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14 de janeiro de 2025

Psicologia em 3 atos


Eu elogio a vida. Não a que levo, mas aquela que sei dever ser vivida. (Sêneca)

1. A pergunta fundamental

A filosofia é a base para o estudo da mente. É ela que fará – e tentará responder – a pergunta fundamental: o que sou eu?  Esse “eu” age de acordo com aquilo que o sustenta, de acordo com aquilo que lhe dá um sentido, um fim. O mito de Ésquilo de Prometeu (aquele que tem “antevisão”) e de seu irmão Epimeteu (aquele que tem “pós-visão”) conta a criação do mundo. Epimeteu criou os animais, mas não tinha mais nada para atribuir ao homem. Prometeu vai ao Monte Olimpo e rouba o fogo dos deuses, dando aos seres humanos a capacidade de cognição e entendimento da realidade.

A partir desse mito se pode compreender que a existência humana não é exatamente uma tragédia, como a expressão “tragédia grega” poderia sugerir, mas um “drama”, ou seja, um ambiente ou espaço dentro do qual devemos exercer o “fogo dos deuses” e cumprir a obrigação de nos aperfeiçoar, de nos desenvolver, e alcançar o mais que possível o estado para o qual fomos criados.

No diálogo A Apologia de Sócrates, Platão mostra ao leitor a imortalidade da alma e, mais do que isso, que o processo que o levou a descobri-la é a busca pela verdade. Essa mesma verdade é aquela buscada pelo “fogo dos deuses” roubado por Prometeu.

2. O apogeu

Na história humana, o apogeu foi a encarnação de Jesus Cristo, o Verbo. Em nossas vidas também há de haver um apogeu, mas isso depende da resposta a esta pergunta fundamental: qual a vida que você deseja viver?

Em seu Da Tranquilidade da Alma, Sêneca, motivado pela ética estoica, procura ensinar o viver bem, o viver uma vida bem vivida, uma vida que se aproxime da perfeição humana. Segundo Sêneca, essa vida bem vivida, essa “vida tranquila”, só é possível alcançá-la mediante a integração de todas as faculdades da alma, numa unidade em equilíbrio.

Tomás de Aquino, por seu lado, desenvolve com base na metafísica aristotélica o conhecimento acerca das paixões da alma. “Paixão”, como se sabe, é aquilo que a alma recebe do exterior, ou seja, aquilo que lhe sobrevém (sentir) e a modifica (compreender). A paixão, portanto, está no plano da afetividade, da “receptividade” do que vem de fora, e repercute na alma em forma de carência e desejo. A paixão é mais própria da potência sensitiva do que intelectiva, pois é a parte sensitiva que provoca mudanças corporais.

Os sofrimentos estão relacionados com o modo como nós nos afetamos (eis a paixão) pelas nossas vivências. A psicologia, portanto, lida com os movimentos da pessoa humana. As paixões, portanto, podem ser as centelhas que vão mover a pessoa a buscar bens – não bens materiais, mas bens imateriais.

3. O declínio

Em sua Sabedoria dos Antigos, Francis Bacon recorda personagens dos mitos da antiguidade clássica e os usa como fonte de inspiração para tratar 4 temas que lhe são caros: a distinção entre filosofia e teologia, o lugar do materialismo naturalista, o lugar do método científico e o realismo político. Embora seus temas tenham sido uma tentativa genuína de recobrar as verdades descobertas pelos antigos e medievais, fato é que, com ele e Descartes, inicia-se o período moderno, e as sucessivos erros causados pelas sucessivas revoluções. 

Por outro lado, Romano Guardini foi capaz, em meio às turbulências do mundo contemporâneo, de refletir e conceber o conceito de encontro. O encontro é aquilo que marca o homem, ao passo que o mundo é o lugar no qual se dão os encontros. São eles, os encontros, que permitem a relação do homem com a bondade e a verdade. O declínio do mundo contemporâneo é marcado pela destruição, ou pelo menos obstaculização, dos encontros que permitem tal engajamento espiritual.

Fonte: Paulo Pacheco, Psicologia em 3 atos, YouTube, 2024.


27 de setembro de 2024

O mínimo do mínimo em psicologia


OS 4 MODELOS DE PSICOLOGIA

1. Modelo explicativo. Os profissionais que atuam com base eminentemente na “psicologia empírica”, ou seja, eles identificam os fatores determinantes dos fenômenos que investigam. Aqui entram as abordagens da análise do comportamento (behaviorismo etc.) e a TCC, por exemplo. São abordagens supostamente ligadas à causa eficiente, às relações causa-efeito mais diretas, mais "palpáveis". Estão muito próximas da psicologia popular. A ética estoica também entra neste modelo.

2. Modelo interpretativo. Os profissionais que supõem que os fenômenos têm uma “dupla face” – uma face evidente e uma face oculta –, o que lhes exige aplicar uma chave de interpretação pessoal. Aqui entra a psicanálise, por exemplo. São abordagens supostamente ligadas à causa formal dos fenômenos psíquicos.

3. Modelo compreensivo. Os profissionais que estabelecem relações de sentido entre os fenômenos. Aqui entra a logoterapia, por exemplo. São abordagens que pretendem orientar-se pela causa final dos fenômenos psíquicos.

4. Modelo descritivo. Os profissionais que se debruçam sobre a pessoa humana. Aqui entra a psicologia tomista, que não apenas engloba as três causas anteriormente mencionadas, mas as inserem no contexto do ser e da essência e da analogia entis.

A PSICOLOGIA MODERNA

A psicologia científica moderna baseia-se nos modelos 1, 2 e 3 acima e, por isso mesmo, não leva em conta a alma inteligível, mas apenas as almas vegetativa e sensível. Por isso, a psicologia moderna desconhece a vontade e o intelecto, reduzindo-os ao desejo (apetite) e à cognição (sentidos internos), respectivamente. A psicologia moderna assemelha-se mais à medicina veterinária ou à zoologia do que à psicologia.

ACONTECIMENTOS VS. VIVÊNCIAS

A psicologia aristotélico-tomista entende que toda a realidade é disposta de modo que a inteligência seja capaz de colher dados do real, acessando apenas aquilo que se mostra à percepção, e por isso é papel da psicologia tocar o profundo a partir do acesso ao que é superficial, ao que é imediatamente percebido. Eis que deve ser uma psicologia voltada à vida interior.

Há um paralelo aí: as coisas que acontecem em nossa vida interior acontecem na materialidade. Mas as causalidades na materialidade são distintas das causalidades da vida interior. Na matéria falamos de acontecimentos, na vida interior falamos de vivências.

Fonte: Paulo Pacheco, O mínimo sobre psicologia, Editora CEDET, Campinas, SP, Brasil, 2023.