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8 de janeiro de 2026

A ética do delito: Jesus vs. Paulo


Para o homem religioso o espaço não é homogêneo. (Mircea Eliade)

Muito se fala sobre a divindade de Jesus Cristo, sua natureza, vontade, graça, substância, unigenitude etc., mas pouco se fala sobre sua humanidade. O teólogo espanhol José María Castillo defende a tese de que o homem se torna mais divino à medida que se faz mais humano. E não só isso: é da essência da religião desumanizar o fiel. Por isso não é incomum encontrar pessoas profundamente religiosas e profundamente desumanas. Castillo explica esse fenômeno, que é nuclear em seu pensamento, da seguinte forma: os anseios elevados que os homens religiosos vivem em suas intimidades secretas os levam a pensar que são mais que humanos; em outras palavras, as pessoas que estão persuadidas de que possuem graças e saberes divinos invariavelmente concluem que valem mais do que as pessoas que possuem apenas saberes humanos. O fato religioso rompe a homogeneidade do real de que falava Mircea Eliade, fazendo com que o divino se anteponha ao humano.

Ora, lidar com o real significa lidar com nossa humanidade, com nossas potências. Não nos relacionamos com o real a partir do divino. Se nos livros sagrados Deus se apresenta de forma vingativa, violenta, cruel, criminosa, então evidentemente não se trata de manifestações de Deus. A religião deforma a imagem de Deus e, por conseguinte, deforma o religioso.

As representações de Deus invariavelmente resultam em ânsias de poder e dominação. Isso vale desde a religião da Mesopotâmia (Marduk, e seu equivalente semítico baal, “Senhor dos senhores”, “Rei dos resis”) até os títulos gregos e latinos (kyrios, dominus, déspotes, týrannos, pantokrátor etc.). A relação que se estabelece é do tipo vertical: do poderoso ao fraco, do seguro ao inseguro, do que está acima (divino) ao que está abaixo (humano). A verdade de fundo do fenômeno religioso é dar sentido ao problema do mal. O homem estaria viciado pelo pecado e, por isso, seu pecado deveria ser limpo não pela relação com o humano, mas pela submissão ao divino.

Ocorre que o Apóstolo Paulo nunca conheceu Jesus Cristo. Sim, claro, ele descreve seu encontro com Ele, mas com o Cristo ressuscitado, com um “ser divino”. Paulo deixou claro (2 Cor 5:16) que o Cristo “segundo a carne” não lhe interessava. Em suma, Paulo não se interessou pelo conhecimento humano de Jesus Cristo, mas pelo seu aspecto puramente divino, ressuscitado. De fato, Paulo continuou fiel à tradição religiosa de Israel.

A maioria dos primeiros cristãos se formaram e se organizaram como cristãos sem poder conhecer a humanidade de Jesus. Fica assim evidente que o cristianismo pôde sobreviver e se difundir como mais uma religião, uma religião de redenção, centrada na “outra vida”. Não como uma forma de viver (a forma de vida vivida e explicada por Jesus), centrada “nesta vida”, com a esperança na plenitude da ressurreição futura obviamente, mas sempre começando pela humanização deste mundo.

Castillo entende que há duas formas de viver a fé, duas formas de salvação. (1) Quando Jesus diz “tua fé te salvou”, Ele se refere à libertação dos sofrimentos, de carências, de dores, de rejeições sociais e religiosas; ou seja, à restauração integral da pessoa. Claro que Jesus se importava com a relação com Deus, mas o fato é que ele não viveu a religiosidade como nós entendemos a religiosidade. Em outras palavras, para Jesus Cristo a religiosidade não é observação de rituais, mas comportamento humano. (2) Para Paulo, salvar tem a ver com o destino eterno da pessoa, um evento escatológico, vindouro, do “além”.

Há três circunstâncias em que Castillo nota claramente a diferença entre Jesus e Paulo: (a) a desigualdade no tratamento da mulher, (b) a condenação da homossexualidade e (c) a normalização da escravidão. Na história da religiosidade cristã, a Igreja apenas renunciou a determinados comportamentos depois, e somente depois, que as condições sociais e ideológicos do entorno não mais permitiam praticá-las. Foi o caso, por exemplo, da Inquisição e da escravidão. Não é a religião cristã que fornece os critérios a partir dos quais devem ser abolidas as crueldades e desumanidades, mas, pelo contrário, é a sociedade que “arrasta” a religião para que seja complacente e justa com os seus.

As consequências da religião paulina são: (1) temor ao Deus de Abraão, chegando a dizer que Deus destinou Jesus Cristo para sacrifício de expiação de pecados (Romanos 3:25), (2) o pecado como centro da salvação humana, e assim Deus, como uma espécie de justiceiro, concede a bênção aos que passam pela maldição do pecado; sim, pois não se trata apenas do sacrifício de “oblação” ou “comunhão”, mas de agressão, de humilhação, de destruição que recai sobre os mais fracos; o Deus de Paulo odeia o pecado, o Deus de Jesus ama o pecador; o centro das preocupações do Deus de Paulo é o pecado (porque rompe com o divino), o centro das preocupações do Deus de Jesus é o sofrimento (porque rompe com o humano). Confira como Caio Fábio se ocupa da questão do sofrimento.

A preocupação máxima de João Batista era com o tema do pecado., [...] a imagem do “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Quando os evangelhos começam a relatar o que foi e como se desenvolveu a vida, a atividade e os ensinamentos de Jesus, a abordagem de tudo o que se refere ao tema do pecado muda completamente. Assim, quando os evangelhos falam do “pecado” (hamartía), eles não pretendem teorizar sobre a maldade ou suas consequências, mas simplesmente afirmar que Jesus, quando se depara com o pecado, perdoa imediatamente, sem impor condicionamentos ou exigências, isto é, sem exigir confissão, arrependimento, propósito de emenda ou cumprimento de pendência do pecador. É o caso concreto do paralítico (Marcos 2:5, Mateus 9:2, Lucas 5:20). [...] Tanto que a relação de Jesus com os pecadores foi motivo de escândalo para os observantes religiosos, sobretudo os fariseus e os doutores da lei.

Nota-se que a ética de Paulo é a ética do pecado, enquanto a ética de Jesus é a ética do delito. Aqui Castillo usa a palavra delito não no sentido jurídico, mas no sentido social: delito é ocultar a realidade, é ocultar as causas e os motivos do sofrimento humano, das injustiças, desigualdades, humilhações, fracassos, aflições, de tudo o que aniquila o homem, tudo o que lhe desordena, corrompe, aliena. O religioso se compraz em observar os preceitos e, assim, tranquilizar sua consciência. Não é isso que quer Jesus Cristo.

Castillo entende que o Apóstolo Paulo estava imerso numa cultura gnóstica e estoica, na qual o sexo é visto com desconfiança e mesmo repulsa. O dualismo platônico (espírito vs. corpo) aliou-se ao dualismo oriental (Irã, Índia), atribuindo caráter ilusório aos sentidos e, assim, desembocando num dualismo anticósmico, que abre um hiato entre Deus e o mundo. O corpo, a matéria, é inútil e, pior, perversa, e engana o homem que busca sua salvação. Só a gnosis pode salvar. Eis por que Paulo nunca se interessou pelo “Jesus histórico”, pelo “Jesus humano”. A relação com o Ser Supremo implica uma suprema desumanização.

No entanto, o Pai apresentado por Jesus sempre acolhe, sempre perdoa, não pede explicações, não “acerta contas”. A ira que aparece em Jesus Cristo é contra os demônios, contra os causadores de sofrimento, contra os perseguidores, contra os religiosos que ameaçam.

Outro tema que chama a atenção é a autoridade. Paulo parece estar sempre exigindo obediência, como se suas palavras fossem a do próprio Deus, como se negar a ele seria renegar o próprio Deus. Com frequência se arroga o título de “apóstolo”, como se isso fosse um diploma, um título, uma “carteirada”. Jesus, pelo contrário, repelia discussões acerca de quem era maior ou menor, quem seria primeiro “no dia da glória” (“Não sabeis o que pedis”, Mateus 20:22, Marcos 10:38). Ademais, Jesus notou que Pedro queria evangelizar com poder e comando, e por isso não aceitava que o Messias seria crucificado como um criminoso qualquer (“Afasta-te de mim, Satanás”, Mateus 16:23).

Por fim, cabe comentar a questão do culto sagrado. Jesus organizava cerimônias, ofícios, rituais, cultos, atos? Não. Jesus exigia sacrifícios? Não. Jesus ensinou batismo, eucaristia, confissão, unção, casamento? Não. Jesus exigiu conversão do centurião romano, da mulher cananeia, dos samaritanos, dos gregos? Não. O que Ele queria então? Jesus queria misericórdia (fazer justiça), pureza de coração. O fator determinante em Jesus Cristo não era a religião, mas a humanidade e sensibilidade ante o sofrimento ou a felicidade. Dois fatos saltam aos olhos aqui: (1) nas bodas de Caná ele substitui a água das “purificações rituais” pelo melhor vinho de uma festa de amor, (2) ele expulsa os vendilhões do templo substituindo o lugar supostamente sagrado pela relação pessoal. Na teologia de Jesus Cristo a adoração a Deus não se dá num espaço específico, mas “em espírito e verdade” (João 4:21-24). Os cristãos se reconhecem não pela igreja ou ritual que frequentam, mas pelo muito que se querem mutuamente (João 13:33-35).

Deus faz cair a chuva e o sol sobre bons e maus, Deus acolhe o filho extraviado, Deus se alegra no banquete com vagabundos de todos os tipos. Jesus Cristo não fundou nenhuma igreja ortodoxa, católica ou evangélica.

Fonte: José María Castillo, A humanidade de Jesus, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil, 2017.

