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17 de abril de 2010

Considerações ortodoxas sobre o perenialismo


De vez em quando alguém me pergunta o que a Igreja Ortodoxa pensa sobre o perenialismo. Fizeram-me essa pergunta novamente na semana passada e, invariavelmente, a resposta inicial é que a Igreja Ortodoxa, institucionalmente falando, não pensa nada sobre o perenialismo. O que há são afirmações esparsas, considerações breves e inconclusivas. Minha intenção é reunir aqui essas afirmações a título de ponto de partida para quem quiser refletir e explorar o assunto. Há também meus fichamentos de alguns desses textos, e peço ao leitor que tenha a paciência de ignorar minha falta de paciência em editar esse post. São anotações pessoais, feitas sem o devido cuidado. Por fim, acrescento minhas próprias conclusões parciais sobre a questão.

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Talvez o mais famoso ortodoxo a ter contato com o ethos perenialista seja o Pe. Seraphim Rose, de abençoada memória. No entanto, há apenas uma carta em que o Pe. Seraphim versa mais detidamente sobre o assunto e, mesmo assim, apenas para reforçar a um perenialista interessado na Igreja que o Cristianismo Ortodoxo contém a Verdade plena e profundamente, de uma maneira que as demais tradições, sejam as antigas, dos tempos em que os homens estavam mais próximos a Deus, sejam as humanas, a partir de esforços filosóficos, não contêm -- René Guénon não deve acorrentar o leitor, levando-o a imaginar que as tradições sejam equivalentes esotericamente falando, mas apenas ajudá-lo, como o fez ao Pe. Seraphim Rose, a encontrar a Verdade. A carta é interessante, mas sua brevidade às vezes a torna alvo de especulações e tergiversações que ali não se poderiam encontrar. É o caso de James Cutsinger aqui e aqui.

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Conta-se que Frithjof Schuon encontrou-se certa vez com o Ancião Sofrônio (Sakharov), de abençoada memória, e que teria dito que o ancião estaria "enredado na doutrina ortodoxa". Não se sabe, porém, o que o Arquimandrita Sofrônio pensou de Schuon. Talvez uma dica esteja em We Shall See Him As He Is, na qual o ancião conta como entendeu que o Princípio Absoluto não é impessoal, como havia sido treinado a pensar em seus anos budistas, mas que é Pessoal. O Deus impessoal está aquém, e não além, do Deus pessoal.

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O Metropolita Kallistos (Ware) de Diokleia também tem grande interesse pelo perenialismo, mas, pelo que me consta, nunca escreveu explicitamente a respeito. Talvez a mais interessante de suas intervenções no meio perenialista tenha sido um simpósio no qual estavam presentes algumas autoridades perenialistas, como Seyyed Hossein Nasr, James Cutsinger e Vincent Rossi, além do próprio Metropolita Kallistos (aqui e aqui). Na sessão de perguntas e respostas conduzida por James Cutsinger algumas questões resvalaram nos temas da Trindade, apofaticismo etc. Em suma, o Metropolita reforça o entendimento cristão ortodoxo a respeito de Cristo e da Trindade, negando implicitamente o neoplatonismo típico das descrições metafísicas perenialistas -- isso ficará mais claro no próximo trecho, sobre Philip Sherrard. Essa descrição pode ser encontrada em inúmeros textos perenialistas, e a própria explicação de Cutsinger está em seu excelente Advice to the Serious Seeker.

Eis os trechos de interesse:

(1) Nasr repete a tese perenialista de que, no plano metafísico, a Unidade islâmica e a Trindade cristã estão "perfeitamente de acordo".

Cutsinger: Must a Muslim transcend the exclusive emphasis on the Unity of God, adopting a somewhat Trinitarian view, in order to account of how the Nameless One, who is without qualification, can be seen talking with Adam?

Nasr: No. First of all, the Nameless One qua the "Nameless" would never speak to Adam. To have spoken to Adam means that the Nameless must have chosen a Name; in other words, It must have become involved in speech, and so there is already a paradox, a metaphysical paradox, in what is stated. But the point that I think the question is trying to bring out is whether Islam has to give up its absolute view of the Absolute, that is, the oneness of God as the center and axis of all of its belief, in order to understand the Christian perspective on God, man, and the universe. And my answer is no. I would apply in reverse what Vincent Rossi, my old friend, has said from the other side, from the Christian side. There are many people in the Christian world today who think that in order to have a deep dialogue with Judaism and Islam, the Christians have to put aside the dogmas of the Incarnation and the Trinity. I have been involved in religious dialogue for over forty years, and this has often happened. And I have asked what good this understanding does if the person I am talking to no longer represents traditional Christianity? The reverse also holds true for Islam. It would be really senseless for the sake of human understanding to undo God's message. I am totally opposed to any kind of ecumenism that is based on the reduction of the Divine forms and ways in which God has revealed Himself. The premise of this entire conference has been that Christians should accept the Trinitarian doctrine in a serious fashion while Muslims must cling to the doctrine of tawhîd or Unity, and that they then should try to understand each other on the spiritual plane. This is very different from a diluting on either side. In any case, the Muslim mind has no possibility of moving towards a Trinitarian doctrine. It is easier for the Christian mind, in which there is already the element of unity, although it is not much emphasized, to move towards a doctrine of Unity than for a Muslim to move towards the doctrine of a Trinity, which is incomprehensible to it on a popular or exoteric plane. On the metaphysical plane, of course, this has all been explained in the writings of the traditionalists, especially Frithjof Schuon. The doctrine of the Trinity, on a metaphysical plane, is in perfect accord with the doctrine of tawhîd, of Unity, and I for one have no qualm or difficulty about that whatsoever. But this agreement does not involve a change of perspective on the theological level, as this question seems to imply.

(2) O Metropolita Kallistos, por sua vez, não aceita a descrição de Cristo dada pelo Corão.

Cutsinger: The Quran implicitly recognizes Christ's uniqueness by calling Him, Him alone among all of the Prophets, the "Spirit of God" and in saying that He and His mother alone were born perfect and that He will come again at the end of time. Is this understanding of uniqueness, the uniqueness of Christ, sufficient for Christians who wish also to emphasize Christ's uniqueness?

Ware: The uniqueness of Christ, for me as a Christian, consists in the fact that He is the only begotten Son of God. Therefore the uniqueness refers first of all and fundamentally to the incarnation. Only once, according to Christian belief—only once in all the history of the human race—has God become man, in the sense that the second person of the Trinity was born according to the flesh from the Virgin Mary. That is a unique event, so the uniqueness of Christ refers first of all to the fact of the incarnation. Of course, there is another sense in which the word of God may be born in the soul of every believer, but this does not diminish the uniqueness of the event of Christ's birth in Bethlehem. Only once has God been born from a woman. So there, to me, is the uniqueness of Christ.

