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14 de março de 2024

A guerra invisível


Vimos em inúmeras postagens neste blog que todo aperfeiçoamento espiritual requer um processo fundamental sem o qual o progresso que se obtenha neste campo não passará de ilusão ou coisa pior. Trata-se da purificação do coração. Jesus Cristo deixou claríssimo, ao contrário do que popularmente se acredita hoje em dia, que é do coração que saem os maus pensamentos, os adultérios, as fornicações, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Isso é assim porque os homens, por amor-próprio, cultivam sua imagem, sua grandeza, sua reputação, seu orgulho. Fazem deuses de si mesmos e assim se autoiludem ao construírem uma torre de Babel em seus corações. Essa torre, esse ídolo, é o ego. O ego ocupa o coração do homem e é ele quem produz todo tipo de impureza e maldade.

A purificação do coração é pré-requisito para o progresso espiritual. Sem ele todo pretenso aprimoramento será apenas e tão-somente mais um tijolo na torre do ego. Imerso em sua própria ilusão, o indivíduo assegura que está progredindo espiritualmente quando, na verdade, está progredindo na estrada da perdição.

É neste contexto que a obra do padre católico romano Lorenzo Scupoli foi traduzida e editada por São Nicodemos Hagiorita e posteriormente revisada por São Teófano, o Recluso. Ambos reconheceram o enorme valor e importância dessa obra para os cristãos contemporâneos.

* * *

A purificação do coração apresenta três caminhos:

a. Caminho moral: a disciplina da vontade e do caráter para neutralizar as paixões ao mesmo tempo que enaltece as virtudes.

b. Caminho contemplativo: a disciplina do intelecto, pela qual o homem educa os sentidos, a memória e a imaginação ao mesmo tempo que se educa para perceber Deus em todas as coisas materiais e Sua ação na história. Um estágio mais avançado incluir livrar a mente das imagens sensíveis (visão e imaginação) a fim de atingir a gnosis e a sophia.

c. Caminho noético: a disciplina do noûs, pela qual o homem, mediante deprecações (súplicas), orações, intercessões, e ações de graças (1 Timóteo 2:1), comunica-se com Deus para obter o necessário para atingir a hesychia. Este estágio é o da oração pura, na qual a imaginação e o intelecto cessam de intrometer-se na comunhão com Deus.

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Eis os destaques dos 53 pontos da guerra invisível:

1. Somos chamados à perfeição, e a maior e mais perfeita aspiração dos homens é aproximar-se de Deus e viver em união com Ele. No entanto, há nos homens vontades e desejos que clamam por satisfação e que não obstante nada tem a ver com a vontade de Deus. É necessário, portanto, que os homens lutem incessantemente contra si mesmos e contra tudo aquilo que desencadeie e insufle suas vontades e desejos. O homem nunca será livre enquanto for escravo de suas paixões.

Há 4 disposições fundamentais para essa guerra:

a. Sempre desconfie de você em tudo.

b. Cultive em seu coração a confiança única e exclusiva em Deus.

c. Lute sem cessar.

d. Coloque-se constantemente em estado de oração.

2. Deus quer que tenhamos consciência e experiência de nossa insignificância. Deus é a fonte suprema de toda boa ação e bom pensamento. Há 4 atitudes a serem tomadas aqui:

a. Conscientize-se de sua insignificância. “O fundamento de toda virtude é a conscientização da fraqueza humana”. (São Máximo, o Confessor)

b. Peça ajuda a Deus em orações calorosas e humildes.

c. Acostume-se a ser cauteloso e temer seus inúmeros inimigos.

d. Se cair em alguma transgressão, rapidamente volte-se à conscientização de sua fraqueza. Deus permite nossas transgressões para que nos tornemos cônscios de nossa fraqueza. Note, no entanto, que nem sempre Deus usa este subterfúgio, mas apenas quando as atitudes a, b e c acima não são seguidas e/ou não surtem efeito. Deus também faz uso, nestes casos, de “má sorte”, doenças, tribulações perigos, necessidades.

3. Não devemos simplesmente desconfiar de nós mesmos e nos desesperar. Não, devemos desconfiar de nós mesmos e confiar em Deus. É Ele quem sabe o que é realmente bom para nós. A vitória (salvação) lhe será concedida.

4. O critério que distingue o homem autoconfiante do homem que confia em Deus é que aquele, quando cai, se lamenta profundamente e prepara planos para superar a queda e, no futuro, ser bem-sucedido, enquanto este, quando cai, se lamenta moderadamente e conscientiza-se da sua falta de confiança em Deus.

5. O homem que se lamenta profundamente é aquele que se orgulha profundamente, que tem uma opinião muito elevada de si mesmo.

6. Na guerra invisível somos todos perdedores, sem exceção. Os únicos que vencem são aqueles que lutam confiando em Deus. Toda vitória é dEle, não sua.

7. A mente tem de se livrar da ignorância da seguinte forma: (a) Implorar em oração para que o Espírito derrame Sua luz divina em nossos corações, (b) procurar sabedoria nos escritos dos homens santos e entender que a vitória não vem das vitorias no mundo, mas das vitorias espirituais. Na calúnia e na difamação está a verdadeira glória, no perdoar os inimigos e fazer-lhes o bem está a verdadeira magnanimidade, no desprezo pelo mundo está a verdadeira força e poder, na obediência voluntaria está a verdadeira coragem e força de espírito, na superação de suas más tendências está o verdadeiro louvor.

8. Não julgue as coisas de maneira imediata, apenas pelas aparências. É necessário certo desapego, certa distância, para em seguida julgar as coisas e situações com a mente.

9. O cultivo da mente implica em não se contentar com a ignorância, mas, por outro lado, também em não a afogar com conhecimento excessivo, ou seja, com meras curiosidades. O orgulho da vontade é visível à mente, que pode esforçar-se em corrigi-lo. Mas o orgulho da mente será visto de que forma? Quem poderá curá-lo? Eis que a mente tem certa proeminência em relação à vontade, e eis que o orgulho da mente é pior que o orgulho da vontade.

10. E como fazer a vontade de Deus e não a sua? (a) Somente com um coração puro é possível discernir quando estamos fazendo a vontade de Deus ou quando, sub-repticiamente, estamos fazendo nossa própria vontade, (b) se você é incapaz, ou sente-se inseguro, de perceber se Deus está movendo as coisas externamente, mas sobretudo internamente, mantenha pelo menos a disposição de tentar perceber Sua vontade e confie nos mais experientes, (c) o homem que faz a vontade de Deus nunca “prefere” uma coisa em relação a outra porque preferir é obviamente introduzir sua vontade na atividade, (d) o homem deve antes buscar agradar a Deus do que escapar do inferno ou ganhar o céu (é melhor dar um pouco de dinheiro a um mendigo para agradar a Deus do que doar uma fortuna para ganhar o céu).

11. Deus mantém os homens vivos a cada momento, a cada instante, todo o tempo. Ele os criou do nada. Honrar Sua grandeza e majestade é uma conclusão óbvia a que todos deveríamos chegar.

12. Há duas vontades no homem: a vontade inteligente superior e a vontade sensorial inferior. O livre arbítrio fundamentalmente inclina-se para uma ou outra, e um dos objetivos supremos da guerra invisível é precisamente não se inclinar pelos ditames da vontade inferior carnal, impetuosa e “apaixonada”. Uma vez que o livre arbítrio se enrede nos ditames da vontade carnal, aí permanecerá como um cabresto mantém um burro de carga sob controle. Para livrar-se dessa vontade inferior dos desejos, a ajuda da graça de Deus é imprescindível. O cristão, que é chamado não apenas para aprimorar-se, mas para aperfeiçoar-se, deve forçar-se a negar esses desejos de maneira total. Isso significa não apenas abandonar os desejos mais enraizados e escravizantes, mas os menores também. O cristão tem de aprender a amar a guerra invisível.

13. Passo a passo para superar os desejos (as paixões da vontade inferior): (a) assim que notar seu surgimento, force-se imediatamente em não as atender, (b) crie um sentimento de raiva contra eles, (c) peça ajuda e força a Cristo, (d) se possível, faça o contrário do que sugere a paixão, (e) cultive uma resolução interior que torne impossível inclinar-se a tais tendências impetuosas como, por exemplo, considerar-se genuinamente digno de todo insulto e assim acolhê-los com alegria.

