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13 de janeiro de 2023

Para uma metafísica renovada


Um dos mais criativos pensadores da atualidade, o filósofo e teólogo grego Christos Yannaras faz o que poucos ousam fazer: criticar duramente a redução do evento eclesial cristão em uma religião, seja ela o catolicismo romano, as várias "denominações" protestantes ou o "ortodoxismo", como chama aquilo que é normalmente pregado pela Igreja Ortodoxa. A partir de seus estudos de Heidegger, Yannaras se deu conta do erro crasso cometido no Ocidente, mas não só, ao descrever a estrutura da realidade (a "metafísica") com base em uma "onticidade ôntica", ou seja, com base no ser atomizado, isolado, seja na forma do Ser, do Ser Supremo, do Sobre-Ser, do Não-Ser etc. cuja suposta verdade autoevidente, em vez de servir de refutação à ideia mesma, levou-nos a todos nós ao beco sem saída do niilismo existencial e metafísico que nos encontramos. É sua tentativa intelectual, e por que não dizer hercúlea, de apontar esse erro e estimular um retorno à metafísica helênica da polis grega, qual seja, em que o pressuposto epistemológico de qualquer investigação e descrição metafísica deva ser a "relação", não o "ser", conforme evidenciado por exemplo pelas alcunhas Pai, Filho e Espírito, cuja relação de amor absolutamente voluntário e livre de quaisquer necessidades ou determinações deve ser a base mesma para a hermenêutica cristã. Os impactos práticos desse desvio metafísico são brutais, seja no campo das organizações eclesiásticas, seja na política, seja obviamente na teologia, seja na espiritualidade. A desumanidade, literalmente falando, atinge inclusive a sexualidade e a metafísica do corpo, com consequências psicológicas desastrosas.

Esses e outros temas são tratados em entrevista conduzida por Norman Russell, seu principal tradutor no Ocidente. Selecionei alguns trechos de interesse.

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Um pressuposto do pensar filosoficamente (um pressuposto real, não um a priori metodológico-intelectual) é que deve haver um sujeito do ato de pensar filosoficamente, um sujeito racional capaz de pensamento filosófico. Devo existir para poder pensar filosoficamente. 

A diferença entre o Ocidente e a tradição eclesial helênica reside no seguinte: o Ocidente diferencia o "existir" do "ser relacionado", e toma a relação como uma propriedade-capacidade que caracteriza apenas certos existentes (uma marca de reconhecimento dos seres racionais), enquanto o helenismo eclesial reconhece a existência como um evento de relações ativas – identifica "existência" com "relação". A compreensão que tiro pessoalmente do testemunho da experiência eclesial é que o existir em si constitui um ato de relação. Eu não existo primeiro e depois entro em relação; Eu existo porque tenho relação. 

No caso do Princípio Causal do existir e dos existentes, a linguagem da experiência eclesial é clara. O Princípio Causal não é uma divindade individual, um ser em si mesmo, "um ser que é supremamente divino, um gênero mantido na mais alta honra" (como Zeus, Uranos e Cronos). O que vem primeiro existencialmente e definitivamente não é a Divindade e, na sequência, seu triplo caráter como uma propriedade ou marca de reconhecimento. O Princípio Causal do que existe não é o que é porque é "Deus", mas porque é o Pai: aquele que constitui a existência como relação (isto é, como a liberdade do amor), aquele que "gera" o Filho e faz com que o Espírito "proceda". Seu ser não é Divindade; é triplicidade, relação -- "Deus é amor". 

O sujeito humano corresponde a isso. Nós não existimos primeiro e depois entramos em relação, mas existimos porque estamos relacionados; nossa existência é a realização hipostática (existencialmente real) de uma resposta a um chamado-à-relação, à convocação pela qual a Causa da existência nos chamou do não-ser para o ser. O chamado de Deus me constitui como existência, e o modo de minha existência é a liberdade de dar substância ao meu sim ou ao meu não a um chamado-à-relação erótico-amoroso com meu Criador; é a liberdade de perceber minha existência como uma afirmação ou negação em desenvolvimento do amor divino por minha "pessoa". 

Mesmo se examinarmos a existência humana do ponto de vista biológico, ela também é um evento de relações dinâmicas. Os seres humanos não existem se não respiram; se não forem alimentados com comida; e se não têm relação com os materiais que garantem vestimentas, instrumentos e abrigo. Um sujeito racional não é constituído pela linguagem (isto é, pelo pensamento) exceto por meio de uma relação com sua mãe – Lacan nos mostrou que “o primeiro significante se manifesta no lugar do Outro (no seio da mãe)”; é aí, na relação, que nasce a linguagem, isto é, o sujeito racional. 

A teoria da relatividade, o princípio da incerteza e o estudo do campo quântico também mudaram nossa percepção das existências inanimadas.

