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10 de junho de 2025

Gnose, o sobrenome da rosa


Maldito o homem que confia no homem. (Jeremias 17:5)

Positivistas vs. herméticos (ou racionalistas panteístas vs. místicos gnósticos, ou ockhamistas vs. echartianos)

A Idade Média assistiu, em sua agonia, a um grande debate filosófico religioso. Perdido o equilíbrio do tomismo, o homem medieval caiu em dois extremos opostos. De um lado, estavam os humanistas racionalistas de tendência panteísta cuja figura símbolo foi Frei Guilherme de Ockham, um Édipo moderno. Tais humanistas cultuavam o Homem como supremo valor e medida de um universo divino. Queriam destruir a sociedade medieval teocêntrica e estabelecer uma nova cosmovisão antropocêntrica. Julgavam que, graças à ciência e à técnica, o homem seria capaz de vencer todas as misérias do mundo, até criar uma era de grande prosperidade material e de completa felicidade natural. Eles punham essa esperança no Homem, redentor de si mesmo, construtor da Utopia. Do lado oposto, situavam-se os místicos de tendências gnósticas, cuja figura mais característica foi, nessa época, Mestre Eckhart. Esses místicos tinham uma visão extremamente pessimista da realidade. Para eles, o mundo era intrinsecamente mau e irredimível por ser obra de um deus perverso, distinto da Divindade. Entre a Divindade boa e o mundo, haveria um abismo absoluto. Se a Divindade era o Ser, o mundo criado seria o Nada. Se o mundo das criaturas era formado por seres, então a Divindade era o Nada absoluto.

Para estes místicos, a razão humana era má e só seria desejável perder-se no Nada divino. O demiurgo, criador mau, dotara o homem de razão para que esta o enganasse, apresentando-lhe o mundo como inteligível e, portanto, como bom. A ciência e a técnica eram ilusórias. A redenção seria obtida por uma fuga mágica do mundo real. A saída não estava numa Utopia futura, e sim na volta ao Paraíso original. O homem não deveria pretender construir um Reino neste mundo; pelo contrário, o Reino deveria ser o fruto do retorno ao passado primevo. ao Éden original adâmico, o que só se poderia obter por uma irrupção divina na História, nunca por força do intelecto.

* * *

Ser unívoco, equívoco e análogo

Com efeito, diante do ser, o espírito humano pode adotar três posturas:

1 - Considerar que o ser é unívoco. Quando tal ocorre, o homem cai no panteísmo, visto que, então, tanto uma pedra quanto deus são igualmente seres. É a posição de Parmênides, na filosofia antiga. Desta postura decorria a adoração do universo e o desprezo do indivíduo. Tudo seria Deus. No mundo moderno, essa tendência panteísta, fruto de uma visão unívoca e igualitária do ser, conduziu à adoração do Homem e da Razão, último estágio da evolução. O cientificismo materialista e racionalista do mundo atual tem aí suas raízes que historicamente principiaram com o nominalismo de Ockham.

2 - Considerar o ser como equívoco. Em consequência. afirma-se que o universo não tem nenhuma relação com o Ser de Deus. Ora, como ensina São Paulo na Epístola aos Romanos (1,20), “as perfeições invisíveis de Deus tornaram-se visíveis, depois da criação do mundo, e podem ser compreendidas por meio das coisas criadas”. Afirmar que o ser é equivoco é negar qualquer possibilidade de compreender algo de Deus através das criaturas. Desemboca-se então no deísmo e. depois, no ateísmo.

Aprofundando-se essa segunda tendência, pode-se chegar a afirmar que os seres criados são tão dissemelhantes da Divindade que se poderia dizer que são contrários a Ela. Quando tal ocorre. o homem cai na Gnose. Esta considera que o universo é essencialmente mau por aprisionar as partículas da Divindade na matéria. nas malhas da Lógica e nas cadeias da Moral. Tais partículas eram chamadas de Fünkenlein por Mestre Eckhart, de Atmans pelos Brâmanes, de Éons pelos gnósticos dos primeiros séculos do cristianismo.

O Deus criador do universo seria o demiurgo mau. Ele teria dado a razão ao homem para que esta o enganasse. Compreendendo o mundo, o homem julgá-lo-ia bom, porque inteligível. O homem quereria, por isso, permanecer neste mundo, e não desejaria retomar à Divindade da qual procedera. A libertação das partículas divinas aprisionadas na matéria exigiria a renúncia à razão, além da destruição da materialidade e da violação de todas as leis morais estabelecidas pelo Deus criador do universo. No extremo, desejar-se-ia a destruição de todo ser, de toda existência. A Gnose é antimetafísica. Dessa posição antirracional participam muitos e importantes movimentos do mundo atual. Delas o nazismo irracional e antimetafísico é o exemplo mais trágico e mais criminoso. Na chamada "Civilização Moderna", as nascentes deste rio gnóstico se encontram em Mestre Eckhart.

