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18 de agosto de 2025

As três rebeliões, a geografia cósmica e a nova aliança


1. A primeira rebelião

Deus preside uma assembleia divina composta por deuses. Tais deuses são espíritos (elohim) sendo Deus/Jeová o Elohim acima de todos os elohim. Tanto os homens quanto o exército do céu imageiam a Deus, ou seja, são Sua família. Ambos – homens e deuses – representam a Deus, são filhos de Deus, compartilham os atributos de Deus. Ocorre que nós, homens, devemos representar a Deus na terra. Mas um querubim guardião ( “serpente” ou “dragão”, segundo antigas tábuas mesopotâmicas) rebelou-se contra Javé e foi expulso do Éden. Adão e Eva também se rebelaram, e a morte foi trazida à terra. Agora todos os homens morreriam.

Deus está na assembleia divina; julga no meio dos deuses. [...] Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo. (Salmos 82:1,6)

Terrível é Deus na assembleia dos santos. (Salmos 89:7)

Então ele [Miqueias] disse: Ouve, pois, a palavra de Javé: Vi a Javé assentado sobre o seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua mão direita e à sua esquerda. E disse Javé: Quem induzirá Acabe, para que suba, e caia em Ramote de Gileade? E um dizia desta maneira e outro de outra. Então saiu um espírito, e se apresentou diante de Javé, e disse: Eu o induzirei. E Javé lhe disse: Com quê? E disse ele: Eu sairei, e serei um espírito de mentira na boca de todos os seus profetas. E ele disse: Tu o induzirás, e ainda prevalecerás; sai e faze assim. Agora, pois, eis que Javé pôs o espírito de mentira na boca de todos estes teus profetas, e Javé falou o mal contra ti.  (1 Reis 22:19-23)

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito [único, exclusivo, ímpar, incomparável, sem igual], para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16)

E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gênesis 1:27)

Onde estavas tu quando lancei os fundamentos da terra? Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam? (Jó 38:4,7)

Nem mesmo de seus santos Deus se fia, e os céus não são puros a seus olhos. (Jó 15:15)

Tu dizias: Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembleia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo. (Isaías 14:13-14)

Tu eras o querubim, ungido para proteger, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas. (Ezequiel 28:14)

2. A segunda rebelião

Alguns filhos de Deus, ou seja, membros da assembleia divina, transgrediram a fronteira entre o céu e a terra. Por isso Deus os lançou no Tártaro (reino dos mortos) e ali permanecerão até o dia do Senhor, o fim dos dias. Por isso, os demônios que Jesus Cristo encontrou não podem ser os filhos de Deus que estão presos no Tártaro. Esses demônios são a prole formada pelo cruzamento dos filhos de Deus com as mulheres, ou seja, são os nefilins, os gigantes, cujos clãs foram combatidos por Moisés e Josué. Os descendentes dos nefilins são também chamados de “anakins” e “refains”. Autores judaicos extra-bíblicos acreditavam que os demônios, como aqueles descritos nos evangelhos, eram espíritos desencarnados dos gigantes. Eles tomavam como base a menção que se faz na Bílbia aos refrains mortos no submundo e em livros judaicos como 1 Enoque e  o Livro dos Gigantes (Manuscritos do Mar Morto)

Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas. [...] Havia naqueles dias nefilins na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos. (Gênesis 6:2,4)

Deus não poupou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no Tártaro, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo; e não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé. (2 Pedro 2:4-5)

Aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, [o Senhor] reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia. (Judas 1:6)

Eu destruí diante dele o amorreu, cuja altura era como a altura dos cedros, e que era forte como os carvalhos. (Amós 2:9)

3. A terceira rebelião

Os filhos de Adão, a humanidade, rebelou-se contra Deus e procurou atingir os céus por meio de uma torre. Deus confundiu sua língua e, em Babel, dividiu a humanidade em nações. Em resposta a tal rebelião, essas nações foram entregues aos membros da assembleia divina para que as governassem, e é por isso que as antigas nações adoravam a outros deuses. Mas esses deuses falharam e não governaram com a devida justiça, e por isso Deus também os condenará à morte. Os estudiosos chamam este fenômeno de “geografia cósmica”, ou seja, as nações em torno de Israel, dominada por deuses hostis (ou “príncipes”) que influenciavam a geopolítica dessas nações. O príncipe de Israel é Miguel, e é notável que há, por trás dos impérios visíveis uma batalha invisível em andamento. No entanto, Israel era a terra santa, o local designado para que Javé vivesse com seu povo, como era no Éden. Mas este local, esta relação, estava perdida. Deus não mais tinha relação com os homens.

Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus. [...] E o Senhor disse [...] “Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro”. Por isso se chamou o seu nome Babel. (Gênesis 11:4,6-7,9)

Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando dividia os filhos de Adão uns dos outros, estabeleceu os termos dos povos, conforme o número dos filhos de Israel. Porque a porção do Senhor é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança. (Deuteronômio 32:8,9)

Deus está na assembleia divina; julga no meio dos deuses. “Até quando julgareis iniquamente, favorecendo a causa dos ímpios?” (Salmos 82:1,2)

Eu disse: Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo. Contudo, morrereis como simples homens e, como qualquer príncipe, caireis. (Salmos 82:6,7)

Porque a indignação de Javé está sobre todas as nações, e o seu furor sobre todo o exército delas. [...] E todo o exército dos céus se dissolverá; e todo o seu exército cairá. (Isaías 34:2,4)

E será que naquele dia o Senhor castigará os exércitos do alto nas alturas, e os reis da terra sobre a terra. (Isaías 24:21)

Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu vinte e um dias, e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me. (Daniel 10:13)

Agora, pois, tornarei a pelejar contra o príncipe da Pérsia; ...eis que virá o príncipe de Javã [Grécia]...e ninguém há que me anime contra aqueles, senão Miguel, vosso príncipe. (Daniel 10:20,21)

E disse Naamã: Se não queres, dê-se a este teu servo uma carga de terra que baste para carregar duas mulas; porque nunca mais oferecerá este teu servo holocausto nem sacrifício a outros deuses, senão a Javé. (2 Reis 5:17)

4. A velha aliança

Para restaurar a relação com os homens, Javé a lançou com um homem chamado Abraão. No entanto desta vez Javé não se limitou a falar desde os céus, mas apareceu fisicamente a Abraão (e a Isaque e a Jacó) como homem. Visões não são apenas “miragens” ou “alucinações”, mas coisas reais que se veem: elas se sentavam, falavam, andavam. Javé aparecia frequentemente como o “anjo de Javé” (anjo do Senhor). Há ainda dois conceitos que são associados ao anjo: a palavra e o nome. Ambos são descritos como pessoas, ou seja, como a presença do próprio Javé. O fato de Javé ter aparecido como homem aos judeus os preparou para receber Javé como homem em Jesus Cristo.

Deus lhes deu uma lei (613 leis na verdade), mas não era através da lei que obtinham a salvação. A lei os ajudava a viver em harmonia com Deus e entre si. A salvação, entretanto, era obtida mediante a crença de que Javé era o Deus de todos os deuses. Os judeus tinham de negar a adoração a qualquer outro deus que não fosse Javé.

Em especial, nesses tempos de geografia cósmica, Javé estabeleceu nas leis um espaço santo, que deveria ser especialmente preparado e purificado para distingui-lo de um espaço normal. Esse espaço santo deveria lembrar aos israelitas do Jardim do Éden.

O Deus, em cuja presença andaram os meus pais Abraão e Isaque, o Deus que me sustentou, desde que eu nasci até este dia; o anjo que me livrou de todo o mal, abençoe estes rapazes. (Gênesis 48:15,16)

Eis que eu envio um anjo diante de ti, para que te guarde pelo caminho, e te leve ao lugar que te tenho preparado... Não o provoques à ira; porque não perdoará a vossa rebeldia; porque o meu nome está nele. (Êxodo 23:20,21)

Eis que o nome de Javé vem de longe, ardendo a sua ira, sendo pesada a sua carga. (Isaías 30:27)

E Moisés...chegou ao monte..e apareceu-lhe o anjo de Javé em uma chama de fogo do meio de uma sarça; e vendo Javé que se virava para ver, bradou Deus a ele do meio da sarça. (Êxodo 3:1-2,4)

Manifestei o teu nome aos homens. (João 17:6)

E Arão lançará sortes sobre os dois bodes; uma sorte por Javé, e a outra sorte por Azazel. Mas o bode, sobre que cair a sorte por Azazel, apresentar-se-á vivo perante Javé, para fazer expiação com ele, a fim de enviá-lo ao deserto como Azazel. (Levítico 16:8,10)

5. A nova aliança

No novo testamento ocorrerá o mesmo: os homens deverão crer que Jesus Cristo é o Senhor dos senhores e que morreu na cruz para que os homens possam voltar a unir-se a Ele. Porém, tal estratégia divina era desconhecida dos “príncipes deste mundo”, ou seja, dos deuses inferiores de Babel, e até mesmo dos apóstolos. E o mais importante: a salvação agora não deveria estar à disposição somente do “povo de Javé”, mas a toda a humanidade, a todos os que estavam sob o domínio de Satanás e dos deuses das nações.

