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1 de julho de 2023

Um tributo à alta monogamia


O escritor americano George Leonard, extensamente citado pela psicóloga espanhola Montserrat Calvo Artes, defende a ideia de que tanto o moralismo vitoriano quanto a revolução sexual, embora ambos pareçam contradizer-se mutuamente, na verdade são produto de uma mesma mentalidade: a ideia de que o sexo é uma atividade que possa ser dissecada dos demais aspectos da vida humana e, pior, que possa ser reduzida a dogmas e preceitos definidos.

Quando nos damos conta que o homem enquanto tal não é um mero agregado material, nem um boneco ou um fantasma, mas um ser muitíssimo mais complexo, amplo e profundo, que a união entre duas pessoas não é a mera união de dois personagens, então podemos vislumbrar a ideia central de Leonard: o amor erótico, se consumado e comprometido, tem poderes imortais. O amor erótico e o amor criador são notavelmente semelhantes e a maneira como fazemos amor influi na maneira como fazemos o mundo, e vice-versa.

O problema com as posturas ideológicas vitoriana e revolucionária é que ambas almejam reduzir e “concretizar” a vida, seja impondo ditames de recato e castidade, como no caso da moral vitoriana, seja impondo ditames de exuberância e liberdade, como no caso da moral revolucionária. Observe que em ambas há a oferta de soluções e caminhos simplificados. E o que foi “simplificado” aqui é precisamente a condição humana: quando duas pessoas fazem amor isso seria “só sexo”, seria mero alívio prazeroso de pulsões e a realização de desejos voluptuosos.

Foi o moralismo vitoriano do século XIX o principal responsável por reduzir o sexo a algo polêmico e isolado, por romper a relação do sexo com a matriz das relações sociais, por transformar o sexo em algo sensacional. O sexo passou a ser uma ideia, uma abstração, um objeto sobre o qual podemos versar, manipular, ensaiar em laboratório. A abstração e a generalização que supõe o pensamento moderno sobre o sexo toma a experiência erótica e a converte em algo concreto e útil, paralisando-a. A expressão “sexualidade humana” não mais descreve a vida, mas a morte. Segundo Leonard, embora aparentemente não haja relação entre sexo e genocídio, é precisamente a abstração do corpo e do sexo em relação ao composto humano total levada a cabo na era moderna que permite que pessoas sejam tratadas como coisas, que assim como as árvores de um terreno são derrubadas para posterior terraplanagem, assim também homens são assassinados para posterior “terraplanagem”. Daí Leonard dizer com muita eloquência: “A paralisia da percepção precede o genocídio”. Nossa capacidade de abstrair é também nossa incapacidade. Uma ideia pode se tornar tão premente que a confundimos com a realidade: confundimos o mapa com o território. É quando a ideia se converte em ideologia.

Ao contrário, as fantasias formam a cultura erótica interior e, portanto, enriquecer a vida imaginária é ampliar as perspectivas da vida erótica. A criatividade, seja no amor ou em qualquer outro campo, exige a distinção entre a fantasia e o dogma: ora, criar significa experimentar novos elementos ou configurações da realidade sentindo-me seguro com isso. O dogma circunscreve e congela a realidade ao mesmo tempo em que proíbe a fantasia.

O que Leonard tem em mente está para muito além do controle, dos cálculos e das manipulações. Trata-se de entrar em um mundo no qual o ato sexual não seja considerado como uma mercadoria, mas como uma expressão espontânea e incondicional do amor. Em outras palavras, em criar um lugar magnífico apesar dos riscos, no qual as correntes do passado se rompem e a importância da luta pelo poder é mínima.

Se minha amante e eu somos campos de energia, únicos e irredutíveis, que expressamos o cosmos desde um ponto de vista especifico, então nossa união não é casual. Quando nos unimos no amor criamos um novo campo de energia, maior e diferente do que a soma de suas partes. As intenções e o compromisso bastam para criar uma nova forma, para engendrar a ordem onde antes havia o caos e o nada, para produzir novos dados. Se minha amante é o cosmos, é impossível que a trate como um objeto. Ela é como uma janela para o cosmos.

