2 de março de 2026

A psicologia do caráter


O que é caráter?

O caráter é aquilo que há de comum na conduta da pessoa, mas que, ao mesmo tempo, é mutável. Embora não entre em detalhes, entendo que Allers se refira à massa de experimentum agregada na memória que, mediante gatilhos, responde de maneira quase automática pelo comportamento humano. É uma espécie de “adestramento humano” autoinfligido. Por outro lado, a pessoa em si é imutável, o que não significa que suas possibilidades de manifestação não sejam restringidas seja por questões culturais/sociais, seja por enfermidades psíquicas/cerebrais.

A conduta é uma relação entre o eu e o não-eu, ou seja, entre o eu e o mundo. O mundo penetra no eu e o eu retorna este impulso, sob a forma de comportamento, para o mundo. É claro que há um circuito de retroalimentação aqui, o que implica dizer que esse circuito só termina com a morte.

A conduta humana se pauta por sua incorporação a um domínio do Ser. Assim, está aberta o homem a possibilidade de adquirir uma posição neste ou naquele domínio do Ser e, ao mesmo tempo, está aberta a possibilidade de negar sua subordinação a este domínio do Ser. Há, por conseguinte, cinco aspectos da conduta que identificamos aqui: (1) e (2) um substratum misterioso de liberdade e responsabilidade, (3) uma reflexão desse fato objetivo no espelho do subjetivo, (4) uma expressão fisionômica da conduta, algo como entre a objetividade e a subjetividade, algo que pertence tanto ao ato quanto à oba, e (5) uma decisão, algo fundamentalmente subjetivo e que funciona como uma espécie de vivência de “conclusão” do circuito do impulso mundo-eu-mundo que mencionamos acima.

Em termos centrais, digamos, a expressão, que é o elemento fisionômico da conduta, apresenta várias “expressividades”: a ferramenta de um trabalhador, uma peça trabalhada à máquina, uma dissertação científica, um problema de química, uma exposição histórica, uma filosofia etc. Por isso o caráter de um homem não é claramente identificável, exigindo, assim, uma avaliação cuidadosa e um tanto prolongada, além de ser necessário contemplar as consequências futuras de suas ações (por exemplo, quando se faz o bem a alguém visando prejudicar um terceiro, ou quando uma atitude é uma analogia de uma outra situação decisiva). Eis por que para Allers julgar um homem como “bom” ou “mau” é não apenas temeroso, mas impossível: as ações humanas no seu conjunto não podem, por definição, delinear a essência humana. Por isso nunca se deve tomar uma ação isolada, ou um comportamento isolado, como base de um julgamento caracterológico.

A ação humana, ou a “conduta”, se dá num momento em que o conhecimento que nos advém deixa de ser impessoal, meramente “teórico”, e passa a ser pessoal. É quando não apenas uma situação poderia ser melhor do que é, mas quando essa situação nos toca em nossa esfera de personalidade, no núcleo mesmo do nosso ser, como se quiséssemos dizer “isso é comigo!”. É o chamado ato de apropriação. É precisamente sobre os atos de apropriação que se determina o conceito de caráter. Há aqui determinadas leis de preferência e menosprezo que compõem o domínio dos valores objetivamente válidos para nós. Eis como Allers define o caráter: “O caráter de um homem é portanto uma forma de legalidade de sua conduta, algo como uma regra, ou uma norma”.

É por isso que Allers entende quanto mais cedo abandonarmos os esforços de educação e regeneração, tanto mais estaremos à mercê dos fatores “heredoconstitutivos” [sic] e das emoções autóctones. É outra forma de dizer que o caráter é moldável e aperfeiçoável até o último dia de nossas vidas terrenas. Às vezes, pode parecer que o caráter de uma pessoa seja imutável, que esteja cristalizado, sedimentado, condenado. Mas eis que há experiências impressionantes, certos contatos íntimos, nas quais se torna visível a pessoa, a natureza íntima, de tal forma que se entrevê, como num vislumbre, que seu caráter solidificado não passa de uma aparência e que há, na pessoa, um conjunto mais capaz, mais rico, mais ativo e mais vivo de possibilidades de valor.

