A filósofa
e psicóloga tcheca Magda Arnold se distingue dos filósofos tomistas que,
seguindo a seu mestre Tomás, enfatizam os aspectos morais e intelectuais do ser
humano. É comum no meio da psicologia realista (ou “tomista”) falar-se de
virtudes, de abstração, de intelecto agente, de raciocínios e juízos, de atos
da vontade, de felicidade etc. Mas Arnold toma outro caminho: seu objeto de
pensamento e estudo está enfocado mais nos aspectos sensíveis da alma humana.
Assim, veremos aqui detalhes sobre a via cogitativa (appraisal, ou
apreciação), emoção, memória, imaginação eu ideal etc.
(1) Percepção,
apreciação, emoção, efeitos fisiológicos, feeling, sentimento, atitude, hábitos
emocionais, conflitos, eu ideal, consciência
Há algo depois
da percepção e antes da emoção que avalia o objeto que desencadeou a atividade
emocional. É a apreciação, (appraisal, avaliação,
valoração, juízo valorativo); no entanto, a apreciação não é racional, ou seja,
não é abstrata nem resultado de uma reflexão. É algo quase instantâneo,
imediato e indeliberado (imponderado, precipitado). A apreciação é a atribuição
de um valor (significado, importância) a um objeto mediante três condições: bondade/maldade,
presença/ausência, facilidade/dificuldade.
Ocorre, no
entanto, que uma vez conhecido o objeto não necessariamente haverá uma reação
emocional. Isso acontece porque o objeto em questão pode permanecer “separado”
da pessoa e, mesmo que ela forme um juízo racional acerca dele, a reação
emocional não virá. A emoção é uma tensão de aproximação ou
afastamento do objeto, ou, como diz Arnold, uma tendência à ação.
A emoção enquanto tal não é mera resposta ou reação a uma percepção. Mais
do que isso, a emoção é algo que afeta, perturba, toca, concerne. E aqui
já há uma diferença crucial: a emoção é pessoal, e não apenas fisiológica. O
homem é agente da emoção, mesmo que involuntariamente. Embora pareça
incoerente, a emoção é ativa (e não passiva, como a percepção e a
apreciação) porque está diretamente ligada à apreciação que, por sua vez, pode
ser educada. Parenti não esclarece esse ponto, que me parece a maior
deficiência de sua obra (para entender a educação da cogitativa/apreciação na
formação do experimentum e da emoção leia aqui o que ensina MartínEchavarría). O fato de ser uma tendência à
ação significa que a emoção também implica em mudanças fisiológicas. a
experiência da emoção e a experiência das mudanças fisiológicas não
necessariamente ocorrerão em paralelo: pode ser que a emoção já tenha terminado
e os efeitos fisiológicos continuem. Por isso os efeitos fisiológicos podem
ensejar uma apreciação secundária, ou seja, um reconhecimento (por
familiaridade, veremos isso adiante no tema da memória) dos efeitos das ações
em curso que permitem identificar qual emoção está agindo e, se for o caso,
reforçá-la.
Aqui a
velha tabela das onze emoções básicas, virtualmente idêntica à tabela que
conhecemos ao final desta postagem.
Na tabela
não encontramos a timidez, a vergonha, o ciúme, a inveja etc. porque as emoções
da tabela são as emoções básicas, ou seja, emoções baseadas em
uma perspectiva única, em aspectos acidentais. As emoções como
timidez etc. são emoções complexas, ou seja, emoções
combinadas entre si em função de vários aspectos. O ciúme, por exemplo,
combina o amor, o medo da perda e a ira contra o terceiro, e possivelmente
outras emoções mais. Em geral as emoções complexas envolvem o juízo racional,
que não apenas leva em conta o juízo valorativo sensível (apreciação), mas
também relaciona a totalidade do objeto com a totalidade da própria pessoa.
Por outro
lado, há as apreciações nas quais se relaciona uma parte do objeto com uma
parte da própria pessoa: são as sensações (feelings).
