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6 de fevereiro de 2017

A vida após a morte


1. A parábola do homem rico e Lázaro

Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; e desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite. (Lucas 16:19-31).

  • A parábola é sobre o estado intermediário das almas, e não após a Segunda Vinda.
  • A morte -- separação da alma do corpo -- existe na vida humana.
  • Enquanto anjos tomaram Lázaro, demônios tomaram o homem rico. Os Santos Padres falam dos telônios, isto é, de demônios que tentam as almas. Como as almas pecadoras não têm mais o corpo para satisfazerem suas paixões, tornam-se enfurecidas. Portanto, depende das condições da alma se ela será tomada por anjos ou demônios.
  • O nome do homem rico não é mencionado porque ele não é uma pessoa em relação a Deus, já que não possui a graça do Espírito em si. O noûs do homem rico atraiu-se pelo mundo material, por coisas.
  • O seio de Abraão (Deus), atrás do peito, é o coração, o amor, que constitui-se de comunhão e união, isto é, Lázaro está unido a Deus. Lázaro não se importa com o rido porque, vivendo na Luz Incriada, esquece-se do mundo.
  • O fogo no qual o rico queima é a Luz Incriada, a mesma de Lázaro. Mas como ele não morreu curado, arrependido, a Luz é experienciada como uma energia cáustica. O grau de cura ou doença determina se a pessoa recebe a Luz como luz ou fogo. Mas todos verão a Luz. 
  • Os santos ouvem as orações dos pecadores.
  • O abismo é intransponível porque os pecadores veem a Luz como fogo. Eles não têm obras espirituais (cf. a iconografia da Segunda Vinda).
  • O homem carnal é incapaz de se arrepender, não importa o milagre que lhe seja mostrado. Ele não se deixa persuadir pelos santos, e não se deixará pelos milagres.
  • Para ser curado, deve-se ouvir os profetas, isto é, os teólogos e guias espirituais. Quem não se associa a um homem deificado não poderá ser salvo (um possível substituto são os escritos dos profetas, para que aprendamos o que é o Reino dos Céus e como chegar lá).

2. A separação da alma e do corpo

  • Definição de alma. São Gregório de Nissa ensina que a alma é criada, feita por Deus, um ser vivo e noético que, com a ajuda e a energia de Deus, transmite vida ao corpo.
  • Criação da alma. A alma é criada por Deus juntamente com a gênese do corpo, e se revela e se expressa à medida que o corpo cresce.
  • Morte e pecado ancestral. A causa  da morte não é Deus, mas o pecado que o primeiro homem criado cometeu no Paraíso, por livre escolha. Deus permitiu a morte por amor e filantropia, já que dá ao homem a chance de arrepender-se e seguir uma vida espiritual. Portanto, a morte concede ao homem a chance de não morrer para sempre.
  • O mistério da separação da alma e do corpo. A morte é um mistério porque coisas misteriosas ocorrem sem que a razão humana consiga entender. A violência com que o liame alma-corpo é rompido constitui esse mistério, deixando a alma aterrorizada. São Theognostos ensina que a morte é um novo nascimento, sugerindo que, ao mesmo tempo que devemos estar alegres e esperançosos, devemos também estar vigilantes e atentos por causa dos demônios. Enquanto Deus permite que os santos vejam outros santos (visões divinas), os pecadores têm visões demoníacas. Os santos, ainda em vida, reconhecem os falecidos, isto é, eles veem suas almas, uma prova de que a hipóstase (pessoa) não se destrói com a partida da alma.
  • A taxação de almas. A alma do recém-falecido sente a presença de demônios ("demônios alfandegários"). A alma se aterroriza, mas esses demônios não têm autoridade sobre os justos (ver João 14:30).  No Velho Testamento há trechos sobre os telônios aéreos: Salmo 7:1-2, Jeremias 20:9-10. Mas importante: a alma dos que não se arrependeram estará sujeita a ação dos demônios e de suas próprias paixões. Para se livrar disso, o pecador deve confessar ps seus pecados completamente, amar os homens, pensar em Deus e Sua justiça etc. Assim, os anjos que transportam a alma poderão "muni-la" de boas obras, livrando-a dos demônios. Os Santos Padres não cogitam acerca dessas coisas, mas as conhecem por experiência iluminada. São eles que oram para que sejamos livres da "morte súbita". Por causa do liame corpo-alma, há também uma estreita relação entre paixões da alma e do corpo. Quando a alma se separa do corpo, ela não consegue satisfazer suas paixões. Tais paixões insatisfeitas produzem uma dor intolerável. É por isso que os Santos Padres urgem para que nos livremos das paixões nesta vida a fim de que nos atraiamos somente por Deus. Portanto, o importante não são os demônios alfandegários, mas curar a alma das paixões, participando assim da Luz Incriada, tudo isso em vida, para que nossa partida seja alegre e bem-sucedida. A doutrina patrística dos telônios deve ser assim interpretada: (1) a linguagem da Bíblia requer a interpretação ortodoxa adequada, (2) os demônios são pessoas e, portanto, têm liberdade e fazem mau uso da liberdade humana e os dominam, (3) os demônios não têm autoridade sobre os justos e santos, que, portanto, não passarão pelos telônios e (4) os demônios agem por maior das paixões humanas.
  • Estado intermediário. É o estado entre a partida da alma e a Segunda Vinda de Cristo. Não é um estado natural da alma, pois ela vive afastada do corpo. Os justos e pecadores aqui obtêm somente uma prefiguração do Paraíso e do Inferno. São Marcos Eugênico ensina que os justos e pecadores estão "em seus locais apropriados". Há uma distinção entre Paraíso e Reino dos Céus e entre Hades e Inferno (antes e depois da ressurreição dos corpos). Os santos, em princípio, não conseguem nos enxergar e ouvir, porque estão sem seus corpos. Mas, pela graça, como estão unidos a Deus, eles nos ouvem e recebem nossas orações, embora não estejam em seu estado natural. São Nicetas Stethatos ensina que os santos, após a morte, são carregados por anjos "até a luz principal", isto é, até o Deus Trinitário e, depois, para a luz secundária (anjos e justos) que participam da luz principal. Santo André de Creta menciona que até mesmo os santos devem descer ao Hades, a fim de que sejam iniciados na economia divina, isto é, a descida de Cristo ao Hades e Sua vitória sobre o Hades e a morte. Em suma, o estado intermediário é um estado de espera. É por isso que as orações aos mortos são importantes, já que eles mesmos não podem se ajudar. E peçamos também aos santos, já que eles têm grande liberdade junto a Deus, pois estão em Sua Luz Incriada.
  • A morte de bebês. São Gregório de Nissa explica passo-a-passo: (1) Para que na Terra não falte o elemento noético, Deus criou o homem com parte sensível e noética; (2) É o elemento noético o responsável pela comunhão com Deus; (3) A questão da morte das crianças não deve ser avaliada em função da "justiça", mas do estado natural da saúde ou doença da natureza humana. Quando nasce, o homem experimenta iluminação do noûs e, portanto, podem ter oração noética, proporcional à sua idade. As crianças, como os santos, também veem anjos. (4) As crianças podem estar sendo poupadas pela Providência de coisas futuras malignas. Deus remove a crianças do banqueta da vida, sabendo que ela fará mal uso do mundo. (5) Alguns maus não morrem facilmente, cuja razão cabe somente a Deus saber. Alguns benefícios dessas pessoas más podem ser deduzidos.

