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2 de junho de 2025

Breves notas do III Congresso de Psicologia Tomista


O desenvolvimento psicológico
(Patricia Schell)

A psicologia do desenvolvimento pode ser chamada também de psicologia do crescimento. O fim último do homem é a contemplação do bem natural e sobrenatural. O princípio vital do homem está fora do corpo e, portanto, a pessoa humana deve ser o elemento alvo do desenvolvimento. A psicologia contemporânea, no entanto, enxerga o recém-nascido como alvo de mera “adaptação” (p.ex., Piaget, Freud).

Para Tomás de Aquino a alma é espiritual e, portanto, seu crescimento não pode ser quantitativo, mas necessariamente tem de ser qualitativo, ou seja, o próprio da alma não é “crescer”, mas melhorar. Corpo e espírito se desenvolvem, tanto nos seus aspectos biológicos quanto sensíveis, perceptíveis, emocionais, e, por fim, racionais e volitivos.

A primeira etapa da formação da pessoa é psicossensitiva, ou seja, quando o homem recebe suas primeiras impressões psíquicas. Aqui urge a formação da temperança/moderação do tato, isto é, a ordenação da parte sensitiva para que, no futuro, haja o devido “acoplamento” à parte racional, para que se desenvolva uma “serenidade básica”. Em outras palavras, engendrar-se-á uma disposição para a aquisição das virtudes.

São os pais os responsáveis por apresentar os bens que na criança, em seu coração, despertarão o apetite do amor. Eis que, sem famílias, não há crianças saudáveis.

A partir desta formação, as virtudes intelectuais poderão se desenvolver (artes, ciências etc.). Por isso que a adolescência não é marcada pelo despertar da sexualidade, embora isso ocorre de fato, mas por algo muito maior: pela consciência de si mesmo. Este despertar é fundamental antes que desperte a sexualidade de modo que esta não paute aquela. Para entrar na vida adulta, portanto, o adolescente deve aprender a dominar a si mesmo. Governar a si mesmo é ser adulto, ou seja, ser prudente é ser adulto. Eis que a maturidade se caracteriza em não perturbar o juízo reto com desvios sensíveis e, com isso, render-se à precipitação, à inconsideração e ao ânimo cambiante. A maturidade é algo que tem de ser conquistado, não é algo que surge espontaneamente.

“A plenitude dos dons de Cristo”, eis a maturidade a que somos destinados.

A vocação do psicólogo (Ignacio Andereggen)

Vocação é algo próprio de Deus, não do homem. É um chamado de Deus, não uma escolha individual, não uma questão de “gosto”. Em suma, vocação é estar na beleza do conjunto ordenado de Deus, ou seja, o chamado de Deus é para que participemos de Sua ordem, de Sua vida. É claro que a resposta humana a esse chamado existe e é livre, mas nenhuma escolha será verdadeiramente livre se não for Deus quem a levá-la a cumprimento.

No caso do psicólogo, a vocação é servir a Deus e aos homens por caridade à terapia. Não é, portanto, uma “vocação individual”, mas algo comunitário, social, e tem caráter santificador (ou seja, purificador) à moda de um diácono. Observe aqui a vocação (chamado) de Deus enquanto o psicólogo se dedica como um instrumento de tal ação divina entre o sacerdote e o povo (por isso “diácono”).

Buscar sua própria perfeição e, ato contínuo, a perfeição do paciente não é neurótico. “Buscar a perfeição não é neurótico”.

O psicólogo como mestre das virtudes (Pablo Lego)

Adquirir uma virtude é adquirir uma plenitude. A virtude dispõe a pessoa a agir com prontidão, facilidade e gozo. O psicólogo funciona como modelo da virtude: se um careca não inspira confiança para nos tratar da calvície, menos ainda nos inspiraria um psicólogo para nos tratar de um vício; afinal, ninguém pode dar o que não tem.

A terapia tem de levar o paciente à contemplação da verdade, a uma jornada filosófica. O paciente deve notar que é a razão que o conduzirá à verdade da vida e de seus problemas.

Prudência: é ela que impera sobre seus atos, é a principal virtude do psicólogo. Com ela o psicólogo delibera quando e quais conselhos dar, mas acima de tudo o que é melhor ao paciente, ou seja, para iluminar o paciente a retificar suas intenções.

