14 de outubro de 2026

Excertos avulsos sobre metafísica


Objeto formal e objeto material

Todas as ciências têm um objeto de estudo. Costuma-se distinguir entre o objeto material, que é o conjunto das coisas estudadas por um saber científico, e o objeto formal, ou aspecto que cada ciência considera no âmbito de seu objeto material: por exemplo, a biologia tem como objeto material os seres vivos, e seu objeto formal é a vida; a medicina estuda o corpo humano (objeto material) enquanto suscetível de saúde e doença (objeto formal). As ciências particulares têm por objeto determinados setores ou aspectos da realidade. Mas deve haver uma ciência que estude toda a realidade, concentrando-se naquilo que todas as coisas têm em comum, isto é, enquanto "são", "são" coisas, algo "real". [...] O objeto material da metafísica é toda a realidade. Mas seu objeto formal é o ente enquanto tal, considerado em seu caráter de ente.

Toda ciência, ao considerar seu objeto, necessariamente se ocupa de todas as suas características (propriedades) e de tudo o que se refira a ela de algum modo. A metafísica trata das propriedades que resultam das coisas enquanto entes. Por outro lado, não se chega a conhecer algo profundamente senão quando chegamos a descobrir suas causas. A metafísica deve, por isso, estudar a causa dos entes enquanto entes.

Perfeição

O ser é um ato, uma perfeição das coisas. Na metafísica designa-se com o nome de ato qualquer perfeição ou propriedade das coisas. Nesse sentido, por exemplo, uma rosa branca é uma flor que possui a brancura como um ato que lhe concede uma determinada perfeição. De modo semelhante, o "é" das coisas indica uma perfeição tão verdadeira quanto o "viver" para os seres vivos.

[Segundo Bernard Wuellner (Dictionary of Scholastic Philosophy): “Na filosofia escolástica, a perfeição refere-se ao estado de ser completo, acabado, totalmente realizado e sem falhas segundo a natureza de um ser. O termo correlaciona-se com a noção aristotélica de entelecheia (a realização ou preenchimento daquilo que estava incompleto) e identifica-se intimamente com as noções de ato e de forma.”]

Em definitiva, o ser constitui o ato primeiro e mais íntimo do ente, que a partir de dentro confere ao sujeito toda a sua perfeição. Assim como a alma informa o corpo e lhe dá vida, de modo análogo o ser atualiza intrinsecamente cada coisa, fazendo com que seja; a alma é princípio vital, e o ser é princípio de entidade ou de realidade das coisas. [A alma está para o corpo assim como o ser está para a coisa].

[...]

Ato é, em geral, qualquer perfeição de um sujeito: a cor de uma coisa, as qualidades de uma substância, a própria perfeição substancial de um ente, as operações de entender, querer, sentir etc.

Ser intensivo

O ser não é um ato idêntico em todas as coisas, mas que está diversificado já que no universo existem entes muito distintos. Por exemplo, a luz admite diversas tonalidades e graus de intensificação ou de enfraquecimento; o ato de entender, ou de querer, pode realizar-se de diversos modos e com maior ou menor força em um mesmo indivíduo, em pessoas distintas, ou em seres inteligentes de diversa natureza (homens, anjos e Deus). Esta diversidade é, em última análise, uma gradação no ser: se a raiz das perfeições de cada coisa é o seu ser, é lógico que a intensidade dessas perfeições seja um reflexo da intensidade do ser. “Intensivo” significa que o ser, em estado puro, contém em si todas as perfeições e que se encontra participado em graus distintos nas coisas (Participação e causalidade, Cornelio Fabro).

A distorção da potência em “possibilidade” pelo racionalismo moderno

Não se pode considerar o ser como um atributo vago e indeterminado, que convém a todos os entes indicando a sua perfeição mínima. Alguns entenderam o ser como o conceito mais pobre, o que resta depois de prescindir de todas as características que diferenciam umas coisas das outras: seria a noção mais vazia e abstrata, que se pode aplicar a tudo (extensão máxima) à força de quase não ter nenhum conteúdo (compreensão mínima), de indicar apenas o ínfimo que todas as coisas possuem para ser reais. Esta consideração é mais lógica do que metafísica, e impede captar o ser como ato das coisas, que se realiza diversamente em cada uma delas e de modo máximo em Deus.

Historicamente, esta conceção do ser manifesta-se de forma explícita no racionalismo (como em Leibniz e Wolff). Contudo, já em Scot e Suárez o ente é encarado como um conceito altamente indeterminado, cujo conteúdo se aproxima da "essência possível". Isto significa que se identifica o ente com a essência, tornando esta última indiferente perante o ato de ser, reduzindo-a a uma mera "possibilidade de ser". Com base nesta linha de pensamento, Wolff definiu o ente como “aquilo que pode existir, ou seja, aquilo a que a existência não repugna”, dividindo assim o ente em possível e atual: a primazia corresponde ao possível, e o ente atual não é mais do que a sua “colocação em ato”. Um dos principais inconvenientes desta postura é que o ente se assimila ao pensamento, já que essa noção indeterminadíssima de ser só existe na inteligência humana, como fruto de uma abstração lógica. Não se trata já do ser real, mas do ser pensado, pois a “possibilidade” entende-se no racionalismo como o carácter “não contraditório” de uma noção, ou seja, como “possibilidade de que algo seja pensado ou concebido”.

Ao afirmar que uma coisa “existe”, queremos dizer que ela é real, que não é o nada, que “está aí”; o ser, em contrapartida, significa algo mais interior, não o mero fato de estar na realidade, mas a perfeição mais íntima de uma coisa e a raiz de suas demais perfeições. Essa diferença de significados entre ser e existir observa-se na linguagem: embora não seja um modo habitual de se expressar, não soa estranho afirmar que um homem é mais do que uma árvore, e um anjo mais do que um homem; em contrapartida, não se diz que uma coisa “existe mais do que outra”: existe ou não, mas não existe mais ou menos. O ser, como vemos, tem um sentido intensivo, do qual carece o termo existir.

Interpretar o ser como existência é um resultado lógico da posição indicada anteriormente, que reduz o ente à essência possível, à margem do ato de ser. Formam-se assim como que dois mundos: por um lado, a esfera ideal das essências abstratas ou do pensamento puro; e, por outro lado, o mundo dos fatos, da existência fática. Este segundo não é mais do que uma reprodução do primeiro: como dizia Kant, o conceito de cem táleres reais em nada difere do conceito de cem táleres simplesmente possíveis. Essa cisão entre essência ideal e existência real teve graves repercussões em alguns temas centrais da filosofia.

Assim, na ordem do conhecimento, essa abordagem esteve unida à separação radical entre inteligência e sentidos: a essência é objeto da razão pura, e a existência fática é captada pelas sensações (daí a oposição entre racionalismo e empirismo ou positivismo; entre verdades de razão e verdades de fato, de Leibniz). Outra consequência desta abordagem é a tentativa de provar a existência da causa primeira partindo da ideia de Deus (ontologismo): Deus seria a única essência que inclui como uma de suas notas a existência, e por isso Deus deveria existir. Na realidade, esta demonstração conclui em um Deus puramente pensado.

[...]

[Para o racionalista, a possibilidade existe previamente na “mente de Deus” como potência passiva prévia. A possibilidade tem entidade na “mente de Deus”. É um “algo” desde aí.]

Intimamente unido à potência encontra-se o tema do possível. Possível é aquilo que pode ser, isto é, a possibilidade reduz-se à potencialidade das coisas. No âmbito criado, algo é possível, de modo relativo, em virtude de uma potência passiva (uma parede pode estar pintada, porque tem a capacidade real para receber a cor), a qual remete, por sua vez, a uma potência ativa (a faculdade do homem de colorir essa parede).

Além disso, pode-se falar de possível em sentido absoluto: desta maneira é possível tudo aquilo que não é contraditório. Esta possibilidade tem como fundamento último a potência ativa de Deus, que por ser Onipotente pode produzir qualquer participação de ser — isto é, tudo o que em si mesmo não implica contradição — sem necessidade de uma potência passiva prévia. Os possíveis em si mesmos não são nada, senão apenas em Deus, que os concebe por sua Sabedoria, e pode produzí-los por sua Onipotência. Assim, antes de existir, o mundo era possível, não por uma potência passiva anterior, que não seria nada, senão apenas pela potência ativa de Deus.