É por isso que Leonard propõe a monogamia. Não por escrúpulos legais, morais ou religiosos, nem por timidez ou inércia, mas porque ambos buscam um desafio e uma aventura. A exclusividade erótica é portanto algo voluntário, livremente escolhido. Para isso, Leonard recomenda: (1) que ambos tenham interesses em comum em quanto a objetivos de vida, (2) que demonstrem genuíno entusiasmo, lealdade, cortesia, paciência, (3) que se considerem verdadeiramente como pessoas de altíssimo valor.

O objetivo da relação monogâmica é atingir uma profundidade tal que desencadeie uma mudança em ambos. É precisamente a partir do momento em que ambos já contaram a historia de suas vidas e empregaram todos os truques eróticos que começa a aventura da transformação e do erotismo mais profundo. É a partir desse momento que começamos a ver com clareza e começamos a mudar. E é precisamente isso que a sexualidade recreativa e fugaz evita: a intimidade profunda, a aventura, a imprevisibilidade, a transformação. A monogamia é para aqueles que se comprometem a viver de uma forma profundamente pessoal, entregando tudo sem reprimir nada. A relação monogâmica voluntária (não aquela motivada por escrúpulos morais) tem seus prêmios: uma ternura muito particular, sensações intensas, um ambiente erótico emocionante, surpresas cotidianas, mudanças. 

Tudo isso sem apólice de seguro. Sim, pois há riscos, e são enormes. A sabedoria do cínico tem um longo pedigree. Mas o desperdício do potencial da relação monogâmica autêntica também causa terror.

* * *

A "matéria" é a origem dos campos de energia ou são eles que engendram a matéria? Na realidade, a matéria é o campo de energia, como demonstrou Einstein em sua equação E = mc 2, sem que a causa intervenha em nada. Basta dizer que o padrão rítmico é o aspecto mais fundamental e irredutível de cada ser humano e que podemos considerar todos os sinais de individualidade como diferentes manifestações de um mesmo ritmo fundamental ou pulsação interior. Por exemplo, as impressões digitais são ondas rítmicas imobilizadas no espaço. As ondas cerebrais são ondas no tempo. Reconhecemos nosso cantor favorito - não importa quão ruim seja a gravação e não importa que música ele cante - não apenas pela maneira como ele interpreta a música, mas também por essa profunda essência rítmica, esse pulso interior.

Portanto, cada um de nós pode ser considerado um campo rítmico completamente diferente, um complexo de ondas e ressonâncias. Este conceito de identidade pessoal anula a velha dicotomia mente-corpo, visto que a mente é vista como uma manifestação da pulsação interior, e o corpo como outra manifestação da mesma. Podemos ir ainda mais longe e afirmar que a obra de uma pessoa, a marca deixada no tempo pela passagem dessa pessoa, é uma manifestação dessa pulsação particular e fundamental. A alma ou espírito é outra dessas manifestações. A ideia de uma pulsação interna da identidade pessoal poderia explicar a possibilidade da sobrevivência da autoidentidade após a morte do corpo.

Fonte: George Leonard, El fín del sexo, Integral Editorial, Barcelona, Espanha, 1986.

18 de dezembro de 2022

A sexualidade atlética e as neuroses na cama


Sexaulidade atlética, segundo a psicóloga espanhola Montserrat Calvo Artés, é a sexualidade preocupada em cumprir metas, em impressionar, em demonstrar performance. É uma sexualidade menos orientada a favorecer prazeres e mais orientada a superar marcas. É uma sexualidade fingida, inautêntica, desprovida de humildade, curiosidade e, acima de tudo, desprovida de autoconhecimento. Daí seu nome, "atlética", porque, como sugere essa palavra de origem grega, é uma sexualidade marcada pela luta entre egos, pela batalha entre personalidades que, ao invés de se conhecerem em meio à sinceridade, ao respeito e à confiança, se escondem sob máscaras e fingimentos. Em contraposição à sexualidade atlética existe o erotismo, o verdadeiro erotismo, aquele no qual se fala do que se faz e se faz aquilo do que se fala. No erotismo a sexualidade está presidida pelas preferências eróticas, nunca pelas exigênias atléticas. A comunicação entre os amantes e as sensações prazerosas cedem espaço ao mero desempenho orientado ao "final", ao orgasmo, ao prazer de pico. O orgasmo deixa de ser uma consequência do erotismo e passa a ser um objetivo, uma exigência, uma meta.