31 de outubro de 2024

A guerra gnóstica contra o actus essendi

Com efeito, pela grandeza e beleza das criaturas se pode, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Criador. (Sabedoria 13:5)

As seitas gnósticas têm metafisicamente falando um único objetivo: combater a ideia de que Deus criou todas as coisas segundo a lei da analogia (a boa e velha analogia entis, sobre a qual tanto versamos por aqui). Há nelas um elemento comum, que é a revolta contra a ordem metafísica real. Em outras palavras, mesmo que velada ou inconscientemente, a gnose trata o ser como termo equívoco (o ser é absolutamente dessemelhante ao Ser, que é o caso das seitas gnósticas) ou unívoco (o ser é absolutamente idêntico ao Ser, que é o caso das seitas panteístas). Os homens são levados a uma ou outra perspectiva por vários motivos, entre os quais, em geral, estão ocultas causas pessoais, psicológicas. Manter a postura saudável e equilibrada de não identificar as criaturas com Deus, nem negar a excelência da criação, pode ser especialmente árduo para muitas pessoas. Nas palavras de Étienne Gilson: “A Renascença marca o início da era em que o homem se declara satisfeito do estado de natureza decaída”. E Orlando Fedeli: “Há na alma renascentista uma revolta que rejeita a transitoriedade das coisas, uma revolta contra o tempo, uma oposição à aceitação do mal relativo das criaturas. [...] Ao mesmo tempo em que no Renascimento e no Humanismo se divinizavam o homem e a natureza, a razão e o universo, chegava-se também ao extremo oposto, negando-se qualquer valor à razão [...] Passa-se de uma supervalorização absoluta da razão à sua negação completa. E não se sabe se o homem, pela razão, deve dominar o universo, ou se, pelo contrário, o universo deve absorver o homem pelo amor, negando-se a razão”.

Fedeli apelida de “antropoteísmo” a religião do homem, a qual divide-se em panteísmo (divinização do corpo, geralmente monista e racionalista pró-Utopia) e gnose (divinização da alma, geralmente dualista e místico pró-Milênio). Novamente, Fedeli confere certo caráter psicológico à causa do antropoteísmo: “[Ele] é fruto de um orgulho egolátrico e de um sensualismo antinomista, levados ao paroxismo. [...] É a revolta contra a morte, a dor, o trabalho e as mil outras misérias que fazem da vida humana um vale de lágrimas. [...] Se nota um desejo de destruir os princípios metafísicos. Ele [o antropoteísmo] odeia o ser”. O autor centra-se mais na gnose pois considera o panteísmo uma espécie de “fase infantil” ou antessala da gnose. A gnose é mais própria de espíritos intelectualizados, enquanto o panteísmo é mais próprio de pessoas ligadas à matéria (“têm por Deus o próprio ventre”), ou seja, pessoas de menor valor natural. No panteísmo enquadram-se tanto os materialistas crassos quanto os tipos mais pretensamente filosóficos (“racionais”, ateus etc.), bem como aqueles de mentalidade “científica”, como cientistas em geral, engenheiros, físicos etc.

A gnose necessariamente tem de negar os princípios metafísicos. Ela nega, por exemplo, o princípio de identidade, pois as coisas perdem sua individualidade, sua essência, sua personalidade. Nega também o princípio de contradição, pois os contrários passam a coincidir. Similarmente, o princípio de causalidade e finalidade se perdem, pois se não há ordem metafísica, não há causa e efeito, não há relação a um fim, não há relação entre Criador e criatura. Os transcendentais se dissolvem todos (res, aliquid, unum, verum, bonum e pulchrum) porque o ser se dissolve no abismo do nada. Toda ordem analógica é negada pela gnose. Por fim, a gnose recusa-se a aceitar o espaço (não há materialidade) e o tempo (não há movimento, pois não há ato e potência e, portanto, não há movimento e sua medida, que é o tempo).

Um traço curioso da gnose é sua perpétua inversão de um conceito em seu contrário, uma espécie de ponte metafísica. Mestre Eckhart, Jacob Boehme, a Cabala de Isaac Luria, Simão Mago, Hegel etc. são expoentes dessa característica (finito é infinito, nada é tudo, muitos é um, o nada é o real, o corpo é espírito etc.). Similarmente, há uma ponte moral na gnose, no sentido que prega uma moral ascética, de tipo budista, mas quando o asceta alcança sua “união mística”, de repente se vê acima de toda lei moral, e tudo lhe passa a ser permitido.

Vejamos alguns temas essenciais da gnose:

1. Teogonia. Há a Divindade, o princípio de que tudo se originou, e há Deus, o cosmocrator, o criador. Não há qualquer relação analógica entre o ser divino e o ser criado (qualquer semelhança com o Pe John Romanides não é mera coincidência). Essa distinção está clara em Mestre Eckhart, por exemplo (divinitas vs. Deus, Gottheit vs. Gott). A vida íntima da Divindade consiste num eterno processo de divisão dialética interior. Os sistemas gnósticos narram complicadas genealogias emanadas do fundo abissal da Divindade.  Diz-se, simplificadamente, que os éons eram partículas resultantes dessa divisão e que se opunham dialeticamente umas às outras, de maneira que eram absolutamente iguais e, por isso mesmo, não tinham consciência de sua limitação. Assim como uma gota no oceano não “sabe” que é limitada, pois se vê no todo e julga-se o todo, assim também os éons não “sabem” de sua limitação no pleroma. Em cada éon reptia-se a dialética tudo=nada que há na Divindade.

2. Cosmogonia. Mas eis que houve uma “queda”, uma ruptura, um “exílio”, o mal metafísico: um éon sem seu “cônjuge” surge e passa a agir. É o demiurgo. Os demais éons são levados a compreender que não eram tudo. Está rompida a felicidade absoluta no pleroma. Por que se deu o surgimento do demiurgo? Os sistemas gnósticos não explicam, apenas narram. Aliás, isso nos faz lembrar a crítica de Philip Sherrard à “metafísica” de René Guénon em seu Estados Múltiplos do Ser: Guénon afirma ("narra") que o Ser determina-se a si mesmo enquanto o leitor se vê perdido sem uma explicação minimamente plausível de como isso pôde ser possível.

Ora, isso deixa sem resposta a questão sobre como o próprio Ser é determinado. A ordem não-manifestada, escreve Guénon, é feita de Ser e Não-Ser. O Ser engloba todas as possibilidades de manifestação, formal e informal, na medida em que estas serão manifestadas; o Não-Ser engloba todas as possibilidade de não-manifestação, incluindo o próprio Ser e a manifestação, na medida em que permanecem puras possibilidades. [15] Mas será que isso significa que o Não-Ser é o princípio do Ser no mesmo sentido que o Não-Ser determina o Ser? Não podemos afirmar isso, pois aquilo que é completo e infinito em sua não-determinação não pode determinar-se sem tornar-se menos e outro do que si próprio, contradizendo assim sua própria natureza, o que seria uma impossibilidade. Portanto, o Não-Ser não pode abarcar o princípio ou a possibilidade de autodeterminação: ele não é determinado por nada (pois o Não-Ser é “não-dual” e onde não há dualidade nada pode ser determinado por nada) e ao mesmo tempo é impotente para determinar o que quer que seja (pois no âmbito do Não-Ser Absoluto não há nada a determinar e nada que possa ser determinado).

Isso significa que somos confrontados com um dilema. Tem de haver uma primeira determinação, pois caso não haja uma primeira determinação não é possível que haja determinações subsequentes e, assim, toda a teoria dos estados múltiplos do ser perderia sua fundamentação ontológica. Por outro lado, no Absoluto não há, de acordo com Guénon, um princípio que possa determinar a primeira determinação. É da necessidade de resolver esse dilema que Guénon anuncia o que poderíamos chamar de salto quântico metafísico. Diz ele: “O Ser não é determinado, mas determina-se a si mesmo”.

Vale a pena nos determos um pouco mais nessa afirmação. A primeira parte da frase, em si, equivale a dizer que uma determinação não é determinada, o que sem dúvida é uma contradição em termos; enquanto que a segunda parte da frase assume novamente ares daquilo que Guénon chamava de absurdidade, pois viola a lei da não-contradição, cuja conformidade caracteriza para Guénon aquilo que é possível. Ora, em que sentido uma determinação pode determinar-se a si mesma ou ser seu próprio princípio? Nenhuma determinação pode possuir o princípio de seu próprio ser – ou seja, de sua própria determinação – em si mesma, pois isso seria o mesmo que dizer que há um princípio que existe à parte ou oposto ao Infinito, e isso acarretaria em contradizer toda a ideia de Absoluto conforme ensinada por Guénon. Todavia, conforme vimos acima, o Absoluto não pode, em Si, ser o princípio da determinação sem ao mesmo tempo contradizer Sua própria natureza. Ora, se o Ser realmente determina-se a si mesmo por meio de uma espécie de combustão espontânea, então há aí uma possibilidade de uma impossibilidade: uma possibilidade de que uma determinação que não possui o princípio de sua própria determinação em si mesma e é, portanto, com respeito ao Absoluto, rigorosamente nada e desprovida de qualquer ser ou existência, mas que mesmo assim é o princípio de sua própria determinação e de fato determina-se a si mesma.

Percebemos desde logo por que é necessário postular esta determinação inerentemente contraditória do Ser, pois do contrário seria impossível explicar a passagem do Absoluto indeterminado para a primeira determinação, o puro Ser, e assim construir toda a teoria subsequente da estrutura do universo. Mas isso não deixa de ser um tipo de deus ex machina sem o qual o dilema apresentado permaneceria insolúvel; nem deixa de ser uma violação da lei da não-contradição, ou seja, uma absurdidade, conforme Guénon define esse termo. Assim, a tentativa de apresentar um princípio metafísico supremo em termos que sejam logicamente consistentes introduz necessariamente uma inconsistência lógica na descrição de quaisquer determinações que sejam subsequentes a este princípio, e na descrição de quaisquer manifestações (ou aparências de manifestações) de quaisquer tipos.

O demiurgo teria aprisionado os éons na matéria: em cada coisa há um componente material que encarcera uma partícula divina. Eis que tudo, portanto, é divino, e no cosmo há uma luta entre as partículas divinas e a materialidade.

3. O demiurgo. Ele é o “deus mal”, a causa do mal metafísico. Os gnósticos o identificam com Satanás e com Javé, criador dos céus e da terra. O demiurgo é o inimigo do Deus absconditus, ora imitando-o, ora ignorando-o. A serpente teria procurado revelar aos ignorantes Adão e Eva que o criador não era o Deus verdadeiro. Portanto, foi a serpente quem primeira revela a gnose: o demiurgo (Javé-Satanás) era um ignorante que criara um cosmos caricato por não conhecer o mundo do pleroma.

O demiurgo é o Javé-Satanás do Velho Testamento, enquanto o deus do Novo Testamento é bom e misericordioso. Por isso devemos rejeitar a lei (VT) e basta a fé para a salvação (NT), sem necessidade de obras. É claro que isso faz lembrar a tese luterana, o mesmo Lutero, aliás, que inspirou-se ostensivamente em Eckhart (“Não quero Moisés com sua lei, pois ele é um inimigo do Senhor Cristo”). Fedeli lembra na parte 2 de sua aula sobre o esquema gnóstico que a renovação carismática guarda grande semelhança com a seita dos Irmãos do Livre Espírito, declaradamente gnóstica. Alguns gnósticos chamam o demiurgo de Topos (“Lugar”), uma alusão ao criador do espaço e do tempo.