As correntes da filosofia racionalista conceberam os entes como essências que primeiro se encontrariam em estado de possibilidade (enquanto não contraditórias em si mesmas) e depois se realizariam como existentes. Desse modo, o possível gozaria já de uma entidade em si mesmo. Este erro elimina a distinção real entre ato e potência nas criaturas, já que a potência seria entendida como mera possibilidade (e não como um princípio real das coisas) e o ato como a sua realização, como o “estado” de realidade do possível. Por outra parte, a possibilidade é entendida pelo racionalismo no sentido de pensabilidade. A importância enorme que se concede às possibilidades, como contrapostas às realidades efetivas, não é mais do que um reflexo do valor que se outorga ao pensamento humano, ao qual corresponderia “projetar” o possível.

Realidade metafísica vs. conceito lógico: o ente metafísico (rico) está patente no mundo real, enquanto o ente racionalista (pobre) está ausente do mundo real

A noção de ente não é um gênero, porque não se lhe pode acrescentar nenhuma diferença que já não se encontre nela contida. Enquanto a noção de animal não inclui as diferenças que distinguem uns animais dos outros, o ente indica não apenas o que é comum às coisas, mas também os seus aspectos diferenciais, pois estes também são e têm, portanto, razão de ente. Os conceitos genéricos obtidos mediante a abstração têm uma extensão maior — abarcam mais objetos — à medida que o número de propriedades que integram o seu conteúdo — compreensão — é menor; por exemplo, «corpo» diz-se de mais coisas singulares do que a noção de «sólido», porque esta última acrescenta uma nova característica, que é a coesão estável entre as suas partes; do mesmo modo, os instrumentos de corda, de sopro, de percussão, são espécies mais determinadas do gênero «instrumento musical». Em contrapartida, a noção de ente contém tudo: tem a máxima extensão, mas também o seu conteúdo nocional ou compreensão é máximo. Por um lado, o ente abrange todas as realidades do mundo (extensão máxima), mas além disso significa-as com todas as suas características singulares, pois todas essas determinações têm razão de ente e não ficam, portanto, fora dessa noção (compreensão máxima).

A noção de ente como gênero é própria dos filósofos que trataram as realidades metafísicas como se fossem conceitos lógicos. Assim, segundo Scot e Suárez, em primeiro lugar conhecemos com a inteligência os existentes singulares; depois abstrairíamos a sua natureza comum, ficando com a essência; e finalmente, acima de todas as essências, chegaríamos a um gênero supremo maximamente abstrato e separado da experiência, que seria o ente. Esta é a concepção de ente que o racionalismo herdará e cujo conteúdo já não é o ente real, mas a ideia generalíssima de ser. Daí derivou-se, em certo modo, o preconceito de que a metafísica se desinteressaria da experiência e da realidade.

A centralidade do princípio da não-contradição

Por se tratar da lei suprema do ente, o princípio de não-contradição desempenha um papel de primeira ordem em todo o saber humano teórico e prático, pois nos impele a conhecer e a agir, evitando a incoerência. Por exemplo, é contraditório que Deus seja infinito e que ao mesmo tempo progrida ao longo da história (concepção hegeliana), e por isso descartamos essa segunda opção; não faz sentido pensar no mundo como uma matéria que se autoproduz (marxismo), pois é contraditório que algo seja causa de si mesmo.

Nossa inteligência obtém os demais conhecimentos em virtude do princípio de não-contradição. Contudo, convém notar que, assim como as demais noções estão incluídas na de ente, mas não se obtêm a partir da noção de ente mediante uma análise ou dedução, tampouco o primeiro princípio, embora latente em todos os juízos, permite deduzir dele os demais conhecimentos humanos: não se conhece propriamente a partir do princípio de não-contradição, mas de acordo com ele.

Essência = substância?

Essência e substância não são perfeitamente sinônimos: ambos se referem à mesma realidade, mas essência a designa antes enquanto constitui um modo de ser determinado e concreto, pelo qual o ente se inclui em uma espécie (homem, cão, cavalo, etc.), ao passo que com o termo substância quer-se ressaltar que recebe o esse como próprio (subsiste) e que é substrato para os acidentes (substat).

Existe meio-termo entre substância e acidente?

Desde o ponto de vista metafísico, isto é, atendendo ao ser das coisas, não há termo médio entre a substância e os acidentes: qualquer realidade, ou é em si ou é em outro. Por isso não deve causar estranheza que propriedades tão importantes do homem, como a inteligência e a vontade, devam incluir-se entre os acidentes, pois não subsistem em si mesmas, mas no sujeito. O distintivo dos acidentes não é ser algo pouco importante, de que se possa prescindir, mas o seu ser em outro; e assim, há acidentes de grande transcendência, como o querer, e outros de menor relevo, como estar sentado.

No entanto, na lógica os acidentes próprios da espécie, que se predicam de modo necessário de todos os seus indivíduos, recebem a denominação precisa de “propriedades” ou “próprios”; em contrapartida, o termo “acidente” reserva-se para as características que podem dar-se ou não em cada um dos seus indivíduos. Desde esta perspectiva lógica, as “propriedades” são, de alguma maneira, um termo médio entre a substância e os “acidentes”.

Os acidentes são entes?

Como consequência do diverso modo como lhes convém o ser, “ente” predica-se da substância e dos acidentes em sentido análogo: de maneira em parte igual — ambos são — e em parte distinta, pois a substância é em virtude de um ato de ser próprio, e os acidentes são apoiando-se na substância. Daí que o nome de ente se atribua com propriedade à substância. Pelo contrário, aos acidentes antes haveria que chamá-los “algo do ente”.

Ato e potência são realidades ou princípios?

O ato e a potência não são realidades completas, mas aspectos ou princípios que se encontram nas coisas. A potência contrapõe-se ao ato como o imperfeito ao perfeito. Em sentido estrito, o ato é perfeição, acabamento, algo determinado; a potência, ao contrário, é imperfeição, capacidade determinável.

Essência

a) Natureza: é a essência enquanto princípio de operações. A natureza do homem corresponde ao pensar e ao querer.

b) Quididade: é a essência enquanto significada pela definição. A quididade do homem é “animal racional”.

c) Universal: é a essência enquanto referível a muitos indivíduos. O universal homem na mente humana aplica-se logicamente a este homem e a todos os homens individuais.

d) Essência: é a essência enquanto recepção do ato de ser. A essência do ente homem recebe o ato de ser e por esse ato de ser se contrai de uma forma determinada.

A matéria diversifica a forma, a forma hierarquiza o ser

Poder-se-ia dizer que a diversificação introduzida pela matéria tem um caráter “horizontal”, em contraposição à produzida pela forma, que hierarquiza as criaturas segundo a maior ou menor perfeição de ser, em uma dimensão “vertical”. A multiplicação causada pela matéria mantém-se, portanto, dentro dos limites que a forma estabelece para a espécie.

A influência do formalismo de Duns Scot

A partir de Duns Scot, a metafísica adquiriu uma profunda orientação formalista e acabou por abandonar a noção tomista do ser como ato. Com diferentes nuances, filósofos como Suárez, Leibniz, Wolff e Kant passaram a entender o ser não como ato, mas como efetividade (do esse ut actus ao esse actu).

O mesmo sentido aparece em Hartmann: “O ente deve ser entendido como o actus ens dos escolásticos, a energeia aristotélica”. Com isso concorda não apenas o uso cotidiano da linguagem, que não conhece a palavra “ente” e diz simplesmente “o efetivo”, mas também a usual gradação filosófica dos modos de ser, segundo a qual ainda não é possível falar de um ente verdadeiro, mas apenas de um grau prévio dele; por assim dizer, somente o efetivo é um ente plenamente acabado” (Zur Grundlegung der Ontologie, Gruyter, Berlim, 1966, pp. 66-67).

A crítica de Heidegger, quando acusa a metafísica ocidental de ter perdido o ser, padece do mesmo equívoco fundamental: pensar que a actualitas do ser se identifica com a efetividade (Wirklichkeit). É verdade, como se sabe, que o conhecimento de Tomás de Aquino por parte de Heidegger era limitado; muito mais amplo e documentado era o seu conhecimento de Duns Scot.

Ser e essência são princípios e realidades, mas não são coisas

A composição de essência e ato de ser não deve ser entendida como o resultado da agregação de duas realidades completas e acabadas. São antes dois princípios metafísicos que se unem para constituir um único ente, e que guardam entre si uma ordenação semelhante à da potência e do ato: a essência é potência em relação ao ser, e não pode existir separada dele.

A essência só existe pelo ser, pois, antes de possuir o ser, não é nada; existe apenas no entendimento do Criador, onde já não é criatura, mas a própria essência criadora. Deus, ao criar, produz entes a partir do nada, isto é, um ato de ser limitado por sua própria essência; não duas coisas diversas que primeiro faz e depois une, mas uma única coisa, limitada e, portanto, composta de potência (essência) e ato (esse).

