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17 de julho de 2026

O sentido geral da obra de Dostoiévski


O núcleo da obra de Dostoiévski é o mistério. Para ele, o homem vive no mistério, ou seja, no sobrenatural, no transcendente, e sua obra literária busca despertar no leitor a visão desse mistério discretamente oculto nas dinâmicas da vida. Aqui e ali, Dostoiévski apresenta o paradoxo supremo da condição humana, as consequências de fingir viver como se Deus não existisse, o abismo da misericórdia divina, o peso infinito que um instante ou uma decisão pode carregar, o imenso poder do sofrimento humano.

Os romances de Dostoiévski, segundo Navarro, têm uma espécie de “função sacramental”, ou seja, procuram unir o divino e o humano, mantendo certo equilíbrio. Por vezes, quando um personagem está a ponto de atingir o auge de entusiasmo, Dostoiévski introduz um elemento “carnal” para devolvê-lo ao plano do real, e faz também o inverso, introduzindo elementos sublimes a situações aparentemente chãs.

Dostoiévski apresenta Deus como o Mistério que resolve todos os mistérios e dissolve todos os problemas. No entanto Deus não entra de maneira patente, grosseira, mas discreta. Por exemplo, é típico de Dostoiévski que os romances transcorram em poucos dias ou mesmo horas. A redução temporal do enredo é proposital: a ideia é conferir a ideia de eternidade a situações e contextos terrenos breves, como uma lente de aumento.

E o que dizer da tal “beleza que salvará o mundo”? Navarro explica que a beleza serve, para Dostoiévski, como uma “embalagem” do mistério. A beleza serve como porta de entrada do mistério como, por exemplo, no mistério do amor. Mas, atenção, beleza aqui tem pouco ou nada a ver com “beleza estética”. A beleza de Dostoiévski é a beleza da alma, beleza essa que por conaturalidade fala do sobrenatural com mais intimidade e conhecimento. A beleza é portanto uma espécie de qualidade metafísica, e é por isso que Dostoiévski frequentemente faz uso da dor como um elemento de esplendor: a fonte da beleza e da miséria é a mesma (Deus). Sim, pois somente a alma bela é capaz de ver o rosto de Deus em tudo, até mesmo no sofrimento humano. A dor e o sofrimento são, para Dostoiévski, onde mais se nota o palpitar da vida. É no contexto da dor e do sofrimento que somos capazes de contemplar a consumação e a destruição do mal. Como? Ora, é na dor que atestamos a impotência do mal, a impotência de destruir-nos, de liquidar-nos.

E eis um drama terrível no qual todos os personagens centrais de Dostoiévski estão imersos: precisar de Deus sem poder encontrá-Lo. Como escapar desse suplício? Impossível, mas o próprio suplício nos ensina uma lição: é necessário amar a vida mais do que amar o sentido da vida. Vivemos nessa corrente de Heráclito e dela não saímos. Urge, assim, amar a vida, amar o viver, amar o dinamismo da própria existência. Navarro conclui com o desejo de Dostoiévski: que os leitores “ressuscitem”, que se animem a viver, que percam o medo de viver intensamente, de sentir.

Fonte: Antonio Schlatter Navarro, Por qué leer a Dostoyevski, Ediciones Universidad de Navarra, Pamplona, Espanha, 2021.

16 de julho de 2026

Mera sensatez


O progresso

Há dois tipos de progresso. O primeiro tipo, o mais comum, é o progresso da construção de uma casa, por exemplo. Uma casa meio construída não serve: é necessário que se atinja um mínimo de avanço, digamos, 99%, para que a casa se torne habitável. É um progresso que leva a um fim (a habitação dessa casa, por exemplo). O segundo tipo é mais sutil, a exemplo do progresso educacional de uma criança. Uma criança meio educada, sim, “serve”: não é necessário que atinja um mínimo de avanço para que a criança seja considerada uma criança. É um progresso de algo que já é um fim. Isso vale para um amor, uma amizade, um paciente etc. Portanto, uma coisa é progredir para um fim, outra coisa é um fim progredir. Aqui é óbvia a distinção entre substância e acidente.

Em especial chama a atenção a questão do progresso tecnológico. Ele é oferecido às massas, mesmo que sutilmente, como necessário à condição humana. É claro que se trata de erro de raciocínio: a humanidade em si já é humanidade, não precisa de “progresso tecnológico” para melhorar uma condição que já possui em sua integralidade. A tecnologia, por mais exuberante e útil que seja, toca apenas acidentalmente a existência humana, enquanto substancialmente mantém-se alheia. Ocorre que o estado atual da cultura praticamente nos obriga a considerar o novo, o recente, como melhor. Lewis acredita que essa distorção psicológico-cognitiva surgiu com a ascensão das máquinas.

O mesmo vale para a história, que, tal como a tecnologia, não tem sentido em si (ambas fazem parte do devir, do mundo do movimento, do mundo do acidente, do acessório). Isso não significa que não devamos nos esmerar, na vida prática, em termos uma casa, equipamentos tecnológicos ou prestar atenção à dinâmica da história. Mas isso significa, sim, que não devemos atribuir a nada disso a substancialidade que não tem. Uma habitação é uma condição necessária para a vida? Sem dúvida, assim como comida, bebida, sexo, sono. Mas melhorar sua vida não fará de você “mais” ou “menos” ser humano.

Os seres espirituais

Lewis faz uso do termo numinoso, criado por Rudolf Otto, que seria um tipo de sentimento absolutamente singular que não se reduz a conceitos racionais, morais ou teológicos. É aquilo que constitui o “sagrado” antes de qualquer elaboração intelectual. Lewis entende que esse pavor de algo estranho é muito mais que um medo de algo perigoso. Não temos medo dos fantasmas pelo que eles podem fazer, mas simplesmente temos medo deles.

Ser ético é antiético

Ninguém quer estar com gente que é limpa, honesta e gentil por dever. Gostamos de estar com gente que gosta de ser limpa, honesta e gentil. A mínima suspeita de que alguém está sendo gentil e amoroso por dever basta para envenenar a relação. O moralismo é autodestrutivo. As obras não salvam ninguém. Lewis cita Tyndale quando diz que o Evangelho veio para nos salvar da moralidade. Um dos objetivos da religião deveria ser abolir a moralidade ensinando às pessoas como serem boas, e não como cumprirem regras morais. A educação moral é ensinar a fazer as coisas com gosto, e não a fazer as coisas por obrigação.

A vida espiritual

Que a vida espiritual transcenda a inteligência e a moralidade é óbvio. Mas isso não significa que a vida espiritual deixe de englobar a inteligência e a moralidade ao transcendê-las. Assim, por exemplo, como a poesia transcende a gramática sem excluí-la. (Ou seja, a vida espiritual não é como a álgebra que, sim, exclui a gramática).

A felicidade

Deixar de buscar sua própria felicidade soa belo, mas é falso. Como ensinam os antigos, a felicidade de um povo é a felicidade de seus integrantes. Deixar de buscar sua própria felicidade parece belo porque é o altruísmo tentando se apresentar como antônimo do egoísmo, quando não é. O antídoto do egoísmo é o amor, não o altruísmo.

A vida pública

O bem comum passa longe de temas como saneamento público e demais bens materiais. As sociedades humanas se formam de acordo à natureza humana, e nem teria como ser diferente. Os homens são sociais porque são racionais. Isso significa que constituímos comunidade somente onde a palavra for o centro. É nessas comunidades onde podemos deixar uma marca no próximo, quando podemos aprender uns com os outros, quando encontramos refúgio uns nos outros. Ninguém vive no Estado, assim como ninguém vive na família. As comunidades humanas se formam em instituições intermediárias a essas duas, a saber, em grupos de amigos, instituições educativas, clubes esportivos, movimentos espirituais, partidos políticos etc.

É neste sentido que Aristóteles ensinava à Nicômaco em seu Livro VIII da Ética que a amizade (amor) é o que há de mais necessário à vida. Claro que Aristóteles não se refere à subsistência humana (neste sentido há coisas muito mais necessárias), mas à boa vida, à vida bem-sucedida. A pessoa pode passar toda sua vida sem amigos, mas sua vida ao final será um fracasso. E será um fracasso porque passou toda sua vida sem querer o bem do outro.

O ideal cavalheiresco

“O ideal cavalheiresco representa o único escape de um mundo dividido entre lobos que não entendem nada e ovelhas que não sabem defender as coisas que tornam esta vida desejável”. (C. S. Lewis)

O cavalheiro não é um compromisso entre a ferocidade e a mansidão. O cavalheiro é aquele que sabe pelo contexto quando deve ser sumamente feroz e quando deve ser sumamente manso. O cavalheiro é aquele que tem seus pensamentos, sentimentos e comportamentos sob controle, e não aquele cujos pensamentos, sentimentos e comportamentos o controlam.