Falamos aqui da qualidade dos sentidos externos quando à bondade dos movimentos
(fluido ou dificultoso), quanto à atividade psicológica (velocidade das ideias,
das imagens e dos insghts), quanto à intensidade do funcionamento
(tensão e relaxamento muscular, circulação sanguínea, digestão etc.), prazer
sexual, dor etc. Tudo isso resulta em efeitos gerais sobre o sistema motor, o
que difere, portanto, das emoções, que são tendências a ações especificas. O
prazer indica um funcionamento melhorado, enquanto a dor indica um
funcionamento deteriorado. Entre os feelings inclui-se o humor,
por se tratar de um funcionamento geral do organismo: uma grande alegria, um
estado de ânimo eufórico, uma grande decepção, uma desgraça, uma preocupação
lacerante, uma depressão, tudo isso pode impactar positiva ou negativamente o
organismo. Igualmente incluem-se aqui o estado de saúde, a atividade física, as
emoções dos sonhos etc.
Cabe não
confundir feeling com sentimento. As emoções são
despertadas na presença de um objeto, mas quando essas emoções se prolongam no
tempo dizemos que são sentimentos. Por exemplo, o sentimento de amor, que é a
emoção do amor sentida ao logo do tempo, inclusive na ausência da pessoa amada.
O mesmo vale para o ódio, o desejo, a repulsa etc.
Arnold
introduz um elemento importante na parte sensível da alma chamado atitude.
É como se fosse um resíduo da experiência de uma emoção e suas mudanças
fisiológicas que a acompanham. A emoção, quando repetida, consolida esse
resíduo criando, assim, um hábito emocional, tornando sua
manifestação mais constante e estável. Isso pode tanto beneficiar quanto prejudicar
o sujeito porque a atitude pode consolidar emoções positivas e construtivas quanto
emoções negativas e destrutivas. Mas não é só isso. O juízo racional também desempenha
um papel na formação e manutenção da atitude porque ele é responsável pelo
processo de generalização, isto é, de extensão do hábito emocional a toda
classe de objetos essencialmente semelhantes ao objeto que motivou a atitude (cf.
Albert Ellis aqui).
Embora seja ontologicamente superior à apreciação, o juízo racional acaba sendo
“sequestrado”, exigindo que novas experiências e novas apreciações abram espaço
para conclusões novas e saudáveis. O conjunto de atitudes formadas ao longo da
vida é o que propriamente chamamos de caráter (veja mais detalhes em Rudolf Allers aqui),
ou seja, o conjunto de regras morais que a pessoa formou para si própria que, apesar
de tudo, são mutáveis e aperfeiçoáveis.
É frequente
no transcurso da vida que a pessoa experimente conflitos. De
maneira geral, há três tipos de conflito: (1) entre duas emoções: típico
de animais e crianças (ou adultos ainda infantilizados), ocorre por exemplo
quanto um garoto se encontra diante de um jogador de futebol que admira muito
(alegria e vergonha), (2) entre uma emoção e um juízo racional: ocorre
por exemplo ao palestrar (medo e o conteúdo da palestra), (3) entre dois
juízos racionais: ocorre por exemplo quando o jovem precisa decidir entre
duas ou mais profissões a seguir. A despeito do tipo de conflito, o fundamental
é que ele se resolva rapidamente. Como vimos há pouco, uma apreciação e sua emoção
correspondente, num ambiente conflituoso e, portanto, prolongado, tenderá a
se cristalizar em atitudes e, assim, perturbar a organização da personalidade.
Os conflitos irresolutos são, portanto, não apenas incômodos, mas perigosos.
Isso vale para conflitos familiares, profissionais e, claro, pessoais (sexo,
dinheiro, poder, comida, bebida, sono etc.). Arnold lembra que o medo sempre
está envolvido nos conflitos.
A esta
altura o leitor poderá estar se perguntando que sentido faz resistir a algo que
o atrai, ou que sentido faz, por exemplo, vencer os próprios medos. O que Arnold
explica é que todo homem inescapavelmente desenvolverá uma escala de valores
chamada eu ideal. O eu ideal é
o padrão normativo que a pessoa passa a seguir, a despeito de tal padrão ser ou
não deliberadamente construído. Ele começa a ser construído na infância, a
partir das apreciações, e conforme cresce o adolescente e adulto jovem começa a
observar sua vida interior e compara o que é com aquilo que gostaria de ser.
