Há uma
ideia subjacente à existência humana frequentemente menosprezada pela
psicologia, mas que tem grande protagonismo na existência humana: a ideia de
heroísmo. A importância é tamanha que Becker cogita a hipótese de que a
sociedade humana não passe de sistema heroico codificado, um mito voltado para
criação de sentido. Toda criação cultural tem por pano de fundo uma natureza
religiosa, a despeito da sociedade ser ou não religiosa propriamente. É notável
aqui a ideia de ser melhor, de ser “santo”, de ser “mais”.
A raiz
do heroísmo é o medo da morte. Por um lado, o homem é livre, ou torna-se digno, quando vive em uma
espécie de dependência segura de poderes ao seu redor, por outro lado o homem
se vê indigno por estar à mercê do mundo sensível, de um mundo de doenças,
ameaças, perigos, carências. Por um lado, o homem tem uma identidade simbólica
que o eleva da natureza, por outro lado o homem é “um verme e comida para
verme”. Esse dualismo existencial foi o que motivou Pascal a refletir que o
homem é tão necessariamente louco que não ser louco é apenas outra forma de
loucura. Montaigne teria dito que o homem, no mais alto dos tronos, ainda assim
senta-se sobre sua bunda.
Becker
entende, à moda psicanalítica, que quem finge não ser louco paga um preço alto
por isso. O homem sente uma espécie de “culpa pura” em função de seus processos
corporais: inibição, determinação, limitação, pequenez. Para escapar dessa
culpa o homem, desde criança, busca conquistar a morte tornando-se senhor
de si mesmo, o criador e sustentador de sua própria vida. Dado que a
criança, por um lado, se vê obrigada a moldar-se a fim de ser a única e
exclusiva controladora de sua própria vida e, por outro lado, se vê
fantasticamente fracassada nesse intento irreal, Becker conclui que o
caráter é uma reação similar a um sintoma obsessivo, a uma defesa neurótica.
O horror experimentado pela criança é fruto de sua imaginação inventiva, que cria
a fantasia impossível de que ela precisa se tornar senhora de si mesma. Por
isso o sexo soa algo culposo: o sexo projeta uma sombra sobre a liberdade
interior da pessoa pois deixa claro o lado mecânico e biológico do homem. E por
isso também o amor é importante: ele permite o colapso do indivíduo à sua dimensão
animal sem medo e culpa, pois nele há a dimensão da confiança e da garantia de
que a liberdade interior não será negada pela entrega animal (eis por que as
mulheres têm receio de que o homem não queira “elas”, mas apenas o corpo
delas).
Se os
homens são chamados a tal heroísmo, por que é tão difícil encontrar verdadeiros
“heróis”, gente de verdadeira coragem? Porque abrir-se à totalidade da experiência
é excruciante, avassalador. A criação é gigantesca, enorme, sobrepujante, e diante
dela o homem facilmente engendra um sentimento de inferioridade. O homem
mente a si mesmo quando insiste em não admitir os custos terríveis de sua
limitação, quando cria uma autoestima postiça, um mecanismo de defesa pueril.
Trata-se da mentira vital: o homem sente medo da vida (da experiência
que ela implica) e medo da morte (de perder sua individualidade). Em
lugar de dedicar-se ao autoconhecimento e à autorreflexão, o homem busca em
deus, no sexo, numa bandeira, no proletariado, no dinheiro, no tamanho da conta
bancária etc. a fonte de sua “coragem”. Freud bem dizia que a psicanálise
procurar retirar o paciente da miséria neurótica para levá-lo de volta à
miséria da vida. Aqui há certa proximidade com Boécio, que dizia que os homens estão
a um milímetro apenas do fracasso total (um acidente repentino, uma doença, um
infortúnio qualquer).
Kierkegaard
fazia uso da palavra “filistinismo” para designar a vida trivial, fruto do medo
de um amplo horizonte de experiência. É a vitória sobre a liberdade, sobre
a possibilidade. E a abertura para a possibilidade ilimitada, para a verdadeira
liberdade, exige do homem que ele remodele suas relações com as pessoas à sua
volta em torno à Fonte Primordial, à infinitude. O verdadeiro autodidata é o
homem que parte da ansiedade da vida para a fé; o verdadeiro autodidata é um “teodidata”,
é aquele que mescla psicologia, religião, filosofia, ciência, poesia e verdade
em um conjunto que manifeste o anseio da criatura.
Urge “jogar
a toalha”, desistir do projeto causa-sui, da ideia da autossuficiência. É
precisamente esta entrega ante a realidade da condição humana que marca a
passagem da infância/adolescência para a vida adulta. Em outras palavras, “entregar
os pontos” significa admitir que nosso apoio e sustento vêm de fora e que o que
justifica nossa vida é uma rede autotranscendente sobre a qual consentimos nos suspender.
A postura intelectual solipsista é um traço da rigidez intelectual falida, é
sinal de que a dependência intelectual das coisas e espiritual de Deus ainda é
um “problema” para o indivíduo, que sua entrega emocional e conceitual ainda
está atrofiada.
Becker
condena a transferência, entendida na psicanálise como a tentativa de
exercer controle completo sobre as circunstâncias externas, por ser uma profunda
rebelião contra a realidade. É a alienação da realidade em sua forma bruta,
um tipo de fetiche no qual se ancoram os problemas, uma tentativa de domesticar
o caos. O objeto da transferência recebe poderes transcendentais para que
controle, ordene e combata o universo. A transferência não é apenas um “equívoco
emocional”, mas é a experiência do outro como mundo completo e total,
assim como o lar, para a criança, é seu mundo. O objeto da transferência é maior
do que a vida porque representa a vida inteira e o próprio destino: perder o
objeto da transferência é mais aterrorizante do que perder a própria vida. Eis
o destino da pessoa desamparada: o medo da morte, a fraqueza do ego, redundará
na busca por figuras paternas que, instaladas em pedestais, parecerão exercer poderes
extra-mágicos. Daí explica-se a busca das massas por heróis. A transferência,
portanto, é fruto da covardia ante a vida e a morte. O “além” buscado pelo
indivíduo é o mais próximo possível, o que o limita e escraviza.
O verdadeiro
herói é aquele que alcança a renúncia completa, é aquele que entrega sua vida aos
“poderes superiores”. Segundo Becker, apoiando-se um Otto Rank, G. K.
Chesterton e outros, o homem moderno orgulha-se precisamente de seus traços de
loucura: as minúcias da causa e efeito, os detalhes microscópicos que o alienam
da vida, a recusa em ver-se como criatura. O Cristianismo, embora também
incorra no erro da transferência regressiva aos Padres, continua sendo um ideal
elevado.
Fonte: Ernest Becker, The Denial of
Death, Souvenir Press, Londres, Reino Unido, 2011.
