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22 de julho de 2026

Viktor Frankl e a logoterapia - III


A intenção paradoxal

Como já havíamos visto, a intenção paradoxal faz uso do humor não por mera “técnica”, mas porque o humor tem a capacidade de promover uma cisão no ego, uma espécie de “eletrochoque”, no qual o indivíduo passa a ser capaz de enxergar-se a partir de seu eu e, assim, vislumbrar o ego fora e acima dele. Portanto, o humor tem uma dimensão noética. A partir do humor o paciente pode ser levado a um nível mais profundo de mudança, a uma mudança radical de atitude. É inegável a semelhança com a fase estética da periagoge platônica, conforme empregada por Eric Voegelin.

Crítica a Freud e Adler

A vontade de prazer (vimos brevemente aqui) e a vontade de poder (vimos brevemente aqui) somente podem ser explicadas se as derivarmos da vontade de sentido. Se tomada isoladamente, a vontade de prazer confunde o efeito com o fim, e a vontade de poder confunde o meio com o fim.

O exagero da psicanálise

Freud era um especialista justamente naqueles motivos que não podem ser tomados em seu valor nominal. Quer isso dizer, contudo, que não há, em princípio, motivos que possam ser tomados em seu valor manifesto? Um pressuposto desse tipo é comparável à atitude daquele que, ao lhe mostrarem uma cegonha, disse: ‘Mas eu achava que a cegonha não existia!’ Acaso o fato de a cegonha ter sido usada para ocultar das crianças os fatos da vida nega, de algum modo, a realidade da ave?

Frankl propõe que a psicologia profunda seja complementada por uma psicologia elevada.

A postura fenomenológica do logoterapeuta

O logoterapeuta não deve prescrever um sentido ao paciente, mas pode, sim, ajudá-lo a descrevê-lo. Aqui a ideia é que o logoterapeuta tome a experiência do paciente sem impor-lhe nenhuma pauta externa, auxiliando-o a ampliar e enfocar melhor tal experiência.

A falsa promessa da homeostase e a crítica ao estoicismo

A psicopatologia não vem somente do “stress”, mas do alívio desse stress. Sim, pois o problema não está no stress, mas no sentido. Uma vida sem sentido, ou o que Frankl denomina “vazio existencial”, é frequentemente a causa do stress, e aliviá-lo pode inclusive intensificar tal vazio. O homem não necessita de homeostase a todo custo, mas, pelo contrário, uma tensão que surja do caráter da responsabilidade e da exigência.

A falha essencial aqui é encarar o homem como um ser para quem a realidade não tem outra função que a de “satisfazer necessidades”, “reduzir tensões” e “manter o equilíbrio”. Vê-se algo dessa postura na crença de que é necessário “alinhar os shakras”. Não há compromisso com uma causa, não há uma relação por amor. Tudo é desprovido de valor e reduzido a instrumentos, objetos.

Daí vêm, por exemplo, as neuroses sexuais (a busca do prazer sexual, ou seja, a busca neurótica do efeito como se fosse um fim, conforme descrito por George Leonard e Montserrat Calvo Artés) ou a busca inócua por “paz de espírito”, “consciência tranquila”, “autorrealização” e demais efeitos secundários.

Precisamente por isso o estoicismo (chamada por Frankl de “filosofia quietista”) não funciona em última instância: a felicidade e a força de vontade não podem ser objetivos reais da conduta humana. A intenção em buscá-las é a própria causa de sua fuga. É como a popular imagem do sabonete: quanto mais tentamos agarrá-lo, mais ele escapa das mãos. Igual crítica pode ser feita ao consumo vicioso de antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores de humor e ansiolíticos.

O falso dilema encontro vs. técnica

A pura técnica tende a divinizar-se, ou seja, tende a substituir a dinâmica da terapia pelos seus próprios termos e reduzir o homem a uma res. Cria-se um ambiente de distanciamento artificial. O puro encontro, por outro lado, tende a substituir a dinâmica da terapia pela preservação obstinada da simpatia e do desejo de ajudar que impera no consultório. Cria-se um ambiente de proximidade artificial. Ambas as posturas são igualmente reprováveis. A prática viva move-se entre ambos os polos.

Descartes criou a dicotomia res extensa e res cogitans. Frankl entende que Descartes deveria ter ido ainda mais longe, isto é, deveria ter negado ao homem não apenas a condição de extensa, mas também de res.

Religião de trincheira vs. religião de negociante

Muitos condenam a religião que só se professa em momentos de dor e sofrimento como oportunista (“religião de trincheira”). Mas mais oportunista ainda é a religião que só se professa quando tudo está bem e tranquilo (“religião de negociante”).

Fonte: Viktor Frankl, Psicoterapia y existencialismo, Herder Editorial, Barcelona, Espanha, 2001.

15 de março de 2024

A tríade trágica


Todo ser humano passa pela tríade trágica: dor/sofrimento (todo mundo vai sofrer), culpa (todo mundo vai errar) e morte (todo mundo vai morrer). A única forma de não passar por essa tríade seria não existir.

