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12 de julho de 2021

There's no free market


O mercado livre não existe. A velha ideia de que os economistas de livre mercado estão apenas tentando defender o mercado das interferências políticas do governo é falsa. O governo está sempre envolvido de uma forma ou de outra, e os defensores do livre mercado são tão politicamente motivados quanto qualquer um. O mesmo mercado pode ser percebido como tendo vários graus de liberdade para diferentes pessoas. Se alguns mercados parecem livres, é apenas porque estão tão habituados com os regulamentos que os sustentam que se tornam invisíveis. Enxergamos um regulamento somente quando não endossamos os valores morais por trás dele. Reconhecer que as fronteiras do mercado são ambíguas e não podem ser determinadas de forma objetiva nos permite perceber que a economia não é uma ciência como a física ou a química, mas um exercício político. Quando os economistas de livre mercado dizem que certa regulamentação não deve ser introduzida porque restringiria a "liberdade" de um determinado mercado, eles estão apenas expressando uma opinião política. Seu manto ideológico é fingir que sua política não é realmente política, mas sim uma verdade econômica objetiva, enquanto a política dos outros é política. No entanto, eles são tão motivados politicamente quanto seus oponentes. Romper com a ilusão da objetividade do mercado é o primeiro passo para compreender o capitalismo.

Fonte: Ha-Joon Chang, 23 Things They Don’t Tell You about Capitalism, Penguin Books, Londres, Reino Unido, 2010, trechos do capítulo 1.

26 de março de 2021

Gestão emocional: a essência da liderança


A sensibilidade racional

Reconhecer suas neuroses é bom; decidir fazer algo para resolvê-las é melhor ainda; mas fazer esse algo, concretamente, é uma coisa totalmente diferente. Cuidado, contudo, para que esses insights não se transformem em pensamentos do tipo: “Eu vejo com clareza que ando me comportando de maneira idiota, portanto sou um idiota!”

A solução? Adquirir sensibilidade racional. Em outras palavras, tornar-se sensibilizado, mas não sensível: em termos mais claros, ensinar-se como ser sensível sem ser vulnerável.

A sensibilidade racional consiste em empregar seus pensamentos e emoções de maneira que você se torne cada vez mais sensível e perceptível aos seus próprios erros e aos erros dos outros. Ao mesmo tempo, consiste em tornar-se infinitamente menos vulnerável, menos condenatório, quando você erra, ou quando os outros erram. É a capacidade de agir de maneira autêntica, e deixar que os outros ajam de maneira autêntica, sem condenar-se a si ou aos outros quando formos tolos, quando cometermos erros ou quando agirmos de maneira autodestrutiva.

Um dos pensamentos mais comuns nessas situações é que devemos ser castigados pelo que fizemos. Castigo, neste sentido, não significa apenas penalização. Se você continuar apresentando um mal desempenho o que poderá acontecer é que será penalizado: ou seja, você não será recompensado por ter sido bem sucedido, será criticado por cometer algum erro, não poderá continuar no projeto etc. Mas castigo significa penalização mais condenação. Significa que só porque cometeu um erro você tem que ser especialmente condenado a sofrer nesta terra, pois você supostamente violou a lei da natureza de que você deve, você tem que, você precisa ser bem-sucedido.

A sensibilidade racional lhe mostrará, de maneira explícita e eficiente, como desinventar os demônios e duendes que você idiotamente inventou e como substituí-los por filosofias de vida racionais: (1) “Não é horrível que meu departamento tenha tido um desempenho tão ruim este ano; é apenas muito inconveniente”; (2) “É claro que eu consigo aguentar esse tipo de fracasso. Nunca irei gostar de fracassar, mas sempre poderei lidar de maneira elegante com isso”; (3) “Não há, nem nunca poderá haver, nenhuma evidência de que eu seja uma pessoa indigna por ter tido um desempenho tão ruim”; (4) “Não importa se eu continuar cometendo erros, eu nunca merecerei ser castigado por meu comportamento ineficaz. Castigo significa condenação; e nem eu nem ninguém seremos condenados mesmo que façamos algo tolo ou irresponsável”.

A essência de praticamente todos os transtornos humanos reside em seu caráter ditatorial, grandiloquente, exigente, típico de criancinhas de dois anos de idade. As pessoas naturalmente, e facilmente, a causa de suas predisposições biológicas e ambiente familiar degradado, creem com devoção e intolerância que elas precisam o que elas querem, que elas precisam ter o que elas preferem, que é um horror se elas forem privadas.

A sensibilidade racional sensibiliza o individuo a suas próprias exigências pueris, bem como as dos demais. Ela lhe mostra como é completamente louco lamuriar-se, reclamar, choramingar e insistir que o universo foi feito especialmente para ele. O indivíduo que pratica a sensibilidade racional, por outro lado, não tem certeza de nada; ele aceita de bom grado o acaso e a probabilidade; ele percebe que nem ele nem ninguém é uma pessoa indigna.

 A sensibilidade racional e o executivo

De certa forma o executivo é um revolucionário nato. Ele naturalmente se conforma em grande medida às regras organizacionais vigentes: pois ele sabe perfeitamente bem que se não as seguir não conseguirá nem mesmo aproximar-se da direção da empresa a qual pertence.

Porém, o líder organizacional realmente dedicado às suas atividades está sempre, de maneira automática, procurando ineficiências por eliminar e eficiências por construir. Raramente fica satisfeito em seguir indefinidamente as mais “bem-sucedidas” e consolidadas políticas da empresa; de outra forma, seu trabalho se tornaria rotineiro e tedioso. Dado que “mudanças radicais” é outro nome para “revolução”, o executivo é sob vários aspectos (e não somente teoricamente) uma das criaturas mais revolucionárias da terra.

O executivo, ademais, é um ser essencialmente lógico e racional. Ou, pelo menos, deveria ser! Pois embora seja emotivo, líder e orientado por comportamentos, ele é forte em pensar, imaginar, planejar, estruturar e teorizar. Ele não apenas age; ele usa a cabeça. Talvez seu ponto mais forte esteja precisamente nisso: enquanto alguns são exímios pensadores, outros extremamente emotivos e alguns extraordinariamente impetuosos, o executivo tende a empenhar-se nessas três formas de comportamento.

Mas como? Bem, tente por um momento observar o homem, não apenas sua obra. Por que o executivo tem poder para executar? Em última instância, porque ele realmente quer. Ele quer, prefere, gosta imensamente de liderar os outros e dirigir empresas. Ele deseja intensamente a eficiência e o sucesso. Ele anseia apaixonadamente atingir os objetivos da empresa. Ele cobiça ativamente vários tipos de poder. Ele normalmente detesta, despreza e odeia a ineficiência, a fraqueza, a desordem e o desperdício. Ele sabe muito bem onde ele quer chegar na vida e está absolutamente determinado a chegar lá.

Mas será que seus desejos, gostos, vontades, ânsias, cobiças, ódios e determinações realmente representam a epítome do desinteresse, da pura objetividade e da frieza? Não tenha dúvida! Muitos de seus métodos podem ser incrivelmente frios e calculados. Ora, mas e as chamas da motivação, aquela motivação que ventila e promove esses métodos? Será que elas também são frias e calculadas?

O verdadeiro executivo é, portanto, naturalmente racional, mas é também naturalmente, no melhor sentido do termo, sensível. Ele não apenas sabe o que é, mas também o que deveria ser.

A sensibilidade racional é sensatamente dualista. Ela reconhece a existência das inclinações totalmente centradas no prazer, as tendências incrivelmente egoístas e maravilhosamente individualistas do cidadão saudável. Mas não se esqueça: as pessoas, em especial os executivos, trabalham com outras pessoas.

A sensibilidade racional o ajudará a que se sensibilize com você mesmo; com as pessoas mais próximas a você (esposa, filhos); a seus colegas de trabalho, a seus superiores e subordinados. Ela oferece a você uma chave para a humanidade: entender os comportamentos incrivelmente repetitivos das pessoas ao seu redor.

 Determinação

Antes de mais nada, o executivo competente é uma pessoa determinada, que decide. Ele pensa por meio de planos e cronogramas. Então é quando ele decide implementá-los com determinação.

Adiar deliberadamente uma decisão é sinal de uma necessidade terrível de aprovação.

Em primeiro lugar, desafie-se: as decisões são parte do processo gerencial; enquanto você for gerente, é você quem decidirá se deve ou não manter uma determinada pessoa na equipe. Quem disse que todos devem tratar você com isenção total? Sim, é triste mandar alguém embora; sim, haverá consequências à esposa e aos filhos do funcionário, que certamente sofrerão; mas não é você que está encorajando a miséria dele, mas ele mesmo.