Sim, claro, uma vida sexual saudável não exclui a existência de problemas. Mas a mente humana precisa de problemas para poder desenvolver-se. Muitas pessoas preferem postergar a solução de um problema sexual durante anos, outras preferem dramatizar a respeito. Ambas posturas são profundamente imaturas. Dar as costas a um problema nos tornará pessoas mais rígidas e menos tolerantes às frustrações. A primeira coisa que temos de entender, a despeito de qual problema na cama se esteja enfrentando, é que nenhum dos amantes é um pior ser humano por causa disso. Nossa essência como indivíduos não tem preço nem medida. Nosso valor não depende de tirar boas notas na cama, nem ter a "aprovação" de nossa acompanhante. Temos de nos tratar a nós mesmos como nosso melhor amigo. Temos de lembrar que somos valiosos, não por algum capricho, mas porque estamos vivos, somos irrepetíveis, únicos, diferentes. A atividade sexual parece ser um reflexo das condutas e atitudes de nossa vida diária. A experiência psicológica acumulada indica que o comportamento que adotamos na cama reflete a maneira como nos comportamos fora dela. 

A sexualidade humana tem três funções: (1) reprodução, (2) prazer e (3) autoconhecimento. As relações sexuais -- os acoplamentos entre duas mentes e dois corpos -- são experiências em si mesmas bondosas, saudáveis, limpas. Uma sexualidade que leve em conta outros objetivos é uma sexuualidade adulterada, descafeinada, na qual os fins justificam os meios. Não há "fim" no sexo: o que há é uma atividade cujas cosequências ao longo do tempo poderão ser a reprodução, o prazer e o autoconhecimento. O erotismo autêntico mostra de maneira clara, a homens e mulheres, se sua satisfação é ou não real. Podemos fingir interesse? Sim. Podemos fingir prazer? Sim. Mas não podemos fingir a nós mesmos. É ali, na cama, que se encontra o melhor espelho de nossa personalidade. Pode haver engano, mas nunca autoengano.

Um aspecto que transparece na cama é o diálogo interior, ou monólogo interor, ou solilóquio. A despeito do nome que se queira dar, é na cama que as coisas que dizemos a nós mesmos sobre nós e sobre os outros, em segredo, nos recônditos de nossa imaginação, nos devaneios e delírios de nossas fantasias, transparecem com maior força e impacto. São nessas frases taquigráficas, rápidas como um relâmpago, que verdadeiramente acreditamos, que acreditamos sem questioná-las, sem discutí-las. É na cama que melhor detectamos o que é real, para sentir com a máxima intensidade aquilo que efetivamente nos toca, aquilo que efetivamente nos é importante. Devemos portanto entronar os sentimentos e emoções, dar-lhes papel central em nossas vidas? Claro que não. A ideia é nos autoconhecermos, é nos aceitarmos exatamente como somos, mas isso não quer dizer que não podamos superar as emoções e sentimentos destrutivos e insanos e substituí-los por outros melhores e sanos. Não conseguimos escolher os pensamentos do solilóquio, mas podemos acreditar neles ou não. Os pensamentos destrutivos do solilóquio são fruto do hábito consagrado por anos de "prática", de reforço. Mudá-los exige disciplina, responsabilidade mas, antes de tudo isso, autoconhecimento. O poder do pensamento é muito maior do que imaginamos. É uma faca de dois gumes: podemos usá-lo racionalmente ou neuroticamente.

Sim, podemos enganar nossa parceira, mas podemos sentir por obrigação? Podemos desejar por decreto? Podemos querer nossa parceira por "força de vontade"? É claro que não. E é claro que tais exigências idiotas despertarão resistências cada vez mais fortes que não apenas não aumentarão o desejo, mas terminarão por aniquilá-lo. Como diz Montserrat Calvo:

"O que não nos ensinam é que existe no ser humano uma dimensão natural que é de escutar-se e conduzir-se a si mesmo, para a qual é imprescindível detectar as ideias pré-concebidas e os juízos de valor. Uma vez introduzido o disco com a informação no computador da memória, nunca mais questionamos as coisas aprendidas e nossas reações se manifestam de forma automática, à margem de nossa vontade.