Temperança: é fundamental porque é o amor que o terapeuta demonstra ao paciente. É necessário, nesse contexto, desenvolver paciência e mansidão porque o terapeuta busca o bem do paciente. Há que se repetir, sessão após sessão, com firmeza, o que foi explicado anteriormente.

Justiça: quando aponta os efeitos da terapia o psicólogo a demonstra in loco. Por padrão o paciente não percebe seu amor desordenado à sua própria imagem e, portanto, o terapeuta deve levá-lo a enxergar que deve aos outros algo que lhes corresponde.

Fortaleza: em geral é a virtude mais deteriorado nos tempos atuais. Caracteriza-se pelo medo e pela covardia. O terapeuta atento motiva o paciente a persistir e resistir aos medos que o afastam do bem.

Por fim, cabe lembrar que o terapeuta nunca vai ser sempre oportuno, mas tem de supor a vida da graça divina para além das virtudes humanas. Há uma espécie de eixo de virtudes transversais a todo o processo terapêutico: fé, esperança, caridade e prudência infusa.

Se o terapeuta não tem vida interior não tem como atingir (ou “atrair”) o paciente à Fonte da verdade, da beleza e do bem. Não há efeito se as palavras não brotarem da profundidade da experiência da vida interior. Por isso não existe método ou esquema terapêutico rígido.

Transtornos de ansiedade (Zelmira Seligmann)

A magnitude da paixão depende não só do poder do agente, mas também da passibilidade do paciente; pois os que são facilmente passíveis padecem muito do que é pouco ativo. Na ansiedade, a principal paixão é o temor. O temor é o sentimento de que se vai perder aquilo que se deseja ou o que se está apegado. O homem busca a segurança e a estabilidade e teme tudo aquilo que ameaça fragilizá-lo.

Na idade contemporânea, a morte dos débeis não mais nos deixa impávidos, ou seja, a exposição corriqueira a situações de morte e morticínios em geral nos dessensibilizam quanto à perda da integridade do ser. O pecado, enquanto morte da alma, mesmo que não tenhamos ciência dele, gera ansiedade/angústia. Há um mal-estar generalizado cujos efeitos também serão corporais. Há um apego a este mundo. A psicologia moderna quer nos fazer crer que é possível sentir-se bem vivendo mal. A pusilanimidade é uma loucura porque deforma a realidade pela imaginação.

Eis os dois passos terapêuticos para combater a ansiedade:

1) Retificar o amor. O mor ao próximo e a Deus minimiza a ansiedade (temor). A vida da alma é mais importante que a vida biológica. O temor a Deus é o único temor virtuoso.

2) Desapego das coisas terrenas, de maneira que o paciente seja capaz de migrar do medo à esperança e da esperança à caridade.

Por fim, lembremo-nos que a ansiedade deve ser encarada como um remédio para a vontade e para a soberba da autossuficiência.

Os vícios opostos à fortaleza (Martín Echavarría)

De maneira geral podemos agregar as paixões em dois tipos: (a) paixões impulsivas, que são captadas como bem (p.ex. desejo, audácia, esperança) e (b) paixões retrativas, que são captadas como mal ou bem impossível (p.ex. temor, tristeza, desesperança).

A fortaleza e a temperança são as virtudes que regulam as paixões, enquanto a prudência e a justiça não as regulam. A humildade é uma virtude da temperança que modera o desejo de sobressair-se, o apetite da excelência. A mansidão é uma virtude da fortaleza que modera o apetite da ira. A fortaleza e suas virtudes fortificantes moderam as paixões retrativas. A fortaleza é incompreensível se não compreendermos estes dois pontos: (1) existem grandes bens pelos quais vale a pena perder a vida, (2) a existência do mal moral (pecado). A psicologia moderna não admite nenhum desses pontos.

A temperança possui correspondentes modernas que se aproximam dela, mas a fortaleza não. A magnanimidade é uma grandiosidade espiritual que nos tende a coisas grandes. A confiança é fazer com os outros o que sabemos que não fazemos sozinhos. A segurança é a convicção de que o mal não vencerá. A paciência (ou tolerância) é suportar os males diários (pequenos). A perseverança é suportar os males prolongados. A solicitude (ou diligência) é suportar o mal que vem do trabalho; ou “estar disposto” ao trabalho.