3 - Considerar o ser como análogo. Isto significa que as criaturas do universo são seres, mas não do mesmo modo como Deus é Ser. Nas criaturas, pode haver vestígio, imagem ou semelhança de Deus. Nas coisas materiais e irracionais, há apenas vestígio de Deus pela ordem e bondade de seu ser; nos seres racionais e espirituais, há imagem de Deus, porque, como o Criador, esses seres têm inteligência e vontade; neles, ainda, pode haver semelhança, caso sejam obedientes à lei divina que os faz santos como Deus. Tal é a explanação de São Boaventura.

* * *

O mundo para os gnósticos

Hugo de S. Victor e São Boaventura falam do mundo como poema. São Boaventura ensina que Deus escreveu dois livros: o primeiro foi o mundo; o segundo, a Bíblia. O mundo seria um livro porque Deus, ao criar cada coisa, dizia uma palavra. "Faça-se a luz", disse Deus, e a luz passou a existir. Assim, cada ser criado corresponde a uma palavra de Deus, e o mundo é, então, um conjunto de palavras divinas encarnadas na matéria. Ora, um conjunto tão grande de palavras forma um livro, e o Universo é, portanto, um belíssimo poema.

A diferença entre os pensadores católicos e os gnósticos a respeito do mundo está em que, para os gnósticos, o mundo oculta labirinticamente a verdade e oferece mentiras enganadoras, enquanto para os católicos, o mundo é um livro legível e facilmente inteligível. Para a Gnose, o mundo é um livro labirinto enganador, concebido pela mente malvada e mentirosa do demiurgo. Para o católico, o mundo não só fala, mas proclama e canta um hino à glória de Deus. E só não ouve esse cântico, só não compreende esse poema, quem não tem l'occhio chiaro e l'afetto puro, como diz Dante.

A questão dos universais

Desde a Grécia antiga até o fim da Idade Média, o problema dos universais suscitou veementes polêmicas. Como se sabe, universais são conceitos que podem ser aplicados a todos os indivíduos de uma mesma espécie. Por exemplo, o conceito de rosa engloba todas as rosas existentes. ou que possam existir, em qualquer tempo.

O que se tem discutido é em que sentido, ou como existem os universais. Com relação a isso. formaram-se três correntes mais importantes:

a) o realismo;

b) o realismo moderado;

c) o nominalismo.

Em O Nome do Rosa quase não se fala da posição do realismo moderado. que é a posição tomista assumida pela Igreja, face à questão dos universais. No tempo em que ocorreram os fatos na abadia do romance de Eco, as posições filosóficas mais em voga, e que se digladiavam em todas as universidades e mosteiros, eram a posição platonizante, do realismo, e a do nominalismo. O realismo de tom platônico era defendido pelos místicos gnosticizantes seguidores de Mestre Eckhart. O nominalismo era partilhado pelos franciscanos seguidores de Guilherme de Ockham e por todos aqueles que tendiam para posições empiristas, racionalistas e panteístas.

Eco apresenta o debate dos universais como se houvesse apenas essas duas correntes (a mística e a racionalista) debatendo a questão dos universais. Os tomistas nem aparecem. Eco leva o leitor comum a julgar que a posição mística e gnóstica é a da Igreja Católica, o que é uma falsificação histórica.

Para que o leitor tenha ideia do que se debatia e do que se trata em O nome da Rosa, a respeito dos universais, faremos uma breve exposição dessa questão filosófica, procurando salientar a que consequências levava cada uma das soluções aventadas.

a) A doutrina do realismo filosófico sobre os universais

Para Platão e para seus seguidores, os universais teriam existência real fora da mente, no mundo superior das ideias. Esse mundo das ideias seria perfeito, divino e inteiramente desprovido de matéria. Em nosso mundo, a forma ou ideia de um ente - comum a todos os exemplares individuais de sua espécie - estaria atualmente aprisionada nos seres materiais individuais.

Explicavam os platonizantes que a ideia de rosa - o universal rosa - é uma só para todas as rosas individuais. Essa ideia não é só única e universal, como também é absolutamente perfeita, visto que os defeitos possíveis de uma rosa existem somente na matéria. É apenas a rosa concreta que murcha, é danificada ou morre. O conceito universal jamais se deteriora, envelhece. murcha ou morre. O universal é perfeito e imutável. A ideia universal goza então de uma perfeição tal que os platónicos a consideravam divina. Enquanto a rosa individual. concreta, material fenece e perece, o universal rosa permanece para sempre o mesmo, perfeito e imutável.

Concluíam disto os filósofos de tendência platônica, que a matéria era a fonte de todas as imperfeições e de todo o mal. Era na matéria, causa da individuação, que estava a origem do mal. Estar neste mundo material era ter as ideias divinas aprisionadas no cárcere da matéria. Só com a libertação da matéria é que seria possível fazer as ideias universais divinas retornarem ao pleroma divino de onde tinham caído.

Essa visão platônica era gnosticizante, como bem o demonstrou Simone de Pètrement.

Para os gnósticos, há uma oposição radical entre espírito e matéria. O espírito é divino. A matéria, produzida pelo demiurgo, é sempre má. Na constituição dos seres a forma ideal é, pois, divina, enquanto a matéria é seu cárcere maléfico. Como a matéria é a causa da individuação, para o gnóstico ser indivíduo ou pessoa é um mal. O bem está na absorção ou perda de todo eu no Todo divino, que coincide dialeticamente com o Nada absoluto.

