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18 de janeiro de 2023

Albert Ellis vs. ego


Muito do que podemos chamar de “ego” humano é algo vago e indeterminado e, quando concebido e classificado de maneira abrangente, interfere na sobrevivência e na felicidade. Certos aspectos do “ego” parecem ser vitais e levam a resultados benéficos: pois as pessoas existem, ou têm vida, por vários anos, e também têm autoconsciência ou consciência de sua existência. Nesse sentido, elas têm singularidade, continuidade e “ego”. O que as pessoas chamam de “eu” ou “totalidade” ou “personalidade”, por outro lado, tem uma qualidade vaga, quase indefinível. As pessoas podem ter características “boas” ou “ruins” – características que as ajudam ou atrapalham em seus objetivos de sobrevivência ou felicidade – mas elas realmente não têm um “eu” que “seja” bom ou mau.

Para aumentar sua saúde e felicidade, a Terapia Racional Emotiva Comportamental (REBT) recomenda que as pessoas resistam à tendência de avaliar seu “eu” ou “essência” e é melhor que apenas avaliem suas ações, traços, atos, características e desempenhos. De certa forma, elas também podem avaliar a eficácia de como pensam, sentem e fazem. Depois de escolherem seus objetivos e propósitos, elas podem avaliar sua eficácia e eficiência na consecução desses objetivos. E, como uma série de experimentos de Albert Bandura e seus alunos mostraram, a crença delas em sua eficácia geralmente os ajuda a se tornarem mais produtivos e realizadores. Mas quando as pessoas dão uma classificação global e geral ao seu “eu” ou “ego”, elas quase sempre criam pensamentos, sentimentos e comportamentos neuróticos e autodestrutivos.

A grande maioria dos sistemas de psicoterapia parece empenhada em – na verdade, quase obcecada por – sustentar, reforçar e fortalecer a “autoestima” das pessoas. Isso inclui sistemas tão diversos como a psicanálise, a teoria da relação de objetos, a terapia gestalt e até mesmo algumas das principais terapias cognitivo-comportamentais. Pouquíssimos sistemas de mudança de personalidade, como o zen-budismo, assumem uma posição oposta e tentam ajudar os humanos a diminuir ou renunciar a alguns aspectos de seus egos; mas esses sistemas tendem a ter pouca popularidade e gerar muita disputa.

Carl Rogers ostensivamente tentou ajudar as pessoas a alcançarem uma “consideração positiva incondicional” e assim a se verem como “boas pessoas” apesar de sua falta de realização. Na verdade, porém, ele as induziu a se considerarem “bem” por terem um bom relacionamento com um psicoterapeuta. Mas isso, infelizmente, faz com que sua autoaceitação dependa da atuação acrítica do terapeuta em relação a eles. Se assim for, isso ainda é uma aceitação altamente condicional, em vez da autoaceitação incondicional que a REBT ensina.

A REBT (Terapia Racional Emotiva Comportamental) constitui uma das poucas escolas terapêuticas modernas que se posicionou contra a classificação do ego e continua a se posicionar ainda mais forte nessa direção à medida que cresce em sua teoria e suas aplicações. Este artigo descreve a posição atualizada da REBT sobre a avaliação do ego e explica por que a REBT ajuda as pessoas a diminuir suas propensões a avaliarem o ego.

ASPECTOS LEGÍTIMOS DO EGO HUMANO

A REBT primeiro tenta definir os vários aspectos do ego humano e endossar seus aspectos “legítimos”. Ela subentende que os principais objetivos ou propósitos de um indivíduo incluem: (1) permanecer vivo e saudável e (2) desfrutar da vida – experimentar muita felicidade e relativamente pouca dor ou insatisfação. Podemos, é claro, argumentar contra esses objetivos; e nem todos os aceitam como “bons”. Mas supondo que uma pessoa os valorize, então ele ou ela pode ter um "ego", "eu", "autoconsciência" ou "personalidade" válidos, que podemos conceber como algo nas seguintes linhas:

1. “Eu existo – tenho uma vitalidade contínua que dura talvez 80 anos ou mais e depois aparentemente chega ao fim, de modo que ‘eu’ não mais existo”.

2. “Eu existo separadamente, pelo menos em parte, de outros humanos e, portanto, posso conceber a mim mesmo como um indivíduo em meu ‘próprio’ direito”.

3. “Eu tenho características diferentes, pelo menos em muitos de seus detalhes, de outros humanos e, consequentemente, meu 'eu' ou minha 'vida' tem um certo tipo de singularidade. Nenhuma outra pessoa em todo o mundo parece ter exatamente as mesmas características que eu, nem se iguala a ‘eu’ ou constitui a mesma entidade que ‘eu’”.

4. “Tenho a capacidade de continuar existindo, se assim decidir, por um certo número de anos — de ter uma existência contínua e de ter algum grau de traços consistentes à medida que continuo existindo. Nesse sentido, permaneço ‘eu’ por muito tempo, mesmo que minhas características mudem em aspectos importantes”.

5. “Tenho consciência, ou consciência de minha continuidade, de minha existência, de meus comportamentos e características e de vários outros aspectos de minha vivência e experiência. Posso, portanto, dizer: ‘Tenho autoconsciência’”.

6. “Tenho algum poder para prever e planejar minha existência ou continuidade futura e para mudar algumas de minhas características e comportamentos de acordo com meus valores e objetivos básicos. Meu ‘comportamento racional’, como apontou Myles Friedman, consiste em grande parte em minha capacidade de prever e planejar meu futuro”.

7. “Devido à minha 'autoconsciência' e minha capacidade de prever e planejar meu futuro, posso mudar consideravelmente minhas características presentes e futuras (e, portanto, 'existência'). Em outras palavras, eu posso, pelo menos parcialmente, controlar-me a ‘mim mesmo’”.

8. “Da mesma forma, tenho a capacidade de lembrar, entender e aprender com minhas experiências passadas e presentes e usar essa lembrança, compreensão e aprendizado a serviço de prever e mudar meu comportamento futuro.”

9. “Posso escolher descobrir o que gosto (desfrutar) e do que não gosto (desgostar) e tentar experimentar mais do que gosto e menos do que não gosto. Eu também posso escolher sobreviver ou não sobreviver”.

10. “Posso escolher monitorar ou observar meus pensamentos, sentimentos e ações para me ajudar a sobreviver e levar uma existência mais satisfatória ou agradável”.

11. “Posso ter confiança (acreditar que existe uma alta probabilidade) de que posso permanecer vivo e me tornar relativamente feliz e livre de dor”.

12. “Posso escolher agir como um hedonista de curto prazo que busca principalmente os prazeres do momento e dá pouca consideração aos do futuro, ou como um hedonista de longo prazo que considera tanto os prazeres do momento quanto os de o futuro e que se esforça para alcançar um grau justo de ambos”.

13. “Posso escolher me ver como tendo valor ou dignidade por razões pragmáticas - porque então tenderei a agir de acordo com meus próprios interesses, buscar prazeres em vez de dor, sobreviver melhor e me sentir bem.”

14. “Posso escolher aceitar-me incondicionalmente – quer me saia bem ou não ou seja aprovado pelos outros. Posso, assim, me recusar a avaliar 'meu eu', 'minha totalidade', 'minha personalidade'. Em vez disso, posso avaliar minhas características, ações, atos e desempenhos - com o objetivo de sobreviver e aproveitar mais minha vida, e não com o objetivo de 'provar meu valor' ou ser 'egoísta' ou mostrar que tenho uma visão 'melhor' ou 'maior' valor do que outros”.

15. “Meu 'eu' e minha 'personalidade', embora, sob aspectos importantes, sejam individualistas e únicos para mim, também fazem parte da minha sociabilidade e da minha cultura. Uma parte extraordinariamente grande do meu "eu" e como "eu" penso, sinto e me comporto é significativamente influenciada - e até criada - por meu aprendizado social e por ser testado em vários grupos. Estou longe de ser apenas um indivíduo por direito próprio. Minha personalidade inclui socialidade. Além disso, estou longe de ser um eremita, mas decidi passar grande parte da minha vida em família, escola, trabalho, vizinhança, comunidade e outros grupos. Os “meus” modos de vida individuais, portanto, fundem-se com as regras “sociais” de vida. Meu “eu” é um produto pessoal e social – e um processo! Minha autoaceitação incondicional (USA) deveria incluir intrinsecamente a aceitação incondicional do outro (UOA). Eu posso – e vou! – aceitar outras pessoas, assim como a mim mesmo, com nossas virtudes e nossas falhas, com nossas realizações importantes e nossos fracassos, só porque estamos vivos e passando bem, só porque somos humanos! Vale a pena lutar pela minha sobrevivência e felicidade, assim como pelo resto da humanidade.