O inferno

A pessoa está psicologicamente no inferno quando se encontra totalmente fechada em seu próprio eu, de modo que nem Deus nem ninguém pode entrar ou tirá-la de lá. Como disse Lewis na voz de Aslan, o leão-protótipo de Cristo: “[Essas pessoas] não deixam que as ajudemos pois escolheram a astúcia ao invés da fé. A prisão existe somente em suas mentes e, no entanto, estão verdadeiramente fechadas nelas”. Às vezes Lewis substitui astúcia por orgulho ou soberba.

A força do orgulho é tão brutal, tão intensa, que ela é capaz de aplacar outros vícios em prol de sua glória. Há certos vícios que superamos porque julgamos que “não somos dignos deles” e, pela força do orgulho, os transformamos em algo pior. O orgulho não é um vício meramente carnal, mas espiritual. A “usina de força” do orgulho é negar nossa dependência de Deus e dos demais homens. O eu cresce a tal ponto que impede que nos enriqueçamos com as outras pessoas. Afinal, sair de nós mesmos é a principal tarefa da vida.

A saída do orgulho é alargar o horizonte cultural. Não que a literatura, a filosofia e a psicologia sejam, em si, garantia do que quer que seja, mas a pessoa melhor cultivada vê aumentadas suas chances de reconhecer que a realidade é no mínimo muito excêntrica, e que, longe do que supunha, pouca coisa está realmente resolvida. A verdade última, ao invés de parecer algo remoto e fantástico, entra no campo da estranheza e, dessa forma, abre-se um caminho possível para que a fé possa trilhar. Uma genuína experiência literária pode ser uma saída para o soberbo, o astuto, o “esperto”, o orgulhoso.

Fonte: Manfred Svensson, Más allá de la sensatez, Editorial CLIE, Barcelona, Espanha, 2011.

7 de abril de 2026

Amor e morte

Amar tem uma dose de sofrimento porque obriga os amantes a desprenderem parcialmente da individualidade em nome da relação dual. Todavia, quando tal fusão é realizada à força, o amor desaparece. Já não há uma tentativa de fusão do desejo, de ajuste contínuo e heroico, mas aniquilamento do outro em nome de um ego dominante que infla, incha, cresce desordenadamente e explode em ímpetos de fúria quando a lógica da submissão não funciona mais. Amar é um exercício de aniquilamento no qual os dois criam uma nova vida, um novo horizonte, em que o sombrio e o luminoso apresentar-se-ão inevitavelmente. É por isso que amar exige coragem, como os filósofos antigos bem entenderam.

* * *

A ideia da morte não se dilui com distrações vãs, como um jogo de cartas. Ela sobrepuja tudo aquilo que pretende ser um obstáculo à sua presença imponente. É a vida vista de perto. [...] A partir do século XX, a ideia da morte distanciou-se da vida cotidiana do indivíduo e foi banida do espaço público. Se antes a morte caminhava entre os homens, de modo que o moribundo padecia na companhia de seus familiares e súditos até o último pulsar de seu coração, agora ele enfrentará sozinho seu fim, pois está afastado daqueles que lhe são caros. Portanto, a morte é empurrada para os bastidores da vida social.

[Eis] uma característica do homem contemporâneo: a engenhosidade em esconder aquilo que o destrói.

* * *

O homem pode até escolher uma vida solitária, desprezando seus possíveis pares, mas só Deus pode desfrutar da infinita solidão: “Mas só Deus – que é único, que não tem par – poderia dizer o que é a solidão”. Deus não tem par, e, por este motivo, não preza nem despreza uma companhia: só o Criador sabe o que é a apoteose da solidão.

Fonte: Andrei Venturini Martins, A verdade é insuportável, Editora Filocalia, São Paulo, Brasil, 2019.

9 de dezembro de 2025

Razão em Corção



Olha aquele Deus alto e incriado
Senhor das cousas todas, que fundou
O céu, a terra, o fogo, o mar irado;
Não do confuso caos, como cuidou
A falsa teologia, e povo escuro,
Que nesta só verdade tanto errou;
Não dos átomos leves d’Epicuro,
Não do fundo Oceano, como Tales,
Mas só do pensamento casto e puro.

(Camões – Elegia XI)

O silogismo nunca foi apresentado pelos discípulos de Aristóteles como método de raciocinar, e sim como condensação da estrutura do discurso racional. Mesmo sem maior, menor e conclusão, todos nós pensamos de forma silogística, até quando nos parece que as ideias nos chegam como relâmpagos intuitivos, semelhantes aos da intelecção angélica. A parte discursiva existe sempre onde existir o homem.

[...]

A maior parte dos tropeços intelectuais nasce da simplicidade com que se leva a sério esta ou aquela figura de linguagem. Imaginem o caso de alguém pensar que a proporção de conceitos propostos por uma determinada metáfora tem caráter unívoco, como a proporção de conceitos dentro do vocabulário matemático. [Ou seja, nem todos os elementos de uma metáfora têm o mesmo peso proporcional “matemático”.] E o que vale para a metáfora, a rainha das figuras de linguagem, vale para litotes (expressões que dizem pouco para fazerem entender muito), metonímia (toma a causa pelo efeito, o continente pelo conteúdo ou a matéria pela forma) e a sinédoque (toma a parte pelo todo).

* * *

Todo mundo que estudou ao menos os rudimentos da nobre ciência das matemáticas sabe que não poderia dar três passos sem antes firmar as bases e aprimorar as definições. Ora, há coisas mais fundamentais e anteriores às próprias definições matemáticas: a noção de definição, por exemplo, a de princípio, de causa e de ser, são anteriores a qualquer das ciências positivas. Precisam ser disciplinadas, postas em ordem, sondadas, estudadas. Onde? Em que matéria estudará o moço a noção de causa? Na geografia? Na história natural? Ou, quem sabe se pensam que é na gramática que se encontra a explicação do conteúdo dos termos?

É de uma temeridade espantosa pretender que deva ficar implícito ou inconsciente, na vida intelectual, justamente a parte basilar de que depende todo o teor da cultura.

Na verdade, o que dá forma e unidade a uma civilização, a um todo cultural de dimensões históricas, marcado por certos ideais concretos, só pode ser uma filosofia e ainda mais, uma filosofia com uma metafísica de base.

Creio que a pior, a mais falsa e mais errônea das metafísicas é aquela que se faz para se demonstrar que não há metafísica ou que foi superada a necessidade dela.

* * *

A matemática é espetacular espiritualização do mundo sensível. Ela passa a trabalhar com quantidades espiritualizadas, que só existem na mente, mas que estabelecem uma comunicação extremamente confortável entre a mente e o mundo exterior. Curioso paradoxo, esse da estrutura das ciências matemáticas!

[...]

Foi preciso passarem quatro séculos para que a humanidade começasse a desconfiar da solidez de suas conquistas no domínio das ciências regidas pela quantidade, e da falta que anda fazendo no mundo um princípio unificador de cultura. Em outras palavras, só agora, depois de muito sofrimento, começam os homens a desconfiar que conquistaram o mundo, mas perderam a alma.

* * *

De um lado, a tradição aristotélica-tomista sempre se empenhou em fazer do conhecimento, seja sensível, seja intelectual. um modelo inspirado numa ideia principal: a da união entre o agente que conhece e a coisa conhecida. Do outro lado está a tradição oposta, que por curioso pessimismo, se compraz na ideia primeira de uma irremediável desunião entre a inteligência e o ser.

Em termos metafísicos diríamos que o erro cometido por todos os filósofos que retomaram as explicações de Demócrito e seus discípulos, consiste numa hipertrofia ou até numa exclusividade concedida à causa material, em detrimento das outras. Ora, não é aquilo de que a coisa é feita que mais a caracteriza ou que melhor a define. Considerando um artefato, uma estátua por exemplo, ninguém dirá que o fato de ser marmórea prevalece sobre a forma, sobre a beleza e sobre a intenção de seu autor. Ninguém dirá que verdadeiro é o mármore, e ainda mais verdadeiros os átomos de carbono e cálcio, e ainda mais verdadeiros os elétrons e os prótons; e que a beleza da forma é um puro dado da nossa imaginação, e dado ilusório, som ilusório, enganador, porque nada há na coisa, que se assemelhe às nossas sensações. Não é costume pensar assim quando temos diante de nós uma estátua. Por que então pensaremos assim quando contemplamos urna rosa? Então, pelo fato de ser composta de elétrons e prótons a rosa deixou de ser rosa, ou passou a ser uma coisa que em nós, em nossa ideia, como diz Locke, produz o fantasma daquilo que os jardineiros e os poetas. por engano, por falta de sagaz filosofia, julgam ser formosa, rosada e cheia de fragrância?