Essa posição de divinização do universal e condenação de todo ser individual foi defendida por Mestre Eckhart e por todos os sectários gnósticos do fim da Idade Média, entre os quais os Irmãos do Livre Espírito. Não queremos dizer que todos os filósofos que defenderam o realismo, em qualquer tempo, tenham sido, de fato, gnósticos. Queremos dizer, isto sim, que o realismo, levado às suas últimas consequências, chega à Gnose.

A escolástica admitia a parcela de verdade em que Platão se fundara para cair nesse erro. Com efeito, as essências criadas por Deus existiram primeiramente na Inteligência ou Verbo de Deus como ideias exemplares. Assim como um artista primeiro tem ideia do que vai esculpir, e, depois, esculpe o que ideou, assim também a Sabedoria de Deus concebeu o que ia criar. Por isso, Deus, ao criar, dizia antes uma palavra. Por isso também se lê em São João que “tudo foi feito pelo Verbo e sem ele nada foi feito” (Jo 1,3).

b) O nominalismo

No final da Idade Média, surgiu uma corrente de pensamento diametralmente oposta ao realismo platônico. Roscelin e, um tanto, Abelardo tinham-na preparado, mas ela só tomou todo o seu maior desenvolvimento com a filosofia de Guilherme de Ockham, retratado por Eco na figura de Frei Guilherme de Baskerville.

Para o nominalismo, os universais são meros nomes. Nenhuma realidade corresponderia a um conceito universal, que só existiria na mente. Os universais não se realizariam de modo algum nas coisas. São apenas obras do espírito que as palavras exprimem. Assim, “rosa” é apenas um nome. O nome “rosa” é um mero flatus vocis. A única realidade é a rosa individual, diferente de todas as demais rosas existentes.

Ockham baseou-se nas ideias de Petrus Hispanus, expostas no livro De supositionibus. Suposição é a posição que um termo ocupa numa frase, no lugar de outras coisas, diz Ockham. Podemos distinguir três tipos de suposição:

1 - Suposição material existe quando o termo empregado numa frase designa apenas a própria palavra usada. Na frase: “a rosa é uma palavra de quatro letras”, a palavra rosa é tomada em si mesma, como termo escrito ou falado.

2 - Suposição pessoal existe quando o termo usado numa frase designa um ente individual concreto e determinado. Por exemplo, na sentença: “a rosa está se abrindo”, o termo rosa está no lugar de uma determinada rosa individual concreta, à qual se faz referência.

3 - Suposição simples ocorre quando o termo utilizado designa, não um ser individual concreto, mas o conceito universal de um ser. É o que acontece com o termo rosa, na frase: “a rosa é uma flor”.

Conforme essa teoria, a palavra rosa, como universal, indica apenas um conceito mental, que não existe, de fato, na realidade. Não existindo os universais, o homem só poderia conhecer as rosas individuais, e, o que se conhece de uma rosa não pode ser aplicado a nenhuma outra rosa.

Como já ensinara Abelardo, no século XII, Ockham dizia que só o conhecimento do singular é verdadeiro, pois o homem tem dele um conhecimento intuitivo, direto. Assim, só o particular seria real. A essência equivaleria à existência.

Daí se concluía que o verdadeiro conhecimento não pode ser teórico, e sim prático e experimental. É desses pensamentos que vai nascer o experimentalismo, e o cientificismo do mundo moderno.

Isto, a longo termo, acaba por negar não só a existência das essências e dos universais, como também o valor de qualquer conhecimento teórico racional, pois “é extremamente difícil para uma tal doutrina explicar, a partir desses blocos individuais, sem nada em comum, como o pensamento pode formar as noções de gêneros e espécies”, como diz Etienne Gilson.

[...]

Assim, a negação das essências e dos universais reduzia o ockhamismo a um empirismo e a um experimentalismo radicais que comprometiam toda noção de relação.

Isto conduz ao problema da causalidade, pois entre uma causa e um efeito o que existe é uma relação. A relação é um acidente que não está num ser concreto, não é propriamente um ens in allio [ente em outro]. Ela está “entre” os seres que se relacionam. Para Ockham, que só aceitava o individual concreto, a relação não tinha nenhuma realidade, a não ser a dos termos. Por isso ele negava a relação de causa e efeito. Argumentava dizendo que a relação de causa e efeito não pode ser anterior ao efeito, já que a relação supõe a existência dos dois termos; nem podia ser simultânea, porque o efeito é consequência dela; nem podia ser posterior, pois que seria preciso dizer então que ela se produz a si mesma. O único meio de provar que uma coisa é causa de outra seria, portanto, a experiência, raciocinando com a presença ou com a ausência da causa e do efeito.

[...]

Ockham em sua obra Centiloquium, declara que a própria existência de Deus não pode ser provada. A existência de Deus, assim como sua unicidade, sua infinitude, sua onisciência, seriam questões às quais se deveria dar apenas uma adesão de fé. Desse modo, Ockham cai no fideísmo, retirando à sua teologia qualquer apoio racional.

[...]