Estes, parece-me, são alguns aspectos “legítimos” da avaliação do ego. Por que legítimo? Porque eles parecem ter alguma “realidade” – isto é, têm alguns “fatos” por trás deles. E porque eles parecem ajudar as pessoas que os endossam a atingir seus valores básicos habituais de sobreviver e sentir-se felizes, em vez de miseráveis.

ASPECTOS AUTODESTRUTIVOS DO “EGO” HUMANO (AUTOAVALIAÇÃO)

Ao mesmo tempo, as pessoas subscrevem alguns aspectos “ilegítimos” do “ego” humano ou da autoavaliação, como estes:

1. “Eu não existo apenas como uma pessoa única, mas como uma pessoa especial. Sou uma pessoa melhor do que as outras pessoas por causa de minhas características marcantes”.

2. “Tenho uma qualidade sobre-humana e não meramente humana. Eu posso fazer coisas que outras pessoas não podem fazer e mereço ser endeusado por fazer essas coisas”.

3. “Se não possuo características marcantes, especiais ou sobre-humanas, sou sub-humano. Sempre que não tenho um desempenho notável, mereço ser demonizado e condenado”.

4. “O universo se preocupa especial e significativamente comigo. Tem um interesse pessoal em mim e quer que eu me saia muito bem e me sinta feliz”.

5. “Preciso que o universo se preocupe especialmente comigo. Se não, sou um indivíduo inferior, não posso cuidar de mim mesmo e devo me sentir desesperadamente miserável”.

6. “Porque eu existo, eu absolutamente tenho que ter sucesso na vida e devo obter amor e aprovação de todas as pessoas que considero importantes”.

7. “Porque eu existo, devo sobreviver e continuar a ter uma existência feliz”.

8. “Porque eu existo, devo existir para sempre e ter imortalidade”.

9. “Eu sou igual às minhas características. Se eu tiver características ruins significativas, eu me classifico como totalmente ruim; e se eu tiver boas características, eu me classifico como uma boa pessoa”-

10. “Eu especial, sou igual aos meus traços de caráter. Se eu trato bem os outros e, portanto, tenho um 'bom caráter', sou uma boa pessoa; e se trato mal os outros e, portanto, tenho um 'mau caráter', tenho a essência de uma pessoa má”.

11. “Para me aceitar e respeitar a mim mesmo, devo provar que tenho valor real - prová-lo mediante competência, destaque e aprovação alheios”.

12. “Para ter uma existência feliz, devo ter – é absolutamente necessário que eu tenha – as coisas que realmente desejo”.

Os aspectos de autoavaliação do ego, em outras palavras, tendem a acabar com você, a prejudicá-lo, a interferir em suas satisfações. Eles diferem enormemente dos aspectos autoindividualizantes do ego. Estes envolvem como ou quão bem você existe. Você permanece vivo como um indivíduo distinto, diferente e único porque possui vários traços e desempenhos e porque gosta de seus frutos. Mas você tem “ego” no sentido de autoavaliação porque pensa magicamente em termos de elevação ou rebaixamento, deificação ou demonização de si mesmo por como ou quão bem você existe. Ironicamente, você provavelmente pensa que avaliar a si mesmo ou ao seu “ego” o ajudará a viver como uma pessoa única e a desfrutar da vida. Bem, geralmente não! Na maioria das vezes, isso talvez permitirá que você sobreviva - mas miseravelmente!

VANTAGENS DO “EGO-ÍSMO” OU AUTOAVALIAÇÃO

O egoísmo, a autoavaliação ou a autoestima não têm vantagens? Certamente sim - e, portanto, provavelmente, sobrevive apesar de suas desvantagens. Que vantagens tem? Tende a motivá-lo a ter sucesso e a obter a aprovação dos outros. Fornece a você um jogo interessante e emocionante de comparar constantemente seus atos e seu “eu” com os de outras pessoas. Muitas vezes ajuda você a impressionar os outros - o que tem um valor prático, em muitos casos. Pode ajudar a preservar sua vida - como quando você se esforça para ganhar mais dinheiro, por motivos egoístas, e assim ajuda sua sobrevivência por meio desse dinheiro.

A autoavaliação serve como uma posição muito fácil e confortável de cair – os humanos parecem ter uma tendência biológica de se envolver nela. Também pode lhe dar um enorme prazer quando você se considera nobre, grande ou excepcional. Pode motivá-lo a produzir notáveis obras de arte, ciência ou invenção. Pode permitir que você se sinta superior aos outros — às vezes, até mesmo como um deus.

O egoísmo obviamente tem vantagens reais. Desistir completamente da autoavaliação equivaleria a um grande sacrifício. Não podemos dizer justificadamente que não traz ganhos, não produz nenhum bem social ou individual.

DESVANTAGENS DO “EGO-ÍSMO” OU AUTOAVALIAÇÃO

Estas são algumas das razões mais importantes pelas quais classificar-se como uma pessoa boa ou má tem imensos perigos e frequentemente o prejudica:

1. Para funcionar bem, a autoavaliação exige que você tenha habilidade e talento extraordinários, ou quase infalibilidade. Pois você só pode elevar seu ego quando se sai bem e, concomitantemente, deprimi-lo quando se sai mal. Que chance você tem de se sair bem ou sempre bem?

2. Ter, na linguagem comum, um ego “forte” ou uma autoestima “de verdade” realmente exige que você seja acima da média ou excepcional. Somente se você tiver um talento especial, provavelmente se aceitará e se avaliará bem. Mas, obviamente, muito poucos indivíduos podem ter habilidades incomuns e geniais. E você atingirá pessoalmente esse nível incomum? Eu duvido!

3. Mesmo que você tenha enormes talentos e habilidades, para aceitar a si mesmo ou estimar-se consistentemente, de uma forma egocêntrica, você tem que exibi-los virtualmente o tempo todo. Qualquer lapso significativo e você imediatamente tende a se rebaixar. E então, quando você se rebaixa, tende a cair mais — um verdadeiro círculo vicioso!

4. Quando você insiste em ganhar “autoestima”, basicamente o faz para impressionar os outros com seu grande “valor” ou “dignidade” como humano. Mas a necessidade de impressionar os outros e obter sua aprovação e, assim, ver a si mesmo como uma “boa pessoa” leva a uma obsessão que tende a dominar grande parte de sua vida. Você busca status em vez de buscar alegria. E você busca aceitação universal – o que você certamente não tem chance de obter!

5. Mesmo quando você impressiona os outros e supostamente ganha “valor” dessa forma, você tende a perceber que o faz em parte agindo e falsificando seus talentos. Conseqüentemente, você se considera um impostor. Ironicamente, então, primeiro você se rebaixa por não impressionar os outros; mas então você também se rebaixa por impressioná-los falsamente!

6. Quando você avalia a si mesmo e consegue dar a si mesmo uma classificação superior, você se ilude pensando que tem superioridade sobre os outros. Você pode realmente ter algumas características superiores; mas você sente devotamente que se tornou uma pessoa verdadeiramente superior - ou semideus. E essa ilusão lhe dá uma sensação artificial ou falsa de “autoestima”.

7. Quando você insiste em se classificar como bom ou mau, tende a se concentrar em seus defeitos, responsabilidades e falhas, pois tem certeza de que eles o transformam em uma "pessoa podre". Ao focar nesses defeitos, você os acentua, muitas vezes piorando-os; interferindo na mudança deles; e adquirindo uma visão negativa generalizada de si mesmo que frequentemente acaba em uma autodepreciação flagrante.

8. Ao avaliar a si mesmo, em vez de apenas avaliar a eficácia de seus pensamentos, sentimentos e ações, você sustenta uma filosofia de que tem que provar que é bom; e como sempre existe uma boa chance de que não seja bom, você tende a permanecer subjacente ou abertamente ansioso praticamente o tempo todo. Além disso, você pode estar continuamente à beira da depressão, desespero e sentimentos de intensa vergonha, culpa e inutilidade.