É importante assinalar que é aqui. muito antes de discutirmos a existência ou não existência dos seres espirituais, que se trava a primeira batalha entre duas raças opostas de pensadores.

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Se nos sondarmos com lealdade, descobriremos um esquisito desejo de sobrevivência na memória dos outros. De que nos vale isto? De que me vale meu nome pronunciado aqui ou acolá, com tais ou quais atributos, se eu não estou aqui ou acolá, pessoalmente, sobrevivente?

O fato é que, apesar dessa pobreza de significação pessoal, desse caráter acidental, a sobrevivência pelas obras corresponde a um profundo desejo de nosso ser. Ninguém quer passar a vida em brancas nuvens. Ninguém quer morrer como o poeta disse que morrem os pássaros. Mas a verdade é que é esse instinto de sobrevivência, digamos horizontal, que nos impede a visão da outra imortalidade, a vertical, à qual tem dimensões de eternidade e não dimensões de história, à qual também corresponde um grande anseio de nossa alma, que tem horror à morte, à ideia do aniquilamento da pessoa, e que se insurge em cada caso, diante de cada defunto, como se estivesse vendo um espetáculo de espantosa raridade. O caso é que a alma humana tem profundidades de inconsciência em dois sentidos. Diria até dois hemisférios, um voltado para a terra e outro voltado para o céu. Num desses hemisférios a ideia de imortalidade da alma brilha como uma estrela; no outro, entretanto, levantam-se obstáculos erguidos pelas exigências da sensibilidade. [...] Assim, a ideia de imortalidade da alma, que vale a pena ser desempatada, tem de ser apresentada ao espírito muito antes da emoção, da perturbação, para que na hora oportuna ela tenha algum valor vital.

Vale a pena desempatar esse problema, e procurar entrever, através de nossos obstáculos, as novas dimensões da eternidade. A imortalidade verdadeira, pessoal, essencial, não se distribui pelas pessoas em graus proporcionados ao sucesso da vida. É, ao contrário, um atributo da alma espiritual, e portanto um denominador comum de toda a humanidade. E se assim é, segue-se que a sorte do homem, referida aos eixos da eternidade, deveria dominar todas as cogitações da vida terrena, e não estar relegada à categoria de assunto que serve para consolo nas câmaras ardentes e logo em seguida é esquecido.

* * *

Itaque qui se existimat stare, videat ne cadat, diz-nos o Apóstolo Paulo na 1ª Epístola aos Coríntios, capítulo X, versículo 12; e esta advertência – quem se gaba de estar em pé veja que não caia – resume bem toda a prudência. [...] Pensando nas relações com o próximo, Machado disse que a vida era uma série de cachações [pancadas fortes]: pensando no itinerário próprio de cada um de nós, e dos grupos maiores ou menores que formamos, seria mais acertado dizer que a vida é uma série de tropeços, escorregões, e estatelamentos.

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Em termos modernos diríamos que aos homens comuns basta que se agrupem e que emendem a tarefa de hoje na de ontem e de anteontem. Assim, o resultado pode ser mantido e até aperfeiçoado por homens nitidamente superiores ao cavalo, mas perigosamente arriscados a se tornarem cada dia mais incapazes de alcançar a estatura normal do homem espiritual.

O homem moderno foi capaz de ir à Lua graças a este somatório de trabalho de milhões de homens, mas parece incapaz de achar o endereço perdido da Casa do Pai.

Dificilmente encontramos hoje quem saiba usar a palavra, quem saiba usar a alma, quem saiba produzir as obras que dão à França e à Espanha uma enorme renda de turismo.

Vivemos hoje uma civilização de diminuídos, que ganharam a Terra e a Lua, mas perderam, já aqui no mundo, os endereços das próprias almas.

* * *

Nós entendemos facilmente o eletricista que muda o fusível sem entrar em grandes monólogos filosóficos; entenderemos até o matemático que usa o espírito para se entreter com entes de razão inebriantes, e que se esquece de fazer um ato reflexo e de admirar a faculdade pela qual ele virou matemático; entende-se até o astrônomo que mede distâncias espantosas sem tecer considerações sobre o instrumento interna da medida. Mas que um psicólogo se esqueça de filosofar acerca da alma humana e passe a cuidar dos fenômenos sem um saldo de curiosidade para as essências, sem uma avidez de saber, ou ao menos de se interrogar sobre o dualismo interno que o leva a escrever livros sobre o comportamento humano, eis o que me parece deveras incompreensível!

* * *

A ideia central de todo o sistema adleriano: o sentimento de inferioridade como traço essencial e até definidor do dinamismo psíquico do homem. Para Freud, ser homem quer dizer desejar. Ora, a esse desejo de posse, a essa fome, Adler contrapõe um outro elemento da dinâmica psíquica que poderíamos chamar de desejo de valor. Não é a libido que move as máquinas nos porões da alma, é um estranho desejo de ser, de valer, de se sentir coeso e prestigiado diante de si mesmo e do mundo. Em outras palavras, o eixo de todo o funcionamento humano seria a consciência de seu ser e de seu estranho valor.

[...]

Em todos os dramas, em todas as situações de conflito, onde há dor, onde há atrito, haverá, na mais magnânima das almas um sentimento de impotência ou de insegurança. E em todas as situações da vida, seja a mais bem sucedida, se a alma se consultar com sinceridade e finura encontrará no fundo de seu inventário uma insatisfação que coisa alguma do mundo poderá apaziguar. Esse sentimento decorre pois da natureza do homem como força de necessidade. Ser homem é não se conformar com os prêmios do mundo. Ora, se assim é, também não será difícil prever a enorme variedade de espécies e subespécies de sentimentos de inferioridade que acometem a alma humana. Toda a extensa gama de sentimentos pode tomar dois caminhos opostos, o da humildade ou o do ressentimento, dependendo tudo do amor com que se ama.

O verdadeiro e único elixir para as feridas do amor-próprio está no outro amor feito de generosidade e de humildade. A humildade é, por assim dizer, o sentimento de inferioridade absoluto. A referência que se toma para esta virtude é Deus e não o mundo. Ora, essa comparação, ao contrário de todas as outras do mundo, tem a virtude de pacificar a alma. O homem é um estranho personagem que julga poder curar-se daquela inferioridade com compensações de uma infinita cretinice.

Fonte: Gustavo Corção, Gustavo Corção tomista, Editora Permanência, Rio de Janeiro, Brasil, 2012.

25 de novembro de 2025

O sentido das águas


Nas primeiras viagens que fiz ao Médio e ao Alto Rio Negro, eu precisava prestar muita atenção para perceber as diferenças dos sotaques e sons dos fonemas pronunciados por indígenas de etnias diferentes. Tudo me parecia igual e incompreensível, a ignorância tem o dom de simplificar o que parece complexo. No caso das 23 etnias que vivem na região, nada pode ser mais falso do que igualar os idiomas.

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A decisão de abandonar aquela vida errante foi tomada no dia em que [Jacaré] assistiu a um show de uma ex-artista de TV num garimpo do Pará. Terminado o espetáculo, Jacaré ofereceu um quilo de ouro pelo direito de desfrutar de companhia tão amável.

A moça agradeceu, disse que tinha namorado. Ele não se deu por vencido:

-- Mas um quilo de ouro é tudo que eu tenho, meu amor. Dou pra você e fico sem nada.

-- Se o meu namorado for embora, eu também fico sem nada.

A frase calou fundo no coração aventureiro. Naquela noite, pensou:

-- Tá na hora de largar desta vida. Se eu insistir, acabo velho sem um canto e sem encontrar urna mulher pra falar de mim com a doçura que aquela moça falou do namorado.

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O homem chegou à Amazônia há pelo menos 12 mil anos. A ocupação humana dessa região é tão antiga quanto a de outros locais da América do Sul, ocorrida na transição do Pleistoceno para o Holoceno.

Dos primeiros grupos de caçadores-coletores às migrações das populações sedentárias que desenvolveram as plantações de mandioca, as terras da bacia do rio Negro foram ocupadas por sucessivas populações que se deslocavam à procura de condições de subsistência mais favoráveis.

Numa conversa com o indigenista Marcos Wesley, que dirige o ISA em São Gabriel da Cachoeira, falávamos sobre a diversidade das plantas do rio Negro, quando ele expôs a fragilidade da visão científica que eu tinha a respeito da floresta:

-- Você esquece que os indígenas vivem na região há milhares de anos. Impossível analisar as florestas do rio Negro sem considerar a intervenção de mãos humanas no plantio e no espalhamento, ao redor das aldeias e das trilhas na mata, de espécies em que tinham interesse.