14. A luta contra as paixões será obviamente reforçada pela oposição do inimigo, que vai tentar te convencer de que a luta é inglória e que a rendição é inevitável. Mas isso é absolutamente falso: “Deus concedeu a nosso arbítrio um poder tão grande que mesmo que todas as faculdades humanas, o mundo inteiro e todos os demônios se unam contra a vontade, não a subjugarão”. Isso significa que não há desculpa, por mais “plausível” que seja, que justifique inclinar-se a nenhum impulso de nenhuma paixão. No entanto, entenda que você é apenas um homem, ou seja, você isoladamente é incapaz de vencer essas batalhas. É necessário reunir em ti a convicção de sua impotência humana para, a partir daí, pedir em oração a ajuda de Deus. Persevere, e a ajuda virá.

15. Para uma guerra rápida e vitoriosa, você deve centrar-se em todas as suas paixões, mas especialmente no amor-próprio, caracterizado pela autoindulgência e pela autopiedade. No entanto, não esqueça que o inimigo está nas mãos de Deus, ou seja, a vitória será retrasada pelo simples motivo de que Deus quer que você lute com todas as suas forças até o fim. Tenha isso claro: não há homem que esteja livre dessa guerra, “seja em vida, seja na morte”.

16. Ao acordar de manhã reze a Oração de Jesus por alguns momentos e ponha-se imediatamente em guarda, sabendo que à sua esquerda está seu inimigo e à sua direita está seu Comandante, o próprio Cristo, e Sua mãe, a Santíssima Virgem, e seus santos e anjos. O inimigo imediatamente ventilará em sua alma impulsos para a autoindulgência e lhe “garantirá” que ceder será melhor e menos custoso. Neste instante invoque a ajuda do Alto e, mesmo que lhe cause dor [combater o ego], insista na labuta espiritual. A vitória, isto é, a coroa que receberá nesta e na próxima vida, virá mediante incessantes batalhas. Retome o que ensinamos no passo 13.

17. Ataque primeiro aquilo que mais lhe perturba, ou seja, o maior obstáculo a seu progresso espiritual. A única exceção é quando algo repentinamente surge no transcurso do dia. Neste caso, ataque estes eventos insurgentes primeiro.

18. Alguns passos para prevenir os ataques súbitos: (a) toda manhã antecipe mentalmente as ocasiões favoráveis e desfavoráveis aos impulsos e irritações, (b) se o impulso surge, procure “descer” imediatamente a seu coração e isole o impulso, (c) se não lograr êxito, não expresse o impulso ou irritação nem por palavras, olhares ou gestos, (d) eleve-se a Deus e procure substituir o mal impulso por um bom impulso, (e) e o mais importante: elimine as causas dos impulsos.

“No trato com as pessoas, você será auxiliado lembrando-se de que elas também são criaturas de Deus, moldadas, assim como você, à imagem e semelhança de Deus e pelas mãos todo-poderosas do Deus vivo; que elas estão redimidas e regeneradas pelo precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; que elas também são seus irmãos e membros da mesma humanidade, as quais é errado odiá-las nem mesmo em pensamento. [...] Lembre-se especialmente de que, mesmo que supostamente elas sejam dignas de desprezo e hostilidade, se conceder-lhes suas amizade e amor, você estará assemelhando-se a Deus, que ama todas as Suas criaturas e não despreza a nenhuma delas”.

19. Quanto às paixões sexuais: (a) Evite contato com o sexo oposto para combater paixões luxuriosas, (b) preste atenção à ociosidade e à preguiça, observando de perto seus pensamentos, (c) nunca desobedeça a seus mestres e pais espirituais, (d) nunca julgue seu irmão quando cair, mas tome seu exemplo com humildade, (e) não se imagine superior e imune aos ataques do inimigo.

20. A negligência se forma quando formamos o hábito de só fazermos o que gostamos. Fazer o que se gosta leva, em última instância, à paralisia, à inação, à preguiça. Você tem de entender que fazer uma única vontade de Deus, uma simples genuflexão a Seu favor, vale infinitamente mais do que todos os tesouros da terra. Combata a negligência tendo a ciência de que o que quer que faça você enfrentará não muitos, mas apenas um e o mesmo inimigo, e que ele, por mais forte que você que seja, será derrotado porque você confia na ajuda de Deus, que é infinitamente superior a seu inimigo.

21. Evite direcionar seus sentidos externos a esmo, em busca de prazer e satisfação de seus gostos. Uma técnica para não se deixar contaminar pelos sentidos é treinar seu olhar a estar convicto de que, por trás de tudo o que se vê, ouve, cheira, sente etc. está o próprio Deus, que dá ao que quer que seja sua beleza, bondade, verdade, perfeição. É o conteúdo interior das coisas que deve impressioná-lo, não seu aspecto aparente. Lembre-se, você é uma criatura inteligente, não um animal. Encontre nas criaturas seu Criador.

22. Aproveite para ascender a Cristo e Sua história na terra quando ouvir, ver ou sentir coisas que O evoquem. Por exemplo, rochas, mar, pedras, espinhos, martelos, o amor entre Suas criaturas, sol, água, vinho, vestes, murmúrios, dor, aflição, luto etc. etc.

23. Similarmente, a beleza das coisas, o sol, os céus, o cantar dos pássaros, a beleza das pessoas: tudo aponta para o Criador e, mais ainda, tudo isso é palha ante a beleza e o esplendor do Reino de Deus. Evidentemente, estes métodos não precisam ser usados sempre, mas quando necessário. A ideia é que você saiba reunir sua mente e seu coração no Senhor.

24. A virilidade da alma é enfraquecida ao entregar-se a paixões, belezas, texturas, sons prazerosos etc. Guarde seus sentidos para fortalecer sua alma.

25. Acima de tudo, guarde sua língua. O que move a língua é o coração. Os sentimentos que buscam expressar-se em palavras são em sua maioria egóicos porque expressam a lisonja de nosso amor-próprio e nos apresentam, imaginamos, sob a melhor luz. Na maioria dos casos, a loquacidade é sinônimo de conversa vazia. Da conversa vazia vêm as críticas, as calúnias, as fofocas, as sementes da discórdia, a vaidade, o falar com superioridade, o autoelogio disfarçado etc. O silêncio é um dos maiores aliados na guerra invisível. O hábito do silêncio se adquire praticando.

26. Sobre a imaginação. Os objetos sensíveis e os sentidos externos são com carimbos, e a imaginação a marca do carimbo. Mas dado que a imaginação é uma força desprovida de razão e age de maneira puramente mecânica, obedecendo as leis de associação de imagens, enquanto a vida espiritual é a imagem da pura liberdade, concluímos que a atividade da imaginação é incompatível com a vida espiritual. A imaginação é um poder da alma que, por sua própria natureza, é incapaz de adentrar no âmbito da união com Deus. Os Santos Padres ensinam que a imaginação é como uma ponte da qual os demônios se aproveitam para atingir a alma, mesclando-se a ela. Filósofos e pensadores a usam para especular sobre as coisas do Alto, as quais são inacessíveis à imaginação e à fantasia, mas sem antes purificar sua mente das paixões e imagens ilusórias do mundo sensível. O resultado é que ensinam mentiras e não encontram a verdade. Esforce-se em limpar a imaginação de impressões externas mediante a oração e o recolhimento. Quando estiver cansado, desfrute da liberdade em reflexões divinas e contemplações, mas somente aquelas contidas das Escrituras e naquilo que as criaturas de Deus inspirarem; elas são imateriais e, portanto, afins à mente.

27. O cristão deve evitar que os percalços da vida agitem o coração: medos, sofrimentos, tristezas e alegrias repentinas, doenças, ferimentos, mortes de parentes, guerras, incêndios, memórias de pecados e transgressões passadas etc. A ideia é entender que, no que quer que lhe acometa ao cristão, ele tem de inserir esse acontecimento em sua vida espiritual e confiar na Providência. Se algo de bom e positivo lhe acontece, eis uma oportunidade para arrepender-se. Se algo de mal e negativo, eis uma oportunidade para cogitar se são meus pecados que estão me conduzindo a tal situação ou, ainda, Deus está me provando. Não importa o que aconteça ao coração, o homem tem a virtude e a capacidade de suportar o sofrimento e reestabelecer a paz em si mesmo contanto que se submeta a Deus.

28. Se acontecer de você cometer alguma falta pequena, como falar algo grosseiro, perder a calma, um desejo ardente se acender, um pensamento inadequado se formar etc., não se condene ou se julgue. Tal condenação ou julgamento vem, ao contrário do que inicialmente poderíamos supor, de nosso orgulho, de nosso ego. Todos os pecados já foram rasgados na cruz de Jesus Cristo. Estão já perdoados. Portanto, para que desça a graça é necessário fundir o sentimento de culpa com o sentimento de perdão em um só sentimento, aliado à firme decisão de não mais voltar a incorrer nesse pecado. O inimigo vai tentar convencê-lo de que esse exercício de arrependimento pode esperar só mais um pouquinho e, de pouquinho em pouquinho, a visão do pecado torna-se cada vez mais turva até que, com o tempo, o pecado faça parte de seus hábitos e se normalize.