9. Quando você avalia a si mesmo com preocupação, mesmo que consiga obter uma boa classificação, você o faz à custa de ficar obcecado com o sucesso, a realização, a realização e a excelência. Mas esse tipo de concentração no sucesso o desvia de fazer o que você realmente deseja fazer e do objetivo de tentar ser feliz: algumas das pessoas mais bem-sucedidas, na verdade, permanecem bastante infelizes.

10. Da mesma forma, ao lutar fortemente pela excelência, sucesso e superioridade, você raramente para para se perguntar: "O que eu realmente quero - e quero para mim?" Então você não consegue encontrar o que realmente gosta na vida.

11. Aparentemente, seu foco em alcançar grandeza e superioridade sobre os outros e, assim, obter uma autoavaliação elevada serve para ajudá-lo a se sair melhor na vida. Na verdade, ajuda você a se concentrar em seu suposto valor e dignidade, e não em sua competência e felicidade; e, conseqüentemente, você falha em alcançar muitas coisas que de outra forma poderia alcançar. Como você precisa provar sua total competência, muitas vezes você tende a se tornar menos competente - e às vezes se retira da competição.

12. Embora a autoavaliação ocasionalmente possa ajudá-lo a realizar atividades criativas, ela frequentemente tem o resultado oposto. Por exemplo, você pode ficar tão preso ao sucesso e à superioridade que, de forma não criativa e obsessiva-compulsiva, busca esses objetivos, em vez da participação criativa em arte, música, ciência, invenção ou outras atividades.

13. Quando você avalia a si mesmo, tende a se tornar egocêntrico em vez de centrado no problema. Portanto, você não tenta resolver muitos dos problemas práticos e importantes da vida, mas concentra-se principalmente em seu próprio umbigo e no pseudoproblema de provar a si mesmo em vez de se encontrar.

14. A autoavaliação geralmente ajuda você a se sentir anormalmente autoconsciente. A autoconsciência, ou o conhecimento de que você tem uma qualidade contínua e pode desfrutar-se de si mesmo ou não, pode trazer grandes vantagens. Mas a autoconsciência extrema, ou espionar continuamente a si mesmo e avaliar o seu desempenho, leva essa boa característica a um extremo desagradável e pode interferir seriamente na sua felicidade.

15. A autoavaliação estimula muito o preconceito. Consiste em uma supergeneralização: “Porque um ou mais dos meus traços parecem inadequados, eu classifico como uma pessoa totalmente inadequada”. Isso significa, na verdade, que você se sente preconceituoso contra si mesmo por alguns de seus comportamentos. Ao fazer isso, você também tende a se sentir preconceituoso em relação aos outros por seu mau comportamento — ou pelo que considera seus traços inferiores. Assim, você pode se sentir fanático por negros, judeus, católicos, italianos e vários outros grupos que incluem algumas pessoas de quem você não gosta.

16. A autoavaliação leva à necessidade e à compulsão. Quando você acredita: “Devo me rebaixar quando tenho uma característica ruim ou um conjunto de características ruins”, geralmente também acredita que “tenho que ter boas características ou desempenhos” e se sente compelido a agir de certas maneiras “boas” - mesmo quando você tem poucas chances de fazê-lo consistentemente.

POR QUE “EGO-ÍSMO” E AUTOAVALIAÇÃO SÃO ILÓGICOS

Dessas e de outras maneiras, tentar ter “força do ego” ou “autoestima” leva a resultados nitidamente ruins: ou seja, interfere em sua vida e felicidade. Para piorar ainda mais as coisas, ego-classificações ou autoavaliações são infundadas, pois autoavaliações precisas ou “verdadeiras” ou classificações globais são virtualmente impossíveis de serem feitas. Pois uma classificação global ou total de um indivíduo envolve os seguintes tipos de contradições e pensamento mágico:

1. Como pessoa, você tem características quase inumeráveis — praticamente todas elas mudam de dia para outro ou de ano para outro. Como uma única classificação global de "você", portanto, pode ser significativamente aplicada a "todo você" - incluindo suas características em constante mudança?

2. Você existe como um processo contínuo — um indivíduo que tem passado, presente e futuro. Qualquer classificação de sua identidade, portanto, se aplicaria apenas a “você” em pontos únicos no tempo e dificilmente à sua continuidade.

3. Para dar uma classificação a “você” totalmente, teríamos que avaliar todas as suas características, ações, atos e desempenhos e, de alguma forma, adicioná-los ou multiplicá-los. Mas essas características são valorizadas de forma diferente em diferentes culturas e em diferentes épocas. E quem pode, portanto, avaliá-los ou ponderá-los legitimamente, exceto em uma determinada cultura em um determinado momento e em um grau muito limitado?

4. Se obtivermos classificações legítimas para cada uma de suas características passadas, presentes e futuras, que tipo de matemática empregaríamos para totalizá-las? Podemos dividir pelo número de características e obter uma classificação global “válida”? Poderíamos usar aritmética simples? Classificações algébricas? Classificações geométricas? Classificações logarítmicas? Qual?

5. Para avaliar “você” de forma completa e precisa, teríamos que conhecer todas as suas características, ou pelo menos as “importantes”, e incluí-las em nosso total. Mas como poderíamos conhecê-las todas? Todos os seus pensamentos? Suas emoções? Suas “boas” e “más” ações? Suas realizações? Seu estado psicológico?

6. Dizer que você não tem valor ou que não tem dignidade envolve várias hipóteses improváveis (e infalsificáveis): (1) que você tem, inatamente, uma essência de inutilidade; (2) que você nunca poderia ter qualquer valor; e (3) que você merece condenação ou punição eterna por ter o infortúnio da inutilidade. Da mesma forma, dizer que você tem grande valor envolve a hipótese improvável de que (1) você simplesmente tem um valor superior; (2) você sempre o terá, não importa o que faça; e (3) você merece a deificação ou recompensa eterna por ter essa dádiva de grande valor. Nenhum método científico que confirme ou falsifique essas hipóteses parece existir.

7. Quando você postula dignidade ou inutilidade global, você quase que inevitavelmente entra em um pensamento circular. Se você se vê como tendo valor intrínseco, tenderá a ver suas características como boas e terá um efeito de halo. Então você concluirá falsamente que, por ter essas boas características, você tem valor intrínseco. Da mesma forma, se você se considera sem valor, verá suas características “boas” como “ruins” e “provará” sua hipotética falta de valor.

8. Você pode acreditar pragmaticamente que “eu sou bom porque eu existo”. Mas isso permanece como uma hipótese tautológica e improvável, na mesma linha da declaração igualmente improvável (e indisprovável), “Eu sou mau porque existo”. Assumir que você tem valor intrínseco porque permanece vivo pode ajudá-lo a se sentir mais feliz do que se presumir o contrário. Mas filosoficamente, continua sendo uma proposição insustentável. Você também pode dizer: “Tenho valor porque Deus me ama” ou “Não tenho valor porque Deus (ou o Diabo) me odeia”. As suposições fazem com que você sinta e aja de certas maneiras; mas parecem essencialmente inverificáveis e infalsificáveis.

Por razões como as que acabamos de esboçar, podemos tirar as seguintes conclusões: (1) Você parece existir, ou ter vitalidade, por vários anos, e também parece ter consciência, ou percepção de sua existência. Nesse sentido, você tem uma singularidade humana, continuidade ou, se preferir, “ego”. (2) Mas o que você normalmente chama de seu “eu” ou sua “totalidade” ou sua “personalidade” tem uma qualidade vaga, quase indefinível; e você não pode legitimamente dar a ele uma classificação global ou uma "nota no boletim". Você pode ter traços ou características boas e ruins que o ajudam ou atrapalham em seus objetivos de sobrevivência e felicidade e que permitem que você viva de forma responsável ou irresponsável com os outros. Mas você ou seu “eu” realmente “não são” bons ou maus. (3) Quando você atribui a si mesmo uma classificação global, ou tem “ego” no sentido usual do termo, você pode se ajudar de várias maneiras; no geral, porém, você tende a fazer muito mais mal do que bem e se preocupa com objetivos tolos e laterais. Muito do que chamamos de “transtorno” emocional ou “sintomas” neuróticos resulta direta ou indiretamente da avaliação global de si mesmo e de outros humanos. (4) Portanto, é melhor você resistir à tendência de avaliar seu “eu” ou sua “essência” ou sua “totalidade” e é melhor que apenas avalie suas ações, traços, atos, características e desempenhos.