Crescemos sem discutir o que não discute quem nos rodeia. É fato que demonstramos uma grande inércia a pensar o que sempre temos pensado e feito; somos fruto de reações automatizadas pela força do hábito, pela atração ao familiar e pelo temor ao desconhecido. Tendemos a repetir as mesmas reações e a nos convertermos em herdeiros obedientes de nós mesmos.

A verdade é que aprendemos a pensar de uma forma racional e irracional ao mesmo tempo. Em nosso lado biológico insano -- do qual não se livra nenhum ser humano -- as exigências se esgueiram por toda parte, os desejos se confundem com necessidades, existe a tendência a nos julgarmos e destroçarmos, a ter baixa tolerância à frustração, a cobrir com tóxicos a incomodidade, a tratar nosso corpo de maneira ditatorial, em permanente pressão e sobreesforço, a relegar às estrelas e ao destino a responsabilidade e o poder sobre nossa própria felicidade, a pensar com dualidade: luz ou escuridão, fraco ou forte, você ou eu, ao invés de luz e escuridão -- pois não existiria uma sem a outra -- fraco e forte, você e eu".

Não custa relembrar que responsabilidade não tem nada a ver com culpa. A culpa é um sentimento neurótico que nos paraliza e cria sofrimento, enquanto a responsabilidade nos dá autonomia, competência e liberdade.

Muitas pessoas sentem vergonha (outro sentimento neurótico, aliás) ao falar de sexo. A outras é um verdadeiro sacrifício mencionar suas genitálias. Outras ainda falam de sua sexualidade como se fosse um cachecol: é o sexo desprovido de qualquer emoção, algo superficial e sem conteúdo. Outras falam orgulhosas de "estar acima" das "questões sexuais". O orgulho mostra-se especialmente presente na linguagem obscena. Todas essas manifestações verbais formam parte da sexualidade atlética porque revelam exigências subjacentes, mostram um trato sexual despersonalizado, objetificado, que omite toda e qualquer alusão a desejos, emoções e sentimentos, em especial aos homens, os quais a sexualidade atlético os rebaixa de sedutores a meros predadores sexuais.

A cama é o lugar para nos aceitarmos como somos, com nossas misérias e glórias, como seres em contínua adaptação, em contínua aprendizagem de nossos erros, conflitos e temores. Cada encontro erótico serve, ou deveria servir, como polimento, como algo que nos vai tornando mais compassivos e menos egocêntricos, menos competitivos, menos fingidos. A escravidão à imagem sexual é a rejeição dos sentimentos, um autoabandono, uma crescente hostilidade entre sexualidade e afeto, amor, ternura e carinho. Na comunicação sexual não se devem filtrar emoções não assumidas (ciúmes, medo de rejeição, ressentimentos, desconfiança etc) sob pena de que o fluxo de energia entre os amantes acabe sendo bloqueado e a experiência prazerosa acabe sendo neutralizada. Escolher "não sentir" uma coisa desagradável tem um preço: não sentir coisas agradáveis. Sim, a desconexão de uma emoção ou sentimento implica em desconctar-se de outras emoções e sentimentos. A ansiedade cedo ou tarde imperará porque "não sentir" significa não realizar mudanças em sua conduta: a irritação e o ressentimento logo se somarão à ansiedade. 

Os sentimentos são uma espécie de "bússula" que nos ajuda a navegar. Claro, a bússula não é infalível, mas tampouco podemos fingir que ela não existe e que não exerce nenhuma influêcia em nossos pensamentos e condutas. Nos abrir ao que sentimos implica na honestidade de estarmos dispostos a mudar ideias, porque talvez nós tenhamos mudado nossas preferências, e em adotar outras ideias que podem até ser arriscadas. Mas arriscada é a vida.