(3) Cutsinger tenta neutralizar a Trindade e as definições doutrinárias apelando para o apofaticismo. O Metropolita não morde a isca.

Cutsinger: Your Grace, this next question comes directly for you, and it is related to what you were just saying. Although, as Christians, we are always in the presence of the reality of the Trinity, must not an apophatic approach be applied to our formulations of the doctrine of this ever present reality? And, if so, will this apophatic approach not have some bearing on our interpretation of the Islamic insistence on the precedence of the Divine Unity?

Ware: On our Christian understanding, the dogmas of the faith, as defined by the seven Ecumenical Councils, are indeed true, but of course the eternal Truth of the transcendent God cannot be expressed in verbal formulae in an exhaustive fashion. The word "definition" means setting limits and is linked with the Latin word finis, meaning a limit or frontier, and the Greek term for a definition is horos, which is linked with our word "horizon", the limit beyond which you cannot see. So the definitions of the Church exclude certain false ways of thinking about God or Christ. They set a boundary in the sense of saying, Do not wander outside this fence. But as for the Mystery that lies within the boundaries, that can never be totally expressed in words. Therefore, it is true that for me as a Christian God is three in one, and therefore, for me as a Christian, it would be false to say that God is one and not three. And it would be false to say that God is four in one or five in one. These things are excluded. But what is meant by the Mystery of God as "three in one" cannot be fully expressed in words and can be discovered only through prayer. The fact, however, that definitions do not express the total truth does not mean that we lay them aside as provisional and transcend them. We never go beyond the definitions, but we never fully understand the Mystery which those definitions are safeguarding.

(4) Cutsginer tenta de novo, desta vez insinuando que a eliminação dos logismoi na qual o hesicasta deve se esforçar implicaria em eliminar a descrição da Trindade. O Metropolita, novamente, não aceita a insinuação e explica que eliminar pensamentos não significa eliminar convicções e doutrinas. Se me lembro bem, no áudio desse simpósio, ao ouvirem seu "No" inicial, alguns palestrantes riem contidamente.

Cutsinger: When the Hesychasts are taught to lay aside all "thoughts", are they not being taught that in some sense they must lay aside "definitions" as well?

Ware: No, definitely not. But you can believe something without thinking about it all the time. So, the Hesychasts are taught that, when praying, they should have simply a sense of the presence of Christ. They do not formulate in their minds what precise remarks were made concerning the relation between hypostasis and ousia, and how these things are to be interpreted philosophically. They are not using their discursive reasoning to grasp these mysteries so far as they can be expressed philosophically. But you can believe something without thinking about it through your discursive reason, so the fact that you are not thinking about something does not mean that you have ceased to believe in it or that you think you have transcended it.

(5) Por fim, creio que Vincent Rossi expressou razoavelmente bem a questão da Trindade e o "reino da absurdidade", afirmando que a Trindade e a Unidade cristãs tem de ser colocadas no mesmo plano e que quem quer que tente desatar esse nó metafísico estará sujeito a delírio. Embora ele tenha comparado a função do dogma da Trindade com um "koan" budista -- o que creio não ser o caso --, parece-me que Rossi chegou próximo da questão.

Vincent Rossi: In immersing myself in the early Hesychast fathers and, in particular, in St Maximus the Confessor and Dionysius the Areopagite, I have been led to make one or two observations that may be relevant and helpful here. My own observation is that the dogma of the Trinity has a function like a koan, in which the mind or the thoughts are supposed to be broken down in order for an experience to become manifest. So St Gregory the Theologian, for example, will say that anyone who tries to understand the one and the two and the three rationally—I am only paraphrasing—is liable to go into a frenzy, which is what seems to have been happening in some of our discussions. Professor Cutsinger poses the question, If you are asked to go beyond thought, then where is the Trinity? Well, according to St Maximus, the Trinity is beyond thought to begin with, and so there is no problem there; you are already beyond thought—thought simply does not work in that context. Furthermore, I would not be quite honest in this ecumenical setting if I failed to point out that in the Orthodox Hesychast tradition, going from the Cappadocians through Dionysius through Maximus through John of Damascus through Simeon to Gregory Palamas, there is a very clear sense that the Trinity functions as the basis, in part, for a criticism of the doctrine of Unity. One of the things that Dionysius and Maximus are doing when they teach the doctrine of the Trinity is being critical of Unity as a thought, or as a concept. Maximus insists that the Unity of God and the Trinity of God are on the same plane because he knows that as soon as you put them on different planes, you are in the realm of thought. But if you keep them on the same plane, you are messing up all thought—there is no way you can think that. There is, though, a way to enter into the Reality devotionally: with your mind and your heart enduring the remembrance of God in a spirit of devotion, keeping the Unity and the Trinity on the same plane, regardless of what you want to think about, regardless of how much your metaphysically oriented mind wants to put a hierarchy there. If you keep them on the same plane in a spirit of devotion, you may actually be able to remember God, and I think that this is what Maximus is all about.

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Philip Sherrard foi amigo íntimo de Marco Pallis e do Metropolita Kallistos Ware. Em seu último livro -- Christianity: Lineaments of a Sacred Tradition -- escrito meses antes de sua morte em 1995 e extensamente prefaciado pelo Metropolita, Sherrard dedica um capítulo à "metafísica da lógica" de René Guénon. Embora grande admirador de Guénon, Sherrard critica duramente sua exegese metafísica e, por conseguinte, sua tentativa de aplicar uma espécie de neoplatonismo versão remix à Trindade, reduzindo-a a um discurso teológico paroquial e exotérico.

Em The Metaphysics of Logic, a missão de Sherrard é determinar o papel da lógica na formação das premissas (ou "dados primordiais") de uma doutrina metafísica, já que, dadas as premissas, toda doutrina metafísica é lógica (Cristianismo, Vedanta etc.). Sherrard explica a questão contrastando a abordagem cristã com a de René Guénon, mas poderia ser com a de qualquer outra doutrina.

O dado primordial da exegese metafísica de Guénon é a idéia do Infinito -- ou Possibilidade universal -- que, por definição, é livre de toda e qualquer limitação (cf. O Simbolismo da Cruz). Mas a relação entre lógica e Absoluto, que assume um status de axioma, é paradoxalmente uma limitação que Guénon impõe à Possibilidade universal. Em outras palavras, Guénon também cai no erro filosófico de extrair conclusões metafísicas não por via revelatória/iniciática, mas aplicando na ordem metafísica o princípio exegético predicado nesse axioma.