O supósito

Em metafísica, reserva-se o nome de sujeito subsistente ou supósito (suppositum) para designar os entes concretos com todas as suas perfeições.

Na verdade, pode-se designar como ente tudo aquilo que, de algum modo, possui ser: matéria, forma, substância, acidentes etc.; mas ente em sentido principal e próprio é o supósito, isto é, aquilo que subsiste, o que existe em si mesmo como algo completo e acabado, distinto de qualquer outra realidade.

O sujeito subsistente [curiosa inversão com o que modernamente chamamos “objeto”] poderia definir-se, portanto, como um todo individual que subsiste em um único ato de ser e que é, por isso, incomunicável.

O supósito pode assumir alguns outros nomes: todo (totum), concreto (de quasi congregatum), indivíduo, singular e hipóstase (equivalente grego de suppositum).

Pessoa: supósito racional

Santo Tomás, seguindo Boécio, define a pessoa como substância individual de natureza racional (individua substantia rationalis naturae). A pessoa não é, portanto, mais do que um tipo determinado de supósito: aquele que possui uma natureza espiritual.

O nome de pessoa designa os seres mais perfeitos que existem, isto é, Deus, os anjos e os homens. Ser pessoa, em definitivo, é possuir a semelhança do Ser divino de uma forma superior, que é a espiritualidade; é gozar de um ato de ser mais intenso.

O ens per se e o ens per accidens

O ens per se é o ente própria e estritamente dito, enquanto o ens per accidens é o ente por concomitância ou “ente coincidencial”.

O ens per accidens dos medievais recebe atualmente diversas denominações: ente por concomitância, ente coincidencial ou ente consequencial, que expressam com maior ou menor rigor algumas das características dessa modalidade do real. Talvez a descrição mais simples do ser coincidencial seja a que o define como uma realidade composta por elementos cuja união não é intrinsecamente exigida pela natureza de nenhum deles. Os exemplos que Aristóteles costuma propor, homem-músico, músico-justo, músico-arquiteto, esclarecem suficientemente o sentido dessa descrição inicial. Pois, de fato, os pares aos quais acabamos de aludir, tomados um a um, constituem outros tantos entes per accidens, uma vez que a ligação entre seus respectivos componentes não é necessária: nem a essência do homem exige que ele seja músico, nem a do músico que saiba construir etc.

Causa primeira e causa segunda

Da subordinação absoluta das causas segundas à Causa Primeira podemos inferir três consequências fundamentais: (a) A Causa Primeira influi mais do que a causa segunda na realidade do efeito, de modo análogo a como um quadro deve ser atribuído propriamente, e com maior razão, ao artista e não ao pincel ou à paleta que ele utilizou. (b) A Causa Primeira e a causa segunda são causas totais em sua própria ordem, pois o efeito é produzido inteiramente por cada uma delas, e não uma parte por uma e outra parte pela outra. Como se viu, o efeito próprio e adequado da causa segunda é a edução das formas (substanciais ou acidentais), e por meio dela as criaturas alcançam um determinado grau de ser; Deus, ao contrário, tem como efeito próprio e imediato o ser dos entes, e por meio dele estende sua própria virtude a todas as perfeições das criaturas, inclusive às mais remotas. (c) A subordinação das causas segundas a Deus não diminui, mas fundamenta a eficácia do agir criado. E como Deus não apenas confere às causas segundas sua capacidade operativa, mas também a conserva e a aplica ao seu efeito, o vigor de cada uma delas aumentará na medida em que mais se submeta à ação divina.

Fonte: Tomás Alvira, Lluis Clavell, Tomás Melendo, Metafísica, Ediciones Universidad de Navarra, Pamplona, Espanha, [1982] 2001, trechos selecionados.

9 de outubro de 2026

Husserl e o pote de ouro no fim do arco-íris


Talvez o leitor queira recordar os principais conceitos da fenomenologia, seja pela introdução de Xavier Zubiri ao tema, seja pela conjunção da fenomenologia a outros temas e filósofos, antes de arvorar-se em uma crítica frontal frontal. De qualquer forma, o que faz o filósofo polonês Leszek Kolakowski, mesmo que admire Edmund Husserl, é negar que a fenomenologia atinja o que pretende atingir: a certeza.

Husserl lamentava-se pelo fato da filosofia ter abandonado o bom caminho que vinha trilhando pelo idealismo alemão (Kant, Fichte, Schelling, Hegel) e, por isso, abandonou sua independência em relação às ciências. O impulso de Husserl foi tentar trazer a filosofia de volta aos trilhos, sem que tivesse que simplesmente aceitar os resultados da ciência para apenas generalizá-los. Um dos frutos dessa crise é a redução da epistemologia à psicologia, o chamado psicologismo: nem mesmo a percepção era uma fonte de certezas, e a matemática não passaria de tautologias vazias e alienadas de mundo real. Nossas “certezas” não passavam, portanto, de meros conjuntos de instruções práticas. Certo e errado, bom e mau, belo e feio: tudo são reações biológicas. Até mesmo a lógica estaria desprovida de consistência e convicção: a lógica nada mais é do que a descrição de como o pensamento funciona, ou seja, mesmo ela estaria reduzida ao psicologismo.

Husserl, claro, não aceitava esse estado de coisas. Para além da linguagem e dos objetos tem de haver um significado ideal dos conceitos. A crítica de Kolakowski é precisamente a de que a filosofia de Husserl atinge uma certeza psicológica, e não uma certeza objetiva. Husserl quis criar uma intuição tal que cumprisse duas condições: (1) ser independente do “eu”, pois esse eu está sempre vinculado a influências históricas, sociais e biológicas (é o velho lema husserliano voltar às coisas mesmas), e (2) ter acesso à verdade universal, ou seja, a uma verdade que revele condições “necessárias” com o mundo (è a velha consigna husserliana “a filosofia deve ser uma ciência de rigor”.

Husserl prossegue à moda cartesiana: duvidar. Descartes duvidava da existência do mundo, mas Husserl vai além: não há nos fenômenos (nas “coisas mesmas”) nenhuma substância pensante. Por isso é necessário eliminar também o ego substancial. Tudo, tanto o mundo quanto o sujeito, são postos em suspenso (ou “entre parêntesis”), que é quando o fenomenólogo adota a postura de a tudo marcar com um “indicador epistemológico zero”: é a redução transcendental ou epoché (ἐποχή). O que restam? Os fenômenos e um ego transcendental que funciona como mero receptor desses fenômenos. Nesse âmbito em que só restam fenômenos puros, defende Husserl, estamos diante do ser e, nessa esfera, somos capazes de tudo investigar e de tudo extrair aquilo que Husserl buscava restaurar: a certeza.

Tudo isso soa belo, até mesmo poético. Mas é falso. Colocar tudo (mundo+sujeito) entre parênteses significa passar a ser incapaz de determinar se “as coisas mesmas” (fenômenos) são reais ou alucinações. Husserl dizia que o mundo pode ser um “sonho congruente”: ora, se o sujeito está dentro dos parêntesis, então de que maneira o mundo poderia ser congruente? Quem disse que em meio a tão profunda dúvida abre-se mesmo esse novo reino do ser? Questionar racionalmente a existência de tudo porta certo frescor de rebeldia adolescente, mas no final do dia trata-se apenas disso: coisa de adolescente. O que é esse “ego transcendental” pós-redução senão um recipiente vazio de conteúdo? A “certeza” que surge da redução se refere a quê? Dizem os fenomenólogos que a redução eidética que se segue à redução transcendental consiste precisamente em descobrir a essência válida e cientificamente útil do puro fenômeno: o eidos. A redução eidética seria uma espécie de experiencia direta dos universais, que, presume-se, se revelarão ao sujeito com uma autoevidência irresistível. Esses universais, ou essências, seriam atemporais e a-espaciais.

E como, na prática, se chega às “coisas mesmas”, aos fenômenos? Em suma, mediante jogos imaginativos. Vejamos:

Através do que Husserl chama de variação livre imaginária, tentamos imaginar o objeto (um universal) ignorando ou alterando mentalmente algumas de suas propriedades, e assim concluímos que, embora algumas delas sempre acompanhem empiricamente o fenômeno, não lhe pertencem estruturalmente, e sua ausência deixa intacta a natureza do fenômeno; outras [propriedades], por outro lado, não podem ser suprimidas sem suprimir, ao mesmo tempo, a identidade do fenômeno. Esta operação [a variação livre imaginária] trata as coisas (os fenômenos) como se estivessem dotadas de um significado independente do sentido convencional das palavras.