Passo 1. Aceitar/admitir a tríade trágica com coragem. Portanto, a pergunta "por que eu?" não faz sentido à luz da tríade trágica. O que faz sentido é perguntar-se "por que agora?" ou, melhor ainda, "por que não eu?"

Passo 2. Compreender o trauma. Em outras palavras, buscar compreender o sofrimento mediante a contextualização, entendendo como o sofrimento aconteceu. A ideia não é encontrar uma "explicação" para o sofrimento, mas preparar para a posterior conferência de novos significados às experiências traumáticas. O sentido da vida continua a existir nas experiências traumáticas porque elas fazem parte da vida. A ideia não é buscar um "porquê", mas um "para quê". O homem que enfrenta o sofrimento e é capaz de transformar o sofrimento em conquista é o que Frankl chama de homo patiens e também de “homem superior”, por ser esta a maior capacidade humana. Alberto Nery chama esta transformação de “alquimia do sentido”.

Passo 3. Aprender a praticar o perdão. O perdão é uma escolha, mas pode ser aprendido e exercido. Perdoar é uma noção de magnanimidade, ou seja, é colocar-se acima do sofrimento. Mas note que a ideia é não apenas perdoar o próximo quando somos vítimas, mas perdoar a si mesmo porque boa parte do nosso sofrimento tem a ver com culpa. Quando nos culpamos nos colocamos como vítimas de nós mesmos. Lembre-se: a culpa faz de você outra pessoa, portanto culpar-se prolongadamente é não apenas prejudicial, mas irracional. A culpa é um privilégio que nos faz refletir, mas não podemos nos deter na culpa. Para as pessoas religiosas, perdoar a Deus é fundamental porque as experiências traumáticas podem fazer com que elas percam sua fé.

Portanto, superar um trauma significa que aquilo não vai doer mais, ou pelo menos não dói a ponto de lhe “ferir” novamente. O trauma será lembrado como um pesadelo, como algo que durou pouco. É como uma cicatriz que aponta para uma ferida que um dia doeu.

Fonte: Alberto Nery, A logoterapia e a superação de traumas emocionais, YouTube, 2019.

26 de abril de 2023

Viktor Frankl e a logoterapia - II


Parte I

A logoterapia se parece a uma psicoterapia convencional, mas procura diferenciar-se desta mediante o tratamento a partir do lado “especificamente humano”, como dizia Frankl, ou seja, tratar as questões que surgem, ou se manifestam, no espírito humano, e não meramente no corpo humano ou na psique humano. Daí tais questões serem chamadas de “noogênicas”, ou seja, engendradas no noûs (espírito).

Frankl apela para duas capacidades humanas no âmbito da logoterapia: a autotranscedência (capacidade para apontar para algo/alguém/sentido que está fora do próprio ser humano) e o autodistanciamento (capacidade para observar seu corpo e psique com certa impessoalidade). Ambas as capacidades surgem, ou se pronunciam, em meio ao sofrimento. Assim como me dou conta melhor da capacidade da visão quando tenho um glaucoma, assim também me dou conta melhor da capacidade da autotranscedência e do autodistanciamento quando tenho um problema existencial. Ao contrário dos animais, os instintos e pulsões não nos dizem o que temos de fazer.  Ou seguimos a manada (conformismo), ou seguimos o líder ou grupo (totalitarismo), ou encontramos um sentido que preencha nosso vazio existencial. Esse sentido nunca é dado pelo terapeuta: é o próprio paciente o responsável por encontrá-lo.

O sentido é encontrado quando, nos “bastidores da realidade”, entrevemos uma possibilidade para mudá-la. Não importa se o sujeito é “simples” ou “sofisticado”: graças à sua autocompreensão ontológica pré-reflexiva (compreensão intuitiva de sua humanidade), o homem é capaz de ajustar sua postura e sua atitude ante os inevitáveis golpes do destino, ante os incontornáveis fatos da vida, e a partir deles criar uma axiologia (escala de valores).

As duas principais técnicas da logoterapia para tratar as neuroses psicogênicas são a intenção paradoxal (mobilização do autodistanciamento mediante desejar aquilo que teme ou fazer aquilo que teme; humor é a essência da técnica) e a derreflexão (mobilização da autotranscedência).

Na intenção paradoxal, o paciente aprende a permitir a intenção (paradoxal) irônica no lugar do medo, o que resulta no corte do combustível que move seus temores.


Enquanto a intenção paradoxal faz com que o paciente fique apto a ironizar as neuroses, com a ajuda da derreflexão ele é capaz de ignorar os sintomas. O paciente ignora a si mesmo. O neurótico quer “fazer” tudo com conhecimento e vontade.  Uma educação para a confiança em relação ao inconsciente seria necessária nos casos de neurose obsessiva, uma confiança em relação à espiritualidade inconsciente, à superioridade cognitiva e determinante das coisas do ânimo e do sentimento no ser humano em relação às coisas da razão e do conhecimento. Resumindo: aquilo que temos de ensinar ao neurótico obsessivo, devolver-lhe, deixar que ele reencontre, é sua confiança na espiritualidade irrefletida.