Mas e o excesso de determinação, ou seja, a ânsia de decidir rapidamente? Não seria isso um problema também? Sim, pode ser. Se sua raiva, sua autodepreciação, sua baixa tolerância à frustração, se tudo isso foi a verdadeira causa de sua decisão impulsiva, açodada, e impetuosa de demitir o funcionário, então, sim, você maculou sua capacidade executiva, sua posição.

Quanto mais reativo você for em relação ao comportamento inadequado de um de seus subordinados, tanto mais será alvo de seu ressentimento e de seu enfrentamento. Dado que esta é a maneira que muitas (mas não todas) pessoas são, por que não aceitar tranquilamente esse fato e até mesmo usá-lo a seu favor?

Pois se você realmente for capaz de resolver o problema fundamental do “ego” e da “autovalorização”, você não apenas estará à frente no jogo da eficiência executiva, mas se tornará invulnerável à maioria dos golpes e “insultos” que certamente receberá ao longo de sua trajetória em outras importantes áreas da vida.

 Concentração

O elemento mais importante para a competência executiva é provavelmente a capacidade de concentração continuada.

Eis algumas regras gerais: Tente concentrar-se nas coisas mais importantes a serem feitas, por você e por outros, para cumprir os objetivos da empresa. Observe sua vida social – e a dos outros – no ambiente de trabalho.

O que está bloqueando a sua concentração eficiente? Ora, você. A principal cagada é provavelmente sua baixa tolerância à frustração, ou, em outras palavras, seu hedonismo de curto prazo. Sim, você sabe que não deve perder tempo com trivialidades, com socializar excessivamente com seu chefe, seus pares, seus subordinados, que você deve concentrar-se no que é realmente importante etc. Mas conhecimento não é ação.

Que tipo de merda está fazendo com você mesmo? Este deveria ser o principal aspecto sobre você: adiar o prazer presente em prol de um ganho no futuro.

 A relação com os outros

Um dos aspectos mais importantes a que o executivo deve prestar atenção é sua relação com os outros. É necessário manter uma relação amigável, embora não necessariamente intima, com eles.

Você sabe perfeitamente bem que há tarefas que deve executar, por mais chatas e inoportunas que sejam; que há pessoas com quem deve relacionar-se, por mais estúpidas e desprezíveis que sejam; que há prazos e processos a cumprir, por mais draconianos e arbitrários que sejam. O problema não é a respeito no quê você deve disciplinar-se, mas como. A falta de disciplina normalmente é causada por uma ideia irracional básica na qual literalmente milhões de indivíduos creem. Ela reza que é mais fácil evitar enfrentar as dificuldades e responsabilidades da vida do que assumir formas mais recompensadoras de autodisciplina.

 Autoaceitação

A característica humana mais valiosa talvez seja a autoaceitação plena.

Poucos psicólogos sabem o que é autoaceitação. Frequentemente confundem autoaceitação com “autoconfiança”, “autoestima”, “autoaprovação”, “amor próprio” e coisas do tipo, que em muitos aspectos não só são diferentes mais contrários à autoaceitação.

A autoaceitação incondicional significa exatamente o que parece significar: que o indivíduo se aceita completamente a si mesmo, a sua existência, a seu ser, a sua vivacidade, sem qualquer tipo de restrição ou condição. Por outro lado, o que normalmente chamamos de “autoconfiança” ou “autoestima” são conceitos altamente condicionados de aceitação. Pois se você confia em si mesmo ou estima-se a si mesmo invariavelmente o fará por alguma razão, porque faz algo bem. E se esse é o caso, então você imediatamente perderá essa confiança ou estima assim que começar a fazer coisas mal feitas. “Eu sou bom não porque eu faça algo bem feito ou porque eu seja amado pelos outros, mas pelo simples fato de que estou vivo. Minha bondade está em minha vivacidade. Ponto final.”

A autodepreciação frequentemente leva ao outro lado da moeda da insegurança pessoal: a exaltação compulsiva do ego. Se você acha que não vale nada enquanto pessoa somente porque fez coisas erradas ou mal feitas, então começará a tentar provar a si mesmo que você na verdade é, sim, uma pessoa digna e de valor; e a maneira com que fará isso é fazer coisas que supostamente inflem seu ego e dar-se tapinhas nas costas por ter feito elas.

As tentativas de inflar o ego são provavelmente os comportamentos mais destrutivos da eficiência organizacional.

 Sentimentos de hostilidade

A autoafirmação é um dos mais saudáveis objetivos no ambiente de trabalho, e um dos que mais o ajudarão a atingir (e manter) a eficiência executiva. Mas o problema é que é muito fácil confundir autoafirmação com hostilidade. Dado que a hostilidade, ou raiva, nos motiva a ser assertivos e às vezes a atingir bons resultados (ou ao menos resultados rápidos), então muita gente conclui que (1) a raiva é um elemento necessário da afirmação, (2) a raiva é uma demonstração de força, (3) a raiva é uma demonstração autêntica a respeito do que está acontecendo e (4) a raiva é altamente desejável.

A afirmação (ou assertividade) é saudável porque demonstra que você quer algo e que está determinado a fazer alguma coisa para obter esse algo, mesmo que algumas pessoas pensem diferente e queiram que você faça o que elas querem.

Mas a hostilidade é algo completamente diferente. A hostilidade não é apenas batalhar pelo que você quer; é depreciar, enquanto ser humano, àqueles que querem algo diferente de você.

 Depressão

Será que a sensibilidade racional ensina às pessoas que elas nunca, jamais, devem sentir-se deprimidas – nem mesmo quando alguém querido morrer ou quando uma empresa entrar em falência? Sim, é exatamente isso que ela ensina. Pois a depressão, quando corretamente definida, não significa apenas tristeza profunda, infelicidade ou luto; depressão significa também autodepreciação, autopiedade e um sentimento de total desesperança.

Pois sentir-se frustrado, contrariado, chateado, tudo isso naturalmente o encoraja a sentir-se triste e cabisbaixo. Mas sentir-se deprimido, desesperado, completamente melancólico, significa, acima de tudo, que você está torturando-se a si mesmo por ser torturado, que está exigindo e fazendo birrinha porque o mundo deveria ser arrumado de tal forma que você nunca seja frustrado, contrariado e chateado.

Quase todos os transtornos de personalidade resultam do mecanismo de culpa irrealista e exagerada – culpar a si mesmo, os outros, o mundo. Quando se comporta neuroticamente você flagela pessoas e coisas de maneira supergeneralizada somente porque algumas características delas são indesejadas. Ao invés de querer, desejar e preferir que essas pessoas e coisas tenham características melhores, você exige e ordena que elas melhorem completa e imediatamente.

Fonte: Albert Ellis, Executive Leadership, Institute for Rational Living, Nova York, NY, EUA, 1972. 

22 de maio de 2011

As estratégias de poder nas empresas


Bastam alguns poucos meses de experiência profissional para que uma realidade geralmente menosprezada nos cursos de formação técnica e superior se torne evidente. Os recém-ingressos no mercado de trabalho rapidamente percebem que as empresas privadas não são guiadas exclusivamente pelo cálculo econômico racional, ou seja, elas não tomam suas decisões baseando-se em considerações que estejam direta e indiretamente ligadas à otimização do lucro e redução de custos. Quem quer que observe com atenção a dinâmica de relações em uma empresa logo concluirá que há muitos outros elementos que são levados em consideração pelos gerentes em suas tomadas de decisão. Amizades, afeições, ambições, ciúmes, invejas, temores, ameaças – estes e outros são componentes perenes da ação humana que também fazem parte das empresas e que também desempenham um papel importante na vida organizacional. A ação humana possui uma dimensão social, e as organizações, por fazerem parte da sociedade, não estão isentas da ação destes elementos essencialmente humanos.

O organograma geralmente é entendido como sendo a síntese das relações de convencionais de autoridade entre estes elementos. Todavia, sabe-se, conforme mencionado acima, que há inúmeras relações que não são convencionais e que, mesmo assim, precisam ser levadas em conta pelo gerente-geral, pelos gerentes e pelos funcionários.

De que outras maneiras além das convencionais os funcionários de uma empresa, ao longo de seu desenvolvimento e maturidade, procurarão influenciar as decisões de seus superiores? Quais estratégias políticas a direção da empresa poderá adotar para se relacionar com órgãos reguladores e fiscalizadores? De que maneira os sócios poderão se beneficiar pessoalmente de sua posição privilegiada? Como os sócios poderão agir para influenciar-se mutuamente a fim de que a empresa tome a direção desejada por um ou alguns deles?