29. O inimigo não tem uma única tática para combater o homem. Ele adota diferentes táticas a depender da situação de cada ser humano.

30. Uma tática muito comum do inimigo é manter o homem em pecado ao dissuadi-lo dos pensamentos que poderiam trazer-lhe à consciência sua vida perniciosa e, agindo assim, lhe aprofunda mais no pecado. No lugar dos pensamentos saudáveis, o inimigo implanta pensamentos insanos. Quanto mais cego, mais insana se tornará a pessoa e, assim, mais perdida.

31. No entanto, àqueles que de alguma forma atingiram a consciência de sua vida insana o inimigo insufla pensamentos de procrastinação (“depois”, “mais tarde” etc.). Lembre-se: o que está nas suas mãos é o hoje, o agora, o neste momento. O amanhã pertence a Deus. Tome a firme decisão de mudar agora, de emendar-se agora. O amanhã poderá distrai-lo mais e a resolução e visão que agora tem poderá perder-se. De novo, a hora é agora. Somente a prática vai fortalecer a visão que tem e a decisão que deve tomar. Adiá-la necessariamente irá enfraquecê-la. Isso vale também para quem leva uma vida decente: a oportunidade de fazer o bem não deve ser deixada escapar.

32. Outra tática do inimigo é “limpar o terreno”, ou seja, é sugerir ao cristão que tem avançado na vida espiritual que ele não precisa de conselhos de fora, de conhecimentos daqueles mais experientes como santos, staretzi (anciãos), homens sábios etc. A ajuda externa seria desnecessária. O novato se entrega a seus próprios conhecimentos e tentativas pessoais.

33. O inimigo também adota a tática de enviar pedras de tropeço e ciladas para que o cristão tropece.

34. Mais uma tática do inimigo é lisonjeá-lo, é sugerir que você está no caminho certo, que você atingiu um grande patamar espiritual etc. Por mais que seja verdade, ou seja, por mais que você tenha realmente crescido espiritualmente, orgulhar-se disso jogará por terra todo seu progresso. A chave para evitar essa sugestão diabólica é fortalecer a convicção de que você é nada. Suas disposições, sua existência, as leis que regem seu corpo, sua alma, sua essência, as pessoas que cuidaram de você, as pessoas cuja união possibilitaram sua existência, enfim, tudo o que há de bom em você tem sua raiz em Deus, no Logos, no Criador. Medite bem e conclua que orgulhar-se de suas conquistas é um ato profundamente falso, profundamente egoísta.

35. Algumas armas a serem usados pelos cristãos na guerra invisível: (a) atacar a paixão que mais lhe prejudica, a que mais lhe causa derrotas, (b) nunca parar, ou seja, nunca abandonar a guerra contra a paixão quando atingir algumas vitorias; a guerra nesta vida termina no fim desta vida, (c) seja sábio e sensato ao atribuir práticas espirituais como jejuns, orações, trabalhos físicos etc.; faça algo que seja desafiador, mas, ao mesmo tempo, que não lhe castigue amargamente, (d) ataque a paixão no momento exato em que surge; o momento da batalha é agora, esqueça o passado e o futuro, a batalha é agora, (e) transforme-se em um inimigo do conforto, do prazer, da autoindulgência, (f) comece sua batalha fazendo uma confissão geral; trata-se não apenas de algo conveniente, mas necessário.

36. Quanto à prática das virtudes, concentre-se em adquirir uma e, com o tempo, outra, e assim por diante; não procure adquirir todas, ou mesmo algumas, de uma vez, mas lembre-se que, uma vez conquistada uma, a seguinte será mais fácil.

37. Atingir uma virtude significa que ao executá-la emprega-se o mesmo esforço e a mesma prontidão que empregava quando você não a executava. Em outras palavras, é como se a virtude passasse a fazer parte de sua natureza, de sua essência. Portanto, de manhã procure prever os momentos em que enfrentará dificuldades ao executá-la e, à noite, relembre os momentos em que foi incapaz de executá-la. Prepara-se antes e revise depois, eis uma estratégia inteligente. E não se esqueça, evidentemente, de pedir ajuda do Alto, sem a qual nada será conquistado: Deus se regozija quando alcançamos uma virtude e, ao mesmo tempo, quando o fazemos pelo simples objetivo de agradá-Lo.

38. O trajeto para a conquista das virtudes apresenta um aspecto diretamente proporcional ao trajeto que percorremos fisicamente. Quanto mais caminhamos, mais nos cansamos. No caminho das virtudes, no entanto, quanto mais avançamos, mais fortes nos tornamos. Isso acontece porque estar forte no mundo espiritual significa ao mesmo tempo estar fraco no mundo sensível. Ademais, a ajuda do Alto deposita-se na parte superior da alma, enquanto a parte inferior, carnal, não recebe nenhuma ajuda.

39. Por isso, uma vez mais, reforçamos a importância de escapar dos prazeres carnais e da luxúria em geral.

40. (a) Quando uma ocasião favorável se apresentar, sempre pratique a virtude. Mesmo em situações menores, praticá-la lhe dará forças quando as situações mais importantes se apresentarem. Não zombe das oportunidades que Deus lhe dá em resposta às suas próprias orações. (b) Lembre-se que, apesar de Deus não desejar seu pecado e das demais pessoas, mesmo eles são permitidos por Ele para nossa admoestação e humildade; aceitemos esse cálice como vindo das próprias mãos de Deus.

41. e 42. (a) O sinal de que estamos praticando a virtude é que a exercemos mesmo em momentos de esfriamento e obscurecimento da alma. (b) Quanto mais fracos forem os impulsos carnais, mais isso quer dizer que progredimos nas virtudes. (c) Quanto mais fácil for o arranque para a prática de uma virtude, tanto mais isso significa que fizemos um bom progresso. (d) Se a mente ascende facilmente a bons pensamentos com pouco ou nenhum esforço, eis outro sinal de progresso espiritual. (e) Idem para a oração, que cumpre-se sem perambular em pensamentos e conjecturas. (f) Quando lágrimas fluírem naturalmente durante um pensamento ou memória, isso também denota progresso espiritual. (g) Quando pensamentos elevados descem ao coração e ali permanecem por tempo prolongado, eis outro sinal de progresso.

43. Querer-se livrar de uma aflição é dar-lhe mais importância do que realmente tem. As aflições têm de ser suportadas com paciência, com confiança em Deus, com humildade. Elas durarão o tempo que tiverem de durar. Querer livrar-se delas é uma questão de orgulho, de petulância.

44. Quando fazemos algum progresso, o inimigo o tentará fazendo-lhe acreditar que está próximo da perfeição e, assim, que você deveria exercer ainda mais esforço físico e mental para atingi-la. Isso acabará lhe atirando no abismo. As mortificações são em geral uma tentação e uma perdição para os homens. Busque fazer aquilo que é proporcional às suas condições morais. Não imite os santos externamente, mas os imite nas disposições da alma e do espírito.

45. O amor-próprio engendra o vício do julgamento alheio. O problema é que o julgamento alheio não apenas se funda no orgulho, mas o alimenta, que retroativamente alimenta o julgamento alheio. O inimigo se aproveita desse fenômeno e abre nossos olhos. Sim, ele abre nossos olhos, mas não àquilo que fazemos e dizemos, mas àquilo que os outros fazem e dizem. Prestamos especial atenção aos gestos, palavras, posturas e ações alheias com o objetivo de encontrar defeitos e, assim, julgar e condenar o próximo. Para superar esse vício, (1) repila o pensamento de julgamento imediatamente, lembrando-se das boas qualidades do próximo, (2) lembre-se de seus próprio defeitos e falhas (“cura-te a ti mesmo” (Lucas 4:23), “tira primeiro a trave do teu olho” (Mateus 7:5)), (3) lembre-se que quando julgamos severamente alguém isso significa que uma pequena raiz da mesma maldade existe no seu coração, e que é essa mesma raiz no coração que permite que você faça suposições sobre os outros e os condene.