Aos apóstolos, no entanto, houve um evento específico no qual Jesus Cristo revelou quem Ele realmente era. Trata-se da transfiguração no Monte Hermon, numa região conhecida no VT como Bashan. Os cananeus acreditavam que nesta montanha ou “rocha” havia portais para o submundo, as tais “portas do inferno”. Em alguns dos manuscritos do Mar Morto, que datam dos tempos de Jesus Cristo, o Monte Hermon era o local onde os filhos de Deus desceram à terra antes do dilúvio. Bashan e Hermon eram, portanto, o “marco zero” dos poderes cósmicos malignos, e obviamente muito significativo o fato de Jesus estar literalmente às portas do inferno declarando que não prevalecerão sobre a ecclesia.

Em seguida Jesus disse a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém para morrer. Os discípulos não entenderam, mas era hora de cumprir o plano de Deus. Diante de Caifás, Jesus Cristo declarou que Ele era quem haviam dito dEle: o Cristo, o Filho de Deus e que, ademais, o viriam sobre as nuvens do céu. Para Caifás tal declaração era uma blasfêmia porque Jesus estava citando uma expressão do Velho Testamento (“nuvens do céu”) que era usada apenas em alusão ao próprio Deus (por exemplo, no salmo 104:3). Ademais, no VT a chegada de Deus era associada ao fogo, ao vento violento. Foi precisamente o que se viu em Pentecostes. E também em Pentecostes ficou claro, com o fenômeno dos vários povos entenderem em suas línguas, que a salvação agora estava disponível a todos porque a soberania de Jesus Cristo, após vencer a morte, recaía sobre todas as nações. As línguas que antes dividiam as nações agora estavam formalmente superadas. Pentecostes foi como um “tapa na cara” nos deuses das nações porque sua autoridade foi anulada.

O Apóstolo Paulo, sabendo agora que todas as nações deveriam receber o evangelho, fez questão de dirigir-se até os confins do Império Romano: a Espanha. Este fato foi esclarecido por São Clemente de Roma (5:7), ainda no século I, quando disse que São Paulo dirigiu-se até os limites do ocidente. O espaço sagrado de Deus, antes algo geográfico, agora está no corpo de cada homem. Todo crente em Jesus Cristo é espaço sagrado agora.

Mediante a fé em Jesus Cristo somos levados à salvação: compartilharemos a natureza divina e escapamos da corrupção que existe no mundo. Seremos como deuses, teremos um corpo como o que Jesus teve após a ressurreição e, com os membros fiéis do exército do céu, faremos parte da família de Deus e o adoraremos para sempre.  Uma nova terra será erigida na qual os novos deuses, em substituição aos deuses caídos, seremos nós, os fiéis em Jesus Cristo. O céu voltará à terra, e uma sociedade entre Deus e os homens será restaurada, o próprio Éden.

Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória. (1 Coríntios 2:7,8)

E Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás! (Mateus 16:22,23)

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome. (João 1:12)

Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo. E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. (João 12:31,32)

Jesus tomou consigo a Pedro, a Tiago, e a João, e os levou sós, em particular, a um alto monte; e transfigurou-se diante deles... E desceu uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e saiu da nuvem uma voz que dizia: Este é o meu filho amado; a ele ouvi. (Marcos 9:2,7)

Disse-lhe o sumo sacerdote: Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu. (Mateus 26:63,64)

Um ancião de dias se assentou; a sua veste era branca como a neve, e o cabelo da sua cabeça como a pura lã... e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno. (Daniel 7:9,14)

E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas. (Atos 2:2-4)

Se abriram os céus, e eu tive visões de Deus... Um vento tempestuoso vinha do norte, uma grande nuvem, com um fogo revolvendo-se nela. (Ezequiel 1:1,4)

É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações. (Mateus 28:18,19)

Assim que, concluído isto, e havendo-lhes consignado este fruto, de lá, passando por vós, irei à Espanha. (Romanos 15:28)

O vosso corpo é o templo do Espírito Santo. (1 Coríntios 6:19)

Ele [Jesus Cristo] não se envergonha de lhes chamar irmãos, dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos, cantar-te-ei louvores no meio da assembleia. E outra vez: Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu. (Hebreus 2:11-13)

Fonte: Michael Heiser, The Unseen Realm - documentary film with Dr. Michael S. Heiser, YouTube, 2022.

12 de agosto de 2025

Batismo


No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. (Colossenses 2:11-12)

Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis; antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós, tendo uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam da vossa boa conduta em Cristo. Porque melhor é que padeçais fazendo bem (se a vontade de Deus assim o quer), do que fazendo mal. Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo; o qual está à destra de Deus, tendo subido ao céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências. (1 Pedro 3:14-22)

E um certo Ananias, homem piedoso conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos os judeus que ali moravam, vindo ter comigo, e apresentando-se, disse-me: Saulo, irmão, recobra a vista. E naquela mesma hora o vi. E ele disse: O Deus de nossos pais de antemão te designou para que conheças a sua vontade, e vejas aquele Justo e ouças a voz da sua boca. Porque hás de ser sua testemunha para com todos os homens do que tens visto e ouvido. E agora por que te deténs? Levanta-te, e batiza-te, e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor. (Atos 22:12-16)

E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, em remissão de pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo. (Atos 2:38)

Vê-se que batismo e circuncisão estão intimamente interligados. O que se diz da circuncisão tem de ser dito do batismo. No entanto, a circuncisão em momento algum do VT tem a ver com “renascimento”, “remissão dos pecados”, “garantia da fé” etc. Aliás, as pessoas circuncidadas nem mesmo eram questionadas a respeito de sua fé, ou da falta dela.

A circuncisão era apenas e tão-somente um sinal visível que servia de lembrança de que a graça de Deus foi concedida a Abraão e à sua descendência. Ela não garantia, nem tinha nada a ver com, “salvação”. A circuncisão era uma maneira de admitir os homens à comunidade daqueles que conheciam a verdade sobre Javé, o único e verdadeiro Deus. Era um sinal visível, mas que em momento algum poderia substituir o “coração circuncidado”, ou seja, um coração crente nas promessas de Javé e na adoração que lhe era devida. Em suma, a circuncisão era importante porque somente essa comunidade, a dos israelitas, possuía a verdade, aquilo que São Paulo chamava de “oráculos de Deus”, o caminho para a salvação, e era mediante a circuncisão que o membro poderia ter acesso a tais oráculos. (Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em toda a maneira, porque, primeiramente, os oráculos de Deus lhe foram confiados. Romanos 3:1-2).

O batismo tem, ou deveria ter, a mesmíssima função: um sinal visível de inclusão. A pessoa sendo batizada poderá ter acesso aos oráculos de Deus e ouvir a verdade naquela ecclesia. Em 1 Pedro citada acima, o batismo é apresentado como um juramento de lealdade a Jesus Cristo na batalha cósmica. Nesse trecho, São Pedro faz uma alusão tipológica (analógica) com os anjos caídos relatados em Gênesis 6: eis por que as antigas fórmulas batismais incluíam a renúncia a Satanás e seus anjos caídos.

De qualquer forma, o batismo nunca foi entendido como um ritual que predispõe ou inclina a pessoa à salvação. Pelo contrário, o que é realmente central à salvação é a fé, o arrependimento, a decisão de fazer parte do exército de Jesus Cristo, e todos os demais elementos (como se pode ver em Atos 2:38) se conectam perifericamente a tal postura.

Fonte: Michael Heiser, Baptism, YouTube, 2016.