Nos Estados Múltiplos do Ser, Guénon explica que "toda determinação é necessariamente uma limitação", ou seja, toda determinação é também uma negação do Infinito. O corolário do raciocínio é que o Infinito coincide com a Possibilidade universal, pois se houver uma única possibilidade ausente do Infinito, então haverá uma limitação e, portanto, uma negação de sua infinitude.

Contrariamente, uma impossibilidade é um absurdo, ou seja, implica em uma contradição lógica. Assim, o que define uma possibilidade logicamente e ontologicamente é a ausência de contradições. Por conseguinte, o Infinito, enquanto princípio supremo na ordem metafísica, está acima do Ser. Há, assim, uma hierarquia de gradações -- os estados múltiplos do ser -- cuja realidade depende de sua proximidade relativa com o Infinito pré-ontológico.

Guénon vai mais longe: a realidade de uma determinação pertence ao conjunto de possibilidades de determinações, na medida em que estas não se manifestam, mas apenas implicam em sua natureza. Portanto, só o que é possibilidade é real; manifestação e multiplicidade são essencialmente irreais e ilusórias. Há, portanto, uma correlação estrita e rígida entre a ordem metafísica e a ordem lógica. As leis da lógica não apenas derivam, mas se aplicam analogicamente à ordem metafísica.

Na Igreja Ortodoxa, o princípio supremo não é o Infinito impessoal e indeterminado, mas é a Trindade. A essência só subsiste à medida em que é hipostatizada nas três Pessoas. Não há uma Essência impessoal e indeterminada acima dessa Trindade. Cada uma das Pessoas da Trindade é tão real, absoluta e infinita quanto as demais. Não há "três Absolutos", nem há uma Pessoa que detenha o princípio do Absoluto e as demais sejam relativas a ela. Na Trindade, há absoluta unidade e absoluta diversidade.

Ora, aceitar distinções no Absoluto sem distinguir aí certa relatividade é o que Guénon chama de absurdo. Se há determinações in divinis, então cada Pessoa não poderia ser o Absoluto. Deveria haver uma Essência que transcenda as Pessoas. Exatamente por isso Guénon distingue a verdadeira metafísica da mera teologia, que, para Guénon, não possui status metafísico.

Mas a idéia da Trindade é imposta aos cristãos da maneira que o Absoluto lhes foi tipificado pela revelação divina, ou seja, o Absoluto revelou-se como sendo essencialmente paradóxico. Tentar "resolver" o paradoxo ou propor uma doutrina "superior" seria ipso facto denegrir a representação do Absoluto. Para Guénon, a doutrina metafísica tem de se sujeitar aos critérios da lógica, e é a esses critérios que a inteligência humana deve se acomodar ao formular a idéia de Absoluto. Para o Cristianismo, a inteligência humana deve se adaptar ao datum metafísico proveniente da revelação, mesmo que esse implique em violar as leis da lógica. Para os mestres doutrinais da tradição cristã ortodoxa, a discriminação e demonstração lógica é tão plenamente empregada quanto em Guénon, com a diferença que é emprgada dedutivamente, e não "para cima", na tipificação do próprio Absoluto. Isso seria, para eles, extrapolar os limites aos quais se aplicam as leis da lógica. Não é competência da dialética definir o Absoluto, mas da revelação direta ou da inspiração profética. A ratio precisa de um ponto de partida, por definição, e não poderia, portanto, fornecer seu próprio ponto de partida. A ratio é finita e relativa, afinal de contas.

Mas a doutrina guenoniana também apresenta suas contradições. Guénon explica que o Ser "não é determinado, mas determina-se a si próprio" (Estados Múltiplos do Ser). Isso é dito porque o Não-Ser não poderia determinar o Ser sob pena de ter de se reduzir a algo inferior ao Infinito. É uma espécie de "salto quântico" da metafísica guenoniana. Mas como uma determinação (Ser) pode não ser determinada? É uma contradição. Nenhuma determinação tem o direito de possuir o princípio de seu próprio ser, pois nesse caso possuiria um princípio oposto ou à parte do Infinito. É a possibilidade de uma impossibilidade.

Outra contradição: ao tentar "provar a liberdade metafisicamente", Guénon a atribui ao Não-Ser e ao Ser. O Ser seria uma unidade metafísica e não estaria restrito ou limitado. Ora, se o Ser é a primeira determinação, então teria de estar internamente limitado.

O estado manifestado e determinado é, para Guénon, "rigorosamente nada". Pensando assim, ele acaba reduzindo o Ser, e todo o mundo da manifestação, a uma sombra insignificante. A criação não tem valor positivo e assim não tem destino eterno concreto. É uma doutrina de natureza anti-encarnacionista e anti-sacramental.

Como se sabe, Guénon expressa a idéia de Infinito em termos negativos: indeterminado, impessoal, inqualificado etc. Mas isso recai no oposto, pois dEle exclui-se tudo o que é de natureza determinada, pessoal, qualificada etc. O Não-Ser acaba sendo limitado pela inaplicabilidade de termos positivos. É um "Não-Serzinho".

Uma solução para esse dilema seria adotar justamente a postura apofática radical da Ortodoxia, uma agnosia radical, ou seja, um Absoluto que não seja nem determinado nem indeterminado, nem Ser nem Não-Ser, nem pessoal nem impessoal, nem Um nem Três, que esteja além de toda afirmação e de toda negação. Em suma, um Absoluto que só possa ser expressado de maneira antinômica e paradóxica.

Sherrard concluir que o critério para formar o conceito de Absoluto acaba substituindo o próprio datum primordial dado pela revelação.

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Por fim, há um texto do filósofo Timothy A. Mahoney, que nas entrelinhas (e nas notas de rodapé) critica Frithjof Schuon de maneira bastante semelhante à crítica de Sherrard a Guénon. Não é um texto ortodoxo, mas pode ser de algum valor para aqueles que buscam refletir sobre a relação da Igreja com o perenialismo. Mahoney faz uso de Vladimir Lossky, dos Padres da Igreja e de autores escolásticos (sobretudo Boaventura).

No âmago do Cristianismo residem dois mistérios fundamentais: a Trindade e a Encarnação. A questão central que se apresenta ao metafísico é: esses mistérios ocultam uma realidade mais profunda, ou esses mistérios já são por si mesmos o ne plus ultra da metafísica?

