21 de julho de 2021

Vidas secas


— Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.

— Um bicho, Fabiano.

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Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais.

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Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia.

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Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos — exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.

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Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar?

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Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianças divertiram-se, animaram-se, e o espírito de Fabiano se destoldou. Aquilo é que estava certo. Baleia não podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exercício fácil — bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal.

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Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.

— Está aí.

Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.

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Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia.

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Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se.

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Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?

Se não fosse aquilo... Nem sabia. O fio da ideia cresceu, engrossou — e partiu-se. Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos... Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.

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Fabiano também não sabia falar. Às vezes largava nomes arrevesados, por embromação. Via perfeitamente que tudo era besteira. Não podia arrumar o que tinha no interior.

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Como não sabia falar direito, o menino balbuciava expressões complicadas, repetia as sílabas, imitava os berros dos animais, o barulho do vento, o som dos galhos que rangiam na catinga, roçando-se.

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Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.

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Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa. Os nego-ciantes furtavam na medida, no preço e na conta. O patrão realizava com pena e tinta cálculos incompreensíveis.

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Todos lhe davam prejuízo. Os caixeiros, os comerciantes e o proprietário tiravam-lhe o couro, e os que não tinham negócio com ele riam vendo-o passar nas ruas, tropeçando. Por isso Fabiano se desviava daqueles viventes.

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Fonte: Graciliano Ramos, Vidas Secas, Editora Record, Rio de Janeiro, Brasil, 120ª edição, 2013.


11 de julho de 2021

There's no free market


O mercado livre não existe. A velha ideia de que os economistas de livre mercado estão apenas tentando defender o mercado das interferências políticas do governo é falsa. O governo está sempre envolvido de uma forma ou de outra, e os defensores do livre mercado são tão politicamente motivados quanto qualquer um. O mesmo mercado pode ser percebido como tendo vários graus de liberdade para diferentes pessoas. Se alguns mercados parecem livres, é apenas porque estão tão habituados com os regulamentos que os sustentam que se tornam invisíveis. Enxergamos um regulamento somente quando não endossamos os valores morais por trás dele. Reconhecer que as fronteiras do mercado são ambíguas e não podem ser determinadas de forma objetiva nos permite perceber que a economia não é uma ciência como a física ou a química, mas um exercício político. Quando os economistas de livre mercado dizem que certa regulamentação não deve ser introduzida porque restringiria a "liberdade" de um determinado mercado, eles estão apenas expressando uma opinião política. Seu manto ideológico é fingir que sua política não é realmente política, mas sim uma verdade econômica objetiva, enquanto a política dos outros é política. No entanto, eles são tão motivados politicamente quanto seus oponentes. Romper com a ilusão da objetividade do mercado é o primeiro passo para compreender o capitalismo.

Fonte: Ha-Joon Chang, 23 Things They Don’t Tell You about Capitalism, Penguin Books, Londres, Reino Unido, 2010, trechos do capítulo 1.