O psicoterapeuta só deve alcançar uma conscientização total de maneira temporária. Ele deve tornar o inconsciente (e também o inconsciente espiritual) consciente para depois permitir que ele se torne inconsciente de novo: ele deve conduzir uma potentia inconsciente a um actus consciente, com o único objetivo de criar novamente um habitus inconsciente. O psicoterapeuta precisa restabelecer o caráter espontâneo de operações inconscientes.

Por sua vez, há três padrões de reações patogênicos: (1) neuroses de angústia (agorafobia, medo de sentir medo, “ansiedade antecipatória”, fuga da situação), (2) neuroses obsessivas (medo de si mesmo, luta contra ideias obsessivas), (3) neuroses sexuais (medo da impotência, hiperintenção do prazer, hiper-reflexão, incapacidade de se entregar, de se esquecer).

* * *

A tabela acima mostra a causa (corpórea ou anímica) e o efeito (no corpo ou na psique) das psicopatologias. Alguns dados: a psicose tem origem somática, as neuroses podem ter efeito na psique (neurose) ou no corpo (neurose orgânica). As “doenças comuns” são aquelas tratadas pela medicina convencional, de causa e efeito corpóreos.

Evidentemente a etiologia nem sempre é rígida e tão bem delineada como sugere a tabela. Eis um gráfico que ilustra bem a proporcionalidade da primariedade da etiologia das patogêneses.


Há outra interessante maneira, muitíssimo utilizada por Frankl em seus livros, de classificar as patologias de acordo com seu efeito. Veja:


No eixo vertical encontram-se as três partes do composto humano e no eixo horizontal o tipo sintomatológico: simples efeito psicogênico ou noogênico, desencadeamento psicossomático cerebral-neurológico (ou seja, como um “gatilho” psíquico de uma doença corpórea, tal como nas psicoses), doença funcional somática (do tipo vegetativo ou endócrino) ou efeito retroativo (iatrogênica, ou seja, causada por erros médicos, ou outras reações).

Psicoses

Embora ditas “psicossomáticas”, as psicoses endógenas são claramente somatogênicas, embora haja uma psicogênese parcial. Em função de sua somatogênese, as psicoses são frequentemente racionalizadas, ou seja, os traumas, complexos e conflitos sofridos pelos psicóticos são tratados como patogênicos, e eis a confusão: são, na verdade, patognomônicos, ou seja, fazem parte da sintomatologia e denotam a presença da psicose, mas não são eles mesmos a causa da psicose. Como diz Frankl, assim como a maré vazante não é causada pelo recife que surge, a psicose também não é causada por um trauma psíquico, um complexo ou um conflito. Ademais, como já disse acima, a psicose é desencadeada (gatilho, condição) por fatores psíquicos, mas não é causada por eles.

Quanto à patoplástica (a maneira como se apresenta a patologia) temática e individual das psicoses, nota-se claramente a presença de ideias delirantes que se repetem “como a agulha que fica presa no sulco de um disco”. Assim, é mérito da psicanálise investigar a temática desses pensamentos delirantes, perseguindo-os até a infância. Em termos coletivos, pode-se falar de uma sociogênese, ou seja, o espírito da época também desempenha papel importante na temática do delírio. Ademais, em termos de patoplástica pessoal (humana), não devemos nos esquecer que o indivíduo acometido por essa patologia não é um simples animal selvagem ferido, mas um ser humano. Isso parece óbvio, mas não é: o paciente vivencia sua insuficiência como culpa perante sua consciência e/ou a Deus, e a pessoa, que é espírito, está além de ser saudável ou doente. Ora a análise existencial deve entrar aqui como um elemento que evidenciará o aspecto pessoal da psicose e eventualmente evidenciará algum elemento de religiosidade inconsciente. Quanto a isso, diz Frankl muito acertadamente:

No geral, porém, continua tão evidente quanto antes que um organismo psicofísico de bom funcionamento seja a condição para que a espiritualidade humana se desenvolva. Não podemos esquecer que o psicofísico, independentemente de quanto possa condicionar o espiritual, não tem qualquer efeito, não consegue criar tal espiritualidade. Também não deveríamos esquecer que é sempre unicamente o organismo psicofísico que é afetado – por exemplo, no sentido da doença psicótica. De qualquer maneira, um distúrbio funcional psicofísico pode fazer com que a pessoa espiritual que está por trás desse organismo psicofísico (e de alguma maneira também acima dele) não consiga mais se expressar, se manifestar: é esse – e não mais nem menos – o significado da psicose para a pessoa. A doença impede a pessoa em sua automanifestação. O espírito humano está condicionado à funcionalidade de seu corpo.

A logoterapia só é adequado no caso de psicoses leves a moderadas. Mais grave que isso, torna-se contraproducente.

A análise existencial almeja descobrir e despertar a humanidade intacta e invulnerável do indivíduo. São três “existenciais” a serem descobertos: a espiritualidade, a liberdade e a responsabilidade. Para a logoterapia, um fato biológico como a psicose está longe de ser, apesar dos pesares, um fato biográfico. Em suma, o paciente deve aprender a enfrentar e rir na cara de coisas como a angústia e a obsessão (método da intenção paradoxal). Em outras palavras, temos de garantir que os debates entre o humano na doença e o doentio no homem aconteçam. Temos de nos lembrar que um animal não tem alternativa, ou seja, ele se rende à afetividade patológica; o homem, por outro lado, pode se ocupar com tudo isso: não estou falando de reações psíquicas, mas de atos espirituais. Mas esse feito não acontece de maneira reflexiva, acontece de maneira muito mais implícita, sutil, silenciosa.