A origem do caráter (vontade de poder e vontade de associação)

Dissemos acima que a conduta humana se pauta pela incorporação da pessoa aos domínios do Ser. São quatro domínios:

(1) a natureza animada e inanimada

(2) a sociedade

(3) o espírito

(4) o sobrenatural

Mas é especialmente na sociedade que o caráter predomina. Ele é tão importante que Allers alude à ideia de que qualquer relação sobrenatural tem que, necessariamente, ter por base uma adequada relação anterior com a sociedade. Eis que vemos aqui, de maneira um tanto paralela, a ideia de José Castillo de que nossa “divinização” significa nossa “humanização” para com nossos semelhantes.

O objetivo do ser é, em sua fase final, assumir uma posição absoluta, ou seja, uma posição de absoluta afirmação de si mesmo. No campo subjetivo, a autoafirmação (o equivalente à autoconservação do mundo biológico) se orienta para essa meta de posição absoluta. Essa tendência à autoafirmação é o que em psicologia individual (Alfred Adler) se chama de vontade de poder, que é uma grande força impulsiva que permite o desenvolvimento pessoal, histórico e cultural. Esta vontade de poder manifesta-se desde a tenra infância, quando a criança se vê constrangida por sua fraqueza corporal e sua falta de conhecimento.  A ausência (ou deficiência) em viver seu próprio valor produz um efeito, uma “doença”. Daí a importância crucial – a enorme responsabilidade - em educar uma criança e não lesionar seu sentimento de valor próprio.

Eis o que ensina Allers quanto à educação das crianças:

Não é inteiramente exato dizer que a severidade [na educação das crianças] seja apenas a causa do aumento da distância e da influência deprimente sobre o valor próprio: ela é também consequência de tal posição. Aqui, como em toda parte, forma-se um círculo vicioso, de consequências fatais.

Quem se coloca muito alto em relação à criança, julgada um homem “incompleto”, ou gosta de opor sua “experiência” à “inexperiência” da criança, ou é inclinado, por uma exaltação de sua própria grandeza, importância e dignidade (uma exaltação devida muitas vezes à insegurança), a desprezar os outros e em especial a criança, e, portanto, a desprezar seu direito a ser reconhecida como pessoa e sua dignidade – este será levado, necessariamente, a tomar, na educação, uma atitude severa, uma vez que ele próprio se distancia do discípulo e a severidade é o único meio que lhe resta para “agir à distância”.

A severidade pode expressar-se de modos diversos. É positiva, como castigo e como atitude desaprovadora em geral; é negativa, como omissão de qualquer louvor e como falta de meiguice.

Há outro impulso ou força que compõe o caráter: a vontade de associação. Ela funciona como corretivo ou “elemento de controle” da vontade de poder. É uma tendência a pertencer, a ser um membro ou “estar” com os semelhantes. Se por um lado a vontade de poder responde à força da autoafirmação, do desenvolvimento do valor próprio e da plenitude da pessoa, a vontade de associação responde à força do amor, da dedicação e da comunicabilidade.

Amarás teu próximo (vontade de associação) como a ti mesmo (vontade de poder). [...] Mesmo um Robinson Crusoé, lançado, nu, à praia de sua ilha, não seria capaz de manter-se, se não trouxesse consigo todo o conhecimento adquirido com seus semelhantes.

Das limitações inerentes à vontade de poder deve surgir a humildade, enquanto das obrigações da vontade de associação (pois com os outros formamos uma unidade) deve surgir o amor ao próximo. É o amor ao próximo que nos torna capazes de vencer o isolamento e a solidão em meio a este mundo enorme e terrível.

O onipresente medo

O medo é o traço de caráter mais marcante, mais central, mais presente. Isso acontece porque já desde criança, como dissemos acima, nossa formação e crescimento são pautados pela inferioridade física e mental e, portanto, pelo medo. O medo é tão onipresente que Allers cogita que não há caso algum no qual, de forma evidente ou oculta, o medo não apareça como causa das perturbações. O medo é um sintoma da inadequação às condições da vida, e seu correlativo é a incerteza. Uma circunstância exemplar dessa inadequação é a timidez nas crianças. A criança tímida é a criança má-preparada para o convívio social.

Por isso é fundamental, na infância, transmitir à criança a confiança em si e no mundo. Tudo o que não se deve fazer é incutir-lhe ainda mais medo mediante brincadeiras estúpidas, grosserias, xingamentos (“covarde”, “boiola”) etc. A ideia de que tais atitudes “endurecem” e tornam a criança altiva e confiante são meros pretextos para adultos que buscam o prazer na humilhação alheia.

