resumo:

  • Teologia: deduz e ensina a partir de dogmas, limitando-se a uma visão pessoas de Deus como criador, conservador e redentor.
  • Intuição espiritual: não está ligada a nenhuma forma pré-fixada, penetrando até o fundo suprapessoal da Divindade, do Absoluto.
Ora, a metafísica é precisamente a visão espiritual que se abre ao Absoluto, ao Infinito ("para cima"). A cosmologia, por sua vez, se abre à existência, ao mundo criado ("para baixo"), mas precisa de uma metafísica para que dela extraia suas certezas últimas.
A teologia precisa validar-se a partir de uma infraestrutura cosmológica coerente. O homem moderno, ao valorizar excessivamente os progressos materiais, obstaculiza o conhecimento da onipresença e onipotência de Deus ao subordinar os aspectos qualitativos aos quantitativos. Tal postura gera erros cosmológicos que, para serem corrigidos, precisam de um "antídoto": uma visão metafísica de Deus. A concepção metafísica, por exemplo, jamais cairá na tentação de considerar um aspecto parcial do cosmo (o mundo corpóreo) como algo independente.
O objeto da cosmologia é a existência diferenciada, criada; seu pressuposto é a doutrina do Ser unitário, compreendida por sua vez na doutrina do Infinito e do Absoluto da metafísica pura. Portanto, o saber tradicional garante conhecimentos incomparavelmente mais profundos e reais do que todos os ensinamentos da ciência moderna, embora às vezes, no plano meramente empírico, as representações do saber tradicional sejam "ingênuas", isto é, simplesmente humanas.
Segundo a cosmologia cristã, o Logos é a origem do universo, a quintessência da existência na qual estão contidas todas as coisas criadas: "Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. " (João 1:3-9).
Este aspecto cosmológico do Logos pode ser melhor descrito pela concepção de Plotino, segundo o qual o Espírito, emanado do Uno, olha o Uno e o reflete, trazendo objetividade àquilo que vê. Essa objetividade não é uma ação material, mas uma emanação, já que nada é subtraído do Uno. É fácil perceber que o Espírito é o próprio Logos, o Intelecto.
Não há dúvida de que existe uma diferença entre a representação bíblica da criação e a doutrina plotiniana da emanação da existência a partir do Uno. Mas essa diferença não é difícil de superar, uma vez que enfocamos as terminologias com o devido cuidado. Por exemplo, a Bíblia ensina que Deus criou o mundo do nada. Isso quer dizer que não havia matéria fora de Deus. Similarmente, a metafísica plotiniana ensina que o mundo emana de Deus. Outro exemplo: a Bíblia ensina que o mundo começou no mesmo momento em que Deus o criou. Segundo os filósofos gregos (Plotino inclusive), o cosmo é uma expressão de Deus e, portanto, eterno. A aparente contradição é facilmente solúvel quando entendemos que o começo do mundo não é de natureza temporal, embora o expressemos como tal pois necessitamos de uma representação simbólica que dê conta da ação de Deus.
A cosmologia cristã -- bem como a islâmica e a hebraica -- tomou de Aristóteles o pensamento analítico e de Platão a teoria dos arquétipos. Mas o que isso tudo tem a ver com fé? Ora, enquanto a cosmologia tem um caráter cognoscitivo impessoal, a fé parte de uma decisão pessoal a partir de algo pré-sentido ("a fé vem pelo ouvido"). Pois a visão antiga e medieval do mundo -- cosmologia e filosofia -- estavam estreitamente vinculadas entre si. Separaram-se precisamente quando a cosmologia se reduziu a uma mera descrição do universo visível; assim, a filosofia perdeu seu fundo universalmente válido e assume gradualmente o caráter solitário, oportunista e arbitrário que hoje a caracteriza.
II - Ciência Ignorante
Neste ensaio, Burckhardt aplica os conceitos cosmológicos e metafísicos descritos acima na análise da Física moderna. Segundo o autor, todos os erros das chamadas "ciências exatas" provém de uma má compreensão fundamental: a de que a existência do sujeito humana é prescindível nas experiências e teorias. Ora, é justamente no espelho contido no homem que os fenômenos do mundo se revelam.