46. O que é necessário para que a oração surta seu pleno poder? (1) Manter sempre vivo a intenção de servir a Deus em tudo o que fizer. (2) Manter viva a fé de que Deus quer conceder-lhe tudo o que é necessário para servi-Lo corretamente. (3) Manter viva a intenção de fazer a vontade de Deus, e não reduzir a vontade de Deus à sua vontade. Nossa vontade está sempre contaminada em maior ou menor grau com o amor-próprio, o que a torna suspeita. Se genuinamente não souber qual é a vontade de Deus, peça para Ele lhe esclareça. E não se esqueça que as virtudes são agradáveis a Deus, mas elas devem ser exercidas com o intuito de agradá-Lo e servi-Lo, e não motivos espúrios quaisquer. (4) A oração por virtudes tem de ser feita concomitantemente com esforços genuínos de sua parte para exercê-las, sob pena de tentar a Deus. Rezar de maneira negligente, ou pedir a um santo que lhe ajude sem que você mesmo “se ajude”, é hipocrisia. (5) Combinar na oração os 4 elementos básicos ensinados por São Basílio, o Grande: (a) glorifique a Deus, (b) dê graças a Ele pelas bênçãos e misericórdias que lhe concede, (c) confesse suas faltas e transgressões, (d) peça-Lhe o que necessita, especialmente do que necessita para sua salvação. (6) Mantenha viva a confiança da generosidade imensurável de Deus, mas também em Jesus Cristo. E não se esqueça de pedir ajuda à Mãe de Deus, aos anjos, santos, pastores, mestres, ao anjo da guarda, ao seu santo padroeiro etc. (7) Rezar com incansável entusiasmo e diligência, ou seja, não esperar que o que pede venha em curto prazo. Mantenha viva em seu coração a fé em Sua ajuda. Mesmo que não receba o que pediu, não procure entender o porquê, mas entenda que poderá receber algo diferente do que pediu ou, mesmo que não receba absolutamente nada, lembre-se de sua própria indignidade.

47. Quanto à oração mental, ou oração interior, trata-se da oração feita com a mante (noûs) em silêncio no coração. É como reunir, ou efetivamente “recordar”, a oração no coração. A ideia é que o coração sinta (“se afete”) por aquilo que é rezado. Há ainda a oração perfeita, que é a oração rezada pelo Espírito Santo no coração do fiel cristão.

48. Rezar com o livro de orações é não apenas útil, mas necessário. No entanto, é comum que a mente divague enquanto rezemos. A oração torna-se algo mecânico, frio. A ideia é combinar mente e coração em uma e mesma direção. Para isso: (1) Reflita ao longo do dia sobre a oração, mas não no momento da própria oração. Relembre sua importância, seu objetivo, seu mérito, seu propósito. Dessa forma, no momento de rezar, será mais fácil que a mente se concentre na oração e o coração responda afetivamente a ela. (2) Decore a oração para que a mente mais facilmente possa se concentrar-se nela, e não se lembrar dela. (3) Não se entregue à leitura das orações sem antes se preparar para ela. A mente tem de estar calma, livre de preocupações, aflições, perigos etc. (4) Lembre-se que orar significa colocar-se diante de Deus. (5) Leia as orações com atenção, com a mente no coração. Se a mente divagar, volte a leitura ao ponto onde a mente começou a divagar. (6) Se durante a oração surgir de repente algum tema que lhe chame a atenção e sobre o qual necessita orar, pare a leitura de orações e reze sobre o tema que lhe surgiu até que se encontre satisfeito. (7) Quando tenha terminado suas orações, não pense que a mente pode livremente divagar no resto do dia e esquecer-se do Alto. Lembre-se que a mente sempre tem de preservar um “estado de oração” e não se esqueça que Deus está sempre presente em todos os lugares. (8) A oração tem de ser feita completa e sem interrupções, diariamente. Se um dia você reza bem e no outro não, e essa oscilação se torna um hábito, nunca a oração se estabelecerá e seus frutos não serão colhidos.

49. A vida de oração deve começar pela memorização das orações do livro de orações. Quando se enxertarem, então aprenderemos a rezar de maneira pessoal, ou seja, o coração aprenderá a rezar adequadamente. Não tente rezar por sua própria conta sem que o coração sinta um impulso e uma necessidade reais. Por regra geral, as orações espontâneas são egoístas, orgulhosas, petulantes.

50. Escolha uma oração curta para ser rezada ao longo do dia e habituar sua mente e seu coração a rezá-la. Recitar uma oração curta é o ideal, mas de qualquer forma o objetivo aqui é manter a atenção viva na lembrança de Deus.

51. A Oração de Jesus deve ser rezada não apenas com palavras, mas com a mente e o coração. Seu conteúdo tem de ser sentido, repercutido, no coração. Com o tempo e muita prática, as palavras desaparecem e apenas o movimento da mente (noûs) e do coração permanecem. (1) Reserve em sua regra de oração um tempo para a Oração de Jesus. (2) Aumente a quantidade de orações na medida em que desfrutar dela. (3) Não a recite de maneira atabalhoada, mas com atenção, lembrando sempre que o coração tem de repercutir seu conteúdo. (4) Insira a oração nos intervalos de seu dia, sempre que possível. (5) Acrescente uma reverência a cada recitação. Essa prática fortalece o poder da oração e seus frutos. (6) Leia a Philokalia, especialmente São Simeão, o Novo Teólogo, São Gregório do Sinai, São Nicéforo, São Calixto e Santo Ignácio. (7) Ao rezá-la concentre-se na parte no coração físico, ou seja, na porção logo acima do mamilo esquerdo. Se uma sensação dolorida surgir, mova a atenção para a parte superior do peito. (8) Tenha um pai espiritual experiente. Não aceite as insinuações do inimigo de que você alcançou a oração mental. (9) Não estabeleça uma meta temporal para alcançar esta oração. Isso levará muito, muito tempo. Não tente controlar o progresso, ele não está sob seu alcance.

52. Mais orientações para rezar. (1) Coma, durma e descanse com moderação. Não se entregue a comidas e bebidas de acordo com os impulsos e desejos imediatos. Não dê trégua à carne. (2) Reduza o contato com o mundo exterior o mais que possível. Quando a oração se estabelecer, você saberá o que pode ser acrescentado em termos de contato exterior. (3) Leia livros espirituais e adequados à sua condição. Vá a igreja quando puder porque simplesmente estar ali já sugere um clima de oração. (4) O progresso na vida espiritual exige progresso na vida cristã. Purifique-se mediante a confissão regular. (5) Não omita nenhum tipo de oração, sejam as orações do livro de orações, sejam as orações livres, sejam os breves apelos a Deus, seja a Oração de Jesus.

53. A oração é uma arma invencível na guerra invisível apenas quando tiver se estabelecido incessantemente no coração. Neste ponto, o coração torna-se impenetrável pelo inimigo. No entanto, até que isso aconteça, a oração mesmo assim não apenas é valiosa, como é a arma mais importante na guerra invisível. Assim que uma imagem se formar na alma, seja de alguém que lhe fez mal, ou de alguma mulher bonita, ou de bens, roupas, o que seja, resista recorrendo à oração e, em geral, à Oração de Jesus.

Fonte: Lorenzo Scupoli, editado por São Nicodemos, o Hagiorita, e revisado por São Teófano, o Recluso, Unseen Warfare, St. Vladimir’s Seminary Press, Crestwood, NY, EUA, 1997.

8 de maio de 2021

Como amar Cristo


Como São João, o Teólogo, conseguiu atingir um amor tão elevado pelo Senhor e se tornar um modelo de amor para todos nós? Acho que ele fez isso da mesma forma com que as pessoas começam a se amar. Elas veem a beleza e a bondade de uma pessoa e se sentem atraídos por ela de todo o coração. Da mesma maneira, São João viu a beleza do Senhor e foi atraído por Ele. Ele sentiu o amor especial do Senhor por ele e da mesma forma foi inflamado com amor por ele. Ele viu as grandes, maravilhosas e frutíferas obras do Senhor e, movido por uma piedade fervorosa, tornou-se totalmente devotado a Ele. Ele provou a doçura do amor por Ele e, imerso de todo o coração neste amor, descansou nEle. Aqui segue o caminho da ascensão no amor ao Senhor. Entremos nele e, ao final, conseguiremos adquiri-lo.