Como podemos ter certeza que a “certeza irresistível” advinda da redução eidética é verdadeira? A fenomenologia não responde essa pergunta: ou o sujeito tem a intuição ou não tem. E mais: como poderíamos refletir sobre as “essências” que experimentamos com a redução eidética como quer Husserl, ou seja, sem pressupostos, sem preconceitos, sem as distorções da linguagem? Como refletir sobre o eidos da religião, da relação causal, da cor vermelha, da arquitetura, do Estado, das relações sociais, do que quer que seja? Como regressar à inocência cultural de um recém-nascido e, ao mesmo tempo, continuarmos fenomenólogos? A fenomenologia é um chamado à experiência sem preconceitos, mas é incapaz de entregar o produto que promete.

Husserl não escapa do idealismo e, pior, sua fenomenologia ao fim e ao cabo reduz-se a um racionalismo místico: a saga em busca da terra prometida da verdade independente da consciência equivale à busca do pote de ouro no fim do arco-íris. Estava certo Étienne Gilson: se partimos de um mundo imanente terminaremos em um mundo imanente. Eis, a propósito, minha crítica a Kevin Fitzmaurice e sua campanha pela remoção do ego, e a Jiddu Kirshnamurti e sua mente plenamente consciente: a busca por tais estados elevados equivale à máxima abertura do homem à mentira e à malícia.

Fonte: Leszek Kolakowski, Husserl y la búsqueda de la certeza, Marbot Ediciones, Rubí, Espanha, [2001] 2018.

7 de outubro de 2026

Máquinas nomológicas: as fábricas de leis da física


Em uma postagem sobre a metafísica aristotélica aplicada às ciências modernas, tomamos contato com as ideias de Nancy Cartwright, ecoadas por Edward Feser, de que as leis da física, a rigor, não existem tal como as concebemos. O que realmente existe são regularidades aplicadas a um recorte extremamente limitado e artificial do universo, tornando-as na melhor das hipóteses interessantes, mas alheias ao mundo real.

Detenhamo-nos um pouco mais nessas ideias de Cartwright. Em linhas gerais, ela defende três proposições: (1) o sucesso das teorias físicas atesta sua veracidade, mas não sua universalidade, (2) as leis da física funcionam graças ao artifício do ceteris paribus (literalmente “os outros iguais”), ou seja, o artifício de isolar a relação direta entre duas variáveis, desconsiderando o impacto de outros fatores externos, e a aplicação de máquinas nomológicas, e (3) o verdadeiro conhecimento científico não se encontra em leis, mas em naturezas.

Imagine uma nota de 100 reais atirada do alto da Catedral da Sé, no centro de São Paulo. Onde ele vai pousar? Na praça? Na entrada da estação de metrô? No meio da rua? No alto de um prédio? Ou voará de volta no rosto de quem a atirou? O fato é que não há modelo físico que possa prever isso. O crente na física mecânica discordará: por mais complexo que seja, idealmente haverá um modelo que possa descrever com precisão suficiente onde, afinal, a nota de 100 reais vai pousar. Ele pensa assim porque acha que a força, que ele conhece dos livros-texto de física e de experiências em laboratório, é capaz de, levada aos limites por meio de modelos ultraprecisos, explicar o movimento da nota.

Trata-se de mero fundamentalismo religioso. A fórmula escolar ∑ F=ma é obviamente insuficiente. A nota é leve, amassada ou dobrada, oscila no ar, é empurrada por correntes de vento aleatórias, turbulências criadas pelos prédios e assim por diante. Mas não apenas isso: para modelar o vento, precisamos da mecânica dos fluidos (equações de Navier-Stokes); para a nota, da mecânica dos sólidos e assim por diante. A física não é um sistema único e unificado que explica tudo sozinho, mas uma “colcha de retalhos” (patchwork of laws) de diferentes modelos.

Por isso Cartwright lança mão da ideia de “naturezas”. É da “natureza da força” produzir uma aceleração, mesmo que outras causas estejam em jogo. A natureza da força “tentará” produzir uma aceleração, ela tem essa “tendência”. A lei ∑ F=ma  é verdadeira, mas que a lei ∑ F=ma seja universal é não apenas falso, mas fantasioso: para além das condições estritas e controladas ceteris paribus, o mundo real é infinitamente mais complexo e profundo do que as leis físico-matemáticas.

Estou preparada para acreditar em teorias mais gerais quando tivermos evidências empíricas diretas para elas, mas não meramente porque são a “melhor explicação” para algo que pode muito bem não ter explicação. “A teoria é bem-sucedida em seu domínio”: a necessidade de explicação é a mesma, quer o domínio seja pequeno, grande, muito pequeno ou muito grande. As teorias são bem-sucedidas onde são bem-sucedidas, e ponto final.

O patchwork of laws que citamos acima é o que Cartwright chama de pluralismo nomológico metafísico. É o exato oposto do fundamentalismo: a natureza é governada por domínios diferentes, leis diferentes e sistemas diferentes, os quais não possuem absolutamente nenhuma relação. O vetor campo elétrico funciona muito bem em transistores, mas em situações cotidianas sua fórmula torna-se absolutamente inerme.

Pensar dessa forma soa incômodo e mesmo ultrajante. Isso acontece porque nos opomos ao pluralismo nomológico munidos de duas “manias”: (a) a superveniência, que é a irmã do reducionismo, estabelece que não pode haver uma mudanças nas propriedade de alto nível (macroscópicas) sem que ocorra uma mudança nas propriedades de baixo nível (microscópicas); alguns cientistas acreditam todavia no “emergentismo”, ou seja, na curiosa ideia de que a partir de estruturas complexas de nível inferior surgem novas propriedades que são irredutíveis e possuem novidade qualitativa, o que equivale a certa crença quase-mística e desnecessária; (b) a consistência, que é a resistência psicológica que modernamente desenvolvemos em admitir que as leis da física não são uniformemente aplicáveis. Cartwright conta a seguinte anedota para ilustrar a mania da consistência:

Eis duas histórias que eu costumava contar quando lecionava Filosofia Mecânica do século XVII. Ambas são sobre como escrever o Livro da Natureza para garantir a consistência. Na primeira história, Deus está muito interessado em física. Ele escreve cuidadosamente todas as suas leis e estabelece as posições e velocidades iniciais de todos os átomos no universo. Ele então deixa para São Pedro o trabalho tedioso, mas intelectualmente trivial, de calcular todos os acontecimentos futuros, incluindo quais propriedades macroscópicas e leis macroscópicas emergirão, se houver alguma. Essa é a história do reducionismo. O pluralismo metafísico supõe, em vez disso, que Deus está muito preocupado com as leis e, assim, escreve toda e qualquer regularidade que seu universo exibirá. Nesse caso, São Pedro fica com a tarefa gigantesca de organizar as propriedades iniciais no universo de alguma forma que permita que todas as leis de Deus sejam verdadeiras juntas. A vantagem do reducionismo é que ele facilita o trabalho de São Pedro. Deus pode, no entanto, ter escolhido ser um pluralista metafísico.

Para explicar as leis da física (ou de qualquer ciência com pretensões universalistas), Cartwright propõe que elas são fruto de máquinas nomológicas. Trata-se de um arranjo (suficientemente) fixo de componentes, ou fatores, com capacidades (suficientemente) estáveis que, no tipo certo de ambiente (suficientemente) estável, dará origem, com o funcionamento repetido, ao tipo de comportamento regular que representamos em “leis científicas”. Observe que há certa “tecnologia” (a própria máquina) por trás da “ciência”, o que curiosamente alude à ideia de tecnociência de Jason Jorjani. De qualquer forma, ocorre que as leis da engenharia habitualmente apresentam hiatos em relação às leis da física-matemática: é impossível transladar as máquinas nomológicas para o mundo real porque lá, no mundo real, as capacidades (ou, na linguagem aristotélica, “potências”) que agem nas máquinas nomológicas se perdem e tornam-se best guesses ou “naturezas”. Um engenheiro pode aplicar a fórmula de atenuação em espaço livre para redes de radioenlaces, mas tem de saber que a fórmula é um resultado de naturezas que tendem a determinadas ações, e não de leis da física. O conhecimento das capacidades (ou “potências”) é muito mais abrangente e útil do que o conhecimento de regularidades (ou “leis da física”).

Fonte: Nancy Cartwright, The dappled world: a study of the boundaries of science, Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido, 1999.

6 de outubro de 2026

Quem era Jesus?


1) A descendência de Jesus desde David é transmitida por seu pai José, e não por Maria, e mesmo assim o nascimento é tido como virginal por Mateus e Lucas.

2) Jesus nasceu provavelmente em Nazaré e era um judeu da Galileia.

3) A família de Jesus de Nazaré era composta de pelo menos sete filhos: quatro irmãos e várias irmãs. A interpretação mais natural é de que os irmãos de Jesus não eram “primos” ou parentes próximos de casamentos anteriores de José, mas seus irmãos biológicos.