4. Antropogenia. O homem é o ponto que une o espiritual e o material. Ele é, assim, o ponto inicial para o retorno à Divindade. A gnose repete a ideia do “homem universal”, ou seja, o homem ao mesmo tempo é uma redução do universo, enquanto o universo é um homem ampliado. O homem também foi criado pelo demiurgo e, assim como as demais coisas criadas, tem aprisionado algo da substância divina em seu corpo.

5. Psicologia. A gnose é antipática à razão, ao raciocínio, à lógica, à vontade, porque eles são não apenas incapazes de apreender o divino, mas dificultam em fazê-lo (veja acima o que dissemos sobre a gnose ser contrária aos princípios metafísicos que, por sua vez, são a base da lógica). Só por meio da intuição pneumática isso seria possível. O pneuma, ou centelha divina no homem, é o que constitui seu verdadeiro eu. As almas humanas individualizadas constituiriam, originalmente, uma grande alma coletiva e divina. Daí a gnose ser contra tudo aquilo que personaliza, seja a vontade (apegada aos desejos), seja a razão.

6. Soteriologia. Não há salvação propriamente na gnose, porque quem caiu não foi o homem, mas o próprio Deus. A passagem do nada absoluto (o não-ser) ao ser é a queda; portanto, não houve queda moral, mas uma queda ontológica. A soteriologia gnóstica consiste, portanto, numa dupla moralidade: ascética (fruto do ódio à matéria e à existência) e antinomista (prática de ações degradantes e repugnantes). Os dez mandamentos são, portanto, um meio perpetuante do aprisionamento das centelhas divinas. O pecado é o meio de salvação gnóstico, ou seja, ele é a técnica por excelência para destruir as cadeias ontológicas, isto é, para destruir o ser.

7. Cristologia. Não há Redentor na gnose porque não há pecado ancestral. Por vezes os gnósticos alegam que Cristo não teria corpo, por motivos óbvios. Eles rejeitam todos os elementos estruturais da Igreja: organização, hierarquia, leis, templos etc. Os gnósticos são contra todo dogmatismo porque entendem que a verdadeira igreja é pneumática, formada exclusivamente por homem “espirituais”.

8. Escatologia. Enquanto não são libertas da matéria pela gnose, o inferno é o renascimento das partículas divinas, ou mesmo a transmigração para corpos de animais, plantas e até mesmo matéria bruta. O inferno é, portanto, a permanente ligação a um corpo material. Os gnósticos, no entanto, ao morrerem são reintegrados na Divindade.

9. O amor. A gnose odeia o ser, portanto as questões relativas ao sexo e à reprodução lhe são importantes. De maneira geral, os gnósticos desprezam as mulheres porque são fontes de procriação, ou seja, da continuidade material da humanidade. As relações sexuais podem ser livres, contanto que não deem à luz a novas vidas. A gnose é o elemento subjacente que explica por que a mulher deveria apoiar uma seita que despreza a mulher: há aqui uma possível explicação do apoio feminino ao feminismo. No romantismo, a mulher em concreto é desprezada, enquanto a partícula divina que há nela (simbolizada pela dama) é apresentada num contexto de amor platônico idealizado. A mulher é uma fada, mas na verdade é a luxúria idealizada. Diz Denis de Rougemont: “A licenciosidade demoliu o casamento por baixo, enquanto a cavalaria [o amor cortês ou cavalheiresco] o ridiculariza de cima”. Diz ainda Fedeli: “O amor sentimental dos gnósticos é apenas um meio utilizado para romper os laços da individualidade e obter uma união “mística” de duas almas, de duas partículas divinas com a Divindade [...] e, portanto, exige a morte como veículo de libertação”.

10. Eclesiologia. Na igreja gnóstica, todos são iguais (porque todos são igualmente divinos), não há santos. Essa igreja tem membros não apenas na Igreja, mas em todas as religiões. Não há “símbolo de fé” na gnose, eis porque é difícil traçar os limites de cada seita. Seus contornos são fluidos e confusos.

Para Fedeli, panteísmo e gnose ocasionalmente se unem, provocando grandes “curtos-circuitos”. Foi o caso da Reforma Protestante, da Revolução Francesa, da Revolução Russa, do modernismo e, compreende-se, do Concílio Vaticano II.

Fonte: Orlando Fedeli, Antropoteísmo, Flos Carmeli Edições, São Paulo, SP, Brasil, 2020.

25 de março de 2024

Trechos selecionados de C. S. Lewis sobre os Salmos


Por que às vezes um colega lhe explica melhor a matéria do que o próprio professor?

O colega de classe pode ajudar mais do que o professor porque sabe menos. A dificuldade que queremos que ele nos explique é a mesma com a qual ele teve de lidar recentemente. O especialista a superou há tanto tempo que já se esqueceu. Ele agora vê o assunto de uma maneira mais genérica e sob uma luz tão diferente que não consegue perceber o que está verdadeiramente inquietando o aluno; enxerga dezenas de outras dificuldades, menos a que realmente perturba o estudante.

A imagem cristã de justiça é perfeita. Mas a imagem judaica, embora humana, é muito útil também. Ninguém é bom ante a justiça divina. Mas também ninguém é bom ante a justiça humana.

Acho que há razões muito boas para considerar a imagem cristã do juízo de Deus como muito mais profunda e muito mais segura para nossas almas do que a judaica. Mas isso não significa que a concepção judaica deva ser simplesmente descartada. Eu, pelo menos, acredito que ainda posso alimentar-me bem dela.

Ela complementa a imagem cristã de uma forma muito importante, pois o que nos amedronta na imagem cristã é a pureza infinita do padrão a partir do qual nossas ações serão julgadas. Sabemos, porém, que nenhum de nós jamais se aproximará desse padrão. Estamos todos no mesmo barco. Devemos todos concentrar as nossas esperanças na misericórdia de Des e na obra de Cristo, não em nossa bondade. A imagem judaica de uma ação civil, por sua vez, nos lembra claramente que talvez estejamos em falta não somente em relação aos padrões divinos (o que é óbvio), mas também a um padrão absolutamente humano que todas as pessoas lógicas reconhecem e que nós, em geral, desejamos impor sobre os outros. É quase certo que haja demandas não satisfeitas, demandas humanas, contra cada um de nós; afinal, quem seria capaz de acreditar que, em meio a tantas relações entre empregadores e empregados, marido e mulher, pais e filhos, entre querelas e colaborações, tenha sempre agido (excluindo-se os atos de caridade ou generosidade) com absoluta honestidade e justiça? É claro que esquecemos a maioria das injustiças que cometemos. As partes injustiçadas, no entanto, não esquecem, mesmo quando perdoam. E Deus não esquece. E mesmo o pouco que conseguimos lembrar é terrível o bastante. Poucos de nós temos, em plena medida, dado a nossos alunos, pacientes ou clientes (ou como quer que chamemos nossos “consumidores”) aquilo que recebemos. Nem sempre cumprimos com a justa parte que nos cabe em algum trabalho cansativo quando encontramos um colega ou parceiro que possa ser enganado a fim de carregar todo o fardo.

Quanto mais elevado intelectual e espiritualmente, maior o potencial para a perversidade e impiedade. Quanto mais próximo de Deus, maior o pecado. Por outro lado, a suposta inocência das pessoas ignorantes e carnais deve ser encarada com muita cautela.

Parece haver, no universo moral, uma regra geral que pode ser formulada da seguinte maneira: “Quanto mais alto se é, mais perigo se corre”. O “homem sensual comum”, eventualmente infiel à esposa, que às vezes fica embriagado e é sempre um pouco egoísta, que de vez em quanto (mesmo sem desrespeitar a lei) se revela leviano em relação aos seus ideais, certamente é, de acordo com os padrões comuns, um tipo “inferior” se comparado ao homem cuja alma está ocupada com alguma grande causa, à qual ele submeterá seus prazeres, sua riqueza e até mesmo sua segurança. Mas é o segundo homem que pode verdadeiramente fazer algo perverso – um membro da Inquisição ou do Comitê de Segurança Pública. São os grandes homens, os potenciais santos – e não os homenzinhos comuns – que se tornam fanáticos impiedosos. Os que estão mais bem preparados para morrer por uma causa podem facilmente se tornar os que estão mais preparados para matar por ela. Observa-se o mesmo princípio em ação em um campo (comparativamente) tão irrelevante como a crítica literária; a obra mais brutal, o mais irritante entre todos os críticos, odiado por quase todos os autores, talvez seja o mais honesto e desinteressado, o homem que se importa mais apaixonada e abnegadamente com a literatura. Quanto mais alta a aposta, maior a tentação de entregar-se ao jogo. Não devemos sobrevalorizar a relativa inocência das pessoas pequenas, sensuais e frívolas. Elas não estão acima, mas abaixo de algumas tentações.

[...]

Os judeus pecaram mais do que os pagãos, não porque estivesses mais longe de Deus, mas porque estavam mais próximos dele. Pois o sobrenatural, quando adentra uma alma humana, faz com que ela se abra para novas possibilidades do bem e do mal. A partir desse ponto, a estrada se divide em duas: um caminho para a santidade, o amor, a humildade, e o outro para o orgulho espiritual, a hipocrisia, o zelo perseguidor. E não há caminho de volta para as virtudes e os vícios triviais de uma alma adormecida. Se o chamado divino não nos tornar melhores, nos tornará muito piores. De todos os homens maus, os homens maus religiosos são os piores. De todos os seres criados, o mais maldoso é aquele que originalmente ficava na presença do próprio Deus. Parece não haver saída para isso.

Esvaziar a natureza (trovão, planetas etc.) de divindade a torna mais, e não menos, divina. Adorar a natureza a priva de seu caráter divino, ao contrário do que se poderia supor.

