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18 de julho de 2026

Noites brancas


– Então agora você me conhece?

– Um pouquinho. Se não, diga-me, por que você está tremendo?

– Ah, vejo que você adivinhou de primeira! – respondi, entusiasmado ao comprovar que a jovem era inteligente, coisa que nunca atrapalha a beleza.

* * *

Pois a conclusão foi que temos de começar de novo porque hoje me dei conta que absolutamente não lhe conheço, que ontem me portei como uma mulherzinha e, naturalmente, a culpa de tudo isso é do meu bom coração.

* * *

Lembre-se que as escreve [minhas linhas impacientes] uma pobre garota sozinha, sem ninguém que a ensine ou aconselhe, e que esta garota nunca conseguiu dominar seu próprio coração.

* * *

Lembro-me do jeito que ele me olhou no dia em que apareci no quarto dele com aquela bagunça de roupas... Enfim, ele merece meu máximo respeito, e isso quase equivale a dizer que não estamos no mesmo nível.

– Não, Nástenka, não. Isso significa que você o ama mais do que qualquer pessoa no mundo, que você o ama até mais do que a si mesma.

* * *

Se me perdoar, sua memória guardará em minha alma a sublime exaltação de um sentimento de eterna gratidão que jamais se desvanecerá... Guardarei esta memória com carinho, serei fiel a ela [à memória] e não a trairei [a memória], pois isso seria o mesmo que trair meu coração, que é extremamente leal. Ontem, ele [o coração] se apressou em retornar às mãos de seu legítimo dono.

Fonte: Fiódor Dostoiévski, Noches blancas, Galaxia Gutenberg, Barcelona, Espanha, 2025.

17 de julho de 2026

O sentido geral da obra de Dostoiévski


O núcleo da obra de Dostoiévski é o mistério. Para ele, o homem vive no mistério, ou seja, no sobrenatural, no transcendente, e sua obra literária busca despertar no leitor a visão desse mistério discretamente oculto nas dinâmicas da vida. Aqui e ali, Dostoiévski apresenta o paradoxo supremo da condição humana, as consequências de fingir viver como se Deus não existisse, o abismo da misericórdia divina, o peso infinito que um instante ou uma decisão pode carregar, o imenso poder do sofrimento humano.

Os romances de Dostoiévski, segundo Navarro, têm uma espécie de “função sacramental”, ou seja, procuram unir o divino e o humano, mantendo certo equilíbrio. Por vezes, quando um personagem está a ponto de atingir o auge de entusiasmo, Dostoiévski introduz um elemento “carnal” para devolvê-lo ao plano do real, e faz também o inverso, introduzindo elementos sublimes a situações aparentemente chãs.

Dostoiévski apresenta Deus como o Mistério que resolve todos os mistérios e dissolve todos os problemas. No entanto Deus não entra de maneira patente, grosseira, mas discreta. Por exemplo, é típico de Dostoiévski que os romances transcorram em poucos dias ou mesmo horas. A redução temporal do enredo é proposital: a ideia é conferir a ideia de eternidade a situações e contextos terrenos breves, como uma lente de aumento.

E o que dizer da tal “beleza que salvará o mundo”? Navarro explica que a beleza serve, para Dostoiévski, como uma “embalagem” do mistério. A beleza serve como porta de entrada do mistério como, por exemplo, no mistério do amor. Mas, atenção, beleza aqui tem pouco ou nada a ver com “beleza estética”. A beleza de Dostoiévski é a beleza da alma, beleza essa que por conaturalidade fala do sobrenatural com mais intimidade e conhecimento. A beleza é portanto uma espécie de qualidade metafísica, e é por isso que Dostoiévski frequentemente faz uso da dor como um elemento de esplendor: a fonte da beleza e da miséria é a mesma (Deus). Sim, pois somente a alma bela é capaz de ver o rosto de Deus em tudo, até mesmo no sofrimento humano. A dor e o sofrimento são, para Dostoiévski, onde mais se nota o palpitar da vida. É no contexto da dor e do sofrimento que somos capazes de contemplar a consumação e a destruição do mal. Como? Ora, é na dor que atestamos a impotência do mal, a impotência de destruir-nos, de liquidar-nos.

E eis um drama terrível no qual todos os personagens centrais de Dostoiévski estão imersos: precisar de Deus sem poder encontrá-Lo. Como escapar desse suplício? Impossível, mas o próprio suplício nos ensina uma lição: é necessário amar a vida mais do que amar o sentido da vida. Vivemos nessa corrente de Heráclito e dela não saímos. Urge, assim, amar a vida, amar o viver, amar o dinamismo da própria existência. Navarro conclui com o desejo de Dostoiévski: que os leitores “ressuscitem”, que se animem a viver, que percam o medo de viver intensamente, de sentir.

Fonte: Antonio Schlatter Navarro, Por qué leer a Dostoyevski, Ediciones Universidad de Navarra, Pamplona, Espanha, 2021.