Quanto aos vícios contrários à fortaleza, em geral podemos classificá-los de duas formas:

(1) Vícios por excesso. Falta de temor, audácia, presunção (transcender sua capacidade), ambição (conseguir honras), vanglória (vício capital “criador de vícios”), obstinação (teimosia).

(2) Vícios por falta. Temor, pusilanimidade (“alma pequena”, tudo lhe parece grande, pode ser causado externamente por uma educação opressiva e/ou internamente por um temor ao fracasso), moleza, preguiça, inconstância, impaciência, parvoíce (estupidez, insensatez, estupefacção).

Acolhimento do paciente (Rafael de Abreu)

A misericórdia (compaixão com a miséria alheia) tem de ser despertada no psicólogo. É necessário que o psicólogo experimente voluntariamente o sofrimento do paciente. O paciente impacta o psicólogo, embora não o conduza. A misericórdia é doer-se pela miséria alheia, mas não cega.

A empatia é mera sensibilidade (como a vendedora que “gera empatia” concordando com a cliente). A empatia valida indiscriminadamente o que o outro sente. A misericórdia busca a ordem e o bem, a empatia, não. A misericórdia inclui juízo moral, correção com firmeza, não se omite. A empatia tende a perpetuar o sofrimento e inflar o ego ainda mais. A misericórdia, portanto, não é uma opção, mas um elemento obrigatório na psicoterapia.

Fonte: III Congresso Internacional de Psicologia Tomista, São Paulo, SP, Brasil, 24-25 de maio de 2025.

21 de outubro de 2024

Dez práticas em psicoterapia


No cerne do drama da imaturidade está a paradoxal busca da felicidade pelo homem ao tentar satisfazer apenas seus próprios impulsos. 

Patricia Elena Schell

Eis um brevíssimo resumo de 10 práticas da psicoterapia tomista:

1. Consciência pessoal e inter-relação. Trata-se de fazer um autoexame antes de se engajar com os outros (e antes de culpar os outros), identificando suas emoções, padrões de pensamento, comportamento, expectativas, crenças etc. Sem isso não há desenvolvimento da virtude intelectual da prudência. Por outro lado, a convivência com outras pessoas é indispensável para o desenvolvimento das faculdades morais e intelectuais do indivíduo.

2. Moralis. Trata-se de aprender a distinguir o bem e o mal para orientar o comportamento do paciente. O paciente deve ser levado a entender que o dever é algo que está para além das responsabilidades comezinhas, alçando, assim, um patamar mais alto no qual o paciente se compromete com o bem. O paciente, portanto, deverá entender que a moral não tem a ver com o cumprimento de regras de etiqueta e boas maneiras, mas tem a ver com o aperfeiçoamento de sua própria pessoa. Eis porque o paciente é levado a comprometer-se a comunicar a verdade, aprendendo a discerni-la com precisão e conter seus impulsos primários e meramente reativos, de modo que suas ações sejam criteriosamente intencionais. A moral é a expressão de um caráter autêntico, ou seja, não apenas fazer o bem por fazer (por aparência), mas querer fazer o bem por convicção interna.

3. Percepção contextual. Trata-se da interação do indivíduo com os vários ambientes em que se insere, levando-a a discernir em quais contextos se vê mais ordenado ou desordenado, alinhando suas ações externas com seu eu. O paciente é levado a assumir uma postura ativa nos contextos em que vive, e não apenas aceitá-los como são (ou como estão). Os ambientes em que vive (e/ou os ambientes que evita viver) podem ser oportunidades de ouro para o crescimento.

4. Personale vs. opus. Trata-se da habilidade de gerenciar a fronteira entre a vida pessoal e a vida profissional, ordenando tempo e stress e, mais ainda, tornando o ambiente profissional uma oportunidade valiosa para transformá-lo em fonte de ordenamento e virtude, para além do caráter meramente obrigatório (ou algo somente para o “sustento”, ou algo meramente para a “satisfação pessoal”). O paciente é levado a manter uma identidade coerente entre casa e trabalho.