 Primeiro: São João viu a beleza do Senhor e foi atraído por ela. Da mesma maneira nasce o amor entre as pessoas. Elas veem a beleza de alguém, espiritual ou física, e começam a amar umas às outras. Levantemos nossa mente para a contemplação da beleza do Senhor, e certamente não permaneceremos frios e indiferentes para com Ele. A beleza do Senhor é a soma total de toda a Sua perfeição. “Olhe e observe, o que falta ao Senhor?” diz São Ticônio de Zadonsk. Tudo o que você deseja pode ser encontrado no Senhor em plenitude indescritível e ilimitada. Você busca bem-aventurança? Ele tem bem-aventurança eterna e verdadeira. Você está procurando beleza? “Digno és Tu em formosura mais do que os filhos dos homens” (Salmos 44: 3). Você busca a nobreza? Quem é mais nobre do que o Filho de Deus? Você está procurando por honra? Quem tem mais honra ou é mais elevado do que o Rei dos céus? Você busca sabedoria? Ele é a Pessoa (Hipóstase) da Sabedoria de Deus. Você quer alegria? Ele é a alegria dos espíritos abençoados e dos escolhidos de Deus. Você precisa de conforto? Quem pode confortá-lo mais do que o Senhor Jesus? Você procura descanso? Aqui está o descanso eterno das almas que O amam. Você quer vida? Ele é a fonte da vida. Você tem medo de se perder? Ele é o caminho. Você tem medo do engano? Ele é a verdade. Você tem medo da morte? Ele é vida como Ele mesmo nos assegura: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Em suma, toda a perfeição, beleza e bondade que a alma humana poderia amar são encontradas nEle. Force sua mente a entender isso e você não será capaz de fazer outra coisa senão amar o Senhor. Santa Catarina, a Grã-Mártir, prometeu amar aquele em quem ela veria a mesma riqueza que possuía, a mesma beleza, a mesma sabedoria de que se gabava, esperando que em todo o mundo ela não encontrasse tal pessoa. Mas quando ela conheceu o Senhor, ela viu que comparada à Sua beleza, sabedoria e riqueza, ela não era nada, ela era desprezível. Ela então se entregou completamente a Ele, apegando-se a Ele e oferecendo-se a Ele como um sacrifício.

Em segundo lugar, São João, o Teólogo, sentindo o amor do Senhor por ele, ficou inflamado de amor por ele. O amor sincero e altruísta, quando experimentado de outra pessoa, sempre inspira um sentimento correspondente. Vamos experimentar o amor do Senhor e acender nosso amor por ele. “O que o Filho de Deus não fez por nós?” pergunta São Ticônio. “O que Ele não alcançou por nós? O que Ele não suportou e sofreu por causa de nossas pobres e necessitadas almas? Que labutas e sofrimentos Ele não tomou sobre Si a fim de levar-nos a nós, que havíamos caído, a Seu Pai Celestial? Ele desceu do céu para nos elevar, nós que que tínhamos sido expulsos do paraíso, ao céu. Para o nosso bem, Ele nasceu na carne a fim de nos trazer a Si mesmo por meio da regeneração espiritual. Ele se humilhou por nós, para nos elevar. Ele empobreceu para enriquecer a nós, desgraçados. Ele sofreu desonra e feridas para nos curar e glorificar. Ele morreu por nós para dar vida a nós que estávamos mortos. Veja a que condescendência e humildade Seu perfeito amor e complacente misericórdia O trouxeram”. Cada um de nós não experimentou este movimento do amor de Deus? Quantas vezes fugimos desse amor pecando? Todas as vezes, por causa de uma frase, “Eu sou culpado e não farei isso novamente”, nós nos reunimos por meio de Sua misericórdia. Quantas vezes O irritamos cedendo à tentação das delícias deste mundo? Então, quando nos voltamos para Ele novamente, fomos admitidos na mesa do Senhor, para participar de Seu Corpo e beber Seu Sangue. Não é este o abraço de Seu amor misericordioso? Cristo está entre nós em nossa vida cotidiana. Quem entre nós não experimentou Sua cuidadosa proximidade de nós, na libertação de infortúnios, doenças, tristezas, circunstâncias difíceis, em todas as necessidades espirituais e físicas? É possível não responder a um amor tão grande e voltar-se para Aquele que nos ama tão incansavelmente? É possível por causa da distração e desatenção esquecer o amor do Senhor por nós? Tendo conhecido e lembrado esse amor, é impossível não experimentar um sentimento de amor pelo Senhor, não importa quão calejado esteja o coração. Aquele que anda continuamente na presença do amor de Deus sempre será inflamado com amor por Ele. Essa é a natureza do amor!

Terceiro: São João provou a doçura do amor ao Senhor e com perfeita paz repousou em Seu peito. O amor é em si mesmo uma dádiva que não pode ser comparada a nenhuma outra. Ele traz uma bênção que é mais elevada do que qualquer coisa no céu ou na terra. O Senhor diz: Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele. Disse-lhe Judas (não o Iscariotes): Senhor, de onde vem que te hás de manifestar a nós, e não ao mundo? Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. (João 14:21-23). Quão consoladoras são essas palavras! Que grandes e exaltadas promessas o Filho de Deus oferece àqueles que O amam - que o verdadeiro amante de Cristo terá amizade com o Pai e Seu Filho! A mente humana não consegue compreender a bondade de Deus. Deus, que é grande, infinito e inatingível, deseja ter amizade com o homem que Ele criou e que é Seu escravo. Ele deseja ter amizade, desde que o homem não a rejeite ... ”a comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo”, escreve São João (I João 13). Onde estão o Filho e o Pai, também o Espírito Santo não está excluído. Veja o que o amor de Cristo alcança! Quem ama é digno de ser morada e morada da Santíssima Trindade. O Deus Tri-Hipostático - Pai, Filho e Espírito Santo - está bem disposto a habitar no homem pela graça. Deus é amor; e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele (I João 4:16). Bem-aventurado é esse coração! Mesmo aqui na terra, sente alegria que é abundantemente derramada nos corações dos escolhidos para a vida eterna. O coração prova a própria essência de “quão bom é o Senhor” e possui o que se entende pelas palavras “O Reino de Deus está dentro de você”. Pois lá onde Deus está, também está tudo o que Lhe pertence. Se Deus está dentro de você por causa do seu amor, então você terá Sua justificação para seus pecados, libertação de seu cativeiro, paz em vez de sua má consciência, alegria em vez de sua miséria, conforto em vez de sua tristeza, justificação no julgamento de Deus, assistência contra seus inimigos, sabedoria e inteligência em vez de confusão e ignorância, força em sua fraqueza. Se o Senhor habita em você por causa do seu amor, então quem pode ser contra você, que mal pode acontecer com você? Se Ele é a sua paz, quem pode perturbá-lo? Se Ele é a sua alegria e conforto, quem ou o que pode causar tristeza em você? Se Ele é a sua força, quem pode vencê-lo? Se Ele é o seu Rei, quem pode subjugar você? “Se Deus está conosco, quem pode ser contra nós”, exclama corajosamente São Paulo junto com todos os que amam o Senhor (Romanos 8:31). Assim é o amor, e veja o que ele traz consigo! Aqueles que entram no amor do Senhor sentem que estão cada vez mais plenos e perfeitos. Pois o amor é o vínculo da perfeição (Colossenses 3:14).

Se você deseja amar o Senhor, então se esforce para contemplar com sua mente Sua beleza, ou a plenitude de Sua perfeição, sinta o calor de Seu amor e experimente a doçura do próprio amor com seu coração. Não se pode aprender o amor, ele ocorre nos lugares escondidos do coração. É semeada em segredo e amadurece sem ser observada, como a semente lançada ao solo que brota sem o conhecimento do semeador, produzindo um caule, uma espiga do grão e uma semente na espiga. O amor semeia-se misteriosamente, sempre, porém, a partir do efeito sobre o coração, objeto de amor. Volte sua mente em seu coração para o rosto radiante do Senhor, cheio de amor e digno de amor, e de Seus olhos uma centelha descerá em seu coração e o acenderá com amor por Ele. Aquele que está perto do fogo é aquecido por ele, e aquele que se volta para o Senhor com sua mente e coração é aquecido pelo fervor de Seu amor, e ele mesmo começa a retornar uma disposição calorosa para com Ele. ... O amor de Deus está derramado em nossos corações ... (Romanos 5:5), ensina o Apóstolo Paulo. O amor é um presente, mas um presente preparado para todo aquele que o busca: apenas deseje e busque, e imediatamente você o receberá. Assim como o Senhor abraça a todos, é impossível não amá-Lo. No entanto, como nem todos se voltam para Ele e O buscam, nem todos O amam. Pois, de fato, Ele nos amou primeiro e, portanto, devemos amá-Lo.

Detenhamo-nos nestas coisas, irmãos, e nos esforcemos para amar ao Senhor com todo o nosso coração, toda a nossa alma e todas as nossas forças. Melhor ainda, vamos despertar o amor por Ele adormecido em nós e colocá-lo em ação para ser visto por nós e por todos. Amém.

8 de maio de 1864 – Festa de São João, Apóstolo e Evangelista.