Doenças psicossomáticas

Como disse acima, são as doenças desencadeadas, e não causadas, pelo anímico. O fato de um asmático ou de alguém que sofre de crises de angina só ter ataques quando está nervoso é uma trivialidade e apresenta nada de novo. No mais, isso não quer dizer que a asma ou a angina como tais, em seu todo – ou seja, não no episódio singular da crise, mas como doenças de base –, sejam psicossomáticas ou psicogênicas. A angina ou asma podem acontecer por meio de um resfriado, mas também pode ser causada por uma excitação, ou seja, desencadeada pelo psíquico. Em suma, o nível de imunidade depende, entre outros, do estado afetivo.

Doenças funcionais

Elas são “funcionais” porque não há uma alteração estrutural em órgãos ou sistemas orgânicos, e sim meros distúrbios de suas funções, motivo pelo qual podemos classificar essas doenças como funcionais. Estamos falando dos sistemas vegetativo (respiração, circulação sanguínea, controle de temperatura, digestão etc.) e endócrino (produção de hormônios). São, portanto, na opinião de Frankl, “pseudoneuroses” enquanto as psicoses são cerebrais e neurológicas.

Neuroses reativas

Os efeitos psíquicos de causas somáticas das doenças funcionais (pseudoneuroses) produzem, por sua vez, efeitos psíquicos reativos, ou seja, reações neuróticas (neuroses reativas). O denominador comum dessas reações é a ansiedade antecipatória (medo do medo, como a colapsofobia, a infartofobia e a insultofobia). O círculo vicioso tem de ser quebrado em ambos os polos (somático e psíquico). O medo do medo é um medo secundário que tem um motivo (ou seja, motivo psíquico, que se acopla ao primário), enquanto o primário tem uma causa (ou seja, causa somática, a disposição vegetativa de angústia).

Há tipicamente dois padrões de neuroses reativas: (a) neurose obsessiva: o medo de si mesmo se expressa em ocorrências obsessivas e a partir daí o paciente exerce uma pressão contra elas, o que naturalmente reforça a pressão original; em particular, a obsessão de repetição é causada por uma insuficiência da sensação de evidência, enquanto a obsessão de checagem se deve a uma insuficiência de segurança dos instintos; há uma vontade pelos cem por cento, pelo absoluto, pela totalidade do conhecimento; o tratamento passa pela condução do paciente do mundo do absoluto para o mundo do pseudoabsoluto, convencendo-o que o mais razoável e não querer ser razoável; (b) neurose sexual: a ansiedade antecipatória se estabelece a partir da promoção do fracasso sexual único como sendo o primeiro; o caráter de exigência de potência tem um efeito patogênico e o paciente se sente inferiorizado, foge de situações em que a potência sexual poderá apresentar-se, como motéis, encontros de fim-de-semana etc. e foca muito no prazer em si (carpe horam, e não carpe diem) e acaba se perdendo; o prazer não é um efeito que pode ser agarrado, exatamente como o sono, e não pode ser colocado como intenção; a sexualidade não pode ser considerada um simples meio para um fim (prazer, orgasmo), mas uma expressão da aspiração amorosa (a emoção do sexo sem amor é inferior, como apontam inúmeras pesquisas); a sexualidade tem de desenvolver-se em três estágios: (1) mera masturbação (com ou sem parceiro, tanto faz), (2) o parceiro é abarcado em sua humanidade, (3) o amor vivenciado também envolve singularidade e unicidade.

Neuroses iatrogênicas

O médico é o fator patogênico mediante sua incompetência para uma anamnese minimamente aceitável (não deixa o paciente falar, por exemplo) e uma diagnose minimamente detalhada (banalizar o que diz o paciente e realizar um diagnóstico a todo custo para mostrar que algo foi feito, por exemplo).

Neuroses psicogênicas

Diz Frankl que o fato de um trauma anímico, ou seja, uma experiência grave, ter sobre alguém um efeito danoso e prejudicial a longo prazo, depende da pessoa, de toda a estrutura do seu caráter, e não da vivência em si pela qual ela teve de passar. A imensa maioria das vidas humanas passa por traumas e, curiosamente, essas situações são acompanhadas por uma diminuição de doenças neuróticas e uma melhora na saúde mental. Por isso uma liberação de uma carga psicológica longa e intensa são perigosas do ponto de vista da higiene mental, exigindo-se assim uma espécie de “ortopedia psíquica”. De qualquer forma, as neuroses psicogênicas orbitam em torno de dois polos: medo e culpa, cujas origens encontram-se respectivamente em duas condições ontológicas: liberdade e responsabilidade.