11 de agosto de 2025

A ceia do Senhor


Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntais para comer, esperai uns pelos outros. (I Coríntios 11:17-33)

E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. (Mateus 26:26-28)

E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que por muitos é derramado. (Marcos 14:22-24)

E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós. (Lucas 22:19-20)

No dia seguinte, a multidão que estava do outro lado do mar, vendo que não havia ali mais do que um barquinho, a não ser aquele no qual os seus discípulos haviam entrado, e que Jesus não entrara com os seus discípulos naquele barquinho, mas que os seus discípulos tinham ido sozinhos. (Contudo, outros barquinhos tinham chegado de Tiberíades, perto do lugar onde comeram o pão, havendo o Senhor dado graças). Vendo, pois, a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos, entraram eles também nos barcos, e foram a Cafarnaum, em busca de Jesus. E, achando-o no outro lado do mar, disseram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui? Jesus respondeu-lhes, e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou. Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou. Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu. Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Disseram-lhe, pois: Senhor, dá-nos sempre desse pão. E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede. Mas já vos disse que também vós me vistes, e contudo não credes. Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu, eu perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu. E diziam: Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu? Respondeu, pois, Jesus, e disse-lhes: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim. Não que alguém visse ao Pai, a não ser aquele que é de Deus; este tem visto ao Pai. Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a comer? Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não como de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre. Ele disse estas coisas na sinagoga, ensinando em Cafarnaum. Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Sabendo, pois, Jesus em si mesmo que os seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: Isto escandaliza-vos? Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e vida. Mas há alguns de vós que não creem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido. (João 6:22-65)

Os três evangelhos sinóticos tratam da Última Ceia, mas o capítulo 6 do evangelho de João não trata da Útima Ceia. Boa parte da confusão sobre transubstanciação, presença real de Cristo no pão e no vinho etc. vem daí. Está claro, pelos trechos desse capítulo 6, que o cristão não tem de comer Jesus Cristo, mas crer em Jesus Cristo. A crença em Jesus Cristo era o pão e não o pão era Jesus Cristo (“A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou”). Em outras palavras, o “comer” é crer, e não comer algum alimento propriamente. A vida eterna não vem de um pão divinizado, mas da crença em Jesus Cristo. A fome e a sede são saciados mediante a crença em Jesus Cristo, não pelo consumo de algum alimento (a despeito de tal alimento poder ou não ser transformado ou transubstanciado ou simbolizado ou o que quer que seja em Jesus Cristo). O pão e o vinho são apenas analogias da fé em Jesus.

Quanto ao que diz o Apóstolo Paulo em I Coríntios 11, o que recebemos da ceia é precisamente aquilo que os sacerdotes do VT recebiam, aos quais o próprio apóstolo alude nos capítulos anteriores: comunidade com Deus, o que nos causa uma grande gratidão, uma “ação de graças” por nossos pecados terem já sido perdoados pela oferta sacrificial. Portanto, a Santa Ceia é referida analogicamente pelo apóstolo como aquilo que não salva, como aquilo que não contribui para a salvação, precisamente porque o que salva é a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ademais, nota-se que a ceia não era apenas um pequeno pedaço de pão ou um pequeno trago de vinho, mas uma refeição completa, tão completa que alguns chegavam ao ponto de se empanturrarem e se embriagarem.

Por fim, observa-se que o apóstolo conecta a comunhão à Última Ceia, e não a João 6 (lembremos que a Última Ceia é relatada por São João em seu evangelho apenas muito mais tarde, no capítulo 13) o que significa dizer que a única função da comunhão é comemorar (ou “rememorar”, ou “fazer em memória de”) a morte e ressurreição de Jesus Cristo até que Ele venha de novo (aliás, somente em Lucas ela é citada realmente). Em nenhum momento o apóstolo afirma, nem mesmo alude, a ideia de que a comunhão deva servir como veículo da graça salvífica ou qualquer outro tipo de “transubstanciação” ou “consubstanciação”. A maneira digna de se portar da ceia é não se empanturrar, não se embriagar, não provocar divisões e não humilhar os outros, sobretudo os pobres, simples assim. Quando o apóstolo diz para “discernir o corpo do Senhor” o que devemos entender é que aquela igreja, a igreja de Corinto, é o corpo do Senhor, e ninguém nela deve ser segregado, humilhado, desprezado etc. A ceia do Senhor não é para aplacar os famintos – para isso eles têm suas próprias casas –, de maneira que os menos favorecidos não sejam humilhados e escanteados por esses famintos. Eis tudo.

Fonte: Michael Heiser, The Lord's Supper, YouTube, 2016.

6 de junho de 2025

A psicologia da fé


Quanto mais elevada a virtude tanto mais evanescente torna-se seu entendimento. Com a fé, uma virtude considerada “teologal” ou “sobrenatural” pela ética católica romana, não é diferente. Fé não deixa de ser “crença”, mas não uma crença qualquer. Podemos crer numa verdade natural qualquer, como as leis da física-matemática ou da biologia, e a base de tal crença será a verdade intrínseca nelas contidas. Mas com a fé é diferente: cremos em algo “por fé” por causa da autoridade de Deus, que não pode enganar-se ou enganar-nos.

O primeiro a notar aqui é que a fé é um ato da inteligência. Não, não é um ato do “coração”, do “sentimento”, da “intuição”. A fé admite um ensinamento, um fato, uma verdade com base no testemunho de alguém.

O segundo a notar aqui é que a fé é um ato da vontade, ou seja, é algo sob nossa responsabilidade moral.

Vejamos com alguns detalhes como opera a fé sob ambos os pontos de vista.

Inteligência

Os preliminares lógicos da fé se sustentam (1) na filosofia, que demonstra a existência de Deus e (2) na história, que apresentam os fatos ligados à revelação de Jesus Cristo. São os chamados preâmbulos da fé. A fé é, portanto, é o elemento necessário para atingir certas realidades distantes no tempo ou estritamente sobrenaturais. É a única via que se abre à inteligência humana durante a sua peregrinação terrena.

No entanto,

[i]nerente à nossa natureza e, por isso, sensível em todas as gerações, é esta inércia da matéria que não se eleva espontaneamente à região das realidades espirituais; é esta inclinação para a terra e os seus bens, que se nos impõem pela sua indispensável necessidade e nos atraem pela tangibilidade de suas seduções sensíveis. Toda a atividade intelectual superior encontrará sempre, neste invólucro material que é a metade menos nobre de nós mesmos, uma oposição que é possível vencer, mas não é possível eliminar. Estas dificuldades psicológicas que embaraçam o surto da inteligência para as esferas elevadas do pensamento puro, agravam-se, no caso particular da instrução religiosa, com a perspectiva do descobrimento de novos deveres, — ameaça contínua à livre e ilimitada satisfação das paixões.

Franca explica que é o próprio Deus quem auxilia o homem na ascese intelectual – eis a virtude teologal em ação. Vejamos:

Realizar a nossa unidade interior é realizar a nossa plenitude. Um ser vale o que vale a sua unidade; cindi-lo é destruí-lo: unificá-lo é dar-lhe o máximo de estabilidade e de perfeição. Enquanto não nos elevamos acima da multiplicidade criada, estamos divididos, dissipados, dispersos. Na ordem ontológica. Deus é o princípio de toda a unidade, como de toda a realidade. Ele, Causa Primeira de tudo o que é; Ele, Fim para o qual tudo tende; alfa e ômega do universo. Na ordem psicológica e moral, começamos o nosso trabalho de unificação quando refletimos a ordem da realidade e entramos a ver, julgar e agir através da luz que vem de Deus. Mais bem conhecido e mais amado, Deus vai aos poucos concentrando as nossas ideias e as nossas aspirações na unidade de sua paz infinita. Através das vicissitudes da multiplicidade terrena este recolhimento unificador é a melhor preparação à felicidade definitiva das inteligências fixas na intuição beatífica da Suprema Verdade, Plenitude de todas as perfeições. É o significado mais profundo da palavra divina de Cristo: haec est vita aeterna ui cognoscant te solum Deum verum et quem misisti Jesus Christum [e a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste – João 17:3].

Quais as disposições que podem induzir a um desequilíbrio no uso do intelecto? Em primeiro lugar, a unilateralidade, ou seja, a especialização intensa e prematura a determinado objeto em detrimento de outros. Por exemplo, alguém que se hiperespecializa em matemática perde as delicadezas de uma fina análise psicológica. Como diz Franca, são “olhos que vivem sempre abertos à luz meridiana e que acabam por não discernir os objetos no claro-escuro de uma penumbra”. É por isso que muitos, ao se depararem com os preâmbulos da fé, têm seu espírito recolhido àquilo que transcende o domínio dos sentidos, como é o caso da existência de Deus, a questão do ser, a analogia entis e outros temas metafísicos. A simplicidade das deduções matemáticas e dos métodos científicos não se aplica aqui. Como dizia Aristóteles: “É próprio de uma inteligência disciplinada não exigir uma evidência de outra espécie que a permitida pela natureza do objeto estudado”. A inteligência disciplinada, portanto, apresenta perfeita docilidade ao real em toda a riqueza de sua complexidade.

Em segundo lugar, há o preconceito. Por exemplo, quantos não partem de pressupostos cientificistas quando adentram questões metafísicas? A ciência, em vez de servir de observação serena dos fatos, torna-se uma ferramenta de seleção e interpretação tendenciosa imposta pela tirania do preconceito. A negação do sobrenatural não é resultado de nenhuma investigação científica, mas a orientação preliminar a qualquer investigação.

