O que é caráter?
O caráter é aquilo que há de comum na
conduta da pessoa, mas que, ao mesmo tempo, é mutável. Embora não entre em detalhes, entendo que Allers se refira à massa
de experimentum agregada na memória que, mediante gatilhos, responde de
maneira quase automática pelo comportamento humano. É uma espécie de
“adestramento humano” autoinfligido. Por outro lado, a pessoa em si é imutável,
o que não significa que suas possibilidades de manifestação não sejam
restringidas seja por questões culturais/sociais, seja por enfermidades
psíquicas/cerebrais.
A conduta é uma relação entre o eu e o
não-eu, ou seja, entre o eu e o mundo. O mundo penetra no eu e o eu retorna
este impulso, sob a forma de comportamento, para o mundo. É claro que há um
circuito de retroalimentação aqui, o que implica dizer que esse circuito só
termina com a morte.
A conduta humana se pauta por sua
incorporação a um domínio do Ser. Assim, está
aberta o homem a possibilidade de adquirir uma posição neste ou naquele domínio
do Ser e, ao mesmo tempo, está aberta a possibilidade de negar sua subordinação
a este domínio do Ser. Há, por conseguinte, cinco aspectos da conduta que identificamos
aqui: (1) e (2) um substratum misterioso de liberdade e
responsabilidade, (3) uma reflexão desse fato objetivo
no espelho do subjetivo, (4) uma expressão fisionômica da
conduta, algo como entre a objetividade e a subjetividade, algo que pertence
tanto ao ato quanto à oba, e (5) uma decisão, algo
fundamentalmente subjetivo e que funciona como uma espécie de vivência de
“conclusão” do circuito do impulso mundo-eu-mundo que mencionamos acima.
Em termos centrais, digamos, a expressão,
que é o elemento fisionômico da conduta, apresenta várias “expressividades”: a
ferramenta de um trabalhador, uma peça trabalhada à máquina, uma dissertação
científica, um problema de química, uma exposição histórica, uma filosofia etc.
Por isso o caráter de um homem não é claramente identificável, exigindo, assim,
uma avaliação cuidadosa e um tanto prolongada, além de ser necessário
contemplar as consequências futuras de suas ações (por exemplo, quando se faz o
bem a alguém visando prejudicar um terceiro, ou quando uma atitude é uma
analogia de uma outra situação decisiva). Eis por que para Allers julgar um
homem como “bom” ou “mau” é não apenas temeroso, mas impossível: as ações
humanas no seu conjunto não podem, por definição, delinear a essência humana.
Por isso nunca se deve tomar uma ação isolada, ou um comportamento isolado,
como base de um julgamento caracterológico.
A ação humana, ou a “conduta”, se dá num
momento em que o conhecimento que nos advém deixa de ser impessoal, meramente
“teórico”, e passa a ser pessoal. É quando não apenas uma situação poderia ser
melhor do que é, mas quando essa situação nos toca em nossa esfera de
personalidade, no núcleo mesmo do nosso ser, como se quiséssemos dizer “isso é
comigo!”. É o chamado ato de apropriação. É precisamente sobre os atos
de apropriação que se determina o conceito de caráter. Há aqui determinadas
leis de preferência e menosprezo que compõem o domínio dos valores
objetivamente válidos para nós. Eis como Allers define o caráter: “O
caráter de um homem é portanto uma forma de legalidade de sua conduta, algo
como uma regra, ou uma norma”.
É por isso que Allers entende quanto mais
cedo abandonarmos os esforços de educação e regeneração, tanto mais estaremos à
mercê dos fatores “heredoconstitutivos” [sic] e das emoções autóctones. É outra
forma de dizer que o caráter é moldável e aperfeiçoável até o último dia de
nossas vidas terrenas. Às vezes, pode parecer que o caráter de uma pessoa seja
imutável, que esteja cristalizado, sedimentado, condenado. Mas eis que há
experiências impressionantes, certos contatos íntimos, nas quais se torna
visível a pessoa, a natureza íntima, de tal forma que se entrevê, como
num vislumbre, que seu caráter solidificado não passa de uma aparência e que há,
na pessoa, um conjunto mais capaz, mais rico, mais ativo e mais vivo de
possibilidades de valor.
