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27 de novembro de 2020

A vida do Pe. Lazarus Moore



O Pe. Lazarus é amplamente considerado um dos grandes missionários e estudiosos do século XX.

Padre missionário ortodoxo que serviu na Palestina, Transjordânia, Índia, Grécia, Austrália, Califórnia e Alasca, ele traduziu o Saltério, os quatro Evangelhos, a Escada da Ascese Divina, a Arena, o Antigo Livro de Orações de Jordanville, a biografia de São Serafim de Sarov, e inúmeros outros manuscritos e ofícios antes de seu repouso em 1992.

O Pe. Lazarus se chamava Edgar Moore e nasceu em Swindon, Inglaterra, em 18 de outubro de 1902. Aos dezoito anos mudou-se para Alberta, Canadá, e trabalhou como pastor, estivador, trabalhador rural e na ferrovia. Foi no Canadá que o Pe. Lazarus experimentou um profundo despertar espiritual e ouviu “um chamado de Deus” para se tornar missionário.

Com o chamado de Deus em seu coração, Pe. Lazarus voltou para a Inglaterra para estudar no St Augustine’s, um colégio missionário anglicano em Canterbury, Inglaterra, por cinco anos. Ele foi ordenado diácono na Igreja da Inglaterra em 1930 e foi ordenado sacerdote anglicano em 1931.

O Pe. Lazarus se interessou por viagens, e seu processo de conversão o levou para a Índia em 1933, onde se juntou à sanga Christa Seva, uma irmandade anglo-indiana com um ashram em Poona. Os estudos em tradição e história da Igreja o levaram à Terra Santa e ao Monte Athos, onde floresceu seu desejo de abraçar o Cristianismo Ortodoxo.

O Pe. Lázaro entrou em contato com hierarcas russos e visitou a Sérvia, recebido pelo Metropolita Antonio (Khrapovitsky) da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior (ROCOR), que na época estava sediada em Sremsky Karlovsky, perto de Belgrado.

No mosteiro de Milkovo, antes de ser ordenado pelo Arcebispo Feofan em janeiro de 1936 (?) ao sacerdócio, o Pe. Lazarus tornou-se monge. Seu coração e sua mente se aprofundaram na Igreja Ortodoxa e ele foi designado para a Missão Eclesiástica Russa que fica em Jerusalém, no Convento de Santa Maria Madalena, no Getsêmani.

Dois santos mártires, a grã-duquesa Elizabeth Feodorovna da Rússia e sua colega monja Bárbara Yakovleva, estão sepultadas na igreja. O Pe. Lazarus trabalhou em estreita colaboração com as abadessas Maria (Robinson) e Maria (Sprott), também convertidas do anglicanismo. Ele deu aulas em uma escola em Betânia (Palestina), que era mantida pela Missão Eclesiástica Russa. Foi aí que ele completou um primeiro esboço da Vida de São Serafim.

Mas então a guerra estourou.

A batalha e o caos social que se seguiram forçaram o Pe. Lazarus e sua pequena comunidade de Santa Maria fugirem a pé pelo deserto até a Transjordânia.

Após a guerra árabe-israelense de 1948, o recém-fundado Estado de Israel entregou a propriedade do convento ao governo ateu militante da União Soviética, o que acabou por dissolver a missão e o convento.

O Pe. Lazarus então viveu na região da Transjordânia por um ano e em 1952 retornou à Índia, ajudando um grupo de ortodoxos sírios não-calcedonianos em Malabar, sul da Índia, que haviam abordado o Sínodo Russo buscando admissão na Ortodoxia calcedoniana.

O Pe. Lazarus ficou na Índia por mais 20 anos.

Ele ajudou no trabalho missionário, traduzindo vida de santos e ofícios da Igreja, escrevendo e servindo a Deus com todo o seu coração, mente e alma em meio à pobreza, doença e distúrbios políticos e sociais.

Ele transmitiu homilias através do rádio, trabalhando sob condições extremas de calor, ataques de malária e um isolamento incrível. Muito de seu trabalho de tradução do eslavo e grego para o inglês foi concluído e publicado durante essa época, por diversas vezes na revista Orthodox Life, publicada pelo Mosteiro de Jordanville, em Nova York.

Foi nesse mosteiro que o Pe. Lazarus traduziu o Antigo Livro de Orações de Jordanville, a Arena, a Escada da Ascese Divina e vários outros manuscritos. Ele trabalhava com uma velha máquina de escrever manual, vertendo preciosas palavras espirituais página por página. Frequentemente, ele teve de interromper seu trabalho porque a eletricidade acabava.

Como as batinas pretas eram culturalmente ofensivas para os residentes locais, o Pe. Lazarus usava uma batina branca durante esse tempo. E foi durante este período, na Índia, que conheceu Ghandi e a monja Gavrilia, a asceta do amor.

Em 1972, o Pe. Lázaro foi convocado para a Grécia, onde trabalhou e cogitou em se estabelecer para sempre, mas em 1974 foi chamado para servir na Austrália. Aqui, seus esforços durante um período de 8 anos floresceram no que é hoje a próspera e bela Missão Ortodoxa da Santa Cruz.

Durante sua estada na Austrália, o Pe. Lázaro buscou a libertação canônica da diocese russa e foi aceito na jurisdição do Patriarcado de Antioquia.

Em 1983, o Pe. Lázaro recebeu um convite do Pe. Peter Gillquist para viver em meio à Igreja Evangélica Ortodoxa na América para ajudá-los na transição do protestantismo para a Ortodoxia canônica.

O Pe. Lazarus aceitou e, em 1987, milhares de indivíduos foram recebidos na Arquidiocese Ortodoxa de Antioquia. O Pe. Lazarus viveu em Santa Bárbara durante cinco anos, tornando-se um amado ancião e professor da próspera Igreja de Santo Atanásio, onde tocou muitas vidas.

Mas em 1989, sua saúde começou a piorar e ele se mudou para a comunidade da Catedral de São João em Eagle River, Alasca. Aqui, o Pe. Lazarus compartilhou os últimos anos de sua vida ajudando a comunidade de São João na transição para a Ortodoxia.

Em 27 de novembro de 1992, o Pe. Lazarus adormeceu no Senhor. No quarto dia após seu repouso, ele foi enterrado no cemitério da Catedral de São João. Como sinal claro da ressurreição, a paisagem nevada do Alasca foi milagrosamente descongelada para revelar um relvado verde brilhante.

Três águias voavam neste instante.

O Pe. Lazarus nos deixou “viajando com anjos”. Através de seu trabalho como monge, sacerdote, tradutor, professor, amigo e autor, inúmeras almas foram e ainda hoje são nutridas no amor para e por Deus.

Glória a Deus!

Fonte: Fr. Lazarus Moore Foundation

8 de outubro de 2020

Santa Maria Madalena


Às margens do Lago Genesaré (Galiléia), entre as cidades de Cafarnaum e Tiberíades, ficava a pequena cidade de Magdala, cujos vestígios sobreviveram até os nossos dias. Agora, apenas a pequena aldeia de Mejhdel fica no local.

Uma mulher cujo nome entrou para sempre no relato do Evangelho nasceu e cresceu em Magdala. O Evangelho não nos diz nada sobre os anos de juventude de Maria, mas a tradição nos informa que Maria de Magdala era jovem e bonita e levava uma vida pecaminosa. Diz os Evangelhos que o Senhor expulsou sete demônios de Maria (Lucas 8:2). Desde o momento de sua cura, Maria levou uma nova vida e se tornou uma verdadeira discípula do Salvador.

O Evangelho relata que Maria seguiu o Senhor quando Ele foi com os apóstolos pelas cidades e vilas da Judéia e da Galiléia pregando acerca do Reino de Deus. Junto com as piedosas mulheres Joana, esposa de Cusa (mordomo de Herodes), Susana e outras, ela O serviu com suas próprias posses (Lucas 8:1-3) e, sem dúvida, compartilhou com os apóstolos as tarefas evangélicas, em comum com as outras mulheres. O Evangelista Lucas, evidentemente, a tem em vista, juntamente com as outras mulheres, quando afirma que no momento da Procissão de Cristo sobre o Gólgota, quando após o flagelo tomou sobre Si a pesada cruz, desabando sob seu peso, as mulheres o seguiram chorando e lamentando, mas Ele as consolou. O Evangelho relata que Maria Madalena estava presente no Gólgota no momento da crucificação do Senhor. 

Os evangelistas também listam entre os que estão na cruz a mãe do Apóstolo Tiago e Salomé e outras mulheres seguidoras do Senhor da Galiléia, mas todos mencionam Maria Madalena primeiro. São João, além da Mãe de Deus, cita apenas ela e Maria Cleofas. Isso indica o quanto ela se destacou de todas as mulheres que se reuniram em torno do Senhor.

Ela foi fiel a Ele não apenas nos dias de Sua Glória, mas também no momento de Sua extrema humilhação e insulto. Como relata o Evangelista Mateus, ela esteve presente no enterro do Senhor. Diante de seus olhos, José e Nicodemos foram ao sepulcro com Seu corpo sem vida. Ela os viu cobrirem a entrada da caverna com uma grande rocha, sepultando a Fonte da Vida. 

Fiel à Lei em que foi criada, Maria, juntamente com as outras mulheres, passou o dia seguinte em repouso, pois era o grande dia do sábado, coincidindo com a festa da Páscoa. Mas durante todo o resto do dia as mulheres juntaram especiarias para ir ao Túmulo do Senhor na madrugada de domingo e ungir Seu Corpo de acordo com o costume dos judeus. 

É necessário mencionar que, tendo concordado em ir no primeiro dia da semana ao túmulo pela manhã, as santas mulheres não tiveram possibilidade de se encontrar no sábado. Elas foram na sexta-feira à noite a suas respectivas casas. Saíram apenas na madrugada do dia seguinte para ir ao Sepulcro, não todas juntos, mas cada uma de sua casa. 