[E]mbora sutil, é significativa a diferença entre ouvir no trovão a voz de Deus ou a voz de um deus. Como vimos, mesmo nos mitos de criação, os deuses têm uma origem. A maioria deles tinha pais e mães, e nós frequentemente sabemos quais foram seus locais de nascimento. Não é uma questão de autoexistência ou de eternidade. A existência lhes é imposta, como a nós, por causas precedentes. Eles são, como nós, criaturas ou produtos, embora sejam mais afortunados que nós por serem mais fortes, mais belos e imortais. Como nós, eles são os atores do drama cósmico, e não seus autores. Platão compreendeu isso plenamente. Seu Deus cria os deuses e os preserva da morte por seu poder, então a imortalidade não é inerente a eles. Em outras palavras, a diferença entre acreditar em Deus e em muitos deuses não é uma questão puramente aritmética. Como já foi dito por alguém, a palavra “deuses” não é efetivamente o plural de Deus, pois Deus não tem plural. Assim, quando ouvimos a voz de um deus no trovão, assustamo-nos, pois a voz de um deus não é, em verdade, uma voz do além-mundo, do incriado. Vamos ainda mais longe quando abstraímos a voz desse deus – ou quando imaginamos esse deus como um anjo, como um servo do outro Deus. O trovão torna-se não menos, e sim mais divino. Ao esvaziar a natureza de um teor de divindade – ou, melhor ainda, das divindades – nós a associamos à deidade e ela passa a ser, então, a portadora das mensagens. Há um sentido no qual a adoração à natureza a silencia – como se uma criança ou um selvagem ficassem tão impressionados com o uniforme do carteiro que deixassem de receber as cartas.

Prestar louvor, agradecer e elogiar são atos típicos de pessoas humildes, equilibradas e capazes. Quem elogia e agradece pouco ou com dificuldade são pessoas potencialmente desajustadas.

Nunca havia notado que toda apreciação transborda espontaneamente em forma de louvor a não ser que (a às vezes até mesmo se) a timidez ou o medo de incomodar os outros forem deliberadamente evocados. O mundo está cercado de louvor: amantes elogiam seus amados e suas amadas; os leitores elogiam seu poeta preferido; os caminhantes elogiam o campo; os jogadores elogiam seus jogos favoritos; há o louvor ao clima, aos vinhos, às louças, aos atores, aos carros, aos cavalos, às faculdades, aos países, a personagens históricos, a crianças, flores, montanhas, selos e insetos raros e, às vezes, até mesmo a políticos e estudiosos. Eu não havia notado como as mentes mais humildes e, ao mesmo tempo, mais equilibradas e capazes prestavam mais louvores, enquanto as excêntricas, desajustadas e descontentes elogiavam menos. [...] Exceto onde as circunstâncias intoleravelmente adversas interferem, o louvor parece quase ser uma manifestação de saúde interior.

[...]

Penso que temos prazer em louvar o que apreciamos porque o louvor não somente expressa como também complementa a apreciação; ele é a própria consumação dessa apreciação. Quando amantes continuamente dizem um ao outro o quão belo ele (ou ela) é, não o fazem apenas por dever; o prazer é incompleto até que seja expresso.

Fonte: C. S. Lewis, Lendo os Salmos, Editora Ultimato, Viçosa, Brasil, 2015.

24 de agosto de 2023

Evolução mística


O teólogo e sacerdote espanhol Juan Arintero influenciou de maneira importante a teologia católica do início do século XX ao reunir em uma série de livros e ensaios os ensinamentos místicos dos santos da Igreja. Uma de suas queixas, que aliás se aplicam igualmente ao ambiente ortodoxo, é de que a vida religiosa e paroquial perde o sentido se não estiver conectada à vida místico-espiritual. A ideia de que a vida mística é exclusiva daqueles que estão vocacionados para ela equivale a dizer que há homens e mulheres que não estão vocacionados a serem humanos. O objetivo da vida humana é a união com Deus, e tal união não é algo que o ser humano tenha o direito de não querer.

Anotei aqui apenas os aspectos que considero convenientes e úteis à minha vida e aos meus estudos, mesmo porque há uma série de aspectos que, não sem surpresa, se assemelham ao que é ensinado na Igreja Ortodoxa, mas o leitor não fará mal em aprofundar-se na obra deste dedicado sacerdote e amante da vida mística. Ademais, por se tratar de descrições e classificações de experiências místicas, a linguagem empregada frequentemente se assemelha à linguagem poética, uma vez que os referentes àquilo que está sendo dito estão em um plano para além do plano que operamos deste lado da realidade.

Na sua obra mais famosa, Arintero explica que a expressão evolução mística significa o progresso da vida da graça no homem. É quando se forma em nós o próprio Cristo. Mas há duas sendas na vida espiritual: (1) a vida ascética da união conformativa, vivida um tanto inconscientemente, na qual a imensa maioria dos fiéis ao mortificarem as paixões e exercitarem metodicamente as virtudes e práticas piedosas procura adquirir moralmente algum tipo de contemplação e, com o tempo, suas almas começam a sentir os toques do Espírito (embora não os sinta como sobrenaturais), e (2) a vida mística da união transformativa, guiada pelo próprio Espírito, que habita substancialmente (e não apenas acidentalmente, como no caso das virtudes e ciências) a alma ao moldar o caráter por fora e por dentro, penetrando até o mais intimo do coração, estabelecendo uma relação não moral, mas ontológica, com o fiel.

A revelação divina nos faz ver como a vida intima de Deus não é a de um Deus uno e solitário, típico do Deus encontrado pelos filósofos, o Deus absoluto, o “Ser Supremo”, o Deus da unidade nas obras da criação, mas um Deus trino. O Deus dos filósofos é aquele que encontramos com base nas simples e naturais relações de causalidade na criação, mas o Deus vivo é aquele que encontramos nas sobrenaturais relações de amizade cordial, pois supõe uma verdadeira semelhança. Por isso dizia Santa Teresa de Ávila que os livros demasiadamente “concertados” (combinados, encadeados, “lógicos”) a repugnavam e até lhe faziam perder a devoção, pois o excesso de abstração faz com que percamos de vista o todo real e vivente que somos.

Arintero lança mão do termo “graça criada” para explicar a ação do Espírito na vida humana, mas cabe lembrar que tal expressão serve apenas para diferenciar a graça do próprio Espírito. Parece-me algo semelhante à distinção entre “essência” e “energia”, ambas incriadas, típica da teologia ortodoxa. Arintero parece admitir que qualificar tal graça de “criada” pode trazer problemas de interpretação, assim que explicaque o melhor seria chamá-la de “graça participada” enquanto o Espírito é a “graça em si”.

Ademais, quanto às virtudes, Arintero as classifica como “naturais” (ou seja, adquiridas) e “infusas” (ou seja, inspiradas, comunicadas gratuitamente, emprestadas). As virtudes cardeais são tanto naturais quanto infusas. As virtudes teologais e os dons do Espírito, apenas infusas. Da união das virtudes com o exercício dos dons do Espírito resultam os frutos do Espírito, entre as quais, as bem-aventuranças.

Arintero detalha as virtudes, os dons, os frutos, a “noite escura” pela qual perpassam os santos a caminho da contemplação divina. Há três graus de contemplação: (1) a breve oração de recolhimento (infusa, muito superior à oração adquirida com esforços e diligência humana), na qual não há meditação, nem raciocínio, mas apenas um simples e tranquilo olhar contemplativo, (2) a longa oração de quietude, na qual, além do entendimento, a vontade se torna cativa ao Espírito, (3) oração de união, na qual a alma é introduzida na “câmara régia” e todas as suas energias se encontram unidas a Ele. Arintero belamente assim a descreve:

Às vezes, o uso dos sentidos externos não é completamente perdido; Estes, principalmente no início, funcionam um pouco, embora com dificuldade, fazendo com que o que está sendo falado ou cantado de perto seja ouvido como à distância, e todos os objetos sejam percebidos como muito confusos. Os poderes internos também não estão perdidos, mas apenas como se estivessem adormecidos para tudo o que está fora; porque, estando a alma assim, completamente absorta em Deus, ainda não tem forças suficientes para se ocupar com as coisas externas ao mesmo tempo. E se a caridade ou a obediência a compelem, enquanto durar esse doce cativeiro, deve ser praticada uma violência tão extrema - que faz com que muitos derramem sangue pela boca - causando-lhes não pouco dano; e mesmo assim, a maioria deles, para prestar atenção ao que está fora, tem que se soltar na atenção interna que os absorveu. Tudo o que eles virem lhes causará tédio e desgosto, e tudo parecerá estranho e como nunca visto antes. Já são habitantes do céu e concidadãos dos santos e, vendo as belezas celestiais, consideram vil tudo neste mundo, e não podem deixar de lamentar ao verem como se prolonga o seu exílio, onde se julgam estrangeiros e peregrinos. E, verdadeiramente, tais almas encontram-se exiladas entre pessoas ferozes, que as obrigam a zelar por si mesmas para não caírem nas suas armadilhas e não se perderem ou correrem o risco de perder os seus ricos tesouros.

Fonte: Juan Arintero, Evolución Mística, Editorial San Esteban, Salamanca, Espanha, 1989.

14 de julho de 2023

Adão, Eva e a Queda


A FORMAÇÃO ONTOLÓGICA

1) Se nem o NT pode ser lido instintivamente, imagine o VT.

2) Adão e Eva não podem ser os nomes desses arquétipos porque o hebraico só surgiu depois de Moisés.

3) Pó, argila, sangue, saliva, lágrima: são nomes mencionados nas antigas culturas do Oriente Próximo para indicar a formação de arquétipos ("identidade", "imagem"), não a formação biológica de seres singulares.

4) Em especial, "pó" indica mortalidade, enquanto a áravore da vida é o antídoto dessa mortalidade. Por uma má tradução, Deus não fez o homem "do" pó da terra, mas o homem é pó da terra, simplesmente.

5) Se Deus fala de nossa natureza arquetípica, e não de uma suposta origem químico-corporal, então Adão pode muito bem ter nascido de uma mulher. Da mesma forma, Eva não "vem" de Adão no sentido corporal, mas tem a mesma natureza arquetípica de Adão, ou seja, a mesma identidade. O sono profudo de Adão é na verdade uma visão, e nela lhe é mostrado que ele (e ela) é apenas o par da mesma identidade. Vê-se portanto que a história do gênesis não é uma história científica, mas uma história ontológica.

6) Gênesis deixa claro que já havia muitos outros habitantes quando Caim começou a fundar cidades. Adão e Eva não foram portanto os primeiros seres humanos singulares, o que seria uma forma de diminuir, e não de enaltecer, sua importância na história do mundo.

7) Sua importância está no fato de que foram criados para serem sacerdotes (mediadores) para servirem e guardarem (preservarem) o Jardim do Éden, que é parte do espaço sagrado onde Deus habita. Neste caso, Adão e Eva não são o arquétipo da humanidade, mas representantes da humanidade no Éden.