3. Experiências pós-morte


O Pe. Seraphim Rose identificou 3 traços comuns nas experiências descritas pelo Dr. Moody:


(a) As experiências "extra corporais": a alma sai do corpo, retendo sua consciência, sentindo um grande aconchego, vendo as pessoas ao seu redor, mas sem poder se comunicar com elas.

(b) Encontro com outras pessoas: logo após essa solidão de (a), a alma se encontra com outras pessoas (parentes e amigos mortos).

(c) Os "seres de luz": surge uma luz, que aumenta seu brilho, reconhecendo-se nela uma personalidade particular ("Cristo" ou algum "anjo").

Segundo o Pe. Seraphim, estas coisas também ocorrem na Igreja, mas muita confusão é gerada aí. O "Arcebispo" Lázaro sustenta que essas experiências extra-corporais são estados demoníacos. Ele aponta 3 argumentos:

(a) A experiência espiritual do Reino de Deus não pode ocorrer fora do corpo, porque é nele que se encontra o templo do Espírito Santo.

(b) Quem quer que busque a partida da alma do corpo está apenas projetando sua imaginação e suas emoções no mundo dos espíritos demoníacos, que oferecem suas próprias revelações.

(c) As experiências dos Padres da Igreja são noéticas, ou seja, se encontram nas profundezas de seus seres.

No entanto, as explicações do Pe. Seraphim parecem mais ortodoxas, já que o "Arcebispo" Lázaro usa incorretamente citações de São Gregório Palamás (ele falava de êxtase espiritual, e não de experiências extra-corporais).

Discernimento. Ver I João 4:1: Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.

Os Santos Padres ensinam que o discernimento pressupõe conhecimento e vida espirituais. São Máximo diz que a recompensa do autocontrole é a abnegação ("dispassion") e a abnegação engendra discriminação. Os Santos Padres analisam as experiências em profundidade, e não apenas superficialmente. No entanto, há um ponto extremo que pode revelar a natureza da experiência: "pelos seus frutos os conhecereis". Se, após essa visão, paz e calma prevalecerem em seu coração, é um indício que vem de Deus, mas se criar comoção (ou orgulho), vem do diabo. Resumo: a vida subsequente da pessoa indica a natureza da visão. Mesmo durante uma visão, os santos viam sua própria vergonha.


4. A imortalidade da alma


A imortalidade de acordo com a filosofia. (a) A alma não é gerada, pois pertence ao mundo das ideias e é, portanto, incriada. (b) A alma tem um valor muitíssimo maior se comparada ao corpo; na verdade, o corpo é mau, pois aprisiona a alma imortal e incriada na matéria, impedindo que retorne ao mundo de onde veio. (c) A filosofia não admite a ressurreição do corpo, pois, por ser material e criado, jamais almejaria o "retorno"; eis porque o Apóstolo Paulo foi ridicularizado quando falou da resurreição dos corpos na Colina de Marte.

A teologia ortodoxa. A alma é criada, mas imortal, não por natureza ou porque teria sido criada antes do corpo, mas pela graça. A teologia ortodoxa também não separa alma e corpo dialeticamente, pois não há dualidade no homem, que é composto de alma+corpo. Os homens não devem, portanto, se preocupar com a sobrevivência da alma após a morte (pois a alma é imortal pela graça, mesmo a dos pecadores), nem com a ressurreição dos corpos (os corpos dos pecadores também ressuscitarão): o importante mesmo é a vida em Cristo após a morte e após a ressurreição dos corpos (só prolongar a vida de nada adianta).


5. O fogo purificador


Em Ferrara-Florença. Os latinos ensinam 3 lugares de destino da alma, os ortodoxos afirmam apenas 2: paraíso e inferno, mas cada um tem muitas "moradas". No inferno estão as  que pecaram imperdoavelmente e os que pecaram moderadamente, sendo para estes as súplicas, litanias, ofícios fúnebres etc. É por Deus, e não pelo purgatório, que esperamos misericórdia. As duas grandes diferenças são: (1) o purgatório é diferente do fogo eterno do inferno e (2) o purgatório leva à visão da essência de Deus, mas como essência=energia, então o fogo purgatório é criado.

São Marcos de Éfeso

(a) Segundo a parábola de Lázaro, não um terceiro lugar, mas, pelo contrário, um "grande abismo". Como a alma não está com o corpo, não faz sentido o purgatório atormentar corporalmente a alma. O purgatório passa a ideia de que não é necessário lutar nesta vida espiritualmente. 

(b) Não há fogo purificador na Bíblia e nos Santos Padres. Quando os latinos citam os Santos Padres, acabam os interpretando incorretamente.

(c) Argumentos teológicos contra o purgatório:

(1) Se a atração pelo divino purifica as pessoas, porque não o faria após a morte purificando os pequenos pecados?

(2) A bondade de Deus não despreza os pequenos bens nem pune os pequenos pecados.

(3) Como há diferentes prazeres para os justos e diferentes punições para os pecadores, não há necessidade de purgatório.

(4) A visão de Deus se dará a todos, mas a visão depende da profundidade da purificação. Os imperfeitos na purificação não precisam, portanto, de purgatório.

(5) São Gregório, o Teólogo: "Não há purificação para além desta morte".

(6) São Gregório, o Teólogo: É melhor buscarmos a purificação aqui porque depois a vida será de "tormentos, e não purificação".

(7) Na parábola de Lázaro não há um terceiro lugar.

(8) A alma sem corpo não pode ser punida corporalmente.

(9)  O Hades não é em forma de fogo e inferno, mas como uma prisão. Após a Segunda Vinda, o inferno começará. Não é necessário, portanto, purgatório aqui e agora.

(10) Os Santos Padres, que foram iniciados por visões, sonhos e maravilhas na vida dos tormentos eternos dos pecadores, como na parábola de Lázaro, nunca jamais mencionaram qualquer purgatório.

(11) O purgatório desencoraja as pessoas a lutarem espiritualmente aqui.

(12) A vontade do homem não pode ser mudada após a morte. Como a integridade da vontade é indispensável para a beatitude, logo o purgatório não poderia contribuir a ela.


6. A Segunda Vinda de Cristo


(a) A vinda do Cristo em glória. A vinda do Cristo é caracterizado como um "dia", um "dia de julgamento". (Cf. 2 Pe 3:10, 1 Cor 1:8, 1 Cor 3:13, 1 Jo 4:17). O dia tem a ver com o sol. Cristo é o Sol da Justiça. Mas esse dia é desconhecido (Mc 13:32). Cristo afirma não saber quando virá, mas Ele disse isso enquanto natureza humana. Por ser uma Pessoa da Trindade, Cristo sabe quando virá. Mas há sinais (Mt 24) que, no entanto, são muito difíceis de detectar: é necessário ser iluminado e ter recebido uma revelação para saber com mais precisão. Assim como a luz das estrelas se extingue com a luz do sol, todas as coisas visíveis darão lugar para o Criador do céu e da terra. Em essência, o julgamento se dá nesta vida; a pessoa que vê a luz está batizada com o Espírito Santo e não leva em conta o dia do julgamento pois, por sua associação com Deus, ele é integralmente um brilhante e radiante dia. Portanto, a Segunda Vinda aparecerá somente aos pecadores, que vivem em paixões e não seguem os mandamentos.