Percebemos que o universo sensível, o macrocosmo e o microcosmo, não é uma totalidade de entes dados, mas uma totalidade de relações ativas. Não há “algo” no universo “antes” do acontecimento ativo das relações que o constituem. Se distinguirmos o ser da relação, à maneira dos principais pensadores da tradição ocidental (Agostinho, Tomás de Aquino, Kant), surge inevitavelmente a pergunta: o que é o ser? Perguntamos sobre ser como "alguma coisa", não como algum tipo de como (não como um modo). O impasse a que nos conduz esse questionamento "ôntico" do ser é brilhantemente resolvido por Heidegger: a questão "o que é o ser?" necessariamente nos liga a um a priori dogmático ou a um niilismo consistente (logicamente e empiricamente).

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O agnosticismo é uma tese (thesis); apofatismo é uma atitude (stasis). A tese expressa uma certeza estanque que funciona como uma convicção ideológica, atômica: "Estou convencido de que não posso saber se alguma realidade metafísica realmente existe; não tenho nem o poder nem os meios para chegar a tal conhecimento". Assim, o sujeito da realidade metafísica ou de sua inexistência deixa de se apresentar como um problema. Não há margem para fazer perguntas ou fazer uma investigação. A adoção de uma certeza tão impermeável e fechada é o que chamamos de agnosticismo.

O apofatismo é uma atitude: "Estou aberto à possibilidade de que aquilo que desejo saber possa existir ou não. Mas identifico esse conhecimento possível (da experiência) com a verificação empírica, não com a compreensão dos significantes linguísticos do que é buscado". O apofatismo não se refere simplesmente aos significantes linguísticos da metafísica; é um princípio epistemológico geral. Ela insiste na diferença [na descontinuidade, diria eu] entre os significantes e o que eles significam, na diferença entre a forma de conhecimento veiculada pela compreensão dos significantes e o conhecimento experiencial das coisas significadas.

Gosto de dar o seguinte exemplo: uma criança que perdeu a mãe no momento do nascimento compreende o conteúdo intelectual do termo "amor materno", mas não conhece o amor materno. Alguém pode ter aprendido as regras de natação de cor, mas pode nunca ter mergulhado no mar. Essa pessoa não sabe o que é nadar.

A atitude de apofatismo, como mostrei em meus livros, é um princípio epistemológico que desde a antiguidade caracteriza a tradição grega. Essa atitude pressupunha a verificação social do conhecimento, o ditado heraclitiano "o que compartilhamos, verificamos; o que possuímos em particular, falsificamos" - o conhecimento é verificado "quando todos compartilham a mesma opinião e cada um a testemunha experimentalmente" (Aristóteles). O sentido etimológico da palavra grega para "verdade", a-lethia, é característico. A palavra é formada a partir do alfa privativo e lethe ("ocultação"). A-lethia é non-lethe, "desocultação". Conseqüentemente, "aparição" (emphaneia) ou "manifestação" (phanereisis) é um "vir à luz". Pela faculdade da visão, temos nossa experiência mais direta de participação na realidade. Não é por acaso que as antigas palavras gregas sobre o funcionamento do conhecimento se referem ao sentido da visão: falamos de ideias, e de forma ou eidos (de idein, "ver"), de teoria (de theeirein, "observar"), de fenômenos (de phainein, "trazer à luz") -- e até mesmo o verbo phemi ("eu digo") vem de piphauskei ("eu torno manifesto").

As expressões gêmeas "apofatismo" e "verificação social do conhecimento" diferenciam a epistemologia grega da epistemologia que moldou o Ocidente pós-romano (bárbaro). E porque a diferença entre modos de vida, isto é, entre culturas, é moldada pela epistemologia predominante em qualquer sociedade (não por sua ontologia), toda a civilização do Ocidente pós-romano foi moldada em linhas bem diferentes do modo grego.

Um exemplo característico é este: enquanto para um grego a verdade é uma experiência de visão, uma participação na aparência/manifestação, para um ocidental a verdade é a "coincidência da coisa pensada com o conceito" (adaequatio rei et intellectus). A coincidência do objeto com sua concepção intelectual em meu entendimento definiria e esgotaria a verdade. O intelecto sozinho seria suficiente para o conhecimento e apropriação da verdade; a concepção intelectual é o real existente, não sua verificação sensorial (daí o axioma cartesiano: cogito ergo sum).

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A verificação comunitária é algo diferente da aceitação coletiva ou em massa. A primeira é uma conquista da libertação da necessidade instintiva egocêntrica da posse da "verdade", uma conquista da relação (de recepção/comunhão) com a afirmação empírica também de nossos semelhantes. Este último é um abandono da liberdade, um escoramento da exigência egocêntrica de revestir a "verdade" com garantias "objetivas" (de autoridade, prova sistemática, utilidade manifesta, etc.).