Em minha ignorância, jamais havia pensado nessa possibilidade. Para mim, a floresta era um organismo praticamente intocado pelos povos originais. Wesley acrescentou:

-- Para entender a biodiversidade da floresta é preciso analisar as evidências arqueológicas que contam a história antiga dos povos indígenas e de como eles modificaram o meio, numa época em que os europeus ainda viviam em cavernas.

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Petróglifos são gravações rupestres encontradas em diversas partes do mundo. Na bacia do rio Negro, eles estão situados em rochas nas margens dos rios, especialmente ao longo do trajeto das cachoeiras.

Algumas dessas inscrições são visíveis durante o ano todo, enquanto outras afloram na seca e submergem na cheia. Elas constituem um dos registros mais antigos da presença humana nessas paragens. Muitas apresentam sinais de erosão que levaram milênios para se formar.

Os petróglifos foram esculpidos no granito sólido, com sulcos de cerca de dois centímetros a quatro centímetros de profundidade, num tempo em que não existia ferro, muito menos as ferramentas de hoje.

A idade dessas inscrições é muito difícil de estimar, devido à inexistência de pinturas com o material orgânico necessário para a aplicação das técnicas com carbono 14, a metodologia mais empregada. Essa falta de precisão explica por que na literatura a estimativa de idade dessas inscrições vai de mil anos a 7 mil anos antes da época atual.

Os diversos estilos representados sugerem sua origem em diversas épocas e em diferentes povos indígenas. A variedade dos desenhos é grande; os mais encontrados são os geométricos, produzidos com linhas em espirais, círculos, retas paralelas, em zigue-zague ou que se cruzam em forma de rede. [Aqui cabe consultar o que diz Wilhelm Worringer sobre o impulso de “povos primitivos” em fugir de fenômenos caóticos mediante a arte abstrata]. Outros mostram figuras humanas estilizadas com corpos alongados, cabeças redondas, faces, olhos e bocas. Outros, ainda, representam imagens de animais estilizados: peixes, cobras, onças e aves. Há também máscaras, motivos abstratos e simbólicos ou figuras múltiplas que agrupam seres humanos e animais.

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De Pari-Cachoeira, na mandíbula do Cachorro, às margens do Tiquié, a Maturacá, na nuca do Cachorro, região do ponto culminante do país, o Yaripo, perguntei a todos com quem conversei qual era o maior sonho da vida deles. Sem exceção, responderam que era ver filhos e netos na escola.

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Durante os anos 1970, no entanto, os missionários salesianos decidiram agrupar os Hupda em aldeamentos com duzentas pessoas ou mais, para facilitar a escolaridade e o atendimento médico, como ocorreu nos igarapés Taracuá, Cucura, Castanheira e em outros locais. A consequência, porém, foi uma fome epidêmica: com o aumento populacional, o caçador que alimentava a família caminhando quatro ou cinco quilômetros por dia precisou percorrer o sobro dessa distância, ou mais. Além desse inconveniente, eles costumam resolver desavenças internas, problemas matrimoniais e conflitos entre as famílias mudando-se para outras áreas, estratégia que se tornou inadequada nos povoados mais populosos. A qualidade da convivência piorou.

Além desses desencontros, o esgotamento das palmeiras-caraná, cuja palha é ideal para a cobertura das casas, criou a necessidade de cobri-las com folhas de zinco, material caro e inadequado numa região de sol inclemente.

Diante dessas políticas que os brancos adotam tantas vezes por conta própria, na esperança de solucionar problemas dos indígenas sem ouvi-los, lembro sempre da minha avó: “Filho, foi de boas intenções que o inferno ficou superlotado”.

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Indígenas Manao dominavam as duas margens do Baixo Rio Negro antes do século XVIII. Nessa época, os Tarumã ocupavam as margens do rio de mesmo nome, último afluente do lado esquerdo do Negro. Embora estivessem concentrados no Alto Rio Negro, alguns grupos Baré viviam na parte baixa.

A expulsão dos jesuítas pelo decreto de 1759 do marquês de Pombal abriu espaço para que as tropas de resgate aprisionassem e escravizassem com mais liberdade os indígenas dessa área densamente povoada.

Contra as flechas e zarabatanas dos que ousavam enfrentá-los, os portugueses traziam indígenas de outras etnias, arregimentados com o poder de armas que incluíam até canhões, com os quais bombardeavam as aldeias ribeirinhas que não se subjugassem. Matavam homens, mulheres, velhos e crianças; os sobreviventes eram caçados a laço, agrilhoados e levados para os aldeamentos, verdadeiros currais em que permaneciam à espera dos descimentos para Belém do Pará, cidade em que seriam postos à venda para o trabalho escravo.

Os poucos que escapavam embrenhavam-se nas florestas rio acima, até os territórios da Colômbia e da Venezuela. Com a declaração de guerra que dizimou o povo Manao no século XVIII, a Coroa portuguesa impôs seu domínio na região.

De acordo com o padre João Daniel, que passou quinze anos na Amazônia, os indígenas “morriam feito moscas”, realidade que os demógrafos da Universidade da Califórnia em Berkeley caracterizaram como “uma das maiores catástrofes da história da humanidade”.

Fonte: Drauzio Varella, O sentido das águas, Companhia das Letras, São Paulo, Brasil, 2025.

28 de outubro de 2025

A elite, a classe média e a ralé


O público leigo, ou seja, o público não intelectualizado, precisa de uma interpretação totalizadora – uma identidade nacional – que lhe explique o mundo social. Há muitos séculos a religião deixou de fazê-lo, seja por incompetência, seja por inapetência. Para Jessé Souza, assim como para Max Weber e Pierre Bourdieu, nosso mundo social é explicado por dois fatores: (1) a legitimação da ordem e (2) a reprodução dos privilégios de classe.

E o aspecto nuclear da legitimação e da reprodução da ordem social brasileira é a escravidão. É a escravidão que fomentou, e continua fomentando, a separação ontológica entre seres humanos de primeira e segunda classe que chamamos de “racismo”. O termo racismo, embora originalmente usado no contexto da “pureza racial”, continua sendo usado por Jessé Souza como o elemento que explica a distinção ontológica no Brasil. A diferença, agora, é que a “raça” dá lugar à “cultura”, o que confere ares de cientificidade a algo que, em verdade, oculta os verdadeiros processos históricos de aprendizado coletivo que estão por trás da ordem social vigente. Curiosamente, o próprio esforço do discurso politicamente correto é uma evidência da desigualdade ontológica a ser negada.

Segundo Jessé Souza, o principal intelectual, ou “figura demiúrgica”, por trás do racismo cultural é Gilberto Freyre. Foi ele quem levou o culturalismo vira-lata à condição científica por excelência. Foi ele quem relegou a identidade nacional não às virtudes espirituais, mas a meras virtudes corporais: sexualidade, emotividade, “calor humano”, “ginga”, hospitalidade etc. Freyre enxergava esses traços como algo essencialmente positivo, mas foi Sérgio Buarque de Holanda que os transformou em traços negativos.

Para o autor, o núcleo da desigualdade social é a socialização familiar. Nas classes média e alta, os pais, de maneira geral, são bem-sucedidos, ou pelos menos mais bem-sucedidos do que as classes baixas, na tarefa de transmitir aos filhos disciplina, pensamento prospectivo e capacidade de concentração. Sem estas qualidades, o melhor que os pais conseguem fazer é que seus filhos sejam analfabetos funcionais. Sem o hábito da leitura, o estímulo para a imaginação, o reforço da capacidade e da autoestima, a criança crescerá afetivamente ligada à ideia de que está destinada a ser trabalhadora desqualificada. Todos esses são hábitos silenciosos e invisíveis, mas que formam a condução racional da vida. “A prisão no aqui e agora tende a reproduzir no tempo a carência do hoje, e não a saída para um futuro melhor. São produzidos, nesse contexto, seres humanos com carências cognitivas, afetivas e morais, advindo daí sua inaptidão para a competição social”.

