A intenção paradoxal
Como já
havíamos visto, a intenção paradoxal faz uso do humor não por mera “técnica”, mas
porque o humor tem a capacidade de promover uma cisão no ego, uma espécie de
“eletrochoque”, no qual o indivíduo passa a ser capaz de enxergar-se a partir
de seu eu e, assim, vislumbrar o ego fora e acima dele. Portanto, o humor
tem uma dimensão noética. A partir do humor o paciente pode ser levado a um
nível mais profundo de mudança, a uma mudança radical de atitude. É inegável a
semelhança com a fase estética da periagoge platônica, conforme empregada por Eric
Voegelin.
Crítica
a Freud e Adler
A vontade
de prazer (vimos brevemente aqui) e a vontade de poder (vimos
brevemente aqui) somente podem ser explicadas se
as derivarmos da vontade de sentido. Se tomada isoladamente, a vontade de
prazer confunde o efeito com o fim, e a vontade de poder confunde o meio com o
fim.
O
exagero da psicanálise
Freud era um especialista justamente naqueles motivos que não podem ser tomados em seu valor nominal. Quer isso dizer, contudo, que não há, em princípio, motivos que possam ser tomados em seu valor manifesto? Um pressuposto desse tipo é comparável à atitude daquele que, ao lhe mostrarem uma cegonha, disse: ‘Mas eu achava que a cegonha não existia!’ Acaso o fato de a cegonha ter sido usada para ocultar das crianças os fatos da vida nega, de algum modo, a realidade da ave?
Frankl
propõe que a psicologia profunda seja complementada por uma psicologia
elevada.
A
postura fenomenológica do logoterapeuta
O
logoterapeuta não deve prescrever um sentido ao paciente, mas pode, sim,
ajudá-lo a descrevê-lo. Aqui a ideia é que o logoterapeuta tome a experiência
do paciente sem impor-lhe nenhuma pauta externa, auxiliando-o a ampliar
e enfocar melhor tal experiência.
A falsa
promessa da homeostase e a crítica ao estoicismo
A psicopatologia
não vem somente do “stress”, mas do alívio desse stress. Sim, pois o problema não
está no stress, mas no sentido. Uma vida sem sentido, ou o que Frankl denomina “vazio
existencial”, é frequentemente a causa do stress, e aliviá-lo pode inclusive
intensificar tal vazio. O homem não necessita de homeostase a todo custo,
mas, pelo contrário, uma tensão que surja do caráter da responsabilidade e da
exigência.
A falha
essencial aqui é encarar o homem como um ser para quem a realidade não tem
outra função que a de “satisfazer necessidades”, “reduzir tensões” e “manter o
equilíbrio”. Vê-se algo dessa postura na crença de que é necessário “alinhar os
shakras”. Não há compromisso com uma causa, não há uma relação por amor. Tudo é
desprovido de valor e reduzido a instrumentos, objetos.
Daí vêm,
por exemplo, as neuroses sexuais (a busca do prazer sexual, ou seja, a busca neurótica
do efeito como se fosse um fim, conforme descrito por George Leonard e Montserrat Calvo Artés) ou a busca inócua por “paz de espírito”, “consciência tranquila”, “autorrealização”
e demais efeitos secundários.
Precisamente
por isso o estoicismo (chamada por Frankl de “filosofia quietista”) não funciona
em última instância: a felicidade e a força de vontade não podem ser objetivos
reais da conduta humana. A intenção em buscá-las é a própria causa de sua fuga.
É como a popular imagem do sabonete: quanto mais tentamos agarrá-lo, mais ele
escapa das mãos. Igual crítica pode ser feita ao consumo vicioso de antidepressivos,
antipsicóticos, estabilizadores de humor e ansiolíticos.
O falso
dilema encontro vs. técnica
A pura
técnica tende a divinizar-se, ou seja, tende a substituir a dinâmica da terapia
pelos seus próprios termos e reduzir o homem a uma res. Cria-se um ambiente
de distanciamento artificial. O puro encontro, por outro lado, tende a
substituir a dinâmica da terapia pela preservação obstinada da simpatia e do
desejo de ajudar que impera no consultório. Cria-se um ambiente de proximidade
artificial. Ambas as posturas são igualmente reprováveis. A prática viva
move-se entre ambos os polos.
Descartes
criou a dicotomia res extensa e res cogitans. Frankl entende que Descartes
deveria ter ido ainda mais longe, isto é, deveria ter negado ao homem não apenas
a condição de extensa, mas também de res.
Religião
de trincheira vs. religião de negociante
Muitos
condenam a religião que só se professa em momentos de dor e sofrimento como
oportunista (“religião de trincheira”). Mas mais oportunista ainda é a religião
que só se professa quando tudo está bem e tranquilo (“religião de negociante”).
Fonte: Viktor Frankl, Psicoterapia y existencialismo, Herder Editorial, Barcelona, Espanha, 2001.