Também a existência da alma racional no homem só poderia ser aceita pela fé, pois a razão não conseguiria prová-la. Por onde, o ceticismo de Ockham raia pelo materialismo.

A ordem do mundo, como toda ordem, consiste em uma relação entre seus elementos componentes. Ora, negando a existência real das relações, Ockham não poderia aceitar a existência de ordem no mundo e muito menos que esta ordem tivesse fundamento na própria natureza de Deus que fez o universo à sua imagem e semelhança. Para Ockham, a suposta ordem posta por Deus no mundo - se existe - é completamente arbitrária. Deus poderia ter feito o universo em qualquer outra disposição. Noutras palavras, não haveria fundamento racional objetivo para a ordem do universo.

Em consequência, a ordem moral também não era considerada objetiva. Uma ação seria pecaminosa apenas porque Deus a proibira, nada havendo nela de objetivamente mau. Se Deus tivesse ordenado o pecado, ele seria bom. A ordem moral, portanto, poderia ser totalmente invertida pelo arbítrio divino. Mais ainda. Até mesmo sob a ordem moral atual, Deus poderia ordenar a alguém que a violasse, sendo então tal ato virtuoso. O livre querer de Deus seria tão absoluto que poderia inverter a ordem moral. Esse livre querer de Deus não se fundamentaria na essência divina e, por isso, não teria nenhuma objetividade.

Desse relativismo moral os ockhamistas logo deduziram a negação de toda ordem moral, tendo alguns chegados a dizer que a lei de Deus era a única causa do pecado. [Aí admitiam então haver causa...] Outros defenderam o mais radical antinomismo, muito semelhante ao da Cabala e ao das seitas gnósticas.

c) O realismo moderado

A terceira posição da filosofia medieval face à questão dos universais é a do realismo moderado, defendida por Santo Tomás e adotada pela Igreja.

O universal nem é um mero nome, como afirmavam os nominalistas, nem tem existência num mundo imaterial de puras ideias, como diziam os platônicos e como queriam os gnósticos.

Para os defensores do realismo moderado - em particular para Santo Tomás – é preciso distinguir, no espírito humano dois universais, conforme o aspecto sob o qual se considera o universal:

1 - Universal direto, ou seja, um tipo de ser atribuído de modo unívoco a muitos seres individuais. Este universal direto é obtido pela abstração das notas individuais de cada ser concreto. O universal então acrescenta, à ideia do tipo de ser que ele expressa, um estado de abstração e de não individuação, de universalidade. É o universale post rem [universal após a coisa], existente em nossa mente por abstração.

2 - Universal reflexo que tem esse nome porque só é percebido por nossa inteligência após a comparação entre o universal direto, que havíamos concebido, com as coisas em que o aplicamos e nas quais ele se realiza de modo mais ou menos perfeito. A esse universal reflexo se dá também o nome de universal formal.

O universal direto se acha nas coisas quanto ao que ele expressa, não quanto ao modo com que o expressa.

Em cada ser concreto, há o indivíduo único, identificado por suas notas particulares individualizantes, numa essência que permite que se manifestem nele todas as atividades existentes em todos os seres de sua espécie. É esta essência que é objeto de nosso espírito sob a forma de uma mesma ideia, aplicável a todos os indivíduos da mesma espécie, e que exprime o que eles são, independentemente de suas notas individualizantes.

Desse modo, podemos considerar uma essência de três modos diversos: (a) em si mesma, com suas notas constitutivas, tal como ela existe na mente divina, corno ideia exemplar, eterna em Deus. É o universale ante rem [universal antes da coisa], isto é, o universal que Deus concebeu antes de criar uma coisa. É a este universale ante rem que Platão deu existência no mundo das ideias, como seres divinos, fora da Sabedoria de Deus. (b) a essência enquanto existente em um indivíduo qualquer em estado concreto é o universale in re [universal na coisa]. (c) a essência enquanto concebida em nosso espírito, abstrata e universa. É o universale post rem.

O universal direto (universale post rem) tem existência real em nossas mentes, enquanto conceito abstrato, e existe nas coisas concretas, enquanto forma substancial (universale in re). Por essa razão, nos é possível conhecer o que as coisas são. Tendo o homem a ideia universal “rosa” em sua mente, ao ver uma rosa real, ele pode conhecer que o conceito de rosa, existente em sua mente, existe também, formalmente na rosa concreta, individual.

O universal reflexo não se encontra realizado nem sequer nas coisas enquanto o que ele expressa, pois ele é um simples ser de razão, que tem, entretanto, fundamento nos seres individuais reais, isto é, a sua semelhança, que permite a nosso espírito agrupar seres individuais em uma mesma espécie.

Esta, em termos breves, a teoria do realismo moderado, que evita quer o materialismo, a que conduz o nominalismo, quer a Gnose, termo final do erro do realismo.