5. Ordem e liderança. Trata-se de desenvolver a capacidade de se ordenar para a liderança, ou seja, de promover uma hierarquia interior na qual as potências superiores (intelecto e vontade) estejam no comando do ser, sob pena de sujeitar-se aos ditames do apetite concupiscível. Note que liderança, aqui, é liderança de si mesmo.

6. Percepção pedagógica. Trata-se de desenvolver a observação atenta, superando as impressões superficiais e os devaneios. O paciente é levado a estabelecer critérios claros para o que espera descobrir, entender e aprender mediante a observação, seja na contemplação da natureza, na leitura de uma obra ou na vivência de relacionamentos. O paciente é levado a abandonar a postura meramente curiosa em relação à vida e lançar um olhar mais intencional, racional, isto é, humano.

7. Assimilação prática. Trata-se do complemento da prática 6, mas voltada à ação, ou seja, à construção de hábitos que nutram as lacunas de seu caráter ou comportamento.

8. Resistência e resiliência. Trata-se de desenvolver no paciente a capacidade de enfrentar as adversidades da vida, recuperando-se em seguida. Isso inclui a promoção da força física e emocional, além de exercícios de autocontrole e gestão de stress. Em suma, trata-se do fortalecimento da vontade no qual o paciente não se “quebrará” (resistência) e se adaptará (resiliência) às dificuldades. O paciente aprenderá que tudo aquilo que estiver dentro do horizonte do bem estará ipso facto dentro do horizonte da vontade. Ele aprenderá a lidar com a urgência em livrar-se da ira em prol de um bem. É claro que também deverá aprender a evitar a armadilha da invencibilidade, reconhecendo em si suas limitações. É um trabalho de equilíbrio cujo fiel da balança é o bem e a verdade buscados.

9. Stabilitas. Trata-se da aquisição e aplicação de conhecimento. Há duas fases, a primeira das quais o paciente se dedica a construir um repertório de conceitos, virtudes ou habilidades que precisa incorporar em sua vida. Na segunda fazer, aplica-se o conhecimento adquirido.

10. Sacrifício pelo bem comum. Trata-se de desenvolver no paciente a capacidade para realizar sacrifícios conscientes pelo benefício alheio, pois é parte da natureza humana a sociabilidade. Em especial, ensina-se ao paciente a que o próximo experimente o amor, ou seja, que sacrifique não apenas recursos materiais, tempo, conforto, preferências, mas que tudo isso resulte em um verdadeiro avanço positivo no desenvolvimento pessoal do próximo. Trata-se de amor, e não extrair afeto do próximo. O alvo é o próximo, não o paciente. O efeito sobre o paciente será colateral.

Fonte: Rafael de Abreu, Práticas em psicoterapia tomista, Editora Domine, Osasco, SP, Brasil, 2024.

5 de agosto de 2024

Os objetivos da psicoterapia tomista


1. Educação

Em algum grau todos nós fomos mal-educados pelo meio (pais, família, professores, cultura). A primeira providência para enfrentar essa situação é retirar o paciente da posição de vítima, ou, mais especificamente, combater a postura vitimista que o paciente traz ao consultório. O passado, por mais duro, injusto e cruel que tenha sido, tem de ser trazido para o presente e nele articulado. O aqui e agora é o que importa. O paciente tem de entender que a direção da vida é competência dele. É ele quem deverá enxergar o que não foi construído resultando em ignorância, o que foi destruído resultando em malícia e o que foi mal construído resultando em fraqueza. Para isso, o passado será usado como instrumento meramente pedagógico, ou seja, o paciente nunca será convidado a "morar" nesse passado.

Observa-se que toda terapia tem caráter pedagógico, e isso torna-se claro quando notamos que há um projeto de desenvolvimento humano que busca não uma resolução específica de um tema ou problema, mas a integralidade da saúde psíquica do paciente. O todo, do ponto de vista aristotélico-tomista, é superior à simples soma das partes. É ele, o todo, que tem de ser tratado. A pessoa humana como um todo precisa de ordem, e o terapeuta precisa ser o porta-voz dessa ordem. Um mau terapeuta será aquele que reforçará a soberba do paciente: é o mundo que está errado, não o paciente. 