A saída desse ciclo só pode ser dada pela sociedade, que tem de se responsabilizar pelas classes esquecidas, abandonadas e humilhadas. Urge desmantelar a existência de uma classe de “sub-humanos”, a “ralé de novos escravos”, sobre as quais as demais classes podem se diferenciar positivamente. É a lógica do sistema de castas hindu, como mostrou Max Weber, e é a lógica da ralé brasileira. Não há um sentimento de culpa no exercício da violência material e simbólica contra os mais frágeis porque, afinal, são sub-humanos, escravos, indignos. Uma herança invisível do sistema de castas da escravidão. Segundo Jessé Souza, há quatro grandes classes sociais no Brasil:

(1) A elite dos proprietários

(2) A classe média (uma esfera composta de sujeitos privados com opinião própria e que pretendem vincular verdade e justiça)

(3) A classe trabalhadora semiqualificada

(4) A ralé de novos escravos

E há três capitais cujo acesso explicam as classes sociais: o capital econômico, o capital cultural e o capital social de relações pessoais. Para a classe média, cujo capital econômico é limitado e, ademais, externo, é necessário que ela desenvolva alguma virtude interior que justifique sua posição superior em relação às classes baixas: é a meritocracia. O membro da classe média não seria um privilegiado pela vantagem em que parte na competição social, mas ele supostamente “merece” a posição que ocupa. Ademais, como o capital cultural, essencialmente simbólico, é ele mesmo tratado como uma mercadoria, ou seja, de maneira rasteira e distorcida, isso por outro lado impede que a classe média estabeleça a união entre verdade e justiça que originalmente busca.

Eis o papel que desempenham as ideias de patrimonialismo (Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Francisco Weffort) e o populismo. A classe média acredita que o Estado é um patrimônio “público” e que o “privado” o usurpa pela “corrupção”. Por outro lado, acredita também que as ações assistencialistas são populistas porque manipulam as massas ao minar sua iniciativa e força de vontade. Mediante ambas as ideias, a classe média funciona como cadeia de transmissão – o capataz e marionete – da elite sobre as classes baixas. Sem acesso aos esquemas de pilhagem da elite, a classe média se vê como “virgem imaculada” e moralmente perfeita ao defender a classe alta, ao mesmo tempo que nutre ódio secular às classes populares.

As formas da classe média de perceber virtude são duas: (1) a dignidade do trabalhador útil e produtivo e (2) sensibilidade da personalidade expressiva. A meritocracia e o “vestir a camisa da empresa” (cujo expoente é o toyotismo japonês) nasce do ponto (1), e as expressões literárias e intelectuais, massificadas nas pautas dos anos 1960 (liberdade sexual, feminismo, casamento gay, aborto livre, consumo de drogas recreativas), nasce do ponto (2).

Como escapar das falsas certezas da classe média (seja ela de esquerda ou direita, não importa)? Jessé Souza explica:

[A classe média tradicional] tem menos contribuição para uma transformação da própria personalidade. Esta inclusive, a própria personalidade, não é vista como um processo de descoberta e criação. O distanciamento em relação a si mesmo e o distanciamento reflexivo em relação à sociedade exigem pressupostos improváveis. Daí que sejam raros, mesmo na classe média privilegiada.

Para que se perceba a vida como invenção, é necessário saber conviver com a incerteza e a dúvida, duas das coisas que a personalidade tradicional e adaptativa mais odeia. A convivência com a dúvida é afetivamente arriscada e demanda enorme energia pessoal. O maior desafio aqui não é simplesmente cognitivo, mas de natureza emocional. Procura-se, para evitar a incerteza e o risco, a segurança das certezas compartilhadas. São elas que dão a sensação de tranquilidade e certeza da própria justeza e correção. Andar na corrente de opinião dominante com a maioria das outras pessoas confere a sensação de que o mundo social compartilhado é sua casa.

Fonte: Jessé Souza, A elite do atraso, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, Brasil, 2025.

9 de setembro de 2025

O racismo cultural


O fator central do domínio da elite brasileira sobre a população pobre é a humilhação. É o sentimento de humilhação que faz com que o pobre concorde, admire e ame o humilhador. 

De maneira mais ampla, o principal combustível da humilhação é a escravidão. No entanto, não se trata de meramente atribuir importância histórica à escravidão conforme praticada no período colonial e imperial, mas destacar o papel interpretativo que a escravidão tem nos dias de hoje. 

Em outras palavras, a maneira como a sociedade brasileira é interpretada revela que a escravidão racial, outrora vigente de maneira ostensiva até a República Velha, passa a assumir a forma de um racismo cultural. É importante que a escravidão se mantenha para que o prazer em humilhar se mantenha. A humilhação não precisa ser algo consciente e articulado porque, afinal, trata-se de um sentimento. Negar à população cultura, saúde e educação é o veículo da humilhação, é a maneira da elite olhar o povo “de cima para baixo”.

Esse racismo cultural é produto de uma narrativa interpretativa singular: o Brasil vem de Portugal, e com os portugueses teria vindo uma herança de corrupção, crime e miséria medievais. Por isso, o que faz do Brasil um país rico com um povo pobre seria o patrimonialismo e a corrupção populares, que perpetuariam essa herança portuguesa. O Brasil é pobre porque, segundo esta linha interpretativa, o povo é corrupto. Eis que o racismo passa a ser algo moral, não mais racial.

É dessa forma que a elite brasileira se oculta. A educação e a imprensa fomentam a ideia de que o verdadeiro inimigo dos brasileiros – a elite econômica que hoje se oculta no sistema especulativo que atende pelo nome de “Faria Lima” – não rouba, mas “negocia”. Eis em poucas palavras como os inimigos do Brasil operam: a elite rouba, a imprensa mente. As demais instituições – câmaras legislativas, sistema judiciário, aparelho policial, forças armadas, universidades, igrejas evangélicas etc. – procuram garantir que nenhum elemento externo seja capaz de furar a bolha da narrativa interpretativa.

Racismo não tem a ver com raça porque o racismo hoje em dia se mostra em máscaras que moralizam o racista. Eis o racismo cultural.

Fonte: Jessé Souza, Exploração, história e injustiça, YouTube, 2025.

26 de junho de 2025

A crítica do amor puro


Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem. Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito. (João 15:4-7)

Um dos temas principais, ou talvez mesmo o principal, de Gustavo Corção é a inversão hierárquica entre otium (ócio) e negotium (negócio). Isso porque otium remete à gratuidade, à “inutilidade” de atos ligados às virtudes teologais. Embora devessem receber prioridade por sua eminência e importância e, por conseguinte, as atividades ligadas ao negotium a elas devessem se orientar, verifica-se no atual estágio civilizatório precisamente o contrário. O ócio (atitude de contemplação e compreensão da gratuidade) está ligado ao fim último do homem, à sua realização, à sua felicidade, ao seu destino. Portanto, cabe ao homem entregar-se à ordem da graça calcada na experiência de sua finitude, de seu acabamento, de seu, como diria Corção, desconcerto, “e não tanto a conquista de uma competência ética, como queriam os estoicos e os fariseus de todos os tempos”. O ócio seria “perda de tempo” porque não “produz” nada. Para o homem contemporâneo, o homem do negotio, a força existencial da vida contemplativa, o autoconhecimento, a excelência de vida, tudo isso é “inútil”. Só aquilo que é lógico e “sério” é digno, o que é, curiosamente, rematada loucura. Corção não deixa de denunciar que o sujeito da história, para o homem contemporâneo, é o “homem exterior”, é a ideologia do progresso naturalista e liberal.

Já vimos essa ideia neste blog. É claro, para a surpresa de ninguém, que Corção e a maioria dos católicos romanos tradicionalistas culparão o nominalismo, a ausência de conteúdo ontológico, a falta de “pertinência a um logos”. Mas é precisamente aí que reside o insight mais interessante de Corção: pelo fato de pertencermos gratuitamente a um fundamento metafísico, à ordem do Verbo, somente damos aquilo que recebemos. Tal circularidade – como o filho que dá ao pai um presente comprado com o dinheiro do próprio pai – é o senso de gratuidade ao qual Corção chama a atenção, e eis que o “amor puro”, ou seja, o amor puramente humano, utópico, gnóstico, nominalista, puramente agenciado pelo progresso “ao sabor do pelagianismo moderno”, é falso.

Daí vem sua denúncia contra a moral dos pusilânimes (“alma pequena”), que se contenta com virtudes fáceis e superficiais, com certo comodismo ético, e aponta a necessária moral dos magnânimos (“alma grande”), a moral dos que suportam a vocação humana à santidade. O homem contemporâneo foge da monotonia da permanência, na qual encontra-se a liberdade espiritual e a devida quebra do tempo produtivo, e vai ao encontro da monotonia da arte encomendada, da monotonia funcional, maquinal, acelerada, da monotonia da indústria do divertimento (eis a distinção que faz Roger Scruton entre arte e pseudoarte, aquela ligada à imaginação livre e complacente, esta à fantasia para satisfazer paixões).