Não apenas isso, mas o ambiente em torno, a comunidade, a cidade, a sociedade,
a cultura, a propaganda, a conjuntura econômica e política, são instâncias que contribuirão
para a formação do eu ideal. As más decisões, os vícios, os infortúnios, as imperfeições,
são aspectos que dificultarão ou impedirão a pessoa de se expressar e avançar
em direção ao eu ideal, o que a tornará insatisfeita e portadora de um mal-estar
incerto, vago, persistente, ambíguo. Diz Arnold:
A consequência de um eu ideal fraco, centrado no prazer, é a fragilidade de caráter, que se manifesta na incapacidade de medir-se a si mesmo [incapacidade de tomar algo alheio como meta], de enfrentar novas situações e de escolher o bem. Uma pessoa assim continua seguindo suas emoções para onde quer que elas a levem, e sua personalidade permanece desorganizada e infantil. Na verdade, a maturidade significa formar um eu ideal válido e vivê-lo.
A consciência
é o juízo que compara as intenções de uma pessoa com a lei natural. Se a lei
moral (lei natural) for ignorada ou infringida, a natureza humana sofre e não pode
alcançar a verdadeira perfeição humana. O homem não se cria a si mesmo, o que
significa dizer que a lei moral está estabelecida na natureza humano pelo Criador
dessa natureza.
Há emoções que
são guardiãs do eu ideal, isto é, funcionam como uma rede de sinalização. São elas
a vergonha (afeta o eu ideal), o embaraço ou desconforto (o eu
sente-se ridículo, mas não é corrompido), a autorreprovação ou
autocondenação (uma apreciação de inadequação que induz ao medo e, por fim,
à ira contra si próprio) e o aborrecimento (a frustração por não buscar
o eu ideal).
(2)
Imaginação (ou “fantasia”)
A imaginação,
assim como a apreciação, é algo ativo no homem, ou seja, é algo no qual o homem
pode trabalhar, moldar, crescer, melhorar. Não é uma reação ou mera
passividade. Mesmo que seja involuntária, é uma resposta ativa.
O papel da imaginação
é planejar a ação e antecipar os resultados. Quando a apreciação desencadeia
uma emoção, a imaginação iniciar a preparação de uma sequência de movimentos
que, quanto mais atitudinais e habituais sejam, mais facilmente serão imaginados
e levados a cabo.
Durante o sonho,
a alucinação e nas experiências criativas (fantasiar coisas agradáveis, deixar
a mente vagar, pensar de forma contemplativa etc.) não há uma tendência
consciente que utilize a imaginação com fins de planejamento. Livre de
controle instrumental, a imaginação produz histórias.
Uma história não é uma coleção de temas, nem sequer uma sequência de imagens da memória. Uma história é uma reorganização dinâmica das impressões sensoriais do passado, um novo produto da imaginação humana, muito diferente de simples lembranças emprestadas.
O elemento
que organiza a fantasia são as emoções, atitudes e hábitos emocionais, morais e
intelectuais. Por isso é importante que o psicólogo conheça o conteúdo das
fantasias de seus pacientes porque elas apontam os problemas e as maneiras que
os pacientes fantasiam para resolvê-los. A imaginação é usada com muita frequência
para ajudar a enfrentar a realidade.
(3)
Memória
A memória
não é unitária. Ela tem duas funções: (a) recordação: é a memória em sua
função clássica, qual seja, memorizar os cinco sentidos, os movimentos e a
dinâmica em geral; (b) reconhecimento: é a memória em sua função de sinalizar
familiaridade, como quando escutamos alguma voz e temos a nítida sensação de já
ter ouvido ela antes, mas sem se lembrar de quem – neste caso, as apreciações memorizadas
são despertadas (é a famosa “memória afetiva”). É a função de reconhecimento que
permite distinguir memória de imaginação.
Por fim, Arnold
delineia um interessantíssimo modelo das funções psíquicas baseado em três níveis
de apreciação (appraisal).
