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16 de julho de 2026

Mera sensatez


O progresso

Há dois tipos de progresso. O primeiro tipo, o mais comum, é o progresso da construção de uma casa, por exemplo. Uma casa meio construída não serve: é necessário que se atinja um mínimo de avanço, digamos, 99%, para que a casa se torne habitável. É um progresso que leva a um fim (a habitação dessa casa, por exemplo). O segundo tipo é mais sutil, a exemplo do progresso educacional de uma criança. Uma criança meio educada, sim, “serve”: não é necessário que atinja um mínimo de avanço para que a criança seja considerada uma criança. É um progresso de algo que já é um fim. Isso vale para um amor, uma amizade, um paciente etc. Portanto, uma coisa é progredir para um fim, outra coisa é um fim progredir. Aqui é óbvia a distinção entre substância e acidente.

Em especial chama a atenção a questão do progresso tecnológico. Ele é oferecido às massas, mesmo que sutilmente, como necessário à condição humana. É claro que se trata de erro de raciocínio: a humanidade em si já é humanidade, não precisa de “progresso tecnológico” para melhorar uma condição que já possui em sua integralidade. A tecnologia, por mais exuberante e útil que seja, toca apenas acidentalmente a existência humana, enquanto substancialmente mantém-se alheia. Ocorre que o estado atual da cultura praticamente nos obriga a considerar o novo, o recente, como melhor. Lewis acredita que essa distorção psicológico-cognitiva surgiu com a ascensão das máquinas.

O mesmo vale para a história, que, tal como a tecnologia, não tem sentido em si (ambas fazem parte do devir, do mundo do movimento, do mundo do acidente, do acessório). Isso não significa que não devamos nos esmerar, na vida prática, em termos uma casa, equipamentos tecnológicos ou prestar atenção à dinâmica da história. Mas isso significa, sim, que não devemos atribuir a nada disso a substancialidade que não tem. Uma habitação é uma condição necessária para a vida? Sem dúvida, assim como comida, bebida, sexo, sono. Mas melhorar sua vida não fará de você “mais” ou “menos” ser humano.

Os seres espirituais

Lewis faz uso do termo numinoso, criado por Rudolf Otto, que seria um tipo de sentimento absolutamente singular que não se reduz a conceitos racionais, morais ou teológicos. É aquilo que constitui o “sagrado” antes de qualquer elaboração intelectual. Lewis entende que esse pavor de algo estranho é muito mais que um medo de algo perigoso. Não temos medo dos fantasmas pelo que eles podem fazer, mas simplesmente temos medo deles.

Ser ético é antiético

Ninguém quer estar com gente que é limpa, honesta e gentil por dever. Gostamos de estar com gente que gosta de ser limpa, honesta e gentil. A mínima suspeita de que alguém está sendo gentil e amoroso por dever basta para envenenar a relação. O moralismo é autodestrutivo. As obras não salvam ninguém. Lewis cita Tyndale quando diz que o Evangelho veio para nos salvar da moralidade. Um dos objetivos da religião deveria ser abolir a moralidade ensinando às pessoas como serem boas, e não como cumprirem regras morais. A educação moral é ensinar a fazer as coisas com gosto, e não a fazer as coisas por obrigação.

A vida espiritual

Que a vida espiritual transcenda a inteligência e a moralidade é óbvio. Mas isso não significa que a vida espiritual deixe de englobar a inteligência e a moralidade ao transcendê-las. Assim, por exemplo, como a poesia transcende a gramática sem excluí-la. (Ou seja, a vida espiritual não é como a álgebra que, sim, exclui a gramática).

A felicidade

Deixar de buscar sua própria felicidade soa belo, mas é falso. Como ensinam os antigos, a felicidade de um povo é a felicidade de seus integrantes. Deixar de buscar sua própria felicidade parece belo porque é o altruísmo tentando se apresentar como antônimo do egoísmo, quando não é. O antídoto do egoísmo é o amor, não o altruísmo.

A vida pública

O bem comum passa longe de temas como saneamento público e demais bens materiais. As sociedades humanas se formam de acordo à natureza humana, e nem teria como ser diferente. Os homens são sociais porque são racionais. Isso significa que constituímos comunidade somente onde a palavra for o centro. É nessas comunidades onde podemos deixar uma marca no próximo, quando podemos aprender uns com os outros, quando encontramos refúgio uns nos outros. Ninguém vive no Estado, assim como ninguém vive na família. As comunidades humanas se formam em instituições intermediárias a essas duas, a saber, em grupos de amigos, instituições educativas, clubes esportivos, movimentos espirituais, partidos políticos etc.

É neste sentido que Aristóteles ensinava à Nicômaco em seu Livro VIII da Ética que a amizade (amor) é o que há de mais necessário à vida. Claro que Aristóteles não se refere à subsistência humana (neste sentido há coisas muito mais necessárias), mas à boa vida, à vida bem-sucedida. A pessoa pode passar toda sua vida sem amigos, mas sua vida ao final será um fracasso. E será um fracasso porque passou toda sua vida sem querer o bem do outro.

O ideal cavalheiresco

“O ideal cavalheiresco representa o único escape de um mundo dividido entre lobos que não entendem nada e ovelhas que não sabem defender as coisas que tornam esta vida desejável”. (C. S. Lewis)

O cavalheiro não é um compromisso entre a ferocidade e a mansidão. O cavalheiro é aquele que sabe pelo contexto quando deve ser sumamente feroz e quando deve ser sumamente manso. O cavalheiro é aquele que tem seus pensamentos, sentimentos e comportamentos sob controle, e não aquele cujos pensamentos, sentimentos e comportamentos o controlam.

O inferno

A pessoa está psicologicamente no inferno quando se encontra totalmente fechada em seu próprio eu, de modo que nem Deus nem ninguém pode entrar ou tirá-la de lá. Como disse Lewis na voz de Aslan, o leão-protótipo de Cristo: “[Essas pessoas] não deixam que as ajudemos pois escolheram a astúcia ao invés da fé. A prisão existe somente em suas mentes e, no entanto, estão verdadeiramente fechadas nelas”. Às vezes Lewis substitui astúcia por orgulho ou soberba.

A força do orgulho é tão brutal, tão intensa, que ela é capaz de aplacar outros vícios em prol de sua glória. Há certos vícios que superamos porque julgamos que “não somos dignos deles” e, pela força do orgulho, os transformamos em algo pior. O orgulho não é um vício meramente carnal, mas espiritual. A “usina de força” do orgulho é negar nossa dependência de Deus e dos demais homens. O eu cresce a tal ponto que impede que nos enriqueçamos com as outras pessoas. Afinal, sair de nós mesmos é a principal tarefa da vida.

A saída do orgulho é alargar o horizonte cultural. Não que a literatura, a filosofia e a psicologia sejam, em si, garantia do que quer que seja, mas a pessoa melhor cultivada vê aumentadas suas chances de reconhecer que a realidade é no mínimo muito excêntrica, e que, longe do que supunha, pouca coisa está realmente resolvida. A verdade última, ao invés de parecer algo remoto e fantástico, entra no campo da estranheza e, dessa forma, abre-se um caminho possível para que a fé possa trilhar. Uma genuína experiência literária pode ser uma saída para o soberbo, o astuto, o “esperto”, o orgulhoso.

Fonte: Manfred Svensson, Más allá de la sensatez, Editorial CLIE, Barcelona, Espanha, 2011.

25 de março de 2024

Trechos selecionados de C. S. Lewis sobre os Salmos


Por que às vezes um colega lhe explica melhor a matéria do que o próprio professor?

O colega de classe pode ajudar mais do que o professor porque sabe menos. A dificuldade que queremos que ele nos explique é a mesma com a qual ele teve de lidar recentemente. O especialista a superou há tanto tempo que já se esqueceu. Ele agora vê o assunto de uma maneira mais genérica e sob uma luz tão diferente que não consegue perceber o que está verdadeiramente inquietando o aluno; enxerga dezenas de outras dificuldades, menos a que realmente perturba o estudante.

A imagem cristã de justiça é perfeita. Mas a imagem judaica, embora humana, é muito útil também. Ninguém é bom ante a justiça divina. Mas também ninguém é bom ante a justiça humana.

Acho que há razões muito boas para considerar a imagem cristã do juízo de Deus como muito mais profunda e muito mais segura para nossas almas do que a judaica. Mas isso não significa que a concepção judaica deva ser simplesmente descartada. Eu, pelo menos, acredito que ainda posso alimentar-me bem dela.

Ela complementa a imagem cristã de uma forma muito importante, pois o que nos amedronta na imagem cristã é a pureza infinita do padrão a partir do qual nossas ações serão julgadas. Sabemos, porém, que nenhum de nós jamais se aproximará desse padrão. Estamos todos no mesmo barco. Devemos todos concentrar as nossas esperanças na misericórdia de Des e na obra de Cristo, não em nossa bondade. A imagem judaica de uma ação civil, por sua vez, nos lembra claramente que talvez estejamos em falta não somente em relação aos padrões divinos (o que é óbvio), mas também a um padrão absolutamente humano que todas as pessoas lógicas reconhecem e que nós, em geral, desejamos impor sobre os outros. É quase certo que haja demandas não satisfeitas, demandas humanas, contra cada um de nós; afinal, quem seria capaz de acreditar que, em meio a tantas relações entre empregadores e empregados, marido e mulher, pais e filhos, entre querelas e colaborações, tenha sempre agido (excluindo-se os atos de caridade ou generosidade) com absoluta honestidade e justiça? É claro que esquecemos a maioria das injustiças que cometemos. As partes injustiçadas, no entanto, não esquecem, mesmo quando perdoam. E Deus não esquece. E mesmo o pouco que conseguimos lembrar é terrível o bastante. Poucos de nós temos, em plena medida, dado a nossos alunos, pacientes ou clientes (ou como quer que chamemos nossos “consumidores”) aquilo que recebemos. Nem sempre cumprimos com a justa parte que nos cabe em algum trabalho cansativo quando encontramos um colega ou parceiro que possa ser enganado a fim de carregar todo o fardo.

Quanto mais elevado intelectual e espiritualmente, maior o potencial para a perversidade e impiedade. Quanto mais próximo de Deus, maior o pecado. Por outro lado, a suposta inocência das pessoas ignorantes e carnais deve ser encarada com muita cautela.

Parece haver, no universo moral, uma regra geral que pode ser formulada da seguinte maneira: “Quanto mais alto se é, mais perigo se corre”. O “homem sensual comum”, eventualmente infiel à esposa, que às vezes fica embriagado e é sempre um pouco egoísta, que de vez em quanto (mesmo sem desrespeitar a lei) se revela leviano em relação aos seus ideais, certamente é, de acordo com os padrões comuns, um tipo “inferior” se comparado ao homem cuja alma está ocupada com alguma grande causa, à qual ele submeterá seus prazeres, sua riqueza e até mesmo sua segurança. Mas é o segundo homem que pode verdadeiramente fazer algo perverso – um membro da Inquisição ou do Comitê de Segurança Pública. São os grandes homens, os potenciais santos – e não os homenzinhos comuns – que se tornam fanáticos impiedosos. Os que estão mais bem preparados para morrer por uma causa podem facilmente se tornar os que estão mais preparados para matar por ela. Observa-se o mesmo princípio em ação em um campo (comparativamente) tão irrelevante como a crítica literária; a obra mais brutal, o mais irritante entre todos os críticos, odiado por quase todos os autores, talvez seja o mais honesto e desinteressado, o homem que se importa mais apaixonada e abnegadamente com a literatura. Quanto mais alta a aposta, maior a tentação de entregar-se ao jogo. Não devemos sobrevalorizar a relativa inocência das pessoas pequenas, sensuais e frívolas. Elas não estão acima, mas abaixo de algumas tentações.

[...]

Os judeus pecaram mais do que os pagãos, não porque estivesses mais longe de Deus, mas porque estavam mais próximos dele. Pois o sobrenatural, quando adentra uma alma humana, faz com que ela se abra para novas possibilidades do bem e do mal. A partir desse ponto, a estrada se divide em duas: um caminho para a santidade, o amor, a humildade, e o outro para o orgulho espiritual, a hipocrisia, o zelo perseguidor. E não há caminho de volta para as virtudes e os vícios triviais de uma alma adormecida. Se o chamado divino não nos tornar melhores, nos tornará muito piores. De todos os homens maus, os homens maus religiosos são os piores. De todos os seres criados, o mais maldoso é aquele que originalmente ficava na presença do próprio Deus. Parece não haver saída para isso.

Esvaziar a natureza (trovão, planetas etc.) de divindade a torna mais, e não menos, divina. Adorar a natureza a priva de seu caráter divino, ao contrário do que se poderia supor.