Em outras palavras, é melhor você reduzir muito do que normalmente chamamos de seu “ego” humano e reter as partes dele que podem ajudá-lo a experimentar a vida, escolher o que pensa provisoriamente que quer fazer ou evitar e aproveitar para descobrir o que é “bom” para você e para o grupo social no qual você escolheu viver.

Mais positivamente, as duas principais soluções para o problema da autoavaliação consistem em uma resposta elegante e outra deselegante. A solução deselegante envolve você fazer uma definição ou declaração arbitrária, mas prática, sobre si mesmo: “Eu me aceito como bom ou me avalio como bom porque existo”. Essa proposição, embora não absoluta e discutível, tenderá a fornecer a você sentimentos de autoaceitação ou autoconfiança e tem muitas vantagens e poucas desvantagens. Quase sempre funcionará; e impedirá que você tenha sentimentos de autodepreciação ou inutilidade enquanto você os mantiver.

Mais elegantemente, você pode aceitar esta proposição: “Eu não tenho valor intrínseco ou inutilidade, mas apenas vitalidade. É melhor avaliar minhas características e atos, mas não minha totalidade ou 'eu'. Eu me aceito totalmente, no sentido de que sei que tenho vitalidade e escolho sobreviver e viver o mais feliz possível e com o mínimo de dor desnecessária. Exijo apenas esse conhecimento e essa escolha — e nenhum outro tipo de autoavaliação”.

Em outras palavras, você pode decidir apenas classificar ou medir seus atos e desempenhos – seus pensamentos, sentimentos e comportamentos – vendo-os como “bons” quando auxiliam seus objetivos e valores e como “ruins” quando sabotam sua desejos e preferências sociais. Mas você pode simultaneamente decidir não avaliar seu “eu”, “essência” ou “totalidade”. Sim, de jeito nenhum!

A Terapia Racional Emotivo Comportamental (REBT) recomenda esta segunda solução, mais elegante, porque parece mais honesta, mais prática e leva a menos dificuldades filosóficas do que a deselegante. Mas se você insiste absolutamente em uma autoavaliação, recomendamos que se classifique como “bom” apenas porque está vivo. Esse tipo de “egoísmo” o colocará em poucos problemas!


Burns, D.D. (1993).  Ten Days to Self-Esteem.  New York: Morrow. 

Dryden, W. (1994).  Overcoming Guilt!  London: Sheldon Press. 

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Fonte: Albert Ellis, REBT Diminishes Much of the Human Ego, Albert Ellis Institute, Nova York, NY, EUA, 1996.

23 de novembro de 2022

As características fundamentais da vida adulta


É certo que cada pessoa tem suas próprias características, seus próprios valores e suas próprias atitudes. Mas aqui do que vamos tratar são as características fundamentais que marcam a passagem da vida infanto-juvenil para a vida adulta. Não me refiro às características físicas, sobre as quais um bom manual de anatomia basta para delineá-las: diferenças em tamanho, musculatura, desenvolvimento cerebral, produção hormonal etc., são visíveis e, dadas as condições mínimas de cuidado e alimentação, inevitáveis. Por outro lado, tampouco me refiro às características sociais, como levar uma vida independente e produtiva, mesmo porque tais traços também são de certa forma visíveis e sobre as quais restam poucas dúvidas. Me refiro às características psicológicas, por definição invisíveis, que devem estar presentes para que uma "criança grande" possa adentrar à vida adulta e buscar sua realização pessoal.

Tais características não surgem naturalmente, como é o caso das características físicas. A simples passagem do tempo não basta para que se desenvolvam. É necessário o emprego da intenção consciente, de um esforço pessoal e contínuo, para que possam estabelecer-se como hábitos mentais e, por conseguinte, como parte de uma identidade adulta, saudável e sensata.

As diversas terapias cognitivo-comportamentais listam alguns comportamentos e valores que habitualmente se encontram em adultos saudáveis e mnimamente desenvlvidos. Aqui tomaremos as características listadas pela psicóloga espanhola Leonor Lega, embora pequenas variações possam ser encontradas em outras obras.

(1) Responsabilidade emocional vs. irresponsabilidade emocional

As pessoas saudáveis tendem a aceitar a resposabilidade por sua própria existência em vez de culpar o passado, os outros ou as condições sociais por seus pensamentos, sentimentos e comportamentos disfuncionais. Elas são capazesde escolher com liberdade suas própria emoções, comportamentos e estilo de vida.

As pessoas saudáveis sabem que elas mesmas são as principais responsáveis por seus próprios transtornos. Elas não dizem "Ele me ofendeu", mas "Eu me ofendi". Isso significa que não é "ele" (seja esse "ele" quem seja) que é injusto, que lhe causa malestar, que não é razoável, que lhe prejudica, que não tem direito de fazer o que fez etc., mas apenas que ele está louco, que ele está muito perturbado, que ele tem direito a estar enganado, que sua conduta é má etc. Observe que em lugar de sentir raiva, que não apenas é um sentimento negativo mas insalubre, sentimos aborrecimento, pesar e decepção, que são sentimentos negativos mas saudáveis.

(2) Autointeresse vs. interesse social

As pessoas sensatas e emocionalmente saudáveis tendem a estar interessadas prioritária e fudamentalmente em si mesmas, e a colocar ligeiramente à frente seus próprios intereses em relação aos interesses dos outros. Elas se sacrificam a si mesmas por aquelas que estimam, mas só até certo ponto, nunca de forma completa ou totalmente entregada. Os seres humanos se preocupam sobretudo de si mesmos, se interessam, basicamente, por seu próprio bem-estar e por sua própria sobrevivência.

A ideia aqui não é ser egoísta, ou seja, usar o próximo para seu próprio benefício, mas tampouco permitir que o próximo seja um elemento que promova sua destruição, não importa se o faça consciente ou inconscientemente. O interesse social (familiar, laboral, escolar, comunitário, religioso, não importa) é racional, pois escolhemos viver em comunidade, mas passa a ser insensato se tal convivio implica em sacrificar-se enquanto pessoa, enquanto ser humano, enquanto adulto.

(3) Autodireção vs. dependência

As pessoas adultas, ao assumirem responsabilidades e compromissos, tendem a tomar as rédeas de suas próprias vidas e podem cooperar, apoiar e colaborar com os demais. Mas não precisam ou exigem um apoio ou socorro constantes dos outros.

A autodireção ensina às pessoas a saberem o que querem fazer de suas vidas, a seguirem seus caminhos e a tomarem suas próprias decisões, mesmo que fracassem ou se enganem, e a não a seguirem cegamente o que dizem seus pais ou outras pessoas. O adulto controla sua vida, pensa por si mesmo e é autônomo em suas decisões. Ele escolhe suas próprias metas, persegue ativamente seus próprios objetivos, toma suas próprias decisões e supera as dificuldades que surgem pelo caminho.

(4) Flexibilidade vs. rigidez

Os indivíduos adultos, sãos e maduros tendem a ser flexíveis em sua forma de pensar, abertos à mudança, tolerantes e pluralistas em sua visão das coisas e das pessoas. Não estabelecem regras rígidas e inamovíveis acerca de si mesmos e dos demais. O pensamento flexível permite ajustar-se, gerenciar melhor o tempo, romper a monotonia e adaptar-se às novas circunstânias que requerem novas formas de pensar e agir. Um visão extremista das coisas, um visão "8 ou 80", resultará em problemas.

Mas exatamente o quê devemos flexibilizar? Precisamente os valores que se situam abaixo dos valores que aqui elencamos. Os valores devem ser encarados como preferências, não como normas rígidas. Se aparece uma nova informação que põe em xeque uma visão que temos sobre determinado assunto ou mesmo sobre a vida como um todo, convém que a adaptemos. Os valores não somos nós. Nós temos valores, não os valores a nós. Portanto, para um adulto, a mudança é um desafio, não uma ameaça. 

