O núcleo da
obra de Dostoiévski é o mistério. Para ele, o homem vive no mistério, ou
seja, no sobrenatural, no transcendente, e sua obra literária busca
despertar no leitor a visão desse mistério discretamente oculto nas dinâmicas da
vida. Aqui e ali, Dostoiévski apresenta o paradoxo supremo da condição humana,
as consequências de fingir viver como se Deus não existisse, o abismo da misericórdia
divina, o peso infinito que um instante ou uma decisão pode carregar, o imenso
poder do sofrimento humano.
Os romances
de Dostoiévski, segundo Navarro, têm uma espécie de “função sacramental”, ou
seja, procuram unir o divino e o humano, mantendo certo equilíbrio. Por vezes,
quando um personagem está a ponto de atingir o auge de entusiasmo, Dostoiévski
introduz um elemento “carnal” para devolvê-lo ao plano do real, e faz também o inverso,
introduzindo elementos sublimes a situações aparentemente chãs.
Dostoiévski
apresenta Deus como o Mistério que resolve todos os mistérios e dissolve
todos os problemas. No entanto Deus não entra de maneira patente, grosseira,
mas discreta. Por exemplo, é típico de Dostoiévski que os romances transcorram
em poucos dias ou mesmo horas. A redução temporal do enredo é proposital: a
ideia é conferir a ideia de eternidade a situações e contextos terrenos breves,
como uma lente de aumento.
E o que dizer
da tal “beleza que salvará o mundo”? Navarro explica que a beleza serve, para Dostoiévski,
como uma “embalagem” do mistério. A beleza serve como porta de entrada do
mistério como, por exemplo, no mistério do amor. Mas, atenção, beleza aqui tem
pouco ou nada a ver com “beleza estética”. A beleza de Dostoiévski é a
beleza da alma, beleza essa que por conaturalidade fala do sobrenatural com
mais intimidade e conhecimento. A beleza é portanto uma espécie de qualidade metafísica,
e é por isso que Dostoiévski frequentemente faz uso da dor como um elemento de
esplendor: a fonte da beleza e da miséria é a mesma (Deus). Sim, pois somente a
alma bela é capaz de ver o rosto de Deus em tudo, até mesmo no sofrimento
humano. A dor e o sofrimento são, para Dostoiévski, onde mais se nota o
palpitar da vida. É no contexto da dor e do sofrimento que somos capazes de
contemplar a consumação e a destruição do mal. Como? Ora, é na dor que
atestamos a impotência do mal, a impotência de destruir-nos, de liquidar-nos.
E eis um
drama terrível no qual todos os personagens centrais de Dostoiévski estão imersos:
precisar de Deus sem poder encontrá-Lo. Como escapar desse suplício?
Impossível, mas o próprio suplício nos ensina uma lição: é necessário amar a
vida mais do que amar o sentido da vida. Vivemos nessa corrente de
Heráclito e dela não saímos. Urge, assim, amar a vida, amar o viver, amar o
dinamismo da própria existência. Navarro conclui com o desejo de Dostoiévski:
que os leitores “ressuscitem”, que se animem a viver, que percam o medo de
viver intensamente, de sentir.
Fonte: Antonio Schlatter Navarro, Por qué leer a
Dostoyevski, Ediciones Universidad de Navarra, Pamplona, Espanha, 2021.