O Evangelista Mateus escreve que as mulheres iam ao túmulo ao amanhecer, ou como o Evangelista Marcos expressa, muito cedo antes do nascer do sol. O Evangelista João, elaborando sobre isso, diz que Maria veio ao túmulo tão cedo que ainda estava escuro. Obviamente, ela esperou impacientemente pelo fim da noite, mas ainda não amanhecera. Ela correu para o lugar onde estava o Corpo do Senhor.a

Maria foi ao túmulo sozinha. Vendo a pedra empurrada para longe da caverna, ela fugiu, com medo, para contar aos apóstolos mais próximos de Cristo, Pedro e João. Ouvindo a estranha mensagem de que o Senhor havia saído do túmulo, os dois apóstolos correram para o túmulo e, vendo a mortalha e os panos enrolados, ficaram maravilhados. Eles saíram dali e não disseram nada a ninguém, mas Maria voltou ao túmulo e ficou perto da sua entrada e chorou. Aqui, neste túmulo escuro, há pouco jazia seu Senhor sem vida.u

Querendo uma prova de que a tumba estava realmente vazia, ela desceu e viu uma cena estranha. Ela viu dois anjos em vestes brancas, um sentado na cabeça, o outro aos pés, onde o Corpo de Jesus havia sido colocado. Eles perguntaram a ela: "Mulher, por que choras?" Ela respondeu-lhes com as palavras que dissera aos apóstolos: “Eles levaram o meu Senhor, e não sei onde O puseram”. Naquele momento, ela se virou e viu Jesus Ressuscitado perto do túmulo, mas ela não o reconheceu.

Ele perguntou a Maria: “Mulher, por que choras? A quem procuras? " Ela respondeu pensando que estava vendo o jardineiro: “Senhor, se tu o levaste, diga onde o puseste, e eu o levarei embora”. 

Então ela reconheceu a voz do Senhor. Esta foi a voz que ela ouviu naqueles dias e anos, quando ela seguia ao Senhor por todas as cidades e lugares onde Ele pregava. Ele falou o nome dela, e ela deu um grito de alegria: “Rabino” (Mestre).

Respeito e amor, carinho e profunda veneração, um sentimento de gratidão e reconhecimento por Seu Esplendor como grande Mestre, tudo se reuniu neste único clamor. Ela não pôde dizer mais nada e se jogou aos pés de seu Mestre para lavá-los com lágrimas de alegria. Mas o Senhor disse-lhe: “Não me toque; pois ainda não subi para Meu Pai; mas vá a Meus irmãos e diga-lhes: 'Subo para Meu Pai e vosso Pai; ao meu Deus e ao seu Deus. '”

Ela voltou a si e novamente correu para os apóstolos, para fazer a vontade daquele que a enviou para pregar. Novamente ela correu para a casa onde os apóstolos ainda permaneciam consternados, e proclamou a eles a alegre mensagem: "Eu vi o Senhor!" Esta foi a primeira pregação no mundo sobre a Ressurreição.

Os apóstolos proclamaram as boas novas ao mundo, mas ela as proclamou aos próprios apóstolos.

A Sagrada Escritura não nos fala sobre a vida de Maria Madalena após a Ressurreição de Cristo, mas é impossível duvidar que, se nos terríveis minutos da Crucificação de Cristo ela estava aos pés de Sua Cruz com Sua Santa e Pura Mãe e com São João, ela não tivesse ficado com eles durante a época mais feliz após a Ressurreição e Ascensão de Cristo. Assim, nos Atos dos Apóstolos, São Lucas escreve que todos os apóstolos, com o mesmo pensamento, permaneceram em oração e súplicas, com algumas mulheres e Maria, a Mãe de Jesus e seus irmãos. 

A tradição testifica que quando os apóstolos partiram de Jerusalém para pregar aos confins da terra, Maria Madalena também foi com eles. Mulher ousada, cujo coração estava repleto de reminiscências da Ressurreição, ela ultrapassou as fronteiras de sua terra natal e foi pregar na Roma pagã. Em todos os lugares ela proclamou às pessoas sobre Cristo e Sua doutrina. Quando muitos não acreditaram que Cristo ressuscitou, ela repetiu para eles o que havia dito aos apóstolos na radiante manhã da Ressurreição: “Eu vi o Senhor!” Com esta mensagem ela viajou por toda a Itália.

A tradição relata que, na Itália, Maria Madalena visitou o Imperador Tiberíades (14-37 d.C.) e proclamou a Ressurreição de Cristo. Segundo a tradição, ela trouxe para ele um ovo vermelho como símbolo da Ressurreição, um símbolo de uma nova vida, com as palavras: “Cristo ressuscitou!” Em seguida, ela disse ao imperador que em sua província da Judéia o injustamente condenado Jesus, o Galileu, um homem santo, fazedor de milagres, poderoso diante de Deus e de toda a humanidade, havia sido executado por instigação dos sumos sacerdotes judeus, e a sentença confirmada pelo procurador nomeado por Tiberíades, Pôncio Pilatos.

Maria repetiu as palavras dos apóstolos, que somos resgatados da vaidade da vida não com prata ou ouro perecíveis, mas pelo precioso Sangue de Cristo.

Graças a Maria Madalena, o costume de dar uns aos outros ovos pascais no dia da Ressurreição de Cristo se espalhou entre os cristãos de todo o mundo. Em um antigo manuscrito grego, escrito em pergaminho, mantido na biblioteca do mosteiro de Santo Atanásio, perto de Tessalônica, há uma oração lida no dia da Santa Páscoa pela bênção de ovos e queijo. Nela está indicado que o hegúmeno, ao distribuir os ovos bentos, diz aos irmãos: “Assim recebemos dos Santos Padres, que preservaram este costume desde o tempo dos Santos Apóstolos, porquanto a Santa Igual-aos-Apóstolos Maria Madalena foi a primeira a mostrar aos crentes o exemplo desta oferta alegre. ”

Maria Madalena continuou sua pregação na Itália e na própria cidade de Roma. Evidentemente, o Apóstolo Paulo a tem em mente em sua epístola aos Romanos (16:6), onde junto com outros ascetas da pregação evangélica ele menciona Maria (Mariam), que, segundo ele, “trabalhou muito por nós”. Evidentemente, ela serviu intensamente à Igreja em seus meios de subsistência e em suas dificuldades, estando exposta aos perigos e compartilhando com os apóstolos os trabalhos da pregação.

De acordo com a tradição da Igreja, ela permaneceu em Roma até a chegada do Apóstolo Paulo, e por mais dois anos após sua partida de Roma, após o primeiro julgamento do tribunal sobre ele. De Roma, Santa Maria Madalena, já curvada pela idade, mudou-se para Éfeso, onde o Santo Apóstolo João trabalhou sem cessar. Lá a santa terminou sua vida terrena e foi sepultada.

Suas sagradas relíquias foram transferidas no século IX para Constantinopla e colocadas no mosteiro da Igreja de São Lázaro. Na época das campanhas dos cruzados, eles foram transferidos para a Itália e colocados em Roma sob o altar da Catedral de Latrão. Parte das relíquias de Maria Madalena estão em Provage, França, perto de Marselha, onde, no sopé de uma montanha íngreme, uma esplêndida igreja foi construída em sua homenagem.

A Igreja Ortodoxa homenageia a sagrada memória de Santa Maria Madalena, a mulher chamada pelo próprio Senhor das trevas à luz, e do poder de Satanás a Deus.

Anteriormente imersa no pecado e tendo recebido cura, ela sincera e irrevogavelmente começou uma nova vida e nunca vacilou nesse caminho. Maria amou o Senhor que a chamou para uma nova vida. Ela foi fiel a Ele não apenas quando Ele estava cercado por multidões entusiasmadas e ganhando reconhecimento como um taumaturgo, mas também quando todos os discípulos O abandonaram com medo enquanto Ele, humilhado e crucificado, estava pendurado em tormento na Cruz. É por isso que o Senhor, conhecendo sua fidelidade, apareceu primeiro a ela e a considerou digna de ser a primeira a proclamar Sua Ressurreição.

Fonte

15 de dezembro de 2019

Santa Elizabeth, a Nova Mártir



Vim a conhecer um dos lados desta vida graças às minhas antigas responsabilidades. Isto é o que se chama “sociedade”. Fiz o que pude por essas pessoas. Talvez eu tenha cumprido mal minhas responsabilidades. Tentei ajudar meu marido em sua vida e nestas reponsabilidades que ele cumpria (a ribalta, as celebrações...). Eu sinceramente acreditava que deveria ajudá-lo, e fiz tudo isso com alegria, com o sentimento de que estava levando felicidade aos outros; todos gostavam dos nossos encontros. Ali eu via muitos rostos felizes. Você acha que eu quero julgar a sociedade ou que já a estou julgando? Mesmo antes eu já observava que as pessoas ricas, jovens, ambiciosas, essas que pensam só em divertimentos, não sofrem, ou, quando sofrem, como é difícil consolá-las – esta genuflexão ante o bezerro dourado, ante sua própria persona – que sofrimento tão obscuro e impenetrável!

* * *

O Senhor conhece nossas fraquezas, mas também nossos talentos. E dá a cada um de acordo com suas habilidades (Mateus 25:15). Recordemos a parábola dos talentos de Mateus, capítulo 25, e como Ele foi rigoroso, Ele que é sempre tão misericordioso, e castigou o servo, que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade... E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá (Lucas 12:47-48).

Que assustador lembrar-se destas palavras! Humilhando-nos e batendo forte em nosso peito, dizemos "Deus, tem piedade de nós, pecadores".

O Senhor, porém, encara os pecados humanos de maneira diferente. Por esse motivo, grandes combatentes e santos, que a nós parecem sem pecado, choravam por eles. Quanto mais nos aproximamos do Sol (Deus), mais evidentes se tornam as manchas, e eis porque os pecados são relativos a cada pessoa Ninguém se atreveria a dizer “este ladrão é pior do que eu”. Falar ou mesmo pensar uma coisa dessas é muito pecaminoso. O orgulho é a arma do diabo, mas a humildade pertence a Deus: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. (Tiago 4:6)

* * *

Elizabeth Feodorovna não sentia nenhuma raiva das massas revolucionárias. Ela dizia com grande gentileza: “As pessoas são como crianças; elas não são culpadas pelo que está acontecendo...elas são iludidas pelos inimigos da Rússia”.