Fonte: São Teófano, o Recluso, Road to Emmaus Vol. XV, No. 2 (#57).

10 de outubro de 2012

A vida do ego



Pe. Damascene Christensen

Antes de versarmos sobre a vida espiritual do homem, é necessário que compreendamos o que é, afinal, o espírito humano. Não é necessária nenhuma revelação divina para entendermos isso. É perfeitamente possível, pelo menos em parte, que saibamos o que é o espírito humano mediante a simples observação atenta e silenciosa de nosso próprio ser interior. Portanto, ninguém deve se surpreender ao perceber que a antiga doutrina cristã sobre o espírito humano encontra paralelos idênticos com a doutrina dos seguidores chineses de Lao Tsé.

O espírito humano não é um pedaço do Espírito do Criador, mas uma imagem dEle: é a parte mais pessoal do homem, o princípio de sua consciência e liberdade. Poderíamos dizer que o espírito é o trono ou centro da pessoa humana, o qual contém em si a totalidade da natureza humana.

O espírito é aquilo que constitui a “imagem de Deus” em nós. Se Deus é Luz, então o espírito humano também é luz. Por ter sido soprado pelo próprio Deus em nós, o espírito busca a Deus, conhece a Deus, e somente nEle encontra seu devido repouso. [1]

Dado que a criação veio a existir através do Verbo – o Tao/Logos –, ela agora é guiada e sustentada por Ele, ou seja, é como que informada pelo Verbo. O espírito é precisamente a faculdade capaz de “ouvir” a voz silenciosa do Verbo falando em nós.

Tanto o Cristo quanto Lao Tsé chamavam o espírito humano de “luz”. [2] Com o tempo, os seguidores da doutrina de Lao Tsé passaram a chamá-lo de “espírito original” (yüan-shen) e os antigos ascetas cristãos passaram a chamá-lo de nous, uma palavra grega que poderia ser traduzida como “espírito” ou “mente superior”. [*]

Na vida do homem caído e irregenerado, o espírito encontra-se como que escondido atrás da consciência inferior dos pensamentos, fantasias e emoções. Na terminologia cristã tradicional essa consciência inferior é conhecida como o aspecto inferior da “alma”. Os seguidores chineses de Lao Tsé a chamam de “espírito consciente” ou “espírito do conhecimento” (shih-shen). [3]

Potencialmente falando, o espírito (nous ou yüan-shen) é uma consciência pura, informe, desprovida de imagens, incondicionada e incomposta, cujo objetivo e desígnio é aproximar-se o mais que possível de Deus, unindo-se a seu Criador. Desde que purificado, o espírito é capaz de conhecer a Deus e as essências interiores das coisas criadas mediante a percepção intuitiva direta. Entre as criaturas visíveis, somente o homem possui um espírito.

A alma inferior (shih-shen), por outro lado, é moldada e condicionada por aspectos culturais e pessoais. Ela reage ao ambiente em que está inserida, a exemplo dos animais, ocupando-se das necessidades temporais e terrenas do homem. Desde o tempo em que o homem afastou-se do Caminho, a alma inferior tornou-se uma massa de emoções, memórias e pensamentos compostos, buscando conhecer as coisas mediante a imaginação e a dedução abstrata. Na sua porção mais inferior, a alma inferior assemelha-se à alma de um animal, já que os animais também possuem emoções, memória e imaginação. [4]

Em última instância, a distinção entre espírito e alma inferior é mera analogia. Em outras palavras, isso significa que não existem dois seres em nós, ou seja, o espírito e a alma inferior são como que dois aspectos diferentes de nosso ser interior. O espírito é o lado oculto de nosso ser interior, a parte mais pura da alma. [5] Os antigos mestres cristãos chamavam o espírito de “olho da alma”, pois ele é o “órgão” que percebe a Divindade.

O grande autor místico Máximo, o Confessor, (+ 662 d.C.) ensinou o seguinte a respeito da alma: “A alma possui três faculdades: primeiro, a faculdade da nutrição e crescimento; segundo, a da imaginação e instinto; terceiro, da inteligência superior (logikos) e do espírito (nous). As plantas apresentam apenas a primeira dessas faculdades; os animais a primeira e a segunda; os homens possuem as três. As primeiras duas faculdades são perecíveis; a terceira é evidentemente imperecível e imortal”. [6]

Portanto, o homem é composto de corpo e alma, sendo o espírito a parte mais superior da alma, o que nos permite chamá-lo de “alma superior”. Lao Tsé fez precisamente isso no capítulo 10 do Tao Te Ching, referindo-se à “alma superior” e à “alma inferior” ou “animal”. [**]

Na vida interior do homem, o espírito foi designado para ser o mestre, enquanto a alma inferior deveria ser a serva e o corpo o servo de ambos. “O verdadeiro governante”, ensinou São Máximo, “é aquele que governa a si próprio, sujeitando a alma e o corpo ao espírito”. [7]

São Teófano, o Recluso, (+ 1894), que foi um dos maiores professores modernos da antiga sabedoria, ensinou também: “Segundo seu desígnio natural, o homem deve viver no espírito, subordinar tudo ao espírito, viver penetrado pelo espírito em tudo aquilo que é da alma e mais ainda em tudo aquilo que é físico – além disso, também nas coisas exteriores, ou seja, na vida familiar e social. Esta é a norma!” [8]

Quando esta hierarquia for devidamente respeitada, não mais depositaremos nossa confiança em pensamentos, fantasias e raciocínios. Mesmo em nossos afazeres cotidianos, condicionados que são pela cultura e pelo entorno, a alma continuamente retornará ao conhecimento intuitivo direto do espírito. Conforme ensina Lao Tsé: “Use sua luz para retornar à luz da intuição”. [9] A alma conhece a Verdade através da sua conexão inquebrantável com o espírito e a respectiva subordinação a ele, enquanto o espírito conhece a Verdade através de sua conexão e subordinação a seu Criador, o Tao/Logos.

São Teófano ensina ainda: “Quando o espírito reina supremo no homem, embora seja seu caráter e postura exclusivos, ele não erra. Isso acontece porque, em primeiro lugar, a espiritualidade é a norma na vida humana, e por isso, sendo espiritual, o homem é uma pessoa real, enquanto o homem intelectual ou carnal não é uma pessoa real. Em segundo lugar, a despeito do grau de sua espiritualidade, o homem obrigatoriamente tem de colocar o intelectual e o carnal no seu devido lugar; ele guarda apenas um pouco deles, ambos subordinados ao espírito. Que a intelectualidade, portanto, não lhe seja tão ampla (em conhecimento cientifico, artístico e demais assuntos) e que a carnalidade lhe seja rigidamente restrita – então ele será uma pessoa real, íntegra. Mas o homem intelectual (o especialista, o connoisseur, o inteligente) – e pior ainda o homem carnal – não é uma pessoa real, a despeito de seu aspecto exterior e de sua reputação”. [10]

Quando a humanidade afastou-se do Caminho, essa hierarquia natural inverteu-se. O corpo e o aspecto inferior da alma passaram a ser os mestres, assumindo, por assim dizer, o controle do ser humano, o qual agora se encontra tomado por pensamentos, imaginações, emoções e ocupações corporais.

A alma do homem caído encontra-se agora sob a ilusão de sua auto-suficiência. Isso significa que ela não se contenta apenas com as necessidades temporais do homem (comida, roupa, abrigo), mas busca também meios para sua própria ascendência e para o prazer sensual. Essa alma tornou-se (ou melhor, apegou-se a) aquilo que hoje chamamos de “ego”. Se o espírito é nosso verdadeiro eu – o trono verdadeiro de nossa pessoalidade – o ego é nosso falso eu, uma entidade ilusoriamente auto-suficiente. Já que ele acha que consegue alcançar seus objetivos e superar os obstáculos mediante seus próprios poderes, podemos chamar o ego de nosso falso “solucionador-de-problemas”.