(b) A ressurreição dos mortos. (Cf. Is 27:19, Ez 37:1-14, Jo 11:22-23). As 3 ressurreições engendrados por Cristo são uma prefiguração à ressurreição dos mortos na Segunda Vinda (Cf. Jo 5:28, Jo 11:25, Rom 8:23, 1 Tm 4:15-16, Lc 20:35-36, Fp 3:21, 1  Cor 12-16, 1 Cor 15:35-41, 1 Cor 15:43-44).( Os corpos ressurretos serão incorruptíveis, sem necessidade de alimento, repouso ou sono. Cada pessoa receberá a graça de acordo com sua capacidade; assim todos adquirirão a idade de uma pessoa madura (idade do Cristo) aproximadamente 30 anos.

Há gente que ridiculariza a ressurreição dos mortos, mas acha normal a formação de um embrião. Ambos são possíveis porque ambos foram criados pelo mesmo Deus.

O sono é um indício ou símbolo do mistério da ressurreição dos mortos (sono=morte, estar acordado=ressurreição). O sono é o "irmão da morte".

Cremar o corpo não é aceito pela Igreja, pois dá a entender que o corpo é a prisão da alma, e deve ser queimado para liberá-la.

(c) O julgamento futuro. Cristo é o protótipo do homem; é Ele, portanto, que nos julgará. 2 Cor 6:2 significa que haverá uma comparação dos santos com pecadores. Mt 22:1-14: A veste nupcial são as virtudes, mas são os frutos do Espírito Santo, e não as virtudes humanas superficiais. Os pés e as mãos amarradas são as restrições que o pecado impõe ainda nesta vida. As terras exteriores são o fogo incriado que lhe queimará após, no inferno. Mt 25:31-46): É a caridade o critério de seleção? (a) quem faz caridade é justo, gentil e anda nos caminhos das virtudes. (b) o amor pela humanidade é a virtude que está no topo de todas as virtudes. (c) quem faz caridade tem, por característica, a humildade. São Simeão diz que Cristo estará faminto por sua salvação, mas ele não Lhe dará ouvidos; Ele  foi preso no seu coração, mas ele não quis visitá-Lo. Mt 25:1-13: A virgindade refere-se à "virgindade" da alma: asceticismo, autocontrole, batalha nas virtudes. As mãos são a vida difusa da alma: arrependimento. As lâmpadas acesas são o noûs iluminado. O óleo em grande quantidade é o amor, a maior de todas as virtudes.

Portanto, o julgamento não será um processo legal, mas a revelação de Cristo da condição espiritual interior dos homens. Quem não pecou, mas também não recebeu o Espírito Santo, não terá a vida eterna. A visão da Luz incriada não é, portanto, um luxo, mas a essência e o propósito da vida.

7. Paraíso e Inferno

(a) As Sagradas Escrituras sobre o Paraíso e o Inferno 
  • (Lc 23:42) Reino de Deus e Paraíso são a mesma coisa.
  • (2 Cor 12:3-4). Os 3 céus, segundo São Máximo, são filosofia prática, theoria natural e teologia mística e, desta, o Apóstolo Paulo foi levado ao Paraíso.
  • (Ap 2:7). André de Cesareia diz que a "árvore da vida" é uma referência perifrástica à vida eterna.
  • Inferno: Mt 25:46 e 1 Jo 4:18.

(b) Os Santos Padres sobre Paraíso e Inferno

Paraíso e Inferno não existem segundo o ponto de vista de Deus, mas do homem. Ou seja, Deus é Paraíso para os santos e Inferno para os pecadores; Deus nunca se opõe aos homens, mas os homens é que se opõem a Deus. Santo Isaque, o Sírio, ensina que Paraíso é o amor de Deus, isto é, a energia incriada divina. Portanto, o Inferno é o tormento do amor de Deus; seria absurdo dizer que o Inferno é a ausência de Deus. São Teofilacto: o sol derrete a cera, mas endurece a argila. O fogo tem dois poderes: cáustico e iluminador.

(c) Paraíso e Inferno na vida da Igreja

A comunhão também atua de acordo com a condição espiritual de cada um: se a pessoa é impura, o queima, se está lutando para ser purificado ou está deificado, então o ajuda.

A iconografia da Segunda Vinda mostra que a luz em torno dos santos vem do trono de Deus, e do mesmo trono vem o rio de fogo que queima os pecadores.

8. A restauração de todas as coisas

A teoria da restauração de todas as coisas (palingênese) implica que não há Inferno eterno.

(a) Filosofia e teologia antigas. Orígenes ensinava (séc. III) que as almas em geral precisavam de mais tempo para se purificarem, reencarnando sucessivamente (reciclagem de almas).

Em Atos 3:19-21 aparece a expressão "restauração de todas as coisas", mas deve ser entendido como a renovação da criação quando da Segunda Vinda.

(b) Os intérpretes sobre São Gregório. Não concorda em tudo com Orígenes e, segundo o autor, nem com a restauração de todas as coisas.

(c) Comentários do autor. São Gregório forneceu a forma final do credo sobre o Espírito Santo. Como pode uma teoria rejeitada nos sínodos que participou ser defendida por ele? Ele é o "Padre dos Padres". Sobre a filosofia, São Gregório vê na vida de Moisés um símbolo: a cesta é a educação nas diversas disciplinas que, apesar de não deixá-la afundar, acaba nas margens, a filha do faraó estéril é a filosofia profana. Mas quando subiu a montanha, Moisés se sentiu envergonhado por ser filho de uma mulher estéril. É a vergonha daqueles que atingem a visão de Deus e foram anteriormente chamados de filhos da filosofia. Portanto, São Gregório critica a filosofia, afirma que há algo de estéril e incircuncidado nela. Mesmo que se ocupe com Deus e, portanto, tenha certa piedade, ela é um tanto carnal. Ora, São Gregório não era um filósofo, nem se deixou enredar por filosofias, pois era um santo deificado, além de intelectualmente dotado. Alguns intérpretes entenderam errado São Gregório, que ensinava que, de fato, os deificados serão sucessivamente purificados, incessantemente. Mas isso não vale para aqueles que não se arrependeram. A restauração dos punidos é apenas o despir das vestes da pele da decadência e da mortalidade, a qual os pecadores também passarão. Os santos são entendidos pelos santos. São Marcos de Éfeso explicou que tanto São Gregório quanto São Máximo entendiam o "fogo purificador" como sendo o fogo eterno e a punição eterna. São Máximo acha que São Gregório exagerou ao enfatizar a restauração dos poderes da alma. Isso não é um "erro" propriamente dito. O que São Gregório quis dizer é que os pecadores também adquirirão o conhecimento das coisas boas e se conscientizarão que Deus não é o culpado pelo mal, embora não tenham participação em Deus.

9. Vida eterna

O desenvolvimento no século futuro

(1) O homem foi formado à imagem e semalhança de Deus, sendo que "semelhança" indica movimento em direção a Deus.

(2) O criado move-se em direção ao Incriado, mas nunca o atinge, pois jamais se tornará incriado por natureza.

São Máximo, em oposição a Orígenes, cunhou a expressão "fixidez que sempre se move" e "movimento estacionário".