Visão geral

As “estratégias de poder” – assim chamadas em uma das obras mais importantes sobre estratégias empresarias (MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, 1998) – são aquelas que têm por objetivo explícito influenciar politicamente pessoas e empresas. Por “politicamente” entende-se influenciar por meios que não sejam exclusivamente econômicos e mercadológicos, ou seja, por relações que vão além das atividades típicas da função empresarial. A formação de alianças é uma das estratégias políticas que vêm à mente quando se fala de poder, mas nem sempre as estratégias de poder restringem-se a meios legais; neste sentido, podemos pensar também na formação de cartéis que, embora formalmente ilegais, também devem ser classificados dentro da categoria de estratégia de poder. Portanto, as expressões “estratégia de poder” e “estratégia política” são intercambiáveis, embora etimologicamente a segunda expressão sugira um uso mais governamental e partidário do que propriamente empresarial, o que naturalmente acaba conferindo às estratégias políticas certo perfil antiético, o qual, veremos, é um tanto injusto.

No meio acadêmico, empresarial e midiático, costuma-se dar grande destaque à estratégia posicional (PORTER, 1998a), cuja característica precípua é fazer avançar a empresa mediante técnicas mercadológicas, administrativas e financeiras, ou seja, mediante técnicas que se situem dentro dos limites da atividade empresarial clássica. Por outro lado, a estratégia política, conforme dissemos acima, procura precisamente descrever e fornecer meios através dos quais o empresário, o grupo gestor, os gerentes ou mesmo os funcionários sejam capazes de afetar e manipular os principais agentes de influência que gravitam em torno da unidade empresarial, departamental ou funcional. É verdade que esta divisão não é estanque: Michael Porter também sugere em sua obra (PORTER, 1998b, p. 220) movimentos que possam ser classificados como políticos, e nem sempre toda estratégia política deixa de ser também, sob certos aspectos, econômica. Por isso, verificamos que há na realidade um continuum entre as duas estratégias.

Assim, as relações de poder podem ser divididas em duas grandes classes, dentro das quais a literatura pertinente também se dividirá respectivamente. A primeira é o micropoder, ou seja, as relações de poder intraorganizacionais. A segunda é o macropoder, ou seja, as relações de poder organizacionais. Em outras palavras, o micropoder é a relação de poder de indivíduos dentro de uma empresa, enquanto o macropoder é a relação de poder da própria empresa, ou seja, da própria unidade organizacional.

A literatura de ambas as classes é relativamente diminuta. Verifica-se que pouca atenção tem sido dada às estratégias de poder, embora curiosamente elas sejam onipresentes nas empresas. Mas como se explica esse fenômeno? Talvez a divisão de temperamentos (KEIRSEY, 1995) ajude a explicar esta situação. Enquanto empresários, empreendedores e líderes em geral tendem a ser “idealistas” e “artesãos” (nomenclatura do próprio autor), os estudiosos e formuladores de estratégias tendem a ser “racionais”. Naturalmente avessos ao ambiente disforme e irracional das relações empresariais e pessoais, os estudiosos das estratégias empresariais menosprezam muito facilmente estes aspectos, procurando apegar-se ao ambiente racional e controlado das relações econômicas e mercadológicas. Em outras palavras, as estratégias posicionais, com sua ênfase em questões de liderança em custo e diferenciação, são elevadas à condição de “relações éticas”, superiores, honrosas, enquanto as relações de poder, influência e alianças são rebaixadas a algo menos do que antiético, desprezível e mesquinho. Assim, um curioso paradoxo se forma neste âmbito: acadêmicos e pesquisadores devem aprender a observar as relações empresariais para além de suas interfaces econômicas e mercadológicas, enquanto empresários e CEOs precisam aprender a valorizar as pesquisas que lhes ajudem a compreender a ampla natureza de sua atividade e, conseqüentemente, a tornarem suas organizações mais sólidas, duradouras e lucrativas.

Micropoder

As organizações são compostas por indivíduos, isto é, são compostas pelos sonhos, esperanças, invejas, ciúmes, interesses e temores destes indivíduos. Ingênuos são aqueles que imaginam que os gerentes são seres perfeitamente racionais, ou pelo menos exclusivamente racionais, que, ao adentrarem em suas organizações, deixam para trás os aspectos a-racionais de sua psique. Similarmente, ingênuos são aqueles que imaginam que as estratégias e táticas empresariais não levam em conta estes aspectos a-racionais.

É impossível formular estratégias ótimas. Os objetivos dos indivíduos e as coalizões que são engendradas a partir da relação entre eles torna impossível que a estratégia pretendida não seja perturbada e distorcida ao longo do caminho, o que significa que toda uma gama de “jogos políticos” é desempenhada no interior das organizações, os quais desvirtuam a estratégia original.

Em um clássico artigo acerca dos movimentos sociais nas organizações (ZALD, BERGER, 1978) – a expressão “movimentos sociais” não tem a mesma acepção que a tomamos coloquialmente, ou seja, não se refere a ONGs, sindicatos e instituições similares –, três desses “jogos” são descritos:

(1) Golpes: é a tomada de poder, engendrada quando os golpistas substituem os donos do poder por si próprios, mas mantém a estrutura de poder intacta.

(2) Insurgências: não há substituição da liderança, mas apenas uma mudança de algum aspecto da função organizacional que se dê fora dos canais políticos convencionais.

(3) Movimentos de massa: meras expressões de descontentamento ou resistência a mudanças; são mais visíveis e envolvem mais pessoas do que os dois “jogos” acima.

Os “movimentos sociais” nas empresas são, na verdade, fenômenos que lembram os movimentos sociais classicamente estudados nas ciências políticas e sociais. Se guardarmos as devidas proporções, eles também ocorrem nas empresas. Trata-se de um fato facilmente verificável, mas dificilmente versado na literatura sobre estratégias empresariais.

Movimento social é aquele em que há uma expressão por uma preferência de mudança entre membros de uma sociedade. Os movimentos sociais diferem-se entre si no que tange (a) a amplitude de apoio dentro da sociedade, (b) os objetivos, (c) as estratégias e táticas e (d) a localização dos partidários na estrutura social. Há ainda dois componentes que regem a participação de partidários em movimentos sociais: a relação risco/recomepensa e a alocação de recursos.

Assim como os processos políticos da sociedade são caracterizados em termos de direitos, deveres e privilégios dos diferentes indivíduos e grupos entre si, assim também a organização define direitos e deveres dos membros e líderes em relação às decisões e comportamentos. Dentro destes limites estabelecidos é que ocorrem as políticas convencionais. As políticas anticonvencionais procuram precisamente afetar as decisões e alocações de recursos por maneiras "ilegais", ou pelo menos neutras, do ponto de vista da constituição organizacional. Os movimentos sociais são, portanto, formas de política anticonvencional.

As empresas corporativas, ou seja, as empresas que possuem um centro bem estabelecido que "possui" a empresa de maneira claramente hierarquizada são menos suscetíveis a movimentos políticos do que empresas federadas, ou seja, empresas que possuem centros decisórios difusos em diversas unidades de negócio relativamente autônomas. Nas empresas corporativas, as políticas anticonvencionais se dão em sua maior parte de maneira conspiratória e flagrante, enquanto nas empresas federadas elas se dão de maneira mais constante e permeada. Neste trabalho, dado que o interesse é mais concentrado em empresas corporativas, delinearemos três dos processos mais comuns de conspiração dentro delas.

Os movimentos sociais nas organizações são exatamente o local nos quais surgem as questões e debates políticos das mudanças sociais. As organizações não estão inseridas apenas em "ambientes", mas na sociedade como um todo. O argumento central aqui é que os conflitos nas organizações ocorrem fora dos canais normais. Trata-se, portanto, de uma "oposição anticonvencional". Assim como nos Estados-nações, nos quais os conflitos ocorrem fora dos canais institucionalizados, assim também ocorre nas organizações: a maior parte das oposições anticonvencionais podem ser analisadas com as mesmas ferramentas utilizadas pelas análises dos movimentos sociais.

Retomando-se o que foi dito acima, os três tipos de movimento social são o golpe organizacional, a insurgência burocrática e os movimentos de massa. Estes três tipos são análogos aos encontrados na literatura dos movimentos sociais. As condições internas de cada organização promovem ou inibem cada um dos três tipos, segundo as características vigentes. Ademais, estas formas de oposição ocorrem em diferentes instâncias na estrutura social, usam diferentes táticas e seus efeitos também são variados.

(a) Golpes organizacionais

Em LUTTWAK (1979), argumenta-se que os golpes não são perpetrados de fora, mas são uma tomada de poder perpetrada desde dentro do sistema. Ademais, os golpes costumam ser politicamente neutros, cujo objetivo é a mera tomada do poder. Qual política será implementada é uma questão a ser tratada depois do golpe. Por fim, LUTTWAK (1979) também ensina que os golpes nunca confrontam diretamente o adversário, mas atuam mais semelhantemente a técnicas de judô, fazendo uso do peso e do equilíbrio do adversário contra ele mesmo.