* * *

A tesoureira do convento, sra. Gordeyeva, tinha medo que elementos criminosos invadissem o convento. Ela pedia à abadessa para que os portões fossem mantidos fechados todo o tempo, mas Elizabeth não temia a ninguém. Ela sempre tentava encontrar traços positivos em todos, até mesmo nos criminosos, acreditando que o bem em uma alma humana pode sobrepujar suas tendências malignas.

* * *

Um dia, um grupo de rebeldes – alguns bêbados, alguns ex-presidiários – entraram no convento. Sua conduta era insolente, sua linguagem, obscena. Um deles, vestido de uniforme cáqui, notou a presença da Grã-Duquesa e se dirigiu até ela aos berros, dizendo qu, embora ela outrora fosse “Sua Alteza”, agora quem era ela? Elizabeth Feodorovna calmamente respondeu que ela estava aqui para servir ao povo. O homem exigiu que ela cuidasse de sua ferida, um abscesso purulento na virilha.

Ela o fez sentar-se em uma cadeira e, ajoelhando-se diante dele, a Grã-Duquesa aplicou-lhe uma medicação e vestiu sua ferida. Ela então lhe pediu que voltasse no dia seguinte para uma nova limpeza, alertando que, se não o fizesse, uma gangrena poderia formar-se ali. O homem ficou chocado. Novamente, ele lhe perguntou quem era ela. A nobre abadessa simplesmente repetiu sua resposta anterior, que ela estava aqui para servir ao povo. O agora subjugado grupo, empurrando um ao outro e olhando furtivamente por detrás de si, saiu pelos portões do convento, deixando as irmãs em estado de grande agitação. Elas estavam aterrorizadas. Elizabeth as interrompeu, lembrando-lhes que o Senhor as estava vigiando para que nada de mal se lhes acometesse que não fosse de Sua vontade.

Nestes tempos sua alma estava em constante comunhão com Deus por meio da Oração de Jesus – seja tratando de feridas, seja preparando seu prato de salada, seja confortando um paciente em seu leito. Neste estado, sua mente se encontrava num estado repulsivo a qualquer expressão de angústia ou medo. Ela sabia que, devota e obediente a Deus, seguia os passos do Senhor; o que quer que viesse ela aceitaria com serenidade e submissão. Nisto ela se assemelhava aos mártires dos primeiros séculos do Cristianismo. A esta altura ela já estava recuperada do choque da abdicação do czar. As lágrimas que derramava à noite, rezando ante os ícones, não eram mais de amargura e desespero, mas eram lágrimas de tristeza ante o destino da Rússia e sua família imperial.

A Grã-Duquesa era dotada de um autocontrole impressionante. Conforme relata o Arcebispo Anastácio: “Parece que ela se encontrava como no alto de um inacessível penhasco e, dali, ignorando os ventos tormentosos do entorno, mentalmente mantinha seu olhar firme na distante eternidade”. Esta característica é muito bem ilustrada por um incidente descrito no volume I do livro Os Novos Mártires da Rússia, do Protopresbítero Michael Polsky.

Certa manhã, dois caminhões de revolucionários chegaram no convento. Fitas vermelhas no peito e carregando faixas da Revolução, os homens adentraram os portões, os quais haviam sido pessoalmente abertos pela abadessa. Um grupo menor – cigarros pendurados nos lábios, capas por sobre as cabeças, rifles pendurados nos ombros – anunciaram que estavam ali para buscar, prender e julgar a abadessa como espiã alemã; o convento teria de ser revistado e todas as armas confiscadas.

Com grande tranquilidade, vêa Grã-Duquesa respondeu: “Entrem, revistem tudo, mas apenas cinco de vocês podem entrar”.

Os revolucionários insistiam que ela teria de deixar o convento com eles, mas ela lhes explicou que, enquanto Madre Superior, não poderia deixar sem dar algumas instruções e despedir-se de suas irmãs. Após uma rápida confabulação em cochichos, os homens concordaram.

Elizabeth reuniu todas as irmãs na igreja do convento e pediu ao Padre Mitrofan que oficiasse. Enquanto ele se paramentava, as lâmpadas e velas dos ícones foram acesas. A nobre Madre Superior, enquanto isso, lembrava-lhes às suas irmãs a mensagem do Evangelho: E de todos sereis odiados por causa do Meu Nome... Na vossa paciência possuí as vossas almas. (Lucas 21:17, 19). Voltando-se aos revolucionários, ela os convidou para deixarem suas armas à porta e juntarem-se a todos na igreja. Com relutância, eles tiraram suas armas e entraram.

Ao longo de todo o ofício a Grã-Duquesa ficou de joelhos. Ao final, ela venerou a Cruz sustentada pelo padre, e os revolucionários, como que subjugados pelo desenrolar dos eventos, fizeram o mesmo. Elizabeth anunciou então que o Padre Mitrofan os acompanharia por todos os aposentos do convento.

Após a revista, que provou-se infrutífera, os homens, envergonhados, saíram para encarar a ruidosa multidão que cantava a “Internationale” e a “Marseillaise”. Eles disseram às massas: “Isto é um convento e nada mais”. A multidão ficou desapontada; eles esperavam ver a Grã-Duquesa e suas armas arrastadas por detrás dela. A medida que se afastavam os caminhões, Elizabeth Feodorovna persignou-se e disse às irmãs: “Parece que ainda não somos dignas da coroa dos mártires”. Com efeito, a coroa dos mártires logo seria sua.

* * *

Se observamos profundamente a vida de cada ser humano descobriremos que ela está cheia de milagres. Você dirá, “De terror e morte também”. Sim, disso também. Não sabemos muito bem por que o sangue destas vítimas precisa ser vertido. Lá, nos céus, eles entendem tudo e, sem dúvida, encontraram calma na Verdadeira Terra Natal – um Lar Celestial.

Nós aqui na terra temos que mirar este Lar Celestial com compreensão e dizer com resignação: “Que seja feita a Tua vontade”. Completamente destruída está a “Grande Rússia sem temor e repreensão”, mas a “Santa Rússia”, a Igreja Ortodoxa, a Igreja contra a qual “as portas do inferno não prevalecerão”, existe e existe como nunca antes, e aqueles que creem, que não duvidam, portam um “sol interior” que ilumina as trevas da tempestade trovejante.

Fonte: Lubov Millar, Grand Duchess Elizabeth of Russia, Nikodemos Orthodox Publication Society, Richfield Springs, NY, EUA, 2009.

28 de dezembro de 2017

São Justino, o Filósofo




Antes de sua conversão, Justino (+165) era um proeminente acadêmico. Ao estudar as escolas modernas de filosofia – estoicos, pitagóricos entre outros – deteve-se no neoplatonismo, cuja filosofia supostamente percebia a Divindade. Porém esta filosofia tampouco o satisfez. Foi então que interessou-se pelo Cristianismo. As acusações que os pagãos lançavam contra o Cristianismo nas quais em princípio ele acreditava provaram ser meras calúnias, enquanto os cristãos morriam tão corajosamente por sua fé. E eis que nesta época, exatamente quando despertava em Justino uma simpatia pelo Cristianismo perseguido, ele encontrou por acaso, à beira-mar, um mestre cristão – um ancião – cuja conversa influenciou sua decisão em converter-se ao Cristianismo. A conversa com o ancião foi longa, e sua substância foi puramente filosófica. Citaremos aqui apenas os momentos mais marcantes para Justino.

Eis como tudo aconteceu. Um dia, Justino, que vivia em uma cidade próxima ao mar (provavelmente Éfeso), estando ocupado na ocasião com pensamentos e questões sérias, saiu para caminhar em uma campina não muito distante da costa a fim de entregar-se às suas reflexões em solidão. Ele queria ficar a sós com seus pensamentos, mas conforme vagueava à beira-mar, notou que estava sendo seguido por um velho desconhecido, muito belo, que portava-se de maneira majestosa. Surpreso, Justino olhou em torno e, de maneira um tanto suspeitosa, fitou-lhe os olhos.

“Você me conhece?”, perguntou de repente o velho a Justino.

“Não”, respondeu Justino.

“Então por que você está olhando para mim?”

“Não esperava encontrar alguém aqui neste lugar quieto e tranquilo”, respondeu Justino.

Após estas palavras iniciais, travou-se uma conversa entre ambos. E esta conversa versou sobre questões filosóficas.

“Diga-me”, perguntou o velho a Justino a certa altura da conversa, “o que é filosofia e no que consiste sua felicidade?”

“A filosofia”, respondeu Justino, “é o entendimento de tudo o que existe e o conhecimento da verdade; a felicidade transmitida pela filosofia consiste na posse deste entendimento”.

Observe que o pagão Justino, o Filósofo, em essência disse exatamente a mesma coisa que encontramos hoje nos livros de nossa intelligentsia. Notamos que nada mudou nestas definições ao longo dos últimos dezoito séculos. A mente filosófica inquisitiva, naqueles tempos bem como hoje, encontram a felicidade no conhecimento. Todavia, o coração cristão, conforme aprendemos na Philokalia e na vida de Serafim de Sarov, encontra a felicidade antes de tudo na aquisição do Espírito Santo. E o conhecimento surge apenas depois, em função da consecução deste objetivo principal.

Bem, retornemos à conversa de Justino com o ancião cristão. Da filosofia o assunto da conversa mudou para o entendimento da Divindade, e eis que lhe pergunta o ancião a Justino: “Como podem seus filósofos helênicos raciocinarem corretamente acerca de Deus e afirmarem alguma verdade a Seu respeito se eles nunca viram a Deus, nunca ouviram a Deus e, portanto, nunca obtiveram conhecimento algum acerca dEle?”

Respondeu Justino: “O poder da Divindade não é visto com os olhos corporais. . . . Somente com a mente pode-se perceber a Deus. É isto o que ensina Platão, a cujos ensinamentos eu sigo”.