Isso quer dizer que o conhecimento objetivo do mundo pressupõe certos critérios indiscutíveis que existem precisamente no sujeito individual. Afinal, tem de haver um fundo imparcial que traz unidade à ciência: é o espírito puro. Sem perceber, o homem moderno o afirma ao propor a objetividade absoluta da ciência. Ocorre que, ao matematizar tudo, a ciência moderna capta apenas o aspecto quantitativo dos fenômenos que visa explicar, peneirando o qualitativo. Para a cosmologia tradicional, são justamente os aspectos qualitativos, que transcendem os quantitativos, que interessam. Por exemplo, para o homem moderno, as cores não passam de impressões subjetivas de diferentes graus de oscilação de luz.
Nesse processo de peneiragem, a ciência moderna despreza não só as qualidades secundárias (cor, odor etc.) mas também a essência, a forma. Tal essência não se descobre por uma árdua investigação científica (moderna) simplesmente porque não são mensuráveis. Eis por que a cosmologia é direta e especulativa, pois capta as verdades de forma imediata, sem rodeios. São, digamos, "verdades poéticas". Se considerarmos a dimensão horizontal como a da existência material, a dimensão das qualidades cósmicas é vertical, pois une o inferior com o superior, o transitório com o eterno.
O suposto progresso científico é altamente duvidoso. Uma dominação não-sábia da natureza provoca conseqüências desastrosas (p.ex.: poluição, fissão atômica, controle de natalidade etc). Isso acontece porque a ciência moderna é manca, ou seja, é uma mistura de sabedoria com ignorância: enquanto a matemática lida com as características descontínuas do número, as relações contínuas e sutis são olimpicamente ignoradas.
Uma questão física que é aos modernos difícil de lidar é a respeito dos campos magnéticos. Como os campos magnéticos se sustentam? Afinal, não pode haver espaço vazio, uma típica intuição que o homem moderno não tem.
Segundo a cosmologia tradicional, o espaço está uniformemente cheio de éter. Todavia, logo depois de comprovar que não há obstáculos para o movimento de rotação da Terra, a Física moderna conclui que o éter não existe. Ora, os físicos modernos esquecem-se que este "quinto elemento", que constitui o fundamento de todos os modos de ser materiais, não possui em si nenhuma qualidade física particular. Ele representa, na verdade, o fundo contínuo do qual se destacam todas as descontinuidades materiais, de modo que não pode se opor a coisa alguma. Portanto, a inexistência do éter não poderia ter sido concluída após verificar-se que a Terra não possui obstáculos ao seu movimento.
Se a ciência moderna aceitasse a presença do éter, talvez pudesse responder se a luz se propaga como onda ou como emanação corpuscular. Ora, é provável que a propagação da luz não se explique nem de uma forma nem de outra: a luz está em relação direta com o éter e, como tal, participa da sua natureza contínua e indiferenciada. A luz é contínua como o éter.
Outro dilema diz respeito à relatividade. Supõem-se que a famosa velocidade da luz é "constante". Mas como pode um movimento com uma determinada velocidade, cuja definição seguirá sendo uma determinada relação entre espaço e tempo (km/s, por exemplo), ser em si mesmo a medida absoluta das condições do estado físico? Ora, claro está que a natureza da luz é fundamental para todo o mundo físico e que o movimento da luz representa algo assim como a "medida cósmica" do mundo. Mas por que se ater infantilmente ao valor 300.000 km/s? Ou seja, como pode a velocidade da luz ser fixa se a velocidade é medida por tempo e espaço, que são em si mesmos relativos?
É possível, portanto, que todas as distâncias entre os astros calculadas em "anos-luz" tenham uma validez tão subjetiva quanto as relações de qualquer cosmologia "obsoleta", sem falar que o conhecimento da natureza está condicionado aos limites de nossas faculdades sensoriais.
A doutrina tradicional ensina que as matérias -- visíveis ou invisíveis -- são compostas entre dois pólos: a essência plasmadora (introjetada pela ação imóvel do espírito criador) e a matéria indiferenciada (a materia prima). É como a luz incolor da qual originam-se cores num meio também incolor (água, cristal etc). No entanto, a Física moderna reduz tudo ao mundo corpuscular, ou seja, à quantidade. Fazendo isso, a Física aproxima-se perigosamente da indeterminação, afastando-se da determinação qualitativa. É o caso da cisão atômica, por exemplo.