Trindade

São Dionísio, o Areopagita, escreveu em Mystical Theology, que "a Trindade é superior ao Ser". É uma afirmação estranha porque, segundo a tradição platônica -- cuja expressão máxima deu-se entre os neoplatônicos--, o Ser faria parte do reino da multiplicidade, enquanto o Sobre-Ser é que faria parte propriamente do reino da simplicidade/unidade. Tal afirmação torna-se ainda mais estranha porque São Dionísio supostamente teria sido formado nessa mesma escola neoplatônica. Ora, como São Dionísio pôde inserir a multiplicidade no âmbito do Sobre-Ser?

De acordo com Plotino, devemos distinguir entre o ser e o devir. O Intelecto (Noûs) representa o âmbito das formas, isto é, dos inteligíveis, pois estão todos co-presentes em pensamento, constituindo assim uma multiplicidade una do autoconhecimento. Mas esse Ser/Intelecto/Noûs ainda está no âmbito da multiplicidade, e não poderia, portanto, ser o Absoluto.

Assim sendo, o Sobre-Ser é de fato a unidade perfeita, sem multiplicidade alguma. O Sobre-Ser transcende e é anterior a todas as coisas, embora esteja imanente em todas as coisas pois a unidade é a condição sine quâ non de qualquer realidade. Ora, se o Uno (Sobre-Ser) é a perfeita simplicidade, então ele não pode possuir nenhum traço determinado, finito. Por conseguinte, somos obrigados a concluir que o Uno é inconcebível e inefável.

Ocorre que a descrição que acabamos de fazer do Sobre-Ser aplica-se igualmente bem à Trindade da tradição cristã. Isso pode ser facilmente inferido, por exemplo, a partir dos estudos das obras de São Dionísio, como Mystical Theology e Divine Names. A Trindade encaixa-se perfeitamente na descrição neoplatônica do Sobre-Ser, ou seja, a Trindade é, em última análise, simples, perfeitamente una e fonte principial de unidade e ser para toda a realidade.

Ora, se é assim, é justo que os metafísicos se perguntem: a Trindade está realmente no mesmo nível de realidade daquilo que podemos chamar de "simplicidade perfeita"? Os cristãos insistem que a Trindade está, sim, nesse mesmo nível de realidade e que deve efetivamente ser chamada de "simplicidade perfeita". Então, a próxima pergunta que os metafísicos fariam é: como pode aTrindade estar no nível mais alto de realidade sem que comprometa a simplicidade divina?

Em poucas palavras, a resposta é que a Trindade não compromete a simplicidade divina porque não introduz nenhum componente no divino. As pessoas da Trindade não são partes do divino; cada pessoa é, na verdade, o Deus inteiro. Em outras palavras, (1) cada pessoa é a ousia por inteiro e (2) as pessoas distinguem-se por suas relações.

É neste ponto que a revelação cristã em última análise supera o platonismo e as demais doutrinas metafísicas que excluem a multiplicidade do Absoluto. A descrição plotiniana da emanação sugere que os níveis de realidade distintos do Uno existem porque, como diz o lema escolástico, bonum diffusivum sui, ou seja, "o bem se difunde". A idéia de Plotino -- talvez motivado pela tentativa de preservar seu conceito de simplicidade -- é de que qualquer difusão do bem por parte do grau máximo de realidade, isto é, pelo Uno, leva necessariamente à produção de níveis inferiores de realidade -- inferiores ao próprio Uno, evidentemente. Há em Plotino uma espécie de "trindade subordinacionista", a saber, Uno, Noûs e Alma. Mas é precisamente aqui que a doutrina metafísica cristã se distingue da metafísica neoplatônica. A geração do Filho e a procedência do Espírito a partir do Pai anarchos (inprincipiado) são perfeitos em um sentido que a emanação plotiniana não é.

É verdade que o Absoluto deve possuir o traço da simplicidade. Se não fosse assim, essa unidade seria, na verdade, um composto, cuja unidade teria de ser explicada por um princípio superior a si. Ocorre que o Absoluto também tem de possuir multiplicidade, sob pena de faltar-lhe a autodifusão do bem. É precisamente porque o Pai manifesta a perfeita autodifusão do bem ao comunicar aos demais "sua substância e natureza" que não se pode atribuir o Absoluto somente ao Pai.

Isso explica por que a Trindade confunde a ânsia natural humana em querer encontrar a pura unidade, e isso também explica por que pessoas cultas e de grande fé rejeitam a revelação cristã, apegando-se a velhas suposições e relegando a revelação cristã como algo inferior à realidade última (o autor cita Frithjof Schuon como exemplo). Como a Trindade supera as pressuposições humanas mais arraigadas e entranhadas, é compreensível que não haja argumentos que convençam essas pessoas a afirmarem a Trindade, mesmo com base na autodifusão do bem que mencionamos acima.

Mas muitos cristãos veladamente negam ou "se esquecem" de que a doutrina da Trindade contém o ne plus ultra da sabedoria metafísica. Há muitos mal-entendidos em relação à doutrinda trinitariana sobretudo por causa da linguagem e dos termos empregados para formulá-la, que são mais complexos e desafiadores do que a metafísica neoplatônica, que é um tanto quanto gross metaphysics.

No entanto, os problemas encontrados para formular uma linguagem digna da sabedoria metafísica cristã não deveriam nos surpreender. Afinal, ela procura expressar aquilo que, em última instância, é literalmente e estritamente incompreensível. Em outras palavras, os cristãos defendem um apofaticismo radical no tocante à Trindade. A expressão tradicional "um Deus, três Pessoas" evita qualquer tipo de contradição porque ela não associa predicados contraditórios a um mesmo sujeito. Veja: não se diz que "um Deus são três Deuses" ou que "uma Pessoa são três Pessoas". No entanto, embora evite-se uma contradição formal nessa expressão, não podemos entender como tal expressão possa ser verdadeira. Em outras palavras, a Trindade não viola as leis da lógica, mas as transcende.

Encarnação

Se as hipóstases divinas fossem simplesmente idênticas à natureza divina, então não haveria três hipóstases, mas apenas uma; por conseguinte, uma hipóstase não é simplesmente idêntica à natureza divina. Este raciocínio é fundamental porque implica que o Filho não é simplesmente idêntico à natureza divina, o qual torna logicamente possível que o Filho também assuma uma natureza humana. Se o Filho fosse simplesmente idêntico à natureza divina, então seria impossível o Filho assumir uma natureza humana, pois os atributos do Filho seriam incompatíveis com os atributos da natureza humana (por exemplo, onisciência vs. conhecimento limitado).