Dizendo isso, Justino foi levado por este assunto tão interessante. Ele começou a desenvolver perante o ancião a explicação de como, segundo a doutrina de Platão, a Divindade é percebida. Por fim, o ancião asseverou a Justino: “A mente do homem, se não for dirigida pelo Espírito Santo e iluminada pela fé (isto é, se não adquirir o Espírito Santo), é totalmente incapaz de conhecer e entender a Deus”.

E eis que o ancião começou a falar-lhe sobre o Espírito Santo, sobre o Salvador do mundo, sobre os profetas; e assim concluiu sua dissertação: “Em primeiro lugar, reze diligentemente ao Deus verdadeiro para que Ele lhe abra as portas da luz, pois somente aquele a quem o próprio Deus considerou digno de revelação pode contemplar e entender as coisas divinas; e Ele abre a todos que buscam a Ele em oração e dEle se aproximam com amor”. Dito isto, o ancião partiu.

Justino foi deixado a sós à beira-mar com seus pensamentos. Nunca mais encontraria o ancião, mas as palavras do ancião muito impressionaram ao filósofo. Justino expressou os sentimentos da ocasião desta forma:

“Uma espécie de chama explodiu dentro de mim, inflamando minha alma a esforçar-se em busca de Deus e aumentando em mim o amor pelo santos profetas e pelos amigos de Cristo. Ao ponderar sobre as palavras do [ancião], dei-me conta que a filosofia proclamada por ele era a única verdade; comecei então a ler os livros dos profetas e apóstolos e a partir daí tornei-me um verdadeiro filósofo, ou seja, uma verdadeiro cristão.”

Contudo, Justino só pôde ser tocado pelas palavras do mestre cristão porque seu coração já estava próximo de sentir a Deus. A razão superior de Justino, apesar de sua vida pagã, não estava completamente sufocada. O instinto desta razão foi despertado pelas inspiradoras palavras do ancião.

Fonte: Mitrofan Lodyzhensky, Light Invisible, Holy Trinity Publications, Jordanville, NY, EUA, 2011. Pág. 107-109. Trechos selecionados.

25 de julho de 2016

Hino de Louvor a Santa Julia


A Mártir Julia,
Por ela Cristo foi crucificado,
O poder de Cristo ela invoca,
O poder no Honorável Madeiro.

Sangue foi derramado de seis feridas,
Com sangue a terra manchou,
Pois em Cristo ela cria
Sua fé ela não ocultou.

Nem Cristo a ocultou,
Ao mundo inteiro a proclamou,
E no Reino Imortal
No céu, a glorificou.

Quando Julia faleceu
Seu espírito, puro e santo,
De sua boca uma pomba branca
Às alturas ascendeu.

Quando os homens a isto viram
Todos tementes clamaram:
"Ai dos juízes malignos"
Aquele sangue justo eles verteram.

Fonte: St. Nicholas Velimirovich, The Prologues from Ochrid.

Imagem: Gabriel von Max, "Santa Julia, Mártir Crucificada", 1866.

16 de dezembro de 2010

Santa Julia, Virgem e Mártir


Julia nasceu em Cartago [na atual Tunísia], de família nobre. Quando os persas tomaram Cartago, muitas pessoas foram escravizadas. Santa Julia foi capturada, escravizada e entregue a um mercador sírio, que era pagão. Percebendo que Julia era cristã, tentou convencê-la por diversas vezes a negar o Cristo e juntar-se ao paganismo, mas Julia jamais concordaria com suas propostas. Porém, como Julia era confiável e muito leal em seu serviço, o mercador resolveu deixá-la em paz e não mais falar-lhe sobre questões de fé.

Um dia, o mercador resolveu carregar seu barco com produtos e, tomando Julia consigo, navegou por terras distantes para fazer negócios. Quando chegaram na Córsega, havia ali uma grande festa pagã. O mercador juntou-se à festa e começou a fazer oferendas blasfemas. Julia permaneceu no barco, e chorava muito, pois muitos homens viviam em erros tolos e não conheciam a verdade.

De alguma maneira, os pagãos ficaram sabendo de Julia e a removeram do barco, apesar de seu mestre não ter concordado com isto. Eles começaram a torturá-la. Eles cortaram seus seios fora e atiraram-na em uma rocha. Depois, crucificaram-na em uma cruz na qual Santa Julia entregou sua alma a Deus.

A morte de Santa Julia foi revelada por um anjo aos monges de uma ilha próxima, chamada de Margarita ou Górgona. Os monges foram até o local e solenemente enterraram o corpo da mártir. Muitos milagres ocorreram na sepultura de Santa Julia ao longo dos séculos, sendo que ela apareceu em pessoa a algumas pessoas. Ela repousou no Senhor no século VI.

Muitos anos depois, os fiéis tiveram a idéia de construir uma nova igreja em outro local a fim de honrar Santa Julia, já que a velha igreja era muito pequena e encontrava-se deteriorada. Assim, eles arregimentaram todo o material necessário, como pedras, tijolos, areia e tudo o mais. Ocorreu que, naquela noite, na véspera do dia em que pretendiam assentar os primeiros tijolos, todo o material foi movido por uma mão invisível para a velha igreja. Confusos, os homens carregaram todo o material de volta para o local da nova igreja, mas a mesma coisa aconteceu outra vez: o material foi deslocado para o terreno da velha igreja. O vigia noturno viu uma jovem senhorita "toda incandescente", em gado branco, carregando o material para a velha igreja. Foi então que todos entenderam que Santa Julia não desejava que a igreja fosse construída em outro local. Assim, os fiéis demoliram a velha igreja e construíram uma nova igreja exatamente no mesmo lugar.

Fonte: São Nicolau Velimirovich, Os Prólogos de Ochrid, 29 de julho.

* * *


Durante a tomada de Cartago [na atual Tunísia], uma menina cristã de nome Julia foi escravizada e vendida a um mercador pagão, que levou-a consigo à Palestina. Embora estivesse cercada por idólatras, a menina manteve-se apegada aos padrões nos quais havia sido criada, preservando assim sua fé no Cristo. Ela cumpriu com afinco tudo o que lhe era exigido e manteve-se fiel a seu senhor, cumprindo a injunção do Apóstolo: Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne... Servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens (Efésios 6:5,7).

Embora Julia fosse mansa e obediente, não havia como persuadi-la a fazer algo contra os mandamentos do Cristo. Por diversas vezes o mercador tentou convencê-la a abandonar a fé cristã e viver à maneira dos pagãos. Mas Julia preferia morrer a ter de negar o Cristo. O mercador enraiveceu-se e tentou matá-la; porém, percebendo o quanto ela era fiel e obediente, finalmente deixou-a em paz. Ele espantava-se com sua mansidão, sua paciência, sua natureza laboriosa. Ao tornar-se adulta, o mercador confiou-lhe importantes questões comerciais. Após os longos e duros dias de trabalho, Julia ficava feliz por ocupar-se de orações e leituras espirituais.

Julia ainda estava na faixa dos 20 anos de idade quando seu senhor a fez acompanhá-lo em uma jornada de negócios. No meio do caminho, seu barco fez uma parada na ilha mediterrânea de Córsega. Lá ainda haviam muito idólatras. Perto da orla, ao avistar um grupo de pessoas que estavam oferecendo sacrifícios a deuses pagãos, o mercador desejou juntar-se a eles. Ele saiu do barco, juntamente com todos os que estavam a bordo -- todos, menos Julia. Ela ficou para trás, no barco, lamentando-se profundamente das almas perdidas dos pagãos.

Durante a ausência do mercador, alguns habitantes da ilha entraram no barco. Ao avistarem Julia e descobrirem que era cristã, correram para avisar o líder, o qual disse ao mercador: "Por que nem todos os seus servos vieram honrar os deuses?"

"Todos estão aqui", disse o mercador.

"Então por que me disseram que há em seu barco uma mulher que se recusa a curvar-se perante os deuses?"

"Minha serva Julia?", perguntou o mercador. "Não há como convencê-la a afastar-se das ilusões da religião cristã. Eu mesmo tentei de várias formas; tentei com doçura, tentei com ameaças, e a teria matado há muito tempo não fosse o fato de ela ser tão fiel a mim, tão laboriosa".

"Ela tem de curvar-se aos deuses", disse o líder pagão. "Se tu quiseres, comprarei ela de ti e a forçarei a honrar nossos deuses".

"Pois eu lhe digo que ela preferiria morrer a abandonar sua fé, além de que me recuso a vendê-la. Todas os seus bens nem mesmo começariam a compensar os serviços dela".

Furioso, o líder pagão decidiu que traria a criada cristã a todo custo e a forçaria a oferecer sacrifícios aos deuses. Ele embriagou o mercador e, enquanto ele dormia, mandou buscar Julia,

"Faça um sacrifício aos deuses", ordenou-lhe, "e eu comprarei tua liberdade de teu senhor".

"Minha liberdade reside no trabalho a Cristo e em servir-Lhe de consciência limpa", respondeu a mulher. "Não posso juntar-me à tua fraude".

O líder ordenou que lhe batessem. Ela aguentou tudo calada, dizendo em seguida: "Por minha causa Cristo sofreu murros e cusparadas. Estou pronta para sofrer por Ele".

Julia foi sujeita a todo sorte de torturas; arrancaram-lhe os cabelos, bateram-na severamente e sem dó, mas ela permaneceu impávida.

"Confesso Aquele que por minha causa foi esmurrado, coroado com espinhos e crucificado na Cruz. Eu sou Sua serva e estou pronta para compartilhar de Seus sofrimentos", disse a jovem com coragem.

Após longas e cruéis torturas, Julia foi crucificada em uma cruz.