[E]mbora sutil, é significativa a diferença entre ouvir no trovão a voz de Deus ou a voz de um deus. Como vimos, mesmo nos mitos de criação, os deuses têm uma origem. A maioria deles tinha pais e mães, e nós frequentemente sabemos quais foram seus locais de nascimento. Não é uma questão de autoexistência ou de eternidade. A existência lhes é imposta, como a nós, por causas precedentes. Eles são, como nós, criaturas ou produtos, embora sejam mais afortunados que nós por serem mais fortes, mais belos e imortais. Como nós, eles são os atores do drama cósmico, e não seus autores. Platão compreendeu isso plenamente. Seu Deus cria os deuses e os preserva da morte por seu poder, então a imortalidade não é inerente a eles. Em outras palavras, a diferença entre acreditar em Deus e em muitos deuses não é uma questão puramente aritmética. Como já foi dito por alguém, a palavra “deuses” não é efetivamente o plural de Deus, pois Deus não tem plural. Assim, quando ouvimos a voz de um deus no trovão, assustamo-nos, pois a voz de um deus não é, em verdade, uma voz do além-mundo, do incriado. Vamos ainda mais longe quando abstraímos a voz desse deus – ou quando imaginamos esse deus como um anjo, como um servo do outro Deus. O trovão torna-se não menos, e sim mais divino. Ao esvaziar a natureza de um teor de divindade – ou, melhor ainda, das divindades – nós a associamos à deidade e ela passa a ser, então, a portadora das mensagens. Há um sentido no qual a adoração à natureza a silencia – como se uma criança ou um selvagem ficassem tão impressionados com o uniforme do carteiro que deixassem de receber as cartas.

Prestar louvor, agradecer e elogiar são atos típicos de pessoas humildes, equilibradas e capazes. Quem elogia e agradece pouco ou com dificuldade são pessoas potencialmente desajustadas.

Nunca havia notado que toda apreciação transborda espontaneamente em forma de louvor a não ser que (a às vezes até mesmo se) a timidez ou o medo de incomodar os outros forem deliberadamente evocados. O mundo está cercado de louvor: amantes elogiam seus amados e suas amadas; os leitores elogiam seu poeta preferido; os caminhantes elogiam o campo; os jogadores elogiam seus jogos favoritos; há o louvor ao clima, aos vinhos, às louças, aos atores, aos carros, aos cavalos, às faculdades, aos países, a personagens históricos, a crianças, flores, montanhas, selos e insetos raros e, às vezes, até mesmo a políticos e estudiosos. Eu não havia notado como as mentes mais humildes e, ao mesmo tempo, mais equilibradas e capazes prestavam mais louvores, enquanto as excêntricas, desajustadas e descontentes elogiavam menos. [...] Exceto onde as circunstâncias intoleravelmente adversas interferem, o louvor parece quase ser uma manifestação de saúde interior.

[...]

Penso que temos prazer em louvar o que apreciamos porque o louvor não somente expressa como também complementa a apreciação; ele é a própria consumação dessa apreciação. Quando amantes continuamente dizem um ao outro o quão belo ele (ou ela) é, não o fazem apenas por dever; o prazer é incompleto até que seja expresso.

Fonte: C. S. Lewis, Lendo os Salmos, Editora Ultimato, Viçosa, Brasil, 2015.

2 de outubro de 2022

Os seis amores


Antes de versarmos sobre os quatro (na verdade, seis) amores, é importante desde o início mencionar que Lewis identifica nos amores três elementos:

(a) Amor-doação: é o amor propriamente dito, em sua forma mais pura. É por exemplo o amor de Deus aos homens, um amor totalmente desinteressado, sem trocas, sem barganhas.

(b) Amor-necessidade: é o amor exercido sob o impulso de algum desejo subjacente. Há um interesse, uma intenção, por trás do ato de amor. É por exemplo o amor dos homens a Deus: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos" (Novo Testamento) ou "abre bem a tua boca, e ta encherei" (Velho Testamento). O amor-necessidade se manifesta de duas maneiras:

* por semelhança: no exemplo do amor dos homens a Deus trata-se da racionalidade, da grandeza, da fecundidade humanas. Os amores humanos se exercem por semelhança. Eles imageam o amor divino, e por isso mesmo caso se tornem deuses em si se tornarão imediatamente em demônios.

* por aproximação: trata-se da união, da visão, da contemplação de Deus.

(c) Amor-apreciação: é o amor resultante da impressão de que objetos, situações, cenários, grupos, instituições etc. devam existir em si e por si, de que lhes temos uma dívida a saldar, de que lhes devemos homenagear mantendo-os vivos e ativos. O amor a uma obra de arte, por exemplo.

Esses três elementos não existem de maneira isolada. Eles se sucedem um ao outro. Por exemplo, um homem pode amar uma mulher a ponto de não conseguir viver sem ela (necessidade), a ponto de querer provê-la de alegria, conforto, proteção, riqueza (doação), e a ponto de admirá-la enquanto pessoa, de agradecer pelo simples fato de tal pessoa existir (apreciação).

1. Amor sub-humano

Às vezes nos referimos às coisas que nos dão prazer (às coisas que "gostamos") como se as amássemos. "Amo batata frita", por exemplo. É certamente um uso pouco exigente da linguagem. No entanto, em linhas gerais, podems identificar dois tipos de prazer: 

(a) prazer-necessidade: tomamos um copo d'água por necessidade, mesmo que sintamos prazer nesse ato. Uma vez atendida a necessidade (ou "desejo", se quiser), cessa o prazer.

(b) prazer-apreciação: passamos em frente a uma floricultura e sentimos o agradável perfume das flores. Isso nos dá prazer a despeito de não haver uma necessidade (ou "desejo") precedente. No entanto, aqui, além de não haver uma necessidade que "empurre" o prazer, há um senso de gratificação, de remuneração, que "puxa" o prazr e lhe concede uma espécie de direito de existir. Em suma, se há prazeres que existem por cruda necessidade, há prazeres que sentimos que lhes devemos o direito de existir.

Uma vez compreendido o prazer-apreciação (que evidentemente está relacionado ao amor-apreciação mencionado acima), Lewis se concentra nos dois principais amores sub-humanos:

(I) Amor à natureza: os amantes da natureza não estão procupados com os elementos individuais da natureza (flores, árvores, animais), mas é o "estado de espírito" ou "ânimo" que a natureza lhe proporciona. O perigo aqui, o "demönio", é o espírito do botânico profissional, que, pelo contrário, se ocupa dos elementos específicos e quantitativos da natureza.

(II) Amor à patria: esse amor se manifesta como amor ao entorno, ao bairro, aos velhos conhecidos, às paisagens familiares, ao passado da cidade/província/país, às estórias heróicas da formação do país. Assim como o convívio fmiliar é um passo para romper parte do egoísmo do idivíduo, o convívio nacional é um passo para romper parte do egoísmo familiar. O perigo aqui, o "demönio", é o espírito do historiador profissional, que enaltece os elementos negativos da formação e desenvlvimento do pais e nivela moralmente os fatos, o racista/ultranacionalista, que nega a dignidade de outros povos/países, e o cínico, que rejeita completamente o sentimento de patriotismo para com seu país movido por um senso ético distorcido, exagerado, como se as causas de seu país devessem ter o status de causas divinas.

2. Amor da afeição (storge)

A afeição (ou "empatia" como diríamos hoje em dia) é de longe o mais humilde, o mais furtivo e o mais difundido dos amores. É uma espécie de "amor democrático", no sentido de que é um amor cuja expressão não apenas se deseja, mas se espera, que seja encontrado em praticamente qualquer ambiente que se frequente. A afeição é aquele amor no qual há uma espécie de satisfação em estar junto. Simples assim. Praticamente qualquer pessoa pode ser objeto de afeição. Na verdade, nem mesmo é necessária uma afinidade prévia para seu exercicio, ou seja, não é necessário que as pessoas "se combinem" física ou psicologicamente para que a afeição entre elas desperte. Não há barreiras etárias, sexuais, educacionais, econômicas. Nem mesmo entre espécies, já que aqui se encontra também a afeição do homem por um animal e vice-versa. 

Há, no entanto, um traço que necessita estar presente na relação afetiva: o fato de que as partes têm de compartilhar certa familiaridade, certa intimidade. É curioso como aqui entram coleguismos e camaradagens entre pessoas as mais insuspeitas: pessoas que à distância jamais se combinariam se veem ligadas afetivamente de maneira quase cômica.

A afeição, assim como os demais amores, apresenta o elemento de amor-necessidade. É mais ou menos intuitivo que a amizade e o amor erótico exijam certo mérito, certo esforço, para serem mantidos. A afeição também, mas ocorre que sua presença é tão generalizada que por vezes as pessoas querem que esteja presente, como se fosse algo natural. Não é bem assim. Esperar que o afeto desperte é razoável, mas presumir que temos o direito de que desperte é estupidez. Se não há normalidade e tolerância entre as pessoas a relação se transformará em aversão exatamente com a mesma naturalidade e velocidade da afeição. Traços de incivilidade, de afirmações dogmáticas, de contradições, de ridicularizações, de referências insultuosas: a ideia de que o afeto tudo suporta, que a intimidade tudo permite, parece tão verdadeira, mas é falsa. Um erro crasso, fatal. 

Ocorre que a regra fundamental do convívio público -- todos somos iguais, ninguém tem prioridade ou superioridade sobre os demais -- é deixada de lado no ambiente privado. Mas é precisamente o contrário que deve acontecer. Embora as formalidades não existam no âmbito privado, isso não significa que a regra fundamental do convívio possa ser igualmente dispensada. As formalidades existem precisamente porque não existe um nível profundo, sutil e sensível de cortesia entre as partes. No ambiente privado, as boas maneiras devem ser ainda mais observadas exatamente porque os rituais da formalidade estão ausentes. Quem não é cortês em casa também não é cortês em público: a pessoa macaqueia a cortesia em público, mas não a exerce realmente.

Outro aspecto curioso da afeição é o ciúme que porventura surge quando uma das partes rompe a familiaridade. Dois amigos, por exemplo, podem ter seu laço de afeição rompido, ou perturbado, se um deles se interessa por algo novo, por um esporte, religião, hobby, plano, filosofia etc. novo. O outro, por ciúmes, tenderá a ridicularizar o novo interesse.

E quanto ao elemento amor-doação? Ele está presente na afeição? Aparentemente sim, mas não exatamente. Pensemos no amor maternal. Dar à luz, dar de mamar, dar atenção...tudo remete a doação. Mas observe que se a doação não for feita haverá consequências graves à mãe e ao bebê. O que há na verdade é uma necessidade de doação e, ao fim e ao cabo, uma necessidade de ser necessário. De qualquer forma, esse elemento do "precisar ser precisado" pode ser perfeitamente pervertido e transformar-se num demônio. É o caso da mãe que seguidamente cuida da família, que cozinha quado não é necessário, que limpa quando não é necessário, que cuida da saúde dos filhos quando não é necessário. E por que o faz? Porque o que está por trás do instinto de doação não é a doação em si, mas a necessidade de doar. A doação deve ocorrer até que se torne supérflua, até que deva ser abdicado. O mesmo pode ocorrer na relação professor-aluno, chefe-empregado, dono-cão. 

O elemento doação do afeto pode invalidar o objeto do amor. O afeto só produz felicidade em meio ao bom-senso, à racionalidade, à decência. A mãe que supercuida é a mãe que se compraz no sofrimento que sente a despeito do bem-estar alheio. A justiça deve regular o afeto sob pena de tornar-se um demônio.

3. Amor da amizade (philia)

Muitos confundem o companheirismo com a amizade. O companheirismo, a camaradagem, o convívio no sentido mais amplo da palavra, é fruto da afeição. O companheirismo, é verdade, é a matriz a partir da qual surge a amizade, mas cabe que não as confundamos. 

A amizade é o menos natural dos amores, ou seja, a raça humna, biologicamente falando, não a necessita para sobreviver. A amizade é um relacionamento estabelecido por livre escolha, no qual impera um ambiente racional, tranquilo, luminoso. É uma relação humana do mais alto grau de individualidade. Ela surge quando duas pessoas, em geral dois homens ou duas mulheres, descobrem que compartilham um insight, um interese, um gosto, uma visao, em comum. É o momento que dizem: "O quê?! Quer dizer que você também pensa assim? Eu achava que só eu pensava assim", ou "Você vê a mesma verdade que eu vejo? Você se importa com essa mesma verdade que vemos?" Neste instante se estabelece uma imensa solidão entre eles. É como se houvesse uma união intelectual que, ao mesmo tempo que é uma união, é uma exclusão dos demais.

Se o companheirismo tem a ver com fazer algo juntos, a amizade tem a ver com fazer algo imaterial, intangível, insubstancial, juntos. É como se estivessem percorrendo um caminho secreto. Pouco importa os detalhes da vida pessoal, se são casados, solteiros, onde trabalham, onde estudaram, quantos filhos têm ou não têm etc. O que importa é percorrer a estrada juntos. Esse efeito "bolha" da amizade pode despertar naqueles que não pertencem à bolha, ou naqueles que desconhecem o amor da amizade, um sentimento de inveja, ou seja, um desejo de que a bolha seja destruída.

O que acontece quando um homem e uma mulher se tornam amigos? É quase certo que a amizade evoluirá para um relacionamento amoroso. Isso pode ocorrer até mesmo em questão de minutos. Na verdade, se não houver nenhum fator físico, nenhuma repulsa moral, que impeça o surgimento do amor romântico, é praticamente inevitável que ocorra. E vice-versa: o amor romântco pode facilmente despertar a amizade entre o casal.

O elemento mais característico da amizade é o amor-apreciação. Da amizade surgem o respeito, a admiração, a confiança, e tais sentimentos, como dissemos acima, são a base para o desejo de que os objetos do amor, no caso o amigo, simplesmente permaneçam, simplesmente existam em si e por si. O amigo passa a deter uma espécie de "direito de existir".