Doenças noogênicas

Refere-se a doenças da terceira dimensão humana, ou seja, a espiritual. É a dimensão verdadeiramente humana, e precisamente aquela que o psicologismo não quer aceitar. Caracteriza-se pelas chamadas “crises existenciais”, isto é, crises engendradas pela tensão de um conflito de consciência ou pela pressão de um problema espiritual. Nota-se claramente a necessidade metafísica, ou seja, a necessidade do ser humano de perguntar-se sobre o sentido de sua existência. O médico e psicólogo, que hoje é levado a assumir a função que anteriormente cabia ao sacerdote e ao filósofo, podem chegar a um diagnóstico errôneo de uma doença mental, julgando-a psicogênica quando a noogênese já está aí instalado muito antes.

As neuroses noogênicas exigem uma terapia que comece onde a neurose está enraizada: uma logoterapia. Trata-se de uma terapia essencialmente orientada à educação para a responsabilidade. O paciente precisa avançar de maneira autônoma a partir dessa responsabilidade e alcançar o sentido concreto de sua existência pessoal. Enquanto a psicanálise deu voz à vontade de prazer, a psicologia individual apresentou a vontade de poder e a logoterapia evidencia a vontade de sentido.

Enquanto o somatologismo ignora o espiritual, o psicologismo projeta o noético no puramente psíquico, procurando apenas pelos motivos emocionais do desespero, tentando “desmascará-los”. Os problemas e conflitos em si não são doentios. Mesmo conflitos insolúveis. Segundo Frankl, “assim como há verdade apesar da doença, há sofrimento apesar da saúde”.  O desespero humano em relação à sua falta de sentido não tem nada de patológico, nem necessariamente patogênico. Nem mesmo o suicídio é patológico.

Não existe “doença espiritual”, mas apenas um engate da afecção somática à frustração existencial. Falamos, portanto, de neuroses noogênicas, mas nunca de neuroses noéticas. E, evidentemente, há o erro do noologismo, ou seja, afirmar que toda neurose é noogênica. Dessa maneira, a logoterapia representa uma complementação noética da terapia somatopsíquica.

Neuroses coletivas

Frankl entende que não há propriamente um aumento das doenças neuróticas, mas um aumento da necessidade de tratamento psicoterápico. Isso está claro na velocidade aumentada da vida moderna, que em si representa uma tentativa de autocura, de autoentorpecimento: a pessoa está fugindo da monotonia interior e, nessa fuga, acaba caindo num turbilhão. O homem de hoje mal sabe de onde veio – muito menos para onde vai. E seria possível acrescentar: quanto menos ele conhecer seu objetivo, mais vai aumentar sua velocidade ao percorrer esse caminho.

Quando a vontade de sentido permanece insatisfeita, a vontade do prazer serve para anestesiar a insatisfação existencial do ser humano, ao menos para sua consciência. A líbio sexual prolifera, populariza-se o entorpecimento sexual. Similarmente, entre os executivos, a vontade de poder (e sua versão mais banal, a “vontade de dinheiro”) reprime a vontade de sentido. O homem existencialmente frustrado não sabe como ele pode preencher esse tempo livre. O tédio se tornou causa de primeira ordem da doença mental, ainda mais nos locais onde as questões sociais estão resolvidas.

Fonte: Viktor Frankl, Teoria e Terapia das Neuroses, É Realizações Editora, São Paulo, Brasil, 2016.

20 de julho de 2022

Fatalismo: a doença espiritual dos nossos tempos


O famoso fundador da logoterapia, o psicólogo austrí­aco Viktor Frankl, é conhecido especialmente por insisitir que a doença tí­pica dos nossos tempos é o fato de nossas vidas carecerem de sentido. Mas a expressão "sentido da vida" vem popularmente carregada de grande pesar. Pensamos nos princí­pios e valores que devem nortear a vida humana. Ok, mas Frankl pensava em algo mais prático e específico que isso.

"O que eu quero é ser feliz". Essa frase, tão comum na boca de muitos, é o slogan dos neuróticos. Sim, pois, para Frankl, desejar a felicidade, desejar o prazer, é algo como curto-circuitar a vida humana. Na eletricidade, um circuito só tem sentido quando entre os polos de um gerador há componentes como resistores, capacitores, transistores, microprocessadores etc. Assim também a vida humana precisa desses componentes para existir: são os sentidos. Em outras palavras, precisamos de um motivo para ser feliz, precisamos cumprir uma obrigação.

"Então buscar sentidos é buscar cumprir obrigações". Certo, mas não pense você que Frankl se refere aqui a cumprir obrigações morais, a cumprir preceitos religiosos, a desempenhar rituais. Nada mais falso do que isso. Pelo contrário, Frankl insiste que os sentidos se encontram, não se dão. O princípio da cura da pobreza espiritual é despertar no homem o desejo de encontrar um sentido, e a partir daí­ o homem, livremente, sem fórmulas prontas, empreenderá a jornada que o curará.

O sentido pode mudar várias vezes ao longo da vida. Uma enfermeira, por exemplo, pode perfeitamente encontrar o sentido no auxí­lio à cura de seus pacientes. Mas que sentido terá sua vida quando estiver moribunda, à beira da morte? Este é um dos casos em que o logoterapeuta pode atuar para ajudá-la. Neste caso em concreto, a enfermeira encontrou ser um exemplo de humanidade, de fortaleza, à sua famí­lia como seu novo sentido. Este é o sentido que se aplica a ela, especificamente a ela, segundo suas circunstâncias, segundo sua história de vida, segundo sua personalidade. Veja como princípios e valores pasteurizados e artificiais, como regras morais, não se aplicam aqui.