* * *

O impulso psicológico básico da gnose e do panteísmo

Qual é essa raiz comum da qual brotam os sonhos racionalistas de construir a Utopia e os delírios irracionais da magia alquímica para vencer a morte e todos os males que afligem o homem? Essa raiz é a inconformidade com as limitações do ser humano, e particularmente com as penas que o punem. O panteísta racionalista e o gnóstico irracionalista desejam desesperadamente redimir o homem por seu próprio esforço, usando de meios naturais. Esse desejo impotente e desesperado os faz odiar a realidade tal qual ela é. Os faz odiar também o Criador e a criação feita à sua imagem e semelhança. É no ódio a Deus criador e ordenador que a Gnose alógica e o panteísmo racionalista comungam e dialeticamente se identificam. O panteísmo racionalista quer construir a Utopia. A Gnose quer a realização mágica do Milênio.

Fonte: Orlando Fedeli, Nos labirintos de Eco, Flos Carmeli Edições, São Paulo, SP, Brasil, 2023, trechos selecionados.

26 de março de 2025

Unde malum? (ou, De onde vem o mal?)


Segundo Fedeli, para Guénon as expressões “metafísica”, “conhecimento”, “tradição” e “grandes mistérios” significam “gnose”. O esquema de gnose (repetuindo com outras palavras o que já havíamos exposto aqui, é o seguinte:

1) O impulso fundamental do gnóstico é sua limitação como ser criado, ou seja, o sofrimento por não ser ele Deus. É desta repulsa nuclear que surge sua revolta contra Deus e contra a ideia de que os seres sejam análogos ao Ser.

2) Há, portanto, uma Divindade acima de Deus, e ambos se opõem como o Não-Ser ao Ser. Deus é revelado e conhecido enquanto a Divindade é absolutamente incognoscível.

3) Tal contradição metafísica destrói os princípios do ser pois nega o princípio de identidade e o princípio da não-contradição. O ser possui, do ponto de vista gnóstico, dois princípios iguais e contraditórios, e as coisas, os “entes”, são apenas fluxo, apenas um devir contínuo.

4) O mal não é moral para o gnóstico, mas é ontológico. Ele está enraizado na própria existência de Deus, do “Demiurgo criador”. Para a gnose sufi, por exemplo, há oposição entre Allah e o mundo criado, pois se considera Allah como Ser, os seres criados são puro nada, somente existindo a Divindade, o que Ibn Arabi chama de proprium (o atma da gnose hindu) em seu Tratado da Unidade. Também para Guénon o mundo é ilusório, ou seja, metafisicamente irreal.

5) Em cada coisa há uma partícula ou centelha divina. Trata-se dos atmas, éons, a Fünkenlein (“chamazinha”) de Mestre Eckhardt, o primum de Ibn Arabi, o Si (Soi ou Self) de Guénon etc. A matéria é pura ilusão e, note-se, nos homens não só o corpo, mas a própria alma racional estão encarcerados na matéria. Por isso a razão é má: ela torna o mundo inteligível e bom, enganando o homem e aprisionando-o nele. Eis por que alguns gnósticos dizerem que a abstração é o pecado da inteligência.

6) Quem liberta o homem deste cárcere é o conhecimento, ou seja, a gnose. Mas não se trata aqui de um mero conhecimento intelectual, mas um conhecimento intuitivo (“metafísico”, na linguagem guénoniana).

7) A moral não faz sentido no esquema gnóstico porque ela implica no desenvolvimento do ser enquanto análogo ao Ser. A gnose é antinomista por natureza. A vontade engana o homem porque, ao querer, aceita o bonum dos seres criados, o que seria falso, ilusório.

8) Para o gnóstico não existe metafísica. Isso se explica pelo fato da metafísica, conforme a entendemos filosoficamente, tomar como ponto de partida os entes que se apresentam acidentalmente ao homem e daí deduzir a estrutura da realidade. O gnóstico, convicto de que os entes são ilusórios, não pode partir intelectualmente deles para construir a estrutura da realidade, mas vê-se obrigado a partir intuitivamente do conhecimento da centelha divina oculta nos entes. A isso o gnóstico chama de “metafísica”.  Por isso os gnósticos menosprezam Aristóteles e seus seguidores (como Tomás de Aquino) por supostamente tomarem a parte pelo todo. A abstração empreendida pelo intelecto seria um “pecado” porque divide o Ser. Daí, para o gnóstico, a filosofia só faz sentido sempre e quando houver a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa (precisamente a definição de filosofia de Olavo de Carvalho). Tal unidade explica-se pelo fato do intelecto humano ser incriado, ou seja, ser o próprio Intelecto.

Fonte: Orlando Fedeli, Sob a máscara, Flos Carmeli Edições, São Paulo, SP, Brasil, 2019.