Ao acordar, o mercador descobriu o que tinha acontecido e entristeceu-se profundamente; mas nada mais podia ser feito, pois o último sopro de vida já havia sido dado por sua serva. Quando sua santa alma partiu para o Senhor, várias pessoas que ali estavam viram uma pomba branca como a neve sair de sua boca; outros viram anjos que circundavam a virgem e mártir. Aterrorizados, eles saírem correndo, deixando o corpo pendurado na cruz. Naquela mesma noite, tudo o que havia acontecido foi revelado em sonhos a alguns monges de uma olha vizinha. Eles foram encarregados de buscar o corpo e dar-lhe um enterro digno. Foi o que fizeram. Mais tarde, uma igreja foi construída exatamente no local onde a santa mártir havia sofrido. Daquele dia em diante, muitos cristãos têm honrado a memória de Santa Julia, a qual o próprio Senhor a tem glorificado com milagres.

Fonte: Vidas de Santos, compilado por A. N. Bakhmetova, Moscou, 1872.

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Tropário (tom 4)

Tua cordeira Julia, ó Jesus, em prantos clama a Ti em alta voz: "Meu Noivo, aspiro por Ti e em torturas busco a Ti. Sou crucificada e sepultada contigo em meu Batismo, e por Ti sofro até que eu reine contigo. Morro por Ti para que viva em Ti". Recebe aquela que como um sacrifício sem mácula foi violentada por Tua causa. Pelas suas intercessões, pois Tu és misericordioso, salva nossas almas.

4 de setembro de 2010

Ícone da Mãe de Deus de Vladimir


O Ícone da Mãe de Deus de Vladimir foi escrito pelo Apóstolo Lucas numa prancha sobre a qual o Salvador alimentou-se, juntamente com Sua Puríssima Mãe e com o Justo José. A Mãe de Deus, ao contemplar a imagem, exclamou: "De agora em diante, todas as gerações me chamarão de abençoada. Que a graça do meu Filho e a minha esteja com este ícone". Em 1131, o ícone foi enviado de Constantinopla para Rus´, aos cuidados do Príncipe Mstislav (+1132, comemorado em 15 de abril), tendo sido guardado no Mosteiro Devichi, em Vyshgorod, a antiga cidade da Princesa Santa Olga, a Igual-aos-Apóstolos.

O filho de Yuri Dolgoruky, Santo André Bogoliubsky, levou o ícone à cidade de Vladimir, em 1155, guardando-o na famosa Catedral da Dormição, que fora contruída por ele mesmo. Foi nesta época que o ícone ganhou o epíteto de "Ícone de Vladimir". Em 1395, o ícone foi levado pela primeira vez a Moscou. Dessa maneira, a bênção da Mãe de Deus uniu em laços espirituais Bizâncio e Rus´, via Kiev, Vladimir e Moscou.

A comemoração do Ícone da Mãe de Deus de Vladimir acontece várias vezes ao longo do ano (21 de maio, 23 de junho e 26 de agosto). A celebração mais solene é a de 26 de agosto, que é o dia marcado para comemorar a transferência do ícone da cidade de Vladimir para Moscou. Em 1395, o temível conquistador Khan Tamerlane alcançou as fronteiras de Ryaza, tomou a cidade de Elets e, avançando em direção a Moscou, chegou nas proximidades do Rio Don. O Grão-Príncipe Vasilii Dimitrievich acompanhou seu exército a Koloma, pousando às margend do Rio Oka. Ele rezou aos santos hierarcas de Moscou e ao Monge Sérgio pela libertação da terra-natal, e escreveu ao Metropolita de Moscou, São Cipriano (comemorado em 16 de semtembro) para que o Jejum da Dormição, que estava próximo, fosse dedicado a orações piedosas por misericórdia e arrependimento. Sacerdotes foram enviados a Vladimir, onde se encontrava o famoso Ícone de Vladimir. Após a Divina Liturgia e o molieben da festa da Dormição, os sacerdotes levaram o ícone em procissão até Moscou. Ao longo do percurso, os dois lados da estrada estavam abarrotados de pessoas que, ajoelhadas, rezavam: "Ó Mãe de Deus, salve a Rússia!" Nesta mesma hora, quando a população de Moscou saiu ao encontro do Ícone de Vladimir no Campo Kuchkov, Tamerlane estava dormindo em sua tenda. De repente, ele teve um sonho: no topo de uma grande montanha se encontravam santos hierarcas que portavam bastões dourados, e sobre eles, em uma luz incrivelmente radiante, brilhava uma Mulher Majestosa. Ela lhe ordenou que deixasse os domínios da Rússia. Ao acordar, muito assustado, Tamerlane perguntou qual era o significado daquela aparição. Os especialistas lhe disseram que a Senhora Radiante era a Mãe de Deus, a grande Protetora dos cristãos. Tamerlane ordenou que suas tropas dessem meia-volta. Em memória a este libertação miraculosa, que ocorreu no Campo Kuchkov, onde se deu o Encontro da Ícone da Mãe de Deus de Vladimir, foi construído o Mosteiro do Encontro (Sretensky). O dia 26 de agosto foi escolhido como o dia em que os russos celebram o encontro do Ícone da Mãe de Deus de Vladimir.

Muitos eventos importantes ocorreram em frente do Ícone da Mãe de Deus de Vladimir: a eleição e elevação de São Jonas, o defensor da autocefalia da Igreja Ortodoxa Russa (1448), de São Jó, primeiro patriarca de Moscou e Toda-a-Rússia (1589) e do Patriarca Ticônio (1917). Além disso, o entronamento de Sua Santidade Pímen, Patriarca de Moscou e Toda-a-Rússia, ocorreu exatamente em um dia em que se celebra o Ícone da Mãe de Deus de Vladimir (21 de maio/3 de junho de 1971).

Os dias 21 de maio, 23 de junho e 26 de agosto tornaram-se, portanto, dias muito especiais para a Igreja Ortodoxa, em especial para a Igreja Ortodoxa Russa.

12 de julho de 2010

Santa Eufêmia, a Megalomártir


A grande mártir Santa Eufêmia (comemorada em 16/29 de setembro) sofreu o martírio na cidade de Calcedônia, no ano 304, sob a perseguição movida contra os cristãos pelo imperador Diocleciano (284-305), e um século e meio depois sua intervenção miraculosa se fez sentir no IV Concílio Ecumênico de Calcedônia, em 16 de julho de 451. As reuniões deste Concílio se realizaram na igreja em que repousavam as relíquias da santa, e a questão tratada era a heresia monofisita, que afirmava haver uma só natureza em Jesus Cristo, a divina, contra o ensino da doutrina ortodoxa, que afirmava a dupla natureza, humana e divina, do Senhor. Após longos debates não se chegou a um consenso. O santo Patriarca de Constantinopla, Anatólio, propôs, então, que se recorresse à intercessão da santa mártir, cujas relíquias ali estavam. Cada grupo escreveu sua confissão de fé e, aberto o túmulo de Santa Eufêmia, as depositaram sobre os restos mortais da santa, que foi lacrado e guardado por ordem do imperador Marciano, e durante três dias todos se dedicaram à oração e ao jejum. Findo esse período de tempo o túmulo foi reaberto na presença do Patriarca e do imperador e de membros do seu conselho, e encontraram o texto com a profissão de fé ortodoxa (das duas naturezas) na mão direita de Santa Eufêmia, o outro texto (da heresia monofisita) estava a seus pés. Após esse milagre muitos passaram a crer na dupla natureza de Cristo, e os que permaneceram na heresia foram excomungados. As relíquias da santa foram, posteriormente, trasladadas para Constantinopla, para uma igreja recém construída e a ela dedicada.

Fonte: Boletim litúrgico de 11 de julho de 2010 da Catedral Ortodoxa Antioquina de São Paulo

17 de maio de 2010

O santo cristão e o filósofo pagão


Quando São Teodoro, o Santificado, estava em Panópolis com seu pai espiritual, São Pacômio, um filósofo se lhe aproximou desafiando-o para um debate sobre a fé. O filósofo lançou a Teodoro três perguntas: "Quem não nasceu e morreu?", "Quem nasceu e não morreu?", "Quem morreu e não se desintegrou?" A essas perguntas, São Teodoro respondeu: "Adão não nasceu e morreu. Enoque nasceu e não morreu. A esposa de Lot morreu e não se desintegrou". Dito isto, o santo deu ao filósofo um conselho: "Presta atenção a este sábio conselho: afasta-te dessas questões inúteis e dos silogismos escolásticos; aproxima-te do Cristo ao qual nós servimos e tu receberás perdão dos pecados". O filósofo quedou-se mudo diante de tão incisiva resposta e, envergonhado, partiu. Esta história mostra a enorme diferença entre um filósofo pagão e um santo cristão. Aquele [o filósofo] perde-se em abstrações, em palavras engenhosamente retorcidas, em provocações lógicas e em esportes mentais, enquanto este [o santo] direciona sua mente inteira ao Deus vivo e à salvação de sua alma. O filósofo é abastrato e morto, enquanto o santo é prático e vivo.

Fonte: São Nicolau (Velimirovich), o Novo Crisóstomo - Prólogos de Ochrid

Ícone: São Teodoro, o Santificado, com São Pacômio, o Grande

Santo Aquiles


O grande hierarca e taumaturgo Aquiles nasceu na Capadócia. Ele participou do Primeiro Concílio Ecumênico [de Nicéia, em 325], no qual envergonhou os hereges e, por sua inteligência e santidade, causou grande espanto em todos. Santo Aquiles pegou uma pedra e, vociferando aos arianos, disse: "Se Cristo é uma criatura de Deus, como vós dizeis, então dizei: 'Que óleo verta desta pedra'". Os hereges quedaram-se mudos e perplexos ante tal exigência de Santo Aquiles. O santo continuou, dizendo: "E se o Filho de Deus é igual ao Pai, conforme nós cremos, que verta óleo desta pedra". Com efeito, a pedra começou a verter óleo, para o espanto de todos. Santo Aquiles repousou na paz de Cristo na cidade de Larissa, em 330. O Rei Samuel [da Bulgária], após conquistar Tessália, transladou as relíquias de Aquiles para Prespa, mais especificamente a uma ilha em um lago que, até hoje, é chamado de Aquiles ou Ailus.

Fonte: A vida de Santo Aquiles, Bispo de Larissa, comemorado em 15/28 de maio.