A experiência comum confirma que a afirmação empírica atômica desliza facilmente para a ilusão -- é facilmente influenciada pelo que é desejado psicologicamente, pelo que satisfaz o apetite de prazer e assim por diante. A verificação comunitária das afirmações atômicas, no entanto, não é uma receita fácil: como todo evento de relações de comunhão, é o produto de uma luta pela libertação da tendência instintiva de autoafirmação e autossuficiência egoísta, uma conquista de nos libertarmos do individualismo existencial, com o objetivo de nos acolhermos e nos coordenarmos empiricamente com o testemunho do testemunho experiencial dos outros. A luta pela verificação é existencial; o campo de verificação é a linguagem.

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Lembro-me de uma conhecida jornalista que me entrevistou uma noite na televisão grega. Estávamos discutindo a crise social na Grécia atual e suas consequências culturais e antropológicas. De repente, e sem nenhuma conexão real com o fluxo lógico de nossa discussão, a jornalista me perguntou em tom de brincadeira, de maneira bastante direta: "Você realmente acredita em Deus?"

Reagindo espontaneamente, eu disse imediatamente: "Você acredita em Mozart?" E expliquei: conheço Mozart porque conheço e amo sua obra. Em sua obra, descubro a alteridade da existência pessoal de Mozart – o caráter único, diferente e irrepetível de sua pessoa. Eu o conheço com muito mais imediatismo e realidade do que, digamos, algum vizinho contemporâneo dele que o encontrava todos os dias na rua, mas não conhecia suas composições musicais.

A fé (confiança) em Deus é uma experiência de relação, não uma certeza intelectual. A relação começa com a descoberta de sua alteridade pessoal na beleza e na sabedoria da realidade sensível – da mesma forma que descobrimos um pintor por meio de sua pintura e um compositor por meio de sua música. E esse conhecimento que é transmitido pela relação tem a dinâmica constantemente aperfeiçoada, e nunca totalmente realizada, do amor erótico. A pergunta "Você acredita em Deus?" significa (pelo menos na língua grega): "Você confia nele?" E para confiar nele, você deve conhecê-lo, pelo menos por seu obra, no grau necessário para ganhar sua confiança. A partir daí, o conhecimento da sua pessoa é tão ilimitado como o conhecimento da pessoa humana: aperfeiçoa-se constantemente sem nunca atingir o seu limite.

Argumentos a favor e contra a existência de Deus referem-se a "convicções" individuais, pontos de vista ideológicos e escolhas psicológicas, não ao conhecimento de Deus. Eles nos mantêm presos a um nível infantil - eu me aventuraria a dizer que a "filosofia da religião", se ela coloca tal problema de argumentos a favor e contra, é pura infantilidade.

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A menos que eu esteja enganado, o que chamamos de teologia da Igreja é um testemunho de sua experiência. Começa com o testemunho dos apóstolos sobre a pessoa histórica de Cristo. Seus discípulos e apóstolos testemunham que, no caso dessa pessoa, "os limites da natureza foram superados": as leis/necessidades que regem a vida animada criada foram revogadas/aniquiladas. Cristo não é um indivíduo natural dotado de poderes sobrenaturais (um "faquir" que opera "milagres"), mas uma existência livre de qualquer determinação de natureza ou essência. Ele é um ser humano livre (e capaz de libertar seus semelhantes) da sujeição ao peso da natureza, à decadência da natureza e à finitude da natureza (por exemplo, no caso dos cinco pães e dois peixes), e finalmente está livre da morte. Esta sua liberdade existencial é confirmada por "sinais" específicos, por manifestações práticas de liberdade.

Cristo diz de si mesmo que é o Filho Logos (manifestação) de Deus Pai; que foi "enviado" para manifestar Deus à humanidade como Pai, Filho e Espírito consolador. Estas três palavras, "Pai", "Filho" e "Espírito", aparecem no "kerygma" cristão desde o início. Eles (e apenas estes três) constituem a "boa nova" da Igreja, o anúncio da alegria que trazem ao mundo aqueles que experimentaram a presença histórica de Cristo.

Que "alegria" essas três palavras trazem? A proclamação, sujeita à confirmação experiencial, de que o Princípio Causal da existência e daquilo que existe não é uma "divindade" inexplicável dada, uma entidade predeterminada por necessidade axiomática para ser aquilo que é (Ser em sentido último, divino, poder transcendente, etc.) -- não é o Princípio Causal daquilo que existe no sentido de uma necessidade cega. É uma existência autoconsciente, racional (comunicante), livre de qualquer pré-determinação, autodeterminada existencialmente como liberdade de amor. Existe porque quer existir, e realiza seu livre arbítrio em hipóstases que existem porque amam e somente para amar. É por isso que eles podem ser significados na linguagem humana não pelos significantes de entidades individuais (Zeus, Apolo ou Hefesto), mas por nomes que revelam relação: paternidade, filiação, unidade e diferença.

O Jesus histórico, o ungido de Deus, confirma por sua existência que Deus é livre de sua divindade, e por isso pode também existir sem mudança ou alteração como ser humano, livre também das limitações da humanidade, como sua ressurreição dentre os mortos testifica. Sua liberdade de limitações existenciais não é uma propriedade necessária; é um fato do livre arbítrio, o modo do amor, um modo da liberdade existencial divina “enxertada” (Romanos 11:17) na natureza humana, dada como uma potencialidade para a existência da humanidade.