O Filho recebe a natureza divina do Pai e assume a natureza humana, mas o Filho não é simplesmente idêntico a nanhuma dessas duas naturezas. O que seria incoerente aqui é se as duas naturezas se tornassem uma só natureza: eis por que os monofisistas estão errados. Podemos atribuir onisciência e poder asboluto ao Filho em virtude de Sua natureza divina; podemos atribuit conhecimento limitado e poder limitado ao Filho em virtude de Sua natureza humana. Não há contradição aqui.

Assim como no caso da Trindade, a Encarnação não contém contradições, mas ela rompe os esquemas conceituais humanos.

Criação

Se o Uno plotiniano deve efetivar seu bem auto-difusor, então ele deve "criar", isto é, ele deve produzir algo em um nível de realidade inferior a si próprio. Do lado cristão, a autodifusão do bem enraizada no Pai resulta em duas Pessoas que têm o mesmo nível de realidade do Pai. A perfeita autodifusão do Pai relega os atos menos perfeitos de difusão como sendo atos supérfluos. Vemos, assim, que a criação é necessária para o Uno neoplatônico, mas desnecessária para a Trindade cristã. É apropriado que Deus crie, mas, em última instância, é desnecessário que Deus o faça, uma vez que a autodifusão ("amor") já é perfeita na Trindade.

De acordo com Plotino, o nível mais baixo na hierarquia do ser, isto é, o mundo material, está eternamente apartado de sua fonte, isto é, do Uno. O mundo material, sob esse ponto de vista, será eternamente apenas o "posto avançado" da realidade, estará eternamente a um passo no não-ser, e será eternamente uma espécie de "anfiteatro do mal". A escatologia cristã é radicalmente distinta dessa escatologia neoplatônica. O mundo material tem de ser transformado e inserido na vida da Trindade. Enquanto que, para Plotino, a genuína alteridade, a qual implica em multiplicidade, é vista como indigna do Absoluto, os cristãos entendem que a alteridade é parte integrante do próprio tecido do qual é feito o Absoluto.

Ademais, Plotino insinua que a identidade pessoal dilui-se por completo ao entrar em união com Deus. Dizemos "insinua" e não "afirma" porque a descrição de Plotino a respeito da união é breve demais para que possamos conferir-lhe certeza. Na descrição cristã da união com Deus (theosis), a união implica na preservação da identidade individual. Na verdade, quando adentramos na vida da Trindade, adentramos também na vida das demais criaturas que estão em união com o divino. O resultado é uma espécie de perichoresis de criatura com criaturas e de criatura com Criador. O Cristo, o Logos eterno, juntamente com o restante da Trindade, gera a criação a fim de que Ele se una a ela, de maneira que, mediante tal união, Ele possa inserir todas as coisas na vida da Trindade, da qual Ele já desfruta. O processo mediante o qual Deus escolheu efetivar a união do Criador com a criatura funda-se na benevolência pura e simples. Do ponto de vista trinitariano, o Filho é o Logos, ou seja, é a auto-expressão perfeita do Pai, e, portanto, faz sentido que o processo mediante o qual as criaturas sejam divinizadas implique na mais perfeita auto-expressão do Logos no tempo.

Em suma, a Trindade, revelada mediante a Encarnação, é a Verdade da realidade incriada, enquanto Jesus Cristo, cuja realidade só pode ser entendida no contexto trinitariano, é a Verdade da realidade criada.

No entanto, cabe salientar que essas duas Verdades só podem ser melhor assimiladas mediante uma gnose transformadora. Metafísica não é um conjunto de proposições sobre a estrutura da realidade. Metafísica é o tipo de conhecimento mencionado por São Pedro: Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento (epignoseos) daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo. (II Pedro 1:3-4).

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Por fim, uma breve crítica de James Cutsinger ao Metropolita Kallistos (aqui e aqui) também revela, indiretamente, o que este pensa das invocações não-cristãs: elas não estão no mesmo nível da invocação cristã. É compreensível que Cutsginer discorde.

One well known authority on the spirituality of the Christian East has written that "the Jesus Prayer is fundamentally Christocentric. We are not simply invoking God, but our words are addressed specifically to Jesus Christ—to God incarnate, the Word made flesh, the second Person of the Holy Trinity who was born in Bethlehem, truly crucified on Golgotha, and truly raised from the dead". This same writer adds, with specific reference to the Sufi practice of dhikr, that "a religion such as Islam which rejects the incarnation cannot be invoking God in the same way as Hesychasm does", and he suggests that we should compare the invocatory method of prayer to a picture frame, while the specific name that one invokes in any given prayer may be likened to the image within that frame. "Despite the resemblances between the 'frame' of the Jesus Prayer and certain non-Christian 'frames'," he concludes, "we should never underestimate the uniqueness of the portrait within the 'frame'. Techniques are subsidiary; it is our encounter face to face, through the prayer, with the living person of Jesus that alone has primary value". [Kallistos Ware, "Praying with the Body", 31]

But is this really true? Is it thus, and thus only, that one may engage in this prayer? The teachings to which I have been calling your attention in this paper suggest otherwise, and I therefore find that I must respectfully disagree with this author. The inner emptiness which the Christian aspirant is encouraged to seek and the inner plenitude of the Name which he is taught to invoke prove, if anything, that Hesychasm and Sufism are all but identical. Indeed, it is precisely because of the often remarkable parallels between the teachings of certain Eastern Fathers and their counterparts in other religious traditions that Christian exoterists, including those of the East, are sometimes mistrustful of the Hesychast writers. The Orthodox scholar John Meyendorff, for example, voices his concern about what he calls the "individualistic and spiritualized tendency" of St Gregory of Sinai, and much the same reservation is expressed, more forcefully, by the Catholic theologian Hans Urs von Balthasar, who complains that "the mystical teaching of Evagrius in its fully developed consistency stands closer to Buddhism than to Christianity". The criticism of Protestant writers often goes even further, of course, extending to the via negativa as such and thus to one of the distinguishing marks of the Eastern perspective in general. Luther was doubtless speaking for many others when he wrote that "Dionysius is most pernicious; he Platonizes more than he Christianizes".

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Minhas conclusões provisórias:

(1) O perenialismo é útil para que o cristão aprenda a identificar, valorizar e respeitar a tradição. Ele também é útil para converter pessoas com inclinação intelectual à fé cristã, assim como é útil para convertê-las a outras tradições.

(2) Outras tradições podem ser salvíficas, mas não significa que elas levem ao mesmo grau de glorificação que o Cristianismo leva. A iluminação fora do Corpo de Cristo não implica necessariamente em prelest (cf. a iluminação dos profetas do Velho Testamento), mas a iluminação dentro do Corpo, cuja Luz advém das energias divinas em comunhão com a natureza humana do Cristo, é superior àquela.