19 de julho de 2009

São Sisoé, o Grande


Nascido no Egito, São Sisoé viveu primeiramente em Cetis e, após a morte de Santo Antônio, transferiu-se para a montanha do deserto na qual Santo Antônio vivera em asceticismo e que posteriormente recebeu seu nome. Ele adquiriu a humildade mediante intensos combates contra si próprio, tornando-se manso e inocente como um cordeiro. Por causa disso, Deus concedeu a Sisoé os inestimáveis dons da cura, do exorcismo de espíritos impuros e da ressurreição de mortos. Sisoé viveu no deserto por sessenta anos, tornando-se fonte viva de sabedoria para todos aqueles que vinham lhe pedir conselhos, sejam monges ou leigos. No leito de morte, o rosto de Sisoé brihou como o sol. Os monges que se encontravam em torno dele se maravilharam deste feito e, quando o santo entregou seu espírito, o recinto inteiro encheu-se de uma fragrância maravilhosa. Ele repousou em idade avançada, no ano de 429. São Sisoé ensinara a seus monges: "Quando vier a tentação, o homem deve entregar-se à vontade de Deus, reconhecendo que as tentações surgem por causa de seus pecados. Se algo bom terminar, o homem deve reconhecer que esse algo terminou pela providência de Deus". Um monge lhe perguntou: "Como agradar a Deus e ser salvo?" O santo respondeu: "Se tu desejas agradar a Deus, retira-te do mundo, aparta-te das coisas terrenas, deixa para trás a criação e junta-te ao Criador, une-te a Deus com orações e lágrimas e, assim, encontrarás repouso neste mundo e no próximo". Um monge perguntou a Sisoé: "Como adquirir a humildade?" O santo respondeu: "Quando o homem aprende a considerar todos os demais melhores que si próprio, então terá adquirido a humildade". Certa vez, Ammon queixou-se a Sisoé porque não conseguia memorizar as sábias palavras que lia, de maneira que não conseguia citá-las em suas conversas. O santo respondeu-lhe: "Isso não é necessário. O que é necessário é adquirir a pureza da mente e falar a partir dessa pureza, depositando tuas esperanças em Deus".

[The Prologue from Ochrid: Lives of the Saints and Homilies for Every Day in the Year -- Parte 3, Bishop Nicholas Velimirovich, Lazarica Press, Birmingham, Inglaterra, 1986]

As riquezas não sobrevivem; a glória não acompanha ninguém ao outro mundo; a beleza se modifica; a juventude passa e a velhice chega; a saúde se desvanece; a doença desponta; a sepultura desintegra tudo em nada.

Quando visitamos nossa morada perpétua, nosso túmulo, veremos com nossos próprios olhos toda a futilidade do homem, conforme disse São Sisoé quando viu o túmulo de Alexandre, o Grande, e gritou: "Ah, morte! O mundo inteiro não foi grande o bastante para ti, Alexandre. Como então tu estás contido agora em dois metros de terra?"

[...]

Um padre estava levando um irmão monge para julgamento, ou melhor, para acusá-lo. Dirigindo-se ao Pe. Sisoé, disse-lhe:

"Padre, quero prestar queixa contra meu irmão porque ele fez isso e isso de ruim contra mim".

"Desculpe-o. Perdoa-o".

"Não", respondeu ele, "se eu o perdoar, ele fará a mesma coisa contra mim novamente. Este homem precisa ser punido".

"Ora, tudo bem, meu filho. Então vamos rezar uma oração e partir".

Eles se ajoelharam e o Pe. Sisoé começou a rezar: "Pai nosso...e não perdoa as nossas dívidas assim como nós não perdoamos aos nossos devedores..."

"Não, padre, está errado", disse ele, "tu cometeste um erro".

"Já que tu queres levar teu irmão a julgamento, então é assim que rezaremos".

Foi então que o monge percebeu seu erro, arrependeu-se e não mais denunciou seu irmão.

[Counsels from the Holy Mountain, Elder Ephraim, Saint Anthony's Greek Orthodox Monastery, Florence, Arizona, Estados Unidos, 2000]

15 de janeiro de 2008

São Paísio Velichkovsky

Eis uma interessante biografia de São Paísio Velichkovsky, redigida pelo Metropolita Lauro, primaz da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, em comemoração ao 210º aniversário do repouso do santo (1992).

São Paísio foi o grande responsável pela renovação monástica russa nos séculos XVIII e XIX, tanto pelo sua atuação como ancião (staretz) como pelas inúmeras traduções e correções dos textos dos Santos Padres, dando origem à Philokalia eslava, a famosa coletânea de textos espirituais ascéticos da Cristandade.

* * *

A Rússia adotou a Santa Ortodoxia e sua cultura com uma facilidade incomum, ainda que com sinceridade e franqueza. É até possível afirmar, sem medo de errar, que a própria Bizâncio não suspeitava que a Rússia e o povo russo fossem sucessores dignos da Santa Ortodoxia. E aconteceu que a Rússia foi levada à fé cristã pela Providência Divina, para que preservasse a verdade da correta teologia, do Cristianismo Ortodoxo genuíno. É possível supor que também pela Providência Divina uma Rússia forte e poderosa foi despertada quando sua população foi convertida ao Cristianismo, ao mesmo tempo em que os cristãos ocidentais abandonavam a verdadeira Ortodoxia, caindo em heresia, e quando o mundo ortodoxo oriental estava sendo ameaçado pelo Islã; a Rússia estava sendo preparada pela Providência Divina para se tornar a guardiã dos verdadeiros ensinamentos da revelação divina, tornando-se o novo povo escolhido para preservar na terra a verdadeira fé ortodoxa.

No começo de nossa história, em Kiev, por meio dos esforços do Santo Príncipe Vladimir e seus herdeiros, a Rússia começou a florescer espiritualmente, a ganhar força, tanto politicamente quanto administrativamente. No entanto, os ataques tártaros e a devastação que se seguiu paralisaram esse florescimento.

Mas apesar das perdas e sofrimentos infligidos por pagãos e heterodoxos, os corações dos russos se apegaram ainda mais à Santa Igreja Ortodoxa, fazendo com que a autoridade da fé ortodoxa atingisse um elevado patamar. Uma nova era de imponência e renovação espiritual tomou conta dos séculos seguintes: os séculos XIV e XV. É a era de São Sérgio de Radonezh e seus discípulos, que fundaram mosteiros por todo o norte russo, com seus povoados em torno deles. Assim, a “Santa Rússia” crescia e se expandia.

No começo do século XVI, quando a Rússia se encontrava separada do oriente ortodoxo e Bizâncio estava sob controle turco, o perfil da batalha espiritual em nossa terra natal começou novamente a mudar. Desavenças e conflitos entre os “possuidores” e os “não-possuidores” começaram a surgir. Foi então que nosso monasticismo mergulhou num período muito ruim: o reinado do Imperador Pedro I. Chegou ao ponto de monges serem perseguidos, especialmente quando pessoas estrangeiras influenciavam nossas imperatrizes. Na segunda metade do século XVIII, uma mudança começou a tomar forma, e o monasticismo russo experimentou um renascimento com o Ancião Schemamonge Paísio Velichkovsky.

Primeiramente, farei uma breve descrição de sua biografia para, então, discorrer sobre suas obras e seu legado espiritual.

O futuro Ancião Paísio, ou São Paísio, como o chamamos hoje, nasceu em 21 de dezembro de 1722, na cidade de Poltava, de uma família de padres: seu pai, seu avô e seu bisavô foram padres. Sua mãe se tornou monge no fim da vida, assim como sua avó e tia. Ele foi batizado com o nome de Pedro. Seu pai, Pe. João, era o pároco da Catedral da Dormição. Sua mãe, Irina, trabalhava com crianças. Pedro era um menino quieto e manso; ele adorava ler, e lia livros espirituais desde a tenra idade, tanto na sua casa como na biblioteca da catedral. Ele lia as Sagradas Escrituras e diversas obras de São João Crisóstomo e São Éfrem, o Sírio.

Seu biógrafo notou que ele era “acanhado e despretensioso”, de maneira que até seus pais raramente ouviam sua voz, e as visitas freqüentemente perguntavam: “Ele é surdo?”

Aos 13 anos, Pedro entrou na Escola Teológica de Kiev, mais tarde renomeada para Academia Teológica, onde o Arcebispo Simão (Todorsky) de Pskov dava aulas na época, juntamente com o Metropolita Arsênio (Matseevich) de Rostov e outros. O Hieromonge Josafá, o futuro Bispo de Belgorod, ainda estava lá. A educação era de alto nível. Havia 1200 estudantes na Academia. Mas Pedro não entrou lá por dcausa isso, pois seu coração estava tomado pelas igrejas, pelos santos mosteiros, pelas cavernas daqueles que faziam votos de silêncio, e pelas conversas que tinha com amigos sobre a vida eremítica. Eles freqüentemente se encontravam em locais isolados e conversavam sobre coisas espiritualmente benéficas. “É melhor”, diziam-se mutuamente, “permanecer no mundo do que rejeitar as dádivas mundanas apenas por exibicionismo e viver uma vida despreocupada e fácil num mosteiro”. Eles juraram nunca serem tonsurados num mosteiro rico, onde seria impossível emular a pobreza de Cristo.