4) A ideia de um Jesus simples, amável, sensível e doce é completamente idílica e, portanto, falsa. Ademais, Jesus não tinha nada de inculto, mas, pelo contrário, estava muito bem familiarizado com a tradição judaica escrita e oral, e tinha pleno domínio dela. Não era a toa que as pessoas lhe chamavam de “rabi” mesmo não sendo ele um escriba.

5) Um traço psicológico inegável de Jesus é seu menosprezo pela família em que nasceu, como em João 2:4 (Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora). Vice-versa, sua família também lhe era alienada. Flusser cita a Shlomo Pinès (The Jewish Christians of the early centuries of Christianity according to a new source, Jerusalém, Israel, 1966), que conta que se aproximaram de Jesus na cruz sua mãe Maria e seus filhos Tiago, João e Judas, que lhes disse: “Toma teus filhos e vá embora”. Esta tensão também está presente nos Evangelhos: E, falando ele ainda à multidão, eis que estavam fora sua mãe e seus irmãos, pretendendo falar-lhe. E disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te. Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos (Mateus 12:46-49). Flusser também conta que Tiago, irmão de Jesus, acreditou nele somente graças a uma aparição do Ressuscitado e que, mais tarde, também creram os demais irmãos de Jesus. Isso também é prova de que antes de morrer sua família não tinha fé nele. Mesmo Maria foi incapaz de compreender a Jesus adequadamente.

6) No relato original, o que a voz celestial disse a Jesus foi: Eis aqui o meu servo, a quem sustento, o meu eleito, em quem se compraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios (Isaías 42:1). Vozes celestiais eram comuns na época, e experiencias extáticas frequentes. Portanto, Jesus não era “meu Filho”, mas apenas um servo eleito de Deus.

7) Jesus, ao contrário do que se apregoa tradicionalmente, não “superou” nem “cumpriu” a lei. Os fariseus não aparecem nos três primeiros Evangelhos como acusadores no julgamento de Jesus porque, quando estes foram redigidos (cerca do ano 80) ainda se sabia que os fariseus não haviam aprovado a entrega de Jesus aos romanos. Os Evangelhos sinóticos, portanto, não puderam mencionar os fariseus no julgamento de Jesus porque, de outra forma, não se teria dado crédito aos seus relatos. E mais tarde proibiu-se a todos os cristãos observar os preceitos da Antiga Aliança, apesar de Jesus ter dito: Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (Mateus 5:18-20). Ademais, Jesus não tinha grande estima pelos não-judeus, os “gentios”: Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mateus 10:5-6). E ainda: E, partindo Jesus dali, foi para as partes de Tiro e de Sidom. E eis que uma mulher cananeia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada. Mas ele não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, chegando a ele, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, que vem gritando atrás de nós. E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me! Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã (Mateus 15:21-28). E, entrando Jesus em Cafarnaum, chegou junto dele um centurião, rogando-lhe, e dizendo: Senhor, o meu criado jaz em casa, paralítico, e violentamente atormentado. E Jesus lhe disse: Eu irei, e lhe darei saúde. E o centurião, respondendo, disse: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado, mas dize somente uma palavra, e o meu criado há de sarar. Pois também eu sou homem sob autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu criado: Faze isto, e ele o faz. E maravilhou-se Jesus, ouvindo isto, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé. Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus; e os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então disse Jesus ao centurião: Vai, e como creste te seja feito. E naquela mesma hora o seu criado sarou (Mateus 8:5-13). E, depois de concluir todos estes discursos para a audiência do povo, entrou em Cafarnaum. E o servo de um certo centurião, o qual era muito estimado por ele, estava doente, e à morte. E, quando ouviu falar de Jesus, enviou-lhe uns anciãos dos judeus, rogando-lhe que viesse curar o seu servo. E, chegando eles junto de Jesus, rogaram-lhe muito, dizendo: É digno de que lhe concedas isto, porque ama a nossa nação, e ele mesmo nos edificou a sinagoga. E foi Jesus com eles; mas, quando já estava perto da casa, enviou-lhe o centurião uns amigos, dizendo-lhe: Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres debaixo do meu telhado. E por isso nem ainda me julguei digno de ir ter contigo; dize, porém, uma palavra, e o meu criado sarará. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados sob o meu poder, e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz. E, ouvindo isto Jesus, maravilhou-se dele, e voltando-se, disse à multidão que o seguia: Digo-vos que nem ainda em Israel tenho achado tanta fé. E, voltando para casa os que foram enviados, acharam são o servo enfermo (Lucas 7:1-10). Nesses relatos não é Jesus quem dá a palavra decisiva, mas o gentil. Ademais, nas fontes rabínicos não existe nenhuma proibição em curar a um gentil, portanto Jesus não teria enfrentado a tradição vigente.

8) A pregação de Jesus do amor ao próximo e a Deus como o maior dos mandamentos não era nenhuma novidade na Palestina do século I. Essa ideia estava plenamente presente no farisaísmo, e nos documentos rabínicos estava clara a noção de que o amor a Deus é superior ao temor a Deus.

9) A mensagem genuinamente cristã é a pregação social. Vale a pena ler um excerto sobre o tema. Observe como Jesus repudia a ideia de viver em comunidades isoladas do mundo e ao mesmo tempo repudia frontalmente a ideia de acúmulo de riquezas:

A dimensão social está mais acentuada em Jesus do que entre os rabinos; ela constitui o núcleo de sua autêntica mensagem. No entanto, ele não foi um revolucionário socialista no sentido usual da palavra. Nesse aspecto, os essênios tinham outra orientação. Originalmente, o movimento essênio foi um movimento apocalíptico revolucionário, cuja ideologia da pobreza estava estreitamente vinculada à doutrina da dupla predestinação: eles, os verdadeiros filhos da luz, os pobres escolhidos por Deus, graças às suas próprias armas e com a ajuda do exército celeste, herdarão a terra e conquistarão o mundo inteiro no fim dos tempos, que já se aproximava. Nesse momento serão exterminados os filhos das trevas, o restante de Israel e as nações, juntamente com as potências demoníacas que governam o mundo. Embora na época de Jesus a ideologia essênia provavelmente já não fosse tão ativa e seus adeptos se inclinassem mais para uma mística contemplativa, continuavam, no entanto, praticando a comunhão de bens, davam grande valor à pobreza e mantinham-se rigorosamente separados do restante dos judeus.

Como filhos da luz, os essênios haviam reduzido ao mínimo as relações econômicas com o mundo ao seu redor: “Que ninguém coma nada que provenha deles, nem beba ou receba algo de suas mãos sem pagar o justo preço..., porque... todos os que desprezam sua palavra serão extirpados da terra, pois impuras são suas obras diante de Deus e a imundície reina em tudo o que possuem”. Os essênios, portanto, viam-se obrigados a “separar-se dos filhos da perdição e abster-se da posse impura da iniquidade”.

Naturalmente, Jesus não podia aprovar o separatismo ideológico e econômico dos essênios. Os filhos deste mundo são mais astutos para com os seus semelhantes do que os filhos da luz. Eu vos digo: fazei amigos por meio das riquezas injustas... Porque, se não fostes fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras? E, se não fostes fiéis no que é alheio, quem vos dará o que é vosso? (Lucas 16:8-12). [Aqui não se trata de fazer amigos "com" riquezas injustas, o que não faria sentido, mas a partir dos logion (na teologia e no estudo bíblico, os estudiosos defendem que existiu um documento primitivo chamado de Fonte Q, do alemão Quelle, que significa "fonte"; este documento teria sido precisamente uma lista de logia ("ditos", plural de logion) de Jesus que os autores de Mateus e Lucas usaram para escrever os seus próprios Evangelhos.] Jesus, portanto, deve ter conhecido os essênios e feito alusão a eles, não sem certa ironia, ao utilizar a própria autodesignação deles: “os filhos da luz”.

Como os essênios de sua época, também Jesus via em toda posse um perigo para a verdadeira piedade: Ninguém pode servir a dois senhores; porque odiará um e amará o outro; ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro (Mateus 6:24). A terminologia dualista deste dito é essênia: os essênios esforçavam-se por “amar tudo o que Ele escolheu e odiar tudo o que Ele rejeitou, afastar-se de toda maldade e aderir a toda boa obra”. A hostilidade eterna entre o bem e o mal aparece também entre os filhos da luz e os das trevas, entre Deus e Belial, o diabo. Jesus não podia pensar dessa maneira, pois não adotou a teologia dos essênios, mas apenas algumas consequências sociais de sua ideologia. Por isso, os dois senhores de sua sentença não são Deus e Belial, o diabo, mas Deus e Mammon.