Por analogia, os golpes organizacionais são definidos como sendo infiltrações de grupos pequenos, mas críticos, desde dentro da estrutura organizacional, com o objetivo de sucederem o poder vigente. Infiltração implica em secretude, que é uma das características principais do golpe organizacional.

Há algumas condições que precisam estar vigentes para que seja possível a ocorrência de um golpe.

(1) Os subordinados devem ser muito dependentes de seus superiores. Em outras palavras, a estrutura organogramática tem de ser bem hierarquizada.

(2) Os CEOs da empresa devem tradicionalmente ser escolhidos de dentro. Um golpe pode até demover um CEO, mas sem a garantia de que um dos golpistas será eleito o novo CEO, a relação risco/recompensa torna-se alta demais.

(3) Os conspiradores têm de ter acesso ao conselho administrativo, ou seja, aos votos ou aos membros que detêm mais votos.

(4) Os CEOs incompetentes, indecisos e fracos são vítimas prováveis de tentativas de golpe.

O golpe pode resultar de duas formas: (a) o golpe deu errado, e o CEO isola ou demite os conspiradores; (b) o golpe deu certo, ou parcialmente certo, e mudanças se seguem a ele. Em geral, os golpes raramente afetam os membros dos níveis abaixo da elite.

(b) Insurgência burocrática

A insurgência burocrática não procura substituir o CEO, mas alterar algum aspecto específico da função organizacional, como as prioridades da empresa, especificações de produtos, denúncias etc. Em geral, os insurgentes são gerentes de nível médio e até mesmo profissionais qualificados. Se alguma mudança proposta for negada, estará dada a possibilidade de uma insurgência burocrática conspiracional. Como a insurgência pede apenas por reformas, as conseqüências pelo fato de ter sido descoberta não necessariamente levam à demissão, mas reduzem-se a medidas de repressão.

Um dos principais aspectos da organização que permite a insurgência é o controle deficiente do fluxo de informações e do status quo por parte das autoridades centrais. Assim, quanto maior a empresa, mais autônomas suas estruturas, mais imprecisos os relatórios e mais provável o surgimento de uma insurgência. Por outro lado, como as insurgências situam-se em um nível inferior da organização, é necessário que haja um suporte externo maior do que nos golpes. Por exemplo, os insurgentes podem procurar influenciar clientes e fornecedores e forçar a organização a se adaptar a demandas artificialmente criadas.

O resultado da insurgência depende diretamente da intensidade com que os insurgentes ameaçam a autoridade vigente e dos custos que as autoridades têm de despender para reprimir a insurgência.

(c) Movimentos de massa

Os movimentos de massa surgem quando as duas conspirações acima tomam proporções tais que comitês e mesmo convenções são formados. O objetivo é expressar ressentimentos, descontentamentos e/ou promover resistências a mudanças.

Enquanto os golpes e insurgências só se revelam claramente no fim de suas histórias, os movimentos de massa são mais evidentes. Por exemplo: operações-padrão, greves, motins, secessões, deserções em massa e protestos.

Em termos gerais, quanto maior a organização, mais ela estará exposta a movimentos de massa. Ademais, quanto mais homogêneo for o grupo de subordinados, tanto maior a probabilidade de desafiarem os superordinados. Por fim, quanto mais verticalizada a empresa, maior as chances dos canais de ressentimento e comunicação serem bloqueados. E, claro, os custos de demissão são diretamente proporcionais às chances de movimentos sociais se formarem, além da presença de membros sindicalizados intensificar a presença de tais movimentos.

As causas dos movimentos de massa variam desde a qualidade da comida no refeitório até as práticas e procedimentos de produção e ideologização dos membros do movimento.

Outra abordagem interessando do micropoder encontra-se em BOLMAN; DEAL (2008). Segundo os autores, em tempos de dificuldade, quando as condições são desfavoráveis para a empresa, as batalhas políticas podem se reconfigurar de maneiras imprevisíveis, transformando o ambiente que outrora era saudável em um atmosfera perigosamente confusa e indiscernível aos olhos da liderança.

No entanto, embora as manobras políticas possam prejudicar ou mesmo destruir as estratégias, também é verdade que estratégias possam surgir precisamente dos processos políticos. Quando as estratégias surgem desta forma, tendem a ser mais emergentes do que deliberadas, ou seja, tendem a ser menos intencionadas, a ponto de se tornarem praticamente invisíveis. Alguns atores podem agir de maneira deliberada, mas ninguém, ou praticamente ninguém, enxerga a estratégia geral que tais manobras possam estar seguindo ou produzindo. Daí serem “emergentes”, no sentido de serem efeitos de muitas e difusas causas.

Assim, embora a política possa ter efeitos evidentemente disfuncionais, divisivos e custosos, também é verdade que a política pode e deve desempenhar um papel funcional nas organizações. Há três fontes ou situações convencionais nas quais o poder é oficialmente reconhecido: a autoridade formal, a cultura consagrada e a qualificação (expertise) técnica. Porém, há uma quarta fonte, a política propriamente dita, na qual os meios não são legítimos, ou “anticonvencionais” (ZALD, BERGER, 1978), ou pelo menos não formalmente reconhecidos, mas cujos fins são perfeitamente legítimos e desejados:

(a) A política pode exercer um papel semelhante à seleção natural, isto é, permitir que os membros mais fortes de uma organização sejam trazidos para as posições de liderança que naturalmente lhes cabem.

(b) A política pode garantir que todos os lados de uma questão sejam obrigatoriamente debatidos, enquanto as demais fontes de poder podem não promover um debate assim tão profícuo.

(c) A política pode despertar mudanças necessárias que outrora permaneceriam bloqueadas pelas demais fontes convencionais de poder.

(d) A política pode facilitar a execução destas mudanças necessárias.

Interdependência, divergência de interesses, escassez e relações de poder inevitavelmente geram atividades políticas. Românticos são aqueles que desejam que a política seja eliminada das organizações. Eliminar a política significa eliminar as pessoas, eis algo que os românticos jamais admitiriam.

(1) As empresas são coalizões de indivíduos e grupos de interesse.

(2) Há diferenças permanentes de valores, crenças, informações, interesses e percepções da realidade entre os membros das coalizões.

(3) As decisões mais importantes implicam na alocação de recursos escassos.

(4) Os recursos escassos e as diferenças permanentes conferem ao conflito um papel central na dinâmica organizacional e faz do poder o recurso mais importante.

(5) Os objetivos e decisões surgem da barganha, da negociação e da manipulação entre os diversos stakeholders.

As diferenças permanentes implicam que a atividade política é mais visível e dominante sob condições de diversidade, e não de homogeneidade. O conceito de escassez sugere que a política será mais saliente e intensa em tempos difíceis. As diferenças e os recursos escassos fazem do poder um recurso essencial. O poder nas organizações define-se como sendo a capacidade de fazer as coisas acontecerem. PFEFFER (1992, p. 30) define o poder como sendo “a capacidade potencial de influenciar comportamentos, mudar o curso das ações, superar as resistências e fazer com que as pessoas façam aquilo que de outra forma não fariam”.

A proposição final da política empresarial deixa claro que os objetivos não são formulados por decreto, mas mediante um processo contínuo de negociações e barganhas. Pouquíssimas organizações possuem um vértice unitário. Quem, por exemplo, é o líder de uma empresa? O CEO? Mas o CEO responde ao conselho. O conselho é eleito e responde aos acionistas. E os acionistas são um grupo amplo de pessoas que se encontram espalhadas e ausentes, ocupadas demais para influenciar a organização da qual cada uma detém um pedaço.

Nas empresas, todos são membros de uma grande coalizão. Todos fazem exigências por recursos e todos barganham a fim de obtê-los.

A autoridade é apenas uma das muitas formas de poder. A força da política reside na maneira como os concorrentes articulam preferências a fim de mobilizar poder para obter o que querem. Neste sentido, o poder não é algo maligno.

Os dois grandes antagonistas dos jogos políticos são as “autoridades” e os “partidários”. Toda e qualquer pessoa da coalizão que deseja exercer pressão de baixo para cima é um partidário em potencial. Enquanto as autoridades são receptoras de influência e agentes de controle político, os partidários são receptores de controle político e agentes de influência. As autoridades só são capazes de exercer controle sobre os partidários na medida em que estes respeitem ou temam a autoridade de maneira que seu poder mantenha-se intacto.

As fontes de poder, conforme dissemos acima, transcendem as fontes clássicas. Elas incluem a posição de poder (autoridade), o controle de recompensas, o poder coercitivo, conhecimento técnico, reputação, poder pessoal (“carisma”), redes de alianças, controle de projetos, controle de significados e símbolos etc.