A Igreja – ecclesia – é a realização deste dom divino constituído pela encarnação de Deus: é o modo da Trindade, o modo da libertação de toda necessidade existencial, tornada realidade a partir das existências humanas criadas -- é a existência como relação; existência como amor, ressurreição e imortalidade; a existência como dom de Deus recebida livre e ativamente pela humanidade. Tanto no Deus triádico quanto no ser humano eclesial, a vontade ou liberdade não é uma propriedade individual, algo exercido ou conquistado, mas um fato e realização da autotranscendência da relação –- é o amor como modo de existência.

Consequentemente, o Evangelho da Igreja, testemunho da experiência eclesial, não tem elementos dependentes do seu “contexto” histórico numa cultura específica, de modo que quando a cultura muda, é inevitavelmente necessário que o significado da experiência eclesial mude também. A Igreja através dos séculos não tem idéias, proposições ou visões hermenêuticas sobre Deus e a metafísica. A Igreja apenas registra sua experiência de que, se muda o modo de existência -- se a humanidade quer existir e luta por isso apenas para amar e porque ama, se luta para se libertar do ego -- então sua vida se torna uma celebração, antecipação da liberdade que Cristo concedeu à natureza humana.

O único elemento mutável neste depósito de testemunho eclesial é a linguagem. Somente a linguagem da relação, a expressão do amor, pode ser constantemente alterada e renovada sem que o poder da nova expressão jamais se esgote. A humanidade continua a produzir literatura erótica, poesia de amor, porque continuam existindo seres humanos que vivem ativamente o amor e o testemunham –- ninguém pensou em exigir que a poesia de amor tenha um “contexto histórico” com condições tópicas histórico-sociais (mutáveis).

Há dois grupos distintos que guardam absolutamente o mesmo sentido pueril do "evangelho" como ideologia: (1) os chamados "conservadores" que fazem da letra das formulações patrísticas um ídolo porque precisam revestir seu ego de "certezas" (os "fanáticos", "ultraortodoxos", "integristas" e "defensores do dogma e dos cânones"); e (2) os chamados "progressistas" ou "modernistas", que se engajam em "diálogos" ou "aberturas" para cada "cultura" e cada "nova tendência". Os membros de ambos os grupos são vítimas da mesma religiosidade individualista do fato eclesial.

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A theosis do ser humano de que fala a experiência eclesial é, portanto, sinônimo de sua salvação. Os seres humanos são "salvos" (tornam-se seguros/íntegros, e mesmo sendo criados, atingem a totalidade/integridade da existência e da vida); eles alcançam a "semelhança" com Deus que era o objetivo potencial de sua criação à imagem de Deus. Nas palavras de Gregório de Nissa, "o homem sai de sua própria natureza, tornando-se imortal da mortalidade, puro da impureza, eterno da impermanência e totalmente deus de seu estado humano" (On the Beatitudes 7 [PG 44:1280C-D]). Ou como Máximo, o Confessor, expressa: "Que devemos ser totalmente de Deus somente, refletindo o brilho divino em todos os movimentos de nossa alma e corpo. E, para simplificar, tornemo-nos receptivos a Deus inteiro e completamente totalmente deuses pela graça, sem se tornar idêntico a ele com respeito à essência" (Carta 1 [PG 91:376A-B]).

O que salva os seres humanos e os deifica não são suas conquistas éticas individuais, seus feitos de virtude individual, seu ascetismo heróico ou sua preeminência na luta contra a carne. O que os salva e deifica é a participação na Igreja, no modo da Igreja (a comunidade eclesial). O modo da Igreja é o modo de Cristo, que encarnou (fez o modo da humanidade) o modo do amor triádico: que também os seres humanos devem existir extraindo sua existência não de sua natureza, que está sujeita às necessidades, mas devem existir porque amam e são amados. A salvação/deificação de um ser humano não é uma conquista do indivíduo; é um dom eclesial. Com a Igreja, o ser humano realiza o modo de Cristo, a encarnação do modo do amor triádico.

Somos salvos porque somos amados por Cristo, nosso esposo amante; pela santíssima mãe de Deus; e pelos santos da Igreja - esta tempestade concentrada de amor hipostasia (torna uma existência real de) todos os seres humanos que livremente e ativamente dão seu consentimento, o "amém" de seu auto-abandono, à amorosa comunidade eclesial de pessoas do mesmo tipo.