Jesus, portanto, considera as riquezas um obstáculo à virtude. Como é difícil para os que confiam nas riquezas entrar no Reino dos Céus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus (Marcos 10:24-25). Daí que a pobreza, a humildade, a pureza de coração e a simplicidade fossem valores religiosos essenciais tanto para Jesus quanto para os essênios. Jesus e os essênios pensavam que os marginalizados e perseguidos da sociedade presente seriam os primeiros no iminente juízo divino, que deles é o Reino dos Céus e que os que choram serão consolados. Essas afirmações de Jesus estão longe de qualquer sentimentalismo, como se vê pelas maldições dirigidas contra os ricos, os saciados e os que agora riem, porque terão aflição e pranto. Graças aos novos documentos do Mar Morto podemos compreender agora a expressão pobres de espírito, que também aparece entre eles como um título honorífico dos essênios: são os pobres que receberam o dom do Espírito Santo.

Em uma passagem do Livro dos Hinos (18,14-15), o autor dá graças a Deus por tê-lo escolhido para anunciar sua bondade, “para anunciar aos humildes a riqueza da tua misericórdia, e a salvação proveniente da fonte eterna aos de coração contrito, e a alegria eterna aos que choram”. Isso corresponde aos humildes, aos pobres de espírito e aos que choram das três primeiras bem-aventuranças de Jesus.

10) Jesus nunca pregou a moral tradicional; pelo contrário, a justiça divina é de uma ordem diferente da justiça humana, seja ela distributiva ou corretiva. A ideia de que Deus premia os bons e pune os maus é fruto da fantasia humana, não do mundo real.

O paradoxo de sua ruptura com a moral tradicional é exposto admiravelmente por Jesus na parábola dos trabalhadores da vinha (Mateus 20:1-16). Um proprietário saiu para contratar trabalhadores para sua vinha e prometeu dar um denário por dia a cada um. Ao cair da tarde, pagou a todos o mesmo salário, sem levar em conta o tempo que haviam trabalhado. Os que tinham começado nas primeiras horas da manhã murmuravam contra o proprietário. Mas ele respondeu a um deles: “Amigo, não estou sendo injusto com você. Não combinamos um denário? Então pegue o que é seu e vá embora. Quero dar a este último o mesmo que dei a você. Não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que é meu? Ou você fica com inveja porque eu sou bom? Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.”

Aqui, como em todo o seu ensinamento, Jesus aceita o princípio do salário, mas modifica completamente as concepções habituais sobre a justiça de Deus. Talvez alguém pense que isso acontece porque Deus, em seu amor e sua misericórdia universais, não faz distinção entre as pessoas. Mas a mudança da escala de valores em Jesus não é idílica: a desgraça também não distingue entre pecadores e justos. Certa vez contaram a Jesus a respeito dos galileus cujo sangue Pilatos havia misturado ao dos seus sacrifícios. Sem dúvida esperavam uma resposta política, mas Jesus lhes disse: Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os demais galileus porque sofreram essas coisas? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, todos perecereis do mesmo modo. Ou aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, pensais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, todos perecereis do mesmo modo. (Lucas 13:1-5)

A concepção que Jesus tinha da justiça de Deus é, portanto, incompreensível para a razão. Não é possível medi-la, embora seja possível compreendê-la e entendê-la. Essa concepção estará no centro da pregação do Reino, no qual os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. Ela leva o espírito do Sermão da Montanha até o Gólgota, onde o justo morre como um criminoso. Tal concepção é profundamente moral, mas, ao mesmo tempo, está para além do bem e do mal. À luz dessa intuição genial, tudo aquilo que costuma ser considerado “importante” — as virtudes habituais, a personalidade mais perfeita, a dignidade terrena e o orgulhoso empenho no cumprimento formal da Lei — torna-se frágil e vão. Sócrates tornou problemático o aspecto intelectual da pessoa; Jesus, o aspecto moral. Ambos foram executados. Seria isso uma simples coincidência?

11) Flusser conclui que Jesus nunca se viu como “Messias” nem cogitava a hipótese de que poderia “expiar” os pecados de quem quer que seja. Embora Flusser considere a transfiguração de Jesus, narrada em Lucas 9:28-36, como real, nela Jesus é chamado de “meu Filho, o Eleito” (a versão grega traduz o termo hebraico “único” como “amado”, mas a palavra “eleito” expressa melhor o original). No mesmo Evangelho de Lucas (20:9-19), na parábola dos lavradores homicidas, Jesus deixa clara sua condição de Filho, de pregador profético e, consequentemente, de futura vítima de assassinato. Flusser entende que foi a Igreja primitiva que, décadas mais tarde, enxertou a ideia de que Jesus operaria uma suposta “remissão dos pecados”.

12) Um dos temas mais curiosos é sobre a expressão “Filho do Homem”, que Jesus a usava sempre em terceira pessoa, como se não se identificasse com ela. Há três contextos em que a expressão Filho do Homem é usada: (1) como simples sinônimo de “homem”, como quando Jesus diz que o Filho do Homem não tem onde reclinar sua cabeça, (2) como aquele que será morto e ressuscitará, o qual Flusser claramente identifica como uma invenção da Igreja primitiva e deve ser descartado in limine, e (3) como alguém que há de vir. É a este personagem do item (3) que se refere este trecho do Evangelho de Mateus: E quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas; e porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna (Mateus 25:31-46). Observe que o Filho do Homem é uma figura sobre-humana, celeste, é o juiz escatológico do cosmo. Segundo fragmentos essênios, esse juiz escatológico é Melquisedeque, o rei sacerdotal de Jerusalém que viveu nos tempos de Abraão. É a Melquisedeque que se refere este trecho dos Salmos: Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses (Salmos 82:1). Este “Deus” é, na verdade, um juiz escatológico de aparência humana, a quem os salmos identificam com Melquisedeque: Assenta-te à minha mão direita…tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque (Salmos 110:1,4). Em hebraico, “segundo a ordem de” significa o próprio Melquisedeque, ou pelo menos é assim que os essênios entendiam. Jesus teria interpretado à maneira corrente, em que “segundo a ordem de” significa alguém similar a Melquisedeque. De qualquer forma, em Marcos 12:35-37 Jesus citou o começo desse salmo 110 referindo-se ao Messias (E, falando Jesus, dizia, ensinando no templo: Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi? Porque o próprio Davi disse pelo Espírito Santo: O Senhor disse ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. Pois, se Davi mesmo lhe chama Senhor, como é logo seu filho? E a grande multidão o ouvia de boa vontade). E ainda outra vez diz Jesus: Desde agora o Filho do Homem se assentará à direita do poder de Deus (Lucas 22:69). Flusser conclui, assim, que no início de sua carreira profética Jesus não se via como o Messias, e por isso designava o Filho do Homem em terceira pessoa. No entanto, próximo de sua paixão, Jesus teria se dado conta de que efetivamente é o Messias, o futuro Filho do Homem. No contexto do judaísmo antigo, Jesus certamente é o mais elevado dos homens. Michael Heiser concordaria com isso, mas iria além: Jesus não seria apenas o Messias escatológico, mas com base sobretudo em Daniel 7 uma figura que participa da própria identidade divina.

Fonte: David Flusser, Jesús, Ediciones Cristiandad, Madrid, Espanha, [1968] 1975.

Imagem: Jan van Eyck, O Juízo Final, Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA, ca. 1436-1438.

4 de outubro de 2026

Lições metafísicas de Cornelio Fabro


A distinção entre essência e existência é o núcleo dentro do qual boa parte das querelas tomistas se dão e igualmente o que distingue o tomismo de grande parte das filosofias modernas. Em particular, é no âmbito da “existência” em que se abrem duas grandes vertentes de entendimento: (a) o tomismo clássico, que entende o ser (ou o esse como prefere Fabro) como o princípio realizador da essência ao modo de progressão: o esse é aquilo que “põe para fora”, do nada, a essência e é também o ato que completa a essência, que a floresce, que a desenvolve; (b) o tomismo transcendental, inspirada no filósofo belga Joseph Maréchal e que procura combinar o realismo tomista com a filosofia crítica kantiana, que, naturalmente, parte da dinâmica do juízo: o juízo fundar-se-ia em um recorte da realidade, e esse recorte é uma abertura “pré-agarrada”  a algo necessariamente abstrato e universal, que é o ser ilimitado e absoluto, o próprio Deus. Como ainda não estudamos o tomismo transcendental, deixo aqui o trecho para que possamos consultá-lo mais tarde:

[Segundo o tomismo transcendental] todo juízo se configura expressando uma síntese que remete ao ser real. Ora, essa síntese recorta apenas um aspecto particular dentro de um campo cuja abertura é pressuposta para que precisamente esse recorte possa ser verificado. Essa abertura nada mais é do que uma pré-noção do esse (ser), que, por implicar a primeira e mais originária oposição relativa entre sujeito e objeto, deve necessariamente ser abstrativa e universal. Mas, dado que nenhum objeto concreto, e muito menos um objeto material, consegue preencher a abertura que ele próprio pressupõe e dentro de cujo quadro se apresenta em sua objetividade, essa pré-noção alcança o esse como negativamente ilimitado, como totalidade antecipadora de toda predicação possível e como pano de fundo comum de referência de todo conteúdo essencial.