No terceiro ano da escola, o entusiasmo de Pedro foi minguando, enquanto seu desejo pelo monasticismo foi crescendo mais e mais. As férias escolares chegaram, e Pedro foi para casa. Sua mãe, que ficou sabendo de seu desejo de deixar a escola e tornar-se monge, opôs-se categoricamente a esse projeto. Pedro tinha um amigo em Poltava chamado Dmítrio, e eles juraram deixar o país juntos. Mas seus planos falharam, porque Pedro adoeceu e teve de adiar sua viagem a Kiev. Quando ele enfim sarou, sua mãe o acompanhou, supondo que ele iria continuar os estudos. Mas, em Kiev, Pedro começou a repensar seu futuro. Ele decidiu dirigir-se a Chernigov e consultar o Ancião Pacômio, a fim de obter seus conselhos e instruções, bem como sua bênção para seus planos futuros. Após passar alguns dias com o Pe. Pacômio, este lhe disse: “É melhor que você vá a algum mosteiro não muito longe de Lubech, a terra natal de Santo Antônio das Cavernas. Lá você encontrará o Hieromonge Joaquim, que lhe dirá o que fazer”. Pedro seguiu as instruções do Pe. Pacômio. Quando Pedro se aproximou do mosteiro, notou que havia guardas entre a cidade de Lubech e o mosteiro. Pedro ficou com medo de ser barrado, pois não tinha documentos. Na mesma hora, um monge surgiu do outro lado. Parando junto ao guarda, o monge fitou Pedro, que se aproximava, e disse ao guarda quando este chamava o garoto: “Por que você está perguntando quem é ele? Será que você não percebe que ele é um noviço retornando ao mosteiro?” O guarda, então, deixou Pedro passar. E assim, com a ajuda de Deus, ele pôde entrar no mosteiro. Foram-lhe conferidas as obrigações de ekomonos (gerente do mosteiro), lendo as Vidas dos Santos no refeitório e assumindo diversas incumbências. Ele morava próximo ao Ancião Joaquim, que o abençoou para usar a batina, regozijando-se em sua vida pacífica.

Mas Pedro não ficaria lá por muito tempo. Três meses depois, um novo superior foi designado, e por causa de certos problemas que se seguiram, Pedro deixou o mosteiro. Ele vagava pela margem direita da Pequena Rússia, que à época estava sendo invadida por poloneses e uniatas. Ouvindo falar de um eremita que vivia numa ilha fluvial, Pedro apressou-se em conhecê-lo. Seu nome era Isíquio. Ele trabalhava transcrevendo as obras dos Santos Padres. Pedro pediu para que fosse aceito como estudante. Embora a face de Pedro estivesse molhada de lágrimas e súplicas, o ancião foi implacável: “Filho, sou pecador e indigno, e não consigo nem mesmo dirigir minha pobre alma a Deus”.

Deixando o eremita, Pedro logo encontrou um mosteiro chamado Medvedovsky, ao qual se juntou. Ele não tinha destreza, e os irmãos freqüentemente zombavam dele. Foi-lhe dada a incumbência de moer trigo, mas ele acabou cortando seus dedos. Então lhe conferiram a tarefa de carregar água e argila, cortar pão no refeitório, servir comida aos monges e lavar louça. Ele foi designado ao kliros. Neste mosteiro, ele foi tonsurado à rassa com o nome de Platão. Seu pai espiritual deixou o mosteiro algumas semanas mais tarde, e Platão ficou sem pastor, “como uma ovelha perdida”. Ele disse a si mesmo: “Minha alma em minha juventude era muito inclinada à obediência, mas não recebi a divina dádiva [oportunidade] por causa de minha indignidade”.

Tempos depois, este mosteiro acabou sendo atacado pelos uniatas, que o fecharam. Pe. Platão foi à Lavra de Kiev, trabalhando em sua gráfica. Ardendo de desejo pela vida ascética e eremítica, Pe. Platão dirigiu-se a Moldovlachia, onde a vida espiritual estava florescendo, já que os mosteiros de lá se encontravam sob influência da Santa Montanha de Athos. Ele permaneceu três anos nos mosteiros de Moldovlachia, sob a direção dos anciãos Pe. Basílio, Pe. Miguel e Pe. Onofre.

Mais tarde, Pe. Platão empreendeu uma viagem ao Monte Athos, esperando encontrar lá guias espirituais e assumir a vida ascética. Pe. Platão tinha 24 anos à época. Eis o que seu biógrafo relatou sobre sua mudança para o Monte Athos: “Quem pode perscrutar os caminhos do Senhor? Quem conhece Seus desígnios? Pela Sua Divina Providência, Ele o tirou de sua terra natal, levando-o a muitas nações, de maneira que pudesse ajuntar para sua alma grandes tesouros espirituais e distribuí-los entre aqueles que buscassem seu guiamento. O Senhor o fez emular Santo Antônio das Cavernas, que também era nativo de Pequena Rússia. E a exemplo de Santo Antônio, que também peregrinou até finalmente se fixar no Monte Athos, onde assumiu as ordens angelicais monásticas e, depois de muitos anos de trabalho e dádivas espirituais, retornou à sua terra natal para semear e multiplicar a vida monástica; assim também São Paísio obteve tesouros celestiais e retornou à sua Moldávia, renovando as ordens monásticas, restaurando a vida monástica decadente e plantando nela a tripla bênção da obediência, iluminando as trevas da ignorância por meio de seus ensinamentos, concedendo sabedoria por meio da correção e tradução dos textos teológicos dos Santos Padres do grego para sua língua nativa”.

O Hieromonge Tryphon foi à Santa Montanha com o Pe. Platão. Eles chegaram ao Monte Athos no dia 4 de julho, na festa de Santo Atanásio de Athos, que viveu como eremita na Santa Montanha e lá fundou o primeiro mosteiro cenobítico.

Hoje, esse é o principal mosteiro do Monte Athos, o primeiro entre vinte. Descansando alguns dias na lavra de Santo Atanásio, os viajantes se dirigiram ao Mosteiro do Pantocrator, próximo de onde os monges eslavos viviam. A estrada até o Mosteiro do Pantocrator era longa e perigosa. Os viajantes, exaustos, sentaram-se para descansar e beberam um pouco de água gelada. Por causa disso, pegaram resfriado. O Hieromonge Tryphon entrou em delírio, morrendo logo que chegou ao Mosteiro do Pantocrator.

Platão conseguiu sobreviver. Aos poucos, ele começou a conhecer os mosteiros vizinhos, visitando os eremitas e monges locais em busca de um pai espiritual. Foi difícil para ele, pois viveu na pobreza por mais quatro anos. Em 1750, o pai espiritual moldávio do Pe. Platão, o Schemamonge Basílio, foi ao Monte Athos e tonsurou Platão com o nome de Paísio. Em pouco tempo, Paísio recebeu seus primeiros estudantes, Vissarion e Cesário; com o tempo, o número de estudantes subiu para 12. Em 1759, aos 36 anos, Pe. Paísio foi ordenado hieromonge. Como o número de monges estava crescendo, Pe. Paísio solicitou ao Mosteiro do Pantocrator que lhe dessem a cela do Profeta Elias, para que ali instituísse o Esquete do Profeta Elias. Portanto, o Pe. Paísio foi um dos fundadores do atual Esquete do Profeta Elias, na Santa Montanha de Athos. Seu esquete começou a crescer e, em breve, não apenas sua irmandade mas monges de todo o Monte Athos se tornaram seus filhos espirituais. Até mesmo o Patriarca Serafim, que vivia aposentado no Mosteiro do Pantocrator, visitou-o a fim de obter guiamento espiritual. Todos os irmãos faziam artesanatos, e o próprio ancião fazia colheres, passando as noites lendo e reescrevendo os livros dos Santos Padres, dormindo não mais do que três horas por dia.

Mas o inimigo da humanidade invejava o crescimento da irmandade de Paísio, sua vida pacífica e seu sucesso espiritual. Surgiram problemas entre os moradores do esquete, insuflados pelo Ancião Atanásio, que viva nas proximidades. Essa inimizade e os problemas dela resultantes perturbavam Pe. Paísio e seus estudantes.

A irmandade cresceu, chegando a 50 pessoas, mas não havia espaço disponível para todos, de maneira que novas celas tinham de ser construídas. Contudo, não havia fundos para tal. Seguindo a recomendação de vários habitantes do Monte Athos, Pe. Paísio e seus monges se mudaram para o Mosteiro de São Simão Pedro, que estava vazio à época. Eles esperavam assim evitar conflitos com o Ancião Atanásio. Os monges do Mosteiro de São Simão Pedro o abandonaram porque deviam dinheiro às autoridades turcas, e não conseguiam lhes pagar. Em três meses, Pe. Paísio e seus monges também tiveram de deixar o mosteiro, pois os turcos estavam exigindo a liquidação da antiga dívida, e eles também não conseguiam lhes pagar. Eles retornaram ao Esquete do Profeta Elias, mas sua aguda pobreza não lhes permitiu que permanecessem por muito tempo, e eles tinham então de encontrar um novo lar.

Ancião Paísio decidiu mudar-se, juntamente com seus irmãos, para Moldovlachia. Em 1763, após 17 anos no Monte Athos, ele e 64 monges partiram para a Moldávia.

Ancião Paísio contratou duas embarcações: em uma ele ficou com os monges eslavos, e em outra ficaram Pe. Vissarion e os irmãos moldávios. Eles chegaram primeiro ao Mosteiro do Espírito Santo, em Dragomir, Bukovina. O mosteiro lhes foi dado cheio de mato e com todos os impostos vencidos. Embora estivesse em estado deplorável, em pouco tempo, por meio dos esforços dos monges, o mosteiro ficou em boas condições. A regra monástica das cerimônias era a mesma do Monte Athos. Eles celebravam em duas línguas: no kliros da direita, cantavam em eslavo, no da esquerda, em moldávio.

O Ancião exigia que cada monge cumprisse seu chamado com total consciência e severidade, pois um monge não se reconhece pela sua roupa, mas pelo seu espírito.

Às vezes, o Ancião permanecia com os irmãos o dia inteiro; as portas de sua cela ficavam abertas até as 21h. Os monges entravam e saíam para conversar sobre questões práticas e espirituais. A leitura diária que o Ancião fazia dos livros dos Santos Padres, bem como as discussões a respeito, eram de enorme importância para a vida espiritual dos monges. Mas a pacífica vida em Dragomir foi logo perturbada pela guerra entre Rússia e Turquia. Dragomir caiu em mãos austríacas, de maneira que os irmãos tiveram de evacuar para Sekul. Em Sekul, os irmãos começaram a ajudar os refugiados. Problemas começaram a surgir entre os irmãos mas, aos poucos, a vida em Sekul começou a se normalizar. Os estudos do Ancião não cessaram por causa desses contratempos. Então, em 1779, pelas intercessões do Príncipe Constantino e com a bênção do Metropolita Gabriel, foi oferecida ao Ancião Paísio e seus monges a oportunidade de se mudarem para Niametz. Mas o Ancião Paísio não ficou contente com essa proposta, uma vez que tal mudança envolveria grandes complicações, e ele já estava ficando velho.