Mas há perigos na amizade, há um risco de que ela se transforme num demônio. Ocorre que o elemento excludente da amizade é forçosamente negativo: se minha amizade está assentada sobre certa visão sobre uma questão filosófica, por exemplo, então seremos indiferentes a uma visão alternativa a essa questão. O perigo está em que essa indiferença no varejo se transforme em indiferença no atacado. Em outras palavras, o círculo de amizade pode se transformar numa espécie de "classe" cujo combustível é o senso de superioridade em relação a quem está do lado de fora. O problema está na migração, ou exacerbação, do senso de superioridade. Não são só nossas ideias, ou tipo artístico, ou visão de mundo, ou estilo musical, que são superiores. Nós somos superiores. A amizade não mais se assenta sobre um tema ou visão que a delimita, mas se assenta na própria exclusão em si, no próprio orgulho em pertencer a essa classe de pessoas superiores.

A amizade é um amor espiritual, quase angelical. O antídoto para esse demônio deverá ser também espiritual: a humildade. A amizade parece ter sido um ato de escolha. Não foi. Deus usa a amizade como instrumento para que admirem um no outro suas belezas.

4. Amor romântico (eros)

O amor romântico, também chamado de amor erótico, é o estado de estar apaixonado. O que normalmente ocorre é o amante começar a desenvolver certa preocupação com a amada, algo ainda leve, um tanto esporádico. Não se trata, no entanto, de uma preocupação com algum aspecto ou circunstância sobre a amada, mas uma preocupação com a pessoa em si, em sua totalidade. Neste estado, o que o amante quer, acima de tudo, é simplesmente pensar na amada.

Há um momento, no entanto, em que o amor romântico efetivamente irrompe e, como um invasor, trata de reorganizar todo a vida interior do amado de maneira a orientá-la à amada. O amante deseja a amada, a pessoa em si, não o prazer que eventualmente ela pode provê-lo. Observa-se claramente aqui que o amor romântico não porta o elemento do amor-necessidade, mas do amor-apreciação. O prazer sexual é apenas um subproduto da relação romântica, um efeito colateral, digamos. Na verdade, a abstinência sexual é mais fácil de ser cumprida no estado de estar apaixonado, sem que, no entanto, o desejo sexual em si seja diminuído.

Está claro que o amor romântico não almeja o prazer sexual, mas não esta tão claro que ele tampouco almeja a felicidade. Prova disso é que mesmo os amantes que entendem racionalmente que seu relacionamento será um fracasso, que seu casamento será infeliz, preferem estar juntos e infelizes do que separados e felizes.

O amor romântico se transforma em deus, e portanto num demônio, quando seu alcance extrapola os limits do bom-senso e da decência e adentra o território dos crimes passionais, suicídios, perseguições, assassinatos, desprezo aos próprios pais, filhos, traições, infidelidades a amigos etc. É o amor romântico exigindo sua existência a todo custo. É o amor romântico que se transformou numa cláusula pétrea, numa religião.

Outro aspecto demoníaco do amor romântico é imaginar que tem de durar para sempre enquanto o casal estiver junto. É claro que isso não vai acontcer: os egos do casal furtivamente voltarão a manifestar-se. E logo descobrirão que o mero sentimento não é suficiente para sustentar a relação, que deverão trabalhar de maeir diligente e intencionalmente para manter vivo parte daquilo que o amor romântico lhes havia mostrado.

5. Amor transcendente (agape)

Os amores naturais que elencamos até agora não são autosuficientes. Em geral diz-se que para exercitarmos os amores naturais devemos acrescentar algo de "bom-senso" neles. Pois este bom-senso nada mais é do que o amor transcendente da caridade (não tem necessariamente a ver com filantropia, com "fazer caridade"), o amor a Deus. Assim como Deus criou o Jardim e posicionou o homem entre Ele e esse Jardim, assim também Deus plantou os amores naturais no homem e posicionou o amor a Deus entre Si e esses amores naturais. De pouco ou nada servem se não estivrem moldados e de certa forma enquadrados dentro do amor transcendente a Deus.

Algumas pessoas, preocupadas com o devido exercício do amor a Deus, concluem que os amores naturais não apenas não contribuem como rivalizam com esse amor transcendente. Trata-se evidentemente de um exagero, de um zelo desmedido e farisaico. ou, na melhor das hipóteses, de um medo de correr o risco de amar travestido de cálculo racional. Basta uma simples e honesta reflexão sobre meus próprios sentimentos para concluir que a verdadeira rivalidade reside muito mais entre meu ego e o ego alheio, entre minha auto-imagem e meus semelhantes, entre meu orgulho e o próximo. Sim, claro, há também a rivalidade entre o ego humano e Deus. Mas, convenhamos, há muito mais que se corrigir antes que possamos nos dar ao luxo de debruçarmos sobre a oposição ego-Deus. Quem sou eu para invocar tal rivalidade quando sou incapaz de transmitir os amores mais humanos e naturais?

Por outro lado, há aqueles que preferem não amar seus semelhantes, seja desenvolvendo uma simples empatia (afeição), seja uma amizade ou amar uma mulher, porque não querem correr o risco de se sentirem frustrados ou de se frustrarem de novo. A ideia de substituir os amores humanos pelo amor a Deus é tola porque supõe que possamos entregar a Deus um coração íntegro, inteiro, conservado. Ora, exercitar o amr a Deus implica precisamente em entregar seu coração partido a Deus. Se no exercício dos amores humanos seu coração partiu, e ele vai partir, que seja. É exatamente isso que você deve entregar a Deus. Quando Jesus Cristo diz que devemos odiar pai e mãe etc., o contexto é odiá-los quando eles rivalizam ou bloqueiam o amor a Deus. A ideia não é "um ou outro", mas "um e outro".

Deus implantou nos homens, dizíamos, os amores naturais. Mas também implantou em nós dois dons, ou capacidades, que não são naturais, ou pelo menos não são explicáveis do ponto de vista puramente individual, egocêntrico. Dissemos que o amor de uma mãe pelo seu bebê contém o elemento amor-doação. Bem, mais ou menos. Além de ser necessário amá-lo para que não sofra e, pior, não morra, o bebê é em si mesmo um objeto amável, ou seja, porta em si certos traços que o tornam amável: doçura, inocência, purea, beleza etc. Ou seja, o amor-doação não é tão doação assim. Ocorre que há certas instâncias em que o exercício do amor parece ser puramente doação. É o caso, por exemplo, dos objetos que não são nada amáveis em si: leprosos, doentes, estúpidos, criminosos, inimigos, miseráveis etc. Segundo Lewis, esses dons, esses exercícios de amor, essas caridades, não são naturais, mas são fruto da energia divina. E mais: o amor dos homens a Deus tampouco é natural e também provém, paradoxalmente, das energias divinas. Somos levados por Deus a amá-Lo. Curioso.

Há ainda um elemento adicional no amor transcendente: Deus implantou nos homens a necessidade de nos amarmos mutuamente. E outras palavras, o próprio amor, em si e por si, é uma necessidade. Se não amamos, sofremos, seja um sofrimento pontual, seja um sofrimento crônico e difuso. E mais: os homens também precisam, têm necessidade, de amar a Deus. Não se trata portanto de mera doação, mas de uma necessidade também. Amamos nossos pais, esposas, amigos, não apenas porque são amáveis, mas porque o Amor está neles.

É no exercício dos amores naturais e transcendentes que, por semelhança, reconhecemos a Jesus Cristo. Quando nos encontrarmos com Ele face a face, com o Amor, seremos capazes de responder positivamente à Sua presença porque esse Amor já havíamos encontrado antes, embora de forma semelhante apenas. Ele nos será algo um tanto familiar, um convívio que já existia de certa forma. Observa a importância e a gravidade de amarmos ao próximo como a nós mesmos.

6. Amor divino (theosis)

Aqui não há semelhança, mas aproximação. Aqui não há necessidade nem doação, mas apreciação pura e simples. Aqui não há se exercita o amor, mas se é o Amor. Aqui não há dois, amante e Amado, mas dois-em-um. Eis o objetivo da vida humana e da vida angélica, eis o centro e sentido último de nossa existência. É a união com Deus.

Lewis praticamente nada versa sobre este amor. Se sente incapaz de fazê-lo. É compreensível.

Fonte: C.S. Lewis, The Four Loves, HarperCollins Publisher, San Francisco, EUA, 2017.

6 de fevereiro de 2014

Luto


Ninguém me disse que o luto se parecia tanto com o medo. Não estou com medo, mas a sensação é a mesma. [...] Quando falo do medo, quero referir-me ao medo puramente animal, ao recuo do organismo diante da possível destruição, ao sentimento asfixiante, à sensação de ser um rato numa ratoeira. Esse sentimento é intrasferível. A mente pode até compreender; já o corpo menos. (p. 29 e 37).

No momento seguinte [ao golpe repentino de lembranças acaloradas], passa-se às lágrimas e à autopiedade. Lágrimas piegas. Quase prefiro os momentos de agonia. Pelo menos, eles são puros e honestos; mas o banho de autopiedade, o afundar-se nela, o prazer repugnante de entregar-se a ela – isso me enoja. Se eu der rédea solta e esse estado de espírito, em poucos minutos terei substituído a mulher real [Joy Davidman, a recém-falecida esposa de C. S. Lewis] por uma simples boneca pela qual vou chorar desesperadamente. (p. 30).

Enquanto isso, onde está Deus? Esse é um dos sintomas mais inquietantes. Quando você está feliz, muito feliz, não faz nenhuma ideia de vir a necessitar dEle, tão feliz, que se vê tentado a sentir suas reivindicações como uma interrupção; se se lembrar e voltar a Ele com gratidão e louvor, você será – ou assim parece – recebido de braços abertos. Mas, volte-se para Ele, quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio. Bem que você poderia dar as costas e ir embora. Quanto mais espera, mais enfático o silêncio se torna. Não há luzes nas janelas. Talvez seja uma casa vazia. Será que, algum dia, chegou a ser habitada? Assim pareceu, certa vez. E essa semelhança era tão forte quanto agora. O que isso pode significar? Por que em tempos prósperos Ele mais parece um comandante e em tempos conturbados Sua ajuda é tão ausente?

Não que eu esteja (suponho) correndo o risco de deixar de acreditar em Deus. O perigo real é o de vir a acreditar em coisas tão horríveis sobre Ele. A conclusão a que tenho horror de chegar não é “então, apesar de tudo, Deus não existe”, mas “então é assim que Deus é realmente. Não se iluda”. (p. 31-32).

É difícil ter paciência com pessoas que dizem: “A morte não existe”, ou “A morte não importa”. A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece tem consequências, e tanto a morte quanto as consequências são irrevogáveis e irreversíveis. Você pode, do mesmo modo, dizer que o nascimento não importa. Ao olhar para o céu noturno, pergunto-me se há algo mais certo do que isto. Em todos os tempos e espaços, se me fosse dado sondá-los, não encontraria em lugar algum o rosto dela, sua voz, seu toque. Ela morreu. Está morta. Será que a palavra é tão difícil de se aprender?

Não tenho nenhuma boa fotografia dela. Não posso sequer lhe ver o rosto claramente em minha imaginação. Não resta dúvida: a explicação é por demais simples. Vimos o rosto dos que mais conhecemos de modo tão variado, de tantos ângulos, sob tantas luzes, com expressões tão diversas – acordando, dormindo, rindo, chorando, comendo, conversando, pensando –, que todas as impressões preenchem nossa memória ao mesmo tempo e se anulam num simples borrão; mas sua voz ainda é vívida. A voz lembrada – que é capaz de transformar-me a qualquer momento num menino chorão. (p.39).

Fala-me acerca da verdade da religião e ouvirei de bom grado. Fale-me acerca do dever da religião e ouvirei resignadamente; mas não me venha falar sobre as formas de consolo que a religião fornece, caso contrário desconfiarei que você não sabe do que está falando.

A não ser, claro, que você seja daqueles que acreditam literalmente em tudo que se diz nas reuniões típicas de família a respeito “do outro lado do rio”, retratando uma perspectiva completamente irreal e terrena; mas nada disso é bíblico e não passa de hinos e litografias ruins. Não há na Bíblia uma palavra sequer sobre o mundo vindouro. Além disso, soa falso. Sabemos que não poderia ser assim. A realidade nunca se repete. Não existe nada que seja tirado de nós e, depois, é-nos devolvido do mesmo jeito que se apresentava. Como os espíritas sabem fisgar as pessoas! “As coisas deste lado não são tão diferentes, afinal de contas”. Há charutos no Céu. Pois é isso que todos nós apreciaremos. Um passado feliz reconquistado.

E é por isso, só por isso, que grito, enlouquecido, no meio da madrugada, lançando súplicas vazias no ar.