Orígenes = movimento/devir/fixidez

São Máximo = devir (criação do mundo)/movimento (depois Deus introduziu o movimento-ascese)/fixidez (sempre em movimento)

10. Escatologia diacrônica

  • Na concepção ortodoxa do tempo, vivemos a unidade do passado, presente e futuro, pois nos santos o passado e o futuro são vividos como presente. É por isso que, na Igreja, falamos em escatologia diacrônica (escatologia = últimos dias). 
  • São Gregório Palamás identifica na Bíblia três maneiras nas quais o Reino de Deus se explica: o Reino de Deus está vindo (arrependam-se), o Reino de Deus veio (e está dentro de nós(Lc 17:21)) e o Reino de Deus virá (em sua glória e plenitude). O Reino de Deus é, assim, o próprio Cristo e a graça incriada.
  • O Velho Testamento está cheio de visões de Deus, por deificações. Portanto, havia, sim, deificados no Velho Testamento.
  • Todas as aparições de Deus no Velho Testamento eram o Verbo, e não o Pai, e era pelo Verbo que os profetas tinham comunhão com o Pai. Ver hinos da Igreja e 1 Cor 10:1-4 e Jo 6:31-41.
  • Mesmo assim, como a morte ainda não havia sido abolida, foram levados ao Hades, de onde Cristo os libertou.
  • O Apóstolo Paulo atingiu o terceiro céu: (1º) purificação do coração, (2º) iluminação do noûs e (3º) theosis.
  • 1 Cor 13:12: "conhecer em parte" é a iluminação, o conhecimento parcial, que é a oração noética.


Epílogo

Há duas maneiras de lembrar a morte:

(1) racional = nos leva ao desapego das coisas materiais.

(2) existencial/carismático = fruto da experiência de Deus, um dom espiritual, que nos leva à oração fervorosa, ao esforço ascético intenso.

Fonte: Metropolitan Hierotheos Nafpaktos,  Life After Death, Birth of the Theotokos Monastery, 1996, Levadia, Grécia. anotações pessoais.

14 de fevereiro de 2015

Hesicasmo e a vida em sociedade


A verdadeira sociabilidade é fruto do hesicasmo. Ora, hesicasmo não é apenas salvação individual, nem a simples manifestação religiosa da vida humana à parte do restante da vida em comunidade, mas é a própria e verdadeira substância da comunidade. Em suas homilias, ele [São Gregório Palamás] frequentemente examina o fato de que a perda de nossa relação com Deus implica em terríveis consequências às nossas relações interpessoais. Quando o noûs retira-se do coração e de Deus, a pessoa torna-se violenta, selvagem, e brotam daí os problemas sociais. No momento em que os sentidos dispersam o noûs no ambiente a parte passível da alma se submete a criaturas, o que acaba resultando no desenvolvimento de paixões e vícios.

A sociologia portanto está intimamente ligada à patologia e ao hesicasmo. Este é um dos pontos fundamentais dos ensinamentos de São Gregório Palamás e não deve ser ignorado.

O maior problema do homem, por mais paradóxico que seja, é a morte e suas assustadoras consequências. Depois do pecado e da entrada da morte no mundo, o homem vestiu as túnicas de pele do decaimento e da mortalidade. É exatamente isso que causa tantos problemas. Insegurança, ansiedade acerca do futuro, senso de mortalidade, doenças, proximidade da morte – eis alguns dos elementos que compõem a anormalidade do organismo psicossomático humano. A morte é um dos maiores problemas que o homem tem de enfrentar. Ora, a superação da morte, que só é possível mediante o hesicasmo, é aquilo de que o homem precisa e é aquilo de que a Igreja Ortodoxa dispõe e tem a oferecer.

Fonte: Metropolitan Hiertheos of Nafpaktos, Saint Gregory Palamas as a Hagiorite, Birth of the Theotokos Monastery, Levadia, Grécia, 1997, p. 241-242.

15 de fevereiro de 2011

Evágrio Pôntico


Pe. Gabriel Bunge

Enquanto estudava as obras de Santo Isaque de Níneve (da Síria), compreendi que os Padres foram inspirados pelas obras de Evágrio Pôntico. Decidi aprender mais sobre ele, estudei o idioma siríaco e conclui que há muitos preconceitos contra ele. O fato é que o Quinto Concílio Ecumênico não o condenou pessoalmente, mas apenas em relação aos origenistas. Desde então, decidiu-se que ele era origenista e coisas impossíveis foram atribuídas a ele.

Quando falo deste assunto com alguém, digo o seguinte: “Evágrio é acusado de estar em desacordo com quase todas as doutrinas da cristologia ortodoxa. Tudo bem, mas você não acha estranho que São Basílio, o Grande, não tenha notado nada disso nele? E Gregório, o Teólogo não notou nada também. Ademais, Teófilo de Alexandria queria ordená-lo bispo (Evágrio escapou dessa). Até mesmo antiorigenistas (Epifânio de Chipre, Hierônimo) jamais acusaram Evágrio de nada, embora o conhecessem pessoalmente. Será que não somos nós que estamos enganados?”

Foi então que comecei a estudar Evágrio com a devida seriedade. A oitava carta de São Basílio, o Grande, é tradicionalmente atribuída a São Basílio, mas sem sombra de dúvida foi escrita por Evágrio. A carta contém todos as doutrinas de Evágrio. Isso significa que Evágrio sempre pode ser lido com lentes ortodoxas. No entanto, ele também pode ser lido de maneira heterodoxa. A questão está no método. Eu também poderia mencionar “Da Oração”, conhecida como de autoria de Nilo de Ancira. Colocou-se nomes de Santos Padres ortodoxos nas obras de Evágrio para salvá-las e para que fossem lidas de maneira ortodoxa. É perfeitamente possível ler as obras dele sob a perspectiva ortodoxa. Eu aprecio Evágrio exatamente sob este ponto de vista.


Nota: As conclusões do Pe. Gabriel são semelhantes mutatis mutandis às do Metropolita Hieroteu de Náfpaktos quanto a São Gregório de Nissa. Ele explica no capítulo 8 de seu livro Life After Death que São Gregório não absorveu a doutrina da palingênese de Orígenes, ou seja, a doutrina da reencarnação (pág. 274). Afinal, São Gregório era um homem deificado, reconhecido por outros santos como tal – ele era tido como "o Padre dos Padres" pelos Concílios e um dos “Padres Capadócios” –, criador da forma final do Credo acerca do Espírto Santo etc. Em suma, como pode alguém que formula dogmas nucleares da fé cristã, de repente, em questões afins, simplesmente ensinar uma heresia grosseira e, por fim, ser aceito como "Padre dos Padres" por muitos santos de elevada estatura espiritual? Não é possível que São Gregório tenha se enganado, mas é muito mais provável, segundo o Metropolita Hieroteu, que seus críticos estejam enganados a respeito dele.

São Máximo, o Confessor, reconhece que São Gregório de Nissa exagerou nesse ponto. Mas é só isso: exagero na exposição. Esse seria o “erro” de São Gregório: exagerar, expressar-se mal, falhar na exatidão da explicação. Mas a explicação (a língua humana), em si, já foge do domínio da verdade incriada propriamente dita, e entra no âmbito das coisas criadas e, portanto, transitórias e imperfeitas.