Consequentemente, a salvação/teose que buscamos não é a sobrevivência ilimitada como indivíduos, mas a totalidade (o pleroma, ou plenitude) de toda relação amorosa que, no modo do criado, vivemos de forma fragmentária, deficiente. Se mesmo na terra, ligados como estamos à necessidade, sentimos algo da maravilha do amor; o esplendor da beleza; a euforia da criação e inovação; a alegria de ter filhos; o deleite de compartilhar nossa existência com outro, de entregar nosso corpo em casamento, de saborear o ilimitado da alteridade pessoal na expressividade da arte -- se todas essas coisas tornam a existência arrebatadora, mesmo sujeita à decadência e à morte, o que aguardamos "em esperança" é a sua conclusão e cumprimento: "As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu,e não subiram ao coração do homem,são as que Deus preparou para os que o amam". (1 Cor 2:9).

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Gostaria de vos recordar a admirável frase de São Máximo, o Confessor: "Sem desejo não há anseio, cujo fim é o amor".

São Máximo nos diz, se o estou interpretando corretamente, que o objetivo, a meta (o "fim") do anseio é o amor (agape). Amar significa sair do meu eu egoísta, libertar-me do autointeresse natural do impulso, para admitir o outro como participante da minha vida e existência, para compartilhar a vida e a existência com o "outro", o que significa minha vontade, minhas perspectivas e meus impulsos e desejos naturais. Significa que o “outro” deve tornar-se para mim o pressuposto e a potencialidade da minha renúncia à minha atomicidade existencial e ao meu interesse próprio. Significa que toda a minha existência deve ser amor "à semelhança" da existência de Deus. E esse milagre deve ser realizado "imperceptivelmente", sem a menor consciência de que estamos almejando uma recompensa. A liberdade deve ser alcançada pelo modo da criação através da aceitação humilde das necessidades da criação. Assim, o desejo e o anseio se manifestam como elementos da criação da humanidade "à imagem de Deus", elementos de que foi dotada a natureza da humanidade, de cada ser humano. O "poder de amar", o principal elemento de ser "à imagem", é semeado na natureza humana -- "como se um homem lançasse semente à terra; e dormisse, e se levantasse de noite ou de dia, e a semente brotasse e crescesse, não sabendo ele como" (Mc 4.26-28).

É claro que o amor não deixa de ser uma potencialidade, não uma necessidade como o são o desejo e o anseio, mas uma potencialidade que (eu seria ousado em dizer) a natureza "oferece" à pessoa, através do desejo e do anseio. A liberdade explora o desejo e o anseio para alcançar o amor kenótico, para realizar pelo eros para os corpos o eros de Cristo para a Igreja. 

A frase de São Máximo subverte radicalmente o medo da sexualidade que (de modo silencioso mas atormentador) é inato na pessoa religiosa. Eu diria que Máximo completa a tese de Paulo sobre a realização, através das relações sexuais, da recíproca doação e auto-oferta que faz do matrimônio um "mistério" (ou "sacramento"), isto é, uma manifestação da Igreja, do modo do reino. Infelizmente, a religiosidade do evento eclesial tornou a sexualidade culpada por definição na consciência de grande parte da população cristã e não cristã. A incompatibilidade do sacerdócio com a sexualidade no catolicismo romano e a proibição de um segundo casamento para clérigos viúvos no "ortodoxismo" estão entre as manifestações mais desumanas da versão religiosa da sexualidade como "poluição" e "impureza".

E essa perversão continua até hoje. Deixe-me lhe dar um exemplo. Pelo que você mesmo diz, de acordo comigo, conforme deduzo de nossas discussões, a grande maioria dos cristãos na Europa hoje, independentemente a qual "confissão" pertençam (sem excetuar os "ortodoxos") estão absolutamente certos de que o a salvação que a Igreja prega é individual, que cada um de nós será salvo ou punido eternamente de acordo com nossas virtudes individuais ou nossos pecados individuais, com nossos muitos ou inexistentes méritos. E o que exatamente significa "salvação" parece muito confuso. Geralmente é considerado uma extensão da existência individual, do ego, na eternidade, ou seja, no tempo linear sem fim. Mas mesmo a simples concepção intelectual de uma existência que nunca termina gera pânico na humanidade; é um pesadelo - e especialmente quando esta existência sem fim é definida como um "repouso abençoado", uma aposentadoria definitiva, uma alegria que brota da inatividade.

Como podem os homens considerar como uma "boa nova" a promessa de uma passividade tão terminal, quando nesta terra experimentaram a alegria da criação, a euforia da pesquisa, a embriaguez da constante descoberta da beleza, o êxtase do amor, a maravilha da trazer filhos ao mundo?

Fonte: Christos Yannaras e Norman Russell, Metaphysics as a Personal Adventure, St Vladimir's Seminary Press, Yonkers, NY, EUA, 2017.

23 de maio de 2021

Contra a religião


Algumas obserevações acerca de Against Religion, de Christos Yannaras.