Apossando-se do homem por meio da ilusão de sua autonomia, o ego faz o que pode para ocultar a existência do espírito. Dessa forma, o espírito não consegue cumprir o desígnio de elevar-se a Deus, obscurecendo sua luz. Não que sua luz tenha se apagado; ela ainda é luz, mas por estar apartada do Criador, essa luz encontra-se como que em trevas. É por isso que o Cristo disse: Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas. [11]

Por ter sido escravizado pelo ego no mundo dos sentidos, o espírito caiu doente. A única cura para essa doença é devolver ao espírito o domínio que lhe é devido, resgatando a alma da forma de ego em que se encontra. Quando então a alma inferior for refinada, segundo São Teófano, “a alma crescerá dentro do espírito e nele se permeará”. [12] [***] Lao Tsé descreve esse fenômeno da seguinte forma:

Quando a alma superior e a alma inferior forem unidas em
um mesmo enlace, é possível evitar que se separem. [13]

Quando a alma assume sua posição de serva, alinhando-se com o espírito, então o espírito volta a si e cumpre naturalmente seu verdadeiro propósito, ascendendo ao Criador. São Basílio, o Grande, (+379) descreve esse processo espiritual da seguinte forma: “Quando o espírito [nous] não estiver dedicado a afazeres exteriores nem disperso mundo afora pelos sentidos, ele volta-se para si mesmo e ascende espontaneamente em contemplações a Deus”. [14]

Lao Tsé, ao concentrar seu espírito e não permitir que se dispersasse no mundo sensorial, foi capaz de participar dessa experiência. Diz ele:

As cinco cores cegam os olhos dos homens;
Os cinco tons ensurdecem os ouvidos dos homens;
Os cinco sabores embotam o paladar dos homens;
O galope e a caça desconcertam a mente dos homens.
Artigos raros desviam do curso.
Por causa disso o sábio não considera o olho, mas as coisas interiores. [15]

Por este relato, o espírito de Lao Tsé foi capaz de ascender em contemplação às qualidades do Tao, alinhando-se com o Caminho do Céu.

Agora que o Tao se fez carne, abriu-se a possibilidade de uma conexão muito mais intensa entre o espírito humano – o trono de sua verdadeira pessoalidade – e a Pessoa do Tao. Trata-se de uma conexão que se desenvolve para uma união, ou seja, para uma verdadeira deificação do espírito humano através de uma ação específica do Te Incriado. [O autor entende que o “Te” de Lao Tsé é o mesmo que a “Graça” da espiritualidade cristã – N. do T.] Antes de descrevermos essa condição exaltada do espírito humano, é necessário que versemos em maiores detalhes sobre nossa condição atual e irregenerada, de modo que saibamos o que afinal temos de transcender e superar.

No momento em que desobedeceu ao Caminho pela primeira vez, surgiu no homem um senso de que ele se tornou errado. Esse senso do errado (“o conhecimento do bem e do mal”) marcou o nascimento do ego e, por conseguinte, da autoconsciência. O homem perdeu assim a roupa da Luz Incriada com a qual havia se vestido, tornando-se cônscio de que estava nu (Gênesis 3:10).

Uma vez que o ego humano nasceu a partir da tentativa de tornar-se deus para si próprio (Gênesis 3:5), é da própria natureza do ego tentar tornar-se autônomo. É por isso que o ego reluta em admitir que esteja errado; admitir isso seria admitir que ele não é um deus e que há um padrão acima de si próprio. O medo dessa admissão foi constatado pela primeira vez na tentativa do ego de esconder-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim (Gênesis 3:8).

Mas não é apenas a si próprio que o ego tenta ocultar de Deus; conforme vimos, ele também tenta ocultar o espírito, pois o espírito também transmite ao ego o senso de errado. Dado que é o espírito, e não o ego, que deveria ser o mestre da pessoa, sua própria presença denuncia o ego como falso usurpador, destruindo o próprio fundamento na qual o ego apóia sua existência.

Como é possível que o ego afogue-se em sua própria gratificação ao mesmo tempo em que oculta a realidade onipresente de Deus e do espírito? Ora, de que outra maneira senão pela constante distração em prazeres sensuais, pensamentos, memórias e fantasias? Por conseguinte, a queda do homem na desobediência foi sob certo ponto de vista uma queda na distração, e foi assim que sua consciência chegou a tornar-se composta e fragmentada da maneira como é hoje.

Ao distrair-se para não encarar o senso de errado, o homem busca precisamente aquilo que originalmente o deixou nesse estado: o amor próprio e o prazer sensual. Gratificando-se, o homem volta a se sentir “certo” – apenas temporariamente, claro. Na verdade, ele apenas intensificou seu atual estado, de maneira que precisará de distrações cada vez maiores em doses cada vez maiores para sentir-se “certo” de novo. Passo a passo, o homem avança no caminho de sua autodestruição, tentando superar a queda apelando à própria causa dela.

O ego busca qualquer garantia de que está tudo bem, de que não cometeu erro algum, de que ele é Deus realmente. Nosso eu consciente pode até não admitir que isso esteja acontecendo, mas o objetivo da vida do ego não passa disso: encontrar qualquer coisa que o faça esquecer do verdadeiro eu e esquecer de sua condição hedionda, fazendo-o sentir-se, nem que seja por um instante, como Deus, sentir que ele está no controle, por cima de tudo e de todos, auto-suficiente. Este é o princípio que está por trás do constante desejo de escapar aos prazeres sensuais – comida, sexo, drogas, álcool, cigarro, entretenimento etc – e do desejo de inflar-se mediante o ódio, o julgamento e a condenação alheia.

Para cumprir seu objetivo, o ego (ou o “solucionador-de-problemas”) atua por meio de dois poderes: (1) o poder calculador do cérebro humano, equipado com as faculdades da análise, da criatividade, do planejamento e da fantasia, e (2) o poder do ressentimento. Com a calculadora, o ego tenta conseguir algo, dando a si mesmo a impressão de que está por cima de tudo. Com o ressentimento, o ego tenta automaticamente – por hábito, sem pensar – estar por cima de algo ressentindo ou julgando (condenando) esse algo. Quando o processo do ressentimento é disparado, nenhuma emoção ou mesmo pensamento entra em jogo. O ressentimento é uma espécie de mecanismo do qual o ego lança mão para imediatamente exaltar-se acima de algo ou alguém, sobretudo alguém que o faz se lembrar de que não é um deus, para só depois os pensamentos e as emoções se juntarem a esse ressentimento.

Quando somos verdadeiramente humildes e submissos a Deus, é possível discernir o certo do errado sem julgar ou condenar. Mas quando brincamos de ser Deus, não conseguimos exercer essa distinção; só conseguimos julgar. Mesmo que o julgamento esteja tecnicamente correto, ainda assim ele é essencialmente errado, pois foi elaborado para que nos sintamos mais certos do que a pessoa que julgamos. Trata-se de julgamento ao nível do ego, apartando-nos de Deus, e não de discernimento ao nível do espírito, que vem de Deus. Não julgueis segundo a aparência, ensinou o Cristo, mas julgai segundo a reta justiça. [16] Infelizmente, o sujeito orgulhoso será incapaz de diferenciar entre os dois, mas julgará segundo as aparências pensando estar discernindo. O único fator que os distingue é a humildade.

Quando uma injustiça recai sobre a pessoa humilde, ela não reagirá internamente; ela discernirá a injustiça sem ressentir-se dela. Quando a mesma injustiça recair sobre a pessoa que tem um ego, ela imediatamente reagirá com ressentimento. Em ambos os casos, isso acontece sem nenhum pensamento. Quando o ressentimento transforma-se em pensamento, temos o que chamamos de julgamento.

Se a vontade da pessoa estiver subconscientemente inclinada a desejar estar por cima de tudo e se fazer de Deus, sua consciência atrairá para si todo tipo de pensamento através dos quais ela poderá cultivar, saborear e talvez até cumprir seu desejo: pensamentos de aceitação e admiração, pensamentos julgamentais, pensamentos sensuais e materiais etc. Se a pessoa continuar brincando com esses pensamentos, as emoções surgirão e se agregarão a eles. “Emoção” significa literalmente e-moção, ou seja, “mover-se de, afastar-se”; é por meio das emoções que a pessoa se afasta de seu verdadeiro eu, de seu espírito.

Ocorre que, apegando-se a esses pensamentos, as emoções despertam ainda mais pensamentos. A pessoa acaba afogando-se em um caldeirão de pensamentos e sentimentos, vivendo assim em uma espécie de realidade virtual, sem saber que pode sair dela se quiser. As deliberações dessa pessoa tornam-se compulsivas, deixando-se inflamar pelo trinômio pensamento-desejo-emoção, o qual chamamos de “paixão”. Eis a vida do ego. O espírito humano passa a ser guiado exclusivamente pelas paixões, afastando-se cada vez mais de seu Criador.

[*] A palavra nous [alguns dicionários em português trazem a palavra assim mesmo, “noûs” – N. do T.] normalmente é traduzida como “intelecto”, a exemplo do que foi feita na edição em língua inglesa da Filocalia. Essa tradução, no entanto, pode ser muito enganosa, pois modernamente usamos “intelecto” com a conotação de razão abstrata ou dedutiva, da qual o noûs deve ser cuidadosamente distinguido. Optamos por traduzir noûs como “espírito”, pois entendemos que essa palavra porta melhor o sentido original da palavra.