A autoexigência é uma bobagem que não tem nada a ver com "força de caráter" ou com "ser implacável com os sentimentos". É apenas uma tola prepotência de alguém que se considera superespecial, superperfeito e super-homem. As ideias irracionais, derivadas da autoexigência, captam a atenção e consequentemente as emoções prazerosas desaparecem. A ereção e o orgasmo são uma consequência, não vêm por decreto. Se decretamos que vamos dormir, não dormimos. Se decretamos que não vamos ficar vermelhos de vergonha, ficamos. Se decretamos que vamos ter uma ereção e um orgasmo, não temos. 

Escrever essas e outras exigências em pedra parece uma tolice. Pois bem, essa tolice a praticamos todos os dias. Sim, a praticamos em forma de "busca pela autoestima". Se a autoestima está "alta" a pessoa se sente valiosa, mas dada a falibilidade humana, haverá um momento em que as coisas não sairão como deveriam e sempre haverá alguém que nos desaprove. De modo que, dadas as condições sobrehumanas que exige a autoestima, sempre acaba provocando uma má relação e uma luta do indivíduo contra ele mesmo. Em resumo, a busca pela autoestima sempre termina em baixa autoestima.

Aceitar-se a si mesmo é o caminho. No terreno sexual, a cama é o espelho mais fiel de nosso verdadeiro rosto, muito além das maquiagens e autoenganos que aplicamos. O prazer sexual é resultado, em primeiro lugar, da autoaceitação e do companheirismo que o indivíduo trata a si mesmo.

E aceitar a parceira é igualmente mandatório. O afã de dominar conduz à desconfiança, ao receio e à alienação, já que a parceira deixa de ser uma pessoa, digna de ser aceita como é, e passa a ser um objeto a ser possuído, a ser manipulado, a ser "melhorado". Ela nunca sabe se está na cama por medo ou porque realmente deseja.

É necessário que nos desnudemos não apenas da roupa, o que é muito fácil, mas de nossos egos, nossas autoimagens, nossos delírios e devaneios, nossas exigências e "necessidades". Assim, e somente assim, podemos conhecer a parceira, somente assim imperará um clima de confiança, sinceridade e igualdade, sem domínio nem submissão. O erotismo requer pessoas livres e conscientes já que mostrar nosso lado mais terno e vulnerável requer confiança, respeito, lucidez e sinceridade.

Nossa moral está baseada no trabalho duro e no sobreesforço, e nossa autovalorização sexual acaba dependendo de nosso produtividade em coitos, orgasmos ou ereções. Essa moral de seriedade que, inclusive, nos obriga a nos divertir em dias festivos, pouco a pouco vai carcomendo o espírito lúdico. Levar-se muito a sério é tolice.

Fonte: Montserrat Calvo Artés, Sexualidad atlética o erotismo, Icaria Editorial, Barcelona, Espanha, 2008.

5 de dezembro de 2022

Amor e sexo


O corpo de uma pessoa -- não somente suas formas mas também seu gesto e porte -- oferece uma informação extensa e intensa acerca da vida dessa pessoa; frases como "ter o coração na mão", "ficar de cabelo em pé", "fazer das tripas coração", "ficar sem ar",...escondem uma riqueza intuitiva nada desdenhável e mesmo assim continuamos a estabelecer grandes distâncias entre nosso corpo e nossa mente, nosso corpo e nossa vida e consequentemente continuamos a nos guiar exclusivamente por nossas crenças e desprezando as mensagens corporais.

Esse dualismo de longínqua origem antropológica -- amplamente reforçado pelo dualismo religioso amor/sexualidade -- é uma das fisuras de nosso mundo ocidental e seu preço é caro: a substituição do conhecimento pelo controle.