Embora os homens antigos e medievais tivessem concepções físicas errôneas, eram sabedores de algo infinitamente mais importante: que a realidade não está limitada à matéria. Curiosamente, o homem moderno sabe que uma pequena irregularidade nos movimentos astronômicos, a inclusão de um astro estranho no sistema planetário, uma variação na trajetória solar ou qualquer outro acidente cósmico bastaria para destruir a humanidade. Não obstante, o homem moderno vive e atua como se o desenvolvimento normal e cotidiano dos ritmos da natureza lhe estivesse assegurado. Ele não pensa nem nos abismos do mundo estelar nem nas terríveis forças latentes em cada elemento da matéria. Ele contempla o céu acima de si como qualquer menino, com o Sol e as estrelas, pois a lembrança das teorias astronômicas o impede de conhecer os signos vivos, tornando-o incapaz de vê-los como são: a manifestação natural do Espírito que engloba o mundo e o ilumina.
III - A Origem das Espécies
Burckhardt inicia sua explanação sobre a origem das espécies lembrando que as quantidades se somam, mas as qualidade não: elas assumem uma nova característica, que participa de certa forma das outras mas, em verdade, é algo novo. É como a mistura de azul com amarelo com a qual se obtém o verde. O verde é um salto qualitativo em relação às cores anteriores.
Na natureza, as coisas funcionam assim também. Entre o ovo e o pássaro, entre a mariposa e a larva, há uma diferença qualitativa, um salto. Essa qualidade é dada pela forma, que, conforme vimos nos estudos anteriores, é a quintessência das qualidades de uma coisa ou de um ser, a marca de sua essência imutável.
No mundo individual ao qual nossos sentidos têm acesso, as coisas são compostas por forma (que, em essência, não é individual, mas um arquétipo) e matéria (física ou psíquica). A forma é, em outras palavras, uma unidade cognoscitiva e, como tal, está contida primordialmente na unidade mais ampla do Espírito.
Ora, com respeito aos indivíduos, a espécie (species) é um arquétipo, isto é, não é uma mera abrangência de um grupo mas uma unidade lógica ou ontológica, uma forma existencial indivisível. Por tanto, a espécie não pode "evoluir", ou seja, não pode passar gradualmente a outra espécie. Embora a espécie possua subespécies, estas ainda representam reflexos da mesma forma essencial, do mesmo arquétipo.
Pois é precisamente a confusão entre espécie e subespécie a base de toda a teoria evolucionista. Para a teoria evolucionista, uma variante de um pássaro é entendida como uma nova espécie. Ora, mesmo que eliminássemos as fronteiras entre uma espécie e outra, ainda assim estariam separadas entre si por diferenças abismais. Pois nem sequer existem formas que indiquem uma possível conexão entre as diversas ordens de seres vivos, como peixes, pássaros, répteis e mamíferos. Na verdade, pela própria lei da seleção natural, os "projetos" de uma nova espécie deveriam ser muito mais numerosos do que os antepassados.
É verdade que a paleontologia demonstra uma ordem ascendente de manifestações animais. Mas isso se explica pelo fato de que, no plano material, o que é relativamente informe e inarticulado precede sempre ao mais complexo, já que toda "matéria" é como um espelho que reflete, invertendo-a, a atividade dos arquétipos. Enquanto a essência dos arquétipos contém possibilidades riquíssimas por ser indivisível, no plano material as formas simples iniciais são pobres e as mais ricas estão subdivididas; assim, a semente existe antes do que a árvore e o botão existe antes do que a flor. O que é válido para o ser físico singular vale também, em conjunto, para o mundo animal e vegetal. Em suma, é como se o arquétipo dos arquétipos animais manifestasse no conjunto dos animais: assim como o embrião preceder o homem está para o arquétipo Homem, os animais mais simples precederem os mais complexos está para o arquétipo dos animais. Mas isso, em hipótese alguma, dá margem para uma "evolução de arquétipos". Não só não há elos perdidos como há espécies que imitam outras sem nunca deixar de ser o que foram (por exemplo, a baleia).
Todo arquétipo é um espelho que reflete a todos os demais arquétipos que, por sua vez, o refletem. O arquétipo Mamífero reflete todos os arquétipos abaixo dele (por exemplo, Cão, Gato, Baleia) que, por sua vez, refletem o arquétipo Mamífero. O fato de que os tipos cósmicos estejam compreendidos uns nos outros remete, em última instância, à unidade do Ser.
Em última instância, a tese evolucionista é uma tentativa dirigida não tanto a negar completamente o "milagre da criação", mas a isolá-lo. Em suma, o evolucionismo e todas suas contradições intrínsecas resultam da incapacidade própria da ciência moderna de conceber dimensões da realidade que não sejam encadeamentos puramente físicos. Logicamente, a origem das espécies só se aplica a partir da gradual emanação das realidades, conforme vimos acima.