(5) Incerteza vs. certeza absoluta

Os adultos tendem a reconhecer e aceitar a ideia de que vivem em um mundo de incertezas e probabilidades, onde não existem as certezas absolutas. Se dão conta, inclusive, que viver nesta vida incerta é às vezes fascinante e divertido, não algo terrível. Importante: a incerteza aqui refere-se ao futuro, ou seja, viver com certo grau de ordem e organização é, sim, benéfico, desde que não se exija saber exatamente o que acontecerá no futuro.

A vida é como uma roleta de cassino: nunca se sabe se, e quando, vai sair o prêmio para você. Melhor que a segurança e a certeza é a aceitação de que não podemos controlar o futuro.

(6) Interesse vital vs. desinteresse vital

A maoria das pessoas tende a sentir-se mais sãs e felizes quando estão vitalmente ocupadas em um projeto alheio a si mesmas, seja em um tema de interesse coletivo, seja algum comprmisso humano, ao qual outorgam tanta importância que planejam boa parte de sua vida diária em função desse interesse ou compromisso.

Uma vida com pouco ou nenhum compromisso acarreta em aborrecimento, insatisfação e mesmo depressão. O próprio indivíduo escolhe seus interesses, seja a educação física, intelectual ou espiritual, seja alguma atividade extra-laboral, seja costurar etc. Esas metas são especialmente importantes conforme envelhecemos e os objetivos meramente laborais perdem sua relevância e interesse e criar os filhos perde o sentido.

(7) Pensamento científico vs. pensamento mágico

Os adultos tendem a ser mais objetivos, racionais e científicos. São capazes de sentir profundamente e agir de maneira concentrada, e tendem a regular suas emoções e ações refletindo sobre elas e avaliando as consequências de suas condutas a curto e longo prazo.

A perspectiva religiosa ou mística não deve ser a base da vida adulta, e sim a evidência científica. Qualquer traço de fanatismo ou visão sectária e preconceituosa deve ser recusada in limine. Assim também uma teoria científica, para ser levada a sério, deve ser comprovada cientificamente.

Infelizmente parece que o ser humano tende a pensar de forma mágica, criando neuroses e transtornos emocionais a partir de pensamentos completamente ilógicos. Qualquer hipótese que não se demonstre empiricamente deve ser vista como mágica.

(8) Risco vs. controle

Uma vida perfeitamente predizível e segura em geral resulta insatisfatória, monótona e aborrecida. As pessoas adultas e, portanto, emocionalmente saudáveis, tendem a assumir riscos, aprender coisas novas, levar a cabo ações nas quais não se tem garantia de sucesso, iniciam novas relações pessoais etc. mesmo que existam muitas possibilidades de fracassar. 

E por que assumir riscos é importante? Porque essa é a forma de se conhecer nossos limites pessoais, expandir nossos interesses, resolver problemas e desenvolver habilidades. Em suma, é mediante as experiências que arriscamos viver que expandimos nossa personalidade e testamos nosso caráter.

A propósito, a palavra "risco" é equívoca aqui. Ora, só existe "risco" quando imaginamos que algo possa dar errado. Mas se não pensamos que tudo tem que funcionar perfeitamente, então não há "risco" propriamente. A ansiedade é a predição de um horror futuro que está na cabeça do indivíduo. Claro que "errado" é quando as coisas não funcionam como queremos, mas nada disso é terrivel ou espantoso.

(9) Felicidade vs. contentamento

Os adultos saudáveis sabem trocar os prazeres imediatos pela felicidade futura. Em outras palavras, aprendem que desenvolver-se como pessoa e ampliar sua consciência vale mais do que a obtenção dos pequenos contentamentos de curto prazo. Comer é gostoso, mas ter um corpo bonito e saudável é melhor. A experiência de comer é boa, mas a experiência de ser capaz de educar e direcionar o próprio corpo é muitíssimo melhor. Idem para bebida, álcool, drogas, dinheiro, sexo, bens móveis e imóveis, compras etc.

Os prazeres imediatos têm, sim, seu papel na vida adulta, mas eles são inseridos de maneira racional, de maneira que façam parte da experiência total de longo prazo do indivíduo, não que sejam elas mesmas a experiência principal da vida.

Conclusão

A vida adulta não é uma vida consciente, da qual até mesmo os animais disfrutam, mas uma vida autoconsciente, ou seja, uma vida na qual a consciência superior (noûs) não esteja dispersa nas correntes e movimentos da alma inferior (desejos, imaginações, devaneios, sensações, memórias, subconsciente) e do corpo, mas conduza todos esses elementos e os alinhe de acordo com aquilo que seja condigno para a vida da alma superior (noûs, logos, pneuma). As características aqui indicadas são as balizas dentro das quais o homem adulto deve viver, mas elas mesmas não fornecem os valores e os sentidos para a vida de cada um.

Quem sabe assim o noûs, liberto dos devaneios da vida infanto-juvenil do ego, possa estar preparado para abraçar uma nova identidade, uma nova dimensão, digamos, dada por aqueles que se encontram ontologicamente acima dele: os anjos, os logoi das coisas criadas, os santos e o próprio Espírito. Mas isso é uma nova aventura, um capítulo completamente novo e fresco na vida de nossa raça.

Fonte: Leonor Lega,  Terapia Racional Emotiva Conductual, Ediciones Paidós, Barcelona, Espanha, 2017.

Imagem: Mulher com frutas, pintura de 1931 do artista eslovaco Martin Benka. 

3 de outubro de 2022

Como lidar com doenças terminais


Se você está enlutado por causa de uma doença terminal, seja sua ou de um amigo, é importante que entenda a diferença entre o luto saudável e racional que resulta dessa perda pessoal e o luto irracional (auto-destrutivo). Este em geral resulta em depressão.

Ocorre que você exige que o mundo não seja tão injusto a ponto de abreviar sua vida. Ou que você insiste que o mundo absolutamente não deveria lhe tratar dessa maneira tão injusta que está lhe tratando. Ora, que masturbação mental maravilhosa! Ao choramingar e reclamar sobre sua morte iminente você estará travando uma batalha que jamais poderá vencer. Todos morremos. Poucos fatos são tão inescapáveis quanto esse. Preste atenção às suas exigências, escute a maneira como você catastrofiza a situação, cuide para que esteja apenas desalentado e desanimado sobre o estado infeliz em que se encontra em vez de estaar enlutado. Observe e veja se você está condenando a Deus, os médicos ou outras pessoas que você acha que são os culpados pela sua doença. Encontre aquilo que lhe faz horrorizar pela sua doença.

Sim, claro, se uma pessoa jovem se encontra em estado terminal, trata-se de uma situação triste e injusta, mas situações tristes e injustas às vezes têm de existir. Dizer que você deveria tê-la ajudado mais é quase o mesmo que dizer que você deveria ter sido uma pessoa diferente. Além disso, nunca se esqueça que você é sempre um ser falível, sempre imperfeito, sempre propenso a errar e às vezes a transgredir.

Sempre que você sentir raiva isso significa que você está condenando médicos, amigos ou outras pessoas por lhe terem decepcionado. Você insiste que eles deveriam ter agido de maneira diferente. Eles agiram de acordo com seus caráteres e temperamentos.

Às vezes ocorre de despejarmos a raiva na pessoa amada que está ali moribunda ou até mesmo já morta. Ora, ao agir assim você está exigido que ela não deveria ter decepcionado você com sua morte. Quanta arrogância!

Fonte: Albert Ellis e Michael Abrams, How to Cope with a Fatal Illness, Barricade Books, Nova York, EUA, 1994.

26 de março de 2021

Gestão emocional: a essência da liderança


A sensibilidade racional

Reconhecer suas neuroses é bom; decidir fazer algo para resolvê-las é melhor ainda; mas fazer esse algo, concretamente, é uma coisa totalmente diferente. Cuidado, contudo, para que esses insights não se transformem em pensamentos do tipo: “Eu vejo com clareza que ando me comportando de maneira idiota, portanto sou um idiota!”

A solução? Adquirir sensibilidade racional. Em outras palavras, tornar-se sensibilizado, mas não sensível: em termos mais claros, ensinar-se como ser sensível sem ser vulnerável.