Aqui, segundo Rafael de Abreu, entra o papel da correta definição dos termos:

[É] fundamental que o paciente saiba de forma ordenada o que ele está expressando. Diante de uma má definição um paciente pensa de modo equivocado, sente de modo equivocado e age de modo equivocado. [...] Nomear errado abre espaço para pensar e imaginar como foi nomeado, sentir com foi nomeado e, como consequência, agir errado. [...] O paciente vai construindo uma narrativa em cima de uma mentira. É uma mentira não necessariamente porque ele inventou um fato, mas porque omitiu alguns outros. Ao não falar o que deveria e só pronunciar algumas coisas forma-se uma mentira na qual ele vai acreditando ao longo do tempo. Essa atitude é justamente a neurose na qual ele passa a acreditar e que passa a transfigurar a existência da pessoa. Os pacientes chegam ao consultório com a neurose das palavras. Como consequência, surge o vício das meias palavras. [...] Após ouvir atentamente a fala do paciente, será necessário apontar a falta de clareza e objetividade dele para que a comunicação seja mais ordenada e alcance o objetivo: permitir que o outro compreenda o que ele realmente deseja transmitir. [...] Quanto mais o paciente vive no mundo da neurose das palavras, mais se distancia da verdade. É a realidade paralela. [...] Em muitos momentos, para neutralizar a neurose das palavras, o psicoterapeuta terá de explicar de forma clara e objetiva aquilo que o paciente está tentando expressar sem sucesso. [...] Dar uma boa definição para termos usados no dia a dia faz o paciente se movimentar...para o bem, para a beleza e para a verdade.

2. Ordenamento das paixões

A “paixão” é uma resposta emocional à percepção de algo. O problema obviamente não é “ter” paixões, mas ser vencido por elas. No paciente, nota-se que a paixão é o motor de seus atos porque ele deixa de fazer o que deveria fazer por alguma questão emocional. A rigor, ele é vencido por um sentido (interno ou externo, não importa). As paixões, portanto, não devem ser eliminadas, mas ordenadas. Dessa forma, a vontade, antes escravizada às paixões (a “criança mimada”, o “adolescente rebelde”), será libertada. Vejamos o que diz Tomás de Aquino a respeito:

Pois, estando todas as potências da alma radicadas na essência dela, necessariamente, quando uma [potência] exerce com veemência o seu ato, as outras [potências] sofrem remissão no seu ato, ou mesmo, são totalmente impedidas dele. E isto porque toda potência, capaz de muitos atos, torna-se remissa; onde e ao contrário, quando [uma potência] tende com veemência para um só objeto torna-se-lhe menos possível produzir outros. Ou porque, operações da alma exigem uma certa intensidade, e esta [operação], aplicada veementemente a um objeto, não pode atender a outro [objeto] com a mesma veemência. E deste modo, por uma como distração, quando o movimento do apetite sensitivo se fortifica, por uma determinada paixão, necessário é que sofra remissão ou fique totalmente impedido o movimento próprio à vontade, apetite racional. De outro modo, por parte do objeto da vontade, que é o bem apreendido pela razão. Pois o juízo e a apreensão da razão ficam impedidos pela veemente e desordenada apreensão da imaginação e pelo juízo da faculdade estimativa, com se vê claramente nos dementes. Ora, é manifesto, a apreensão da imaginação e o juízo da estimativa dependem da paixão do apetite sensitivo, assim como a apreciação do gosto depende da disposição da língua. Por isso notamos que os lesados por uma paixão não desviam facilmente a imaginação do objeto do seu afeto. Portanto e consequentemente, o juízo da razão quase sempre é consecutivo à paixão do apetite sensitivo; e, por conseguinte, também o movimento da vontade, que segue naturalmente o juízo da razão. (I-II q.77 a.1)

