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5 de outubro de 2011

Moralismo vs. Cristianismo


Pe. Stephen Freeman

Eu me lembro bem das minhas primeiras aulas de Teologia Moral. Isso já faz uns 35 anos. Este assunto é essencial para o pensamento ocidental, sobretudo nas tradições católica romana e anglicana. Por diversas vezes as aulas se pareciam mais com aulas de Direito do que Teologia. Aprendíamos métodos e princípios sobre os quais as questões morais eram debatidas e decididas. Mas, no fim das contas, as aulas serviram mesmo é para despertar algumas dúvidas em mim.

O problema central da maior parte da moral está nestas perguntas fundamentais:

  • O que significa agir moralmente?
  • Por que moral é melhor do que imoral?
  • Por que certo é melhor do que errado?

Estas perguntas são respondidas por algumas fórmulas legais clássicas:

  • Agir moralmente é agir em obediência à lei ou aos mandamentos de Deus.
  • Moral é melhor do que imoral porque moral é uma descrição da obediência ao Bom Deus. Ou, moral é a descrição de fazer o bem, ou de fazer o maior bem à maior quantidade de pessoas (depende muito da sua escola de pensamento).
  • Certo é melhor do que errado pelas mesmas razões que moral é melhor do que imoral.

É evidente que todas estas perguntas (certo e errado, moral e imoral) depedem não apenas de um padrão de conduta, mas de alguém que force tal conduta. Assim, certo é melhor do que errado porque Deus vai castigar o errado e recompensar o certo -- se não fosse assim (no contexto deste raciocínio), tudo seria mero exercício acadêmico.

Admitamos desde já que muitos cristãos se sentem perfeitamente à vontade com a idéia de que Deus recompensa e castiga. Admitamos também que há farta evidência bíblica que serve de suporte às pessoas que pensam assim. Todavia, este tipo de raciocínio está longe de ser unânime nas tradições de fé cristã -- e menos ainda na Igreja Oriental.

Que a Escritura ensina essas coisas -- que Deus é castigador e recompansador -- é inegável, mas há mais coisas no âmbito bíblico que precisam ser lidas e entendidas:

E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto [a recusa dos samaritanos em receberem Jesus Cristo], disseram: "Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?" Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: "Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las". E foram para outra aldeia. (Lucas 9:54-56).

Se Tiago e João estavam raciocinando com base no binômio castigo-recompansa -- e obviamente eles estavam --, a repreensão do Cristo pegou-os de surpresa. O mesmo se aplica a vários outros momentos do ministério de Jesus Cristo. A interpretação dada pelos Padres neste e em outros trechos da Escritura é de que o papel de Deus como "castigador" é apenas um aspecto de Seus papel como "terapeuta". As agruras que padecemos não são para nossa destruição e castigo, mas para nossa salvação e cura.

Esta observação faz com que as coisas tomem uma nova direção. Trata-se de uma interpretação aplicada ao Velho Testamento a partir da revelação do Cristo no Novo Testamento. No Cristo vemos com clareza aquilo que era apenas conhecido "em enigmas" na Velha Aliança. Através dEle vemos agora com clareza.

Deus enquanto Cristo é uma realidade que invoca novas perguntas sobre moralidade:

  • O que a encarnação de Deus significa para a moralidae humana?
  • O que está em jogo nas nossas decisões sobre o que é certo e errado?
  • O que significa ser moral?

Os ensinamentos de Santa Atanásio (+373), o grande Padre do Concílio de Nicéia e defensor da fé contra os ataques do arianismo, sobre a natureza do estado aflitivo em que se encontra a humanidade (pecado e redenção) são especialmente importantes. A abordagem que ele faz sobre o assunto, em especial em De Incarnatione, começa com a criação do mundo do nada (ex nihilo). Nossa própria existência é uma coisa boa, que nos é dada e sustentada pela misericórdia e pela graça do Bom Deus. A ruptura de comunhão que ocorreu na Queda (e em todo pecado) é a rejeição da verdadeira existência que nos é dada por Deus. Portanto, o problema do pecado não é de natureza legal, mas de natureza ontológica (uma questão de ser e de verdadeira existência). O sentido da vida, no âmbito cristão, é a união com Deus, é ser participante de Sua vida. O pecado rejeita a verdadeira existência e nos afasta de Deus em uma espiral de não-ser.

Ora, as questões que vivenciamos não são morais em sua natureza, ou seja, não se trata de obedecer certas coisas porque são certas etc., mas são ontológicas em sua natureza. A grande escolha dos homens é entre a união com Deus e Sua vida ou cair no vazio do não-ser. A salvação não é uma questão jurídica, mas ontológica. As grandes promessas do Cristo apontam nesta direção.

Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso noûs, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12:1-2).

Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. (II Coríntios 3:18).

Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos; e assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. De maneira que em nós opera a morte, mas em vós a vida. (II Coríntios 4:6-12).

Há muitos outros versículos que apontam na mesma direção. Eles deixam claro que a salvação é algo que ocorre dentro de nós -- não se trata de uma mudança de nosso status jurídico. Somos exortados a entender que Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade (Filipenses 2:13). A salvação nada mais é do que conformar-se à imagem de Deus, uma verdadeira comunhão de vida e participação na natureza divina.

As abordagens jurídicas ofuscam a compreensão dessas coisas. A obsessão por modelos jurídicos rapidamente reduz a fé a um tribunal cósmico (ou sistema penal). O grande problema é que as questões morais tendem a ser objetificadas e situadas fora da vida dos fiéis. A superação de todas as questões legais que se interpõem entre nós e Deus não tem nada a ver com o paraíso. O objetivo do cristão ortodoxo é ser transformado na união com Cristo -- ser curado do pecado e renovado. Isto exige uma mudança no homem interior, exige a restauração do "verdadeiro eu" que está "oculto com Cristo em Deus".

Quanto à justiça, trata-se de um mistério. Cristo fala de Deus recompensando um grupo de pessoas que trabalharam somente no fim do dia da mesma forma que recompensou aqueles que trabalharam o dia inteiro. O princípio subjacente aí é diferente do princípio da justiça (é um exemplo usado por Santo Isaque, o Sírio).

O moralismo é uma degeneração da verdadeira doutrina cristã. Como o secularismo (e o universo de dois andares), ela pretende debater questões morais como se Deus não existisse. O moralismo (e todas as suas primas éticas) tornou-se uma "ciência", um exercício abstrato racional baseado em princípios puramente presumidos. A Escritura é clara quando diz que "ninguém há bom, senão Deus", nem pode haver nada que seja bom que não venha de Deus. As únicas "boas ações" são aquelas que nos levam à união profunda com o Cristo. Estas ações começam em Deus, são apoderadas por Deus e levam a Deus. "Moralidade" é uma ficção, pelo menos no sentido em que é versada pelo pensamento moderno.

O pecado que infecta nossas vidas e produz más ações é uma doença mortal (morte). Somente a união com a verdadeira vida no Cristo pode curar esta situação, causando a transformação e o renascimento na verdadeira vida, que é nossa no Cristo.

Conforme disse em várias ocasiões: Cristo não morreu para tornar homens maus em bons - Ele morreu para tornar homens mortos em vivos.

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Abba Lot certa vez visitou Abba José e lhe disse: "Abba, na medida do possível, rezo meu pequeno ofício, jejuo um pouco, rezo e medito, vivo em paz e purifico meus pensamentos o quanto posso. Que mais posso fazer?" O ancião levantou-se e apontou com os braços o céu. Seus dedos se tornaram como dez lâmpadas de fogo e eis que ele respondeu: "Se quiseres, poderás te tornar todo fogo".

26 de julho de 2010

A vida não é um programa de TV


Com o advento das tecnologias eletrônicas, o mundo moderno criou o que podemos chamar de mundo virtual. O mundo virtual não é o mundo real, mas está cada vez mais parecido com ele, chegando ao ponto de ser vivido como se fosse o próprio mundo real. É fato que os homens têm acumulado uma enorme variedade de experiências ao longo dos séculos, mas esta última experiência, a do mundo virtual, talvez seja o caso mais exemplar das coisas que não são nem reais, nem verdadeiras. Nenhuma foto ou vídeo pode ser considerado como sendo apenas uma foto ou um vídeo. A tecnologia desenvolveu-se de tal forma que a fidedignidade destes fenômenos é praticamente nula. Será que estamos vendo o que a câmera capturou, ou será que estamos vendo uma versão digitalmente alterada da realidade?

De qualquer forma, toda e qualquer representação digital da realidade não é a mesma coisa que a realidade -- na melhor das hipóteses, não passa de uma representação digital. Ver um filme de um bicho na selva não é a mesma coisa que ver um bicho na selva. Mas as linhas que separam a realidade da representação da realidade estão se tornando cada vez mais tênues e indefinidas.

Contudo, este fenômeno não se restringe apenas ao mundo da computação eletrônica: trata-se do padrão de comportamento humano há muito tempo estabelecido. O Arquimandrita Melécio Webber disse algo muito interessante a respeito da diferença entre o verdadeiro eu humano e o ego humano artificialmente concebido:

"A mente é o sistema defensivo de que o homem precisa para processar todas as informações que recebe. Porém, ao realizar esta atividade, a mente acaba se tornando auto-centrada, julgamental e temerosa. Ela espera que somente o pior virá do mundo, das outras pessoas e, em última instância, de Deus. Todos os detalhes do universo são medidos e pesados pela mente de acordo com a utilidade que trouxerem para a história mental do eu, isto é, para o ego. A mente se esforça para substituir o verdadeiro centro do ser, o coração, por um centro artificialmente criado por ela".