A sensibilidade racional consiste em empregar seus pensamentos e emoções de maneira que você se torne cada vez mais sensível e perceptível aos seus próprios erros e aos erros dos outros. Ao mesmo tempo, consiste em tornar-se infinitamente menos vulnerável, menos condenatório, quando você erra, ou quando os outros erram. É a capacidade de agir de maneira autêntica, e deixar que os outros ajam de maneira autêntica, sem condenar-se a si ou aos outros quando formos tolos, quando cometermos erros ou quando agirmos de maneira autodestrutiva.

Um dos pensamentos mais comuns nessas situações é que devemos ser castigados pelo que fizemos. Castigo, neste sentido, não significa apenas penalização. Se você continuar apresentando um mal desempenho o que poderá acontecer é que será penalizado: ou seja, você não será recompensado por ter sido bem sucedido, será criticado por cometer algum erro, não poderá continuar no projeto etc. Mas castigo significa penalização mais condenação. Significa que só porque cometeu um erro você tem que ser especialmente condenado a sofrer nesta terra, pois você supostamente violou a lei da natureza de que você deve, você tem que, você precisa ser bem-sucedido.

A sensibilidade racional lhe mostrará, de maneira explícita e eficiente, como desinventar os demônios e duendes que você idiotamente inventou e como substituí-los por filosofias de vida racionais: (1) “Não é horrível que meu departamento tenha tido um desempenho tão ruim este ano; é apenas muito inconveniente”; (2) “É claro que eu consigo aguentar esse tipo de fracasso. Nunca irei gostar de fracassar, mas sempre poderei lidar de maneira elegante com isso”; (3) “Não há, nem nunca poderá haver, nenhuma evidência de que eu seja uma pessoa indigna por ter tido um desempenho tão ruim”; (4) “Não importa se eu continuar cometendo erros, eu nunca merecerei ser castigado por meu comportamento ineficaz. Castigo significa condenação; e nem eu nem ninguém seremos condenados mesmo que façamos algo tolo ou irresponsável”.

A essência de praticamente todos os transtornos humanos reside em seu caráter ditatorial, grandiloquente, exigente, típico de criancinhas de dois anos de idade. As pessoas naturalmente, e facilmente, a causa de suas predisposições biológicas e ambiente familiar degradado, creem com devoção e intolerância que elas precisam o que elas querem, que elas precisam ter o que elas preferem, que é um horror se elas forem privadas.

A sensibilidade racional sensibiliza o individuo a suas próprias exigências pueris, bem como as dos demais. Ela lhe mostra como é completamente louco lamuriar-se, reclamar, choramingar e insistir que o universo foi feito especialmente para ele. O indivíduo que pratica a sensibilidade racional, por outro lado, não tem certeza de nada; ele aceita de bom grado o acaso e a probabilidade; ele percebe que nem ele nem ninguém é uma pessoa indigna.

 A sensibilidade racional e o executivo

De certa forma o executivo é um revolucionário nato. Ele naturalmente se conforma em grande medida às regras organizacionais vigentes: pois ele sabe perfeitamente bem que se não as seguir não conseguirá nem mesmo aproximar-se da direção da empresa a qual pertence.

Porém, o líder organizacional realmente dedicado às suas atividades está sempre, de maneira automática, procurando ineficiências por eliminar e eficiências por construir. Raramente fica satisfeito em seguir indefinidamente as mais “bem-sucedidas” e consolidadas políticas da empresa; de outra forma, seu trabalho se tornaria rotineiro e tedioso. Dado que “mudanças radicais” é outro nome para “revolução”, o executivo é sob vários aspectos (e não somente teoricamente) uma das criaturas mais revolucionárias da terra.

O executivo, ademais, é um ser essencialmente lógico e racional. Ou, pelo menos, deveria ser! Pois embora seja emotivo, líder e orientado por comportamentos, ele é forte em pensar, imaginar, planejar, estruturar e teorizar. Ele não apenas age; ele usa a cabeça. Talvez seu ponto mais forte esteja precisamente nisso: enquanto alguns são exímios pensadores, outros extremamente emotivos e alguns extraordinariamente impetuosos, o executivo tende a empenhar-se nessas três formas de comportamento.

Mas como? Bem, tente por um momento observar o homem, não apenas sua obra. Por que o executivo tem poder para executar? Em última instância, porque ele realmente quer. Ele quer, prefere, gosta imensamente de liderar os outros e dirigir empresas. Ele deseja intensamente a eficiência e o sucesso. Ele anseia apaixonadamente atingir os objetivos da empresa. Ele cobiça ativamente vários tipos de poder. Ele normalmente detesta, despreza e odeia a ineficiência, a fraqueza, a desordem e o desperdício. Ele sabe muito bem onde ele quer chegar na vida e está absolutamente determinado a chegar lá.

Mas será que seus desejos, gostos, vontades, ânsias, cobiças, ódios e determinações realmente representam a epítome do desinteresse, da pura objetividade e da frieza? Não tenha dúvida! Muitos de seus métodos podem ser incrivelmente frios e calculados. Ora, mas e as chamas da motivação, aquela motivação que ventila e promove esses métodos? Será que elas também são frias e calculadas?

O verdadeiro executivo é, portanto, naturalmente racional, mas é também naturalmente, no melhor sentido do termo, sensível. Ele não apenas sabe o que é, mas também o que deveria ser.

A sensibilidade racional é sensatamente dualista. Ela reconhece a existência das inclinações totalmente centradas no prazer, as tendências incrivelmente egoístas e maravilhosamente individualistas do cidadão saudável. Mas não se esqueça: as pessoas, em especial os executivos, trabalham com outras pessoas.

A sensibilidade racional o ajudará a que se sensibilize com você mesmo; com as pessoas mais próximas a você (esposa, filhos); a seus colegas de trabalho, a seus superiores e subordinados. Ela oferece a você uma chave para a humanidade: entender os comportamentos incrivelmente repetitivos das pessoas ao seu redor.

 Determinação

Antes de mais nada, o executivo competente é uma pessoa determinada, que decide. Ele pensa por meio de planos e cronogramas. Então é quando ele decide implementá-los com determinação.

Adiar deliberadamente uma decisão é sinal de uma necessidade terrível de aprovação.

Em primeiro lugar, desafie-se: as decisões são parte do processo gerencial; enquanto você for gerente, é você quem decidirá se deve ou não manter uma determinada pessoa na equipe. Quem disse que todos devem tratar você com isenção total? Sim, é triste mandar alguém embora; sim, haverá consequências à esposa e aos filhos do funcionário, que certamente sofrerão; mas não é você que está encorajando a miséria dele, mas ele mesmo.

Mas e o excesso de determinação, ou seja, a ânsia de decidir rapidamente? Não seria isso um problema também? Sim, pode ser. Se sua raiva, sua autodepreciação, sua baixa tolerância à frustração, se tudo isso foi a verdadeira causa de sua decisão impulsiva, açodada, e impetuosa de demitir o funcionário, então, sim, você maculou sua capacidade executiva, sua posição.

Quanto mais reativo você for em relação ao comportamento inadequado de um de seus subordinados, tanto mais será alvo de seu ressentimento e de seu enfrentamento. Dado que esta é a maneira que muitas (mas não todas) pessoas são, por que não aceitar tranquilamente esse fato e até mesmo usá-lo a seu favor?

Pois se você realmente for capaz de resolver o problema fundamental do “ego” e da “autovalorização”, você não apenas estará à frente no jogo da eficiência executiva, mas se tornará invulnerável à maioria dos golpes e “insultos” que certamente receberá ao longo de sua trajetória em outras importantes áreas da vida.

 Concentração

O elemento mais importante para a competência executiva é provavelmente a capacidade de concentração continuada.

Eis algumas regras gerais: Tente concentrar-se nas coisas mais importantes a serem feitas, por você e por outros, para cumprir os objetivos da empresa. Observe sua vida social – e a dos outros – no ambiente de trabalho.

O que está bloqueando a sua concentração eficiente? Ora, você. A principal cagada é provavelmente sua baixa tolerância à frustração, ou, em outras palavras, seu hedonismo de curto prazo. Sim, você sabe que não deve perder tempo com trivialidades, com socializar excessivamente com seu chefe, seus pares, seus subordinados, que você deve concentrar-se no que é realmente importante etc. Mas conhecimento não é ação.

Que tipo de merda está fazendo com você mesmo? Este deveria ser o principal aspecto sobre você: adiar o prazer presente em prol de um ganho no futuro.