(3) A descrição metafísica perenialista (Não-Ser, Ser) está em desacordo com a descrição cristã, mas, por ser semelhante ao neoplatonismo (Uno, Noûs), é útil para que o cristão compreenda muitas heresias cristãs e algumas descrições de Orígenes e Evágrio Pôntico.

(4) O perenialismo pode ser perigoso pois pode, para além de levar as pessoas à tradição cristã, substituir a própria tradição cristã por si próprio.

11 de dezembro de 2008

Entrevista com o Bispo Calisto Ware

Entrevista publicada na revista Road to Emmaus [Estrada de Emaús] no 3º trimestre de 2002.

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Nota editorial: De 8 a 10 de feveiro deste ano [2002], um membro do conselho administrativo de Estrada de Emaús esteve no retiro de fim-de-semana da Catedral Ortodoxa Antioquina de São Jorge, em Wichita, Kansas, EUA. Lá estava o Bispo Calisto Ware [elevado a Metropolita em 2007] de Diocléia na Grã-Bretanha. Há mais de 40 anos, o Bispo Calisto escreveu uma clássica introdução à Ortodoxia que, desde então, nunca foi superada em clareza, profundidade e objetividade: The Orthodox Church. Nas décadas seguintes, além de professor de Estudos em Cristianismo Oriental e pastor da paróquia ortodoxa em Oxford, ele também co-traduziu o Triodion Quaresmal e o Menaion das Festas para a língua inglesa, bem como quatro volumes do maior clássico da espiritualidade ortodoxa, a famosa Filocalia [volumes 1, 2, 3 e 4 -- o 5º e último volume ainda não foi publicado]. A dívida que o mundo de língua inglesa tem por suas explicações claras e concisas e por suas traduções fiéis às fontes e ofícios originais é enorme. Estrada de Emaús acrescenta sua parte a esta dívida, já que Sua Graça se dispôs gentilmente a nos responder algumas perguntas.

EDE: Sua Graça, muitos ortodoxos vieram de famílias católicas, protestantes, e até mesmo agnósticas. Eles em geral sentem que foi o próprio Cristo quem os conduziu à Ortodoxia. Quando nos tornamos ortodoxos, topamos com certo “constrangimento de riquezas” – ícones, ofícios, a tradição patrística, a história da Igreja – de maneira que ficamos tentados em mergulhar de cabeça nisso tudo. No entanto, é muito comum trazermos conosco experiências de cultos muito racionais ou muito emocionais. Como um convertido deve adentrar à Igreja sem que incorra nesses extremos? Não desejamos romper os laços com o passado e com as valiosas lições que aprendemos pelo caminho, mas como proceder para nos inserirmos plenamente na tradição? A Oração de Jesus é uma porta acessível ao recém-convertido?

BISPO CALISTO: Sim. O primeiro ponto que temos de entender, o qual você mesmo já citou, é que quando nos tornamos ortodoxos, devemos encarar este fato como o cumprimento de nosso passado, e não como sua negação. Devemos encará-lo como a afirmação de tudo aquilo que é bom em nossa experiência pregressa. Para mim, é sempre muito triste ver ortodoxos atacando as comunidades cristãs às quais pertenceram no passado. É claro, talvez eles queiram dizer por que se tornaram ortodoxos, ou o que eles encontraram na Ortodoxia que não havia anteriormente, mas eles devem sempre ter em mente que suas antigas comunidades cristãs, se tiveram uma, é o que os levaram à Ortodoxia. Portanto, devemos encarar a Ortodoxia como o coroamento, ou seja, como a afirmação de tudo aquilo que é bom, e não apenas como ruptura.

Dito isto, é verdade que trazemos muita bagagem conosco, e precisamos nos desfazer de parte dessa bagagem. No entanto, a coisa mais importante para uma pessoa não-ortodoxa que se sente atraída pela Ortodoxia – e aqui não importa se ela pertence a outra comunidade cristã ou se é agnóstica – é que ela deve experimentar a Ortodoxia como uma via de oração, como uma comunidade de oração.

A primeira coisa que digo a alguém que esteja interessado na Ortodoxia é: “Aprenda a rezar com a Igreja Ortodoxa”. Isso significa comparecer à Divina Liturgia (sem participar da Santa Comunhão, é claro), mas comparecer à Liturgia todo domingo, caso esteja sinceramente interessado em se juntar à Ortodoxia. Em paralelo, utilize as orações ortodoxas nas suas orações diárias, e aqui a Oração de Jesus tem seu papel. Eu os encorajo, antes mesmo de se tornarem ortodoxos, a começar a rezar a Oração de Jesus de maneira simples, mas séria e consistentemente.

Portanto, a melhor maneira de se aproximar da Ortodoxia é por meio da oração. Sim, devemos ler livros, devemos conversar com outros ortodoxos, mas, acima de tudo, devemos aprender a rezar com a Igreja Ortodoxa. Ora, é claro que isso não eliminará todas as posturas não-ortodoxas, mas, no mínimo, é por aí que devemos começar.

Então, sendo mais específico em relação à sua pergunta, o que significa ser uma pessoa? Possuímos um cérebro que raciocina, e trata-se de um dom de Deus que deve ser usado de maneira plena. Possuímos emoções, e elas também não devem ser suprimidas. Elas devem ser postas a serviço de Deus. Mas temos de reconhecer que a pessoa humana é mais do que apenas faculdades racionais e mais do que apenas sentimentos e afinidades emocionais.

Esse “algo a mais” é exatamente aquilo que a literatura tradicional ortodoxa resume em dois termos: noûs e espírito. Noûs é uma palavra difícil de traduzir. Se disséssemos que é “mente”, seria vago demais. Na tradução que fizemos da Filocalia, optamos em traduzi-la, com muita hesitação, por “intelecto”, deixando claro que “intelecto” não designa em princípio a faculdade racional do homem. [Muitos tradutores contemporâneos têm optado por não traduzir a palavra noûs, deixando-a no original grego - N. do T.] O noûs é a visão espiritual que todos nós possuímos, embora a maioria não a tenha descoberto ainda. O noûs implica em apreciação direta e intuitiva da verdade, na qual a verdade é apreendida não como se fosse a conclusão de um raciocínio, mas simplesmente vemos que algo é assim.