* * *
Aqui lhes
deixo um reforço importante sobre a distinção entre a antropologia cartesiana
(e moderna em geral) e a antropologia aristotélico-tomista (e clássica em
geral), algo sobre o qual Martín Echavarría já havia versado em outras oportunidades.
A posição de Descartes é distinta [da posição aristotélico-tomista]. Para começar, sua concepção do corpo humano é mecanicista, e a alma se relaciona com o corpo de um modo mais funcional do que substancial, por meio da glândula pineal. Isso faz com que, por essa razão, as emoções não possam ser uma realidade hilemórfica, isto é, compostas de uma forma (a tendência) e uma matéria (as modificações orgânicas), como em Santo Tomás, mas que as mudanças fisiológicas e as emoções se relacionem como causas extrínsecas. Além disso, em Descartes é a estrutura total das faculdades e dos atos que é completamente modificada. À maneira dos estoicos, todos os atos da alma são chamados de “pensamentos”. Entre eles, Descartes chama de “ações” todo ato que tem seu início na alma, e identifica isso com o voluntário. Dessa natureza seriam não apenas os atos apetitivos da vontade, mas também os juízos. [Em outras palavras, o intelecto é abolido por Descartes.] Por outro lado, as “paixões” da alma seriam todos os pensamentos que são reação a algo exterior à alma, como as coisas exteriores captadas pela sensação, ou as modificações fisiológicas interiores, que produziriam as emoções. Desse modo, em primeiro lugar, fica destruída, de certa forma, a diferença fundamental entre cognição e apetite. O juízo, um ato cognoscitivo, passa a ser um ato de vontade. A emoção, um ato do apetite, passa a ser uma forma passiva de pensamento. Em segundo lugar, a emoção é concebida como uma espécie de percepção das modificações fisiológicas do organismo e, portanto, como uma forma sui generis de sensação. Embora Descartes não elimine completamente o aspecto tendencial das emoções [ou seja, se não há uma tendência na emoção então não há uma cogitação, uma apreciação, um appraisal no qual o indivíduo possa deliberadamente agir] — que era o centro da concepção clássica e tomista, pois ainda afirma que as emoções preparam para a ação —, prevalece a concepção da emoção como sensação e, portanto, como ato da consciência privada do sujeito. Essa concepção passará, por meio do empirismo inglês, à psicologia contemporânea, e muito especialmente a William James.
Neste
trecho Arnold conta como conheceu o Pe. John Gasson, que viria a se tornar uma
de suas principais referências intelectuais e pessoais. Observa-se como ele de
certa forma a despertou para o entendimento da alma humana para muito além das
aparências funcionais neurológicas do cérebro. A emoção não é mera reação
fisiológica, mas é um afeto.
Um dia, quando expus minha teoria da emoção e expliquei que a emoção se compõe da percepção de um objeto ou situação, de sua apreciação cortical e da participação fisiológica (incluindo a expressão emocional), um aluno (vestido de preto e com colar clerical) levantou a mão: “Mas onde está a emoção?”. De repente percebi que, de uma maneira completamente inconsciente, havia excluído a experiência da própria emoção. Enquanto ainda pensava em como responder, outro aluno, ansioso por me defender do ataque de um sacerdote católico, interveio: “Todos sabem que percepção e emoção são a mesma coisa!”. O primeiro aluno respondeu: “Não sei. Se duas coisas andam juntas, isso significa que são a mesma coisa? Se eu vejo o senhor e sua esposa sempre juntos, isso quer dizer que vocês dois são uma só pessoa?”. Nesse momento, recuperei meu bom senso e admiti que, em algum ponto entre a percepção e a expressão emocional, também deveria estar a experiência da emoção. Alguns dias depois, o Colar Clerical veio ao meu escritório e me disse que logo teria de deixar o curso porque precisava voltar a Fort Worth. Descobriu-se que era o Dr. J.A. Gasson, SJ, professor de psicologia no Spring Hill College de Mobile, Alabama.
Fonte: Stefano Parenti, Magda Arnold:
psicóloga de las emociones, Editorial Pequeño Monasterio, Pamplona,
Espanha, 2021.