31 de outubro de 2024

A guerra gnóstica contra o actus essendi

Com efeito, pela grandeza e beleza das criaturas se pode, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Criador. (Sabedoria 13:5)

As seitas gnósticas têm metafisicamente falando um único objetivo: combater a ideia de que Deus criou todas as coisas segundo a lei da analogia (a boa e velha analogia entis, sobre a qual tanto versamos por aqui). Há nelas um elemento comum, que é a revolta contra a ordem metafísica real. Em outras palavras, mesmo que velada ou inconscientemente, a gnose trata o ser como termo equívoco (o ser é absolutamente dessemelhante ao Ser, que é o caso das seitas gnósticas) ou unívoco (o ser é absolutamente idêntico ao Ser, que é o caso das seitas panteístas). Os homens são levados a uma ou outra perspectiva por vários motivos, entre os quais, em geral, estão ocultas causas pessoais, psicológicas. Manter a postura saudável e equilibrada de não identificar as criaturas com Deus, nem negar a excelência da criação, pode ser especialmente árduo para muitas pessoas. Nas palavras de Étienne Gilson: “A Renascença marca o início da era em que o homem se declara satisfeito do estado de natureza decaída”. E Orlando Fedeli: “Há na alma renascentista uma revolta que rejeita a transitoriedade das coisas, uma revolta contra o tempo, uma oposição à aceitação do mal relativo das criaturas. [...] Ao mesmo tempo em que no Renascimento e no Humanismo se divinizavam o homem e a natureza, a razão e o universo, chegava-se também ao extremo oposto, negando-se qualquer valor à razão [...] Passa-se de uma supervalorização absoluta da razão à sua negação completa. E não se sabe se o homem, pela razão, deve dominar o universo, ou se, pelo contrário, o universo deve absorver o homem pelo amor, negando-se a razão”.

Fedeli apelida de “antropoteísmo” a religião do homem, a qual divide-se em panteísmo (divinização do corpo, geralmente monista e racionalista pró-Utopia) e gnose (divinização da alma, geralmente dualista e místico pró-Milênio). Novamente, Fedeli confere certo caráter psicológico à causa do antropoteísmo: “[Ele] é fruto de um orgulho egolátrico e de um sensualismo antinomista, levados ao paroxismo. [...] É a revolta contra a morte, a dor, o trabalho e as mil outras misérias que fazem da vida humana um vale de lágrimas. [...] Se nota um desejo de destruir os princípios metafísicos. Ele [o antropoteísmo] odeia o ser”. O autor centra-se mais na gnose pois considera o panteísmo uma espécie de “fase infantil” ou antessala da gnose. A gnose é mais própria de espíritos intelectualizados, enquanto o panteísmo é mais próprio de pessoas ligadas à matéria (“têm por Deus o próprio ventre”), ou seja, pessoas de menor valor natural. No panteísmo enquadram-se tanto os materialistas crassos quanto os tipos mais pretensamente filosóficos (“racionais”, ateus etc.), bem como aqueles de mentalidade “científica”, como cientistas em geral, engenheiros, físicos etc.

A gnose necessariamente tem de negar os princípios metafísicos. Ela nega, por exemplo, o princípio de identidade, pois as coisas perdem sua individualidade, sua essência, sua personalidade. Nega também o princípio de contradição, pois os contrários passam a coincidir. Similarmente, o princípio de causalidade e finalidade se perdem, pois se não há ordem metafísica, não há causa e efeito, não há relação a um fim, não há relação entre Criador e criatura. Os transcendentais se dissolvem todos (res, aliquid, unum, verum, bonum e pulchrum) porque o ser se dissolve no abismo do nada. Toda ordem analógica é negada pela gnose. Por fim, a gnose recusa-se a aceitar o espaço (não há materialidade) e o tempo (não há movimento, pois não há ato e potência e, portanto, não há movimento e sua medida, que é o tempo).

Um traço curioso da gnose é sua perpétua inversão de um conceito em seu contrário, uma espécie de ponte metafísica. Mestre Eckhart, Jacob Boehme, a Cabala de Isaac Luria, Simão Mago, Hegel etc. são expoentes dessa característica (finito é infinito, nada é tudo, muitos é um, o nada é o real, o corpo é espírito etc.). Similarmente, há uma ponte moral na gnose, no sentido que prega uma moral ascética, de tipo budista, mas quando o asceta alcança sua “união mística”, de repente se vê acima de toda lei moral, e tudo lhe passa a ser permitido.

Vejamos alguns temas essenciais da gnose:

1. Teogonia. Há a Divindade, o princípio de que tudo se originou, e há Deus, o cosmocrator, o criador. Não há qualquer relação analógica entre o ser divino e o ser criado (qualquer semelhança com o Pe John Romanides não é mera coincidência). Essa distinção está clara em Mestre Eckhart, por exemplo (divinitas vs. Deus, Gottheit vs. Gott). A vida íntima da Divindade consiste num eterno processo de divisão dialética interior. Os sistemas gnósticos narram complicadas genealogias emanadas do fundo abissal da Divindade.  Diz-se, simplificadamente, que os éons eram partículas resultantes dessa divisão e que se opunham dialeticamente umas às outras, de maneira que eram absolutamente iguais e, por isso mesmo, não tinham consciência de sua limitação. Assim como uma gota no oceano não “sabe” que é limitada, pois se vê no todo e julga-se o todo, assim também os éons não “sabem” de sua limitação no pleroma. Em cada éon reptia-se a dialética tudo=nada que há na Divindade.