Muito característico do desordenamento das paixões é a maneira como o amor é encarado nos dias de hoje. Há dois modos, ambos equivocados: ou o amor é algo puramente subjetivo (“toda forma de amor é válida”), ou o amor é apenas um sentimento (ternura, meiguice, doçura). Em ambos os casos está ausente o amor humano, a saber, o amor sublime, ou seja, o amor ordenado capaz de fazer a pessoa superar os prazeres sensíveis. Somente quando as paixões começam a ordenar-se, ou seja, quando o paciente adquire certa liberdade, que ele será capaz de enxergar o valor das coisas à sua volta e se direcionar livremente a elas. O “amor sensível” não liberta ninguém, mas, ao contrário, é mero fruto da escravidão: ele é fruto da autoafirmação, que leva o paciente a concluir que tudo que ele sente é bom e verdadeiro porque “veio dele”. Impossível não detectar aí os males do subjetivismo e do voluntarismo. O amor, em vez de ser um sacrifício unitivo, é um caminho para o mal e o falso. O verdadeiro amor manifesta-se em reeducar a vontade mediante o sacrifício de prazeres sensíveis presentes em prol de um bem maior futuro.

3. A inteligência como centro da personalidade

Personalidade é a pessoa desprovida dos vícios que a impedem de afirmar-se pelo amor. Em outras palavras, uma vida dedicada ao cumprimento de vícios resiste ao florescimento da personalidade porque o amor humano permanece meramente germinal, como que atrofiado.

A inteligência é quem governa a personalidade. Enquanto a vontade, e não a inteligência, estiver no centro da personalidade não haverá autêntica personalidade. Isso porque somente com a inteligência somos capazes de ver o próximo como pessoa, e não como mero objeto do qual possamos nos servir e usar.

O primeiro passo para posicionar a inteligência no centro da personalidade é por meio do dever, pois ele é o lugar de ordenamento. Conforme ordenamos as paixões, torna-se possível estabelecer os deveres, os objetivos, da vida e a eles submeter a conduta, os sentimentos e os pensamentos.

4. Lidar com as dores

Quando por hábito possuímos um bem que queremos então atingimos a felicidade, que, evidentemente, não será a felicidade plena, mas a felicidade possível neste mundo. Um bem que esteja fora da reta ordem será, portanto, um vetor de desordem. A felicidade, conclui-se, é para os fortes, ou seja, para aqueles capazes de enfrentar a si mesmos para se ordenarem.

5. Desenvolvimento de virtudes

Segundo Tomás de Aquino, “A virtude torna bom quem a tem assim como as obras que pratica”. O desenvolvimento de virtudes é, portanto, o mesmo que melhoramento, aperfeiçoamento, aprimoramento. São 4 as virtudes cardeais:

a. Prudência. É o conhecimento das coisas que devemos buscar e evitar. Ela é o índice da maioridade moral, o índice da liberdade.

b. Justiça. É atribuir a cada um o que lhe pertence, o que implica reconhecer a alteridade, ou seja, o outro como um ser pessoal diferente do próprio ser pessoal.

c. Fortaleza. É a capacidade de enfrentar e suportar o sofrimento pelo amor ao bem; é a disposição de arriscar a própria vida para salvá-la, para salvar a honra, isto é, a dignidade humana, pela fidelidade aos próprios valores. É a firmeza para fazer o bem e suportar o mal.

d. Temperança. É moderar o amor a si mesmo. É tomar as necessidades desta vida como a medida do uso dos prazeres. É moderar o agradável, é não dispersar o apetite sensitivo na multiplicidade de objetos que podem atrai-lo. “Não há prazer onde só há prazer”, como dizia Chesterton.

Entre os vícios capitais estão a vanglória (gloriar-se de algo indigno, cujo remédio é a humildade), a avareza (apego a posses materiais, cujo remédio é a generosidade), a luxúria (obsessão pelo prazer sexual incapacitante para a intimidade, cujo remédio é a temperança), a ira (dificuldade em acolher cobranças ou correções, cujo remédio é a paciência), a gula (apetite desordenado por comida e bebida típico de fracos, preguiçosos e egoístas, cuja remédio é a temperança), a inveja (tristeza pelos bens alheios que inutiliza a pessoa para a comunhão social, cujo remédio é a compreensão ordenada) e a acídia (tristeza pelo bem interior, cujo remédio é a diligência).

Fonte: Rafael de Abreu, Introdução à psicoterapia tomista, Editora Domine, Osasco, SP, Brasil, 2023.