Para melhor entender a descendência vertical das espécies, é preciso saber que a matéria que compõe este mundo físico nem sempre teve o mesmo grau de dureza cósmica. É como se a realidade física se "endurecesse", ou seja, se tornasse cada vez menos plasmável. Isso significa que, no plano da existência superior ao estado físico, os diversos tipos de animais estavam presentes como formas não-físicas no mundo sutil. Dali descenderam à existência física enquanto esta estivesse disposta a recebê-los.
IV - Psicologia Moderna
Burckhardt inicia sua análise da psicologia moderna face à sabedoria tradicional lembrando de um dilema já conhecido por Jung: todo julgamento feito pelo psicólogo tem de ser subjetivo pois a psique do próprio psicólogo é subjetiva. Ou, em outras palavras, a psique é o objeto da psicologia e ao mesmo tempo é o sujeito da psicologia.
No entanto, há algo em nós que escapa a essa limitação subjetiva, conseguindo percebê-la desde acima. Este algo não é outra coisa senão o espírito, o que os latinos chamavam de intellectus. Mas atenção: não confunda intelecto com razão; a razão reflete mentalmente o espírito mas é limitada ao setor ao qual está sendo aplicada. Como o homem moderno só admite dados empíricos então a razão fica limitada e esse setor. Portanto, não é de espantar que o homem moderno considere os fenômenos psíquicos como "irracionais".
Enquanto os fenômenos corpóreos podem ser observados com objetividade por um clínico, os fenômenos psíquicos não podem ser observados com a mesma objetividade por um psicólogo. Isso acontece porque o psicólogo tem de incluir o seu "eu" na experiência. É o dilema da alma tentando captar a alma. Eis aí um dos erros mais primários cometidos pela psicologia moderna: supor que o psicólogo pode se "distanciar" das experiências relatadas pelo paciente.
O psicólogo precisa de algo "acima" das experiências, de algo que o ajude a transcender o plano dos fenômenos: em suma, uma metafísica. A inteligência tem de ser algo que ultrapasse a psique.
Há dois critérios que situam a psique em seu contexto cósmico adequado: (1) a cosmologia e (2) a moral, devidamente enfocada por uma meta espiritual. A razão de ser desses critérios pode ser explicada mais ou menos assim: um rio, para mostrar o seu vigor, precisa de um obstáculo no meio do caminho, como uma rocha, um pedaço de madeira fincado no fundo do rio ou mesmo uma curva. O rio é o fluxo constante da psique, enquanto o obstáculo é o princípio imutável que mostrará à psique suas inclinações e tendências.
  • Cosmologia = dimensão impessoal e teórica da psicologia tradicional.
  • Moral = dimensão pessoal e prática da psicologia tradicional.
Ambas, juntas, dão uma visão desde acima da própria psique: é o autoconhecimento. Para a psicanálise, a moral não passa de costumes sociais que podem, algumas vezes, ser úteis mas que, geralmente, impedem o desenvolvimento normal da psique. O psicanalista torna-se então o novo sacerdote que, ao conseguir extrair os complexos reprimidos do paciente, lhe dá a absolvição dos pecados. O paciente, ao invés de distanciar de suas tendências, acaba assumindo-os como se esse fosse seu legítimo "eu".
O verdadeiro sacerdote, por outro lado, é o vigário da Verdade. O arrependimento cria uma distância entre o fiel e suas tendências caóticas e tenebrosas, possibilitando-lhe que as objetive e que restabeleça o equilíbrio com Deus. Isso acontece porque o sacerdote expressa e dá testemunho de uma presença superior.
Eis por que as doutrinas tradicionais da salvação são tão diferentes da "salvação" psicoterápica: aquelas sabem que a psique não pode curar a si mesmo. As tradições sabem que a "cura" pode vir de duas fontes: (1) do corpo, ao reequilibrar a dosagem de certas substâncias, ou (2) do espírito.
Quando a psicologia moderna atribui a um rito alguma efetividade, o remete a certas disposições psíquicas de origem ancestral. O psicólogo moderno jamais se questiona se há um sentido atemporal e sobre-humano nos ritos ou nos símbolos, como se a alma pudesse curar-se crendo na projeção ilusória de suas próprias preocupações.