O noûs também é cultivado por meio do estudo, do treinamento de nossas faculdades, mas ele também é desenvolvido por meio da oração, do jejum, e da vida cristã em geral. É isso que, mais do que tudo, precisamos desenvolver enquanto ortodoxos. É algo muito mais importante e elevado do que o cérebro racional e muito mais profundo que as emoções.

EDE: Quando tentamos alcançar esse algo a mais, tudo na Ortodoxia aponta para a Santíssima Trindade e, em especial, para o Senhor, já que ele também era humano. Em sua opinião, qual o melhor caminho para que um convertido possa alcançá-Lo? O senhor mencionou a Oração de Jesus como parte integrante desse caminho. O senhor poderia esclarecer melhor o assunto?

BISPO CALISTO: De fato, a Oração de Jesus é uma via para cultivar a visão espiritual. Não se trata de uma forma de imaginação discursiva, que supostamente nos forneceria novos retratos imaginários sobre como Cristo era; também não é uma forma de imiscuir-se em argumentos teológicos que nos conduziriam a novas idéias sobre Cristo. Na verdade, a Oração de Jesus apela diretamente ao noûs, ao coração, ao espírito. Esta é uma das maneiras de alcançar este nível especial de pessoalidade do qual estávamos falando. Eu não diria que é a única via, além de que a Oração de Jesus existe num determinado contexto. Ela pressupõe que as pessoas que rezam a Oração de Jesus estejam plenamente imersas na vida sacramental da Igreja, sobretudo no sacramento da confissão e da Santa Comunhão. A Oração de Jesus anda de mãos dadas com a vida sacramental.

No entanto, gostaria de mencionar, além da Oração de Jesus e da vida sacramental, a especial importância da leitura das Escrituras. Alguns convertidos não se atentam a este detalhe porque, em geral, se entusiasmam tanto com os ícones, com o incenso, com a riqueza da Divina Liturgia etc., mas também devem refletir como é profundo o elemento bíblico e evangélico na Ortodoxia. Por “evangélico”, refiro-me ao sentido literal de “viver nos Evangelhos”.

Na Ortodoxia, cultivamos um modo todo particular de ler as Escrituras. Era algo comum tanto no Oriente quanto no Ocidente, embora não seja agora muito comum no Ocidente. Devemos ler a Bíblia não necessariamente munidos de um monte de comentários, mas devemos lê-la lentamente – ouvindo-a, lendo-a como se tivesse sido endereçada a mim mesmo. Leia-a cuidadosamente, de maneira reflexiva, meditativa, contemplativa, mas sem desenvolver argumentos, porém com uma postura de simplesmente ouvi-la.

Este é o modo tradicionalmente ortodoxo de ler as Escrituras. Não as lemos rodeados de comentários, embora isso também tenha a sua importância, mas as lemos como parte de nossas orações – não como um estudo racional mas como um ato de oração. Não devemos forçar o sentido das Escrituras de maneira que se conformem artificialmente à nossa própria condição, mas, à medida que as lemos, devemos aplicá-las a nós mesmos, não com exemplos confeccionados a partir da imaginação, mas simplesmente ouvindo-as. Creio que se as Escrituras fossem lidas desta maneira, elas nos ajudariam a cultivar uma relação pessoal com Jesus Cristo.

Quanto à Oração de Jesus, é bom sempre nos lembrarmos que ela não é uma técnica de relaxamento ou concentração. Ela é, isso sim, uma invocação pessoal, são palavras de oração direcionadas especificamente à pessoa de Jesus, nosso Salvador.

EDE: Quando comecei a ler livros ortodoxos, muitos anos atrás, iniciei pelos Relatos de um Peregrino Russo. Tínhamos também, na época, a tradução inglesa da Filocalia. Quando eu descobri que os Relatos se baseavam em livros reais, que a Filocalia existia, comprei-a imediatamente com a esperança de que, “Ahá! Agora sim, vou conseguir rezar como o peregrino”. Porém, assim que comecei a ler a Filocalia, percebi que a leitura era dificílima, que era algo que estava anos-luz à frente das minhas limitadas experiências, mas que também tinha algo a ver com o conceito de “mente no coração”. Depois de uns quatro ou cinco capítulos, a gente percebe que não tem absolutamente nenhuma idéia de como aplicar esse conceito, e fica pensando: “Será que minha mente já está no coração? Como eu chego lá? Será que eu deveria estar fazendo alguma coisa, ou será que Deus vai fazer alguma coisa por mim para que isso aconteça? Será que eu devo pensar, será que eu não devo pensar...?”

BISPO CALISTO: Sim. Em primeiro lugar, a Filocalia não é um livro fácil. De qualquer maneira, as obras da edição grega não estão organizadas por nenhum critério, ou melhor, a seqüência é meramente cronológica, mas não há um arranjo sistemático de tópicos. É até possível que leiamos a Filocalia a fim de saber o que Deus tem a dizer a nosso coração, mas é muito melhor que a leiamos com auxílio e orientação.

Se me pedissem para recomendar textos da Filocalia, eu sugeriria os Cem Textos (a Centúria) de Calisto e Ignácio Xanthopoulos. Eles se encontram no quinto volume da Filocalia, o qual ainda não foi publicado, mas que pode ser encontrado em inglês numa antiga tradução feita a partir de uma tradução russa feita por São Teófano, o Recluso, em Writings from the Philokalia on Prayer of the Heart [Textos da Filocalia sobre a Oração do Coração]. É um excelente começo. Depois, sugeriria que as pessoas lessem Hesíquio, do primeiro volume; do segundo volume, a vida do Ancião Filomeno; e também, talvez, as obras mais curtas de São Gregório do Sinai, que se encontram no quarto volume.

São textos muito úteis para principiantes mas, repito, temos de reconhecer que a Filocalia é um livro difícil. Quiçá, quando terminar o quinto volume, com a graça de Deus, eu possa preparar uma espécie de introdução à Filocalia, a qual conteria os textos mais fáceis organizados por temas. Não seria um substituto à tradução completa, mas uma introdução.

Outro livro que pode ajudar as pessoas, algo mais fácil e simples que a Filocalia, é uma antologia publicada em inglês com o título de The Art of Prayer [A Arte de Rezar], pelo Hegúmeno Chariton de Valamo. Acho que os ensinamentos da Filocalia ficam bem mais fáceis por meio das explicações de São Teófano e Santo Ignácio Brianchaninov.