 A relação com os outros

Um dos aspectos mais importantes a que o executivo deve prestar atenção é sua relação com os outros. É necessário manter uma relação amigável, embora não necessariamente intima, com eles.

Você sabe perfeitamente bem que há tarefas que deve executar, por mais chatas e inoportunas que sejam; que há pessoas com quem deve relacionar-se, por mais estúpidas e desprezíveis que sejam; que há prazos e processos a cumprir, por mais draconianos e arbitrários que sejam. O problema não é a respeito no quê você deve disciplinar-se, mas como. A falta de disciplina normalmente é causada por uma ideia irracional básica na qual literalmente milhões de indivíduos creem. Ela reza que é mais fácil evitar enfrentar as dificuldades e responsabilidades da vida do que assumir formas mais recompensadoras de autodisciplina.

 Autoaceitação

A característica humana mais valiosa talvez seja a autoaceitação plena.

Poucos psicólogos sabem o que é autoaceitação. Frequentemente confundem autoaceitação com “autoconfiança”, “autoestima”, “autoaprovação”, “amor próprio” e coisas do tipo, que em muitos aspectos não só são diferentes mais contrários à autoaceitação.

A autoaceitação incondicional significa exatamente o que parece significar: que o indivíduo se aceita completamente a si mesmo, a sua existência, a seu ser, a sua vivacidade, sem qualquer tipo de restrição ou condição. Por outro lado, o que normalmente chamamos de “autoconfiança” ou “autoestima” são conceitos altamente condicionados de aceitação. Pois se você confia em si mesmo ou estima-se a si mesmo invariavelmente o fará por alguma razão, porque faz algo bem. E se esse é o caso, então você imediatamente perderá essa confiança ou estima assim que começar a fazer coisas mal feitas. “Eu sou bom não porque eu faça algo bem feito ou porque eu seja amado pelos outros, mas pelo simples fato de que estou vivo. Minha bondade está em minha vivacidade. Ponto final.”

A autodepreciação frequentemente leva ao outro lado da moeda da insegurança pessoal: a exaltação compulsiva do ego. Se você acha que não vale nada enquanto pessoa somente porque fez coisas erradas ou mal feitas, então começará a tentar provar a si mesmo que você na verdade é, sim, uma pessoa digna e de valor; e a maneira com que fará isso é fazer coisas que supostamente inflem seu ego e dar-se tapinhas nas costas por ter feito elas.

As tentativas de inflar o ego são provavelmente os comportamentos mais destrutivos da eficiência organizacional.

 Sentimentos de hostilidade

A autoafirmação é um dos mais saudáveis objetivos no ambiente de trabalho, e um dos que mais o ajudarão a atingir (e manter) a eficiência executiva. Mas o problema é que é muito fácil confundir autoafirmação com hostilidade. Dado que a hostilidade, ou raiva, nos motiva a ser assertivos e às vezes a atingir bons resultados (ou ao menos resultados rápidos), então muita gente conclui que (1) a raiva é um elemento necessário da afirmação, (2) a raiva é uma demonstração de força, (3) a raiva é uma demonstração autêntica a respeito do que está acontecendo e (4) a raiva é altamente desejável.

A afirmação (ou assertividade) é saudável porque demonstra que você quer algo e que está determinado a fazer alguma coisa para obter esse algo, mesmo que algumas pessoas pensem diferente e queiram que você faça o que elas querem.

Mas a hostilidade é algo completamente diferente. A hostilidade não é apenas batalhar pelo que você quer; é depreciar, enquanto ser humano, àqueles que querem algo diferente de você.

 Depressão

Será que a sensibilidade racional ensina às pessoas que elas nunca, jamais, devem sentir-se deprimidas – nem mesmo quando alguém querido morrer ou quando uma empresa entrar em falência? Sim, é exatamente isso que ela ensina. Pois a depressão, quando corretamente definida, não significa apenas tristeza profunda, infelicidade ou luto; depressão significa também autodepreciação, autopiedade e um sentimento de total desesperança.

Pois sentir-se frustrado, contrariado, chateado, tudo isso naturalmente o encoraja a sentir-se triste e cabisbaixo. Mas sentir-se deprimido, desesperado, completamente melancólico, significa, acima de tudo, que você está torturando-se a si mesmo por ser torturado, que está exigindo e fazendo birrinha porque o mundo deveria ser arrumado de tal forma que você nunca seja frustrado, contrariado e chateado.

Quase todos os transtornos de personalidade resultam do mecanismo de culpa irrealista e exagerada – culpar a si mesmo, os outros, o mundo. Quando se comporta neuroticamente você flagela pessoas e coisas de maneira supergeneralizada somente porque algumas características delas são indesejadas. Ao invés de querer, desejar e preferir que essas pessoas e coisas tenham características melhores, você exige e ordena que elas melhorem completa e imediatamente.

Fonte: Albert Ellis, Executive Leadership, Institute for Rational Living, Nova York, NY, EUA, 1972. 

17 de janeiro de 2020

Os três pilares da REBT



Há três ideias básicas que caracterizam a REBT e a diferenciam das terapias cognitivo-comportamentais convencionais. 
  1. A primeira ideia é a solução elegante. A REBT entende que nós não ajudamos as pessoas quando fugimos da ideia de que coisas ruins possam acontecer com elas. A terapia funciona melhor quando fornece às pessoas mecanismos eficazes para lidar com situações ruins e negativas. Assim que a famosa pergunta de Albert Ellis nas suas terapias continua sendo perfeitamente válida: “Qual a pior coisa que pode acontecer com você?” Lidar com situações negativas exige uma análise filosófica de seus próprios recursos, valores e lugar no universo. Esta postura filosófica é a ideia central da obra de Ellis. Ela vai de encontro à tendência humana de negação. Infelizmente, a maioria dos terapeutas provavelmente nunca aceitará esta ideia.
  2. O segundo aspecto da REBT é a ênfase que Ellis aplica ao papel da exigência nos transtornos emocionais. Expressões como “tem que”, “precisa”, “deveria”, “não pode” possuem vários sentidos. Um dos sentidos tem a ver com as atividades ou coisas que são preferíveis, desejáveis ou benéficas. O segundo conjunto de sentidos afirma que o “tem que” é a premissa primeira em um silogismo condicional. Se você quer X então tem que fazer Y. O terceiro sentido se refere a alguma realidade. Por exemplo: se você soltar a caneta ela tem que cair na mesa. Ocorre que nós usamos a mesma expressão para representar o desejável e preferível e a realidade. Assim sendo, as pessoas transformam suas preferências em leis da física. O conceito de exigência é abstrato e difícil de entender. O próprio Ellis notava que muitos clientes nunca conseguiram entender a diferença entre preferência e exigência. Quando conseguiam entendê-la, dizíamos que aceitaram a realidade.
  3. A terceira ideia, que é bastante impopular fora do círculo da REBT, é o que Ellis ensinava sobre a autoestima. A maioria dos psicólogos e profissionais da saúde mental acreditam, assim como a REBT, que a autocondenação produz depressão, culpa, ansiedade e outros transtornos emocionais. A solução de Ellis é abandonar a autoestima e parar de se autoavaliar. A muitos psicoterapeutas isso soa bizarro e incompreensível. A noção de evitar autoavaliações e abandonar a autoestima é simplesmente impopular. É improvável que evitar as autoavaliações seja uma prática a ser adotada no curto prazo.

A REBT defende algumas ideias filosoficamente abstratas e impopulares, por isso acho que ela continuará sendo uma terapia distinta das demais terapias cognitivo-comportamentais convencionais. A técnica parece ser preferida à compreensão. Creio que os psicoterapeutas em geral não estão prontos para uma abordagem filosófica em suas terapias.

Fonte: Raymond DiGiuseppe, Reflection on My 32 Years with Albert Ellis, Journal of Rational Emotive and Cognitive-Behavior Therapy, dezembro de 2011.

29 de julho de 2018

O direito de estar errado

-- Ora, não importa o quanto a pessoa esteja errada, todo ser humano tem o direito de estar errado -- e você não está lhe dando este direito.

-- Mas por que todo ser humano tem o direito de estar errado?