A origem do caráter (vontade de poder e vontade
de associação)
Dissemos acima que a conduta humana se
pauta pela incorporação da pessoa aos domínios do Ser. São quatro domínios:
(1) a natureza animada e inanimada
(2) a sociedade
(3) o espírito
(4) o sobrenatural
Mas é especialmente na sociedade que o
caráter predomina. Ele é tão importante que Allers alude à ideia de que qualquer
relação sobrenatural tem que, necessariamente, ter por base uma adequada
relação anterior com a sociedade. Eis que vemos aqui, de maneira um tanto
paralela, a ideia de José Castillo de que nossa “divinização” significa nossa “humanização” para com nossos
semelhantes.
O objetivo do ser é, em sua fase final,
assumir uma posição absoluta, ou seja, uma posição de absoluta afirmação de si
mesmo. No campo subjetivo, a autoafirmação (o equivalente à autoconservação
do mundo biológico) se orienta para essa meta de posição absoluta. Essa
tendência à autoafirmação é o que em psicologia individual (Alfred Adler) se
chama de vontade de poder, que é uma grande força impulsiva que
permite o desenvolvimento pessoal, histórico e cultural. Esta vontade de poder
manifesta-se desde a tenra infância, quando a criança se vê constrangida por
sua fraqueza corporal e sua falta de conhecimento. A ausência (ou deficiência) em viver seu
próprio valor produz um efeito, uma “doença”. Daí a importância crucial – a enorme
responsabilidade - em educar uma criança e não lesionar seu sentimento de valor
próprio.
Eis o que ensina Allers quanto à educação
das crianças:
Não é inteiramente exato dizer que a severidade [na educação das crianças] seja apenas a causa do aumento da distância e da influência deprimente sobre o valor próprio: ela é também consequência de tal posição. Aqui, como em toda parte, forma-se um círculo vicioso, de consequências fatais.
Quem se coloca muito alto em relação à criança, julgada um homem “incompleto”, ou gosta de opor sua “experiência” à “inexperiência” da criança, ou é inclinado, por uma exaltação de sua própria grandeza, importância e dignidade (uma exaltação devida muitas vezes à insegurança), a desprezar os outros e em especial a criança, e, portanto, a desprezar seu direito a ser reconhecida como pessoa e sua dignidade – este será levado, necessariamente, a tomar, na educação, uma atitude severa, uma vez que ele próprio se distancia do discípulo e a severidade é o único meio que lhe resta para “agir à distância”.
A severidade pode expressar-se de modos diversos. É positiva, como castigo e como atitude desaprovadora em geral; é negativa, como omissão de qualquer louvor e como falta de meiguice.
Há outro impulso ou força que compõe o
caráter: a vontade de associação. Ela funciona como corretivo ou
“elemento de controle” da vontade de poder. É uma tendência a pertencer, a ser
um membro ou “estar” com os semelhantes. Se por um lado a vontade de poder
responde à força da autoafirmação, do desenvolvimento do valor próprio e da
plenitude da pessoa, a vontade de associação responde à força do amor, da
dedicação e da comunicabilidade.
Amarás teu próximo (vontade de associação) como a ti mesmo (vontade de poder). [...] Mesmo um Robinson Crusoé, lançado, nu, à praia de sua ilha, não seria capaz de manter-se, se não trouxesse consigo todo o conhecimento adquirido com seus semelhantes.
Das limitações inerentes à vontade de poder
deve surgir a humildade, enquanto das obrigações da vontade de associação (pois
com os outros formamos uma unidade) deve surgir o amor ao próximo. É o amor ao
próximo que nos torna capazes de vencer o isolamento e a solidão em meio a este
mundo enorme e terrível.
O onipresente medo
O medo é o traço de caráter mais marcante,
mais central, mais presente. Isso acontece porque já desde criança, como
dissemos acima, nossa formação e crescimento são pautados pela inferioridade
física e mental e, portanto, pelo medo. O medo é tão onipresente que Allers
cogita que não há caso algum no qual, de forma evidente ou oculta, o medo não
apareça como causa das perturbações. O medo é um sintoma da inadequação às
condições da vida, e seu correlativo é a incerteza. Uma circunstância
exemplar dessa inadequação é a timidez nas crianças. A criança tímida é a
criança má-preparada para o convívio social.
Por isso é fundamental, na infância,
transmitir à criança a confiança em si e no mundo. Tudo o que não se deve fazer
é incutir-lhe ainda mais medo mediante brincadeiras estúpidas, grosserias, xingamentos
(“covarde”, “boiola”) etc. A ideia de que tais atitudes “endurecem” e tornam a
criança altiva e confiante são meros pretextos para adultos que buscam o prazer
na humilhação alheia.