Dessa maneira, essa ilimitabilidade manifesta-se também como abertura à transcendência do esse absolutum, isto é, Deus. A sequência vai, então, da afirmação objetiva própria do juízo à constatação reflexiva da pré-noção abstrativa do esse universale (ser universal), pré-noção que é sempre vivida de fato, em ato segundo, em toda afirmação; e da análise do ‘conteúdo’ dessa pré-noção ao reconhecimento: a) da noção negativamente ilimitada de ser e b) de Deus como o correlato objetivo e positivamente absoluto, embora não apreensível tematicamente, anunciado por essa orientação originária da consciência.

Cornelio Fabro não se satisfaz com o tomismo clássico, por julgá-lo uma corrupção da noção originária tomasiana de ser ao enfatizar demasiadamente o aspecto existentivo do esse, e rejeita in limine o tomismo transcendental. Sua proposta é o ser intensivo.

Todos concordam em reconhecer no ente uma composição de essência e esse, assim como em reconhecer que a essência deriva da plenitude formal do ipsum esse subsistens (o próprio Ser subsistente), enquanto o esse reflete a consistência atual do mesmo. Contudo, Fabro não se sentiria totalmente representado por essa maneira de ver. Ele considera que, para Santo Tomás, o esse é o ato emergente por excelência e que, no ens (ente), é um princípio intrínseco sob todos os aspectos, configurando-se como um ato intensivo. Qual é, então, a novidade fabriana? Qual a diferença que separa essas duas maneiras de ver?

A opção terminológica por “existentia” em vez de “esse”, que tradicionalmente caracterizou a escola tomista, obedece não apenas a questões históricas, mas também a uma interpretação muito definida do próprio esse. Com efeito, segundo essa interpretação, o esse deve ser entendido como existentia, pois é o princípio que faz existir, ou então aquele ato quiescente [imanente, ou seja, que permanece no agente que atua; o contrário de transitivo] pelo qual a essência é colocada fora das causas e do nada. A existentia é, como princípio metafísico, o fator realizador da essência, de tal modo que pressupõe a essência já constituída na plenitude de sua riqueza formal. Graças à existência, a essência torna-se real, mas não se enriquece em si mesma; é o ente que se beneficia da contribuição dos graus de perfeição formais que a essência lhe confere. Portanto, tudo parece “fechar” perfeitamente: a existência deriva da atualidade do ipsum esse subsistens (o próprio Ser subsistente), enquanto a essência deriva, como reflexo limitado, de seus infinitos graus de perfeição. A constituição do ente explicar-se-ia, em termos estáticos, pela composição de essência e existência, isto é, da atualidade formal que é a essência e da atualidade real que é a existência; e, em termos dinâmicos, porque Deus atribuiria um ato de existência a uma essência por Ele concebida.

Essa interpretação procura explicar a existentia como termo [efeito, resultado final] da causalidade eficiente do Criador e os graus formais [os níveis de perfeição das formas] da essência segundo a linha da causalidade exemplar [as formas existem exemplarmente no Criador]. Contudo, com essa explicação parece diluir-se excessivamente o significado forte e o papel decisivo e protagonista que, na reductio ad fundamentum (redução ao fundamento), corresponde ao esse, tal como o Doutor Angélico o considera.

O esse aparece “depois” da essência, ou seja, como mero “complemento existencial” de algo que lhe é ontologicamente superior. É como se a existência apenas "colocasse fora do nada" uma essência já plenamente constituída. Em ainda outras palavras, é como se o esse fosse apenas mais uma perfeição do ente, ao lado da racionalidade, animalidade, vida, substancialidade etc. Este é o núcleo da crítica de Fabro ao tomismo formalista.

A metafísica do esse

Fabro vê o esse como o ato intensivo emergente. Para entender isso, é necessário antes entender os dois tipos de participação: a participação transcendental, que remete os entes ao ipsum esse subsistens e se refere ao esse e às perfeições puras (bondade, unidade, verdade, beleza, inteligência, vida → não implicam limitação nos seus conceitos, ao contrário de ser cavalo, ser árvore etc., que são entes finitos), e a participação predicamental, que se refere aos entes finitos em suas formalidades pertencentes ao gênero ou espécie (pode ser predicamental nocional, quando se estabelece entre a espécie e o gênero ou entre o indivíduo e a espécie, como em “Pedro é homem” ou “Esta camisa é branca”, e predicamental real, quando se refere à participação do sujeito no acidente e da matéria na forma, como em “O ferro participa do fogo”).

É claro que Fabro se concentra no ente e sua participação transcendental. Em especial, observa que há no ente uma composição (ou “síntese”) de essência e esse, e a diferença entre ambos é tanto ontológica (porque é interior ao ente) quanto metafísica (porque seu fundamento último lhe é extrínseco, ou seja, é efetivamente metafísico). Em suma, a composição essência-esse é de ordem transcendental, enquanto a essência do ente é de ordem predicamental em função dos graus de perfeição genéricos e específicos que constituem essa essência. O esse se “rebaixa” em virtude da essência, mas continua intacta sua tensão com o ipsum esse subsistens.

No jargão de Fabro, inspirando-se em Tomás, a “emergência” significa a irrupção do ente a partir do esse (ato de ser). Essa emergência é dupla: trata-se ao mesmo tempo de uma emergência formal (porque o esse intensifica os graus ontológicos de perfeição da essência, como a inteligência, a vida etc.) e de uma emergência atual (porque o esse confere realidade à essência, funcionando como seu princípio “existentivo”). Observe que a dupla emergência não se restringe à mera “realização” da essência, como se a essência estivesse “esperando” o esse para dar-lhe caráter existentivo. A emergência formal deixa claro que o esse é o ato de todos os atos e a perfeição de todas as perfeições. O esse, quando emerge, atualiza a essência e expande os graus de perfeição mediante a contração que a essência lhe impõe. É como se a essência fosse a potência do esse. É por isso que, ainda no jargão de Fabro, sempre inspirando-se em Tomás, a “intensividade” refere-se à assunção por parte do esse da riqueza de todos os graus de perfeição inferiores a ele. Cabe lembrar que os graus de perfeição não são “graus de existência empírica”, nem “graus de complexidade”, nem “graus de valor moral”; são graus de participação no esse, medidos pelo nível de atualidade e de imaterialidade da forma que o recebe.

Dissemos acima que a essência recebe o esse a modo de potência. Se é assim, então podemos distinguir duas recepções do esse: o esse ut actus (esse enquanto ato), que é a recepção transcendental do ipsum esse subsistens pela essência, e que proporciona a essa essência sua subsistência, constituindo originariamente o ente; no entanto, de acordo com os princípios próprios da essência (forma e, se for o caso, matéria também), o resultado dessa recepção predicamental será o esse in actu (esse em ato), constituindo o esse de acordo com esses princípios da essência. No entanto, que o leitor não se deixe encantar pela aparente “mecânica” na geração do ente: tudo isso ocorre “dentro” do círculo do ipsum esse subsistens, é de “dentro” do ipsum esse subsistens que se “desenvolve” a atualidade do ente.

Mas e quanto à famosa fórmula tomasiana forma dat esse (“a forma dá o ser”)? Então a forma é a fonte do ser? Mais ou menos: a produção do esse se dá em dois momentos ou “ordens”. Devemos notar que a forma é ato (na ordem predicamental), mas também é potência enquanto essência (na ordem transcendental). Em outras palavras, a forma é potência como princípio do ente (porque sua atualidade é o esse) e é ato como princípio da substância (porque sua potencialidade é a materia prima), ou, em ainda outras palavras, a forma é potência na ordem transcendental e ato na ordem predicamental. Por outro lado, no entanto, o esse é, sim, de certa maneira produzido pela forma na ordem predicamental. Essa observação é importantíssima para esclarecer o papel crucial que as operações humanas desempenham no desenvolvimento de seu ser. Vejamos o que diz Ferraro:

Embora seja o ato de todos os atos, para Fabro o esse não é, por si mesmo, ativo e, sendo a fonte de todo dinamismo, não é ele próprio um princípio dinâmico. Em vez disso, é à forma que corresponde o papel de princípio dinâmico na ordem predicamental, e isso mediante as diversas potências operativas. Por essa razão, seria demasiado simplista e superficial reservar a produção do esse apenas à Causa Primeira, excluindo dessa produção qualquer tipo de influxo eficiente por parte da causa segunda. [...] O esse é “cocausado”, porque é causado ao mesmo tempo que a participação da matéria na forma e derivado desta última. O esse é, então, causado in obliquo. Portanto, embora infundido pela Causa Primeira, o esse participado é também um resultado da causalidade eficiente segunda. A causalidade eficiente predicamental não pode não afetar o modo pelo qual o esse criado será participado e, consequentemente, a participação efetiva dele mesmo.