Após alguma hesitação, o Ancião concordou em se mudar, mas deixou alguns monges em Sekula. Este foi o período final e mais difícil de sua vida, mas foi também o mais frutífero. O número de irmãos chegou a 700. A fama da vida espiritual altiva do mosteiro e de seu ancião espalhou-se por todo o oriente ortodoxo. Com a ajuda do Príncipe, o Ancião construiu um hospital no mosteiro, juntamente com uma casa de misericórdia, e aumentou em muito o número de celas monásticas. Ele instituiu ainda a prática intensiva de transcrições e traduções das obras dos Santos Padres, e reuniu um grande número de assistentes, preparando-os especialmente para seu trabalho editorial. Ele ensinou-lhes grego e, para completar sua educação, enviou-os à Academia de Bucareste.

Graças ao árduo trabalho desse grupo de monges, um grande número de traduções fiéis aos originais dos Santos Padres começou a aparecer, juntamente com diversas transcrições. De acordo com o Prof. A. I. Yatsimirsky, dos milhares de manuscritos conservados na biblioteca de Niametz, escritos em diferentes períodos e em diferentes línguas, incluindo moldávio, grego, latim, italiano, alemão, hebraico, árabe, turco, sírio, búlgaro, polonês, francês e eslavo, 276 deles são do período do Ancião Paísio, e mais de 40 escritos pelas próprias mãos do santo.

A crescente fama de mestre da vida espiritual inspirou muitas pessoas a se corresponderem com Ancião Paísio. O Ancião respondia a essas cartas, às vezes de maneira volumosa. Nelas, o Ancião tocava em diversas questões da vida monástica e eclesiástica em geral, dando instruções e conselhos. Essas correspondências ocupavam grande parte de seu tempo. Em meio a essas tarefas, muitos anos se passaram despercebidos, e aos poucos o santo se aproximava do fim de sua vida.

Seus últimos dias foram eclipsados pelas preocupações causadas pela guerra entre Rússia, Áustria e Turquia. Niametz foi ocupada pelos turcos, mas os austríacos tentaram, com todas as forças, emancipar Niametz, enquanto as tropas russas se aproximavam. O comandante-em-chefe do Exército Russo, Príncipe Potemkin, dirigiu-se a Jassy, juntamente com o Arcebispo Ambrósio da Eslovênia e Poltava. O Arcebispo, desejando conhecer o famoso Ancião Paísio, chegou ao Mosteiro de Niametz e recebeu os cumprimentos dos monges. Isto foi em 1790. Neste domingo, o Arcebispo Ambrósio oficiou a Divina Liturgia, durante a qual o Ancião foi elevado a arquimandrita. O Ancião nasceu em Poltava, e foi o Arcebispo de Poltava quem o ordenou arquimandrita.

Após o fim das operações militares, a vida começou aos poucos a voltar ao normal, enquanto o Ancião continuava a trabalhar como antes: ele fazia traduções, escrevia cartas e guiava os monges. Mas suas forças estavam se esgotando. Pouco antes de ser fatalmente acometido por uma doença, ele parou de fazer traduções. Em 5 de novembro de 1794, ele se sentiu muito fraco, e foi levado à sua cama. No domingo, ele se sentiu melhor e conseguiu ir à igreja comungar. Todavia, sua fraqueza progrediu, e em 15 de novembro de 1794, aos 72 anos de idade, São Paísio repousou em paz.

A notícia do repouso do Arquimandrita Paísio espalhou-se rapidamente, e um grande número de monges e fiéis dirigiu-se a Niametz. Quando o Bispo Benjamin chegou, deu-se início ao funeral na Catedral da Ascensão, seguido de seu enterro.

Verificamos, assim, que a mudança do Ancião Paísio a Moldovlachia, pela Providência Divina, mostrou-se extremamente benéfica. Se ele tivesse permanecido no Monte Athos, sua irmandade não teria crescido por causa da falta de espaço e recursos, e ele não teria exercido nenhuma influência na vida espiritual no monasticismo ortodoxo na Moldávia e na Rússia.

Em São Paísio, a santidade pessoal estava combinada com amor pela educação, habilidade em organizar uma vida monástica cenobítica, habilidade em atrair e ensinar um grande número de estudantes, habilidade em criar uma escola de asceticismo espiritual e, finalmente, talento literário, que o ajudou a completar uma importante e necessária tarefa: corrigir velhas traduções e fazer novas traduções da literatura ascética dos Santos Padres.

São muitas as obras literárias de São Paísio. Ao se deparar com um grande número de erros nas traduções eslávicas dos Santos Padres, ele percebeu a importância de revisá-las com esmero. Assim, ele foi atrás dos originais gregos no Monte Athos. Mas não foi fácil encontrá-los, pois não se encontravam à venda. Por isso, ele teve de transcrevê-las pessoalmente, e pagar para que outros o fizessem. Ele logo percebeu que nem todas as obras dos Santos Padres haviam sido traduzidas para o eslavo. E a segunda parte da tarefa, as traduções em si, ele empreendeu na Moldávia, após ter se mudado para lá com seus monges.

Para termos uma idéia de como esse trabalho era árduo e diligente, basta lembrar que o ancião revisava e corrigia o mesmo texto três ou mais vezes. Mesmo assim, o Pe. Paísio reconhecia a insuficiência disso: “Para minha grande tristeza, vejo que o trabalho está longe da perfeição, e que se o Senhor em Sua misericórdia estender minha vida e me conceder, agora que estou quase cego, a visão necessária, terei de trabalhar ainda mais nessas correções”.

Foi só quando estava próximo do fim de sua vida é que Ancião Paísio conseguiu ampliar o ritmo de traduções e transcrições dos livros dos Santos Padres. Esses livros começaram então a ser disseminados pelos mosteiros do oriente ortodoxo, chegando à Rússia, onde desempenharam um papel excepcional na renovação no monasticismo russo dos séculos XVIII e XIX.

No começo do Cristianismo na Rússia, as sementes da Ortodoxia foram plantadas por Santo Antônio e São Teodósio das Cavernas e seus estudantes, de onde vieram muitos dos primeiros bispos da Rússia; mais tarde, São Sérgio e seus estudantes trabalharam para fortalecer a Ortodoxia; e, finalmente, nos séculos XVIII e XIX, os estudantes de São Paísio Velichkovsky desempenharam um importante papel no renascimento do monasticismo russo e do starchestvo (discipulado).

Os estudantes de São Paísio tiveram grande influência na Santa Montanha, na Moldávia e na Rússia. A Rússia, em particular, foi uma grande fonte de estudantes, sob os quais um amplo renascimento da vida espiritual ocorreu, juntamente com o interesse e o amor pela leitura e pelo estudo; anciãos e superiores tomaram a frente na preservação do legado de São Paísio. É possível distinguir três correntes: a do norte, a central e a do sul. O movimento do norte estava centrado nos Mosteiros de Solovetsky, Valaam, Santo Alexandre Nevsky, Vladimir Guberniya, Optina e, mais tarde, Orlov Guberniya. No sul, nos Eremitérios de Ploshchansky e Glinsky. O círculo de influência de São Paísio era amplo. Na Rússia, influenciou mosteiros em 35 dioceses.

Embora São Paísio tenha vivido no exterior e toda sua atividade tenha ocorrido fora da Rússia, os maiores frutos se deram na Igreja Russa.

É possível detectar um paralelo entre a obra de São Paísio e nosso tempo. Durante a vida de São Paísio, sua obra penetrou na Rússia, onde foi reescrita e publicada – a Philokalia eslava, a obra de Santo Isaque da Síria, e muitas outras. Em condições um pouco diferentes, a mesma coisa acontece hoje. Nossa Igreja Russa no Exterior está levando adiante sua missão, dando frutos na Rússia na forma de obras dos Santos Padres e na literatura eclesiástica em geral, onde há uma carência enorme da Palavra de Deus e de literatura espiritual [este artigo foi escrito em 1992 – N. do T.].

É verdade que há uma grande diferença entre os tempos de São Paísio e o nosso. São Paísio vivia num país ortodoxo, e embora as possibilidades editoriais não existissem na época, era possível transcrever e retranscrever manuscritos e enviá-los à Rússia, a fim de que fossem impressos e disseminados por lá. Hoje, embora vivamos num ambiente heterodoxo, podemos imprimir grandes edições, mas a disseminação da literatura entre nossos irmãos russos é virtualmente impossível. Mas, com a ajuda de Deus, algumas poucas coisas podem ser enviadas daqui, e esperamos que esta pequena quantidade traga frutos multiplicados por mil. Que assim seja, ó Senhor, pelas orações de São Paísio!

Esta é uma pequena biografia das batalhas, lutas e méritos de São Paísio Velichkovsky, o restaurador do monasticismo cenobítico estrito e o fundador do starchestvo no século XIX.

Eis o bem que pode ser feito por uma só pessoa, com a ajuda de Deus. Talvez, entre nossos jovens, encontremos pessoas dispostas a servi-Lo e a servir a Igreja Ortodoxa Russa. Os jovens são necessários, pois nossos mosteiros precisam de sua força, e se a Rússia renascer, ela precisará de pessoas experientes e preparadas. Aos que ouvirem este chamado, respondam!

Este pequeno artigo foi baseado no livro Starets Paisii Velichkovsky [Ancião Paísio Velichkovsky], do Arcipreste Sérgio Chetverikov, e em vários outros artigos.

A glorificação de São Paísio foi levada a cabo pela Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, no dia da festa do Santo Profeta Elias, em 20 de julho de 1982, no Esquete Russo de Santo Elias no Monte Athos, fundado por São Paísio.