2. Cosmogonia. Mas eis que houve uma “queda”, uma ruptura, um “exílio”, o mal metafísico: um éon sem seu “cônjuge” surge e passa a agir. É o demiurgo. Os demais éons são levados a compreender que não eram tudo. Está rompida a felicidade absoluta no pleroma. Por que se deu o surgimento do demiurgo? Os sistemas gnósticos não explicam, apenas narram. Aliás, isso nos faz lembrar a crítica de Philip Sherrard à “metafísica” de René Guénon em seu Estados Múltiplos do Ser: Guénon afirma ("narra") que o Ser determina-se a si mesmo enquanto o leitor se vê perdido sem uma explicação minimamente plausível de como isso pôde ser possível.

Ora, isso deixa sem resposta a questão sobre como o próprio Ser é determinado. A ordem não-manifestada, escreve Guénon, é feita de Ser e Não-Ser. O Ser engloba todas as possibilidades de manifestação, formal e informal, na medida em que estas serão manifestadas; o Não-Ser engloba todas as possibilidade de não-manifestação, incluindo o próprio Ser e a manifestação, na medida em que permanecem puras possibilidades. [15] Mas será que isso significa que o Não-Ser é o princípio do Ser no mesmo sentido que o Não-Ser determina o Ser? Não podemos afirmar isso, pois aquilo que é completo e infinito em sua não-determinação não pode determinar-se sem tornar-se menos e outro do que si próprio, contradizendo assim sua própria natureza, o que seria uma impossibilidade. Portanto, o Não-Ser não pode abarcar o princípio ou a possibilidade de autodeterminação: ele não é determinado por nada (pois o Não-Ser é “não-dual” e onde não há dualidade nada pode ser determinado por nada) e ao mesmo tempo é impotente para determinar o que quer que seja (pois no âmbito do Não-Ser Absoluto não há nada a determinar e nada que possa ser determinado).

Isso significa que somos confrontados com um dilema. Tem de haver uma primeira determinação, pois caso não haja uma primeira determinação não é possível que haja determinações subsequentes e, assim, toda a teoria dos estados múltiplos do ser perderia sua fundamentação ontológica. Por outro lado, no Absoluto não há, de acordo com Guénon, um princípio que possa determinar a primeira determinação. É da necessidade de resolver esse dilema que Guénon anuncia o que poderíamos chamar de salto quântico metafísico. Diz ele: “O Ser não é determinado, mas determina-se a si mesmo”.

Vale a pena nos determos um pouco mais nessa afirmação. A primeira parte da frase, em si, equivale a dizer que uma determinação não é determinada, o que sem dúvida é uma contradição em termos; enquanto que a segunda parte da frase assume novamente ares daquilo que Guénon chamava de absurdidade, pois viola a lei da não-contradição, cuja conformidade caracteriza para Guénon aquilo que é possível. Ora, em que sentido uma determinação pode determinar-se a si mesma ou ser seu próprio princípio? Nenhuma determinação pode possuir o princípio de seu próprio ser – ou seja, de sua própria determinação – em si mesma, pois isso seria o mesmo que dizer que há um princípio que existe à parte ou oposto ao Infinito, e isso acarretaria em contradizer toda a ideia de Absoluto conforme ensinada por Guénon. Todavia, conforme vimos acima, o Absoluto não pode, em Si, ser o princípio da determinação sem ao mesmo tempo contradizer Sua própria natureza. Ora, se o Ser realmente determina-se a si mesmo por meio de uma espécie de combustão espontânea, então há aí uma possibilidade de uma impossibilidade: uma possibilidade de que uma determinação que não possui o princípio de sua própria determinação em si mesma e é, portanto, com respeito ao Absoluto, rigorosamente nada e desprovida de qualquer ser ou existência, mas que mesmo assim é o princípio de sua própria determinação e de fato determina-se a si mesma.

Percebemos desde logo por que é necessário postular esta determinação inerentemente contraditória do Ser, pois do contrário seria impossível explicar a passagem do Absoluto indeterminado para a primeira determinação, o puro Ser, e assim construir toda a teoria subsequente da estrutura do universo. Mas isso não deixa de ser um tipo de deus ex machina sem o qual o dilema apresentado permaneceria insolúvel; nem deixa de ser uma violação da lei da não-contradição, ou seja, uma absurdidade, conforme Guénon define esse termo. Assim, a tentativa de apresentar um princípio metafísico supremo em termos que sejam logicamente consistentes introduz necessariamente uma inconsistência lógica na descrição de quaisquer determinações que sejam subsequentes a este princípio, e na descrição de quaisquer manifestações (ou aparências de manifestações) de quaisquer tipos.

O demiurgo teria aprisionado os éons na matéria: em cada coisa há um componente material que encarcera uma partícula divina. Eis que tudo, portanto, é divino, e no cosmo há uma luta entre as partículas divinas e a materialidade.

3. O demiurgo. Ele é o “deus mal”, a causa do mal metafísico. Os gnósticos o identificam com Satanás e com Javé, criador dos céus e da terra. O demiurgo é o inimigo do Deus absconditus, ora imitando-o, ora ignorando-o. A serpente teria procurado revelar aos ignorantes Adão e Eva que o criador não era o Deus verdadeiro. Portanto, foi a serpente quem primeira revela a gnose: o demiurgo (Javé-Satanás) era um ignorante que criara um cosmos caricato por não conhecer o mundo do pleroma.