Os efeitos dessa substituição têm sido traduzidos por um conflito interno contínuo, por uma luta pelo controle, mas não um controle saudável de nossas emoções, mas um domínio permanente e intolerante de quase todas as manifestações de nosso corpo, e como consequência dessa luta, nosso domínio egoísta do entorno, do que como organismos vivos formamos parte inseparável e sem a qual não poderíamos sobreviver. Costumamos entender por personalidade o caráter e o temperamento de um indivíduo, assim como suas convicções e a escala de valores que vai formando ao longo de sua vida. Ou seja, é a expressão particular de cada ser humano: tal como aparece diante de nós e tal como se vê a si mesmo. Etimologimente o conceito deriva da "máscara" que utilizavam os atores para que os escutassem melhor. Se aproveitamos o símbolo que isso representa podemos afirmar que a "autoconsciência" se reduz habitualmente à "ideia que temos de nós mesmos" e mais concrectamente à soma de nosso status e papéis sociais. Mas talvez isso tenha pouco a ver com o que somos em realidade, já que em nossa consciência habitual não costumamos incluir, por exemplo, a percepção de nossas funções vitais, essenciais para a sobrevivência, nem uma ideia coerente da mencionada relação simbiótica com o entorno.

Nos guiar unicamente por nossas suposições e crenças, sem nos darmos a possibilidade de escutar nossas intuições e percepções sensoriais, implica em nos guiar por uma informação muito parcial de toda a informação que temos a nosso alcance; parcial e deformada. Perigosamente confundidos pelo mais simples e evidente, acreditamos ter uma pele, quando somos uma pele, acreditamos ter um órgão genital, quando somos um órgão genital, acreditamos ter um corpo, quando somos um corpo. Costumamos perseguir objetivos que são "símbolos" culturais como o poder, o controle, a fama, a honra, a glória...e desprezamos os prazeres cotidianos acessíveis e reais, os quais não precisamos procurar, mas simplesmente nos colocar em atitude de encontrá-los, como passear, mastigar, acariciar, contemplar, respirar... Vemos, pois, como a maior confusão entre símbolo e realidade se encarniça com a autoconsciência, e consequentemente com essa parcela das relações humanas que é a sexualidade.

Em consequência podemos nos perguntar se nossa "ideia de satisfação sexual" corresponde com a satisfação que realmente se pode obter da sexualidade. A ideia de satisfação sexual baseada na alimentação da personalidade (máscara) e da autoimagem, assim como em todas as crenças irracionais que estamos comentando, sempre dará menos jogo que quando nos baseamos no conhecimento -- racional e emocional --, e não no domínio, do corpo e suas sensações. 

Podemos decidir, portanto, que da mesma forma que não existe "plena" autoconsciência a partir do domínio e do controle, mas somente a partir do conhecimento, a ideia de satisfação sexual baseada em nossos símbolos de sucesso e de domínio não apenas não corresponderá à satisfação "real", mas a dificultará consideravelmente: a anestesia gerada na qual, escravos da ideia de satisfação e de "satisfação cumprida", deixamos de escutar o próprio corpo, pode ser e constuma ser um germe de insatisfação sexual e vital. De fato, é o germe e a essência da ansiedade desnecessária, a qua já definimos como "esperar o que não chega, desprezando ou ignorando o mais estrito presente".

Felizmente, ha antídotos contra tal anestesia, entre eles o conhecer, tal como propomos, a ansiedade; o descobrir o prazer do cotidiano, que por ser cotidiano está constantemente presente, e a humildade suficiente para deixar de contemplar o corpo como se fosse uma casca que devemos suportar ou como se fosse um automóvel do qual acreditamos não ser o motorista, e começar a contemplá-lo como nosso mais leal e seguro mestre; alimentando seu conhecimento em substituição do domínio e do controle.


* * *


1. O amor


Não pretendemos definir uma vivência que, talvez, não tenha tradução verbal; apenas tentaremos expor uma concepção pessoal do amor.

Diz-se, com razão, que a base do amor é a entrega, mas essa entrega se confunde com a concessão e o sacrifício, quando se necessita pouca lógica para observar que nunca podemos entregar e oferecer aquilo que não possuímos previamente. É por esse pequeno e grande matiz que descreveríamos o amor como a autoaceitação incondicional e consequentemente de seu entorno: é difícil copreender, aceitar e conhecer os outros mais do que a medida em que nos compreendemos, aceitamos e conhecemos a nós mesmos. Se tivéssemos que dar um exemplo a respeito, diríamos que apenas os mafiosos conhecem a linguagem verbal e gestual de outro mafioso, assim como a generosidade ou a honestidade são reconhecidas por aqueles que são honestos e generosos. Da mesma forma, somente na medida em que fujamos do autoengano deixaremos de enganar mais ou menos conscientemente os outros.