Por fim, cabe citar a Chesterton, cuja descrição da loucura talvez seja das mais sagazes:

Se alguns atos humanos podem ser considerados sem causa, são os pequeninos atos gratuitos e simples do homem normal: assobiar quando passeia, partir a grama com a ponta da bengala, bater com os calcanhares ou esfregar as mãos. É esse homem feliz que faz coisas inúteis; o doente não é bastante forte para esses desperdícios. São exatamente esses atos descuidados e sem motivos que o doido não pode compreender; porque o doido (como o determinista) vê geralmente causas demais em todas as coisas. Naquelas atividades gratuitas ele é capaz de descobrir urna significação conspiratória. Pensará que o vergastar a grama é um ataque à propriedade privada; e que o bater de calcanhares é um sinal transmitido a algum cúmplice escondido. Se o doido pudesse ficar um só instante descuidado ficaria curado. [A. Se um de nós quiser discutir com um doido, é extremamente provável que ele leve a melhor, porque em muitos pontos seu espírito é mais rápido do que o nosso, não estando preso a certas coisas que atrasam um bom julgamento. Ele não se embaraça com o senso de humour, com a caridade, ou com algumas certezas de experiência. Tornou-se mais lógico pela perda de certas fraquezas saudáveis. Realmente, a definição vulgar da insanidade mental é, nesse sentido, um equívoco. O doido é o homem que perdeu tudo, exceto a razão.

É por isso que Corção interpretava a infância, aludida por Jesus Cristo em Mateus 18:1-4, com a integridade, não com inocência ou castidade. É íntegra a pessoa que se abre a uma “sadia desorganização”, a certo mistério ontológico, ao “ama e faze o que quiseres” de Santo Agostinho. O menino humilde se submete ao mistério do “nascer da obra”, ao Logos. Ele brinca, seus atos são gratuitos. É mais importante, portanto, chegar em casa do que chegar no escritório, mais importante ouvir uma boa música e conversar com amigos do que ser general do exército, engenheiro ou presidente da república. A produtividade é uma blasfêmia contra o Logos.

Fonte: Marcos Cotrim de Barcellos, Gustavo Corção: a crítica do amor puro, Editora Permanência, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2020.

19 de agosto de 2024

Cândido e o "melhor dos mundos possíveis"


Um dia, Cunegundes, ao passear junto do castelo no pequeno bosque que chamavam parque, viu entre moitas o doutor Pangloss, que dava uma aula de física experimental à camareira de sua mãe, moreninha bem bonita e dócil. Como a senhorita Cunegundes tinha muita disposição para as ciências, observou, sem fôlego, as experiências reiteradas de que foi testemunha; viu claramente a razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e voltou para casa agitadíssima, pensativa, cheia do desejo de ser sábia, sonhando que ela bem que podia ser a razão suficiente do jovem Cândido, que podia também ser a dela.

* * *

Após o terremoto que destruíra três quartos de Lisboa, os sábios do país não encontraram meio mais eficaz para prevenir a ruína total senão dar ao povo um belo auto de fé. Foi decidido pela Universidade de Coimbra que o espetáculo de algumas pessoas queimadas em fogo lento, com grande solenidade, é um segredo infalível para impedir a terra de tremer.

[Nota: Os atos de fé são espetáculos públicos, promovidos pela Inquisição, no qual se queimavam em fogueiras os supostos hereges e os acusados de “prática de judaísmo”. O auto de fé descrito por Voltaire realmente aconteceu em 20 de junho de 1756.]

* * *

À medida que cada um contava sua história, o barco avançava. Aportou-se em Buenos Aires. Cunegundes, o capitão Cândido e a velha foram à casa do governador Don Fernando de Ibarra y Figueroa y Mascareñas y Lampurdos y Souza. Este senhor tinha um orgulho compatível com um homem que carrega tantos nomes. Falava aos homens com o desdém mais nobre, levantando tão alto o nariz, elevando tão impiedosamente a voz, assumindo um tom tão imponente, afetando uma postura tão altaneira, que todos os que o saudavam ficavam tentados a surrá-lo. Amava furiosamente as mulheres. Cunegundes pareceu-lhe o que ele jamais vira de mais belo. A primeira coisa que fez foi perguntar se ela por acaso não era a mulher do capitão. O ar com que fez essa pergunta alarmou Cândido: não ousou dizer que era sua mulher, porque de fato não era; não ousava dizer que era sua irmã, porque tampouco o era; e, embora essa mentira oficiosa tivesse estado outrora muito na moda entre os antigos e pudesse ser útil aos modernos, sua alma era demasiado pura para trair a verdade.

* * *

Finalmente, avistaram-se as costas da França.

– O senhor já esteve na França, senhor Martinho? – perguntou Cândido.

– Sim – respondeu Martinho –, percorri várias províncias. Há umas onde a metade dos habitantes é louca, algumas onde são espertos demais, outras onde são normalmente bastante meigos e imbecis, outras onde se fingem de espirituosos; e em todas a principal ocupação é o amor; a segunda, a maledicência; e a terceira, dizer bobagens.

* * *

O jantar foi como a maioria dos jantares de Paris; primeiro, silêncio; em seguida, um barulho de palavras que ninguém distingue; depois, brincadeiras das quais a maior parte é insípida, falsas novidades, más reflexões, um pouco de política e muita maledicência. Falou-se até de livros novos.

* * *

– O senhor é muito duro – disse Cândido.

– É porque vivi – disse Martinho.

– Mas olhe só estes gondoleiros – disse Cândido –, não estão sempre a cantar?

– O senhor não os está vendo em seus lares, com suas mulheres e seus fedelhos – disse Martinho. – O doge tem suas mágoas, os gondoleiros têm as deles. É verdade que, tudo pesado, a sorte de um gondoleiro é preferível à de um doge; mas acho a diferença tão medíocre, que nem vale a pena ser examinada.

[Nota: Doge é o chefe ou primeiro magistrado das antigas repúblicas de Veneza e de Gênova.]

* * *

Depois que se despediram de Sua Excelência.

– Ora, ora – disse Cândido a Martinho –, o senhor há de convir que ali está o mais feliz de todos os homens, pois está acima de tudo o que possui.

– O senhor não vê – disse Martinho – que ele se entedia com tudo quanto possui? Platão disse, há muito tempo, que os melhores estômagos não são aqueles que rejeitam todos os alimentos.

– Mas – disse Cândido – não há prazer em criticar tudo, em sentir os defeitos onde os outros homens acham ver belezas?

– Ou seja – retomou Martinho –, que existe prazer em não ter prazer?

* * *

– E então, meu caro Pangloss – perguntou-lhe Cândido –, quando foi enforcado, dissecado, moído de pancadas e teve de remar nas galeras, o senhor continuou pensando que tudo ia no melhor dos mundos?

– Trago ainda o meu primeiro sentimento – respondeu Pangloss –, pois afinal sou filósofo: não me convém desmentir-me, Leibnitz não podia estar errado, e, por outro lado, a harmonia preestabelecida é a coisa mais bela do mundo, assim como o pleno e a matéria sutil.

* * *

E Pangloss dizia às vezes a Cândido:

– Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, enfim, se o senhor não tivesse sido expulso de um belo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegundes, se não tivesse tido apanhado pela Inquisição, se não tivesse corrido a América a pé, se não tivesse dado um bom golpe de espada no barão, se não tivesse perdido todos os seus carneiros do bom país de Eldorado, não estaria aqui comendo cidras em conserva e pistaches,

– Muito bem dito – respondeu Cândido –, mas temos de cultivar nosso jardim.

Fonte: Voltaire, Cândido, Editora Abril, São Paulo, SP, Brasil, 2010.

16 de setembro de 2023

Abstração e projeção


Podemos ser levados a crer que quanto mais naturalista, detalhada e fiel à realidade pictórica for uma obra de arte tanto mais desenvolvida e superior ela será em relação às representações abstratas e de inspiração geométrica. Inspirado pela obra e ensinos de Alois Riegl, o historiador alemão Wilhelm Worringer chega a conclusões não só divergentes como de certa forma contrárias a tal senso comum.

Worringer parte da ideia de que o gozo estético é um autogozo objetivado. Em outras palavras, a beleza extraída de uma obra de arte é resultado do contraste, ou mesmo fusão, da ampliação do olhar interno até o ponto que abarque toda a obra com a delimitação da imaginação para que a isole de seu ambiente originário. Se posso abandonar-me sem antagonismo interior à tal atividade de ampliação/delimitação, então disso resultará um sentimento de liberdade e prazer. O objeto estará como que compenetrado por minha atividade, por minha vida interior. Eis o “autogozo objetivado”. O “belo” seria uma projeção positiva, enquanto o “feio” uma projeção negativa.