Mas o que impede as pessoas de encontrarem um sentido às suas vidas, seus trabalhos, seus amores? Frankl nota que o maior obstáculo na busca de sentido está na curiosa tendência do homem contemporâneo em nao se sentir responsável por essa busca. Em outras palavras, ele espera que algo e/ou alguém lhe dê os sentidos de que necessita.

"Tentei explicar que toda açâo psiquiátrica deve ter como objetivo acostumar o doente a assumir com satisfaçâo sua resposabilidade. Porém, nunca deixa de chamar a atençâo o fato de que em nossos pacientes neuróticos impera precisamente o contrário: o temor, o medo à responsabilidade. No próprio linguajar diemos que o homem tem que "se fazer" responsável; pois bem, parece existir uma força que lhe faz escapar dessa responsabilidade. Mas o que dá ao homem essa "força centrífuga"? É a crença supersticiosa no poder do destino, tanto exterior quanto interior; ou seja, no poder das circunstâncias exteriores e nos estados interiores. Em suma: é o fatalismo que invade essas pessoas, a esses indivíduos que padecem de um transtorno psíquico; mas nâo somente a eles, mas também a todas as pessoas aparentemente sâs e, de certo modo, a todos os homens contemporâneos".

O homem dos nossos tempos está cansado espiritualmente. Ele não quer a liberdade. Pelo contrário, a liberdade é um fardo do qual tenta se livrar mediante a renúncia da responsabilidade. O fatalismo lhe cai como uma luva. Se não é ele quem deve buscar os sentidos á sua existência, ao seu trabalho, ao seu amor, então, que alívio!, lá se vai a liberdade e, com ela, a opressão que lhe causa. Para o homem moderno, o espírito é o grande inimigo da alma. O homem neurótico tende a mostrar a seguinte conduta: o que comprova em si mesmo com isso se compromete; o qu encontra em si mesmo, por exemplo, nos traços de seu caráter, com isso se conforma.

Ora, o homem tem impulsos, é verdade, mas os impulsos não têm a ele. O homem é capaz de dizer "não"; ele não é obrigado a dizer "amém" a si mesmo. Ao reduzir-se a seus impulsos o homem se reduz a um animal. Os animais não têm impulsos: eles são seus impulsos.

Fonte: Viktor Frankl, La psicoterapia al alcance de todos, Herder Editorial, 2003, Barcelona, Espanha.

15 de julho de 2018

Viktor Frankl e a logoterapia


Apesar da fraqueza física e mental imperantes em um campo de concentração, ainda se podia cultivar uma profunda vida espiritual. As pessoas de maior sensibilidade, acostumadas a uma ativa vida intelectual, certamente sofreram muitíssimo (frequentemente sua constituição física era frágil); no entanto, o dano infligido a seu ser íntimo foi menor pois eram capazes de se abster do terrível entorno e adentrar em seus espíritos, em um mundo interior mais rico e dotado de paz espiritual. Somente assim se explica o aparente paradoxo de que os menos dotados fisicamente suportaram melhor a vida do campo que os de constituição mais robusta.

* * *

As tentativas de desenvolver um sentido de humor e ver a realidade sob uma luz humorística constituem uma epécie de truque que aprendemos na arte de viver. Inclusive é possível praticá-lo em um campo de concentração, embora o sofrimento humano seja onipresente. Isso se poderia explicar da seguinte forma: o sofrimento humano atua como um gás em uma câmara vazia; o gás se expande de maneira completa e uniforme no interior, independentemente do volume da câmara. De maneira análoga, o sofrimento, seja forte ou fraco, ocupa a alma e toda a consciência do homem. Daí se deduz que o "tamanho" do sofrimento humano é relativo. E, inversamente, o feito mais insignificante pode gerar as maiores alegrias.

* * *

Esta tentativa de descrição psicológica e explicação psicopatológica das características do prisioneira do campo [de concentração] talvez induza o leitor a pensar que o homem seja um ser inevitavelmente dedterminado por seu entorno (neste caso, um entorno com uma estrutura insólita, com leis determinantes e repressivas intransponíveis, às quais se deveria submeter). Mas e quanto à liberdade humana? Não existe liberdade de ação frente ao entorno? Está correta a teoria segundo a qual o homem é um mero resultado de fatores condicionantes, sejam biológicos, psicológicos ou sociológicos? Será que o homem é realmente um produto acidental desses fatores? E, o mais importante aqui, as reações psicológicas dos reclusos no mundo do campo de concentração, demonstram que o homem pode escapar da influência do entorno? Será que o homem carece, em tais circunstâncias, de capacidade para escolher se limita ou anula sua liberdade de ação?

Podemos responder a estas perguntas sob a óptica da experiência e também apelando a certos princípios. A experiência da vida em um campo de concentração demonstra que o homem mantém sua capacidade de escolha. Os exemplos são abundantes, frequentemente heroicos, que provam que se pode superar a apatia e a irritabilidade. O homem pode conservar um reduto de liberdade espiritual, de independência mental, inclusive nos mais terríveis estados de tensão psíquica e física.