Religião

A religião é fruto do instinto humano de preservação de seu eu individual, de seu ego, face à ameaça do desconhecido. A partir daí se abrem três vertentes para aplacar o problema: (1) a criação de uma doutrina metafísica, ou seja, de um conjunto a priori de axiomas que explicam o mundo sobrenatural a partir de observações do mundo natural e que não podem ser questionados nem pela razão, nem pela experiência comum; e (2) a criação de um conjunto de sacrifícios, sejam eles externos (sacrifícios de coisas ou pessoas), internos (abstinência de comida ou sexo) ou expressões e cerimônias (adoração, hinos, poesia, arquitetura), cujo objetivo é em última instância subornar a Deus e colocá-Lo contra a parede; (3) a criação de um código moral, ou seja, de um conjunto de comportamentos, alguns obrigatórios, outros proibidos, que assegurem ao individuo que ele é bom aos olhos de Deus.

Todas essas vertentes refletem ao fim e ao cabo o esforço do ego em ganhar sua salvação por meio do mérito, seja por fidelidade mental a um conjunto de doutrinas e dogmas, seja como pagamento pela consecução de sacrifícios, seja como fruto da chantagem em parecer uma pessoa boazinha.

Quanto à primeira vertente (apego racional a doutrinas e dogmas), as proposições metafísicas, não importa quais sejam, estarão sempre e constantemente sob ataque de novas objeções. Portanto, o intelectualismo metafísico só poderá sustentar-se lançando mão do recurso da autoridade, ou seja, a doutrina metafísica precisa provir de uma fonte irracional ou a-racional (líderes religiosos, revelações, insights, experiencias existenciais etc.). Aqui observa-se uma vez mais o elemento da escolha individual, da preferência atomizada, típicos da vida do ego. É por isso que se observa em tais grupos o comportamento ilógico, mas perfeitamente compreensível, de se construir um cerco fechado em torno das autoridades que protegem a doutrina metafísica: em face à ameaça externa o grupo se blinda e se enrijece em torno da fonte que lhes confere a certeza.

Evento eclesial

Enquanto a religião se caracteriza por mover-se dentro das limitações impostas pela natureza, a ekkesia se caracteriza precisamente por livrar-se dessas limitações dadas pela natureza. É por isso que se diz que Cristo não veio para fundar uma nova religião, mas uma nova criatura, um novo modo de existência. A este novo modo de existência Cristo chamou amor. Amor não é, portanto, um “gostar muito”, uma afeição carinhosa, um sentimento romântico, uma virtude altruísta. Amor é livrar-se da existência individualizada e atomizada, é livrar-se da vida do ego, é livrar-se das limitações impostas pela natureza.

Quando se diz que “Deus é amor” o que se quer dizer é precisamente que Deus não está limitado pelas condições e determinações naturais. Em outras palavras, Deus não “tem” amor, mas “é” amor, ou seja, ele se define precisamente por sua ausência de individualidade, atomicidade, por Seu modo de existência. Por isso Deus não é Deus no sentido das doutrinas metafísicas (“Ser”, “Ser Supremo” etc.), que se caracterizam precisamente por tomar as definições naturais como fundamento de sua lógica interna, mas é Pai, Filho, Espírito, ou seja, hipóstases (existências reais) em livre comunhão entre si, isto é, em comunhão não imposta por nenhuma condição natural ou criada. Observe que Pai, Filho e Espírito vivem um para o outro em liberdade hipostática, ou seja, em uma liberdade que parte exclusivamente da vontade de existir em comunhão, e não de existirem de modo que se autocompletem de maneira independente, nem de existirem por uma espécie de compulsão ou predeterminação de sua “natureza divina”. Este ponto é fundamental, vale a pena insistir: Pai, Filho e Espírito não estão predeterminados por nenhuma natureza ou essência, mas se autodeterminam por sua liberdade de relação entre si. Por isso Pai, Filho e Espírito são hipóstases, não indivíduos ou “pessoas” no sentido que naturalmente atribuímos a essa palavra. O efeito de autocompletar-se, a propósito, é o típico modo de existência autista, atômico, egocêntrico. É por isso que as doutrinas metafísicas, por mais que se cerquem de certa linguagem intelectualizada, são ao fim e ao cabo produto do instinto da religião natural.

É a este modo de existência, a esta nova criação, que os sinais operados por Jesus Cristo apontam. Esses sinais não devem ser interpretados como uma demonstração espetacular do poder de Cristo para que, a partir daí, nos entreguemos de maneira submissa à autoridade. Tal seria a resposta tipicamente religiosa. O que Cristo demonstra, não somente em si mesmo, mas em muitos outros à sua volta, é um novo modo de existência, um modo de existência a qual somos chamados para superar as limitações naturais, a uma verdadeira liberdade existencial, a uma liberdade de relação. Este é o sentido do evangelho, da boa nova. É a pregação do amor, desta nova vida, dessa nova, real e verdadeira existência.