E o pobre C. [um conhecido de Lewis] faz-me a seguinte citação: “(...) não se entristeçam como os outros que não têm esperança.” (I Ts 4:13). Espanta-me o modo pelo qual somos convidados a pôr em prática palavras endereçadas de maneira tão óbvia aos que são superiores a nós. O que o Apóstolo Paulo diz só pode consolar os que amam a Deus mais do que aos mortos, e aos mortos mais do que a si mesmos. Se uma mãe se lamenta não por aquilo que ela perdeu, mas por aquilo que seu filho morto perdeu, é um consolo acreditar que o filho não perdeu o objetivo para o qual foi criado. E é um consolo acreditar que ela mesma, ao perder sua principal ou única felicidade natural, não perdeu algo maior – que ela ainda pode esperar “glorificar a Deus e usufruí-lo para sempre”. Um consolo para o espírito voltado para Deus, espírito eterno que há dentro dela. Mas não para sua condição de mãe. A felicidade propriamente materna deve ser anulada. Nunca, em nenhum lugar, em tempo algum, ela terá o filho em seu colo, nem lhe dará um banho, nem lhe contará uma história, nem fará planos para o seu futuro, tampouco verá o filho de seu filho.

Dizem-me que H. [Joy Davidman] agora é feliz, que está em paz. O que faz essas pessoas terem tanta certeza disso? Como essas pessoas têm tanta certeza de que toda a angústia termina com a morte? Mais da metade do mundo cristão e milhões no Oriente têm uma crença diferente. Como podem saber que ela está agora “descansando”? Por que deveria a separação (se nada mais o puder), que tanto angustia a pessoa que ama e ficou para trás, ser indolor para a pessoa a quem amou e agora parte?

“Porque ela está nas mãos de Deus”; mas, se assim for, ela estava nas mãos de Deus durante todo o tempo, e vi o que lhe fizeram aqui. Será que de repente as pessoas se tornam mais gentis conosco no momento em que deixamos o corpo? E, se for dessa maneira, por quê? Se a bondade de Deus não é coerente com o ato de nos ferir, então, ou Deus não é bom, ou não há Deus algum: pois, na única vida que O conhecemos, Ele nos fere de um modo tal, além de nossos piores pavores, acima de tudo o que podemos imaginar. Se essa bondade for condizente com o ato de nos ferir, então Ele pode muito bem fazer isso depois da morte de maneira tão intolerável quanto antes dela. (p. 47-50).

Sentimentos, e sentimentos e sentimentos. Em vez disso, vamos tentar pensar. Do ponto de vista racional, que novo fato a morte de H. trouxe ao problema do universo? Que bases me concedeu para duvidar de tudo aquilo que acredito? Eu já sabia que essas coisas, e coisas piores, aconteciam diariamente. Eu teria dito que as havia levado em consideração. Eu fora alertado – eu alertara a mim mesmo – quanto a não contar com a felicidade terrena. Tínhamos, até mesmo, a promessa de sofrimentos. Eles faziam parte do programa. Até mesmo nos disseram: “Bem-aventurados os que choram...”,  e eu aceitava isso. Não há nada que eu não tivesse considerado. É claro que é diferente quando as coisas acontecem conosco, não com os outros, e na realidade, não na imaginação. Sim, mas deveria, para um homem são, fazer tanta diferença assim? Não, e não faria para um homem cuja fé houvesse sido a fé verdadeira, e cuja preocupação com as tristezas dos outros fosse preocupação real. O caso é muito comum. Se meu castelo ruiu com uma tacada, é porque era um castelo de cartas. A fé que “levou essas coisas em consideração” não era fé, mas imaginação. Levá-las em conta não era compaixão verdadeira. Se houvesse realmente me preocupado, como achei que havia, com as tristezas do mundo, não deveria estar tão assoberbado quando minha própria tristeza chegou. Foi uma fé imaginária, que jogava com fichas inofensivas, rotuladas de “Doença”, “Dor”, “Morte” e “Solidão”. Achei que havia confiado na corda até que se tornou importante saber se ela suportaria o meu peso. Agora que isso importa percebo que não confiava nela.

Jogadores de bridge explicam-me que deve haver um pouco de dinheiro no jogo “ou, então, as pessoas não vão levá-lo a sério”. Aparentemente é assim. Sua aposta – Deus ou nenhum Deus, um bom Deus ou o Sádico Cósmico, a vida eterna ou a não-entidade – não vai ser levada a sério se nela nada de valor estiver em jogo. E você nunca perceberá como ela era séria enquanto as apostas não estiverem muitíssimo altas, enquanto você não descobrir que está jogando não pelas fichas, nem pelos seis centavos, mas por todo centavo que há no mundo. Nada menos que isso abalará um homem – ou, pelo menos, um homem como eu – e seu pensamento puramente verbal e suas crenças meramente conceituais. O homem deve ficar fora do ar antes que recobre os sentidos. Só a tortura trará a verdade à luz. Só sob tortura é que o homem a descobrirá. (p. 58-59).

Quanto mais acreditamos que Deus fere apenas para curar, menos nos é dado crer que haja alguma utilidade em suplicar por ternura. Um homem cruel pode ser subornado – pode cansar-se de seu esporte imoral – pode ter um acesso temporário de bondade, como os alcoólatras têm acessos de sobriedade; mas suponha que aquilo com que você se bate seja um cirurgião cujas intenções são inteiramente boas. Quanto mais gentil e consciente ele for, mais impiedosamente prosseguirá cortando. Se ele desistir diante de suas súplicas, se ele se detiver antes que a operação chegue ao fim, toda a dor até àquele ponto terá sido inútil; porém é crível que semelhantes extremos de tortura sejam necessários? Bem, faça sua escolha. As torturas ocorrem. Se elas são desnecessárias, então não há Deus nenhum, tampouco um Deus mau. Se há um Deus bom, então essas torturas são necessárias. Pois nenhum Ser que fosse bom, mesmo de maneira comedida, provavelmente seria capaz de infligi-las ou de permiti-las caso elas não fossem necessárias.

Seja o que for, não há como escapar.

O que as pessoas querem dizer quando afirmam: “Não tenho medo de Deus porque sei que Ele é bom”? Será que nunca foram ao dentista? (p. 63-64).

Pode um mortal fazer perguntas que Deus não considera passíveis de resposta? Absolutamente, sim. Todas as perguntas sem sentido não são passíveis de resposta. Quantas horas há num quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? Provavelmente, metade das perguntas que fazemos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – pertencem a essa categoria. (p.85).

Fonte: A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação (A Grief Observed) – C. S. Lewis – Editora Vida – 2006 – São Paulo.

13 de janeiro de 2014

Analogias bíblicas vs. abstrações teológicas


As Escrituras não se dão ao menor trabalho de expor a doutrina da Impassibilidade Divina. Pelo contrário, somos constantemente levados a despertar a ira ou a piedade divina. Até mesmo “enlutado” deixamos Deus. Sim, eu sei que essa linguagem é analógica. Mas quando dissemos essas coisas não devemos achar que, no fundo, deveríamos jogar fora as analogias e manter apenas a verdade pura e literal. O máximo que conseguiremos é substituir as expressões analógicas por algumas abstrações teológicas. E o valor das abstrações é quase sempre negativo. Elas evitam que façamos extrapolações vulgares e tiremos conclusões absurdas das expressões analógicas. Por si só, a abstração “impassível” não nos leva a lugar nenhum. Na verdade, ela pode sugerir algo muito mais enganoso do que a mais ingênua das expressões de um Jeová emotivo e irado do Velho Testamento poderia sugerir. Ou sugere algo inerte, ou algo do tipo “Ato Puro” no sentido de que não se importa ou não toma ciência dos eventos do universo que criou. 

Sugiro aqui duas regras exegéticas: (1) nunca interprete as expressões literalmente; (2) quando o propósito das expressões – o que elas comunicam a nossos medos, esperanças, vontades e afeições – estiver em conflito com as abstrações teológicas, confie sempre nas expressões, nunca nas abstrações. O pensamento abstrato nada mais é do que um tecido de analogias: uma contínua modelagem de realidades espirituais em termos legais, químicos ou mecânicos. Ora, seriam essas abstrações mais adequadas do que as expressões sensuais, orgânicas e pessoais das Escrituras – luz e trevas, rio e poço, semente e colheita, mestre e escravo, galinha e pintinhos, pai e filho? As pegadas do divino são mais visíveis nesse solo rico do que em rochas ou entulhos. É por isso que a chamada “desmistificação” do Cristianismo é, na verdade, uma “remistificação” do Cristianismo – só que substituindo uma mitologia rica por outra mais pobre. As abstrações teológicas parecem menos ingênuas e antropomórficas do que as expressões das Escrituras. Na verdade, a única diferença é que nas abstrações o antropomorfismo está mais bem escondido e é de tipo muito mais danoso.

Fonte: C. S. Lewis, Letters to Malcolm, Harcourt, Inc., 1963, Orlando, EUA.

10 de janeiro de 2014

Partidas são sempre iguais; é a chegada ao destino que coroa o viajante


Há uma opinião que tem ganhado cada vez mais fama e que é extremamente plausível. Diz-se que místicos das mais diversas origens religiosas deparam-se com as mesmas coisas. Tais coisas têm pouco ou nada a ver com as doutrinas professadas por suas respectivas religiões – Cristianismo, Hinduísmo, Budismo, Neoplatonismo etc. Portanto, segue o argumento, o misticismo, por evidência empírica, é o único contato real que o homem já teve com o invisível. O fato dos exploradores concordarem em seus relatos é prova de que todos estiveram em contato com algo objetivo. É portanto a religião única e verdadeira. O que chamamos de “religião” nada mais é do que ilusões ou, na melhor das hipóteses, os diversos pórticos através das quais se pode adentrar à realidade transcendente.

Bem, tenho sérias dúvidas quanto a essas premissas. Teriam Plotino, Juliana de Norwich e São João da Cruz realmente deparado-se com “as mesmas coisas”? Mesmo que admitamos alguma similaridade. O que é comum a todos os misticismos é a interrupção temporária da consciência ordinária espaço-temporal e da razão discursiva. O valor da experiência negativa deve depender da natureza da positiva, seja ela qual for, a qual engendrou. Ora, mas a experiência negativa não deveria mesmo ser sentida sempre da mesma forma? Se os copos de vinho tivessem consciência suponho que estar vazio seria a mesma experiência a todos, mesmo que alguns já estivessem vazios, alguns cheios de veneno e outros quebrados no chão. Todo mundo que parte em uma viagem pelo mar vai “deparar-se com as mesmas coisas” – a terra sumindo no horizonte, o rastro de água atrás da embarcação, a brisa com aroma salgado. Turistas, comerciantes, pescadores, piratas, missionários – todos passam por isso. Mas essa experiência idêntica não confere absolutamente nada à utilidade, à legitimidade ou à finalidade de suas jornadas. A utilidade, a legitimidade e a finalidade da jornada mística em nada dependem do fato de ser mística – ou seja, do fato de ser uma partida --, mas dos motivos, técnicas e experiências do viajante, e da graça de Deus. Partidas são sempre iguais; é a chegada ao destino que coroa o viajante. O santo, por ser santo, prova que seu misticismo (se ele for místico; nem todos os santos o são) o levou ao destino certo; o fato de ter praticado o misticismo em nada prova sua santidade.

* * *

A nossa dificuldade em rezar é em boa parte explicada pelos pecados, conforme qualquer bom professor dirá; pela inevitável imersão nas coisas do mundo, pelo desprezo à disciplina mental. E pelo pior tipo de “temor a Deus”. Intimidamo-nos ante a perspectiva de um contato íntimo, pois tememos as exigências que nos serão impostas. Como dizia um velho escritor, tem muito cristão por aí que reza baixinho “para que Deus não o ouça, coisa que, coitado, não era mesmo sua intenção”. Mas os pecados – os pecados individuais e reais– talvez não sejam a única causa do fracasso na oração.

Pela própria constituição que a mente humana hoje possui – não importa como era quando Deus a concebeu – é difícil concentrar-se em algo que não é nem sensível (como batatas) nem abstrato (como números). Aquilo que é concreto mas imaterial só pode ser mentalmente concebido com muita dificuldade. (p. 114).


Fonte: C. S. Lewis, Letters to Malcolm, Harcourt, Inc., 1963, Orlando, EUA.

20 de dezembro de 2010

Natal vazio


C. S. Lewis

Há três coisas que chamamos de "Natal". A primeira é a festa religiosa. Ela é importante e obrigatória para os cristãos, mas, já que não é do interesse de todos, não vou dizer mais nada sobre ela. A segunda (ela tem conexões histórias com a primeira, mas não precisamos falar disso aqui) é o feriado popular, uma ocasião para confraternização e hospitalidade. Se fosse da minha conta ter uma "opinião" sobre isso, eu diria que aprovo essa confraternização. Mas o que eu aprovo ainda mais é cada um cuidar da sua própria vida. Não vejo razão para ficar dando opiniões sobre como as pessoas deveriam gastar seu dinheiro e seu tempo com os amigos. É bem provável que elas queiram minha opinião tanto quanto eu quero a delas. Mas a terceira coisa a que se chama "Natal" é, infelizmente, da conta de todo mundo.

Refiro-me à chantagem comercial. A troca de presentes era apenas um pequeno ingrediente da antiga festividade inglesa. O sr. Pickwick levou um bacalhau a Dingley Dell [1]; o arrependido Scrooge [2] encomendou um peru para seu secretário; os amantes mandavam presentes de amor; as crianças ganhavam brinquedos e frutas. Mas a idéia de que não apenas todos os amigos mas também todos os conhecidos devam dar presentes uns aos outros, ou pelo menos enviar cartões, é já bem recente e tem sido forçada sobre nós pelos comerciantes. Nenhuma destas circunstâncias é, em si, uma razão para condená-la. Eu a condeno nos seguintes termos.