Imagem: Evágrio Pôntico, pintado pelo iconógrafo Giorgos Kordes.

3 de fevereiro de 2011

Deus, o diabo e nós


Pe. John Romanides

Deus também ama o diabo. Porém, o diabo jamais será salvo. Deus ama a todos. A questão não é "se Deus me ama, então serei salvo". A questão é submeter-se à terapia, que é necessária para alcançar o estado de iluminação, de maneira que, quando estivermos diante da visão da glória de Deus, veremos a glória de Deus como luz, e não como fogo eterno e trevas exteriores.

O diabo não segue regras. Ele não faz guerra da maneira como nós fazemos guerra, ele não diz coisas como "de acordo com o Tratado de Lausanne..." O diabo não conhece limites, não tem regras de conduta para uma "guerra justa" contra os homens. Por isso, é muito difícil que os homens se tornem teólogos ortodoxos. A primeira preocupação do diabo para conosco é evitar que ouçamos o nome do Cristo, absolutamente nada sobre o nome do Cristo. Se por algum engano do diabo ouvirmos falar do Cristo e começarmos a nos interessar, bem, então o diabo muda de tática. Embora tenha perdido esta batalha, ele possui outros baluartes. Ele faz guerra em outros lugares.

Há pessoas que acham que só porque têm boas intenções -- por exemplo, quando têm compaixão para com uma pessoa pobre --, então essas boas intenções são humanas. E quando têm bons sentimentos, dizem que são sentimentos inspirados por Deus. Ora, bons sentimentos também podem ser inspirados pelo diabo. São muitas as inspirações. Na tradição patrística, o único sentimento isento de ilusões é quando o Espírito Santo reza dentro de nós.

Fonte: Empirical Dogmatics, do Metropolita Hieroteu de Náfpaktos

Leia também: As seis coisas que os demônios mais temem

5 de maio de 2009

Capitalismo e a metafísica ocidental


Na parte VI do livro Γέννημα και θρέμμα Ρωμηοί (Nascido e criado como romano), o Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos, da Igreja Ortodoxa Grega, faz uma interessante digressão sobre o capitalismo e sua relação com a metafísica. O capítulo está disponível em inglês e se chama Capitalism as the offspring of Western Metaphysics (O capitalismo enquanto descendência da metafísica ocidental), mas infelizmente não há uma tradução portuguesa. O autor faz uso extensivo da obra de Max Weber, mas sem lastrear-se nela integralmente. Vou fornecer aqui um breve resumo.

* * *

1) O Ocidente adota a metafísica.
Ao contrário do que o título poderia sugerir, o Metropolita Hierotheos não se refere a uma "metafísica ocidental", mas ao fato do Ocidente adotar uma metafísica, isto é, de ter introduzido uma disciplina filosófica chamada metafísica em seu seio.

2) A metafísica sugere a predestinação.
Como a metafísica pretende ser uma explicação racional para a estrutura da realidade e do Incriado, a soteriologia também precisa acompanhar esse "racionalismo metafísico".

3) A predestinação implica em adquirir autoconfiança na salvação.
Segundo a teoria da predestinação, inventada por Santo Agostinho e posteriormente desenvolvida por Calvino e seus seguidores, Deus seleciona algumas pessoas para serem salvas, enquanto as outras estão fadadas à danação. Não há nada que possam fazer para mudar a predestinação divina, seja praticando virtudes ou vícios. Como eleitos e condenados não se distinguem externamente, a única coisa que a religião pode fazer é ajudar as pessoas a superar essa opressão pscicológica, essa solidão dramática individualista (uma vez que nem a Igreja, nem os mistérios, nem os sacerdotes, nem ninguém pode ajudá-las); em suma, a religião tem de ajudar o fiel a adquirir autoconfiança na sua salvação.

4) Adquirir a autoconfiança na salvação engendra o moralismo profissional.
Para expulsar as dúvidas e tentações que o diabo tenta imprimir nas pessoas a fim de extrair-lhes a autoconfiança, o cristão deve dedicar-se sobretudo à sua atividade profissional, de maneira diligente e perseverante.

5) O moralismo profissional implica na racionalização da vida social.
O moralismo profissional engendrou fraternidades protestantes que, para além de sua atividade missionária, eram verdadeiras empresas, sistematizando todas as atividades profissionais e sociais.

6) Por fim, a racionalização da vida social e a solidão individualista são os componentes fundamentais do asceticismo protestante, isto é, do capitalismo.

3 de dezembro de 2008

Espiritualidade ortodoxa: uma breve introdução

Sendo talvez a melhor introdução contemporânea à espiritualidade ortodoxa, Orthodox Spirituality: a Brief Introduction é um pequeno mas importante livro do Metropolita Hieroteu de Nafpaktos, o qual fornece os conceitos e estágios fundamentais da vida espiritual cristã. O capítulo mais importante do livro (Degrees of spiritual perfection) não está disponível online, por isso recomendo que o leitor adquira o livro.

O objetivo do autor é livrar o leitor das influências ocidentais a respeito da vida ascética.

* * *

O homem espiritual é aquele que tem o Espírito Santo em si. Isso quer dizer que os homens do mundo são cegos, incapazes de enxergar as coisas de Deus, enquanto os homens espirituais são santos, que possuem duas características fundamentais:

1) receberam a Revelação de Deus, formulando-a posteriormente; e,
2) produzem relíquias.

A partir desta simples descrição, percebe-se que a função primordial da Igreja é levar os homens à comunhão com Deus e, de certa maneira, pode-se dizer que sua função é “produzir relíquias”. Uma Igreja sem santos não é Igreja. Ademais, conclui-se também que os santos são o próprio critério da infalibilidade dos Concílios Ecumênicos, uma vez que são portadores do Espírito Santo, isto é, do próprio Deus. Os dogmas são o resultado das decisões tomadas nos Concílios Ecumênicos, e estabelecem os limites entre verdade e erro, entre saúde e doença. Somente os santos, que receberam a Revelação de Deus, são capazes de enunciar dogmas. Os dogmas não são, portanto, meras considerações acadêmicas ou produto de estudos bíblicos. Seria impossível enunciar os dogmas somente a partir de reflexões sobre a Bíblia ou sobre as obras dos santos. Sua função é fornecer balizas, para além das quais o cristão não poderá circular sob pena de não curar sua alma, ou seja, de não atingir a comunhão com Deus. Os dogmas fornecem o quadro mental dentro do qual o cristão terá de limitar-se. Para além dele, somente trevas, ilusão e pseudo-curas o aguardam.

A principal diferença entre a espiritualidade ortodoxa e as demais espiritualidades é a ausência nestas de um método propriamente terapêutico, curativo. Para a Igreja Ortodoxa, a teologia é a própria visão da glória de Deus, isto é, uma teologia empírica, prática, mística, e leva seus membros a atingirem a chamada theoria (visão da Luz Incriada, ou seja, visão da Luz divina). No catolicismo, a teologia é eminentemente intelectual, filosófica, racional. A própria questão do Filioque é, muito além de um mero detalhe vocabular do Credo, um indício da ausência entre os católicos romanos de uma teologia verdadeiramente empírica. Outro indício é a aceitação quase cega e integral da metafísica aristotélica. Quanto aos protestantes, de maneira geral, eles crêem que a salvação vem pela aceitação racional da Revelação. Trata-se de um conceito falso, uma vez que lhes falta o essencial: a própria theoria, ou seja, a visão de Deus. Por fim, as diversas religiões orientais, embora conservem em seu bojo a prática de eliminar pensamentos e imaginações, não possuem a noção de pessoalidade e, portanto, de princípio hipostático, teantrópico. Aliado à influência da dialética filosófica que lhes é característica, as religiões orientais levam seus seguidores ao “nada”, isto é, à não-existência, abrindo as portas para influências demoníacas.