Por conseguinte, segundo a descrição do Pe. Melécio -- que está plenamente de acordo com a descrição dos Padres --, há muito tempo o ego se encontra em um estado de realidade virtual, criando uma história e uma versão de si próprio que não é o verdadeiro eu, mas uma projeção da imaginação, uma distorção criativa.

O mundo digital elevou essa projeção da imaginação e essa distorção criativa de mera auto-ilusão pessoal a uma representação pública. Ele seduz as pessoas para uma realidade que não é de maneira alguma a verdadeira realidade, mas uma representação falsa do eu -- defendida e preservada pela versão digitalizada do eu.

Uma amostra dessa tentação é patente quando constatamos a ânsia que as pessoas têm em ganhar fama mediante as mais variadas formas de mídia moderna. Quem nunca ouviu falar de indivíduos ou famílias tentando entrar em um "reality show" fazendo alguma coisa bizarra? A expressão "reality show" é, obviamente, uma das maiores contradições em termos que existe. Esses "shows" não mostram realidade alguma: tudo o que neles há são falsas projeções e demonstrações de egos artificialmente concebidos.

Você não é um programa de TV.

Evidentemente, quanto mais tempo nosso mundo for impregnado de experiências virtuais, tanto mais propensos estaremos a confundir a verdadeira realidade com as realidades virtuais. Mesmo sem os atuais dispositivos tecnológicos, todos nós estamos imersos em uma espécie de realidade virtual formada pelas histórias, verdadeiras ou falsas, que contamos a nós mesmos e às outras pessoas, na tentativa de conceber, definir e defender a falsa realidade do ego humano.

O ego, na medida em que é definido por si próprio, não é o verdadeiro eu, e jamais poderia ser: afinal, não somos auto-concebidos. A realidade de quem somos -- o sentido e o propósito de nossa existência -- é algo concebido por Deus, pois é Ele quem nos dá existência e propósito. O esforço em nos livrarmos da dependência de Deus é apenas um sintoma do pecado -- não é propriamente um problema existencial.

São Paulo ensinou:

Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória (Colossenses 3:2-4).

Acho que o exercício mais fundamental da vida cristã encontra-se cristalizado nesta exortação de São Paulo. É uma diretriz que nos exorta à autenticidade. O eu implicitamente aludido por São Paulo não é o mesmo ego artificialmente concebido por nós. Não sou definido pelas minhas histórias de abuso ou pela maneira como o público me percebe. Não sou definido por minhas escolhas ou por minha herança genética.

A vida que está "escondida com Cristo em Deus" é a vida que São Paulo descreve em Gálatas 2:20:

Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.

As falsas concepções do ego -- a realidade virtual definida pelo pecado e pela imaginação -- estão mortas. Elas foram crucificadas com Cristo. A vida que agora vivemos, que é a única vida autêntica, é a vida vivida na fé do Filho de Deus. Quem eu sou é uma questão escondida, uma questão a ser constantemente descoberta na minha vida em Cristo.

Há muito tempo que nutro uma profunda aversão pelas representações do Cristo e das coisas santas no cinema. O poder da imagem virtual facilmente constrói sua própria realidade. Não adoramos o Cristo de Zeffirelli ou as falsas representações da mídia. James Caviezel não é o Cristo. Max von Sydow não é o Cristo.

A Ortodoxia não proíbe imagens -- porém, as imagens da Igreja apontam para seus protótipos. Até hoje, as imagens do cinema raramente apontam para alguma coisa além de si próprias -- freqüentemente apontam para imagens do contexto cultural vigente e contribuem para a contínua e endêmica distorção da fé cristã empreendida pela modernidade.

Conhecer a Deus é uma luta diária. Conhecer o nosso próprio eu também é uma luta diária -- pois somente o encontraremos em Cristo nosso Deus. O verdadeiro eu não é concebido por mim mesmo, mas é um novo homem, concebido à imagem do Cristo. Jamais conhecerei o meu próprio eu a menos que eu conheça a mim mesmo em Cristo.

Eu não sou um programa de TV, e também não sou as falsas versões do meu ego, sejam aquelas que digo a mim mesmo ou aquelas que ouço dos lábios de outras pessoas. Serei conhecido somente em Cristo. Portanto, só conhecerei os outros na realidade de seus seres na medida em que conheço-os em Cristo.

É uma grande bondade em Deus.

Fonte: Pe. Stephen Freeman, da Igreja Ortodoxa de Santa Ana (OCA), Oak Ridge, TN, EUA