Concomitantemente, identifica dois polos estilísticos claramente distintos encontrados na estética das obras de arte: (1) o afã de projeção sentimental (Einfühlung, ou “empatia”), cuja satisfação se encontra na beleza do orgânico, e (2) o afã de abstração, cuja satisfação se encontra na beleza do inorgânico, do que nega a vida, do cristalino.

Ora, se o autogozo objetivado é a definição mesma de gozo estético, então Worringer rejeita a ideia de que somente a projeção sentimental possa cumprir com louvor os critérios para extrair tal gozo da criação artística. Isso porque, com base no método criado por Riegl, a vontade artística absoluta, ou seja, a vontade artística desligada de quaisquer objetos, sendo uma exigência interior latente nos homens, se manifesta como vontade de forma. Toda obra de arte é, em seu mais intimo ser, tão-somente uma objetivação dessa vontade de forma.

Observe que a arte genuína é uma satisfação profunda de uma necessidade psíquica. Não cabe, portanto, confundir “arte” com “imitação”. Trata-se de um erro muito comum: a imitação é mera habilidade manual (um “gosto brincalhão pela reprodução de modelos naturais”) e carece de importância estética. A arte genuína é a expressão estilística da vontade artística absoluta.

O estilo resultante do afã de abstração – como nas formas de uma pirâmide ou nos mosaicos bizantinos – se trata de um impulso diametralmente oposto ao afã de projeção. A tendência abstrata se revela na vontade de arte dos povos em estado de natureza, na vontade de arte de todas as épocas primitivas e de certos povos orientais de cultura superior. Trata-se de uma tendência resultante de uma intensa inquietação interior ante os fenômenos do mundo circundante. Worringer lança mão da expressão agorafobia espiritual para designar tal impulso: algo como uma ansiedade em ficar em situações ou locais sem uma maneira de escapar facilmente ou em que a ajuda pode não estar disponível no caso de a ansiedade intensa se desenvolver. Há uma intensa necessidade por quietude, por desprender cada coisa individual pertencente ao mundo exterior de sua condição arbitrária e de sua aparente casualidade e eternizá-la mediante a aproximação a formas abstratas e em encontrar dessa maneira um ponto de repouso na fuga dos fenômenos. Observe: não há intromissão do intelecto no estilo abstrato, ou seja, não há nenhum tipo de aspiração a conformar-se a supostas leis de regularidade geométrica, mas sim uma necessidade interior elementar.

Os dois polos – projeção e abstração – são, ao fim e ao cabo, diferentes níveis de uma necessidade comum: a ânsia de alienar-se do próprio ego. Tal ânsia de alienação é incomparavelmente mais intensa e mais consequente no afã de abstração. Worringer não deixa de notar que a ânsia de alienação do ego é a essência suprema do gozo estético e, por que não, da felicidade humana mesmo.

Concluo portanto que a arte abstrata, embora primitiva em termos cronológicos, é primordial em termos ontológicos, pois é ela que retrata melhor o anseio dos homens em escapar da escravidão ao ego e alçar novos e maiores voos no plano sobrenatural. Os povos que não aposentaram sua arte abstrata mas, pelo contrário, a sofisticaram e aprofundaram, são provavelmente aqueles que melhor combinaram gozo estético e elevação espiritual.

Fonte: Wilhelm Worringer, Abstracción y naturaleza, Fondo de Cultura Económica, Cidade do México, México, 1953.

14 de setembro de 2023

A educação da espontaneidade


É possível educar os sentimentos? Ou, pelo contrário, os sentimentos devem ser o guia em torno do qual devem orbitar nossos pensamentos, condutas e juízos? Vejamos o que diz o filósofo espanhol Julián Marías.

O homem tem um caráter convivial, social e histórico. Em outras palavras, se imagina e se projeta dentro de uma forma histórico-social. Mas é necessário acrescentar que é possível sair dessa forma, que é algo que muitas vezes tem sido negado com notória falsidade. Mais ainda: sempre se sai dessa forma porque toda situação é instável, e justamente por isso existe a história.

É um grave erro portanto a “programação”, a fixação das formas, que nunca podem ser mais do que um ponto de partida. Isso elimina algo decisivo: a espontaneidade. Na vida é essencial o aporte dos impulsos, dos desejos, da imaginação – realidades sobre as quais pesa certo “descrédito”. É fundamental a reação viva, imediata, direta aos elementos da circunstância, especialmente às pessoas. É preciso que reivindiquemos a importância e a validade do “gosto”, que não coincide necessariamente com o prazer.

É preciso dar o devido valor à atração pessoal imediata, que costuma ser muito mais ampla e completa que a atração deliberada ou “racional” (aquela é mais racional, mas da razão vital).

Alguém poderia pensar que esta insistência na espontaneidade, esta preferência por ela, exclui a educação ou a relega a uma posição secundária. Acredito que, pelo contrário, ela a exige: é preciso educar a espontaneidade. Ela se nutre de experiências, imaginações, ensaios, explorações do desconhecido. Ora, a espontaneidade deseducada é pobre, limitada à herança, não somente biológica, mas sobretudo social. Entendo a educação como cultivo e incremento à espontaneidade.

É evidente a enorme influência que a ficção tem aqui: poesia, teatro, literatura, cinema; e não menos importante, a conversação. Aliada às vivências e experiências reais, as virtuais que se recebem do outro – do próximo presente com quem se conversa ou do criador, talvez falecido há séculos – são ótimos instrumentos de dilatação e intensificação da vida.

A diversidade de idades, a convivência com várias gerações, é essencial. Isso permite a libertação da circunstância temporal, a ampliação do horizonte.

[...]

O “estar” carrega em si o conceito de instalação, que é a maneira como o homem “se encontra” na vida, fazendo algo e sendo alguém. Poderíamos definir temperamento como a modulação dessa instalação. O temperamento portanto é uma modulação essencial daquilo em que se está quando se está vivendo. [...] Alegria e tristeza, austeridade e jovialidade, severidade e piada, secura e afetuosidade; eis alguns exemplos possíveis de temperamento, que contêm incontáveis variedades e matizes. Existem temperamentos habituais que poderíamos chamar de vigentes. E existe a possibilidade de sua alteração estimulada ou artificial, como festas, orgias, álcool, drogas.

A afetividade, o mundo dos sentimentos, é o envolvente da vida. [...] A vida apresenta certos sintomas de grosseria, de pobreza, de monotonia, de instabilidade; e, mais ainda, de secura, de prosaísmo (achatamento, insipidez). Será que não nos falta uma educação sentimental adequada?

Fonte: Julián Marías, La educación sentimental, Alianza Editorial, Madrid, Espanha, 1992.

1 de julho de 2023

Um tributo à alta monogamia


O escritor americano George Leonard, extensamente citado pela psicóloga espanhola Montserrat Calvo Artes, defende a ideia de que tanto o moralismo vitoriano quanto a revolução sexual, embora ambos pareçam contradizer-se mutuamente, na verdade são produto de uma mesma mentalidade: a ideia de que o sexo é uma atividade que possa ser dissecada dos demais aspectos da vida humana e, pior, que possa ser reduzida a dogmas e preceitos definidos.

Quando nos damos conta que o homem enquanto tal não é um mero agregado material, nem um boneco ou um fantasma, mas um ser muitíssimo mais complexo, amplo e profundo, que a união entre duas pessoas não é a mera união de dois personagens, então podemos vislumbrar a ideia central de Leonard: o amor erótico, se consumado e comprometido, tem poderes imortais. O amor erótico e o amor criador são notavelmente semelhantes e a maneira como fazemos amor influi na maneira como fazemos o mundo, e vice-versa.

O problema com as posturas ideológicas vitoriana e revolucionária é que ambas almejam reduzir e “concretizar” a vida, seja impondo ditames de recato e castidade, como no caso da moral vitoriana, seja impondo ditames de exuberância e liberdade, como no caso da moral revolucionária. Observe que em ambas há a oferta de soluções e caminhos simplificados. E o que foi “simplificado” aqui é precisamente a condição humana: quando duas pessoas fazem amor isso seria “só sexo”, seria mero alívio prazeroso de pulsões e a realização de desejos voluptuosos.

Foi o moralismo vitoriano do século XIX o principal responsável por reduzir o sexo a algo polêmico e isolado, por romper a relação do sexo com a matriz das relações sociais, por transformar o sexo em algo sensacional. O sexo passou a ser uma ideia, uma abstração, um objeto sobre o qual podemos versar, manipular, ensaiar em laboratório. A abstração e a generalização que supõe o pensamento moderno sobre o sexo toma a experiência erótica e a converte em algo concreto e útil, paralisando-a. A expressão “sexualidade humana” não mais descreve a vida, mas a morte. Segundo Leonard, embora aparentemente não haja relação entre sexo e genocídio, é precisamente a abstração do corpo e do sexo em relação ao composto humano total levada a cabo na era moderna que permite que pessoas sejam tratadas como coisas, que assim como as árvores de um terreno são derrubadas para posterior terraplanagem, assim também homens são assassinados para posterior “terraplanagem”. Daí Leonard dizer com muita eloquência: “A paralisia da percepção precede o genocídio”. Nossa capacidade de abstrair é também nossa incapacidade. Uma ideia pode se tornar tão premente que a confundimos com a realidade: confundimos o mapa com o território. É quando a ideia se converte em ideologia.