Essa aceitação de si mesmo e do entorno, do que gostamos e não gostamos, não apenas não implica mas se opõe à resignação e ao conformismo.

Por um lado, somente o que aceitamos permite ser conhecido sem preconceitos e juízos de valor (por exemplo, no terreno sexual, somente as fantasias aceitadas permitem o jogo erótico de sua verbalização); por outro lado, somente o deixar de projetar a autoaceitação no futuro, ou seja, na forma como gostaríamos de ser, ao invés de nos conhecermos tal como somos em realidade no momento presente, possibilita fugir do autoengano. Finalmente, quanto mais informação tenhamos de nós mesmos mais informação podemos captar dos outros.

O conhecimento de nossa "totalidade", longe de conduzir à resignação (submissão voluntária), facilita aprender a pilotar nossas frustraões, carências e limitações. Somente a ignorância facilita e permite o conformismo ou a subsmissão.

Somente o desamor é cego, louco e gera sofrimento, porque somente o desamor permite o autoengano, o desconhecimento e a manipulação de nossos semelhantes.

Talvez somente deixaremos de tentar mudar os outros a fim de que sejam como gostaríamos que fossem, e manter assim o autoengano e o desconhecimento, quando começarmos a relacionar o amor com conceitos como verdade, clareza, saúde,conhecimento, criatividade e corpo.


2. O namoro


Dado que "namoro" signfica "em amor", os mesmos flagelos que pesam sobre o amor pesam consequentemente sobre o namoro.

Quando descobrimos alguém que sentimos atração nosso primeiro desejo é de "conhecer" a pessoa descoberta; uns vão querer conhecer preferencialmente seus ideais, outros sua conta bancária, mas o sentimento que sempre acompanha a flechada é o desejo de conhecimento.

Para nós, a paixão é acompanhada de um desejo de conhecer o outro e mostrar-lhe o que sabemos de nós mesmos. Mas apesar do desejo fundamental de ser querido "em nossa totalidade", a "personalidade" que autofabricamos nos força imediatamente a ocultar o que não gostamos de nós mesmos.

Isso costuma ser um autoengano e consequentemente um engano para o outro. Se além disso acresentamos a interpretação que fazemos do Cupido, isto é, concebemos o namoro como algo que não requer maiores cuidados mais do que o mero desenrolar do que o destino proporciona, e acresentamos ainda a supervalorização da pessoa amada, da qual irracionalmente se espera a solução definitiva de nossos problemas, entenderemos a facilidade com que responsabiizamos o namoro de suas típicas consequências trágicas.

Vivido dessa forma, o namoro não deixa de ser um episódio temporário de alienação no qual o ser amado é amo e senhor de nossos pensamentos, para deixar de ser quando na convivência, geralmente incultivada, vai surgindo tudo aquilo que havíamos escondido de nós mesmos e a evidência de que "o outro" não é a solução definitiva de nossos problemas.

Mas se esse primeiro "desejo de conhecer" a pessoa que nos atrai por qualquer motivo, longe de bloqueá-lo com o resto de nossos desejos, soubéssemos mantê-lo -- com os altos e baixos que todo intercâmbo de informações supõe -- o namoro poderia ser renovado constantemente, sem acabar no frequente triste amor-resignação.


3. Da sexualidade ao amor e do amor à sexualidade


Aliado ao amor "sem paixão" que costuma suceder o processo de namoro, costuma aparecer também a monotonia e o aborrecimento sexual.

Consequentemente existe a ideia popular, rígida e idealizada de que somente a "novidade sexual" é excitante ou sistematicamente exitante, ou garantia de excitação, esquecendo a possibilidade de permanente descobrimento quando existe um cultivo da relação.

O prazer sexual mais global e/ou intenso costuma ser encontrado quando existe o afeto e o desejo de conhecimento entre os membros da relação. Dito de outro modo, o amor costuma ser o melhor afrodisíaco.