1. No cômputo geral, a coisa é bem mais dolorosa do que prazerosa. Basta passar a noite de Natal com uma família que tenta seguir a "tradição" (no sentido comercial do termo) para constatar que a coisa toda é um pesadelo. Bem antes do 25 de dezembro as pessoas já estão acabadas – fisicamente acabadas pelas semanas de luta diária em lojas lotadas, mentalmente acabadas pelo esforço de lembrar todas as pessoas a serem presenteadas e se os presentes se encaixam nos gostos de cada um. Elas não estão dispostas para a confraternização; muito menos (se quisessem) para participar de um ato religioso. Pela cara delas, parece que uma longa doença tomou conta da casa.

2. Quase tudo o que acontece é involuntário. A regra moderna diz que qualquer pessoa pode forçar você a dar-lhe um presente se ela antes jogar um presente no seu colo. É quase uma chantagem. Quem nunca ouviu o lamento desesperado e injurioso do sujeito que, achando que enfim a chateação toda terminou, de repente recebe um presente inesperado da sra. Fulana (que mal sabemos quem é) e se vê obrigado a voltar para as tenebrosas lojas para comprar-lhe um presente de volta?

3. Há coisas que são dadas de presente que nenhum mortal pensaria em comprar para si – tralhas inúteis e barulhentas que são tidas como "novidades" porque ninguém foi tolo o bastante em adquiri-las. Será que realmente não temos utilidade melhor para os talentos humanos do que gastá-los com essas futilidades?

4. A chateação. Afinal, em meio à algazarra, ainda temos nossas compras normais e necessárias, e nessa época o trabalho em fazê-las triplica.

Dizem que essa loucura toda é necessária porque faz bem para a economia. Pois esse é mais um sintoma da condição lunática em que vive nosso país – na verdade, o mundo todo –, no qual as pessoas se persuadem mutuamente a comprar coisas. Eu realmente não sei como acabar com isso. Mas será que é meu dever comprar e receber montanhas de porcarias todo Natal só para ajudar os lojistas? Se continuar desse jeito, daqui a pouco eu vou dar dinheiro a eles por nada e contabilizar como caridade. Por nada? Bem, melhor por nada do que por insanidade.

[1] Samuel Pickwick é o personagem principal de Pickwick Papers, romance de Charles Dickens no qual suas aventuras são narradas. Dingley Dell é o nome de uma fazenda, um dos cenários do romance. (N. do T.)

[2] Referência ao avarento milionário Ebenezer Scrooge, personagem da obra Um Conto de Natal, de Charles Dickens. (N. do T.)

Publicado originalmente em God in the Dock -- Essays on Theology and Ethics (Deus no Banco dos Réus – Ensaios sobre Teologia e Ética), 1957.

12 de novembro de 2010

A cosmovisão medieval


Como será viver em outro mundo? Não me refiro a outro planeta, mas a outro mundo. Se por “mundo” entendemos não apenas a totalidade do universo físico, mas também todas as criaturas imateriais que existem, então concluiríamos que é impossível viver em outro mundo. Não há outro mundo além deste e, se há, então também faz parte do mundo. Porém, viver em outro mundo pode significar viver em uma época na qual a maneira como o mundo é organizado – sua estrutura e a hierarquia entre os seres – seja vista de maneira radicalmente diferente.

Em The Discarded Image, C. S. Lewis explica como era a visão-de-mundo dos homens medievais, sobretudo dos grandes expoentes da literatura medieval. Eles acreditavam na terra plana? Em faunos e ogros? Na astrologia? Sem este conhecimento prévio, sem este “mapa” em mãos, a leitura dos autores medievais e dos primeiros renascentistas torna-se uma tarefa quase misteriosa, para não dizer inútil.

Neste artigo, omiti quase que por completo as inúmeras referências e citações usadas por Lewis, já que meu objetivo é apenas apresentar a estrutura da cosmovisão. Fica claro, portanto, que o leitor desejoso de estudar algum aspecto específico desta cosmovisão deve ter em mãos a obra original de Lewis.

A maneira como as crenças dos homens medievais se formaram não é igual à maneira como as crenças dos homens selvagens (ou “bárbaros” ou “incivilizados”) se formaram. Em linhas gerais, as crenças selvagens são fruto de respostas ao ambiente imediato; são, portanto, produto da imaginação. As crenças medievais, por outro lado, são fruto de longos períodos de estabilidade, nos quais o “ambiente” é feito de livros. Sim, isso mesmo: o medieval era um homem livresco, cujas crenças engendraram-se a partir de raciocínios éticos, filosóficos e científicos sobre livros antigos que se encontravam à sua disposição. Ao contrário do que a cultura popular ensina, os medievais não eram pessoas sonhadoras, que gostavam de pensar em assuntos bizarros e inúteis, mas um verdadeiro organizador, um construtor de sistemas. Tudo era codificado e organizado, desde o sexo até a guerra, a teologia, a ciência e a história. Todas estas questões, juntas, formam o que Lewis passa a chamar de Modelo do Universo, ou simplesmente Modelo. É este Modelo que o estudioso medievalista deve aprender para começar a compreender a mentalidade medieval.

Antes de apreciarmos os detalhes desse Modelo, cabe uma observação importante. Em primeiro lugar, modelos, sejam os modelos científicos modernos, seja o Modelo medieval, não são afirmações absolutamente factuais sobre a realidade. São esquemas provisórios que ajudam a explicar a realidade, ou seja, são esquemas que não devem ser defendidos como sendo os únicos universos de discurso (ver Dialectic) possíveis. Os Modelos, em si, não são a realidade bruta e factual. Daí decorre um fenômeno interessante: quanto mais ignorante for uma pessoa, tanto mais ela se apegará ao Modelo vigente. É por isso que as pessoas ignorantes levam tão a sério o homem das cavernas ou a teoria dos átomos, mas, ao mesmo tempo, não pensam duas vezes em duvidar da vida de Júlio César ou Shakespeare. O Modelo moderno lhes diz que o homem evoluiu desde um passado remoto, há milhões de anos, que os produtos químicos são organizados da maneira que a teoria atômica lhes diz, que os antigos cronistas inventavam estórias emplumadas para enganar o povo idiota. Não é ruim que seja assim, pois é natural que as pessoas simples e fáceis se apeguem a esquemas que por princípio são simples e fáceis. No entanto, quanto mais subirmos na escala do conhecimento e da inteligência, tanto mais o Modelo será questionado. Os homens de ponta, os homens verdadeiramente inteligentes, sabem que os Modelos são frágeis e, ademais, são estes os homens que constroem e aperfeiçoam os Modelos. É natural que não os levem a sério, ou pelo menos não o levem tão a sério. A propósito, isso ajuda a explicar por que os cientificistas não são realmente cientistas (ver Wolfgang Smith).

Mutatis mutandis, o raciocínio acima também vale para o Modelo medieval. As pessoas simples daquela época também levavam o Modelo a sério; no entanto, não devemos nos esquecer que poetas e literatos também são, neste sentido, pessoas simples. É por isso que, na medida que tomamos contato com as obras de filosofia e teologia medievais, o Modelo será cada vez menos usado e cada vez mais questionado. Os poetas, mais ligados aos sentimentos e às emoções, naturalmente se inclinam ao Modelo e buscam nele sua força e satisfação. Os teólogos e místicos praticamente o ignoravam – naturalmente não cooptavam com os elementos pagãos que contribuíam para sua composição –, mas compreendiam que as pessoas o adotassem.

Em segundo lugar, o Modelo medieval é um conjunto de concórdias ou linhas de intersecção entre filósofos, poetas e cientistas, em um longo espaço de tempo. Conforme dissemos acima, os medievais eram pessoas livrescas, ou seja, levavam muito a sério as doutrinas de filósofos e poetas pagãos. Assim, torna-se imprescindível que vislumbremos quais autores influenciaram os poetas medievais.

Lewis divide essa tarefa em dois períodos: o período clássico, anterior à Idade Média, e o período seminal, na aurora da Idade Média. Vejamos muito brevemente os exemplos que o autor utilizou.

Influências do período clássico

A República, de Cícero, foi escrita em 50 a.C., e contém alguns elementos que foram mais tarde aproveitados pelos autores medievais. (1) A tentativa de conferir verossimilhança a um sonho fictício atribuindo-lhe causas psicológicas é um aspecto aproveitado por Chaucer [Sir Geoffrey Chaucer (1340-1400), poeta inglês medieval]; (2) a esfera celeste mais alta, chamada de stellatum, foi mais tarde citada por Dante [Dante Alighieri (1265-1321), poeta italiano medieval] e Chaucer; (3) a previsão da futura carreira política do neto é um elemento aproveitado por Dante; (4) a idéia de que os homens são propriedade dos deuses e que, enquanto propriedade, não devem dispor de si próprios foi utilizada posteriormente por Spenser [Edmund Spenser (1552-1599), poeta inglês]; (5) a insignificância da Terra em relação ao restante do cosmos é uma perspectiva também comum aos medievais e, claro, ao pensamento moderno; (6) Cícero, bem como seus sucessores, faz da Lua o limite entre as coisas eternas e as coisas perecíveis, além de ensinar, um tanto vagamente, é verdade, que os planetas influenciam a sorte dos homens na Terra.

Marco Aneu Lucano foi um poeta romano que viveu de 34 d.C. a 65 d.C. Seus livros também contêm elementos que influenciaram os poetas medievais. (1) Dante aproveita uma prosaica história contada por Lucano em seu segundo livro: Márcia casou-se primeiramente com Cato e, sob suas ordens, posteriormente com Hortênsio; após a morte de Hortênsio, Márcia retorna a Cato, exigindo, com sucesso, seu re-casamento. Dante a transforma em uma alegoria: Márcia é la nobile anima; enquanto virgem, é l´adolescenza; enquanto esposa de Cato, é la gioventude; os filhos de Márcia com Cato são as virtudes próprias dessa idade; o casamento com Hortênsio é a senettude; os filhos de Márcia com Hortênsio são as virtudes próprias da idade; a morte de Hortênsio e a viuvez de Márcia são a transição para um período de idade muito avançada (senio); o retorno de Márcia a Cato é a alma nobre que retorna a Deus; Cato é o próprio Deus; (2) Lucano, em seu nono livro, conta a história da ascese da alma de Pompeu, desde a pira funerária até os céus; Pompeu passa pelo ar, pela fronteira entre o ar e o éter, ou seja, entre a ‘Natureza’ e o ‘Céu’ de Aristóteles, que é a órbita da Lua, e, de lá do alto, observa as zombarias feitas em seu próprio cadáver, em um funeral deveras bagunçado. Pompeu acha graça e ri. Boccaccio [Giovanni Boccaccio (1313-1375), escritor e poeta italiano medieval] aproveita esta história em seu Teseide, usando-a no espírito de Arcita. Chaucer faz algo semelhante em Knight´s Tale, usando-a no espírito de Troilus.

Públio Papínio Estácio (Statius) foi um poeta romano e viveu de 45 d.C. a 96 d.C. Um dos aspectos mais notáveis de sua obra é a citação breve mais interessante da Natura. Para ele, a Natura é a princeps (primeira) e creatrix (criadora) de todas as coisas, inclusive da própria paixão (Pietas) que se revolta contra ela; a Natura também é a dux (guia) daqueles que fazem guerra santa contra as coisas monstruosas e ‘inaturais’. Claudiano (Claudius Claudianus) (370-404) vai além, e ensina que a Natura é o demiurgo que reduz o caos primordial ao cosmos; ela também nomeia os deuses que servirão a Júpiter. No entanto, cabe lembrar que, para os medievais, a Natura não era tudo: seu lugar é abaixo da Lua e cumpre ordens de Deus enquanto vice-gerente desta região. É por isso que os medievais, tornando-a limitada e subordinada, puderam fazer uso mais livre e intenso da Natura em suas poesias.

Apuleio (Lucius Apuleius) (125-180), poeta romano, escreveu De Deo Socratis (Do deus de Sócrates), no qual cita implicitamente dois trechos de Platão: Apologia (31c-d) e Simpósio (202e-203e). Nestes trechos, conta-se que os demônios são criaturas intermediárias entre deuses e homens, e somente com eles os homens são capazes de se comunicar com os deuses. Apuleio ensina, por sua vez, que os demônios ou “espíritos intermediários” habitam uma região entre a Terra e o éter, ou seja, o ar, que se estende até a Lua. Afinal, a ratio determina que deve haver uma espécie genuinamente aérea, assim como os deuses são etéreos e os homens terrestres. Os demônios têm corpos de consistência mais delicada do que as nuvens, os quais não são visíveis aos homens. Apuleio afirma que os demônios são animais, mas não bestas: assim como há animais racionais terrestres (os homens), os demônios são animais racionais aéreos.

Apuleio introduz dois princípios que Lewis considera como capitais para a compreensão da cosmovisão medieval. (1) O Princípio da Tríade, que afirma que duas coisas não podem se unir sem o auxílio de uma terceira coisa. Este princípio encontra-se também em Platão (Timeu 31b-d). Entre Deus e os homens deve haver uma ponte, uma “terceira coisa”. Similarmente, entre a razão e os apetites, entre a alma e o corpo, entre os reis e os súditos etc. (2) O Princípio da Plenitude, que afirma que o universo deve ser plenamente explorado e habitado. Se há uma região entre o éter e a Terra – o ar –, então essa região deve necessariamente ser habitada. Nada existe superfluamente.