Ao contrário, as fantasias formam a cultura erótica interior e, portanto, enriquecer a vida imaginária é ampliar as perspectivas da vida erótica. A criatividade, seja no amor ou em qualquer outro campo, exige a distinção entre a fantasia e o dogma: ora, criar significa experimentar novos elementos ou configurações da realidade sentindo-me seguro com isso. O dogma circunscreve e congela a realidade ao mesmo tempo em que proíbe a fantasia.

O que Leonard tem em mente está para muito além do controle, dos cálculos e das manipulações. Trata-se de entrar em um mundo no qual o ato sexual não seja considerado como uma mercadoria, mas como uma expressão espontânea e incondicional do amor. Em outras palavras, em criar um lugar magnífico apesar dos riscos, no qual as correntes do passado se rompem e a importância da luta pelo poder é mínima.

Se minha amante e eu somos campos de energia, únicos e irredutíveis, que expressamos o cosmos desde um ponto de vista especifico, então nossa união não é casual. Quando nos unimos no amor criamos um novo campo de energia, maior e diferente do que a soma de suas partes. As intenções e o compromisso bastam para criar uma nova forma, para engendrar a ordem onde antes havia o caos e o nada, para produzir novos dados. Se minha amante é o cosmos, é impossível que a trate como um objeto. Ela é como uma janela para o cosmos.

É por isso que Leonard propõe a monogamia. Não por escrúpulos legais, morais ou religiosos, nem por timidez ou inércia, mas porque ambos buscam um desafio e uma aventura. A exclusividade erótica é portanto algo voluntário, livremente escolhido. Para isso, Leonard recomenda: (1) que ambos tenham interesses em comum em quanto a objetivos de vida, (2) que demonstrem genuíno entusiasmo, lealdade, cortesia, paciência, (3) que se considerem verdadeiramente como pessoas de altíssimo valor.

O objetivo da relação monogâmica é atingir uma profundidade tal que desencadeie uma mudança em ambos. É precisamente a partir do momento em que ambos já contaram a historia de suas vidas e empregaram todos os truques eróticos que começa a aventura da transformação e do erotismo mais profundo. É a partir desse momento que começamos a ver com clareza e começamos a mudar. E é precisamente isso que a sexualidade recreativa e fugaz evita: a intimidade profunda, a aventura, a imprevisibilidade, a transformação. A monogamia é para aqueles que se comprometem a viver de uma forma profundamente pessoal, entregando tudo sem reprimir nada. A relação monogâmica voluntária (não aquela motivada por escrúpulos morais) tem seus prêmios: uma ternura muito particular, sensações intensas, um ambiente erótico emocionante, surpresas cotidianas, mudanças. 

Tudo isso sem apólice de seguro. Sim, pois há riscos, e são enormes. A sabedoria do cínico tem um longo pedigree. Mas o desperdício do potencial da relação monogâmica autêntica também causa terror.

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A "matéria" é a origem dos campos de energia ou são eles que engendram a matéria? Na realidade, a matéria é o campo de energia, como demonstrou Einstein em sua equação E = mc 2, sem que a causa intervenha em nada. Basta dizer que o padrão rítmico é o aspecto mais fundamental e irredutível de cada ser humano e que podemos considerar todos os sinais de individualidade como diferentes manifestações de um mesmo ritmo fundamental ou pulsação interior. Por exemplo, as impressões digitais são ondas rítmicas imobilizadas no espaço. As ondas cerebrais são ondas no tempo. Reconhecemos nosso cantor favorito - não importa quão ruim seja a gravação e não importa que música ele cante - não apenas pela maneira como ele interpreta a música, mas também por essa profunda essência rítmica, esse pulso interior.

Portanto, cada um de nós pode ser considerado um campo rítmico completamente diferente, um complexo de ondas e ressonâncias. Este conceito de identidade pessoal anula a velha dicotomia mente-corpo, visto que a mente é vista como uma manifestação da pulsação interior, e o corpo como outra manifestação da mesma. Podemos ir ainda mais longe e afirmar que a obra de uma pessoa, a marca deixada no tempo pela passagem dessa pessoa, é uma manifestação dessa pulsação particular e fundamental. A alma ou espírito é outra dessas manifestações. A ideia de uma pulsação interna da identidade pessoal poderia explicar a possibilidade da sobrevivência da autoidentidade após a morte do corpo.

Fonte: George Leonard, El fín del sexo, Integral Editorial, Barcelona, Espanha, 1986.

23 de junho de 2023

Um dia de Ivan Denisovich


Mesmo que o barracão estivesse pegando fogo, a gente não deve nunca se apressar. Fora o sono, o homem dos campos de concentração só vive por sua conta dez minutos de manhã, no café, cinco no almoço e cinco no jantar.

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Mas até para pensar um zek nunca está livre. Sempre volta para o mesmo ponto, não para de remexer as mesmas ideias. Será que eles não vão encontrar o pãozinho inspecionando o colchão? Será que de tarde o doutor vai fazer o favor de te livrar do trabalho? O comandante vai dormir no xadrez ou não? E como Tsezar vai se virar para conseguir roupas quentes? Com certeza ele molhou a mão de alguém do armazém das roupas pessoais, porque senão...

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Nos campos e nas prisões, Ivan Deníssovitch tinha perdido o costume de pensar no futuro; para hoje assim como para um ano, e também para sustentar a família. Os chefes cuidam disso no teu lugar; são umas preocupações a menos.

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Nos campos, quantas vezes Chukhov tinha lembrado de como se comia antigamente, na roça: batatas às fornadas, a kacha direto na panela e, ainda antes disso, [antes dos kolkhozes] carne, carne por fatias inteiras, e que fatias! Sem falar do leite que se bebia até estourar. Mas nos campos Chukhov compreendeu que era besteira fazer aquilo. Melhor é comer prestando atenção, pensando só no que se está comendo, como ele fazia, separando todos os pedaços com os dentes, fezendo-os passarem por baixo da língua e chupando com as paredes da boca, para não perder nada desse bom pão preto úmido, que tinha um cheiro tão bom.

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O que é bom no campo é a liberdade completa. Se por acaso, em Ust-Izma, você dissesse na orelha de alguém que estava faltando fósforo na cidade, você pegava dez anos de pena a mais. Mas aqui, você pode gritar nas wagonka o que quiser,os dedos-duros não vão te entregar: o Padrinho não está nem aí.

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-- E obrigado, meu Deus, por mais um dia que passou!

Porque tinha ouvido Chukhov agradecer alto a Deus, Aliocha se voltou:

-- Ivan Deníssovitch -- disse --, você está vendo que a sua alma está pedindo para rezar a Deus. Por que não a deixa fazer isso?

Chukhov deu uma olhada de lado para ele: Aliocha tinha os olhos ardendo, como duas velinhas. E Chukhov suspirou:

-- Uma oração, Aliocha, é como as reclamações. Não chegam nunca até o patrão. Ou então ele te escreve: Recusado.

-- É porque você não reza o bastante, Ivan Denissytch, ou porque você reza mal, sem fervor, que as suas orações não são atendidas. A oração tem que ser fervente. Quando vocÊ tem fé, você diz para uma montanha andar, e ela anda.

Chukhov sorria devagarinho. Enrolou um segundo cigarro, acendeu com o do estoniano...

-- Aliocha -- disse então --, a gente não deve falar por falar. Nunca vi uma montanha andando.

-- Ivan Denissytch -- diz ele ainda --, não é para receber uma encomenda que a gente tem que rezar, ou para receber uma sopa extra. O que o Homem põe mais alto é uma miséria aos olhos do Senhor. A gente tem que rezar pela salvação da nossa alma: para que Nosso Senhor arranque de nosso coração a escória do mal... 

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-- Por que você me fala dos popes? A Igreja Ortodoxa se afastou do Evangelho, e é por isso que os membros dela não são presos: porque têm uma fé morna.

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Dias como esse, em sua pena, ele tinha, de ponta a ponta, três mil seiscentos e cinquenta e três.

Os três a mais eram por culpa dos anos bissextos.

Fonte: Alexandr Solzhenitsyn, Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, Editora Siciliano, São Paulo, Brasil, 1995.