Vontade

É no domínio da vontade que reside o maior risco de cairmos em enganos. Isso ocorre porque o movimento da vontade pode dar-se não pela evidência objetiva proporcionada, mas pela atração de um interesse. O assentimento da vontade ao interesse figura-lhe um bem: estamos no campo das simpatias e aversões, do orgulho, da vaidade, do respeito social, das complacências ambiciosas, da dificuldade em romper opiniões bem acolhidas no meio, da família, do grupo profissional etc. Como diz Leonel Franca, afirmamos mais do que vemos.

Mas então qual a “função” da vontade no contexto da fé (ou na adesão a qualquer verdade)? A primeira e mais simples é determinar a inteligência ao exercício de sua atividade. Em outras palavras, estamos falando da atenção.

No entanto, sabemos perfeitamente que há verdade que pelo seu objeto complexo ou pelo caráter elevado e abstrato não se apresentam ao espírito com evidência avassaladora. Se estas verdades têm repercussões práticas importantes cumpre ainda ajuntar à boa educação do espírito as retas disposições do coração. A influência das paixões e das más inclinações morais podem obnubilar a luz dos argumentos e impedir a visão serena da realidade. Eis que, além da atenção, é preciso o concurso da retidão moral sob pena de a adesão intelectual ser sobrepujada por dúvidas imprudentes – chamam-se assim por elas darem mostra de pouca sabedoria. A vontade se enfraquece e a inteligência se extravia nos meandros de labirintos.

É por isso que, como diria Platão, é preciso ir à verdade com toda a alma, pois nota-se que o principal obstáculo à fé não está nas dificuldades intelectuais propriamente, mas nos sacrifícios que ela impõe. Quem não ama a verdade não merece conhecê-la.

Quais as disposições que podem induzir a um desequilíbrio no uso da vontade? Em primeiro lugar, o orgulho. Como diz sabiamente Franca: “É através de um programa de viver que optamos por uma fórmula de pensar”. Se Platão está certo no que disse, ou amamos a verdade acima de tudo, inclusive da vida, ou amamos a nós mais que a verdade. Em outras palavras, ou amamos a Deus até ao desprezo de si, ou amamos a nós até ao desprezo de Deus. No homem observamos o orgulho de duas formas: (a) estima excessiva do próprio valor (“dignidade pessoal”) e (b) desejo imoderado da estima dos outros (“sociabilidade”). De qualquer forma, nota-se a intolerância de qualquer superioridade e, por conseguinte, o desprezo de qualquer inferioridade. Como solucionar a sensação de superioridade (ou inferioridade) que sentimos ante o próximo? Franca propõe contemplar o ser humano não acidentalmente, mas substancialmente, e, a partir daí, extrair seu devido “lugar ontológico” ante o Ser. Vejamos:

Há uma ordem essencial que põe os seres em seu lugar e os liga pela necessidade de relações indestrutíveis na harmonia do Universo. Como toda a criatura, o homem é, de sua natureza, dependente. A existência não a tem ele de si mesmo, nem de si mesmo a pode conservar ou prolongar-lhe a duração; recebeu-a de outrem. A essência de ser racional, com as suas exigências e finalidades, não a construiu ele; outro é o seu Autor. O universo que o envolve com a variedade das naturezas, regidas por leis próprias e orientadas para fins determinados, tão pouco dele depende na sua existência e na sua teleologia. O homem não pode crer ou aniquilar um átomo nem alterar a menor das leis naturais; só lhe é dado utilizar as energias cósmicas para os seus fins humanos, mas ainda assim obedecendo-lhes aos princípios que regem o seu jogo natural: naturae non nisi parendo imperatur [só se governa a natureza obedecendo-a], dizia Bacon. [...] Eis o lugar essencial do homem na hierarquia dos seres. Aceitá-lo voluntariamente é ser humilde. Nos seus mais altos fundamentos ontológicos, a humildade é luz na inteligência e justiça no coração. A humildade é, pois, a expressão da verdade e da ordem.

Se Deus é o Primeiro Princípio e o Fim Último, o Alfa e o Ômega, então fica evidente que o orgulhoso, pelo dinamismo interno de seu próprio desregramento e cegueira, tende a subtrair-se à própria lei e a desviar-se do próprio fim. Ele não reconhece nenhuma autoridade que não seja seu próprio coração. Franca não deixa de notar, como o vimos em Orlando Fedeli em algumas ocasiões (aqui  e aqui), a tendência das filosofias e religiões de separarem os seres humanos em grupos ou extratos, dentro dos quais há um escol de iniciados detentores de uma revelação esotérica e uma massa fraca e ignóbil condenada à ilusão e ao erro. É assim em Plotino, Marco Aurélio, Epiteto, nos gnósticos, Voltaire, Nietzsche. Em Cristo, no entanto, as almas se distinguem por sua elevação moral.

Lembre-se: o orgulho surge quando nos esquecemos de que somos dependentes, na existência e na finalidade, de um Primeiro Princípio.

Em segundo lugar, a vontade é desequilibrada pela sensualidade. Enquanto consciência de uma harmonia vital, o prazer em si é um bem. É como se o prazer fosse um atestado da racionalidade que há por trás dele, mais ou menos como o perfume de uma flor que atesta sua beleza e sua vitalidade. Mas assim como o perfume de uma flor pode enganar ocultando uma flor doente, o desfrute dos prazeres da sensualidade pode ocultar uma personalidade doente. A ordem normal dos valores deveria submeter a sensualidade à potência racional do homem, mas quando o egoísmo se expressa brutalmente se vê o contrário: a desordem se manifesta na escravização da razão às potências sensitivas. O homem perde as prerrogativas da humanidade.

O mecanismo básico da sensualidade desordenada é diminuir a capacidade de dedicação e estreitar os horizontes da vida. A busca desordenada de prazeres forçosamente projeta os sentidos para fora e acabam por projetar para dentro da alma a agitação e a instabilidade fugaz das emoções associadas aos sentidos. O ambiente indispensável ao trabalho intelectual fecundo e elevado é destruído pela tal agitação e instabilidade. A inteligência, se entra em atividade, é para atender, como serva humilhada, aos ditames da sensualidade. Hipertrofia-se o animal em detrimento do racional. É claro que indivíduos assim podem alcançar grandes glórias em suas áreas de atuação, mas aqui não cabe vaticinar que todo individuo centrado na sensualidade será um fracassado ou algo assim. Mas, sim, cabe vaticinar que todo indivíduo centrado na sensualidade terá seu potencial diminuído, minado, arruinado.

Por fim, lembremo-nos de que a experiência de uma vida moralmente ordenada uma maior assimilação, ou seja, uma maior semelhança natural e ontológica entre Deus e o homem.

Fonte: Leonel Franca, A psicologia da fé, Calvariae Editorial, Sertanópolis, PR, Brasil, 2019.

25 de abril de 2025

Vinte anos de blog e algumas breves reflexões


Quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus. (1 Coríntios 10:31)

Porque vale mais um dia nos teus átrios do que mil. (Salmos 84:10)

Hoje este blog completa 20 anos e pensei que seria um bom momento para refletir a respeito da noção de progresso intelectual e, de quebra, cumprir, com imenso atraso, a promessa do post inaugural e tecer alguns comentários sobre o livro que inspirou seu nome.

Em uma recente entrevista, o médico e escritor Drauzio Varella see fez uma pergunta retórica: o que seria dele se não tivesse aprendido o que aprendeu nos livros e estudos ao longo de seus 81 anos? O quanto sua consciência estaria limitada a uma visão adolescente do mundo? De quais experiências e vivências estaria ele privado não fosse a abertura e a riqueza que a vida intelectual lhe proporcionou? Que aventura mesquinha e medíocre teria sido sua vida se seu espírito não tivesse sido tocado pelo conhecimento?

Progredir intelectualmente não é acumular ideias e fatos filosóficos e científicos. Isso não é intelectualidade, mas erudição. É verdade que a erudição é em grande medida necessária para o desenvolvimento da vida intelectual, mas não deve ser confundida com ela. O intelecto se desenvolve quando ele se adequa às verdades que descobre. É como se o intelecto se moldasse às, ou mesmo se tornasse as, verdades que vai descobrindo ao longo do tempo e, assim, adquirindo a “forma” da própria verdade. Intelecto não é “cognição”, mas a parte mais elevada do composto humano, ou seja, aquilo que temos de mais propriamente humano. Por exemplo, posso saber tudo sobre as formas a priori de Kant, ou seja, posso saber explicá-las de memória com grande destreza e precisão, mas se elas não correspondem ao real então não se trata de uma expressão de minha vida contemplativa, mas mera expressão de meu nível cultural.

E que importância tem isso? Toda. Se levarmos a sério as palavras de Cristo de que ele é a Verdade, e que naturalmente toda verdade criada participa da Verdade incriada, ou seja, do próprio Cristo, então não é difícil concluir que vida intelectual também é vida espiritual. Ao contrário do que se poderia imaginar, o aperfeiçoamento do intelecto (noûs) é o aperfeiçoamento do espírito humano por definição. E o aperfeiçoamento do espírito humano implica por conseguinte no aperfeiçoamento do caráter.