Influências do período seminal

O período seminal é situado por Lewis entre 205, ano em que nasceu Plotino, e 533, ano em que o autor acredita ser a primeira vez em que surge São Dionísio. Seus autores são pagãos, influenciados pelo neoplatonismo, mas influenciaram em muitos aspectos a mentalidade medieval.

A obra de Calcídio (Chalcidius), filósofo neoplatônico do século IV, resume-se a uma tradução incompleta do Timeu, de Platão, acompanhada de comentários. Sua obra é importante porque foi ela a principal responsável por traçar o perfil de Platão a ser conhecido pelos medievais. (1) Em Timeu 42b, Platão ensina que a alma dos homens perversos seria reencarnada como mulheres e, caso não se curasse, em bestas. Mas Calcídio acredita que, com isso, Platão quis dizer que quanto mais os homens se entregarem às paixões, tanto mais se parecerão com animais. (2) Em Timeu 40d-41a, Platão explica a criação dos deuses – não os deuses mitológicos, mas os deuses em que ele realmente acreditava, as estrelas animadas. No que tange o panteão de deuses, Platão os rebaixa ao grau de demônios para, em seguida, se recusar a versar sobre eles, dizendo ironicamente que seus antepassados, por serem seus descendentes, deveriam saber melhor do que ele sobre esses deuses. Calcídio leva a explicação platônica ao pé da letra, dizendo que, na verdade, Platão não quis explicar a origem desses deuses por ser um filósofo. (3) Calcídio escreve sete capítulos sobre os sonhos, inspirando-se em Timeu 45e. (4) Calcídio introduz algumas noções astrológicas: a Terra é infinitesimalmente pequena em relação ao universo como um todo; o movimento dos planetas é a fonte dos efeitos que se verificam na Terra, embora ele deixe claro que se trata de um epifenômeno, pois o verdadeiro motivo é os astros seguirem o curso apropriado à sua beatitude (o universo, portanto, é geocêntrico, mas não antropocêntrico); a Terra está no centro apenas para fornecer um centro em torno do qual os astros revolvem, ou seja, por conveniência estética, mas não antropocêntrica. (5) Inspirando-se em Timeu 47b, Calcídio afirma que o propósito da visão não é auxiliar a sobrevivência humana, mas motivar o homem a buscar a Deus ao contemplar o céu e as estrelas; similarmente, o propósito da audição é ouvir música – não a música vulgar, mas a música divina, que nunca abandona o entendimento e a razão –, pois a alma diz respeito a ritmos e melodias e, estando ligada ao corpo, tal relação acaba por se desvanecer. (6) Calcídio reforça os Princípios da Tríade e da Plenitude, a exemplo de Apuleio (por exemplo, a voz de Deus não pode ter vindo diretamente de Deus; a política é uma tríade de soberanos, executivos e súditos; os poderes estrelares comandam, os seres angélicos executam, os seres terrestres obedecem; a parte racional do homem situa-se no capitolium (a casta dos filósofos), a parte ‘vigorosa’ situa-se no peito (a casta dos guerreiros), a parte apetitiva situa-se no abdômen (a casta das pessoas comuns).

Macróbio (Ambrosius Theodosius Macrobius), filósofo neoplatônico do século V, escreveu, entre outras obras, um comentário ao Somnium Scipionis, de Cícero, o qual citamos acima. (1) O historiador Hecateu visita o Egito e descobre que os egípcios possuem muitas gerações mais de antepassados do que os gregos e, mesmo assim, não se encontra entre eles nenhum semideus. Isso leva Macróbio a concluir que o universo sempre existiu. (2) Macróbio afirma que a coisa mais pura e límpida (liquidissimum) eleva-se ao lugar mais alto e é chamada de éter; aquilo que é menos puro e possui algum grau de peso é o ar; o que é mais pesado e representa resistência ao tato (corpulentum), mas ainda conserva alguma fluidez, se junta em forma de água; o restante, o que vem do ‘tumulto da matéria’, o ‘irreclamável’ (vastum), reduz-se a terra. (3) Macróbio identifica cinco tipos de sonhos, sendo que três primeiros são verídicos e dois últimos não têm ‘divinização’ em si: (a) somnium, nos quais as verdades são reveladas de forma alegórica (a psicologia moderna classifica a maioria dos sonhos desta forma); (b) visio, previsão literal e direta do futuro; (c) oraculum, alguma pessoa venerável, talvez até um dos pais, declara o futuro ou dá conselhos; (d) insomnium, mera repetição de preocupações correntes; (e) visum, quando a pessoa não está ainda dormindo e crê que está acordada, ela pode ver formas que se atiram contra a pessoa ou brigam com ela; são os típicos pesadelos. (4) Macróbio descreve a criação da Mens e da Anima (os conceitos neoplatônicos do Noûs e da Alma do Mundo) de maneira repugnante à teologia cristã, pois são descritas como menores e distintas de Deus. (5) Macróbio formulou um sistema ético baseado no quaternion clássico de virtudes: prudência, temperança, fortaleza e justiça. Há quatro níveis em que estas virtudes devem ser avaliadas: político, purgatorial, das almas já purificadas, do Mens (ou Noûs). (6) Macróbio acreditava que a alma poderia retornar ao céu, pois teria vindo de lá; que o corpo é o túmulo da alma; que a alma é o homem; que todas as estrelas são maiores do que a Terra; que as estrelas não produzem eventos terrestres, embora sua posição relativa permita que possamos predizê-los.

Lewis acredita que São Dionísio, o Areopagita, foi o “Pseudo-Dionísio”, o qual escreveu seus famosos livros em algum ano anterior a 533. Sua principal contribuição ao Modelo foi a hierarquia angélica. A primeira hierarquia contém três espécies de anjos: serafins, querubins e tronos. A segunda hierarquia é composta de dominações, potestades e virtudes (não no sentido moral, mas no sentido eficiente, que produz um efeito, como nas ‘virtudes’ de um anel mágico ou planta medicinal). Essas duas hierarquias voltam-se para Deus. A terceira e mais inferior hierarquia ocupa-se dos homens, sendo composta de principados, arcanjos e anjos. Assim como Platão e Apuleio, Pseudo-Dionísio também defende o Princípio da Tríade, ou seja, que entre Deus e os homens há uma hierarquia intermediária, assim como entre as faculdades humanas governante e obediente deve haver uma intermediária.

Boécio (480-524) é o homem mais influente da Idade Média. Até uns duzentos anos atrás, era conhecido e lido por todas as pessoas cultas. Aprender a amá-lo é se naturalizar medieval. A consolação que Boécio busca na filosofia (De Consolatione Philosophiae) é limitada: ao mesmo tempo em que louva a Philosophia por suas provas "inatas e domésticas", a dispensa nas questões cujas "razões vêm de fora" (por exemplo, nas questões que tange o inferno e o purgatório). (1) É da natureza de sua atividade que os filósofos devam antecipar a calúnia; afinal, o propósito maior (maxime propositum) dos filósofos é desagradar a ralé, e não ser admirado. (2) Boécio não compreende por que Deus governa a Natureza com tanta regularidade e os assuntos humanos com tanta irregularidade. Este tema será posteriormente aproveitado por Alanus, Jean de Meung e Milton. (3) O Livro III contém sua famosa apologia à Fortuna. Boécio se recusa a aceitar a idéia de que pessoas más serão necessariamente punidas com castigos e pessoas boas serão necessariamente prósperas e ricas. Esse tipo de perspectiva, comum a pagãos vulgares e cristãos vulgares, é típico de “homens cruéis”. Os bens exteriores nunca são perdidos porque, na verdade, eles nunca foram nossos. A beleza dos campos e das pedras preciosas é delas, não nossa; a beleza das roupas é delas (ou da habilidade do tecelão), mas não nossa. Mesmo a fama não é nossa, porque a fama em um lugar pode ser a infâmia em outro. A nobreza também não é nossa, mas de nossos antepassados. A adversidade tem o mérito de nos mostrar quem são os nossos amigos verdadeiros e quem são os amigos simulados. (4) Todos os homens buscam a Felicidade, mas a maioria o faz por caminhos errados, como o homem bêbado que sabe que tem uma casa, mas não sabe como chegar lá. No entanto, mesmo os caminhos errados, como a riqueza e a glória, mostram que os homens portam alguma semelhança com a verdade, pois o verdadeiro bem é glorioso como a fama e auto-suficiente como a riqueza. (5) O Livro IV contém uma digressão sobre a justiça no contexto da Fortuna. A Philosophia apresenta duas visões: (a) tudo é justiça, pois o homem bom é sempre recompensado e homem iníquo é sempre punido, isto é, o poder maligno e as operações malignas são a própria punição da vontade maligna; (b) a Providência, espelhada na multiplicidade do tempo e do espaço, torna-se Destino. Como em uma roda, quanto mais próximo do centro, menos propensos ao Destino estaremos; toda sorte, vista do centro, é boa e medicinal. Assim, Boécio conclui que acima da ratio existe a intelligentia, e a ratio só é capaz de conceber o futuro como algo determinado. É necessário, portanto, elevar-se ao nível inteligencial para apreendermos o conhecimento que não envolve determinismo. A eternidade não é a mesma coisa que perpetuidade, o que significa que o tempo e apenas uma imagem, quase uma paródia, da plenitude da eternidade. Por isso, Deus sempre vê, jamais prevê.

Os Céus

Every kindly thing that is
Hath a kindly stede ther he
May best in hit conserved be;
Unto which place every thing
Through his kindly enclyning
Moveth for to come to
(Chaucer, Hous of Fame, II, 730 sq.)

a) O mundo

A ciência moderna explica os fenômenos naturais com base em leis e a obediência dos corpos a essas leis. A ciência medieval, por outro lado, faz uso dos conceitos fundamentais de simpatia, antipatia e aspiração. Em outras palavras, todas as coisas possuem seu lugar certo, a região que melhor lhes convém, um instinto residente. No entanto, os medievais não pensavam que as coisas e objetos eram sensíveis e que agiam propositadamente, a não ser no caso das estrelas, já que consideravam-nas seres orgânicos. Neste contexto, é curioso observar que o linguajar moderno é mais ingênuo e antropomórfico do que o linguajar medieval. Afinal, a idéia de que a matéria possui inclinações é mais “animal”, enquanto a idéia de que a matéria obedece a leis e regras é mais “humana”. Ambas as linguagens não devem ser tomadas literalmente, mas o ponto de vista medieval apela muito melhor à imaginação e às emoções, pois projeta sentimentos e desejos à matéria, enquanto o ponto de vista moderno projeta sistemas jurídicos e códigos de trânsito. No caso medieval, sugere-se uma continuidade entre os eventos físicos e nossas aspirações espirituais.

As propriedades simpáticas e antipáticas são os famosos quatro contrários: quente, frio, úmido e seco. Eles se combinam para formarem os quatro elementos: fogo (quente + seco), ar (quente + úmido), água (frio + úmido) e terra (frio + seco). Há ainda o quinto elemento ou quintessência, que é o éter. Porém, o éter só pode ser encontrado acima da Lua e, portanto, nós mortais não temos acesso a ele.

No mundo sublunar – o mundo da Natureza –, os quatro elementos se situam em seus lugares apropriados. A terra é o mais pesado e aglomera-se no centro; sobre ela está a água e, mais acima ainda, o ar. Por fim, o fogo, o mais leve dos elementos, procura sempre subir para o limite da circunferência da Natureza, formando uma esfera imediatamente abaixo da órbita da Lua.

No centro do universo situa-se a Terra, que é esférica. Ela é circundada por um conjunto de globos ocos e transparentes, um acima do outro, um maior do que o outro (do centro para fora). Estes globos são chamados de ‘esferas’, ‘céus’ ou, mais raramente, de ‘elementos’. Em cada uma das sete primeiras esferas há um corpo luminoso. A partir da Terra, a ordem é a seguinte: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Depois da esfera de Saturna há o Stellatum, ao qual pertencem todas as estrelas que ainda hoje chamamos de ‘estrelas fixas’, pois a posição relativa entre elas é invariável. Depois do Stellatum temos uma esfera chamada de Primeiro Móvel ou Primum Mobile. Como esta esfera não porta nenhum corpo luminoso, ela não dá nenhuma evidência aos sentidos humanos.

E depois do Primum Mobile? Para além dos céus há o Céu propriamente (caelum ipsum), que é “cheio de Deus”, como disse Bernardo (Bernardus Silvestris, poeta do século XII) em sua cosmografia. Lá não há espacialidade, nem temporalidade, mas “luz pura, luz intelectual, amor pleno” (Dante, Paradiso, XXX, 38).

As dimensões do universo medieval não são tão bem definidas quanto sua estrutura. Há claros indícios de que seria bem menor do que o universo moderno, mas, em termos imaginativos, a diferença entre mil e dez milhões de quilômetros é desprezível. Ambos podem ser concebidos (ou seja, podemos somar e subtrair seus números), mas ambos não podem ser imaginados. Uma característica importante, no entanto, é que o universo medieval é finito e esférico. Assim, quando o medieval olhava para o céu noturno ele contemplava um grande edifício, uma espécie de catedral; o homem moderno contempla o céu como um mar infinito, que se perde na névoa, ou mesmo como uma floresta desprovida de trilhas, totalmente isolada. O “espaço sideral” do homem moderno inspira terror, perplexidade; o espaço medieval apresenta ao observador algo sobre o qual a mente pode se assentar e se satisfazer em sua harmonia. O universo moderno é romântico, o universo medieval é clássico.