Segundo a teologia cristã ortodoxa, a alma humana, assim como o próprio Deus, é composta de essência (coração) e energia (noûs). O noûs é o “olho da alma”, e deve retornar a seu lugar natural, que é, precisamente, o coração. O coração é o centro da constituição psicossomática humana, e é lá que Deus se revela e se manifesta. O coração só pode ser encontrado asceticamente: é o que chamamos de deificação (theosis). No entanto, o pecado age dispersando o noûs em coisas mundanas, escravizando-o à razão. Por outro lado, nos santos, a razão humana funciona normalmente, no cérebro, enquanto o noûs, no coração, lembra-se incessantemente de Deus. Uma vez que retorna ao coração, o noûs pode então ascender à Trindade.

Quanto à memória, o autor cita o ensinamento do Pe. João Romanides. Segundo ele, o homem possui três memórias: (1) a memória do homem em relação a si próprio (DNA), (2) a memória do homem em relação ao mundo (células cerebrais) e (3) a memória do homem em relação a Deus (coração). Esta última memória funciona muito mal nos homens, sendo que sua cura vem por meio da oração noética (isto é, do noûs).

Portanto, cabe concluir o seguinte: qualquer espiritualidade que esteja divorciada do objetivo curar e purificar o coração, permitindo que o noûs lá reze incessantemente, é uma espiritualidade moralista, abstrata, falsa.

Segundo a tradição ortodoxa, que é revelada pelo Espírito Santo no coração dos santos, há três estágios de aperfeiçoamento espiritual. Eles encontram-se resumidos na tabela abaixo (clique para ampliar):









Os três estágios também estão representados em Lucas 15:11-32, na famosa parábola do filho pródigo, na qual o estágio (1) da purificação é representado pelos servos, o (2) da iluminação pelos jornaleiros (servos contratados) e o (3) da glorificação pelos filhos: E disse: Um certo homem tinha dois filhos; e o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. E foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos, a apascentar porcos. E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros. E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés; e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos; porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se. E o seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças. E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. E ele lhe disse: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou, e não queria entrar. E saindo o pai, instava com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas; mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se.

Os Santos Padres também ensinam que há três categorias de pessoas salvas: (1) as que obedecem para evitar o Inferno, (2) as que obedecem para ganhar o Paraíso e (3) as que obedecem por amor a Deus, isto é, por pura filiação. Nas bem-aventuranças do Sermão da Montanha, Cristo ensina claramente que o homem deve se purificar das paixões e adquirir humildade de espírito para ser digno de ver a Deus: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus (Mateus 5:3-8).

Nas obras dos Santos Padres, os três estágios de vida espiritual são caracterizados pelo uso dos termos praxis e theoria. A praxis são os feitos e esforços que desempenhamos a fim de alcançarmos a theoria, isto é, a glorificação, a visão de Deus. Chamamos a praxis de “hesicasmo”, a verdadeira ética cristã, e ela é representada pela a purificação do coração, enquanto a theoria é a iluminação do noûs e a glorificação. A praxis possui três estágios:

1) cura das faculdades da alma: inteligente, apetitiva, incensiva;
2) livramento da dor e do prazer: não há ansiedade nem aflições em relação aos problemas da vida; e,
3) purificação do coração: não há mais logismoi, isto é, não há mais pensamentos cheios de paixão (“fixações”); quando a pessoa é desatenta, os pensamentos tornam-se desejos e adentram ao coração, exercendo nele um poder destrutivo; a oração do coração, quando é incessante, impede que esses logismoi desçam da razão para o coração.

A praxis também possui um efeito colateral muito benéfico: torna a pessoa equilibrada, perfeitamente sociável, pois o egoísmo desvanece-se em favor do verdadeiro amor, qual seja, o amor a Deus.

No entanto, não podemos esquecer que a vida ascética deve estar combinada com os sacramentos. Trata-se de um ensinamento essencial da Igreja Ortodoxa. São Gregório Palamás lutou precisamente contra duas heresias bem características desse ensinamento: (1) o massalianismo (que valorizava o hesicasmo em detrimento dos sacramentos) e (2) o baarlamismo (que valorizava os sacramentos em detrimento do hesicasmo). Para receber os sacramentos, os catecúmenos passavam por quatro estágios de penitência e arrependimento, a saber:

1) fora do templo;
2) dentro do templo, mas só durante a Liturgia dos Catecúmenos;
3) dentro do templo, ao longo de toda a Liturgia, de joelhos; e,
4) dentro do templo, ao longo de toda a Liturgia, de pé, mas sem comungar.

Tais estágios fazem-se necessários porque o pecado é o obscurecimento do noûs, sendo que o arrependimento atuará para sua posterior cura e iluminação. Os sacramentos, então, entram como elementos sinérgicos, isto é, co-operadores, e dependem do estado espiritual da pessoa. Se não houver arrependimento sincero (e não mero remorso), os sacramentos atuam inversamente, isto é, causam tormentos à pessoa.

O autor lembra que a verdadeira teologia cristã é “néptica”, ou seja, está ligada à vigilância (nepsis) e à oração. A vigilância (nepsis) é a presença da razão nas portas do coração, guardando-o contra tentações, pecados e logismoi. É o que os Santos Padres chamam de “sentinela do coração”. Os logismoi podem levar um homem à insanidade, escravizando seu noûs. Esse processo ocorre em etapas, a saber:

1) acoplagem: “conversa” com os logismoi;
2) consentimento: decisão de agir segundo os logismoi;
3) desejo: o pecado é cometido; e,
4) paixão: repetição do pecado.

Dessa maneira, vigiando e orando, o homem se torna um ser verdadeiramente sociável, no sentido mais amplo e profundo do termo. Ademais, a morte é um dos maiores problemas existenciais modernos. Conforme se aproxima da morte, caso a pessoa não creia realmente na existência de Deus, lhe será dificílimo superar a insegurança e os momentos de angústia. A maior obra social da Igreja é, portanto, ajudar o homem a superar a morte, por meio dos sacramentos e do hesicasmo. Além disso, a Igreja também ensina o amor a todas as criaturas, cujo efeito trará seguramente benefícios ecológicos.

Por fim, o autor lembra que a espiritualidade é acessível a todos, isto é, a monges e leigos. As pessoas casadas devem cumprir todos os mandamentos, como os monges, afinal, há santos que foram casados. No entanto, cabe lembrar que os casados dos tempos apostólicos viviam como monges, já que o monasticismo foi criado justamente por causa da paulatina secularização da Igreja, acarretando, assim, o desaparecimento da vida ascética nas cidades. A família é o mosteiro das pessoas casadas, e é no ambiente familiar que se dará sua ascese. São Gregório Palamás lembra que os casados também podem almejar a purificação do coração. A tonsura monástica é um segundo batismo, ou seja, é a iluminação do noûs após o noviço ter passado, ao longo de seu noviciado, pela purificação do coração.