Para entender um pouco melhor essas explicações, Burckhardt explica os diversos "mundos" lançando mão de uma comparação geométrica. Imagine círculos concêntricos. O círculo central representa o mundo corpóreo. Os círculos intermediários representam os diversos graus do mundo psíquico (também chamado de mundo sutil). O círculo mais externo representa o Espírito puro. Observe que os círculos mais externos contêm os círculos mais internos. Observe também que o círculo de menor abrangência é o interno, isto é, o mundo corpóreo.
Evidentemente, não é a alma individual que engloba o mundo físico; é o estado sutil inteiro que o engloba. Por um lado, a consciência subjetiva -- que é o objeto da psicologia -- acaba separando a alma de seu contexto cósmico, fazendo-a parecer isolada do mundo exterior e de sua ordem universalmente válida. Por outro lado, a mesma consciência subjetiva se serve de suas próprias faculdades congnoscitivas na confiança de que elas correspondam à ordem cósmica total. Há aí como que um processo de diferenciação e integração: a consciência individual "se separa" do mundo ao mesmo tempo que confia que ela pertença a uma ordem cósmica comum a todas as consciências individuais. É mais ou menos como se, ao mesmo tempo que sabemos que nossa alma é nossa alma, soubéssemos também que ela está imersa num mundo sutil comum a todas as almas. É o peixe que, embora sendo o peixe individual que é, também está imerso num oceano ("mundo") comum a todos os peixes e que, de certa forma, tal oceano afeta todos os peixes.
Por exemplo, a consciência de alguém que dorme e está sonhando é permeável aos influxos que atuam sobre ela advindos de diversas regiões do mundo sutil, como demonstram as premonições ou telepatias. Os sonhos podem ser feitos de recordações ou de "pegadas" de transfusão psíquica de um indivíduo a outro, embora tais casos sejam raros. Também podem ser introjetados por um Anjo, algo que fica patente naqueles sonhos que permanecem mesmo após acordarmos. Há também os sonhos infernais, que são introduzidos por uma "porta aberta" deixada pelo indivíduo. Essa "porta aberta" é normalmente alguma paixão. Esse tipo de sonho costuma pretensiosamente mesclar Deus com o "eu" pessoal, um orgulho tipicamente diabólico.
Entendemos ainda melhor essa diferenciação e integração das consciências quando nos damos conta que é o plano essencial (eidos) que as une e que é o plano material (hylé) que as diferencia. A dimensão essencial, no simbolismo da cruz, é representado pelo eixo vertical que une as consciências para além da forma que têm, enquanto o eixo horizontal é o plano sutil/psíquico que dá a cada consciência sua forma diferenciada mas, ao mesmo tempo, também as une, num certo sentido, no plano psíquico em que todas se encontram. Pode parecer estranho, à primeira vista, falar de "matéria" para a psique. No entanto, a psique ainda não é espírito puro e, portanto, possui suas determinações características, mesmo não possuindo um corpo físico próprio.
As dimensões vertical e horizontal de qualquer fenômeno psíquicos são essenciais para entendê-los. Isso é ainda mais válido para os fenômenos psíquicos, que são altamente complexos e podem ser um entrelaçamento de várias respostas: impressões sensoriais, manifestações de desejos, conseqüências de ações transcorridas, traços de disposições típicas ou hereditárias do indivíduo, expressões de seu gênio, reflexos de realidades supraindividuais etc.
Os eixos da cruz ajudam a entender que os arquétipos, segundo a utilização tradicional (platônica) do termo, são as fontes do ser e do conhecimento, e não, como pretende Jung, disposições inconscientes da ação e da imaginação. Similarmente, os instintos não são apenas uma série de reflexos automáticos da inteligência mas, na verdade, são determinações primordiais e qualitativas da própria espécie. Jung negava esta realidade, explicando os instintos a partir de "resquícios" meramente evolucionistas dos homens primordiais.
Retirando a psique de seu eixo vertical e considerando o homem apenas como um ser evoluído, não é à toa que Jung atribuía à psicanálise um caráter iniciático, como nas tradições esotéricas. Os Pais da Igreja, que não duvidaram em designar o batismo e a confirmação como ritos iniciáticos, não mais faziam do que uma "análise do inconsciente".
É verdade que Jung rompeu certos moldes puramente materialistas da ciência moderna, mas não nos resulta de nenhuma utilidade, dado que os influxos que se infiltram através dessa brecha procedem de setores psíquicos sinistros, e não do Espírito.