Acho cabível aqui mencionar precisamente um dos erros crassos deste grande expoente da teologia da Igreja Ortodoxa, o Pe. John Romanides. Pessoalmente o tenho com grande admiração e carinho porque foi com ele, além do Pe. Seraphim Rose, que aprendi grande parte do que sei sobre Jesus Cristo, os santos e a Igreja. No entanto, embora tenha acertado na mosca ao denunciar a religião como uma doença espiritual – o que, aliás, se aplica à própria religião cristã ortodoxa e sua mecânica litúrgico-sacramental –, o Pe. Romanides procurou alçar a Ortodoxia à pura espiritualidade do tipo monástica, isto é, à tríade purificação/iluminação/glorificação. Este expediente, claro, encontra enorme respaldo na experiência acumulada por séculos de prática hesicasta, deividamente compilada na Filocalia, mas não deixa de portar um traço ideológico inaceitável: a ideia, repetida ad nauseam pelo Pe. Romandies e seus discípulos, de que não há absolutamente nenhuma relação entre criado e Incriado. Tal postura, claramente nominalista como o próprio Pe. Romanides cogita, não tem nada de tradicional ou “ortodoxa”, mas denota uma tentativa de blindar a Ortodoxia de qualquer mácula escolástica e estabelecer um limite claro, embora falso, entre ambos. É compreensível que a partir do século XX os ortodoxos tenham se visto obrigados a elaborar uma divisão transcultural entre teologia “ocidental” e “oriental” (a exemplo de Georges Florovsky e Vladimir Lossky), mas o resultado não foi apenas inconveniente no sentido de criar um pretenso elitismo espiritual entre a Igreja oriental e as igrejas ocidentais, mas é algo simplesmente falso. A filosofia antiga, em especial Platão e Aristóteles, sempre foram para os Padres não apenas recursos indispensáveis para transmitir a Verdade revelada, mas elas mesmas, em si, são parte, embora inferior, claro, da própria Verdade. Neste sentido, os ortodoxos fariam bem em não temer, mas, pelo contrário, acolher seletivamente Tomás de Aquino e seus seguidores em geral. É o que temos procurado fazer aqui ultimamente, entre muitos outros objetivos. O Espírito, assim como o vento, sopra onde quer. Se Ele até aqui não quis soprar em mim isso não significa que eu deva fingir que estou investindo-me das energias divinas pela prática religiosa, mas devo, isso sim, como mendigo, buscá-Lo humildemente absorvendo o ser dos entes dados através de suas essências criadas. Se Deus não fez o cosmo com base em Si mesmo então o fez com base em quê? Sim, eu sei, a vida intelectual não leva à theoria, mas, como diz o povo,  é o que temos para hoje.

Esta breve digressão reforça o objetivo deste blog: servir de instrumento para a conservação e progressão da alma após a morte. Sem este objetivo em mente é impossível ordenar o restante de nossas vidas, por mais “sentido” que tentemos dar-lhe. Se aqui estudamos filosofia, psicologia, religião, esoterismo, história, cultura, o que quer que seja, a meta é uma só: enriquecer o noûs comungando-o com a Verdade. Se mulher, família, trabalho e estudos não estiverem orientados a este fim supremo então nada fará real sentido. O amor é o princípio de tudo, então todas as ações humanas têm de estar ordenadas ao Amor. Tente algo diferente e o resultado será depressão, melancolia, tristeza. Se a passagem para o mundo inteligível não lhe apetece, ouça ao menos os sinais que lhe dão seu próprio mundo sensível e, a partir daí, reflita e reaja.

E eis por que a obra do Pe. Sertillanges tem tanta importância. Não tanto pelos seus conselhos práticos, que podem ou não lhe ser úteis, mas pela ideia-força, verdadeiramente genial, de que longe dos homens somos mais homens. É na vida interior que tomamos contato com o ser das coisas, com o ser do mundo e, claro, com o ser humano, com a humanidade. É longe dos homens, ou seja, ali no interior de nosso ser, que estaremos mais com os homens. É ali, na vida noética, que encontraremos os bens a serem compartilhados em amor fraterno com os homens. Não se trata aqui de solidão propriamente, mas de recolhimento. Ao intelectual só a verdade interessa, e todo o resto deve a ela submeter-se.

Não é difícil deduzir, portanto, o que deve ser estudado primordialmente pelo intelectual. Se a ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas, e se há um Ser primeiro, é aí que o saber deve findar-se e é daí que deve extrair sua luz: metafísica, psicologia, cosmologia e moral, eis os assuntos sobre os quais o espírito deve aplicar-se porque a estrutura desses saberes corresponde à constituição do real e da inteligência. Todas as demais ciências dependerão das verdades colhidas nessas.

E eis aqui que entram em cena as virtudes necessárias para a vida intelectual. Trata-se, acima de tudo, da humildade. A inteligência tem por base a exclusão do orgulho porque o orgulho sente repulsa por uma ordem fora e acima dele. Ser intelectualmente forte implica, portanto, em ser receptivo, e ser receptivo implica em ser humilde. Uma das leis do nôus é a passividade porque, como se sabe, o intelecto compreende tornando-se outro, e se nossa postura diante do real for de intencionalidade, de “ansiedade”, o entendimento não ocorrerá, a verdade não penetrará.

Talvez a virtude mais prática seja a conciliação (ou acomodação). A ideia de Sertillanges, que considero fundamental, é que o estudioso não contraponha autores, mas os concilie. E, novamente, a ideia é simples: o que é interessante não são os pensamentos, mas as verdades e, portanto, não são os combates dos homens, mas sua obra e o que dela permanece. O que deve despertar o interesse do intelectual são os pontos de contato entre os autores, e é aí que deve empreender sua investigação.

Por fim, não nos esqueçamos que é a vida intelectual que confere unidade interior à alma. Sem ela, alguma mania ou paixão se apresentará sub-repticiamente como substituta da unidade, e nossas fraquezas voltarão a dominar.

* * *

As pessoas geralmente não sabem a que ponto a inteligência é plástica e receptiva a estímulos.

[...]

Pelo pensamento nós encontramos algo, não o fazemos.

[...]

A humildade é o olho que lê no livro da vida e no livro do universo.

[...]

Aquele que aprende sempre pode chegar a nunca instruir-se se não modificar em sua própria substância o que aprendeu em dóceis intercâmbios. [...] O que eu absorvo deve tornar-se eu.

[...]

A contemplação parte do amor e termina na alegria: amor do objeto e amor do conhecimento enquanto ato de vida; alegria da possessão ideal e do êxtase que ela provoca.

[...]

A recompensa de uma obra é tê-la feito; a recompensa do esforço é ter crescido. Coisa espantosa, o verdadeiro intelectual parece escapar dessas tristezas causadas pela idade que infligem a tantos homens uma morte antecipada. Ele mantém-se jovem até o fim. Dá a impressão de tomar parte da juventude eterna do verdadeiro. Tendo em geral amadurecido muito cedo, continua maduro, em nada azedo nem decaído, quando a eternidade vem recolhê-lo.

[...]

Essa confiança que está fundada sobre uma lei das coisas pertence ao trabalho mais que ao trabalhador; no entanto, o trabalhador, também ele, deve ter fé em si mesmo. Não tem ele consigo o Deus que disse: O que busca encontra, e a quem bate, abrir-se-lhe-á? Todos nós temos a Verdade por trás de nós, e ela nos impele pela inteligência; nós a temos diante de nós e ela nos chama, acima de nós, e nos inspira. [...] A luz pode filtrar através das brechas que nosso esforço alarga; quando ela se faz presente, por si mesma expande e firma seu reinado.

Fonte: A.-D. Sertillanges, A vida intelectual, É Realizações Editora, São Paulo, Brasil, 2020.

18 de janeiro de 2025

Breves notas sobre o ser


Assim como numa luta os movimentos só são possíveis graças à estabilidade do chão, que lhes dá sustentação, assim também o movimento (passagem da potência ao ato) só é possível graças a algo imutável, isto é, ao ser. A liberdade experimentada por um lutador só é possível graças ao chão: é ele que permite ao lutador explorar suas potencialidades. O ser humano, para florescer suas potencialidades e ganhar liberdade, também precisa desse “chão”: o ser, a ordem ontológica estabelecida por Deus.

As potencialidades do ser humano são como as cores, enquanto o ser é a própria luz. Quando as criaturas realizam seu ser elas estão realizando uma perfeição divina por participação. Negar o ser é como um peixe negar a existência da água. Deus não apenas doa o ser do nada às criaturas, mas ele as sustenta e conserva. Essa sustentação é uma continuação do ato da criação. Entre o nada e o ser há um abismo infinito, e transpor este abismo é necessária uma força infinita.