Quando a vontade gnômica se liberta dos imperativos do ego, eis quando o pecado cessa. Pecar é errar o alvo, e o alvo é o modo de existência livre das limitações da natureza. Portanto, pecar é viver de acordo com as imposições do ego, de acordo com aquilo que interessa à sobrevivência e perpetuação do ego, à autoimagem, à vida natural, não uma infração a alguma regra moral. Há de ser muito claro

Ora, mas desapegar-se do ego não é algo que possa ser levado a cabo pelo próprio ego, pelo indivíduo, de maneira autista. Por isso falamos de “evento eclesial”, ou seja, de um esforço conjunto de pessoas em direção a uma vida em comunhão de amor, ou seja, que vivam conjuntamente o esforço de livrarem-se da vida egocêntrica. Haverá altos e baixos, e assim o esforço por eliminar os impulsos de autopreservação -- da preservação do ego -- será constante. Tal impulso, se porventura prevalecer, anulará o modo de existência relacional, e regressaremos ao estágio da vida natural.

O que acontece quando o evento eclesial se transforma em uma religião

Eis aqui alguns exemplos do que a religionização do evento eclesial causa:

(1) A fé se transforma em ideologia. A originalmente é a confiança que as pessoas que amam sinceramente experimentam. É uma experiência, e a linguagem que expressa essa experiência evidentemente pressupõe a existência dessa experiência e, obviamente, essa linguagem precisa ser controlada, ponderada, dirigida pela experiência que a originou. Mas a religião, escrava do ego e, portanto, desprovida da experiência proveniente do evento eclesial, toma o produto da linguagem que expressa essa experiência e o ideologiza por meio da introdução de uma falsa experiência a fim de conferir-lhe validação: a intelecção natural. No entanto, a intelecção é incapaz de garantir a certeza de seus encadeamentos lógicos porque os axiomas sobre os quais se baseiam são necessariamente arbitrários. Para esconder a dolorosa realidade dessa falta de certeza entra em ação um curioso mecanismo de defesa: o desejo de obter a certeza busca na imaginação, em “memórias vestigiais”, experiências emocionais passadas de euforia, excitação, alegria, autossuficiência etc., e substitui o objetivo real e original do desejo, que é a certeza da validade dos axiomas das doutrinas metafísicas, por essas memórias vestigiais. Por sua vez, a experiência subjetiva das memórias vestigiais é reaplicada na linguagem das doutrinas metafísicas, de maneira que o encadeamento lógico, em lugar de buscar a garantia de sua certeza na artificialidade dos axiomas, sub-repticiamente a buscará na invocação da certeza subjetiva que lhe conferem as memórias vestigiais. A fé se transforma em uma ideologia ou, em outras palavras, em uma construção psicológica. A religião não se interessa realmente por ontologia, mas por “psicologia”.

(2) A salvação em uma nova criatura se transforma em salvação do ego. O instinto religioso nega o evento eclesial, nega o modo de existência da comunhão em amor, nega o caminho para uma nova criatura. Assim que lhe resta buscar a salvação do que já existe. Em outras palavras, lhe resta salvar o ego psicológico individual. E essa certeza de salvação será construída mediante o cumprimento da lei. A lei, da qual o evento eclesial se opõe, é uma maldição porque é uma manifestação do poder do pecado, ou seja, do poder da vida natural, psicológica, do poder da escravização ao ego e seus ditames de autoestima, autossuficiência e respeitabilidade narcisista. Quando o Apóstolo sugere que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes (Atos 15:29) isso de forma alguma representa regras que, se cumpridas, farão parte da garantia da salvação do indivíduo. Tais são apenas sinais exteriores, objetivos, para distinguir os cristãos dos pagãos. Uma mera necessidade social circunscrita àquele ambiente em especial. No entanto, o instinto religioso, que sempre se espreitou e se manifestou aqui e ali na vida da ekklesia, ganhou enorme impulso a partir da proclamação da Ortodoxia em religio imperii e, em especial, ganhou forma nos cânones do Concílio Quinissexto de Constantinopla de 692, que publicou uma série de regras socias e morais, com especial ênfase à regulação da vida sexual dos fiéis. A elaboração desse e muitos outros códigos morais, e a respectiva exigência de seu cumprimento para a salvação do ego, impactou várias gerações, milhares ou milhões de seres humanos, que viveram sua única vida em um inferno de culpa imaginária, de desejos reprimidos, de ansiedade implacável, de autotortura narcisista. Gerações inteiras foram presas involuntariamente no tormento do legalismo, na existência deficiente de uma vida sem amor. Milhões de pessoas foram levadas a identificar no amor erótico o medo do pecado, na virtude a repugnância pelo próprio corpo e na expressão perceptível de afeto na repulsa. Tudo em nome da concessão humilhante à brutalidade da natureza humana.