A arte medieval é orientada à ênfase que se quer dar ao objeto, ou seja, à sua importância, e não propriamente às suas dimensões físicas. A arte moderna, por outro lado, é mais uma ‘ilusão’, pois é orientada aos sentidos, isto é, tenta reproduzir como seria a perspectiva visual o mais ‘perfeitamente’ possível.

b) O movimento do mundo

O movimento do mundo vem de Deus. Ele causa o movimento do Primum Mobile no sentido oriente-ocidente, cuja rotação é concluída em 24 horas. A rotação do Primum Mobile causa a rotação do Stellatum, que por sua vez causa a rotação de Saturno, e assim por diante, até a Lua. Essas esferas inferiores rotacionam-se no sentido ocidente-oriente, mas como se contrapõem à ‘corrente’ do Primum Mobile, acabam rotacionando também no sentido oriente-ocidente, mas mais lentamente.

Além do movimento físico, as esferas também transmitem à Terra as chamadas ‘influências’. Muitas pessoas dizem que Igreja desaprovava essa idéia, mas a verdade é que os teólogos aceitavam a teoria de que os planetas influenciam os eventos e a psicologia e, mais ainda, as plantas e minerais. Na verdade, a Igreja não aceitava que (a) a astrologia fizesse uso lucrativo e político das previsões, (b) a astrologia se tornasse alvo de adoração planetária e (c) a astrologia chegasse a ponto de impor uma visão determinista, ou seja, de negar o livre arbítrio. A razão e a vontade se deixam influenciar, mas não de maneira necessária, pela matéria. Os astros influenciam o poder imaginativo do homem, mas tal influência situa-se no campo da propensão, e não da necessidade. A propensão pode ser resistida; daí a idéia de que os homens sábios se sobrepõem aos astros. No entanto, como a maioria dos homens não é sábia, a astrologia é capaz de fazer predições, a exemplo das predições atuariais.

Eis uma breve descrição das características dos sete planetas. Vale lembrar que, devido aos diferentes graus de dificuldade e aplicabilidade, as características planetárias devem ser compreendidas intuitivamente, e não conceitualmente.

· Saturno. Na Terra, sua influência produz o chumbo. No homem, o estado melancólico. Na história, eventos desastrosos. É chamado de Infortuna Major, por ser o mais terrível dos planetas.

· Júpiter. Produz o estanho. Chamado de “o Rei”, produz no homem um estado um tanto difícil de descrever, o qual poderíamos aproximadamente chamar de “jovial”: um temperamento alegre, festivo, mas equilibrado, tranqüilo, magnânimo. Dante situa em Júpiter os príncipes justos. É chamado de Fortuna Major, por ser o melhor dos planetas.

· Marte. Produz o ferro. No homem, produz um temperamento robusto, rígido, resistente, firme. No entanto, por causar a guerra, é chamado de Infortuna Minor. Em Dante, é o céu dos mártires.

· Sol. Produz o ouro, o mais nobre dos metais. O Sol é também o olho e a mente de todo o universo. Ele torna os homens sábios e liberais (no sentido medieval). Causa eventos auspiciosos. Dante faz do Sol o céu dos teólogos e filósofos.

· Vênus. Produz o cobre. No homem, a beleza e amorosidade. Na história, também eventos auspiciosos. Por este motivo, é chamado de Fortuna Minor. Em Dante, é o céu dos penitentes que, em vida, amaram ilegalmente.

· Mercúrio. Produz o mercúrio. No homem, produz um estado difícil de descrever; Lewis tenta algo como “diligência vivaz” ou “avidez versada”. Dante aloca na esfera de Mercúrio os homens beneficentes.

· Lua. Produz a prata. A Lua é a fronteira entre o éter e o ar, entre o "céu" e a "natureza", entre o reino dos deuses (ou anjos) e o reino dos demônios, entre o âmbito da necessidade e o âmbito da contingência, entre o incorruptível e o corruptível. No homem, produz um estado errante, que tanto pode se referir, em termos físicos, a pessoas viajantes, quanto, em termos psíquicos, a pessoas "errantes" de humor. Não à toa, as pessoas que apresentam insanidade periódica são chamadas de "lunáticas". Dante manda para a esfera lunar as pessoas que abandonaram a vida monástica por alguma razão boa ou perdoável.

De acordo com o princípio da transmissão, ou mediação, as influências não nos afetam diretamente, mas através da modificação do ar. É por isso que, quando um médico sentia-se incapaz de diagnosticar com precisão o que estaria causando a condição de um paciente, ele atribuía a causa a “alguma influência que está no ar”.

Para os medievais, os astros não se movem em um oceano negro e vazio, como em geral pensam os modernos. O sistema astrológico medieval é, em certo sentido, mais heliocêntrico do que o moderno. O Sol ilumina o universo inteiro. Nenhuma outra estrela tem luz própria, pois são iluminadas pelo Sol (mais ou menos como a "Lua moderna"). Cada milímetro cúbico do universo é iluminado pelo Sol. O que acontece durante o que chamamos de ‘noite’ nada mais é do que a sombra cônica projetada pela Terra. Segundo Dante (Paradiso, IX, 118), esta sombra se estende até Vênus. De noite, quando olhamos para o céu, não estamos olhando a escuridão, mas estamos olhando através da escuridão.

Por fim, cabe lembrar que, assim como o universo não é escuro, ele também não é silencioso. Cada planeta produz certos sons e harmonias.

c) Os habitantes do mundo

Deus causa o movimento do Primum Mobile, conforme vimos acima. Mas Ele não faz isso como um guerreiro que causa o movimento da espada ou como o vento que causa o movimento de um barco. Se fosse assim, explicaríamos um movimento pelo outro ad infinitum e concluiríamos que o universo é um sistema fechado, cujo movimento causa e é causado por outros movimentos dentro de si mesmo. Na realidade, Deus causa o movimento do Primum Mobile de uma maneira diferente: o Primum Mobile é movido por seu amor a Deus; ao se mover, ele comunica movimento ao restante do universo.

Os medievais explicam, ademais, que o movimento dos planetas é de rotação porque, incapazes de imitar a perfeita imobilidade de Deus, movimentam-se da maneira mais semelhante e perfeita possível, a saber, o movimento perfeitamente regular e ágil das circunferências. Isso significa que as esferas, ou pelo menos algo residente nelas, são seres intelectuais, que são movidos pelo ‘amor intelectual’ de Deus. Estas criaturas são chamadas de Inteligências. Na Antiguidade, dizia-se que as Inteligências estavam ‘nas’ esferas. Mais tarde, os escolásticos introduziram a idéia de que as almas das esferas não estão para as esferas assim como a alma humana está para o corpo humano. Em outras palavras, a alma das esferas e a alma dos homens são de tipo diferente, cuja relação não se dá por enteléquia, como no caso humano. Note, porém, que as Inteligências são uma pequena parte da população angélica que habita a região entre a Lua e o Primum Mobile.

Dissemos acima que há planetas “ruins”. Como isso é possível, se acima da Lua não há corruptibilidade? Isso se explica pelo fato dos temperamentos de cada planeta serem ruins em relação aos homens. Em outras palavras, a pessoa que nasce sob Saturno poderá ser uma pessoa estúpida e descontente ou um grande contemplativo. Sob Marte, um Átila ou um mártir. E assim por diante. A culpa não é da influência, mas da natureza terrestre que a recebe. Em nosso mundo caído e corruptível, os homens, a Terra e o ar podem responder de maneira desastrosa às influências que, em si, são sempre boas. O mau paciente torna “mau” o bom agente.

O ar, que está na região sublunar, é habitado por demônios. Na Antiguidade, os demônios podiam ser bons ou maus. Na Idade Média, porém, todos os demônios são maus. De fato, Tomás de Aquino chama os demônios de “diabos”. Não por acaso, o mau tempo era freqüentemente associado com atividades de bruxaria.

Quando os homens modernos olham para o céu, sobretudo à noite, tem a sensação de que estão olhando para fora. O Modelo medieval dava aos medievais precisamente a sensação oposta, ou seja, de que estavam olhando para dentro. A Terra situa-se "do lado de fora dos muros da cidade" e, portanto, olhar para o céu significa olhar para dentro da cidade. Quando o Sol se levanta de manhã, os homens são ofuscados por sua luz e não conseguem enxergar os seres supralunares. De noite, o véu ofuscante do Sol é retirado, e podemos vislumbrar um pouco das pompas e alegrias que ocorrem na parte de dentro dos muros da cidade. Os seres que habitam aquelas esferas exercem suas faculdades de maneira desimpedida, como alguém que se deleita ao beber, mas sem nunca matar sua sede. A cada momento, as Hierarquias e Inteligências aperfeiçoam-se na medida que suas naturezas lhes permitem, mas jamais atingem a perfeição que pertence somente a Ele.

Os Longevos

Os longaevi são criaturas marginais e fugidias. O habitat deles é ambíguo entre o ar e a Terra. Eles são os pans, faunos, sátiros, silvanos, ninfas, elfos etc. Lewis tomou emprestado o nome longaevi de Martinus Capella, pois vivem muito mais do que os homens, embora não sejam imortais. Eles são inocentes, de "conversação irrepreensível", e seus corpos apresentam pureza elemental.

A partir do século XVI e XVII, os longevos começaram a ganhar ares de seres malignos, que deveriam ser evitados. Acredita-se que esse fenômeno ocorreu porque se inaugurou, por esta época, uma temporada de caça às bruxas, a qual acabou caçando os longevos por extensão. No entanto, mesmo hoje em dia, Lewis acredita que as pessoas não sintam repulsa quando imaginam encontrar um tritão ou uma ninfa, o que ocorre quando imaginam bruxas ou “espíritos”.

Os elfos são menores do que os homens, embora a literatura não especifique exatamente o quão menores seriam. Lembre-se que a imaginação visual dos medievais não se ocupava das dimensões físicas. Na literatura medieval, os homens não fogem dos elfos, mas os elfos fogem dos homens assim que percebem que estão sendo observados. Observar os elfos era um prazer, pois eles são seres alegres e satisfeitos, já que não sofrem os pesares da laboriosa vida humana.

As donzelas ou fadas são encontradas na floresta. No entanto, o encontro nunca é acidental. São elas que procuram os homens, e suas intenções são quase sempre amorosas. Em geral, seu tamanho é semelhante ao dos seres humanos.

Há ainda longevos de grande esplendor, luxo e riqueza material, chamados por Lewis de High Fairies. No entanto, luxo e esplendor material, no mundo moderno, são características associadas ao dinheiro e quase sempre à feiúra. Quando um medieval observava o luxo das cortes reais e feudais e imaginava que deveria ser ainda maior entre os longevos (e maior ainda no Céu), ele não associava esse luxo ao dinheiro (muito menos à feiúra). A arquitetura, as armas, as coroas, as vestimentas, os cavalos e a música eram quase sempre belíssimos e de bom gosto. O luxo e a riqueza eram itens associados à santidade, à autoridade, ao valor, à nobreza, ou, na pior das hipóteses, ao poder. O luxo e a riqueza estão associados à graciosidade e à cortesia, algo totalmente fora de cogitação no contexto da modernidade. O esplendor era algo a ser admirado, sem denegrir o admirador. Os High Fairies são vivazes, energéticos, voluntariosos e passionais: eles não são “espíritos”, pois, como explicou William Blake, “o Espírito e a Visão não são, como supõe a filosofia moderna, uma nuvem de vapor ou um nada; eles são organizados e minuciosamente articulados em um nível superior ao que a natureza mortal e perecível é capaz de produzir”.

Lewis reuniu quatro hipóteses que explicariam o que são os longevos: (a) eles seriam uma terceira espécie racional, distinta de homens e anjos; (b) eles seriam anjos “rebaixados de posto”; (c) eles seriam mortos, ou um tipo especial de mortos; (d) eles seriam anjos caídos, ou seja, diabos.

A Terra e seus habitantes

a) A Terra

Dante ensinava que a Terra, assim como os demais planetas, também tem a sua Inteligência, a qual ele chamava de Fortuna. O papel da Fortuna é servir de guia das maravilhas mundanas, transferindo de tempos em tempos essas benesses ilusórias de uma nação para outra, sem que a sabedoria humana saiba como.

Em termos físicos, todos os autores da Alta Idade Média ensinavam que a Terra é um globo. Todos reconheciam a existência da gravitação. Além disso, os mapas medievais não são bons documentos do conhecimento geográfico da época (por exemplo, o mappemoude de Hereford, século XIII). Isso porque os cartógrafos não eram as pessoas que detinham os melhores conhecimentos geográficos, que era altamente difuso. O homem medieval era um viajante nato: reis, exércitos, prelados, diplomatas, mercadores e filósofos viajavam constantemente, e o conhecimento geográfico raramente era registrado em mapas, pois era cristalizado na forma de conhecimento tácito na memória dos capitães dos navios e caravanas. A cartografia medieval tinha uma função menos geográfica e mais artística, sendo, portanto, de caráter meramente romântico. Não tinha função prática.