-- Simplesmente porque ele é humano; e pelo fato de ser humano ele é falível e propenso a erros. Se o seu chefe, por exemplo, está errado, então seus erros obviamente resultam de alguma combinação entre sua estupidez, ignorância e transtornos emocionais; e ele, como ser humano falível que é, tem todo o direito de ser estúpido, ignorante ou emocionalmente transtornado -- por mais que talvez fosse muito melhor que ele não fosse assim. Você está lhe negando o direito de ser humano e, pior, está esperando que ele -- note como isso é bobo, admita! -- se comporte de maneira super-humana ou angélica. Não importa se seu chefe esteja certo ou errado, guardar rancor por ele estar, na sua opinião, errado dificilmente vai fazer ele agir corretamente, não acha? E o seu ressentimento, sem sombra de dúvida, não vai te ajudar ou fazer você se sentir melhor. Então para que serve o seu ressentimento? Em outras palavras, a postura do ressentimento não faz sentido. Além disso, não faz sentido tornar a coisa ainda mais penosa e fastidiosa ao continuamente reproduzir a si mesmo a ideia de como a coisa toda é horrível.

Fonte: Albert Ellis, Reason and Emotion in Psychotherapy, Birch Lane Press, Nova York, NY, EUA, 1994. p. 162-163.

15 de julho de 2018

Razão e emoção na psicoterapia


Finalmente solucionei, pelo menos para meu gosto, o grande mistério do porquê tantos milhões de seres humanos não apenas se tornam emocionalmente transtornados, mas por que eles persistem em permanecer assim. O própria recurso da linguagem, que os torna essencialmente humanos -- a capacidade de falar aos outros e de falar a si mesmos -- também os capacita a abusar desse recurso ao falar asneiras a si mesmos: definir as coisas como terríveis e inaceitáveis quando, na pior das hipóteses, essas coisas são apenas muito inconvenientes ou perturbadoras.

Em especial sua capacidade de falar, de falar a si mesmas, e sua capacidade de filosofar permite às pessoas que esqueçam que suas necessidades de sobrevivência são físicas ou sensoriais -- tais como comidas, fluidos, abrigo e boa saúde. Suas capacidades linguísticas os permitem, de maneira ilegítima, a traduzir seus desejos psicológicos -- tais como amor, aprovação, sucesso, lazer -- em necessidades definicionais. Assim, uma vez que definam seus desejos ou preferências como necessidades, ou aceitem as definições de seus pais ou de outras pessoas, a habilidade autocomunicante dos seres humanos continuará a lhes brindar com a doce e meiga capacidade de continuar a definir suas ¨necessidades¨ de maneira distorcida, mesmo que não haja nenhuma evidência que respalde suas definições.

* * *

Definir o que somos pelo que fazemos é o que chamo de salto ¨mágico¨ na terra do non-sequitur. E o que é pior: esse tipo de pensamento definicional praticamente arruina seus próprios fins. Pois o objetivo de chamar-se de ¨mau¨ quando você faz coisas más é ajudar a que você cometa menos atos desta natureza no presente e no futuro. Mas uma vez que você se defina como ¨mau¨ então você apenas e tão-somente fará ¨coisas más¨ e uma vez que você aja como se assim fosse então quase sempre desempenhará mais ações más.

* * *


* * *

1. Muitas preferências e valores mais que questionáveis são incutidos pelos pais durante a tenra infância, tais como as preferências de completa abstinência sexual antes do casamento. Mas em geral estas preferências não são transtornantes até que sejam transformadas em um ¨tem que¨ absolutístico: ¨Eu tenho que ser perfeitamente abstinente em todos os momentos antes do casamento e nunca nem mesmo desejar sexo não-marital!¨

2. Os ¨tem que¨ absolutistas, incondicionais, são parcialmente incutidos pelos pais, mas de maneira altamente inconsistente e contraditória. Assim, quando seus pais lhe dizem ¨Você tem que ser sexualmente abstinente¨ ou ¨Você sempre tem que fazer a lição de casa¨ e você os desobedecer, o que realmente poderá lhe acontecer? Quase sempre, pouco ou nada. Eles gritam e esperneiam por alguns minutos, e acabou: eles voltam a serem amorosos e gentis com você! Então a mensagem que eles continuam a transmitir é: ¨É preferível, em nossa família e cultura, que você continue virgem, meu querido, e a gente nõ vai gostar se você deixar de ser, mas obviamente você pode fazer praticamente qualquer coisa que quiser em termos sexuais e nada terrível vai acontecer com você¨. Mas é quando você toma de maneira séria e literal esses ¨tem que¨ e os transforma em seus próprios comandos é que você tende a se transtornar com isso.

3. Portanto seus ¨tem que¨ em geral não são aprendidos, mas são inventados por você mesmo, fabricados a partir de valores (frequentemente aprendidos) ou preferências, e os transforma em comandos neuróticos, perfeccionistas.

Convenhamos, na maioria das vezes somos nós mesmos que nos autoneurotizamos.

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Praticamente todos os seres humanos têm a tendência inata de transformar suas fortes preferências em exigências e deveres absolutistas, dogmáticos.

* * *

As pessoas transtornadas pensam irracionalmente -- e sentem e se comportam de maneira autodestrutiva -- porque possuem tendências inatas para agir assim, aprendem a agir assim a partir de seus pais e do ambiente cultural, e tendem a praticar e a se habituarem a agir assim desde a tenra idade. Elas muito facilmente acabam pensando de maneira disfuncional. Alguns dos principais processos de pensamento nos quais elas se inculcam -- e que inclusive se sobrepõem e se reforçam muturamente -- são: (1) Elas criam falsas generalizações. (2) Elas tiram conclusões irrealistas. (3) Elas lançam mão de non-sequiturs. (4) Eles encaram as afirmações definicionais e tautológicas como se fossem factuais. (5) Elas acreditam devotamente em conclusões teológicas infalsificáveis. (6) Elas persistem em inventar e sustentar conclusões autodestrutivas. (7) Elas tiram conclusões sobre seus transtornos que acabam produzindo outros transtornos secundários. (8) Elas criam conclusões desesperançosas. (9) Elas se convencem de que seus pensamentos e sentimentos tem existência ¨objetiva¨ e independente, ao invés de serem em sua grande maioria inventados por elas mesmas. (10) Elas desprezam ou rejeitam as relações entre suas crenças irracionais neuróticas e seus comportamentos.

* * *

1. Os seres humanos desenvolvem pensamentos e processos conscientes e inconscientes, e criam seus sentimentos e comportamentos neuróticos com crenças irracionais conscientes e inconscientes. Contudo, em vez de esses pensamentos irracionais estarem ocultos ou reprimidos (como ensina a teoria psicanalítica), quase sempre se encontram imediatamente abaixo do nível da consciência (aquilo que Freud chamava de pensamento pré-consciente) e podem facilmente ser resgatados e revelados mediante uso da teoria REBT.

2. Embora antigos eventos e sentimentos traumáticos possam estar inconscientemente reprimidos, isso é bem mais raro do que se imagina; e mesmo assim os sentimentos transtornantes que acompanham tais memórias traumáticas não sobrevivem por causa desse condicionamento antigo. Na maioria das vezes, os traumas infantis e as filosofias neuróticas que originalmente os acompanham (e que frequentemente são inventados pelos indivíduos neurotizados) são mantidos vivos pelas próprias pessoas ¨traumatizadas¨. É em grande medida seu próprio comportamente retraumatizante (assim como as tentativas naturais de dar conta ao que aconteceu) que mantém vivas as antigas perturbações. Boa parte desta retraumatização pode estar inconsciente -- ou seja, acompanham as crenças básicas horrorizantes e autodestrutivas.

* * *

Há algo importante que não posso deixar de dizer. Estou convencido, embora não de maneira dogmática, de que existem limitações biologicamente inerentes aos seres humanos que os impedem de pensar consistentemente e construtivamente sobre seus próprios comportamentos. A resistência a novas ideias é uma parte estatisticamente normal da vida humana.

Fonte: Albert Ellis, Reason and Emotion in Psychotherapy, Birch Lane Press, Nova York, NY, EUA, 1994. Trechos selecionados.

25 de dezembro de 2017

A psicoterapia de Albert Ellis























Fonte: Albert Ellis & Robert Harper, A Guide to Rational Living, 3a edição, 1997, Wilshire Book Co., Woodland Hills, CA, EUA.