24 de novembro de 2008

O sentido do Natal

No dia 23 de dezembro de 2001, o jornal grego Eleftherotypia publicou um curto e complexo artigo do Metropolita Hierotheos de Nafpaktos sobre o sentido do Natal [1]. A correria para comprar presentes e enfeitar as casas oculta uma situação trágica: o produto de uma visão de mundo religiosa.

Para muitos isso representa uma surpresa. Afinal, não é bom que as pessoas tenham uma visão de mundo religiosa? Não.

Religião, conforme explica o Metropolita Hierotheos e o Pe. João Romanides neste e em outros artigos, é uma maneira mágica de se relacionar com Deus, cuja origem está na disposição decaída humana em formular doutrinas metafísicas que expliquem o Incriado, isto é, Deus. A metafísica tem por característica essencial a tentativa de demonstrar, de maneira lógica e racional, como os elementos que compõem a Divindade se relacionam entre si e com o mundo. Por conseguinte, a metafísica frequentemente implica em uma correspondente visão cosmológica. O cosmo, isto é, o mundo criado, passa então a ter uma relação perfeitamente direta e lógica com o Incriado, e é a partir daí que surgem as diversas práticas religiosas. A religião, portanto, tenderá a reintegrar o homem ao mundo das idéias, diluindo-o novamente no Ser Supremo, por meio de ritos e práticas.

A vinda de Jesus Cristo acabou com a religião. Não apenas com as religiões em geral, mas com a religião enquanto tal. A Igreja Ortodoxa, fundada por Cristo no dia de Pentecostes, não é uma religião. Na verdade, rotular a Ortodoxia de "religião" seria não apenas errado mas ofensivo. Nossa tradição não é exterior, aparente, ritualística, mas interior, néptica, hesicasta. Não somos indivíduos buscando nos conformar da melhor maneira, cosmológica e metafisicamente falando, a Deus, mas somos uma comunidade -- uma Igreja -- buscando internamente a união com as energias divinas.

[Foto: Um dos encontros do Metropolita Hierotheos com o Ancião Sofrônio (Sakharov)].

* * *

A festa do Natal de Cristo não pode ficar confinada somente a circunstâncias meramente sentimentais, ou seja, a enfeites, a interpretações intelectuais e racionalistas, a esquemas moralistas. A festa tem um sentido muito mais profundo e existencial. Se permanecermos no nível meramente exterior, então estaremos infligindo fome e sede a nós mesmos, privando-nos do sentido da vida e da liberdade existencial.

A Encarnação de Cristo era considerada e celebrada pelos Padres da Igreja e pela comunidade eclesiástica em geral como sendo a abolição da religião e a sua transformação em uma Igreja. De fato, o memorável Pe. João Romanides dizia, de maneira categórica, que Cristo se fez homem para nos libertar da doença da religião.

A palavra “religião” é mencionada nas epopéias de Homero e usada por Heródoto para expressar a adoração e a honra que uma pessoa tinha de oferecer a Deus. Etimologicamente, a palavra religião [em grego, θρησκεία] é derivada de uma palavra antiga que implica em “ascender”, ou seja, a palavra religião implica na ascese do homem a Deus. Até mesmo a palavra homem [em grego, άνθρωπος] é etimologicamente derivada da expressão “olhar para o alto”, ou seja, também implica em ascese.

No entanto, à primeira vista, parece que uma ascese pressuporia a aceitação da essência da metafísica, de acordo com a qual a alma de uma pessoa decaiu do impessoal e imortal mundo das idéias e está enclausurada num corpo, tendo de se livrar desse corpo-signo-túmulo e retornar ao mundo das idéias. Até mesmo a palavra latina religio – da qual se deriva a palavra religião – significa, de acordo com os dicionários, a união-junção-unidade do homem com Deus; ela também denota o mesmo fato, ou seja, a essência e o conteúdo da metafísica. De fato, ela também pressupõe – a exemplo das religiões orientais – uma expressão impessoal, anônima, da humanidade, dado que o homem tende a desaparecer como uma gota d´água no oceano do Ser Supremo e, por conseguinte, a eliminar a persona.

Conforme ensinava o Pe. João Romanides, o termo “religião” implica na relação do Incriado com o criado e, por conseguinte, na relação das representações do Incriado com noções e palavras do pensamento humano, sendo que tais relações são, é claro, o fundamento da religião e da adoração de ídolos. Portanto, neste caso, a face de Deus se perde, assim como a face da pessoa; o homem cai gravemente doente, dado que sua imaginação e seus vícios são cultivados ainda mais e, mais do que isso, podemos dizer que os chamados vícios naturalmente irrepreensíveis (fome, sede etc.) tornam-se vícios repreensíveis; causas de anomalias sociais por causa de ambições ilimitadas, ânsias injustas por bens e depravações sem-fim.

É famosa aquela frase de Feuerbach – repetida por Marx – de que “a religião é o ópio do povo”. Esse ponto de vista é aceitável – conforme verificamos no Oriente e nas visões religionizadas do Cristianismo Ocidental –, pois a religião estupidifica povos, mortifica sociedades e leva-as a tamanha inatividade que acaba tornando-as material de exploração para a instituição de tiranias que desprovêem a humanidade de seu direito inalienável à liberdade.

Eu gostaria de citar dois exemplos característicos das expressões religiosas.

O primeiro exemplo é o da religião budista. Sabemos que, de acordo com o budismo, o que tormenta a humanidade é o problema da dor, que se origina do desejo de viver. Daí, o objetivo final dos “iluminados” é sufocar essa paixão pela vida. A mortificação do desejo de viver é alcançada por um método especial chamado Yoga, que possui diversas variações, tais como o Hatha Yoga (união com o Brahma por meio de exercícios físicos), Karma Yoga (união com o Brahma por meio de feitos e rituais), Mantra Yoga (união com o Brahma por meio de cânticos e sílabas mágicas), Bhakti Yoga (união com o Brahma por meio da adoração absoluta de uma divindade ou do próprio guru), Jnana Yoga (união com o Brahma por meio do conhecimento místico), Kundalini Yoga (união com o Brahma por meio de atividades demoníacas), Tantra Yoga (união com o Brahma por meio de atos sexuais licenciosos). Através destes métodos, o homem supostamente alcança o Nirvana absoluto, o qual é a extinção de sua existência e seu desembaraço do desejo de viver, e cujo propósito último é evitar o Samsara – a reciclagem da vida, isto é, a reencarnação. Assim, o Atman pessoal é unido ao Brahma geral, assim como uma gota que adentra o oceano.

É óbvio que numa vida religiosa dessas não há personalidade; o homem é uma mera unidade, assim como não há sociedade; nenhuma vida social é encorajada, uma vez que esta vida é considerada um início de sofrimento.