Os gerentes que confiam somente na posição de poder, ou seja, na autoridade clássica, estarão fadados a ser flanqueados, superados e esquecidos por aqueles mais capacitados ao exercício do poder e da política. Raramente a posição de poder é suficiente para o bom desempenho de um gerente. O poder de um presidente, por exemplo, reside nas zonas de indiferença, ou seja, na sensibilidade de captar qual o terreno no qual é capaz de se mover e tomar decisões e ações sem sofrer grande oposição.

ALDERFER (1972) classifica as empresas como sendo hipercoesas ou hipocoesas, ou seja, empresas cujo poder é concentrado ou empresas cujo poder é difuso. Nas empresas hipercoesas, as atividades políticas costumam ocorrer em segredo.

Do ponto de vista político, os conflitos não são necessariamente ruins ou condenáveis. Os conflitos podem ser altamente benéficos: “uma organização tranqüila e harmoniosa pode muito bem ser um lugar apático, estagnado, inflexível e indiferente. Os conflitos desafiam o status quo e estimulam o interesse e a curiosidade. Os conflitos são a raiz da mudança pessoal e social, da criatividade e da inovação. Os conflitos encorajam novas idéias e abordagens para velhos problemas, estimulando, assim, a inovação” (HEFFRON, 1989, p. 185).

Muitos acreditam que a gestão empresarial e a política são contrárias. Trata-se de uma idéia absurda: a política é uma das dimensões da vida social e, portanto, não pode ser simplesmente “desligada”.

Neste contexto, muitos gerentes acabam atuando em um dos extremos: ou são ingênuos, ou são cínicos. Os ingênuos vêem as pessoas como boas, cordiais e confiáveis. Os cínicos, ao contrario, enxergam egoísmo em tudo e em todos. No entanto, as organizações precisam mais do que nunca de “políticos benevolentes”, de gerentes que se situem entre a ingenuidade e o cinismo. No mundo da escassez crônica, os gerentes inteligentes andam na corda bamba: desenvolvem uma base de apoio e costuram relações com aliados e oponentes.

Portanto, os gerentes devem exercer quatro habilidades:

(a) Estabelecer um projeto (“agenda”). Politicamente, o projeto (em inglês, agenda) é composto de uma declaração de interesses e um cenário para a obtenção de bens. Dois elementos são fundamentais: uma visão que harmonize os interesses de longo prazo dos membros e uma estratégia para chegar à visão ao mesmo tempo em que leve em consideração os concorrentes internos e externos.

(b) Mapear o terreno político. Quatro passos são fundamentais: determinar os canais de comunicação informal, identificar os principais agentes de influência política, analisar as possibilidades de mobilizar membros interna e externamente, antecipar possíveis contraestratégias.

(c) Formar coalizões e networking. Os gerentes não devem confiar demais na razão e confiar de menos nos relacionamentos. Há quatro etapas fundamentais para o exercício da influência política: identificar os relacionamentos relevantes, avaliar quem pode resistir e por quê, desenvolver laços com oponentes em potencial a fim de facilitar a comunicação e a negociação, e caso o passo anterior fracasse, selecionar e implantar métodos sutis e contundentes.

(d) Barganhar e negociar. O objetivo nas negociações é “criar valor”, e não “exigir valor”. Os criadores de valor têm de ser inventivos e cooperativos, enquanto aqueles que exigem valor fazem tudo o que podem para extrair do oponente o que precisam. Há quatro estratégias básicas para negociar como um criador de valor: separar as pessoas dos problemas, concentrar-se nos interesses (não nas posições), inventar opções de ganho mútuo ao invés de confiar na primeira alternativa que vier à mente, e insistir em critérios objetivos (padrões de justiça aplicáveis às substâncias e aos processos).

O bom gerente-político deve apegar-se a quatro princípios éticos básicos:

(a) Reciprocidade. Todos os lados devem conhecer as regras do jogo.

(b) Generalidade. Os princípios básicos da moralidade também devem se aplicar ao caso em questão.

(c) Abertura. As decisões devem poder ser públicas e confrontáveis.

(d) Assistência. A ação política também deve se ocupar dos interesses e sentimentos legítimos dos oponentes.

Infelizmente, a maioria dos grandes gerentes e diretores raramente versa sobre questões morais. “O isolamento das pessoas – o tabu de falar sobre questões espirituais em público – lhes tolhe a coragem e o ímpeto para fazerem aquilo que, no fundo, acham que é certo”. (PORTER, 1998b, p. 144).

Macropoder

No âmbito do macropoder, que é o tipo de influência política exercida pela organização em relação ao mercado como um todo, o grande desafio é gerenciar as trocas e as relações com os diversos interesses afetados pelas suas ações. Neste sentido, as organizações podem seguir três estratégias básicas:

(a) Lidar com as demandas na medida em que surgem.

(b) Reter e revelar informações de maneira conveniente.

(c) Jogar um grupo contra o outro.

Em outras palavras, as organizações podem tentar reduzir sua dependência de relacionamentos externos, ou podem tentar se acomodar a esses relacionamentos externos. As estratégias que tentam reduzir tal dependência são amplamente conhecidas: fusões, lobby junto ao governo, aquisições, cartéis etc. De qualquer forma, o objetivo do macropoder é precisamente fechar-se às influências externas, garantindo uma sobrevivência duradoura e tranqüila. Observa-se que a estratégia política em sua dimensão macro é menos uma “posição” e mais uma “trama”. Enquanto na estratégia posicional (PORTER, 1998a) as atividades centrais são a análise sistemática, a avaliação de dados quantitativos e a elaboração cuidadosa de estratégias, a estratégia de macropoder depende de impressões, ações rápidas e intuições acerca do que os adversários possam fazer. Em suma, o macropoder tende a neutralizar a competição mediante a colaboração: é o que BRADENBURGER; NALEBUFF (1997) chamam de “coopetição”.

Conforme dissemos no início, uma das definições de política empresarial diz que todas as influências que não se concentram no âmbito econômico são políticas. Assim, uma empresa que procura formar um cartel ou que suborna funcionários públicos está tomando uma ação política. Embora tenhamos situado este tipo de influência sob o âmbito do macropoder, fato é que este tipo de comportamento, uma vez que se torna predominante em uma organização, projeta em sua estrutura conseqüências que também afetam o micropoder.

MISES (1944, p. 14) realizou um estudo muito interessante deste tipo de conseqüência.
A direção geral de uma empresa é exercida pelos acionistas [stockholders] e seus mandatários eleitos, os diretores. Os diretores indicam e demitem os gerentes. Nas empresas menores, e às vezes até mesmo nas grandes, as funções de diretor e gerente estão reunidas na mesma pessoa. Em última instância, uma empresa bem-sucedida nunca é controlada por gerentes assalariados. A emergência de uma classe gerencial onipotente não é um fenômeno do livre funcionamento do mercado. Muito pelo contrário, decorre de políticas intervencionistas que visam conscientemente a eliminação da influência dos acionistas e virtualmente a expropriação deles.
Em seguida, no contexto da intervenção estatal da economia, MISES (1944, p. 36) faz uma distinção entre “gestão burocrática” e “gestão lucrativa”. Vejamos o que ele diz para, em seguida, sintetizarmos as conseqüências da macropolitização das empresas na esfera do micropoder empresarial.
A gestão burocrática, diferentemente da gestão lucrativa, é o método usado na condução dos assuntos administrativos, cujos efeitos não têm valor em dinheiro no mercado. O bom desempenho no cumprimento dos deveres confiados a um departamento de polícia é da maior importância para a preservação da cooperação social e beneficia todos os membros da sociedade. Mas não tem preço no mercado; não pode ser vendida nem comparada. Assim sendo, não se pode confrontar o resultado obtido com as despesas incorridas. É benéfica, resulta em ganhos, mas esses ganhos não podem ser expressos em termos monetários, como é o caso dos lucros. Os métodos de cálculo econômico e, especialmente, a contabilidade de partidas dobradas não lhe são aplicáveis. O sucesso ou o fracasso das atividades de um departamento de polícia não pode ser apurado pelos procedimentos aritméticos utilizados pelas atividades com fins lucrativos. Nenhum contador pode informar se um departamento de polícia ou uma de suas subdivisões é rentável ou não.
Nos negócios com objetivo de lucro, a liberdade de ação dos gerentes e subgerentes é limitada por considerações de lucro e prejuízo. A motivação pelo lucro é a diretriz necessária e suficiente para submetê-los aos desejos dos consumidores. Não há necessidade de limitar sua liberdade de ação por instruções detalhadas e minuciosas. Se forem eficientes, essa ingerência seria no mínimo supérflua, senão perniciosa por lhes atar as mãos. Se forem ineficientes, ela não contribuiria para melhorar o seu desempenho. Tal ingerência somente lhes proporcionaria a desculpa pouco convincente de que seu fracasso foi causado por regulamentos inadequados. A única instrução necessária é evidente em si mesma e nem precisa ser explicitada: lucre.
Na administração pública, na condução dos negócios do governo, as coisas são diferentes. Neste campo, a liberdade de ação dos governantes e de seus auxiliares não é limitada por considerações de lucro e prejuízo. Se seu chefe supremo – seja ele o povo soberano ou um déspota soberano – deixar-lhes as mãos livres, estará renunciando à sua própria soberania. Esses governantes se converteriam em agentes que não precisariam prestar contas a ninguém e seu poder suplantaria o do povo ou o do déspota. Fariam o que quisessem e não o que seu chefe esperava que fizessem. Para evitar esse resultado e para submetê-los à vontade do chefe, é necessário dar-lhes instruções detalhadas de como devem proceder em cada caso. Ficam assim obrigados a cuidar de suas tarefas, obedecendo estritamente a essas regras e regulamentos. Sua liberdade para ajustar seus atos ao que lhes parece a solução mais apropriada de um problema concreto é limitada por essas normas. São burocratas, isto é, pessoas que em qualquer circunstância devem observar um conjunto de regras inflexíveis.
A gestão burocrática é uma conduta fadada a cumprir regras e regulamentos detalhados, fixados por uma autoridade superior. É a única alternativa à gestão lucrativa.
Pode-se concluir, a partir das considerações acima, que a politização da empresa, do ponto de vista do macropoder, leva necessariamente à burocratização interna dessa mesma empresa. Isso significa que quanto mais coopetitiva (e portanto menos competitiva) a empresa, menos sujeita estará às variações e flutuações de mercado. Conseqüentemente, os diretores e gerentes da empresa passarão a ser menos cobrados pelo desempenho financeiro de seus departamentos. Em outras palavras, num ambiente de pouca concorrência, o faturamento da empresa será menos suscetível às incertezas ligadas a questões como oferta, demanda e redução de custos. O faturamento de uma empresa altamente coopetitiva depende mais de suas relações e alianças com os agentes que possam garantir seu conforto mercadológico – políticos, cartéis, monopólios, oligopólios, conchavos, sociedades secretas, leis etc. – do que de seu desempenho baseado na satisfação de consumidores.