A QUEDA

8) Há duas árvores no Éden: a árvare da vida e a árvore da sabedoria (ou "do conhecimento do bem e do mal"). Ambos -- vida e sabedoria -- são frutos de Deus. A vida os livra da mortalidade, e a sabedoria tem a ver com ordem, pois Deus pretende que a humanidade expanda a ordem instaurada por Ele no cosmos.

9) Adão e Eva comem do fruto da árvore da sabedoria, ou seja, procuram eles mesmos serem o fundamento da ordem no mundo. Deus consequentemente os aparta do acesso à árvore da vida, ou seja, da imortalidade.

10) A serpente não é Satanás, mas um símbolo de rompimento da ordem e catalisador da desordem.

11) A punição de Deus não é expulsá-los a um ambiente de desordem, mas a um ambiente apenas fora de ordem ("non-order"). É a humanidade que trouxe a desordem ao mundo e o dilúvio é uma maneira de Deus para tirar a humandade da desordem e reestabelecê-la ao estado de fora de ordem ("non-order").

CONCLUSÕES

12) Por seu desinteresse em questões científicas, o VT não pode atestar nem refutar o modelo darwinista.

13) O VT está centrado na criação enquanto ação operativa, não enquanto mecanismo biológico.

Fonte: John Walton, Understanding Adam and Eve and the Fall, YouTube.

30 de dezembro de 2022

A autoestima é a psicologia do Anticristo


Viveu então, entre os poucos que ainda acreditavam no espiritismo, um homem de dons excepcionais - muitos o chamavam de super-homem - que estava longe de ser uma criança tanto na mente quanto no coração. Ele ainda era jovem, mas, graças ao seu gênio extraordinário, aos trinta e três anos conquistou a reputação de excepcional pensador, escritor e reformador social. Ciente de seu grande poder espiritual, sempre foi um espírita convicto e sua inteligência límpida sempre lhe apontava a verdade daquilo em que deveria crer: o bem, Deus, o Messias.

Ele acreditava nisso, mas amava apenas a si mesmo. Ele acreditava em Deus, mas no fundo de sua alma, inconscientemente e involuntariamente, preferia a si mesmo. Ele acreditava no Bem, mas o olho da Eternidade que tudo vê, sabia que este homem se ajoelharia diante do poder do mal assim que o vencesse; não com o engano de sentimentos ou paixões baixas, nem com a sedução de um poder superior, mas apenas estimulando sua excessiva auto-estima.

Fonte: Vladimir Soloviev, Tale of the Anti-Christ, HijezGlobal Press, Alemanha, 2017, grifos meus.

14 de dezembro de 2022

O sistema egoico e o cultivo do coração


Em um mundo moldado pelo humanismo do Iluminismo, o eu humano tornou-se central. Para a metafísica tradicional, no entanto, a verdadeira natureza da individualidade humana é revelada apenas na posição circunferencial do ego pessoal circulando em torno do axis mundi, que é o seu mistério. O caminho da progressão espiritual é um retorno ao Centro longe do eu, e a busca pelas raízes de nossa existência periférica com Deus no Centro.

A psicologia moderna enfatiza que, para viver, devemos ter um senso adequado de valor próprio e uma correspondente estabilidade do ego. No contexto do desenvolvimento humano, isso está correto, pelo menos por um período de tempo. Por outro lado, parece que a literatura espiritual, tanto antiga quanto moderna, apresenta o ego simplesmente como o vilão. Embora a nomenclatura varie ao longo da Sagrada Tradição, o roteiro é notavelmente consistente. Existe claramente alguém ou algo em nós que se opõe inerentemente ao nosso progresso espiritual, e o avanço para a transformação só pode ocorrer com a exposição e o desmantelamento desse impostor. Em uma reviravolta interessante dessa percepção tradicional, um manual popular da Nova Era afirma dramaticamente: “O ego quer que você morra”.

A dupla dificuldade em recuperar uma hermenêutica metafísica adequada, porém, é que devemos enfrentar não apenas as interpretações errôneas contemporâneas do ego, mas também uma outra camada de dificuldade introduzida pelas metáforas militaristas por meio das quais essas percepções têm sido tão freqüentemente expressas. Lidas com cuidado, as tradições esotéricas parecem exigir algo bem diferente das noções populares transmitidas em termos como “vontade própria pecaminosa”, “Maya”, “ilusão”, “nafs”, “o falso eu” e “pensamento dualista”. Eles exigem algo que segue de perto a “estabilidade do ego”, uma forma de “morte egóica” que não leva à destruição violenta do ego, mas à sua transformação total. [1] O desdobramento do verdadeiro Centro da individualidade não é realizado por meio de alguma forma de violência imposta ao ego ou por meio de uma subjugação militarista. A verdadeira conquista do coração só pode ser realizada através da entrega em amor. Todas as tradições sabem disso, inclusive as que fazem uso de metáforas militaristas.

Mas à luz dessa realidade simples e vivida que nenhum nó interno desata sem amor, há motivos para suspeitar da guerra espiritual como paradigma de transformação, particularmente em nossa própria era sensível à mídia em que, em um grau sem precedentes, “O meio é a mensagem". Dado tanto os excessos de nosso passado religioso quanto a pobreza do mundo contemporâneo, precisamos de uma maneira menos opositiva e mais produtiva de descrever o processo egoico - uma maneira que também nos aproxime mais de um conhecimento metafísico adequado da dimensão unitiva da Sagrada Tradição e sua compreensão do processo espiritual.

O ego como sistema energético

Neste artigo, então, o termo “ego” (ou estabilidade do ego) tem um significado limitado e observável. Ele descreve um loop de retroalimentação, ou seja, um tipo específico de sistema de processamento humano projetado para extrair um nutriente essencial à vida do ambiente: algo que podemos chamar de energia vital. [2]

Junto com a comida física que ingerimos e o ar que respiramos, a energia vital é crucial para nossa sobrevivência humana. A ausência de qualquer um desses três “alimentos” resulta em morte: no primeiro caso, por inanição; no segundo por sufocamento, e no terceiro por desgaste: o esgotamento da energia vital, ou vontade de viver. Embora não estejamos acostumados a pensar nesses termos, a maioria de nós está muito familiarizada com a própria síndrome: a crescente apatia ou incapacidade de prosperar quando a psique não consegue mais extrair qualquer entusiasmo ou propósito da vida por meio do Espírito.

Como um circuito de energia destinado a manter os reservatórios de bem-estar psíquico, o sistema egoico faz uso dessa característica única (tanto quanto sabemos) da mente humana: a consciência autorreflexiva, ou a capacidade de ficar fora de si mesmo e perceber na terceira pessoa. A partir desse ponto de vista da “terceira pessoa”, o senso de identidade de uma pessoa se apresenta em termos de uma individualidade única, uma personalidade definida por características e necessidades específicas.

Entre esses dois pólos, a energia pode começar a fluir, e essa polaridade sujeito-objeto torna-se o eixo motor do sistema egoico. A impressão de “ter” uma identidade discreta, informada por certos atributos e imbuída de certos dons e talentos que precisam se tornar totalmente expressivos para que a personalidade de alguém seja completa, estabelece um ciclo de retroalimentação pelo qual o eu reflexivo se projeta no mundo em termos de seus desejos, necessidades e expectativas; e, em seguida, apresenta seus programas e objetivos para implementá-los. Na medida em que somos bem-sucedidos, experimentamos a animação, a sensação de que nossa vida é significativa e valiosa. Na medida em que somos frustrados, experimentamos diminuição e desânimo. Em vez de ser aprimorada, nossa energia vital é esgotada.

É significativo que em seu texto Light on the Ancient World Schuon também se refira ao ego como um sistema através do qual nos engajamos em nossos “projetos” individuais e use uma linguagem vívida para descrever suas tendências autorreflexivas semelhantes a miragens: O ego é ao mesmo tempo um sistema de imagens e um ciclo; é algo como um museu, e uma viagem única e irreversível por esse museu.

"O ego é um tecido móvel feito de imagens e tendências; as tendências vêm de nossa própria substância e as imagens são fornecidas pelo ambiente. Nós nos colocamos nelas, enquanto nosso verdadeiro ser é independente delas."

Da perspectiva da transformação, o ponto que os professores espirituais estão constantemente nos lembrando (embora em linguagem muitas vezes ininteligível nesses termos) é que esse sistema de energia funciona essencialmente com base no princípio dor/prazer. O eu gerado egoicamente busca o prazer - experimentado como a ampliação ou afirmação de sua individualidade; e evita a dor - experimentada como a diminuição da individualidade e o esgotamento de seu élan vital. A busca pela realização espiritual com base nesse ciclo de retroalimentação é conhecida na tradição cristã como “a paz que vem da carne”, e os anciãos da tradição cenobítica do deserto alertaram os buscadores espirituais sérios para tomarem cuidado com isso. [3] Na nossa era psicologicamente sofisticada, porém, a paz que vem da carne (rebatizada de “bem-estar”) surgiu como princípio fundamental da saúde mental. É considerado uma verdade evidente que a experiência de animação, vitalidade e serenidade é um sinal de que se está vivendo a vida corretamente, enquanto o surgimento de depressão, frustração, mal-estar emocional ou físico é um aviso de que algo está errado interiormente. O que geralmente não se vê é que esse tipo de autodirecionamento interior é normativo apenas dentro do sistema egóico, que sempre julgará a exatidão de seu direcionamento psíquico pela qualidade e quantidade de bem-estar que é produzido.

O ego iluminado

Na medida em que a autoimagem de uma pessoa está em contato com a realidade e relativamente livre da dominação por programas neuróticos inconscientes, podemos falar em ter um “ego saudável”. [4] O ego saudável é tipicamente descrito como aquele capaz de mover-se com confiança e sensibilidade para satisfazer suas necessidades de significado e animação, respeitando os direitos de outras pessoas de fazer o mesmo. É um sistema que funciona com eficiência máxima e, como afirmado acima, praticamente todos os nossos modelos psicoterapêuticos de bem-estar (e cada vez mais também os religiosos) visam esse objetivo. Thomas Keating, um conhecido monge beneditino, em seu ensinamento popular sobre o “sistema do falso eu”, faz uso desse modelo ao mostrar aos praticantes como identificar e bloquear os vazamentos de energia causados por “emoções aflitivas”, ou seja, pelas perda de energia vital que acompanha a frustração dos “programas emocionais para a felicidade”. Entretanto, se o falso eu for igualado a esses programas inconscientes e neuróticos, é muito fácil inferir que o oposto disso – isto é, o ego saudável – deve ser “o verdadeiro eu” [5]. Esse erro obscurece a possibilidade de uma consciência metafísica mais profunda de nossa verdadeira Identidade Suprema, e também distorce a prática espiritual tradicional.