A criatura tem vários níveis de atualidade. O mais superficial é, por exemplo, no caso de um gato, sua cor, pelo, tamanho etc. Há um nível mais profundo, que é sua "gatidade" (a forma substancial, assim como no homem é sua "humanidade"), que é a raiz do nível mais superficial. No entanto, há ainda um nível mais profundo, que é aquilo no qual enraíza-se todas as criaturas: é o actus essendi, o ato de ser, o ser. O ser é o mediador (ponto de contato) transcendental da causalidade divina, ele é o primeiro princípio imanente de todos os entes. É ele que concentra toda a energia ontológica a partir da qual a criação se sustenta; é como se Deus estivesse “empurrando” a criação pelo ato de ser.

A diferença entre a criatura e Deus é que Deus é o Ser Subsistente, ele é Ser por essência, enquanto a criatura tem ser limitado por uma essência. No homem, o ser se distingue de sua essência, enquanto em Deus a essência é o Ser coincidem. O ser é dado ao homem, e ele não pode fazer nada em relação a ele. No entanto, embora o vínculo ontológico não possa ser rompido, o homem é capaz de moralmente romper tal vínculo, atrofiando as potencialidades que naturalmente tem para a realização de seu ser. Todo ser quer comunicar-se, todo ser quer florescer. Isso se observa nas plantas e animais, por exemplo. No homem, a inteligência e a vontade são as potências de sua alma que devem prioritariamente ser realizadas. Urge ao homem passar da potência ao ato, irradiar seu ato de ser, propender à sua plenitude. Trata-se de uma tendência estrutural e ontológica. O homem precisa aceitar a realidade, dizer sim a ela, para que possa estabelecer sua orientação diante do ser a partir da aceitação da verdade e do bem.

Mas como exercer o ser no mundo? Como organizar a vida humana para realizar-se, isto é, para a felicidade? Toda vida humana dá testemunho do anseio de alcançar a felicidade. Isso já vimos extensamente nas inúmeras postagens sobre amor, felicidade, aperfeiçoamento da alma, psicoterapia etc. O desejo humano de conhecer, a “perplexidade” ou “espanto” anunciado por Aristóteles, é precisamente o que lhe empurrará a conhecer seu fundamento, seu propósito, aquilo que lhe orientará diante da realidade. As questões fundamentais que a inteligência encontra lhe darão uma bússola que orientará o homem para o exercício de suas potencialidades, para sua afirmação no mundo. A metafísica - não a matemática, não a física, não a biologia - é a ciência que apresentará à inteligência o ser e por conseguinte apetecerá a vontade a buscá-lo em amor.

Ora, para o leitor deste blog não restará dúvida do que estamos falando: o homem tem um fim último, uma orientação verdadeira. Como só há uma verdade (o Cristo, evidentemente, o “chão”), então há só uma orientação verdadeira. Como só há um Deus (novamente, o Cristo, o “chão”), então há só um fim digno ao homem, um único “sumo bem”. Uma falsa orientação tolherá o livre desenvolvimento das potencialidades humanas. É como uma camisa de força.

Cumpramos, pois, nosso dever: desenvolver as virtudes intelectuais e morais que nos permitirão, por analogia, participar da vida do Ser nesta vida e nos séculos dos séculos.

8 de agosto de 2024

Brevíssima exposição da Oração do Senhor


PAI NOSSO QUE ESTÁS NOS CÉUS. Levantamos nossos olhos para o céu, não nos permitindo ser distraídos por nada na terra. Fazer o contrário seria insultar o único Deus e Mestre de todas as coisas, tanto no céu quanto na terra.

SANTIFICADO SEJA O TEU NOME. O propósito da vida cristã é glorificar a Deus. Nós glorificamos a Deus glorificando Seu Nome, isto é, Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo.

VENHA O TEU REINO. Para glorificar o Pai no Filho, precisamos do Espírito Santo. Então oramos pela vinda do Espírito Santo, a morada do Reino de Deus em nós, sem a qual é impossível agradá-Lo.

SEJA FEITA A TUA VONTADE. Não podemos receber e reter o Espírito Santo a menos que façamos a vontade de Deus em todas as coisas. Que Deus nos dê a graça de unir nossa vontade com a dEle.

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU. Oramos para que possamos fazer a Vontade de Deus na Terra da mesma forma que é feita no Céu pelos anjos e santos.

O PÃO NOSSO DE CADA NOS DÁ HOJE. Realizamos a vontade de Deus em nossas almas e nossos corpos. Mas nossos corpos precisam tanto de alimento material quanto do pão do céu para realizar Sua vontade.

E PERDOA-NOS AS NOSSAS DÍVIDAS. O principal obstáculo para fazer a vontade de Deus são nossos pecados. Portanto, oramos ao Pai para perdoá-los por meio do sacrifício de Seu Filho, Jesus Cristo.

ASSIM COMO PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES. O principal obstáculo para recebermos a remissão de nossos pecados é nosso ódio ao próximo. Portanto, oramos pela remoção de todo ódio de nossos corações.

E NÃO NOS DEIXES CAIR EM TENTAÇÃO. Que Deus não nos permita cair em situações que estão acima de nossas forças, para que pequemos um pecado para a morte e nos afastemos de Sua graça.

MAS LIVRA-NOS DO MALIGNO. Se nos afastamos da graça de Deus, caímos nas mãos do diabo. Que Deus nos livre disto, o pior de todos os males.

AMÉM.

30 de julho de 2024

São Silvano sobre a imaginação e a vida intelectual


[As 4 formas de imaginação e os perigos da vida intelectual].

A imaginação se manifesta nas mais variadas formas. Primeiro de tudo, o asceta tem que lidar com aquelas formas de imaginação que estão conectadas com as paixões mais grosseiras. Ele sabe que cada paixão tem uma imagem correspondente; e geralmente adquire força no homem somente quando a imagem é aceita e ganha a atenção da mente. Se a mente rejeita a imagem, a paixão em si não pode se desenvolver e irá expirar. Por exemplo, supondo que algum desejo da carne — um desejo fisiologicamente normal, talvez — venha ao asceta, ele defenderá sua mente da imagem de fora, sugerida pela paixão. (A palavra mente, como usada aqui, denota não razão — deliberação lógica — mas algo que talvez seja melhor definido pela expressão 'atenção interior'.) Se a mente, entendida neste sentido, é preservada de imagens apaixonadas a castidade completa é possível durante toda a vida, mesmo quando o corpo é forte. Isso é provado pela experiência de séculos, e temos um exemplo adicional no staretz. Por outro lado, se a mente aceita e desfruta da imagem apaixonada, mesmo um corpo frágil, doente ou exausto será tiranizado.

O mesmo acontece com outra paixão — o ódio. Ela também tem uma imagem sui generis. Enquanto a mente se abstém do comércio com a imagem, a paixão não pode evoluir. Mas se a mente se une à imagem o ódio se tornará cada vez mais violento, até mesmo se tornando uma obsessão.

Uma segunda forma de imaginação contra a qual o asceta tem que lutar é o devaneio. Quando ele se entrega ao devaneio, o homem abandona a ordem real das coisas no mundo para ir viver no domínio da fantasia. Como a imaginação não pode criar nada do nada, as ficções engendradas por ela devem conter elementos emprestados do mundo real, assim como os sonhos, e, portanto, não são totalmente inatingíveis: um homem pobre pode imaginar que é um imperador, um profeta, um grande cientista, e a história conhece casos de homens pobres dos estratos mais baixos da sociedade que ascenderam a esses altos lugares. É essa forma da imaginação que opera na oração "imaginativa": por um esforço de sua imaginação, o iniciante, inexperiente em combate espiritual, cria em sua mente imagens visuais inspiradas pela vida de Cristo ou algum outro assunto sagrado. Ele não encerra sua mente em seu coração, por uma questão de vigilância interior, mas fixando sua atenção nas imagens visuais que ele mesmo criou, mas que ele pensa serem de origem divina, trabalha a si mesmo em um estado de excitação emocional e até mesmo êxtase mórbido (patológico).

Vemos um terceiro aspecto do poder da imaginação quando um homem usa suas faculdades de memória e imaginação para pensar na solução de algum problema técnico; e quando ele tiver feito isso sua mente buscará meios para a realização prática de sua ideia. Esta atividade da razão em associação com a imaginação desempenha um papel vital na cultura humana e é essencial para a economia da vida. Mas o batalhador espiritual, cuja preocupação é atingir a oração pura, renuncia a toda aquisição, mesmo intelectual, para que esse tipo de imaginação também não o impeça de devotar seu primeiro pensamento e suas melhores energias a Deus - isto é, concentrar todo seu ser em Deus.