Dessa forma, os gerentes passam a exercer uma gestão muito mais burocratizada do que lucrativa, já que o controle sobre eles mesmos se dará de maneira mais relatorial, informativa e detalhista. Mas por quê? A resposta já foi dada acima: se a empresa como um todo não se lastreia em questões de lucro e prejuízo, uma vez que o lucro estaria bem garantido, tampouco as ações de diretores e gerentes se dará por estes critérios. Assim, o relaxamento natural das ações de presidente, diretores e gerentes deve ser contrabalançado por medidas que garantam que atuem dentro de limites bem estabelecidos, para que sua liberdade não resulte em desperdícios. Em outras palavras, as diretrizes top-down pensadas dentro do binômio lucro/prejuízo dão lugar a diretrizes top-down pensadas dentro do binômio regras/controles. Curiosamente, observa-se uma inversão aqui: a busca pelo lucro por parte do CEO já é o “controle” dentro da qual o restante da empresa trabalhará, tornando desnecessários muitos outros controles e relatórios; por outro lado, a ausência deste “controle” nas empresas politizadas exige medidas burocráticas rígidas que a substituam.

Em suma, a ausência do cálculo econômico implica na intensificação da burocratização.

Conclusão

As relações de poder em uma empresa transcendem as relações convencionais. Não é apenas na relação chefe-subordinado ou no acúmulo de conhecimento técnico que reside o poder. As alianças, o poder de barganha, o networking, as relações privilegiadas com fornecedores e clientes, as coalizões formadas por elementos homogêneos ou que tenham o mesmo objetivo, os contatos exclusivos com órgãos governamentais, o acesso a informações confidenciais, o carisma pessoal, a presença física privilegiada, a retenção ou distorção de informações – tudo isso são elementos que, combinados das mais diversas formas, desempenham um papel tão ou mais importante que a autoridade formal de cargos em um organograma.

Assim, a saúde de uma empresa dependerá da capacidade e da disposição de seus líderes, sobretudo daquele que ocupará a cadeira de CEO, em reconhecer todos os elementos que afetam seu quadro decisório. Viu-se, por exemplo, como é importante que ele saiba mapear o terreno político, formar um networking eficaz e dominar técnicas de negociação.

Também se verificou que quanto maior a dependência da empresa de favores governamentais, ou seja, quanto mais oligopolizado e mesmo monopolizado o mercado, tanto mais burocratizada será a estrutura organizacional, uma vez que o cálculo econômico deixa pouco a pouco de existir. Então se a empresa conseguir monopolizar ou pelo menos dificultar legalmente, através de normas e portarias, que competidores concorram pelo mesmo mercado, inicia-se a partir daí um processo inevitável de burocratização.

Referências

ALDERFER, Clayton. Existence, Relatedness, and Growth: Human Needs in Organizational Settings, 1ª edição. Nova York: The Free Press, 1972.

BOLMAN, Lee; DEAL, Terrence. Reframing Organizations: Artistry, Choice, and Leadership. 4ª edição. San Francisco, John Wiley & Sons. 2008.

BRADENBURGER, Adam; NALEBUFF, Barry. Co-Opetition. 1ª edição. Nova York, Doubleday. 1996.

HEFFRON, Florence. Organization Theory and Public Organizations: The Political Connection. 1ª edição. Upper Saddle River, Prentice Hall. 1989.

MINTZBERG, Henry; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Strategy Safari: A Guide Throughout the Wilds of Strategic Management. 1ª edição. Nova York: The Free Press, 1998.

KEIRSEY, David. Portraits of Temperament. 3ª edição. Del Mar, Prometheus Nemesis Book Company, 1995.

LUTTWAK, Edward. Coup d'État: A Practical Handbook. 1ª edição. Cambridge, Harvard University Press, 1979.

MISES, Ludwig von. Bureaucracy. 1ª edição. New Haven, Yale University Press. 1944.

PFEFFER, Jeffery. Managing with Power: Politics and Influence in Organizations. 1ª edição. Boston, Harvard Business Press. 1992.

PORTER, Michael. Competitive Strategy: Techniques for Analyzing Industries and Competitors. 1ª edição. Nova York. The Free Press, 1998a.

PORTER, Michael. Competitive Advantage: Creating and Sustaining Superior Performance. 1ª edição. Nova York, The Free Press, 1998b.

ZALD, Mayer; BERGER, Michael. Social Movements in Organizations: Coup d´Etat, Insurgency, and Mass Movements. The American Journal of Sociology. Chicago, v. 83, nº 4, Jan. 1978.

17 de junho de 2010

O que é gestão empresarial?


Nota introdutória: Ludwig von Mises explica que a gestão empresarial não deve ser confundida com a função empresarial. Em outras palavras, as atividades típicas da gestão empresarial, sejam elas administrativas, comerciais, tecnológicas ou financeiras, não são do mesmo tipo que a atividade empresarial. Essa confusão engendrou-se a partir da crescente regulamentação do mercado, pois ela torna praticamente inútil a perspicácia e a vivacidade típicas da mentalidade empresarial. Isso acontence porque a regulamentação, desfavorecendo a concorrência, desfavorece também a busca pela satisfação do consumidor, o que transforma as gestões lucrativas em gestões burocráticas. A diferença entre o empresário e seus diretores é de tipo, e não de grau.

* * *

Os empresários não são onipresentes, ou seja, eles não podem executar por conta própria as múltiplas tarefas que lhes são incumbidas.

O cálculo econômico, tal como é praticado na economia de mercado, e especialmente o sistema contábil de partidas dobradas, liberta o empresário de ter de se envolver com uma quantidade enorme de pequenos detalhes, permitindo-lhe dar maior atenção às grandes tarefas sem precisar enredar-se numa miríade de pequenas questões cujo entendimento supera a capacidade de qualquer mortal.

Pode, assim, designar assistentes a quem encarrega de zelar por tarefas empresariais de menor importância. E esses assistentes, por sua vez, seguindo o mesmo princípio, podem ser ajudados por outros colaboradores, que zelarão por tarefas de importância ainda menor. Desta forma, estrutura-se toda uma hierarquia gerencial.

Um gerente é, por assim dizer, um sócio menor do empresário, a despeito dos termos legais e financeiros de seu contrato. O único aspecto relevante reside no fato de o gerente ser obrigado, pelo seu próprio interesse financeiro, a empregar o melhor de seus esforços na realização das funções empresariais que lhe são atribuídas num campo de ação limitado e definido com precisão.