A base do medo é de que se possa, em alguma circunstância, desvendar o absoluto desvalor da própria pessoa, quer diante de outros, quer diante do próprio eu. É por causa do medo que a criança recorre à mentira com consciência: o êxito em iludir e ultrapassar o medo do adulto torna-se mais poderosa que a posição natural da criança diante da culpa. A criança sadia, por outro lado, compreenderá que a luta por grandeza e poder carece de sentido e, por isso mesmo, é fundamentalmente improdutiva.

Outro subproduto do medo é o orgulho. Trata-se de uma reação coerente com o medo, ou seja, com a constante ameaça de seu valor próprio. Ocorre que o orgulho aprisiona a criança em seu ciclo, tornando-a profundamente infeliz.

Como regra geral, os pais não devem povoar o cotidiano da criança com proibições. A ideia é conduzir seu processo de autoafirmação, e não o eliminar. A criança não é um cão a ser adestrado a ficar sentado, deitado, rolar no chão etc.

O ideal de caráter

Ora, o ideal de caráter é a “plena realização de todas as possibilidades existentes na própria pessoa. [...] Quais e quantas são essas possibilidades, não se pode dizer de antemão. Só a tentativa de realizar esta ou aquela pode esclarecer sua presença”. Mas não é na “superfície” do ser da pessoa que se podem encontrar seus valores ainda não realizados. Somente um observador exterior, e não por auto-observação, é possível pressentir esses valores latentes. A ideia de que a pessoa atingiu seu “máximo” de possibilidades atualizadas é falsa. Enquanto estiver vivo, há valões a serem realizados.

A passagem da potência ao ato é a essência e o sentido da vida humana.  Frequentemente os homens mantêm-se presos às imagens ideais colhidas na infância e consolidadas nas limitações de sua vida social e familiar. No entanto, mesmo acontecimentos triviais (uma doença, algumas palavras fugazes, uma experiência nada extraordinária) são capazes de tirar a pessoa do torpor que se colocou ao longo de décadas.

No entanto, o ideal de “personalidade” autônoma, livre, altiva e conquistadora é uma quimera que, pelo contrário, limitará a pessoa ainda mais. Lembre-se: há no homem tanto a vontade de potência quanto a vontade de associação. Exacerbar a vontade de potência, como se ela por si perfizesse o ideal de caráter, acabará por atrofiar o indivíduo e aprisioná-lo em um mundo neurótico.

O que importa não é, pois, a força, mas a vontade de atingir um valor mais alto; não é a grandeza, mas seu objetivo; não é o heroísmo, mas o desprezo da própria pessoa. Fama, importância e reconhecimento não têm, em si mesmos, valor nenhum. Não se deve ensinar aos homens a ambição, mas a submissão. Eles devem visar a atenção para com as coisas, as pessoas e as leis. Não devem, porém, desejar a atenção para si mesmos.

Em termos práticos, qual é o fim ao qual a pessoa deve aperfeiçoar-se para atingir. É impossível visar diretamente o fim da pessoa porque, se fosse possível, teríamos a pessoa aqui presente como um dado objetivo e delineado. Não se pode cair em dogmatismos psicológicos tolos: somente mediante a tentativa se pode descobrir, por contraste, se tal curso de ação, se tal caminho, é o que aperfeiçoa a pessoa a seu fim.

A voz da consciência e sua importância

Vimos em uma postagem anterior o que podemos entender por consciência. É a aplicação prática dos princípios infalíveis dados pela sindérese. E como desperta na pessoa a voz da consciência, a voz que lhe diz se está de acordo com seu dever? Bem, nesta mesma postagem vimos que a consciência é falível. De qualquer forma, a consciência desperta pela concordância (ou pela oposição) entre a ação atual e o estado da pessoa. Esse “estado da pessoa” nada mais é que um conhecimento vivido, não um conhecimento teórico. Mas é a partir do conhecimento teórico que alteramos, posteriormente, nosso estado interior, nosso conhecimento vivido. O estado da pessoa começa teórico, mas “entra” na pessoa posteriormente.

Ademais, assim como para nos darmos conta de algum processo orgânico tem de haver um “choque” ou “distúrbio”, assim também para nos darmos conta da consciente tem de haver uma distinção entre a ação e o estado interior. É neste momento que nos damos conta que pode haver “algo de errado”.

A voz da consciência é importante para entendermos que, a despeito de desconhecermos a pessoa, ela pode ser um farol que aponta para a adaptabilidade a um dever conhecido.

Fonte: Rudolf Allers, Psicologia do caráter, Editora CDB, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022.