A diferença fundamental que introduz a presença do componente amoroso é a confiança para nos desnudarmos completamente não apenas da roupa mas também da "personalidade".

Quando mantemos relações sexuais com "personalidade", o seja, com nosso orgulho, nossos títulos, nossas diversas máscaras...estamos nos relacionando com a ideia que temos de nós mesmos; consequentemente, nossas atitudes sexuais vão tender a ser um meio para alimentar essa ideia, que pouco tem a ver com nossa autêntica realidade de seres humanos limitados a um ínfimo espaço e tempo. As possibilidades de nos aceitarmos com nossas fraquezas e limitações ficam minguadas e o oferecimento que, em consequência, costumamos fazer de nós mesmos será parcial.

Dado que ninguém pode se sentir realmente querido por sua personalidade e suas diversas máscaras e dado que o intercâmbio de informação nunca é unilateral, nos sentimos queridos e desejados na mesma medida proporcional que nos mostramos sem autoengano e, em conquência, somos aceitos em nossa autenticidade.

Numa primeira relação é importante guardar o desejo e a atitude aberta às possibilidades de confiança e conhecimento.

Essa atitude requer contemplar os obstáculos a tal confiança como parte do jogo saudável; requer também certa disposição à desilusão, mas não só: requer uma disposição à ruptura ou separação de acordo com o tipo de desilusão; requer finalmente honestidade consigo mesmo e com os outros, descartando por completo a manipulação.

Podemos dizer que a manipulação consiste em possuir e usar o outro para nosso prazer, isto é, conduzi-lo a um objetivo pré-fixado que o outro não conhece e que, consequentemente, não consentiu.

Alimentar, portanto, o desconhecimento não poderá resultar em outra coisa que não dificultar o mútuo intercâmbio de informações.

Sem dúvida nem todas as relações sexuais se realizam entre as pessoas que se amam com esse amor entendido como aceitação de si mesmo e em consequencia dos outros. Inclusive podem funcionar satisfatoriamente sem que seus membros tenham proposto nunca tais níveis de relação, mas "todas" as relações francas nas quais estejamos atentos aos próprios desejos e preferências e fujamos da posse e da manipulação, não somente oferecem a posibilidade de uma confiança "plena" mas que constituem em si mesmas um exemplo de ternura e amor.

Embora nos pareça útil mostrar as vantagens das relações duradouras (à margem do modelo de relação de que se trate), em nenhum momento tentamos erigir a confiança e a aceitação plenas como requisito imprescindível do prazer sexual, já que essa confiança e aceitação também provêm da atvidade e do prazer sexual.

Com respeito a isso, se o amor implica em conhecimento e se somente amamos, gostamos ou desejamos aquilo que conhecemos, então qual conhecimento da outra pessoa poderia ser mais completo do que não somente através de nossos ideias mas também através de todo nosso corpo e nossa percepção sesorial?

No entanto, existe ou uma idealização ou uma infravalorização da ternura e do próprio amor, aos quais se costuma conceber como algo pouco carnal ou excessivamente transcendente, quando não há nada mais real, constante e cotidiano que aquilo com que convivemos permanentemente: nosso corpo com seus pensamentos e sua percepção sensorial.

O erotismo seria talvez o mais completo e intenso intercâmbio de informação com nós mesmos e com nossos semelhantes se entendêssemos que não existe desejo nem atração sexual sem um mínimo de informação e conhecimento, e se entendêssemos que o amor se transmite e recebe com o próprio corpo.

Mostrar portanto a semelhança entre o amor e a sexualidade é a única e autêntica intenção, a fim de que posasmos nos aproximar em "toda" relação sexual (estável ou promíscua) a essa elegância, criatividade e savoir faire autênticos, baseados no respeito a si mesmo e no respeito aos outros. A fim de que entendamos que esse "respeito" não somente atenta diretamente contra a monotonia nas relações mais estabilizadas, mas que é imprescindível para uma certa qualidede no prazer sexual.

Fonte: Montserrat Calvo Artés, Trampas y Claves Sexuales, Icaria Editorial, Barcelona, Espanha, 1987.