É o sistema contábil de partidas dobradas que torna possível o funcionamento do sistema gerencial. Graças a esse sistema contábil, o empresário tem condições de separar o cálculo de cada setor da empresa de maneira a poder determinar sua participação na empresa como um todo.

Nesse sistema de contabilidade comercial, cada departamento de uma empresa representa uma entidade completa, como se fosse uma unidade de negócio independente. Supõe-se que cada departamento “possua” uma determinada parte do capital da empresa, que compre e venda a outros departamentos, que tenha suas próprias receitas e despesas, que seus procedimentos resultem em lucro ou prejuízo imputável à sua própria direção independentemente do resultado das outras seções. Desta forma, o empresário pode atribuir à gerência de cada departamento uma grande margem de autonomia. A única recomendação que faz a alguém encarregado de dirigir um serviço específico é a de que, em sua gestão, realize o maior lucro possível.

Um exame contábil mostrará em que medida os gerentes foram bem sucedidos na realização desse objetivo. Todo gerente e subgerente é responsável pelo bom funcionamento de seu departamento ou seção. Se a contabilidade mostra um lucro, este fato será considerado a seu favor; e se apresenta um prejuízo, será em seu detrimento. Seu próprio interesse o impele a dedicar a maior atenção e empenho à condução do departamento sob sua responsabilidade. Se incorrer em perdas, será substituído por outra pessoa de quem o empresário espera uma melhor performance; ou então o departamento será desativado. De qualquer forma, o gerente perderá seu emprego. Se conseguir realizar lucros, sua renda aumentará ou, pelo menos, não corre o risco de perdê-la. Se o gerente tem ou não direito a uma parte do lucro atribuído ao seu departamento, é questão de menor importância no que concerne ao seu interesse pessoal nos resultados da operação do departamento que dirige. Seu bem-estar está intimamente ligado ao bom funcionamento de seu departamento. Sua tarefa não é, como a do técnico, a de realizar um determinado trabalho de acordo com as instruções recebidas. É ajustar – nos limites deixados ao seu discernimento – o funcionamento de seu departamento à realidade do mercado.

Naturalmente, da mesma forma que um empresário pode combinar na sua própria pessoa funções de empresário e de técnico, a união de várias funções também pode ocorrer no caso de um gerente. A gestão empresarial é sempre subordinada à função empresarial. Pode aliviar o empresário de algumas de suas responsabilidades menores; nunca poderá evoluir a ponto de substituir a função empresarial. Afirmar o contrário é confundir a categoria de atividade empresarial, tal como definida na construção imaginária da distribuição funcional, com aquilo que se passa no mundo real de uma economia de mercado. A função do empresário não pode ser dissociada da decisão sobre qual utilização deve ser dada aos fatores de produção para execução de tarefas específicas. O empresário controla os fatores de produção; é esse controle que lhe proporciona lucro ou prejuízo empresarial. É possível remunerar o gerente pagando por seus serviços proporcionalmente à contribuição de seu departamento ao lucro do empresário. Mas isso não é importante. Como já foi salientado antes, o gerente está sempre interessado no sucesso do departamento sob sua responsabilidade. Mas o gerente não pode ser responsabilizado patrimonialmente pelas perdas incorridas. Essas perdas são suportadas pelos proprietários do capital empregado. Elas não podem ser transferidas para o gerente.

A sociedade pode, tranquilamente, deixar aos proprietários de bens de capital a tarefa de escolher o melhor emprego possível para esses bens. Ao se engajarem em projetos específicos, estes proprietários colocam em risco seus bens, sua riqueza e sua posição social. Estão mais interessados no sucesso de sua atividade empresarial do que a sociedade como um todo. Para a sociedade como um todo, o desperdício de capital investido num determinado projeto significa apenas a perda de uma pequena parte de seus recursos totais; para o proprietário, significa muito mais, podendo chegar a representar a perda total de sua fortuna. Quando se dá carta branca ao gerente, as coisas se passam de maneira diferente; ao especular, ele estará arriscando o dinheiro de outras pessoas. Ele não avalia as possibilidades de um projeto arriscado do mesmo ângulo de quem é responsável pelos prejuízos. O gerente se torna imprudente precisamente quando é remunerado por uma parte dos lucros sem participar igualmente dos prejuízos.

A ilusão de que a gestão empresarial possa abranger a totalidade da atividade empresarial e de que o gerente possa ser um perfeito substituto do empresário é resultado de uma interpretação equivocada do que sejam as sociedades anônimas, entidades mercantis típicas dos negócios de nossos dias. Assevera-se que estas sociedades são dirigidas por gerentes assalariados, enquanto os acionistas são meros espectadores passivos Todos os poderes se acham concentrados nas mãos de empregados contratados. Os acionistas são ociosos e inúteis; colhem o que os gerentes semearam.

Essa doutrina desconsidera inteiramente o papel que o mercado de capitais e de divisas, a bolsa de valores e de ações – aquilo que numa linguagem pertinente denomina-se simplesmente de “mercado” – desempenha na direção das empresas. As operações neste mercado, em virtude de preconceitos populares anticapitalistas, são rotuladas de jogo de azar, de mera loteria. De fato, as mudanças nos preços das ações ordinárias e preferenciais e dos demais valores mobiliários são o meio utilizado pelos capitalistas para controlar o fluxo de capital. A estrutura de preços resultante das especulações nos mercados de capital e de divisas e nas grandes bolsas de mercadorias não apenas determina o volume de capital disponível para a condução dos negócios de cada companhia; cria, além disso, um estado de coisas ao qual os gerentes têm que se ajustar cuidadosamente.

A direção geral de uma companhia é exercida pelos acionistas [stockholders] e seus mandatários eleitos, os diretores. Os diretores indicam e demitem os gerentes. Nas companhias menores, e às vezes até mesmo nas grandes, as funções de diretor e gerente estão reunidas na mesma pessoa. Em última instância, uma companhia bem-sucedida nunca é controlada por gerentes assalariados. A emergência de uma classe gerencial onipotente não é um fenômeno do livre funcionamento do mercado. Muito pelo contrário, decorre de políticas intervencionistas que visam conscientemente a eliminação da influência dos acionistas e virtualmente a expropriação deles. [Mises critica a tendência contemporânea de confundir gestão empresarial com função empresarial. Isso ocorre porque, quando o mercado se torna muito regulamentado, a função empresarial perde sentido e os gerentes e diretores acabam se tornando “onipotentes” – N. do T.].

Na Alemanha, Itália e Áustria, foi o passo preliminar para a substituição da livre empresa pelo dirigismo estatal; o mesmo ocorreu na Inglaterra, no que se refere ao Banco da Inglaterra e às ferrovias. Tendências semelhantes predominam nos Estados Unidos em relação aos serviços públicos. As magníficas realizações das empresas comerciais e industriais não resultaram da atividade de uma oligarquia de gerentes assalariados; foram engendradas por pessoas que estavam ligadas à companhia pela propriedade de uma parte considerável, ou da maior parte, das ações, pessoas essas que uma parcela do público considera como aproveitadores e tubarões.

É o empresário que decide, independentemente de qualquer interferência gerencial, em que ramo de atividade deve aplicar capital e qual a quantidade de capital a empregar. É ele que determina a expansão e a contração do tamanho do seu negócio e das suas principais seções. É ele que determina a estrutura financeira da empresa. Essas são as decisões essenciais e basilares na implantação e condução de um negócio. Tanto nas sociedades anônimas como em qualquer outra forma legal de empresa essas decisões recaem exclusivamente sobre o empresário. Qualquer assessoramento dado ao empresário neste particular é apenas de caráter subsidiário; os especialistas em direito, estatísticas e tecnologia fornecem informações de como transcorreram as coisas no passado, mas a decisão final que implica sempre um julgamento quanto ao futuro estado do mercado cabe exclusivamente ao empresário. A execução dos detalhes dos seus projetos pode ser confiada aos gerentes.

As funções sociais da elite gerencial não são menos indispensáveis ao funcionamento da economia de mercado do que as funções da elite de inventores, técnicos, engenheiros, projetistas, cientistas e pesquisadores. Na classe dos gerentes, muitos homens eminentes servem à causa do progresso econômico. Gerentes competentes recebem altos salários e, freqüentemente, uma participação nos lucros totais da empresa. Muitos deles, no decurso de suas carreiras, acabam sendo, eles mesmos, capitalistas e empresários. Não obstante, a gestão empresarial é diferente da função empresarial.