[**] P´o (“alma inferior”, “alma animal”, “alma do corpo”) e ying, o qual, segundo Gi-ming Shien, é o mesmo que hun (“alma superior”, “alma do sopro”, “alma do espírito”). Na antiga concepção chinesa, o hun passa para o outro mundo quando o corpo morre. De maneira similar, a antiga tradição cristã ensina que somente o noûs passa para a vida futura no momento da morte, enquanto os poderes inferiores da alma deixam de existir. (Cf. Fr. Dumitru Staniloae, Orthodox Spirituality, p. 86-87, 96-97).

[***] Sobre a união da alma com o espírito, cf. Santo Isaías, o Solitário, On Guarding the Intellect, The Philokalia, vol. 1, p. 26.

[1] Lossky, Mystical Theology, p. 201; St. Theophan the Recluse, The Spiritual Life, p. 61-62.

[2] Lucas 11:35; Tao Te Ching, cap. 52.

[3] Lü Tung-pin [Lü Yen], The Secret of the Golden Flower, Thomas Cleary, trans., p. 13-15, 138-139.

[4] St. Theophan, The Spiritual Lifei, p. 61.

[5] Pomazansky, Orthodox Dogmatic Theology, p. 135. St. John Damascene, "Orthodox Faith", p. 236.

[6] The Philokalia, vol. 2, p. 88.

[7] Ibid., p. 308.

[8] St. Theophan, The Spiritual Life, p. 75.

[9] Tao Te Ching, cap. 52 (Rose and Mair, trans.).

[10] St. Theophan, The Spiritual Life, p. 74-75.

[11] Lucas 11:35.

[12] St. Theophan, The Path to Salvation, p. 260.

[13] Tao Te Ching, cap. 10 (Rose trans.).

[14] St. Basil, letter 2, p. 7.

[15] Tao Te Ching, cap. 12 (Gi-ming Shien, trans.).

[16] João 7:24.

Fonte: Christ the Eternal Tao, p. 276-285.

3 de maio de 2011

Os elementos essenciais da vida espiritual


Santo Hesíquio deu os seguintes conselhos para a superação das paixões:
Aquele que está empenhado na batalha espiritual precisa apresentar, em todos os momentos, as seguintes características: humildade, extrema atenção, refutação (de pensamentos) e oração.
Humildade, para que o combatente tenha sempre próxima a ajuda de Cristo em seu coração (o Senhor resiste aos soberbos - Tiago 4:6; I Pedro 5:5), dado que os adversários nesta batalha são os demônios do orgulho.
Atenção, para que o coração não abrigue nenhum pensamento, por melhor que seja.
Refutação, para que todo pensamento que eventualmente surgir seja imediatamente repelido com raiva.
Oração, para que, depois de refutado o pensamento, o asceta possa clamar a Cristo com gemidos inexprimíveis (Romanos 8:26). Então, ele verá o inimigo ser preso ou acorrentado pelo honorável nome de Jesus, como o pó pelo vento ou como a fumaça que se desvanece com seus sonhos.
Santo Hesíquio também versou sobre a importância da oração.
Aquele cuja oração não esteja isenta de pensamentos não possui a arma certa para a batalha. A oração, conforme a entendo, é rezada incessantemente nas profundezas da alma, de maneira que o inimigo, que combate em silêncio, seja exterminado pela invocação de Cristo. Pois é necessário que tu enxergues com os olhos afiados da mente, a fim de que percebas o que entrou nela e imediatamente extermine a cabeça da serpente mediante a refutação, ao mesmo tempo em que clama a Cristo com gemidos. Com tempo e experiência, conhecerás a ajuda invisível de Deus; então, verás com clareza a verdadeira condição do coração.
Eis o que São Teófano aconselha a respeito dos ensinamentos de Santo Hesíquio:
Aquele cuja decisão de pertencer ao Senhor é sincera não se desviará do caminho descrito. Ele até pode fazer boas obras e contornar as situações das mais variadas formas, mas até que adentre neste caminho, de nada servirá. Eu estou te posicionando no caminho para que não vagueies por aí em busca de outras coisas. Sê mais diligente no teu compromisso e obterás sucesso. Porém, tu deves labutar com todas as tuas forças, pois sem esforço nada obterás.

17 de agosto de 2007

Como salvar tua alma

São Teófano, o Recluso

O que responder a aquele que pergunta: “Como salvar minha alma?”

Isto: Arrependa-te e, fortalecido pelo poder da graça nos Santos Mistérios, trilha o caminho dos mandamentos de Deus sob a direção que a Santa Igreja te deu por meio de seus sacerdotes. Tudo isso deve ser feito com um espírito de fé sincera, sem reservas.

Mas o que é fé?

Fé é a confissão sincera de que Deus, adorado na Trindade e criador e provedor de tudo, salva a nós, os caídos, por meio do poder da morte na Cruz do Filho de Deus, pela graça do Espírito Santo em Sua Santa Igreja. Os princípios da renovação, estabelecidos nesta vida, surgirão em toda sua glória no século dos séculos, de uma maneira que a mente não consegue compreender nem a língua expressar.

Ó, Deus nosso, como são grandes Tuas promessas!

Como, então, trilhar o caminho dos mandamentos de maneira inabalável?

Não é possível responder a esta pergunta em poucas palavras, pois a vida é algo complexo. Eis o que é necessário:

a) Arrependa-te, e voltando-te ao Senhor, admita teus pecados, chora por eles com coração contrito, e confessa-os ao teu pai espiritual. Prometa em palavra e em coração, perante a face do Senhor, não mais ofendê-Lo com teus pecados.

b) Assim, obedecendo a Deus em mente e coração, esforça-te a cumprir corporalmente os deveres e questões que tua vida lhe impõe.

c) Acima de tudo, guarda teu coração dos maus pensamentos e sentimentos – orgulho, convencimento, raiva, julgamento, ódio, inveja, desdém, desânimo, apego a coisas e pessoas, pensamentos dispersos, ansiedade, todos os prazeres sensuais e tudo o que separa a mente e o coração de Deus.

d) Para que permaneças firme no caminho, decide, antes de mais nada, a não se negar àquilo que reconheces como necessário, mesmo que isto signifique a morte. Para conseguir isto, quando te resolveres a cumprir tal decisão, ofereça tua vida a Deus para que não vivas para ti, mas para Deus somente.

e) Viver assim é ofertar-te a Deus, e não depender de ti próprio; a arena espiritual desta vida é a paciência, ou seja, uma postura inabalável nas fileiras da vida redimida, esforçando-te alegremente em meio a todos os desconfortos e desprazeres a ela relacionados.

f) O sustento da paciência é a , ou a garantia de que, esforçando-te desta maneira para Deus, tu serás Seu servo e Ele será teu Mestre, que vê todos os teus esforços, regozija-Se neles e os valoriza; a esperança de que o sempre-protetor auxílio de Deus estará pronto e a te esperar, e descerá sobre ti quando precisares, de que Deus não te abandonará no fim da tua vida e, preservando-te enquanto fiel a Seus mandamentos, em meio às tentações, te guiará pela morte a Seu Reino eterno; o amor, que medita dia e noite no querido Senhor e em tudo procura agradá-Lo, evitando a todo custo ofendê-Lo em pensamento, palavras e obras.

g) As armas dessa vida são: a oração na igreja e em casa, especialmente a oração mental; o jejum, de acordo com as forças de cada um e as regras da Igreja; vigilância; solidão; trabalhos físicos; confissão freqüente de pecados; Santa Comunhão; leitura da Palavra de Deus e das obras dos Santos Padres; conversas com pessoas piedosas; consulta constante ao pai espiritual sobre todos os eventos externos e internos da vida. O fundamento de todos esses labores em medida, tempo e espaço é a sabedoria, aconselhando-te com aqueles que têm experiência.

h) Guarda-te com temor. Para isso, lembra-te do fim – morte, julgamento, inferno, o Reino Celestial. Acima de tudo, esteja atento a ti mesmo: preserve tua mente sóbria e teu coração despreocupado.

i) Estabeleça como objetivo o ardor do fogo do espírito, de maneira que arda em teu coração e, reunindo toda tua força, comece a edificar teu homem interior e, finalmente, queime as ervas daninhas de teus pecados e paixões.

Disponha tua vida desta maneira e, com a graça de Deus, tu serás salvo.

Orthodox Life, Vol. 27., No. 6 (Nov.-Dez., 1977), pág. 37-38.