Nós, sobreviventes dos campos, ainda nos lembramos das pessoas que iam aos barracões consolar os demais, oferecendo-lhes seu último pedaço de pão. Talvez não fossem muitos, mas estes poucos são a prova irrefutável de que do homem tudo se pode extrair, menos uma coisa: a liberdade humana - a livre escolha de ação pessoal perante as circunstâncias - para escolher seu próprio caminho.

E lá sempre havia condições para escolher. Cada dia, cada hora, brindava a oportunidade de tomar uma decisão, decisão essa que estipulava se a pessoa se submeteria ou não à pressão que ameaçava arrebatar-lhe o último vestígio de sua personalidade: a liberdade interior. Uma decisão que prefixava se a pessoa se converteria - ao renunciar à liberdade e à dignidade - em joguete das circunstâncias do campo, deixando-se moldar por elas até que se convertesse em um prisioneiro ¨típico¨.

Vistas deste ângulo, as reações psicológicas dos prisioneiros de um campo de concentração vão muito além da mera expressão de determinadas condições físicas e sociológicas. Por mais que elas todas - a falta de sono, a escassíssima alimentação e as múltiplas tensões psíquicas - nos induzam a supor um comportamento estereotipado dos reclusos, se notava, em uma análise mais profunda, que o tipo de pessoa que se convertia cada prisioneira era mais o resultado de uma decisão pessoal que o produto da tirania do Lager. Assim que cada homem, inclusive em condições trágicas, pode decidir quem quer ser - espiritual e mentalmente - e conservar sua dignidade humana.

Disse Dostoyevsky: ¨Só temo uma coisa: não ser digno de meus sofrimentos¨. Estas palavras visitavam constantemente minha mente ao conhecer esses mártires cuja conduta, sofrimento e morte no campo supunham um testemunho vivo de que o reduto íntimo da liberdade nunca se perde. Eles foram dignos de seu sofrimento; a maneira em que suportaram supõe uma verdadeira façanha interior. Preciasmente esta liberdade interior, que ninguém pode arrebatar, confere à vida intenção e sentido.

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O homem que se deixava vencer pela ausência de futuro ocupava sua mente com pensamentos retrospectivos. Já mencionei aqui a tendência de refugiar-se no passado para apaziguar o horror do presente tornando-o menos real. Mas despojar o presente de sua realidade acarreta certos riscos. Aplacado por esta irrealidade, o prisioneiro deixava de ralizar ações positivas no campo de concentração, e essas oportunidades eram reais, existiam de verdade. Considerar a ¨vida provisional¨ como algo irreal constituía em si um fator primordial para que os prisioneiros desinteressassem de suas vidas, já que tudo carecia de sentido. Estas pessoas se esqueciam que, muitas vezes, as circunstâncias excepcionalmente adversas outorgam ao homem a oportunidade de crescer espiritualmente além de si mesmo. Em vez de aproveitar as dificuldades do campo para testar sua inteireza, julgavam sua situação errônea, como um parênteses inconsistente do destino. Preferiam fechar os olhos e refugiar-se no passado. Para essas pessoas a vida perdia todo seu sentido.

Evidentemente eram poucos os que conseguiam alcançar estes cumes de desenvolvimento espiritual. Mas os que os alcançavam conquistavam a grandeza humana, apesar de seu aparente fracasso ou morte; uma façanha que talvez nunca houvessem conseguido em circunstâncias ordinárias. Aos demais, os medíocres e pusilânimes, se poderia afirmar que acreditavam que as verdadeiras condições de autorrealização já haviam passado, quando na verdade consisitiam precisamente no desafio de escolher o que fazer da vida no Lager: converter esta tremenda experiência em uma vitória, transformá-la em um triunfo interior, ou desdenhar a experiência e limitar-se a vegetar, como o fizeram quase todos os prisioneiros.

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O que é urgentemente necessário em tais situações é uma mudança radical de nossa atitude frente à vida. Devemos aprender por nós mesmos, e mostrar aos homens desesperados, que na realidade não importa o que esperamos da vida, mas o que importa é o que a vida espera de nós.

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Transmitir ao leitor em um espaço tão reduzido o conteúdo da logoterapia é uma tarefa que desanima a qualquer um. Lembro-me de um colega americano que, em miha clínica em Viena, me perguntou:

-- Diga-me, doutor, o senhor é psicanalista?
-- Não exatamente, na verdade sou psicoterapeuta. -- respondi.
-- A que escola pertence?
-- Sigo minha própria teoria; se chama logoterapia.
-- O senhor poderia descrever em poucas palavras em que consiste a logoterapia?
-- Sim -- lhe disse -- mas antes o senhor poderia definir o que entende por psicanálise?

Eis sua resposta:

-- Na psicanálise o paciente se deita em um divã e conta coisas que são agradáveis de dizer.

Seu enunciado me deu oportunidade para improvisar:

-- Na logoterapia o paciente fica sentado, bem ereto, e tem que ouvir coisas que não são agradáveis de escutar.