Constitui um erro grave confundir o papel do empresário com o do gerente, como se faz na antítese popular “patrão/empregado”. Essa confusão é, evidentemente, intencional. Destina-se a obscurecer o fato de que a função empresarial é completamente diferente da gestão empresarial, responsável apenas por questões secundárias na condução da empresa. Considerando-se a estrutura dos negócios, a alocação de capital aos vários setores de produção e às várias empresas, o tamanho e a linha de produção de cada fábrica e de cada estabelecimento comercial como fatos dados, e ficando implícito que nenhuma mudança ocorrerá no futuro em relação aos mesmos, tudo o que se tem a fazer é cumprir as velhas rotinas. Nesse mundo hipoteticamente estacionário não há, evidentemente, necessidade de inovadores e empreendedores; o total de lucro é contrabalanceado pelo total de prejuízo. Para evidenciar a falácia dessa doutrina, basta comparar a estrutura da economia americana em 1945 com a de 1915.

Mas, mesmo num mundo estacionário, não teria sentido dar ao “trabalho”, como pretende um slogan popular, uma participação na gestão empresarial. A adoção dessa idéia resultaria no sindicalismo.

Existe também uma propensão para confundir gerente com burocrata.

A gestão burocrática, diferentemente da gestão lucrativa, é o método usado na condução dos assuntos administrativos, cujos efeitos não têm valor em dinheiro no mercado. O bom desempenho no cumprimento dos deveres confiados a um departamento de polícia é da maior importância para a preservação da cooperação social e beneficia todos os membros da sociedade. Mas não tem preço no mercado; não pode ser vendida nem comparada. Assim sendo, não se pode confrontar o resultado obtido com as despesas incorridas. É benéfica, resulta em ganhos, mas esses ganhos não podem ser expressos em termos monetários, como é o caso dos lucros. Os métodos de cálculo econômico e, especialmente, a contabilidade de partidas dobradas não lhe são aplicáveis. O sucesso ou o fracasso das atividades de um departamento de polícia não pode ser apurado pelos procedimentos aritméticos utilizados pelas atividades com fins lucrativos. Nenhum contador pode informar se um departamento de polícia ou uma de suas subdivisões é rentável ou não.

A quantia a ser investida em cada setor de atividade econômica que tem no lucro a sua motivação é determinada pelo comportamento dos consumidores. Se a indústria automobilística triplicasse o seu capital investido, certamente prestaria melhores serviços ao público. Haveria maior disponibilidade de carros. Mas essa expansão da indústria automobilística impediria que esse capital fosse investido em outros setores de produção nos quais atenderia a necessidades mais urgentes dos consumidores. Este fato tornaria improfícua a expansão da indústria automobilística e aumentaria os lucros em outros setores de produção. No seu afã para obter o maior lucro possível, os empresários são obrigados a alocar a cada setor de atividade somente aquela quantidade de capital que pode ser empregada sem comprometer a satisfação dos desejos mais urgentes dos consumidores. Desta forma, as atividades empresariais são, por assim dizer, automaticamente dirigidas pelos desejos dos consumidores conforme refletidos na estrutura de preços dos bens de consumo.

A alocação de fundos para a realização das tarefas incumbidas ao governo não sofre esse tipo de limitação. Não resta a menor dúvida de que os serviços prestados pelo departamento de polícia da cidade de Nova York poderiam ser consideravelmente melhorados se sua dotação orçamentária fosse triplicada. Mas a questão está em saber se esse melhoramento seria suficiente para justificar a diminuição dos serviços prestados por outro departamento – por exemplo, os do departamento de saneamento básico – ou a restrição do consumo dos contribuintes. Esta questão não pode ser respondida pela contabilidade do departamento de polícia. Este só tem condições de informar sobre as despesas incorridas; não tem como fornecer nenhuma informação acerca dos resultados obtidos, uma vez que esses resultados não podem ser expressos em termos monetários. Os cidadãos devem determinar diretamente o volume de serviços que desejam receber e pelos quais estão dispostos a pagar. Desincumbem-se dessa tarefa ao elegerem vereadores e governantes que estejam dispostos a agir de acordo com os desejos dos eleitores.

Assim, o prefeito e os vários secretários são limitados pelo orçamento do município. Não podem agir discricionariamente, fazendo o que consideram a melhor solução para os vários problemas que os cidadãos têm de enfrentar. São obrigados a gastar os recursos segundo as alocações feitas no orçamento. Não podem usá-los para outros fins. A auditoria no campo da administração pública é inteiramente diferente daquela que é feita nas empresas que visam ao lucro. Seu objetivo é verificar se os fundos alocados foram gastos em estrita conformidade com as provisões do orçamento.

Nos negócios com objetivo de lucro, a liberdade de ação dos gerentes e subgerentes é limitada por considerações de lucro e prejuízo. A motivação pelo lucro é a diretriz necessária e suficiente para submetê-los aos desejos dos consumidores. Não há necessidade de limitar sua liberdade de ação por instruções detalhadas e minuciosas. Se forem eficientes, essa ingerência seria no mínimo supérflua, senão perniciosa por lhes atar as mãos. Se forem ineficientes, ela não contribuiria para melhorar o seu desempenho. Tal ingerência somente lhes proporcionaria a desculpa pouco convincente de que seu fracasso foi causado por regulamentos inadequados. A única instrução necessária é evidente em si mesma e nem precisa ser explicitada: lucre.

Na administração pública, na condução dos negócios do governo, as coisas são diferentes. Neste campo, a liberdade de ação dos governantes e de seus auxiliares não é limitada por considerações de lucro e prejuízo. Se seu chefe supremo – seja ele o povo soberano ou um déspota soberano – deixar-lhes as mãos livres, estará renunciando à sua própria soberania. Esses governantes se converteriam em agentes que não precisariam prestar contas a ninguém e seu poder suplantaria o do povo ou o do déspota. Fariam o que quisessem e não o que seu chefe esperava que fizessem. Para evitar esse resultado e para submetê-los à vontade do chefe, é necessário dar-lhes instruções detalhadas de como devem proceder em cada caso. Ficam assim obrigados a cuidar de suas tarefas, obedecendo estritamente a essas regras e regulamentos. Sua liberdade para ajustar seus atos ao que lhes parece a solução mais apropriada de um problema concreto é limitada por essas normas. São burocratas, isto é, pessoas que em qualquer circunstância devem observar um conjunto de regras inflexíveis.

A gestão burocrática é uma conduta fadada a cumprir regras e regulamentos detalhados, fixados por uma autoridade superior. É a única alternativa à gestão lucrativa. A gestão lucrativa é inaplicável quando lidamos com objetivos que não têm valor de mercado expresso em termos de moeda ou quando queremos conduzir sem objetivo de lucro uma atividade que poderia ser conduzida com base nessa motivação. O primeiro caso é o da administração do aparato social de coerção e compulsão; o segundo caso é o da direção de uma instituição sem fins lucrativos, como por exemplo, uma escola, um hospital ou uma empresa de correios. Sempre que a gestão de um sistema não seja orientada pela motivação do lucro, terá que ser dirigida por regras burocráticas.

A gestão burocrática não é, em si mesma, um mal. É o único método apropriado para administrar o poder público, isto é, o aparato social de compulsão e coerção. Como o governo é necessário, a burocracia – na esfera do governo – também é necessária. Onde o cálculo econômico não é aplicável, os métodos burocráticos são a única alternativa. Por isso, um governo socialista deve aplicá-los a todos os seus campos de ação.

Nenhum negócio, qualquer que seja seu tamanho ou seu propósito, jamais se tornará burocrático enquanto for gerido, pura e exclusivamente, com base na motivação do lucro. Mas quando abandona a motivação do lucro, trocando-a pela idéia de prestação de serviço – isto é, o princípio segundo o qual os serviços devem ser prestados sem que se considere que os preços cobrados sejam suficientes para cobrir os custos –, deve também substituir a gestão empresarial pelos métodos burocráticos.

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A educação é a transmissão de doutrinas e valores tradicionais; ela é, por natureza, uma atividade conservadora, pois produz imitação e rotina, e não melhoria e progresso. Os grandes inovadores e os gênios criativos jamais são forjados em escolas. Eles são precisamente as pessoas que desafiam o que as escolas lhes ensinam. Para ser bem-sucedido nos negócios, ninguém precisa de diplomas de administração de empresas. Essas escolas treinam os subordinados para que executem as tarefas rotineiras. As escolas nunca formam empreendedores. Não se treina um empreendedor. As pessoas se tornam empreendedoras quando agarram uma oportunidade e preenchem o vazio que ali se encontrava. Nenhuma educação transmite o julgamento fino, a perspicácia e a energia necessários para tal. A grande maioria dos empresários bem-sucedidos são pessoas incultas, se levarmos em conta os padrões culturais exigidos para a carreira educacional.

Ludwig von Mises, Human Action, pág. 300-311 (adaptado da tradução do Instituto Liberal, pág. 304-312). Disponível como artigo aqui.