O demiurgo é o Javé-Satanás do Velho Testamento, enquanto o deus do Novo Testamento é bom e misericordioso. Por isso devemos rejeitar a lei (VT) e basta a fé para a salvação (NT), sem necessidade de obras. É claro que isso faz lembrar a tese luterana, o mesmo Lutero, aliás, que inspirou-se ostensivamente em Eckhart (“Não quero Moisés com sua lei, pois ele é um inimigo do Senhor Cristo”). Fedeli lembra na parte 2 de sua aula sobre o esquema gnóstico que a renovação carismática guarda grande semelhança com a seita dos Irmãos do Livre Espírito, declaradamente gnóstica. Alguns gnósticos chamam o demiurgo de Topos (“Lugar”), uma alusão ao criador do espaço e do tempo.

4. Antropogenia. O homem é o ponto que une o espiritual e o material. Ele é, assim, o ponto inicial para o retorno à Divindade. A gnose repete a ideia do “homem universal”, ou seja, o homem ao mesmo tempo é uma redução do universo, enquanto o universo é um homem ampliado. O homem também foi criado pelo demiurgo e, assim como as demais coisas criadas, tem aprisionado algo da substância divina em seu corpo.

5. Psicologia. A gnose é antipática à razão, ao raciocínio, à lógica, à vontade, porque eles são não apenas incapazes de apreender o divino, mas dificultam em fazê-lo (veja acima o que dissemos sobre a gnose ser contrária aos princípios metafísicos que, por sua vez, são a base da lógica). Só por meio da intuição pneumática isso seria possível. O pneuma, ou centelha divina no homem, é o que constitui seu verdadeiro eu. As almas humanas individualizadas constituiriam, originalmente, uma grande alma coletiva e divina. Daí a gnose ser contra tudo aquilo que personaliza, seja a vontade (apegada aos desejos), seja a razão.

6. Soteriologia. Não há salvação propriamente na gnose, porque quem caiu não foi o homem, mas o próprio Deus. A passagem do nada absoluto (o não-ser) ao ser é a queda; portanto, não houve queda moral, mas uma queda ontológica. A soteriologia gnóstica consiste, portanto, numa dupla moralidade: ascética (fruto do ódio à matéria e à existência) e antinomista (prática de ações degradantes e repugnantes). Os dez mandamentos são, portanto, um meio perpetuante do aprisionamento das centelhas divinas. O pecado é o meio de salvação gnóstico, ou seja, ele é a técnica por excelência para destruir as cadeias ontológicas, isto é, para destruir o ser.

7. Cristologia. Não há Redentor na gnose porque não há pecado ancestral. Por vezes os gnósticos alegam que Cristo não teria corpo, por motivos óbvios. Eles rejeitam todos os elementos estruturais da Igreja: organização, hierarquia, leis, templos etc. Os gnósticos são contra todo dogmatismo porque entendem que a verdadeira igreja é pneumática, formada exclusivamente por homem “espirituais”.

8. Escatologia. Enquanto não são libertas da matéria pela gnose, o inferno é o renascimento das partículas divinas, ou mesmo a transmigração para corpos de animais, plantas e até mesmo matéria bruta. O inferno é, portanto, a permanente ligação a um corpo material. Os gnósticos, no entanto, ao morrerem são reintegrados na Divindade.

9. O amor. A gnose odeia o ser, portanto as questões relativas ao sexo e à reprodução lhe são importantes. De maneira geral, os gnósticos desprezam as mulheres porque são fontes de procriação, ou seja, da continuidade material da humanidade. As relações sexuais podem ser livres, contanto que não deem à luz a novas vidas. A gnose é o elemento subjacente que explica por que a mulher deveria apoiar uma seita que despreza a mulher: há aqui uma possível explicação do apoio feminino ao feminismo. No romantismo, a mulher em concreto é desprezada, enquanto a partícula divina que há nela (simbolizada pela dama) é apresentada num contexto de amor platônico idealizado. A mulher é uma fada, mas na verdade é a luxúria idealizada. Diz Denis de Rougemont: “A licenciosidade demoliu o casamento por baixo, enquanto a cavalaria [o amor cortês ou cavalheiresco] o ridiculariza de cima”. Diz ainda Fedeli: “O amor sentimental dos gnósticos é apenas um meio utilizado para romper os laços da individualidade e obter uma união “mística” de duas almas, de duas partículas divinas com a Divindade [...] e, portanto, exige a morte como veículo de libertação”.

10. Eclesiologia. Na igreja gnóstica, todos são iguais (porque todos são igualmente divinos), não há santos. Essa igreja tem membros não apenas na Igreja, mas em todas as religiões. Não há “símbolo de fé” na gnose, eis porque é difícil traçar os limites de cada seita. Seus contornos são fluidos e confusos.

Para Fedeli, panteísmo e gnose ocasionalmente se unem, provocando grandes “curtos-circuitos”. Foi o caso da Reforma Protestante, da Revolução Francesa, da Revolução Russa, do modernismo e, compreende-se, do Concílio Vaticano II.

Fonte: Orlando Fedeli, Antropoteísmo, Flos Carmeli Edições, São Paulo, SP, Brasil, 2020.