(3) A assembleia eucarística se reduz a um ritual mágico. Jesus Cristo, na Última Ceia, apresentou uma realidade ontológica imageada no pão e no vinho. Os participantes ali presentes, assim como os participantes presentes nas subsequentes assembleias eucarísticas, devem evidentemente apresentar os mesmos pressupostos eucarísticos: a abnegação de seus egos individuais em prol da vida em comunhão amorosa. A realidade ontológica originalmente apresentada por Cristo só poderá ser “reproduzida” cumpridas tais condições. No entanto, de maneira lenta e imperceptível, o instinto religioso perverteu essa realidade em uma possessão individual do pão e do vinho que, milagrosamente, como num passe de mágica, se “transubstancia” (há outras expressões igualmente absurdas) em Corpo e Sangue de Cristo. Os participantes, agora transformados em “paroquianos”, se aproximam do pão e do vinho magicamente, como se fosse possível apossar-se do Corpo e Sangue objetivamente. O fetiche egocêntrico manifestado por esse entendimento é escandaloso: a ideia de purificar-se da culpa a fim angariar mérito para a salvação individual não tem absolutamente nenhuma relação com o modo de existência do evento eclesial. Todo o espaço eucarístico se preenche de expressões artísticas (orações, hinos, iconografia, arquitetura, idiomas eclesiásticos, indumentária) para impressionar o indivíduo, para conduzi-lo, como em uma sessão de hipnose, a sentimentos, emoções, euforias, imagens, cujo objetivo final será, evidentemente, satisfazer o ego.

(4) O sexo como fonte de alegria se transforma em sexo como fonte de neuroses. A perspectiva eclesial sobre as relações entre homens e mulheres atinge seu clímax em Paulo com a famosa passagem de sua Epístola aos Efésios onde ele vê na união amorosa de um homem e uma mulher e na “partilha de toda a vida” a imagem da relação de Cristo com a Igreja, uma imagem que não é metafórica ou intelectualmente alegorizada, mas é uma imagem/manifestação do poder dos seres humanos para realizar a relação vital do Filho Encarnado com a humanidade (vital porque é o provedor de vida ilimitada) como um evento existencial por meio de sua natureza psicossomática criada. É um poder que define aquilo que a Igreja chama de mistério, aquilo que distingue nitidamente o casamento eclesial da instituição natural/social /legal do casamento (cf. Ef 5, 21-33). Dentro do contexto do relacionamento mutuamente autotranscendente de marido e mulher, Paulo exige da esposa que ela cultive ativamente o respeito por seu marido, esteja sujeita a seu marido “em tudo”, como a Igreja o é para Cristo. Ele pede correspondentemente aos maridos que eles devem amar suas esposas “como eles amam seus próprios corpos” e muito mais, “assim como Cristo amou a igreja e se entregou por ela”. Essas demandas não constituem princípios reguladores do comportamento social; são os termos da transformação da instituição natural em mistério eclesial, em luta pela renúncia à vontade egoísta, luta de autotranscendência e oferta de si realistas. É apenas em termos de mistério (o modo de existência eclesial) que essas demandas podem ser julgadas, não de acordo com os padrões dos “direitos do indivíduo”, os padrões do moderno individualismo democrático de massa.

Há também a preferência claramente expressa de Paulo pela vida celibatária, que pode ser interpretada de várias maneiras: como um senso de reserva, depreciação e desprezo em relação à sexualidade, ou como uma busca pela liberação mais plena possível das leis naturais que regem natureza humana. O próprio Paulo não esclarece sua preferência analiticamente, mas também não pode ser discernido no que ele diz qualquer disposição ou sugestão de uma depreciação do sexo feminino - não há nada neles que nos permitiria atribuir a Paulo uma demonização das mulheres e de sexualidade.

Paralelamente a isso, podem-se discernir duas sugestões indiretas de que o instinto sexual natural pode cooperar com a meta da salvação humana (a meta de que o ser humano pode ser salvo, tornar-se sadio ou íntegro, com seus poderes existenciais totalmente integrados). A primeira sugestão diz respeito ao homem que é ajudado pela instituição natural do casamento a "deixar seu pai e sua mãe" (Ef 5:31), a romper com a garantia que reforça o ego de sua proteção, a fim de ousar aceitar o risco de atingir a vida adulta. A segunda dica diz respeito à mulher que “será salva por ter filhos” (1 Tm 2:15). A função natural da maternidade ajuda também a mulher a compartilhar seu ser, seu próprio corpo, a comunicar sua individualidade corporal, por meio da renúncia e da oferta de si que a maternidade acarreta. Ambas as dicas que encontramos em Paulo referem-se a potencialidades que são características da função generativa, não a preceitos reguladores que a "ética" de Paulo quer impor à natureza. É precisamente esse mal-entendido que causou (e ainda causa) muita desumanidade - atormentou (e ainda atormenta) gerações de seres humanos ao longo de muitos séculos.

Quando o evento eclesial é religioso, são esses textos do apóstolo Paulo que são idolatrados e proclamados (não apenas pelos protestantes) como sendo divinamente inspirados ao pé da letra. Mesmo seus elementos circunstanciais e historicamente condicionados são tratados como princípios reguladores obrigatórios para os cristãos de todas as épocas.

Leia: Christos Yannaras, Against Religion, Holy Cross Orthodox Press, Brookline, MA, EUA, 2013.