Como o budismo observou há muito tempo, a dor e o prazer são apenas duas pontas do velho “bastão egóico”. Enquanto alguém estiver extraindo sua energia vital da auto-estima, auto-afirmação e auto-expressão, mesmo a serviço da mais pura e nobre das causas, ele ainda estará orbitando dentro do ciclo da retroalimentação egoica. Enquanto a felicidade e um senso pessoal de valor pessoal ainda forem as medidas pelas quais alguém se relaciona com a vida e ajusta seu rumo; enquanto a vitalidade for a medida do bem-estar espiritual, a pessoa fica presa no sistema de feedback egoico. Esses não são julgamentos morais; são critérios descritivos. E por esses critérios, é deprimentemente claro que noventa e nove por cento do que está sendo divulgado como espiritualidade ocidental contemporânea é apenas um ajuste fino do ego.

Em contraste, eu me referiria ao ensinamento perene expresso por Schuon em Echoes of Perennial Wisdom: “Santidade é o sono do ego e o despertar da alma imortal – do ego alimentado por impressões sensoriais e cheio de desejos, e da alma livre e cristalizada em Deus. A superfície móvel do nosso ser deve dormir e deve, portanto, retirar-se das imagens e dos instintos, enquanto as profundezas do nosso ser devem estar despertas na consciência do Divino, iluminando assim, como uma chama móvel, o silêncio do sono sagrado.” [6]

Pão do Céu

Em suas "Meditações sobre o Tarô", o hermetista Valentin Tomberg distingue dois tipos de energia vital, que ele chama de bios e Zoe. Embora inter-relacionados, bios é definido como a energia vital natural que flui horizontalmente de geração em geração, e Zoe é a energia vivificante do alto “que preenche o indivíduo em oração e meditação, em atos de sacrifício e participação nos sacramentos sagrados”. [7] No sentido bíblico clássico, Zoe é “pão do céu” — alimento da alma de uma ordem muito superior. Usando os termos de Tomberg, pode-se dizer que o ego está perfeitamente adaptado para sua função na vida: extrair a energia do bios para manter a vitalidade do organismo humano. Mas, como tal, seu limite é a morte física. Uma vez que a alma se separou do corpo, o papel do ego como sede funcional da identidade humana termina. Ele perece, junto com todo senso de individualidade ligado a ele.

Existe dentro de nós, no entanto, uma faculdade latente, um outro ciclo de feedback capaz de extrair a energia diretamente de Zoe, “o amor que move as estrelas e o sol”, sem ter que baixá-lo do ciclo egoico dor-prazer. Ele se move sem levar em conta a dor e o prazer; o prazer não a anima e a dor não a diminui.

Não é uma hipervitalização, uma experiência de pico. Na verdade, não é uma experiência, pois está além do dualismo experiência/experimentador – e, portanto, na tradição espiritual é frequentemente percebido como um “nada”. Não possui reservatório inerente de vitalidade; não pode alimentar-se ou manter-se à parte da infusão direta do sagrado. Sua sede permanente de individualidade está no reino da contemplação, o coração unitivo. Quando um eu ativo é necessário para “fazer”, ele se move para fora desse centro, usando seu sistema egóico da mesma forma que um mestre de caratê usa uma mão treinada para desferir o golpe apropriado. Quando não está em movimento, não tem autopropulsão independente; a esse respeito, é muito mais parecido com uma planta do que com um animal. Conforto ou desconforto não significam nada para ele, felicidade ou infelicidade, vida ou morte; ele vive além dos opostos. Seu alimento, como diz Jesus no evangelho de São João, “é fazer a vontade de meu Pai”.

Se isso soa como uma bênção duvidosa, é compreensível por que um punhado tão pequeno de buscadores espirituais realmente aceitou o chamado para se aventurar além da rede de segurança egoica. Até mesmo as palavras classicamente usadas para descrever esse outro ciclo de feedback – “rendição”, “verdadeira resignação” – não combinam com o temperamento moderno. Elas soam mais como entregar as rédeas da individualidade autônoma e do bem-estar pessoal - o que, é claro, é exatamente o que está sendo solicitado. A única maneira pela qual o ego pode imaginar tal comportamento é em termos de “gratificação adiada” – uma renúncia ao prazer nesta vida a fim de obter sua recompensa na próxima. Mas não é assim, de jeito nenhum. A “recompensa”, se tal termo deve ser usado, é participar aqui e agora “do amor que move as estrelas e o sol". Uma vez que o coração tenha experimentado esse amor, toda auto-alimentação egoica parecerá fast food. Pois o reino para o qual o ego é chamado e através do qual é transformado é o mundo do Espírito como princípio manifesto. Só Ele pode moldar e dar uma nova definição a esta “criatura”, o ego. [8]

O nascimento do coração

O ego não é um inimigo; é um estágio de desenvolvimento necessário na jornada rumo à plena personalidade humana. Quando um bebê começa a engatinhar, é um grande marco, mas se ele ainda estiver engatinhando aos cinco anos, falamos de desenvolvimento interrompido. O mesmo se aplica, creio eu, à jornada em direção à personalidade. O sistema egoico é necessário para que possamos exercer nosso verdadeiro destino humano, pelo menos como é entendido na tradição espiritual ocidental: magnificar a glória de Deus através das lentes da particularidade individual. “Você é o espelho no qual Deus se reconhece”, como diz a tradição sufi de forma expressiva. Nos caminhos espirituais ocidentais, o sistema egoico não é um erro, ou uma ilusão [9], mas potencialmente, pelo menos, o veículo expressivo da maravilha e do espantoso dinamismo de Deus. Enquanto estivermos no corpo humano, precisaremos fazer uso dele e manejá-lo bem.

Tal uso do ego, no entanto, só pode ocorrer num lugar mais interior do ser humano, num lugar mais profundo do que o próprio ego – o que a tradição chama de “o nível do coração” – que se conhece ilimitado e indivisível, uma parte da Divindade. [10]  “Conhece-te a ti mesmo”, entretanto, não significa que esse conhecimento seja um novo fato ou crença sobre si mesmo; isso seria pensamento egoico. Em vez disso, é uma maneira de “saber de”, uma coincidência com essa fonte mais profunda dentro do coração.

Leva muito tempo até que esse coração iluminado esteja realmente pronto para emergir como a sede permanente da identidade. Em parte, isso ocorre porque o coração não é apenas uma metáfora para o ser mais íntimo de alguém, mas está de fato incorporado: um músculo para a percepção espiritual e para “digerir” a energia muito mais concentrada de Zoe. A tradição ortodoxa oriental localiza esse coração espiritual dentro do coração carnal, mas boa parte da tradição interior o situa na região do plexo solar ou diafragma e, portanto, às vezes fala do trabalho espiritual como um “fortalecimento do sistema nervoso". Uma vez ativado, seu atributo particular é a capacidade de “atenção redobrada” – não no nível de manter a mente em duas coisas ao mesmo tempo, mas no nível de ser mantido, magnetizado, na presença de Deus e, ao mesmo tempo, completamente presente às demandas externas da situação em questão.

Praticamos com consistência e paciência. A meditação, considerada em praticamente todas as tradições espirituais como a porta de entrada para a transformação, nos ensina como separar nosso senso de pessoalidade do ciclo de feedback egoico e nos abrir diretamente para a infusão da vida divina. Particularmente em uma prática como a Oração Centrante, onde a ênfase não está tanto na concentração da mente quanto na entrega da vontade, há uma nutrição direta e até palpável dessa atenção do coração; pode-se literalmente sentir esse coração magnetizado ganhando vida por dentro. E à medida que a capacidade de “atenção redobrada” cresce dentro de nós de acordo com este coração, somos capazes de aplicá-la cada vez mais consistentemente nas circunstâncias externas de nossas vidas, aprendendo como extrair a energia vital do ser divino de tudo o que aparece em nosso caminho, mesmo em meio à contrariedades e diminuições. [11]

A princípio, parece “um lugar para onde vamos”, esse coração de Deus, o ponto imóvel no mundo giratório do nosso ser. Mas cada vez mais torna-se “o lugar de onde viemos”, a luz de Deus dentro da qual reabastece nosso ser de sua própria fonte infinita. E quando esse coração espiritual atinge um ponto de desenvolvimento que pode sustentar-se fora do útero egoico, então, como um bebê plenamente desenvolvido, estamos prontos para nascer no milagre da plena personalidade humana.

Transformando pedras em pão

A libertação do ciclo de feedback é simbolicamente descrita nos relatos evangélicos das tentações de Cristo no deserto, particularmente na primeira tentação, a recusa de “transformar pedras em pão” ou alimentar-se por suas próprias capacidades egóicas. [12] O que muitas vezes é negligenciado em discussões dessas narrativas, no entanto, é que o encontro de Jesus com a tentação ocorre somente após seu batismo, onde ele recebe pela primeira vez a revelação de sua verdadeira identidade: “Este é o meu filho amado, em quem me comprazo” (Lucas 3:22). Primeiro vem o desdobramento da verdadeira identidade; então vem a rejeição de tudo o que não é essencial para ela.

A metafísica tradicional expressa esta transição dizendo: “O caminho para Deus envolve uma inversão: da exterioridade é preciso passar à interioridade, da multiplicidade à unidade, da dispersão à concentração, do egoísmo ao desapego, da paixão à serenidade. O mundo nos dispersa e o ego nos comprime; Deus nos dá recolhimento e nos dilata; Ele nos dá paz e nos livra.” [13]

Tudo isso, claro, no devido tempo. Embora grande parte da linguagem da tradição espiritual tenha sido lançada em imagens de violência - de tomar o céu de assalto e um ascetismo atlético com a intenção de superar o ego - isso geralmente é virado de cabeça para baixo pela maneira retrógrada usual do ego de confundir meios com fins. O ascetismo não produzirá o coração; é apenas uma imagem dos novos hábitos alimentares da alma que aprendeu a alimentar-se diretamente de Deus. Mas o verdadeiro ponto que trabalha a nosso favor é que esta evolução é algo intencionado: ou seja, a glória de Deus é o ser humano emergir completamente em seu próprio terreno e ser capaz de liberar a energia anteriormente ligada à automanutenção egóica para a puro dança da abundância divina. Essa transformação vai contra a corrente, mas é intencional. Quando o coração está pronto, não pode deixar de emergir. Nosso verdadeiro objetivo no trabalho espiritual, portanto, não é desmantelar o ego — que desaparecerá em seu próprio tempo, quando o fruto estiver maduro —, mas simplesmente, calma e pacientemente, nutrir o coração.