Finalmente, considere o jogo da imaginação quando o intelecto tenta penetrar o mistério do Ser Divino. O asceta, dedicando-se ao silêncio interior ativo e à oração pura, combate resolutamente esse impulso "criativo" dentro de si porque vê nele um processus contrário à verdadeira ordem do ser, com o homem "criando" Deus à sua própria imagem e semelhança. O ponto de partida do asceta que se esforça pela oração pura é a crença de que Deus nos criou, não que nós criamos Deus; e então ele se volta para Ele em oração sem imagem, despojado de toda criatividade teológica e filosófica. Se a graça desce sobre ele e lhe é concedido saborear o advento de Deus, então esse conhecimento supraconceitual de Deus será posteriormente traduzido neste ou naquele conceito, não, no entanto, da própria invenção do asceta ou profeta, mas recebido por ele do alto.

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O mundo da vontade e imaginação humanas é o mundo das miragens. É comum ao homem e aos anjos caídos, e a imaginação é, portanto, frequentemente um condutor de energia demoníaca.

Tanto as imagens demoníacas quanto aquelas conjuradas pelo homem podem adquirir força considerável, não porque sejam reais no sentido último da palavra, como a Força Divina que cria do nada, mas na medida em que a vontade humana se curva diante delas. É somente quando o homem cede que sua vontade é moldada por essas imagens. Mas o arrependimento liberta do domínio da paixão e da imaginação, e o cristão assim libertado pelo Salvador ri do poder das imagens.

O poder do mal cósmico sobre o homem é colossal, e tal que nenhum filho de Adão pode superar sem Cristo ou fora de Cristo. Ele é o Salvador, no sentido literal e único da palavra. Esta é a crença do asceta ortodoxo, e ele, portanto, busca a oração da quietude interior pela invocação incessante do Nome de Jesus Cristo, razão pela qual esta oração é chamada de Oração de Jesus.

As muitas manifestações da imaginação que desfiguram a vida espiritual, o Staretz reduziu às quatro formas indicadas acima. Destas, a última, onde a imaginação é entregue à atividade criativa no domínio teológico e filosófico, é frequentemente tão sutil em caráter que pode até parecer ser vida em Deus.

O teólogo que é um intelectualista constrói seu sistema como um arquiteto constrói um palácio. Conceitos empíricos e metafísicos são os materiais que ele usa, e ele está mais preocupado com a magnificência e simetria lógica de seu edifício ideal do que com o fato de que ele deve se conformar à ordem real das coisas.

Por mais estranho que pareça, muitos grandes homens foram incapazes de resistir a essa tentação, na verdade, ingênua, cuja causa oculta é o orgulho. A pessoa se apega aos frutos da inteligência como uma mãe ao seu filho. O intelectual ama sua criação como a si mesmo, identifica-se com ela, fecha-se com ela. Quando isso acontece, nenhuma intervenção humana pode ajudá-lo: se ele não renunciar ao que acredita ser riquezas, nunca alcançará a oração pura e a verdadeira contemplação. Aqueles que buscam a forma mais elevada de oração — a união da mente com o coração — sabem o quão difícil é essa renúncia.

Muitos teólogos do tipo filosófico, permanecendo essencialmente racionalistas, elevam-se a esferas suprarracionais ou, melhor, supralógicas do pensamento, mas essas esferas ainda não são o mundo Divino: elas estão dentro dos limites da natureza criada pelo homem e, como tal, estão ao alcance do entendimento na ordem natural das coisas. Essas visões mentais não podem, é verdade, ser circunscritas dentro da estrutura da lógica formal, uma vez que vão além do domínio do raciocínio metalógico e antinômico, mas, apesar de tudo, ainda são o resultado da atividade da razão.

A superação do pensamento discursivo é prova de alta cultura intelectual, mas ainda não é 'fé verdadeira' e visão divina real. Pessoas nesta categoria, que frequentemente possuem capacidades extraordinárias para reflexão racional, chegam a perceber que as leis do pensamento humano são de validade limitada e que é impossível cercar o universo inteiro dentro dos aros de aço dos silogismos lógicos. Isso os capacita a chegar a uma contemplação supramental, mas o que eles então contemplam ainda é meramente beleza criada à imagem de Deus. Uma vez que aqueles que entram pela primeira vez nesta esfera do 'silêncio da mente' experimentam um certo temor místico, eles confundem sua contemplação com comunhão mística com o Divino. A mente, é verdade, aqui ultrapassa as fronteiras do tempo e do espaço, e é isso que lhe dá uma sensação de compreensão da sabedoria eterna. Isso é o mais longe que a razão humana pode ir ao longo do caminho do desenvolvimento natural. Nesses limites onde 'o dia e a noite chegam ao fim' o homem contempla uma luz, que é, no entanto, não a Verdadeira Luz na qual não há escuridão, mas a luz natural peculiar à mente do homem criado à imagem de Deus.

Esta luz mental, que supera todas as outras luzes do conhecimento empírico, ainda pode muito bem ser chamada de escuridão, pois é a escuridão do despojamento e Deus não está nela. Fomos avisados ​​pelo Senhor: 'Toma cuidado, portanto, para que a luz que há em ti não seja escuridão.' A primeira catástrofe cósmica pré-histórica a queda de Lúcifer, filho da manhã, que se tornou o príncipe das trevas foi devido à sua contemplação apaixonada de sua própria beleza, que terminou em sua autodeificação.

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Para afirmar sua superioridade, a mente racional aponta para sua realização, para sua criatividade, produzindo muitas provas convincentes que pretendem mostrar que na experiência secular da história o estabelecimento ou afirmação da verdade cai inteiramente em sua província. O poder intelectual é, de fato, uma das energias, uma das manifestações da personalidade humana. Mas quando esse poder, funcionando de acordo com as leis impessoais da lógica, assume prioridade na vida espiritual do homem, ele inevitavelmente começa a lutar contra sua fonte — o princípio hipostático. Então, tendo superado esse princípio dentro dos limites da experiência terrena, a razão se vê como transpessoal e universal, e transfere sua Ideia para o plano do ser cósmico, para buscar ali uma espécie de Primeiro Princípio suprapessoal.

Em sua arrogância, a razão se imagina ascendendo às alturas mais altas, descendo, como acredita, às profundezas mais baixas. A razão aspira abraçar a integralidade do ser, para em todos os lugares transmitir sua própria definição. Não conseguindo atingir os confins do ser, a razão atribui a si mesma essa infinitude e acaba identificando-se com o princípio divino.

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[A essência está para o fato assim como a energia está para o ato]

O Ser Divino, absolutamente realizado, absolutamente atualizado, exclui a presença em Si de potencialidades não desenvolvidas e, como tal, pode ser definido como Ato Puro.

O Ser Divino, como Auto-Ser, não tendo causa fora de Si, todo-perfeito desde o princípio, é para o ser criado dado e, como tal, pode ser definido como Fato Puro.

Como Ato (Energia), o Ser Divino é comunicável à criatura racional em toda a Sua plenitude e infinidade. Como Fato (Essência), é absolutamente transcendental e incomunicável à criatura, e permanece um Mistério, para sempre inacessível.

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Em sua opinião, está chegando o dia em que muitos homens eruditos viverão no mundo e ao mesmo tempo levarão uma vida monástica. Ele achava que as circunstâncias estavam em geral se tornando desfavoráveis para a forma de vida monástica que existia nos tempos antigos, mas que a vocação e o anseio pelo monasticismo sempre existiriam.

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O monge prefere isso [a oração pura] à teologia científica porque, embora seja possível, por meio da contemplação abstrata e filosófica, perceber que nossas concepções humanas não são aplicáveis ​​a Deus e, assim, chegar ao estado em que a mente começa a ficar "silenciosa", esse silêncio da mente não é, de forma alguma, sempre a verdadeira contemplação de Deus, embora se aproxime dos limites da verdadeira contemplação.

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A oração 'face a face' é o prelúdio vital para a descoberta do homem em si mesmo da 'imagem de Deus', então vamos considerar este lado da nossa vida em Deus.

O estágio final da Revelação é a revelação de um Deus Pessoal — um Deus Hipostático. (Prefiro a palavra grega para evitar os detalhes técnicos dos termos individual ou pessoal.) O Deus Hipostático só pode ser conhecido por meio da revelação — por Deus aparecendo ao homem em um ato de contato direto, 'Face a face'. É indispensável que Deus primeiro se manifeste a nós.

Quando Deus como Hipóstase se revela ao homem neste contato direto, mesmo que ainda seja 'como em um espelho', o homem se tornará ciente de sua própria hipóstase, na qual a 'semelhança de Deus' é refletida antes de tudo. O homem, 'sendo carne e vivendo no mundo', experimenta principalmente sua própria individualidade limitada, e esta nova consciência expandida é como um nascimento do Alto. 'A menos que o homem nasça de novo, ele não pode ver o reino de Deus.' Após tal nascimento, a oração assume um caráter diferente, ultrapassando os limites do tempo e da matéria, e o homem se sente arrebatado na eternidade de Deus.