Comparada com a psicanálise, a logoterapia é um método menos introspectivo e menos retrospectivo. A logoterapia se propõe a romper o círculo vicioso dos mecanismos de retroalimentação que tanta importância têm no desenvolvimento da neurose. Desta forma não se alimenta o típico egocentrismo do neurótico, mas o rompe.

Aquela definição improvisada é válida, pois o neurótico pretende evadir sua responsabilidade vital; por outro lado a logoterapia desperta sua consciência para que entenda que o sentido da vida é o fundamento para superar a neurose.

De acordo com a logoterapia, a primeira força motivadora do homem é a luta para encontrar un sentido em sua vida. Por isso faço alusão à vontade de sentido, em contraste tanto com o princípio do prazer (vontade de prazer) da psicanálise freudiana como com a vontade de poder que enfatiza a psicologia de Alfred Adler.

O homem é capaz de perder sua vontade de sentido, e neste caso a logoterapia fala de ¨frustração existencial¨. A frustração existencial também pode traduzir-se em neurose. A este tipo de neurose a logoterapia chama de ¨neurose noógena¨ em contraposição à neurose em sentido estrito: a neurose psicógena. A neurose noógena tem sua origem na dimensão noológica (do grego noûs, que significa ¨mente¨) da dimensão humana, não em sua dimensão psicológica. Este termo logoterápico denota sua vinculação com o núcleo ¨espiritual¨ da personalidade humana.

As neuroses noógenas não surgem do conflito entre impulsos e instintos, mas de problemas existenciais. É evidente, portanto, que a terapia mais apropriada para as neuroses noógenas não é a psicoterapia tradicional, mas a logoterapia: uma psicoterapia que adentra na dimensão espiritual.

Nego taxativamente que a busca de um sentido, ou a dúvida se existe esse sentido, proceda ou seja o resultado de uma enfermidade. A frustração existencial em si mesma não é patológica nem patogênica. A preocupação, ou a desesperação, por encontrar na vida um sentido valioso revela uma angústia espiritual, mas de modo algum supõe uma enfermidade.

A logoterapia entende que sua função é ajudar o paciente a encontrar o sentido de sua vida; portanto procede de uma modo analítico a ativar na consciência o logos oculto de sua existência.

Me atreveria a afirmar que, mesmo nas piores condições, nada no mundo ajuda a sobreviver como a consciência de que a vida esconde um sentido. Há muita sabedoria nas palavras de Nietzsche: ¨Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como¨.

A saúde psíquica precisa de certo grau de tensão interior, a tensão entre o que se conseguiu e o que se há de conseguir; ou a distância entre o que se é e o que se deveria chegar. Esta tensão é inerente ao ser humano e, portanto, indispensável para o bem-estar psíquico. Considero errôneo e perigoso para a higiene psíquica tomar por verdade que o homem necessita antes de mais nada de equilíbrio interior ou, como se denomina em biologia, ¨homeostase¨: um estado sem tensões, em equilíbrio biológico interno. O que o homem necessita não é viver sem tensão, mas esforçar-se e lutar por uma meta que valha a pena.

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Duvido que exista algum médico que possa fornecer o sentido da vida com noções gerais, pois o sentido da vida difere de um homem a outro, de um dia a outro, de uma hora a outra. Postular a questão em termos gerais equivale à pergunta que se fez a um campeão de xadrez: ¨Qual a melhor jogada de xadrez?¨ Simplesmente não existe resposta possível; nunca existirá uma boa jogada, ou a melhor jogada, sem referência a uma determinada partida e à personalidade do oponente. Assim também acontece com a existência humana; não deveríamos buscar um sentido abstrato à vida, pois cada um tem uma missão ou um objetivo a cumprir.

Em última instância o homem não deveria questionar-se sobre o sentido da vida, mas compreender que é a ele a quem a vida interroga. Em outras palavras, a vida pergunta pelo homem, questiona ao homem, e este responde de uma única maneira: respondendo de sua própria vida e com sua própria vida. Somente com a responsabilidade pessoal se pode responder à vida.

Por isso que o logoterapeuta seja o menos indicado, entre os psicoterapeutas, para impor ao paciente algum juízo de valor, pois nunca deixará que o paciente transfira a ele a responsabilidade por julgar sua vida.

Tentarei explicar com uma ilustração. O papel do logoterapeuta é mais parecido com o de um oftalmologista do que de um pintor. O pintor oferece uma imagem ao mundo tal qual ele o vê; o oftalmologista, por outro lado, quer que vejamos o mundo tal qual ele realmente é. A função do logoterapeuta consiste em alargar o campo visual do paciente até que visualize responsavelmente o amplo espectro de valor e de sentido de seu horizonte existencial.

Quero destacar aqui que o sentido da vida se deve buscar no mundo, não dentro do ser humano ou da psique, como se fosse um mundo fechado. Por isso mesmo a verdadeira meta da existência humana não se reduz à autorrealização. A autorrealização por si mesma não pode ser uma meta. Não se deve considerar o mundo como expressão de si mesmo, nem como instrumento, nem como meio para a autorrealização.

Fonte: Viktor Frankl, El hombre en busca de sentido, Herder Editorial, Barcelona, Espanha, 2016, trechos selecionados.