O segundo exemplo origina-se das teorias de Anselmo de Canterbury, o teólogo escolástico que fundou o sistema cristão que prevaleceu no Ocidente e que tinha em mente o sistema feudal de organização social. Ocorre que o senhor feudal detinha honra e valor absolutos que não podiam ser violados, pois toda violação e todo distúrbio do sistema feudal – tido como obra de Deus – implicava na punição do infrator. Por conseguinte, dado que Deus é a forma suprema de justiça, que Ele possui honra e que instituiu a ordem na criação, então o infrator ou deve satisfazer o senso de justiça de Deus ou deve ser punido. Assim, Anselmo interpretou o sacrifício de Cristo na Cruz não como uma expressão de amor pela humanidade, mas como a expiação da justiça por Deus Pai. Esse sistema, aliado ao destino absoluto, engendrou enormes problemas no mundo ocidental – problemas pessoais e sociais, conforme analisados por Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

Estes dois exemplos, um do Oriente e outro do Ocidente, indicam de onde Feuerbach formulou seu slogan “a religião é o ópio do povo”. Naturalmente, nós, ortodoxos, também cremos que se dermos à religião este tipo de definição, isto é, uma definição metafísica, então fatalmente ela se tornará o ópio do povo, pois destruirá toda vida pessoal, eliminará a liberdade pessoal, e desintegrará a vida social, transformando o homem de pessoa em unidade.

Porém, o Cristianismo surgiu na história da humanidade para acabar com a religião, e para instituir a Igreja. A palavra “Igreja” é um antigo termo grego que insinua uma comunidade, uma congregação populacional – uma municipalidade – que resolve seus próprios problemas. Naturalmente, com o termo “Igreja” não implicamos algo somente exterior; implica a comunhão pessoal da humanidade com Deus e seus concidadãos, conforme verificado nos profetas do Velho Testamento, nos apóstolos do Novo Testamento, nos Atos dos Apóstolos, onde todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum; e vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister (Atos 2:44-45). Observamos esse fato nas comunas de monges, nos ensinamentos dos principais Padres da Igreja, e alcança até nosso tempo, conforme verificamos nas comunidades eclesiásticas narradas por Papadiamantis e nas memórias de Makriyannis. E sabemos muito bem, a partir de vários estudos, que tanto Papadiamantis quanto Makriyannis não eram pessoas religiosas, mas eclesiásticas, e não se inspiraram no puritanismo ocidental, mas na tradição hesicástico-néptica ortodoxa.

O maior problema dos cristãos ocidentais – e de muitos ortodoxos –, de acordo com Christos Yannaras, é a religionização do Cristianismo, transformando-o de Igreja em religião. Dessa maneira, eles cultivaram fundamentalismos, ódios, divisões, uma relação mágica com Deus, uma disposição competitiva entre si, uma visão autocentrada da vida, uma percepção utilitária e egoísta da sociedade, uma interpretação imaginária de tudo, uma abordagem sentimental da vida e, de maneira geral, a percepção de que os outros consistem – e são – uma ameaça à nossa existência.

Assim sendo, dadas estas circunstâncias, as belas árvores de Natal, as melodias sentimentais, as análises moralistas: tudo isso oculta criminosamente uma nudez existencial, transformando o homem num ser trágico.

Se os intelectuais contemporâneos investigassem o sentido do Natal de Cristo, concluiriam que, com Sua Natividade, Cristo aboliu a doença da religião e transformou-a em uma Igreja viva – com todos os sentidos autênticos que aí se consolidam. Tal é a carência do homem contemporâneo, que sofre da trindade trágica de Victor Frankl, a saber: sofrimento, culpa e morte, na medida em que percebe sua vida como sendo uma experiência pré-morte, uma morte existencial e eterna, e não apenas busca a experiência do prazer, mas, quiçá, através do prazer, busca a sobrevivência da existência.

Nota:

[1] O título original, em português, seria "A doença da religião". No entanto, a título de objetividade, decidi alterá-lo para "O sentido do Natal". Ademais, já há um ensaio do Pe. João Romanides cujo título é semelhante.

17 de novembro de 2008

Teologia "de brincadeira"

Neste artigo, o Metropolita Hierotheos de Nafpaktos versa sobre os falsos teólogos que, à exemplo das pessoas que se divertem dando conselhos sobre métodos práticos de suicídio, se divertem aconselhando seus ouvintes e leitores a cometerem suicídio espiritual. O autor lembra ainda que muitos desses teólogos fazem parte da Igreja Ortodoxa.

Ícone: Apóstolo São João, o Teólogo.

* * *

A época em que vivemos – essa época de informação e informática – produz certos eventos que despertam em nós surpresas e emoções. Observamos eventos trágicos, situações depressivas, atos desumanos, e chegamos ao ponto de dizer: “Mas vejam só o que o homem anda fazendo, ele que é a mais bela criação de Deus!”

Recentemente, os jornais publicaram uma notícia que nos entristeceu terrivelmente – não foi apenas o suicídio de um jovem, mas o meio pelo qual ele escolheu se suicidar.

“A opinião pública está chocada e tenta entender os detalhes que levaram ao fim trágico de um jovem de 18 anos em Ambelokipi, na periferia de Atenas. Ele obteve a informação de como se suicidar por meio de e-mails trocados na internet. Quando os funcionários da Secretaria de Segurança de Atenas informaram à pessoa que lhe fornecera os dados sobre o efeito letal de um determinado pesticida sobre o fim trágico do jovem rapaz, ela entrou em colapso psicológico, alegando que havia dado as instruções ‘só de brincadeira!’ ” (jornal Eleftheros Typos, edição de 21 de janeiro de 2008).

Este evento macabro expressa a frivolidade e a desumanidade das pessoas que, em nome da brincadeira ou mesmo do crime em si, fornecem informações que podem levar uma pessoa – sobretudo um jovem – ao fim, à aniquilação, à morte física e eterna, pois o suicídio é a coisa mais trágica que pode acontecer na vida de uma pessoa.

Porém, ao ler este artigo, ocorreu-me que também há por aí pessoas que, igualmente frívolas e desumanas, fornecem conselhos teológicos “só de brincadeira” e tornam-se, assim, a causa da morte espiritual de muitas pessoas e de muitos jovens. Não estou aqui me limitando à categoria das pessoas auto-entituladas “espirituais”, que escrevem, ensinam e aconselham jovens de forma imprudente; estou incluindo na categoria de “teólogos” as pessoas que estão dentro da Igreja, embora elas também preguem uma teologia “de brincadeira”.

A teologia da Igreja é uma palavra de conselho e que pertence à vida em si; ela é revelatória e terapêutica e, por isso, salvífica. Ela não é um conselho orientado a justificar ou disfarçar as paixões e fraquezas humanas. A palavra teológica versa sobre as paixões e sua terapia, e essencialmente indica o caminho para a união da pessoa com Deus. Observamos esse fato em todos os principais Padres da Igreja, sobretudo nos Padres da Philokalia, embora a maioria dos Padres da Igreja seja em essência “philokalianos”.

Por conseguinte, onde quer que haja “teólogos” em nossa época que falem e escrevam contemplativamente, psicologicamente ou façam uso de sua imaginação, ou seja, que expressem apenas uma teologia das paixões, então tal teólogo será apenas e tão-somente um teólogo “só de brincadeira”, o qual guiará o povo ao suicídio espiritual. E o que é pior: quando o perigo de suas atitudes lhes é apresentado, eles não sentem remorsos nem entram em colapso psicológico; ao invés disso, eles continuam a se regozijar e justificar “teologicamente” sua teologia “de brincadeira”, a qual leva ao suicídio espiritual.

E tal suicídio existencial constitui um crime eterno.