A revelação do Deus Hipostático leva à compreensão de que a hipóstase é a forma do Ser Absoluto; que esta dimensão — hipóstase — não é limitativa, mas Aquele que vive de fato: o EU SOU (cf. Êxodo 3:14 e João 8:58). Fora desta dimensão nada existe nem pode existir. Não há 'essência' além da Hipóstase no Ser Divino. E assim a oração do cristão é dirigida ao Deus Hipostático, 'face a Face': não é uma busca ou um retorno a uma Essência Supra-Pessoal.

Este conhecimento deixa claro, portanto, que somos hipóstases criadas, dotadas de liberdade para uma autodeterminação que pode ser positiva em relação ao Protótipo, ou negativa.

Uma hipóstase livre, não pré-determinada, só pode ser criada como pura potencialidade, destinada a ser atualizada posteriormente. Então, ainda não somos inteiramente hipóstases: estamos passando pelo processo mais ou menos longo de nos tornarmos — de converter uma forma de ser 'atomizada' em uma forma hipostática. O conceito de pessoa-hipóstase não deve ser confundido com o conceito de indivíduo — em grego atomo, o resultado da queda do homem). Eles são, na verdade, dois polos do ser humano. Um expressa o último grau de divisão, o outro indica a 'imagem de Deus' na qual Adão foi feito, em cujas entranhas toda a humanidade estava potencialmente encerrada. Este é o padrão manifestado a nós pelo Verbo feito carne. Em nossa apreensão de Deus, portanto, não transferimos nossa experiência da limitação do indivíduo ao Ser Divino, para depois negar nEle o caráter hipostático e, consequentemente, lançar-nos em busca de um Absoluto Supra-Pessoal. O impulso do nosso espírito é em direção à oração face a Face — oração, isto é, da hipóstase criada à Hipóstase de Deus. É essencial que o princípio hipostático seja desdobrado em nós. Quais são os caminhos e meios para esse fim?

Chamados do não-ser, todos nós estamos presos pelos grilhões do tempo relativo e do espaço relativo. O espírito do homem, a imagem do Deus absoluto, está confinado dentro da estrutura deste mundo material. O homem se sente preso, como um prisioneiro condenado. Seu sofrimento se aproxima do desespero, do qual brota a oração de uma tensão singular, oração 'contra a esperança acreditando na esperança'. Pode ser que todos nós, pessoas do nosso tempo, precisemos dessa experiência de desespero durante o curso de nosso nascimento para a eternidade.

Chegando ao mundo, a criança aprende primeiro com sua mãe e seu pai, depois com amigos e professores. Crescido até o estado de homem, ele se apodera avidamente do conhecimento de todo tipo até que finalmente ele pode se convencer de que o conhecimento 'científico' não apenas falha em levá-lo além das dimensões relativas de tempo e espaço, mas, pior, restringe sua consciência dentro do aspecto determinista da existência.

A recusa do nosso espírito em aceitar o absurdo da morte como um retorno ao nada engendra uma oração fervorosa e uma busca diligente nas Escrituras Sagradas pelo conhecimento do Eterno. Nenhuma escola, no entanto — e isso inclui escolas teológicas — nenhum livro, mesmo livros sagrados, pode, sem o máximo esforço ascético de todo o nosso ser em pura oração, nos fazer sentir que Deus nos ouviu e nos aceitou em Sua eternidade.

Esta oração nascida do "desespero" é, sem dúvida, um presente do Alto. Ela nos coloca na fronteira entre o tempo e a eternidade. O tempo é, por assim dizer, esquecido, em algum lugar atrás de nós, e o olhar do nosso espírito se fixa na eternidade, ainda fora de alcance, ainda não em nossa posse. Esta transposição do espírito em oração para os limites finais do tempo explica muito o que nas Escrituras até agora pareceu paradoxal — como, por exemplo, "Um dia é para o Senhor como mil anos, e mil anos como um dia"; 'Vós fostes ... redimidos ... pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula: O qual, na verdade, foi predestinado antes da fundação do mundo, mas foi manifesto nestes últimos tempos': 'Ora, todas estas coisas ... foram escritas para nossa advertência, sobre quem os confins do mundo vêm: 'Ele nos escolheu antes da fundação do mundo'; e, por último, 'Eu vos escrevo... porque conheceis aquele que é desde o princípio'.

O que significam as palavras 'estes últimos tempos' ou 'o fim do mundo'? O que devemos entender na Liturgia de São João Crisóstomo por 'Tu nos concedeste Teu reino vindouro'; ou 'Vimos a figura de Tua Ressurreição, fomos preenchidos com Tua vida imortal' na Liturgia de São Basílio, o Grande?

Por causa de seu contato imediato com a Hipóstase Divina do Logos, os Apóstolos, enquanto ainda aqui na terra, em espírito também peregrinaram na Eternidade. Para eles, como para todos os outros que experimentam um estado semelhante, o Tempo-Aeon chega ao fim. (Sua percepção do tempo diferia daquela de Newton e Einstein ou dos filósofos e gnósticos de vários moldes.) Para eles, o tempo se torna uma espécie de "espaço" que admite mudança de posição, "onde" um primeiro encontro com o Criador é possível. Lemos que foi dado a alguns ver "o reino de Deus vir com poder" antes de "provarem a morte". Essas pessoas têm uma percepção particular do mundo.

Os caminhos do Senhor são assim: para começar, Ele nos busca, revela Sua "Face" para nós, nos atrai para Sua eternidade. Então Ele pode nos retornar à estrutura do tempo. Não parece haver sentido neste retorno além de nos confiar a manifestar em nossa vida o conhecimento que nos foi dado do EU SOU, e dar testemunho de Seu amor por nós. Nós mesmos, no entanto, sentimos nosso retorno como uma "ausência do Senhor", como uma retirada da graça, e nos cansamos sob o fardo do corpo mortal. O anseio de restaurar a plenitude perdida da união com Deus impele a pessoa ao esforço espiritual, que — um ato humano, agora — se torna uma ciência ascética, uma arte, uma cultura. Em nossa era, essa cultura está praticamente abandonada ou esquecida.

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A luz da palavra divina traz o pecado à vista.

O que o cristão entende por pecado?

O pecado é principalmente um fenômeno metafísico cujas raízes estão nas profundezas místicas da natureza espiritual do homem. A essência do pecado não consiste na violação de padrões éticos, mas em um afastamento da vida eterna divina para a qual o homem foi feito e para a qual, por sua própria natureza, ele é chamado. O pecado é cometido antes de tudo nas profundezas secretas do espírito humano, mas suas consequências distorcem todo o indivíduo. O pecado reflete na condição psicológica e física do homem, em sua aparência externa, em seu destino pessoal. O pecado, inevitavelmente, ultrapassará os limites da própria vida do pecador para sobrecarregar toda a humanidade e, assim, afetar o destino do mundo inteiro. O pecado de nosso antepassado Adão não foi o único pecado de significado cósmico. Todo pecado, secreto ou manifesto, cometido por cada um de nós, tem uma relação com o resto do universo.

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Através do amor de Cristo todos os homens são parte inseparável de nossa própria existência individual e eterna. O staretz [São Silvano] começou a entender que o mandamento “ama ao próximo como a ti mesmo” é mais do que um imperativo ético. Na palavra como ele não vislumbrou uma indicação de grau de amor, mas uma indicação de comunidade ontológica de ser – o mandamento de Cristo incorpora o homem no todo do ato divino da criação do mundo. [...] O Filho do homem tomou para Si toda a humanidade. Ele aceitou o “Adão integral” e sofreu por ele.

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Suponha que por alguma razão a Igreja fosse privada de todos os seus livros litúrgicos, do Velho e Novo Testamentos, das obras dos Santos Padres — o que aconteceria? A Santa Tradição restauraria as Escrituras, não palavra por palavra, talvez — a forma verbal pode ser diferente — mas, em essência, as novas Escrituras seriam a expressão daquela mesma 'fé outrora entregue aos santos'. Elas seriam a expressão do único Espírito Santo continuamente ativo na Igreja, seu fundador e sua própria substância.

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[Adão é o homem ontológico. Ele é imperfeito, limitado, e, portanto, peca. Todo homem participa dessa imperfeição. Todo homem participa da maldade. O filho do Espírito Santo de Cristo se vê participante dessa maldade. O homem que se autojustifica rebaixa a condição humana a um fenômeno mundano. Ao crer que se eleva em relação ao outro, rebaixa-se inconscientemente.]

Fonte: São Sofrônio Sakharov, The monk of Mount Athos, St Vladimir’s Seminary Press, Yonkers, NY, EUA, 1973.