Notas:

[1] A prática contemplativa nas tradições sagradas visa, em última análise, a retirada da atividade do ego. Jesus disse: “Aquele que quiser salvar sua vida (psiche—psyche) deve perdê-la". A tradição islâmica aconselha aqueles que estão no caminho espiritual a “morrer antes de morrer”. Em um texto recente Kabir Helminski, mestre sufi da ordem Mevlevi, diz: “O ego é o inimigo de nossa verdadeira existência. Felizmente o ego pode ser domado pelo amor, não desvalorizado ou aniquilado, mas domado e colocado a serviço do eu essencial. Se aprendermos a fazer um apelo claro à Fonte do amor, como poderia essa Fonte não responder ao nosso chamado?" (The nowing Heart, Shambhala, 1999, 52.) João da Cruz em seu próprio século também argumentou que “Aquele que sabe morrer em todas as coisas, terá vida em todas as coisas”. O Tao te Ching, pelo menos mil anos antes dele, sabia que “morrer sem afundar significa presença eterna”. Todas essas abordagens não sugerem violência nesse caminho para a experiência da unidade e do amor, mas um caminho de entrega, um morrer para viver verdadeiramente.

[2] Este termo pode ser equiparado talvez à energia prana, ou ao nafs al-amara, que são formas de energia vital ainda não transformadas pela força do Espírito. Veja também as distinções de Tomberg entre bios e Zoe, adiante.

[3] Veja, por exemplo, Santo Antônio: “Você deve odiar toda a paz que vem da carne. Renuncie a esta vida para que você possa estar vivo para Deus”. The Desert Christian: The Sayings of the Desert Fathers, ed. Benedicta Ward (Nova York: Macmillan, 1980, 3-4). Normalmente visto de nossos pontos de referência culturais contemporâneos como “ascetismo que odeia o corpo e nega o mundo”, a declaração de Antonio na verdade aponta para uma maneira muito mais vibrante e sutil de estar desperto no mundo, de extrair energia vital diretamente de sua fonte imperecível. Sobre esse ponto, veja meu artigo anterior, Fingers of Flame: Christianity and the Spiritualization of the Body, Gnosis, 29 (outono de 1993), 42-48.

[4] O termo, é claro, é da safra moderna pós-freudiana e seria incompreensível para as antigas tradições da psicologia espiritual, de cuja perspectiva pareceria um oxímoro. As psicologias tradicionais distinguem entre um Eu inferior e um Eu superior, mas se esse eu inferior pode ser equiparado ao ego é uma questão de considerável desacordo entre as escolas contemporâneas de pensamento psicológico. Para uma tentativa lúcida de resolver a confusão, veja Rama P. Coomaraswamy, Psychological Integration and the Religious Outlook, Sacred Web, 3 (verão de 1999), 37-48.

[5] A falta de um mecanismo para identificar e liberar as “emoções agradáveis” causadas pelo apaziguamento dos programas do falso eu é uma curiosa fraqueza do ensino do Pe. Keating.

[6] Frithjof Schuon, Echoes of Perennial Wisdom (Bloomington, IN: World Wisdom Books, 1992), 11.

[7] Valentin Tomberg, Meditations on the Tarot (Rockport, MA: Element, 1993), 277-8.

[8] Pois, como diz Schuon, “Entre o microcosmo humano e o Metacosmo Divino existe o macrocosmo que, em relação ao sujeito humano, representa ‘o Princípio manifestado’ ou ‘a manifestação do Princípio’. Não há medida comum entre o homem e Deus, entre o ‘eu’ e o ‘Eu’. Para tornar-se consciente do 'Eu', o 'eu' precisa do intelecto, que no homem é sua manifestação direta. De maneira análoga, o que necessariamente se coloca entre a criação formal e o Incriado é a criação supraformal ou informe, o mundo do Espírito”. Spiritual Perspectives and Human Facts (Pates Manor, Bedfront, Middlesex: Perennial Books, Ltd., 1987), 174.

[9] Na verdade, eu a chamaria de miragem, usando a útil distinção de Tomberg: “Uma miragem não é a mesma coisa que uma ilusão pura e simples – uma miragem sendo um reflexo ‘flutuante’ da realidade – mas ela é ‘flutuante’ — ou seja, fora do contexto da realidade objetiva com suas dimensões moral, causal, temporal e espacial”. (Meditations on the Tarot, 630).

[10] Para uma descrição sucinta desse “nível do coração”, veja, por exemplo, Kabir Helminski: “Além do reino analítico limitado existe um vasto reino da mente que inclui habilidades psíquicas e extra-sensoriais; intuição; sabedoria; um senso de unidade; capacidades estéticas, qualitativas e criativas; e capacidades simbólicas e formadoras de imagens. Embora essas faculdades sejam muitas, damos a elas um único nome com alguma justificativa, porque elas funcionam melhor quando estão em harmonia. Eles compreendem uma mente, além disso, em conexão espontânea com a Mente Cósmica. Essa mente total chamamos de “coração”. Despertar o coração, ou a mente espiritualizada, é um processo ilimitado de tornar a mente mais sensível, energizada, sutil e refinada, de uni-la ao seu meio cósmico, o infinito do amor.” Living Presence (Nova York: Jeremy Tarcher/ Putnam, 1992), 157-8.

[11] Sem essa fase ativa da prática, a meditação por si só é amplamente ineficaz como veículo de transformação – “um tranquilizante de alta classe”, como Pe. Keating coloca.

[12] Para uma explicação brilhante das narrativas da Tentação nesse sentido, veja Maurice Nicoll, The New Man (Nova York: Penguin Books, 1967), 23-7.

[13] Schuon, Echoes of Perennial Wisdom, 3.

Fonte: Cynthia Bourgeault, The Egoic System and the Nurture of the Heart, Sacred Web.

9 de agosto de 2021

O misticismo do templo


Nesta obra a pesquisadora Margaret Barker apresenta um conjunto de análises e interpretações, baseados em uma grande coleção de escritos antigos, que apontam à hipótese de que o objetivo principal da ecclesia, tal como apresentada não somente por Jesus Cristo e seus apóstolos, mas pelos Padres, historiadores, fiéis e cronistas das primeiras décadas e séculos da era cristã, é retomar o misticismo do templo, vigente durante o período do Primeiro Templo e abandonado no Segundo Templo. Em outras palavras, o Cristianismo seria uma "religião de mistério", um herdeiro do templo original. “Misticismo do templo” é aqui usado uma expressão sinônima de “ver o Senhor”. No caso do Cristianismo, segundo a interpretação de Barker às palavras do Apóstolo João, o templo não é mais necessário para o vero o Senhor porque o próprio Senhor veio ao mudo. Cristo, portanto, teria abolido a necessidade de um templo. 

A principal fonte de Barker é, claro, a Bíblia. No entanto, muitos trechos utilizados por Cristo e os apóstolos correspondem à versão Septuaginta do VT da Bíblia, que embora outrora considerada insubstituível foi posteriormente condenada pelos judeus no século II d.C. e substituída por uma versão editada para justamente suprimir e/ou alterar trechos que mencionavam explicitamente o misticismo do templo bem como o papel central de Jesus Cristo nele. Mais tarde a tradução latina de São Jerônimo, feita com base no VT alterado, acabou por contribuir ao ocultamento do misticismo do templo, e evidentemente os reformadores protestantes, ao assumirem tal versão como base de suas doutrinas, igualmente sufocaram a verdade do misticismo do templo. No entanto, Barker entende que o que os primeiros cristãos chamavam de “mistérios” é uma referência à tradição do templo. Isso se pode ver, por exemplo, em Santo Ignácio de Antioquia, Clemente de Alexandria, Orígenes e outros já nas primeiras gerações de cristãos. Há menções explícitas de Cristo como o Sumo Sacerdote que assumiu o santo dos santos, por exemplo. Ou declarações de Orígenes de que os mistérios foram transmitidos aos sumos sacerdotes e ficaram registrados sobretudo nas liturgias, não em escrituras. O mesmo se pode dizer das cartas do Apóstolo Paulo: seu conteúdo esclarecia questões pontuais, temas gerais que poderiam ser tratados à distância. Barker entende que a religião não se registrava nas cartas, mas nas liturgias.

Há alguns conceitos que Barker considera fundamentais para que se compreenda a religião do templo e seu misticismo:

(1) Um. Em outras palavras, Unidade. Quando o Um se manifestava, tal manifestação a chamavam de “reino” ou “santo dos santos”, no sentido de que se transmitia a santidade. Portanto, os místicos que adentravam o santo dos santos se tornavam santos, também chamados “anjos”.

(2) Muitos. Em outras palavras, Pluralidade. A unidade e a pluralidade se expressam na literatura do misticismo do templo, bem como no Cristianismo primitivo, como fogo e luz. Os místicos viam a luz invisível. E também ouviam a música inaudível. Aliás, a capacidade de ouvir a música celestial teria sido perdida por Adão, e eis que os pastores de Belém puderam ouvi-la outra vez quando do nascimento de Jesus. Na Igreja a ideia de restaurar a música angelical era algo muito importante (p.ex.: São João Crisóstomo, São Basílio, São Gregório de Nissa, São Dionísio Areopagita). Infelizmente os elementos-chave da música angélica e seu significado - a visão de Deus, o trono, as hostes, a música e o chamado do Senhor ao templo, a expiação - estão ausentes dos escritos deuteronômicos. Seus relatos acerca de Moisés recebendo os mandamentos nega que o Senhor tenha sido visto (Deuteronômio 4.12); sua descrição do templo em 1 Reis nada diz sobre o trono (cf. 1 Crônicas 28.18); eles nada falam sobre os levitas e sua música; eles negaram que o Senhor pudesse habitar no templo (1 Reis 8.27); eles removeram os 'Exércitos' do título “Senhor dos Exércitos” (Is 37.16, cf. 2 Reis 19.15); não havia dia de expiação em seu calendário (Deut. 16); e eles negaram que alguém pudesse expiar os pecados de Israel (Êxodo 32,31-33). Os primeiros cristãos, por outro lado, guardavam todas essas coisas e adoravam como os levitas. Com sua música eles louvaram ao Senhor, deram graças (‘eucaristia’) e clamaram ao Senhor para que viesse.