A base do medo é de que se possa, em
alguma circunstância, desvendar o absoluto desvalor da própria pessoa,
quer diante de outros, quer diante do próprio eu. É
por causa do medo que a criança recorre à mentira com
consciência: o êxito em iludir e ultrapassar o medo do adulto torna-se mais poderosa
que a posição natural da criança diante da culpa. A criança sadia, por outro
lado, compreenderá que a luta por grandeza e poder carece de sentido e, por
isso mesmo, é fundamentalmente improdutiva.
Outro subproduto do medo é o orgulho.
Trata-se de uma reação coerente com o medo, ou seja, com a constante ameaça de
seu valor próprio. Ocorre que o orgulho aprisiona a criança em seu ciclo, tornando-a
profundamente infeliz.
Como regra geral, os pais não devem povoar
o cotidiano da criança com proibições. A ideia é conduzir seu processo de
autoafirmação, e não o eliminar. A criança não é um cão a ser adestrado a ficar
sentado, deitado, rolar no chão etc.
O ideal de caráter
Ora, o ideal de caráter é a “plena
realização de todas as possibilidades existentes na própria pessoa. [...] Quais
e quantas são essas possibilidades, não se pode dizer de antemão. Só a tentativa
de realizar esta ou aquela pode esclarecer sua presença”. Mas não é na “superfície”
do ser da pessoa que se podem encontrar seus valores ainda não realizados. Somente
um observador exterior, e não por auto-observação, é possível pressentir esses
valores latentes. A ideia de que a pessoa atingiu seu “máximo” de possibilidades
atualizadas é falsa. Enquanto estiver vivo, há valões a serem realizados.
A passagem da potência ao ato é a
essência e o sentido da vida humana. Frequentemente os homens mantêm-se presos às
imagens ideais colhidas na infância e consolidadas nas limitações de sua vida
social e familiar. No entanto, mesmo acontecimentos triviais (uma doença,
algumas palavras fugazes, uma experiência nada extraordinária) são capazes de
tirar a pessoa do torpor que se colocou ao longo de décadas.
No entanto, o ideal de “personalidade” autônoma,
livre, altiva e conquistadora é uma quimera que, pelo contrário, limitará a
pessoa ainda mais. Lembre-se: há no homem tanto a vontade de potência quanto a
vontade de associação. Exacerbar a vontade de potência, como se ela por si
perfizesse o ideal de caráter, acabará por atrofiar o indivíduo e aprisioná-lo em
um mundo neurótico.
O que importa não é, pois, a força, mas a vontade de atingir um valor mais alto; não é a grandeza, mas seu objetivo; não é o heroísmo, mas o desprezo da própria pessoa. Fama, importância e reconhecimento não têm, em si mesmos, valor nenhum. Não se deve ensinar aos homens a ambição, mas a submissão. Eles devem visar a atenção para com as coisas, as pessoas e as leis. Não devem, porém, desejar a atenção para si mesmos.
Em termos práticos, qual é o fim ao qual a
pessoa deve aperfeiçoar-se para atingir. É impossível visar diretamente o fim
da pessoa porque, se fosse possível, teríamos a pessoa aqui presente como um
dado objetivo e delineado. Não se pode cair em dogmatismos psicológicos tolos:
somente mediante a tentativa se pode descobrir, por contraste, se tal curso de ação,
se tal caminho, é o que aperfeiçoa a pessoa a seu fim.
A voz da consciência e sua importância
Vimos em uma postagem anterior o que podemos entender por consciência. É a aplicação prática dos princípios infalíveis
dados pela sindérese. E como desperta na pessoa a voz da consciência, a voz que
lhe diz se está de acordo com seu dever? Bem, nesta mesma postagem vimos que a
consciência é falível. De qualquer forma, a consciência desperta pela concordância
(ou pela oposição) entre a ação atual e o estado da pessoa. Esse “estado da
pessoa” nada mais é que um conhecimento vivido, não um conhecimento teórico.
Mas é a partir do conhecimento teórico que alteramos, posteriormente, nosso estado
interior, nosso conhecimento vivido. O estado da pessoa começa teórico, mas “entra”
na pessoa posteriormente.
Ademais, assim como para nos darmos conta
de algum processo orgânico tem de haver um “choque” ou “distúrbio”, assim
também para nos darmos conta da consciente tem de haver uma distinção entre a
ação e o estado interior. É neste momento que nos damos conta que pode haver “algo
de errado”.
A voz da consciência é importante para
entendermos que, a despeito de desconhecermos a pessoa, ela pode ser um farol
que aponta para a adaptabilidade a um dever conhecido.
Fonte: Rudolf Allers, Psicologia do caráter, Editora CDB, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022.