E, de maneira sucinta:

Assim, o princípio forma dat esse significa, do ponto de vista transcendental, que é por meio da forma que o esse ut actus chega ao ens e o constitui; e, do ponto de vista predicamental, que a forma é o princípio da expansão do esse in actu, e isso não apenas dentro da estrutura do próprio supósito [segundo o dicionário escolástico de Bernard Wuellner, supósito (ou hipóstase) “é qualquer sujeito individual e completo, seja ele irracional ou racional (por exemplo, um cavalo, uma árvore ou uma rocha individualizada são supósitos)”; ao passo que a pessoa (ou persona) é um supósito de natureza racional ou intelectual (como um ser humano, um anjo ou uma Pessoa divina], mas também no âmbito mais amplo do influxo eficiente das causas segundas no ciclo das gerações e corrupções, chegando a tocar a própria produção do esse ut actus.[Contemple o impacto da educação e da formação intelectual/moral na pessoa em vida e sobretudo após a morte.]

Críticas ao tomismo clássico

1. Ateísmo. É notável como a posição tomasiana (Fabro) tem no esse o núcleo do ente, enquanto a posição tomista o tem na essência. É realmente incrível que, para Fabro, a postura tomista abre as portas para o ateísmo (assista a uma interessante palestra de Ferraro sobre este tema aqui). Isso ocorre porque o tomismo clássico rebaixa o esse a uma possibilidade da essência. Tal esse meramente “existentivo” não se contrapõe ao nada (ele existe como possibilidade na essência) e, neste contexto, somos forçados a admitir que o esse ut actus está morto. O dano que o esse existentivo fez ao tomismo e à filosofia em geral é, nas palavras de Fabro, “incalculável”.

2. Deus como único ser necessário. Como corolário do esse existentivo, toda criatura deve ser causada por Deus porque ela “pode ser e não ser”. O esse nunca se eleva, portanto, ao estatuto de um valor metafísico original. Para Fabro:

“O esse é material se a essência é material, espiritual se a essência é espiritual, e, portanto, corruptível ou incorruptível conforme a essência que o recebe, o que equivale a dizer contingente ou necessário. A admissão de um ente necessário criado não é de modo algum incompatível com a dependência de Deus, porque o ente necessário criado se situa no plano da participação, ao qual pertence toda criatura enquanto é finita no esse.”

3. O ente como nome. Como nome, "ente" designa a coisa existente; como particípio, revela sua dependência do esse. Fabro considera este segundo aspecto metafisicamente mais fundamental, porque o ente é ente somente enquanto participa do ato de ser. É justamente dessa prioridade do sentido participial que Fabro deriva sua famosa doutrina da intensividade do esse e da participação transcendental.

4. Primado da analogia de proporcionalidade. De modo geral, pode-se dizer que Fabro tende a privilegiar a analogia de atribuição intrínseca sobre a analogia de proporcionalidade. O pano de fundo é sua preocupação constante: preservar a primazia do esse e da participação real. O problema da analogia de proporcionalidade (“vista” está para o olho assim como “intelecção” está para o intelecto é que o foco está na semelhança das relações. Para Fabro, se enfatizada excessivamente, a analogia de proporcionalidade pode levar a uma compreensão do esse como algo meramente formal ou conceitual, porque as diversas razões de ser acabam sendo consideradas apenas segundo estruturas proporcionais. O resultado pode ser uma analogia "horizontal", entre entes. Na analogia de atribuição intrínseca há um analogado principal e outros analogados que participam dele (por exemplo, “saudável” se diz do animal principalmente e por participação do alimento). O centro da analogia não é a comparação entre entes, mas a dependência de todos em relação ao fundamento do esse. Fabro considera que Caetano deu enorme destaque à analogia de proporcionalidade própria e que isso contribuiu para uma certa "essencialização" do tomismo. Em outras palavras, Caetano enfatiza a estrutura lógica da analogia enquanto Fabro enfatiza o fundamento ontológico da analogia. Ferraro nota que Fabro prefere o termo “analogia metafísica”, já que ele não dispensa completamente a analogia de proporcionalidade, mas a situa hierarquicamente como inferior à analogia de atribuição intrínseca.

A reflexão metafísica

Embora Fabro ateste que o dinamismo psicológico não seja suficiente para o conhecimento do esse intensivo, vale a pena aqui enumerarmos os passos (ou “momentos”) desse dinamismo, sempre contando com o apoio do já mencionado Dictionary of Scholastic Philosophy, de Bernard Wuellner.

1) Abstractio totius (abstração do todo), que é o ato mental pelo qual o intelecto abstrai e representa a essência completa de um objeto, desconsiderando apenas a existência individual, a matéria individualizada (matéria signata) e os elementos acidentais desse objeto concreto. A abstractio totius se contrapõe à abstractio formalis (abstração de uma forma), que separa e representa uma forma, figura ou atributo específico (como uma figura matemática ou uma propriedade física como a temperatura) sem considerar a matéria existente e as demais formas presentes no corpo.

2) Conversio ad phantasmata (retorno aos fantasmas, i.e., às imagens sensíveis), que é o ato pelo qual o intelecto humano (intelecto possível) se volta para a imagem sensível (phantasma) mantida na imaginação com o objetivo de conceber e conhecer a coisa material singular e concreta.

3) Desvio intencional, que é o movimento reflexivo do intelecto que retira o foco da coisa individual e o volta para a relação formal de predicação (atribuição), permitindo que a essência ganhe a extensão de um universal lógico (para que figure em juízos, proposições e silogismos). O desvio intencional permite reconhecer que a propriedade universal apreendida em um caso não está "presa" àquele indivíduo.

4) Comparação do universal metafísico com sua efetiva realização no indivíduo.

5) Resultado da comparação: a intensificação do universal metafísico como um grau de perfeição não apenas formal, mas como totalidade virtual que se manifesta em sua concretização real.

Os momentos 4) e 5) são específicos da consideração metafísica. Mas, como dissemos acima, essa descrição psicológica não é suficiente: como passamos à noção intensiva do esse? Explica Fabro que essa passagem se dá por uma ascensão dialética, ou seja, por meio da separatio (não da abstractio, como seria o caso da matemática, por exemplo), pela qual se passa da espécie ao gênero e dos gêneros inferiores aos superiores e aos transcendentais. Justamente pela falta da separatio, a passagem não se verifica com respeito a qualquer gênero, mas tão somente quando a natureza do gênero pode expressar um nível de perfeição e de atualidade por si mesmo mais elevado do que o da espécie: não se pode fazer, portanto, passando dos animais para a corporeidade, mas sim, por exemplo, dos animais para a vida. Em consequência, é a riqueza (ou, como diz Ferraro, “pregnância”) de atualidade que exige de maneira incontornável a passagem ascendente, uma vez que é a força polarizante do ato que subordina os distintos níveis de perfeição. É assim que somente ao término desta reflexão, superados os graus formais do intelligere e do vivere, chega-se a uma noção sinóptica onicompreensiva, a noção intensiva de esse, além da qual não é possível prosseguir.

Conclui-se que a captação do esse não se dá por intuição do tipo “mística” (embora a passagem, a partir do ens, tenha um quê de intuitiva, já que a separatio dá a entender esse tipo de operação), nem por um juízo intelectual (já que o “é” de uma proposição como “Sócrates é homem” funciona como mero operador lógico). Fabro é claro quando atribui à captação do esse um caráter de passagem redutiva, uma progressão fundacional de ato em ato a partir da atualidade do ens que se impõe ao intelecto. É a típica resolutio metafísica (efeito→causa i.e. um aprofundamento concêntrico a posteriori), em contraste com a compositio (causa→efeito). Uma vez atingida a primeira fundação (o esse participado), passa-se à segunda fundação (esse per essentiam i.e. ipsum esse subsistens).

Fonte: Christian Ferraro, El acto de ser en el tomismo intensivo de Cornelio Fabro, Edizione Tomismo Intensivo, Roma, Itália, 2017.