Quanto à questão da mente no coração, eu não recomendaria que as pessoas começassem a pensar nisso. Eu diria para começarem com a Oração de Jesus em si. Não pense “Onde está minha mente? Será que está no coração?” Não pense “Estou rezando a Oração de Jesus”. Em vez disso, pense em Jesus. O ponto de partida é recitar a Oração de Jesus confinando a mente nas palavras da oração. Temos de estar cientes que estamos falando a Jesus. São palavras vivas de oração direcionadas para outra pessoa viva. Não fique pensando “Onde está minha mente?” Não pense em seu próprio ego, pense apenas em Jesus. Confine sua mente nas palavras da oração: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”. Concentre-se na própria recitação da oração, e todo o resto seguirá como e quando Deus desejar.

EDE: Algumas pessoas, sobretudo monges, rezam certa quantidade de Orações de Jesus por dia; outros rezam por um determinado período de tempo. O que o senhor sugeriria para um iniciante?

BISPO CALISTO: Ambas as formas são aceitáveis. No entanto, eu sugeriria a um iniciante que reserve um período de tempo, sem dar muita importância ao número de orações que conseguir recitar. Na verdade, é possível combinar as duas formas porque você rapidamente descobrirá quanto tempo leva para rezar cem Orações de Jesus. Se eu levo doze minutos, então reservarei, digamos, 25 minutos para rezar 200. Mas isso seria apenas uma sugestão. Comece com a idéia de reservar um tempo para isso. A quantidade de vezes que conseguir rezar a Oração de Jesus é menos importante, mesmo porque há muitas e diferentes tradições. Na Grécia, é comum rezá-la rapidamente, enquanto na tradição russa é costume rezá-la mais lentamente.

EDE: Se temos de rezá-la com atenção e amor, acho que faz mais sentido recitá-la lentamente. Como é possível rezá-la rapidamente, como sugere a tradição grega?

BISPO CALISTO: Eu prefiro a tradição de rezá-la mais lentamente, mas não quero julgar ninguém só porque não recito a Oração de Jesus rapidamente. Se você rezá-la livremente, ao longo do dia, conforme suas tarefas diárias lhe permitirem, é provável que o fará rapidamente, mas não tenha dúvida de que eu recomendaria às pessoas que, no tempo específico que reservarem para rezar, que o façam lentamente.

Ora, os monges frequentemente possuem regras que determinam uma quantidade fixa de repetições. Creio que isso é mais adequado à vida monástica porque ali há uma vida disciplinada, com uma seqüência fixa e elaborada de ofícios litúrgicos, de maneira que a regra de oração acaba se inserindo nesse contexto. É um contexto bem mais estruturado. Ali faz sentido dizer: “Ok, agora você vai rezar trezentas Orações de Jesus com determinado número de metanias, sejam inclinações ou prostrações”.

Quanto aos leigos, no entanto, é muito melhor dizer: “Bem, é razoável que eu reserve tanto e tanto de tempo pela manhã ou à noite”. Pode ser apenas 25 minutos, mas isso já vai fazer uma diferença enorme. Você começa daí, sem se preocupar com quantidades. Conforme ensinava Santo Isaque, o Sírio: “Não quero contar marcos, quero entrar no leito nupcial”.

EDE: Obrigado, Sua Graça, a entrevista foi excelente. Temos uma última pergunta, formulada por uma pessoa do auditório durante sua palestra, e que acho particularmente importante. Como a Oração de Jesus, que aparentemente é direcionada somente a uma pessoa da Santíssima Trindade, participa na liturgia trinitariana e na vida de oração da Igreja?

BISPO CALISTO: A dimensão trinitariana da oração é, de fato, uma questão fundamental. Não há oração verdadeira sem a Santíssima Trindade. Você poderia perguntar: “Ora, a Oração de Jesus é uma oração trinitariana?” De fato, isso faz sentido se nos detivéssemos somente em seu aspecto mais exterior; mas se nos aprofundarmos na oração, encontraremos uma dimensão trinitariana na Oração de Jesus. Primeiramente, a Oração de Jesus, sim, é uma oração direcionada a Cristo, mas falamos de Cristo enquanto Filho de Deus, e aquele que fala do Filho, fala, por conseguinte, do Pai, de maneira que, ao falar a Jesus enquanto Filho de Deus, estamos certamente incluindo em nossa oração a pessoa de Deus Pai.

E o Espírito Santo? Ele não é explicitamente mencionado na oração, mas Ele é, a despeito disso, a atmosfera na qual a oração é recitada. Um dos textos mais importantes da história da Oração de Jesus está em I Coríntios 12:3: Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo. Os santos que versam sobre a Oração de Jesus repetem este versículo das Escrituras muitas e muitas vezes. Embora o Espírito Santo não seja mencionado, Ele está ali. Invocamos Jesus no Espírito Santo. É propósito do Espírito Santo nos levar a Cristo.

Na última ceia de nosso Senhor, Cristo afirma: “Ele não falará de Si próprio, ou por Sua própria autoridade, Ele tomará o que é meu e mostrar-vos-á”. Portanto, precisamente, a função do Espírito na economia trinitariana é levar-nos a Cristo, e Cristo leva-nos ao Pai. Dessa forma, a Oração de Jesus, implicitamente, é uma oração verdadeiramente trinitariana. Uma boa maneira de pensar sobre oração é não achar que eu estou falando com Deus: “Eu, uma pessoa aqui embaixo, estou tendo um diálogo com Deus lá em cima”. Devemos pensar assim: “Eu estou entrando no diálogo de amor que continuamente perpassa por entre as Três Pessoas da Trindade”. Assim, quando rezo, não sou bem eu que estou rezando, mas é como se eu estivesse adentrando em um diálogo que já está ocorrendo. Desde a eternidade, já há um diálogo na Divindade, um diálogo de amor. Desde a eternidade, a Primeira Pessoa diz à Segunda: “Tu és meu Filho amado”. Desde a eternidade, a Segunda Pessoa responde à Primeira: “Abba, Pai, Abba, Pai”. Desde a eternidade, o Espírito Santo sela essa troca entre Pai e Filho. Assim, quando rezamos, não somos exatamente nós que rezamos, mas nós adentramos no diálogo da Trindade. Através do Espírito Santo, somos levados a falar as palavras de Cristo como se fossem nossas. No Espírito Santo, dizemos: “Abba, Pai”, e assim nos tornamos parte do eterno diálogo trinitariano.

É desta maneira que a oração é entendida, particularmente em Romanos 8. Se a lermos com cuidado, constataremos que ali há essa idéia de oração enquanto inserção no diálogo da Trindade. Podemos não sentir isso de imediato, conscientemente, mas é isso que acontece. Tornamos-nos parte do diálogo trinitariano de amor. Através do Espírito, nos tornamos filhos no Filho, e com o Filho dizemos ao Pai: “Abba, Pai”.