(3) Trono. Representa a Senhora. Não é possível dizer se a Senhora do templo de Jerusalém era a personificação do trono ou se o trono era seu símbolo. O que se tem certeza é que quando Ezequiel descreveu o trono da carruagem partindo de Jerusalém, ele descreveu a partida de uma figura feminina na qual a glória do Senhor estava entronizada. A Senhora não é algo que apareça nas traduções porque os tradutores não esperavam encontrá-la e, quando tiveram que escolher entre várias possibilidades para palavras difíceis, o fizeram sabendo o que o texto deveria dizer e o que não. O trono como a Mãe do Senhor é um elemento que aparece no Cristianismo também, e por todas as partes, o que sugere que se trata de algo original, não local.

(4) Servos. Eram os místicos propriamente. Em inúmeros trechos do VT os homens de Deus, os grandes em honra e glória, os homens que viram a Deus, são chamados de “servos”. Não por acaso “servo” era o título preferido da Igreja primitiva de Jerusalém para se referir a Jesus. Isso pode ser visto nos Atos dos Apóstolos, na carta do Apóstolo Paulo aos Filipenses e no Didaquê, por exemplo.

Em suma, Barker conclui que o misticismo do templo foi ocultado por quatro grandes movimentos ou fenômenos: (a) pelos deuteronomistas, (b) pela necessidade de distinguir a ecclesia da gnose, o que acabou por jogar a água do banho fora com a criança, (c) pela pressão da ecclesia para que os cristãos não praticassem os costumes judaicos, e (d) por muitos Bible scholars modernos que insistem, movidos por seu preconceito classicista, em purgar elementos “neoplatônicos” ao invés de identificá-los como elementos próprios da tradição do templo e, portanto, do Cristianismo.

Por fim, cabe mencionar alguns conceitos interessantes expostos por Barker:

Adão significa “o Homem”, no sentido de ser humano. Ele era o sumo sacerdote original, o Filho de Deus. Portanto, são “Filhos do Homem” todos aqueles que alcançam a theosis, ou seja, todos aqueles que alcançam a mesma condição do Homem, todos aqueles que se tornam Adão antes da queda, que se tornam servos (místicos). Enoque, por exemplo, descreve sua transformação em um Filho do Homem, ou seja, descreve sua theosis.

Quando lhe é dito a Adão para dominar o mundo, animais etc., isso não significa dominar a natureza, domar animais, praticar agricultura nem nada do gênero. O que se quer dizer é que Adão deve expiar, ou seja, restaurar os laços rompidos da aliança, ou seja, que Adão deve reatar a terra. Aliás, este mesmo entendimento é usado pelo Apóstolo Paulo para se referir a Jesus Cristo.

Quando lhe é dito a Adão e Eva “frutificai e multiplicai-vos” o que se quer dizer é que o casal deve buscar a glorificação (frutificai) e que sejam grandes (multiplicação). Multiplicar aí não tem sentido aritmético, mas espiritual.

Fonte: Margaret Barker, Temple Mysticism, SPCK Publishing, Londres, Reino Unido, 2011.

13 de dezembro de 2019

O Reino invisível




Velho Testamento

No principio Deus (Yahweh) criou o mundo e o primeiro homem consultando Seu concílio divino (ou assembleia divina), composto por elohim (deuses, habitantes do mundo espiritual). O homem é criado como imagem de Deus, ou seja, não somente com atributos que O refletem (razão, vontade etc.), mas com um status de representante de Deus. Ele quer que sejamos Deus na Terra. O homem foi criado como um ser “um pouco inferior aos elohim”, mas também habita o Éden junto com os elohim.

A Terra, segundo Deus e seu concílio, deveria ser como o Éden. Esta é a missão confiada à humanidade. No entanto, como seres criados com liberdade (livre arbítrio), e não como meros autômatos, as coisas podiam, e deram, errado. Em princípio alguns elohim (deuses) tentaram ajudar, mas quando se encarnaram não conseguiram resistir aos impulsos da carne. Assim foram criados os nephilim, que são gigantes cujos pais são deuses. Para salvar a humanidade destes seres nefastos, não ligados ao elohim Yahweh, Deus decide com Seu concílio enviar um Dilúvio e a salvar Noé e seus próximos, uma vez que são irrepreensíveis por conservar perfeita linhagem com Adão e Eva e, portanto, com Yahweh.

Se dá início ao conflito que durará todo o Velho Testamento, a saber, o conflito entre rebeldes divinos (a “semente de nachshash”) e a humanidade.

A seguinte ação tomada por Deus e o concílio divino foi a dissuasão da Torrre de Babel, o que mostra que o Dilúvio não deu certo, no sentido de que nephilim, ou sua descendência de clãs de gigantes, continuavam a habitar a Terra. Ou o dilúvio não foi global, mas apenas local, ou o método de conceber novos nephilim através de relações sexuais com seres humanos continuou depois do Dilúvio.

A Torre de Babel foi uma tentativa de construir um ziggurat, ou seja, um ponto de contato direto entre os elohim inferiores e a humanidade, o que intensificaria e perpetuaria o governo dos deuses das nações da Torre de Babel em detrimento do governo de Yahweh.

Com a destruição da Torre de Babel, Yahweh mudaria de estratégia. Ele vai travar uma relação de aliança com um povo que ainda não existia: Israel. As demais nações foram colocadas sob a autoridade e adoração de elohim inferiores do concílio divino, ou seja, de deuses inferiores.

Assim que a história do restante do Velho Testamento será Israel vs. as nações deserdadas, Yahweh vs. os deuses das nações. Para auxiliar Seu povo, Yahweh por diversas vezes lhes aparece como dois Yahweh, qual seja, um invisível e no céu, o outro manifesto na Terra em diversas formas, inclusive em forma humana. O Êxodo, assim, assume os contornos de uma “nova criação”.

A aliança feita por Yahweh no Sinai é de que Israel deveria ser santa e cumprir o propósito edênico original de expandir o reinado de Yahweh por todas as nações. Moisés pede permissão aos filhos de Lot e Esaú, que já ocupavam parte da Transjordânia, para passar por suas terras a fim de destruir a última área que ainda estava sob domínio dos nephilim: Bashan, as “portas do inferno”, onde também se localiza o Monte Hermón. A coexistência com os nephilim e seus clãs de gigantes era impossível: eles não são da linhagem de Yahweh e não podem ser tolerados.

No entanto, a apostasia de Seu povo (Israel) impeliu a Yahweh a mudar Sua estratégia. Ele não podia continuar dependendo da humanidade para cumprir Sua vontade edênica. Ele teria que tornar-Se homem e habitar o coração de Seus filhos. Habitar um tabernáculo ou um templo não era suficiente. No entanto, no Velho Testamento este plano messiânico não estava claro. Se as forças das trevas soubessem do plano messiânico jamais teriam matado a Jesus Cristo. Tão secreto era o plano que nem mesmo os anjos o conheciam.

Novo Testamento

O chamado de São João Batista é um indício claro que de o concílio divino se reuniu novamente, decidindo lançar o reino de Deus através do segundo Yahweh, dessa vez encarnado. Um novo Êxodo se inicia, mas a missão deste Filho de Deus é levar o reino de Deus não somente ao povo de Israel, mas aos povos sob domínio dos deuses das nações, dos elohim inferiores da Torre de Babel.

A jornada de Jesus Cristo no deserto é uma demonstração clara da “guerra santa” que seria travada. Satanás, ao tentar-Lo a receber as nações deserdadas, presumia que tinha poder e autoridade sobre algo que, em última instância, não é seu, mas de Yahweh. A mensagem foi clara: Yahweh vai reaver as nações que, originalmente, são Suas.

A partir daí, Yahweh encarnado escolhe seus primeiros discípulos e, curiosamente, pela primeira vez na Bíblia, se tem notícia de um demônio sendo expulso (Marcos 1:16-28). Em seguida, Cristo escolhe doze discípulos, em relação direta às doze tribos de Israel, e envia setenta discípulos, em relação direta às setenta nações deserdadas mencionadas em Gênesis 10.

Em Cesareia de Filipe, no trecho mencionado em Mateus 16:13-20, Jesus Cristo menciona uma “pedra”, ou seja, precisamente a montanha na qual estava ele localizado. Trata-se, novamente, do Monte Heróm, uma clara indicação de que os deuses das nações é que estavam sob ameaça. Muitos acreditam que o Monte da Transfiguração, no qual Cristo revelou a São Pedro, Tiago e João, exatamente quem Ele era: a essência de Yahweh encarnado, é o Monte Heróm, e não o Monte Tabor. O inimigo sabe quem é Jesus Cristo, mas não sabe qual é Seu plano.

Conta-se que Jesus Cristo, no momento de sua agonia e morte, estava cercado pelos “touros de Bashan”. Ora, são nada mais nada menos que os elohim demoníacos, os inimigos de Yahweh e seus filhos nos últimos milênios.

O Apóstolo Paulo queria muito ir à Espanha (Tarshish) porque ele via seu ministério como o cumprimento da profecia de Isaías 66. Ele precisava da Espanha para que “seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo” (Romanos 15:16).

Mas como Deus pode fazer um gentio tornar-se um membro pleno de Sua família? É sua obra na Cruz que faz com que os exilados e deserdados se encontrem e formem uma nova entidade. Somos irmãos de Cristo, e cada um de nós estará com Ele no concílio dos elohim, a Seu lado. A missão de transpor o Céu e a Terra, de administrar o mundo de Deus, continua sendo de Sua família humana, e não de Sua família divina. Mas para isso Deus quer elevar a humanidade, criada um pouco inferior aos elohim, e incluir-la em Sua família para que a partir daí tome conta da Terra.

Para tornar-se membro desta família divina é necessário tornar-se divino. É o que se chama de theosis. Você é um espaço sagrado, você é um templo de Deus, tanto individualmente como corporealmente. O batismo é apenas uma declaração de lealdade ao Salvador ressuscitado, não é em si garantia de glorificação.

O conflito final ocorrerá em Jerusalém. Har-magedon é Jerusalém. Os exércitos do céu que testemunharão a derrota final do Anticristo e suas hordas é composto por elohim fiéis a Yahweh e por seres humanos divinizados. Chegará o dia em que os homens julgarão até mesmo os anjos.

Assim, o Reino está pronto para a realização completa e total na Terra, sob um concílio de deuses restaurado, em cujos membros se incluem fiéis glorificados. Estes fiéis terão o mesmo corpo que Jesus assumiu após a ressurreição.

Fonte: Michael S. Heiser, The Unseen Realm, Lexham Press, Bellingham, WA, EUA, 2015.

Imagem: Concílio de deuses antes do Dilúvio. Virgil Solis para o Livro I da Metamorfose de Ovídio, 162-208. Fol. 4v, imagem 7.