Recentemente, surgiu no meio acadêmico a idéia de que os medievais tinham conhecimento da existência de ilhas no Oceano Atlântico e até mesmo do continente americano. Estes registros estariam ligados à lenda de São Brandão. Lewis acredita que, mesmo sendo verdade, tal hipótese não chegou a influenciar marcadamente a mente medieval. A única coisa que atraía os medievais no Ocidente era a perspectiva de encontrar o Catái (norte da China). Se soubessem que havia um enorme continente no meio do caminho, provavelmente desistiriam de navegar nessa direção.

b) As bestas

Assim como os mapas-múndi não são bons documentos da geografia medieval, os bestiários também não são bons documentos da zoologia medieval. A maioria das descrições ali contidas são histórias fantasiosas, escritas por pessoas que nunca viram aqueles animais.

Os medievais não foram os primeiros a acreditar nas fantasias bestiárias. Desde a Antiguidade, histórias imaginosas sobre as animais já circulavam entre os poetas e a população. Cavalos que pressentem a morte de seus mestres, unicórnios domados por virgens, baleias diabólicas, hidras fabulosas etc.; em geral, os autores medievais não faziam distinção de autoridade entre os auctores antigos, tomando tudo o que escreviam com o mesmo grau de veracidade.

No entanto, as pessoas que faziam circular os bestiários não estavam muito preocupadas com a precisão factual das descrições ali contidas. O que importava era a moralitas, isto é, o sentido moral era mais real e vivo do que a o sentido empírico.

c) A alma humana

O homem é um animal racional. Em outras palavras, ele é um ser combinado, sendo racional como os anjos e animal como as bestas.

A alma racional não é o único tipo de alma no homem. Há também a alma sensitiva e a alma vegetativa. As potências da alma vegetativa são a nutrição, o crescimento e a propagação. A alma sensitiva contém estas potências, além da sensação. A alma racional contém todas as potências vegetativas e sensitivas, além da razão. Todas estas almas são imateriais. Isso significa que a alma não é uma parte ou um elemento que possa ser fisicamente dissecado.

A doutrina da pré-existência da alma humana foi explicitamente rejeitada na era escolástica. No entanto, na Baixa Idade Média e no período seminal vigorava a idéia de que a alma humana vivia no ar antes de se encarnar na Terra. Na Renascença, a renovação do corpus platônico e do platonismo em geral restaurou a doutrina da pré-existência da alma.

d) A alma racional

A alma racional possui duas faculdades: o intellectus e a ratio. O intellectus é o que de mais próximo os homens têm em relação à intelligentia angélica. De fato, o intellectus é chamado de obumbrata intelligentia (inteligência obnubilada ou sombra de inteligência). Tomás de Aquino explica que “inteligir (intelligere) é a apreensão simples (indivisível, incombinada) de uma verdade inteligível, enquanto raciocinar (ratiocinari) é a progressão para uma verdade inteligível, a partir de um ponto previamente entendido (intellecto). A diferença entre inteligir e raciocinar é semelhante à diferença entre repouso e movimento ou entre possessão e aquisição” (Iª, LXXIX, art. 8). Em outras palavras, desfrutamos do intellectus quando “simplesmente vemos” uma verdade auto-evidente; exercemos a ratio quando provamos passo-a-passo uma verdade que não é auto-evidente. A vida cognitiva em que todas as verdades sejam “simplesmente vistas” seria a vida cognitiva de um intelligentia, de um anjo. No entanto, a vida cognitiva em que todas as verdades tenham de ser trabalhados pela ratio é uma vida cognitiva impossível, já que nenhuma verdade pode ser alcançada sem que haja uma verdade auto-evidente prévia de onde partir. A vida mental humana é constituída pelo esforço de conectar os flashes freqüentes, mas momentâneos, da intelligentia. Cabe lembrar, contudo, que a distinção entre intellectus e ratio é típica dos filósofos. A linguagem poética não fazia essa distinção. Mais tarde, sobretudo a partir do século XVIII, a palavra razão foi reduzida à mera atividade de deduzir uma proposição de outra.

Ademais, na Idade Média, reconhecer uma obrigação moral significava perceber uma verdade; em outras palavras, o julgamento moral não era algo associado a pessoas sensíveis, mas a seres intelectuais. Platão preservou a idéia socrática de que a moralidade está associada ao conhecimento: os homens maus eram maus porque não conheciam o bem. Aristóteles incrementou esta perspectiva com a noção de criação e habituação, mas também considerava a conduta moral uma questão de “razão reta” (orthos logos). Os estóicos acreditavam em uma Lei Natural, a qual todos os homens racionais, em virtude sua racionalidade, eram movidos a seguir. São Paulo, em Romanos 2:15, fala da “lei escrita em seus corações”. A palavra “corações” jamais tinha a conotação emotiva que hoje se lhe atribuem. Em latim, por exemplo, o homem cordatus não era um homem sensível, mas um homem de bom senso, o que chamaríamos hoje de “pessoa razoável”.

e) A alma sensitiva e a alma vegetativa

A alma sensitiva possui dez sentidos, divididos em cinco sentidos interiores e cinco sentidos exteriores. Os sentidos exteriores são: visão, audição, olfato, paladar e tato. Os sentidos interiores são: memória, estimativa, imaginação, fantasia e sentido comum. 

Não é necessário versarmos sobre a memória.

A estimativa é aproximadamente o que chamamos hoje de “instinto”. A estimativa ensina a vaca a identificar seu bezerro em um rebanho, por exemplo. A estimativa detecta as intentiones das coisas.

A fantasia é superior à imaginação. O papel da imaginação é de simplesmente reter o que foi percebido pelos sentidos, enquanto o papel da fantasia é manipular o conteúdo da imaginação mediante diferenciação e integração, separação e união. Aqui cabem duas observações: (a) a imaginação medieval é diferente da imaginação moderna, que é mais parecida com a fantasia medieval; (b) as “pessoas vulgares”, segundo Alberto Magno, confundem fantasia com pensamento, pois, quando dizem que estão pensando, na verdade, estão apenas brincando com imagens mentais.

O sentido comum não deve ser confundido com o “bom-senso” da língua portuguesa (racionalidade elementar) nem com o common sense da língua inglesa (opinião comum). Alberto Magno explica que o sentido comum apresenta duas funções: (a) julgar a operação de um sentido, de maneira que, quando vemos, sabemos que estamos vendo; (b) reunir os dados provenientes dos sentidos exteriores, de maneira que saibamos que a laranja é doce ou que esta laranja é mais doce do que aquela. Em suma, o sentido comum transforma a mera sensação em uma consciência coerente, ou seja, consciência da pessoa enquanto sujeito em um mundo de objetos.

A alma vegetativa não requer maiores explicações. Ela é responsável pelos processos inconscientes do organismo, como crescimento, secreção, nutrição e reprodução. Evidentemente, a alimentação e o ato sexual são ações conscientes, mas os processos involuntários despertados por estes atos pertencem à alma vegetativa.

f) Os espíritos

A atuação da alma no corpo pede, pelo Princípio da Tríade, um intermediário. Este tertium quid eram chamados de espíritos. Os espíritos apresentam uma característica dúbia: não são sutis o bastante para serem alma, nem materiais o bastante para serem matéria.

Os espíritos exalam do sangue, e fervem no fígado, surgindo daí uma "fumaça" pura. Esta fumaça é chamada de espírito natural. Ela é ainda mais purificada, tornando-se o espírito vital, operando os "pulsos da vida" nas artérias. Parte do espírito vital sobe para o cérebro, tornando-se ainda mais sutil e transformando-se no espírito animal. Parte deste espírito animal é distribuído pelos "limbos dos sentimentos" (os órgãos dos sentidos); parte permanece nas "covas" do cérebro, servindo de veículo para os sentidos interiores; ainda outra parte desce da parte traseira do crânio para a medula espinhal, sendo responsável pelos movimentos voluntários. O espírito animal é o órgão imediato da alma racional, e somente através desse órgão que a alma racional age quando se encarna. Os espíritos natural, vital e animal são às vezes chamados, respectivamente, de espíritos vital, animal e intelectual, mas mantêm exatamente as mesmas funções.

Os medievais nem sempre culpavam a alma racional pela insanidade, uma vez que o distúrbio poderia estar nos espíritos, deixando o corpo material fora de controle.

Se os espíritos estão situados em locais específicos do corpo, também é razoável supor que as funções da alma situem-se em locais específicos. A fantasia estaria na parte da frente da cabeça, a razão no meio e a memória na parte de trás.

g) O corpo

O leitor deve se lembrar dos quatro contrários e dos quatro elementos. No corpo humano, no entanto, os contrários produzem quatro humores: sangue (quente + úmido), cólera (quente + seco), fleuma (frio + úmido) e melancolia (frio + seco).

A proporção na qual estes humores encontram-se misturados formam seu complexio ou temperamentum. Embora as misturas nunca sejam iguais nas pessoas, é possível dizer que há sempre um humor que predomina em seu temperamento.

· O sangue é o humor predominante no temperamento sanguíneo. É o melhor dos quatro temperamentos, pois o sangue é "amigo da natureza". O homem sanguíneo é roliço, divertido e esperançoso. Um manuscrito do século XV ilustra o temperamento sanguíneo com um homem e uma mulher esplendidamente vestidos, tocando instrumentos de cordas em um campo florido.

· A cólera é o humor predominante no temperamento colérico. O homem colérico é alto e magro. Como o sanguíneo, o homem colérico fica bravo com facilidade, mas com a diferença que o colérico é vingativo. O manuscrito citado ilustra o temperamento colérico com um homem segurando uma mulher pelos cabelos e batendo-na com uma clava.

· A melancolia é o humor predominante no temperamento melancólico. Magro, dorme mal. Apega-se às suas opiniões e apresenta uma raiva prolongada e corrosiva. É o homem que hoje chamaríamos de neurótico, mas não o "melancólico" contemporâneo, que é triste, reflexivo, introvertido.

· A fleuma é o humor predominante no temperamento fleumático. É o pior dos quatro temperamentos. Gordo, branquelo, dorme excessivamente, sonha com coisas aquáticas ou peixes, lerdo, aprende com muita dificuldade, covarde.

Vale lembrar que determinados períodos do dia são preponderantes para temperamentos específicos: da meia-noite às 6h (sangue), das 6h ao meio-dia (cólera), do meio-dia às 18h (melancolia) e das 18h à meia-noite (fleuma).

h) A história

A historiografia medieval possui três funções primordiais: entreter a imaginação, gratificar a curiosidade e pagar a dívida que temos para com nossos antepassados. Em linhas gerais, a distinção moderna entre história e ficção não pode ser aplicada com precisão aos livros medievais nem ao espírito com que eram lidos. Os contemporâneos de Chaucer não acreditavam nos contos de Tróia ou Tebas da mesma maneira que acreditamos nas Guerras Napoleônicas, mas também não desacreditavam nelas como desacreditamos um romance.

O objetivo precípuo do leitor medieval não era aprender fatos, mas aprender a estória. Assim como em outros aspectos, a história medieval possui um objetivo mais elevado e importante do que contar fatos. A construção do caráter, a ênfase nas virtudes, na dignidade, na honra, tudo isso vale muito mais do que acumular fatos. Raramente o historiador medieval se ocupava de dados econômicos e sociais. As crônicas eram individuais, pessoais, concentravam-se no valor ou na vilania dos personagens, nos dizeres memoráveis, na boa ou má sorte.

Todavia, quem defende a história moderna não deve esquecer que ela também é seletiva, pois depende das inclinações imaginativas do historiador. Quem pensa que a história moderna é isenta, pura e perfeitamente objetiva engana-se terrivelmente.

Por fim, cabe lembrar que a linha de desenvolvimento da historiografia medieval é inversa à historiografia moderna: as eras passadas eram melhores do que a contemporânea, não havia “progresso”, a humanidade caminhava para períodos cada vez piores.

i) As artes liberais

As sete artes liberais atingiram um status de quase imutabilidade.

Eis o famoso mnemônico das artes liberais:

Gram loquitur, Dia verba docet, Rhet verba colorat, Mus canit, Ar numerat, Geo ponderat, Ast colit astra

A gramática é a arte da fala. Em outras palavras, ensinar gramática era ensinar latim.

A dialética "ensina palavras", ou seja, uma vez que a gramática ensinou a falar, a dialética ensinará a argumentar, a provar e a refutar.

A retórica era uma ferramenta indispensável nos tempos medievais, pois a oratória era uma necessidade para qualquer atividade pública ou atividade privada que envolvesse litígios. Geoffrey de Vinsauf escreveu a Nova Poetria (aprox. 1200), na qual ensinava a arte da amplificatio, ou seja, de como "amplificar" sua obra, como dizer muito quando se tem pouco a dizer. Esta arte consistia de três tipos de morae (prolongamentos): (a) Expolitio. Dizer a mesma coisa de maneiras diferentes. (b) Circumlocutio. Esticar uma obra chamando as coisas por outros nomes. (c) Diversia. Digressão. (d) Apostropha. (e) Descriptio. (f) Ornatus. Trocar as palavras de lugar na frase, pois o latim é uma língua que permite este tipo de recurso quase ao infinito.