18 de maio de 2022

A mente religiosa segundo Krishnamurti


O objetivo de Krishnamurti é ajudar o leitor a despertar em si uma mente plenamente consciente.

O homem que busca é imaturo porque o que quer na verdade é uma autoridade que lhe apresente a verdade. Isso é necessariamente falso porque a verdade é viva, dinâmica, não algo estático. Portanto, livrar-se de autoridades é fundamental.

O conhecimento não liberta, mas, ao contrário, aprisiona a mente em memórias acumuladas. Isso significa, na prática, que somos pessoas condicionadas pelo conhecimento, por opiniões, ou, em outras palavras, pelo passado. Entenda que não somos capazes de ver algo como realmente é, sem a intermediação de análises intelectuais, o que é fundamental.

Esse conhecimento reduz a consciência a uma pequena porção. Para ampliá-la é necessário empregar a atenção total, que é diferente de concentração. É como estar em um quarto fechado com uma cobra dentro. Você estará totalmente atento a ela, totalmente focado. Não é um processo intelectual.

A alegria que sentimos em determinada situação é desmanchada pela mente, que procura repetir a alegria e, assim, a transformar em um prazer. O medo de perder o prazer é fonte de dor. Por isso é necessário aprender a se livrar do prazer e, portanto, da dor. Somente a total atenção é capaz de desfrutar de alegria.

O medo nada mais é do que a transição, o movimento, da certeza para a incerteza. Medo do desemprego, da traição, da doença, dos perigos, da passagem, enfim, para a incerteza: medo de que o passado volte, medo do que virá no futuro. O medo é essa projeção do pensamento em passado e futuro. Nós não apenas "temos" medo: nós "somos" medo.

Não é difícil ver que o medo gera violência. A agressão enquanto desejo de dominar o próximo é fruto da perseguição do prazer e da fuga da dor. As divisões que criamos ("cristão", "europeu") são resultado da agressividade, fruto da separação. Só o homem que vive no momento, no instante, é realmente livre disso.

Portanto a verdadeira ação está na inação, ou seja, no extermínio da comparação, da dualidade, do "precisa", do "deveria". É necessário acabar com ideais, com imagens, com projeções, com símbolos, para assim acabar com os estímulos que, por sua vez, trazem consigo a dependência.

"Você nunca está só porque está cheio de memórias, de condicionamentos, de ruminações do passado; sua mente nunca está limpa do lixo acumulado ao longo do tempo. Estar só é estar morto para o passado. Quando está só, totalmente só, sem pertencer a nenhuma família, a nenhuma nação, a nenhum continente, eis aí quando você será um pária. O homem que está completamente só é inocente, e é esta inocência que liberta a mente do sofrimento".

Assim que é urgente entender que a morte é a porta de entrada da vida. Não, não se trata de uma piada. Morrer para o tempo, morrer para o intervalo entre a ideia e a ação, ou seja, morrer para o pensamento, eis o caminho para a ação. Nós inventamos o tempo, o futuro, nós mergulhamos na agonia do passado. Esse jogo estúpido do tempo, eis o que bloqueia o caminho da vida, que é, obviamente, a morte.

Este é o caminho do amor. Não, amor não é o que você chama de amor. Isso que você chama de amor é apenas uma projeção da sua imaginação devidamente envernizada de respeito e consideração por algo ou alguém. Amar é estar morto para a responsabilidade e para o dever. O amor só existe na liberdade, na ausência do pensamento, na ausência da preocupação.

Por isso o amor, assim como a contemplação do belo, exige uma postura austera, isto é, de independência, desprendimento, desinteresse, de total e completa simplicidade, de humildade. O amor, a beleza, a verdade, nada disso se cultiva, mas o que, sim, é possível, é ganhar consciência e, a partir daí, observar o prazer, a dor e a tristeza em ação e, assim, observar o espaço-tempo, a imagem, que separa você do mundo.

Não tardará e você notará que você, o observador, é na verdade mais um elemento do observado. E mais: todo o observado é, em realidade, você. Aqui termina o conflito entre você e a imagem. Aqui começa a inteligência propriamente dita. Ora, a inteligência começa, portanto, quando termina o pensamento.

Mas livrar-se das imagens, do pensamento, é apenas o começo do tão desejado silêncio, da solidão, da paz.

A meditação em si não é, portanto, livrar-se do pensamento, mas observar o pensamento, seus movimentos, seu desenvolvimento, sem controlá-lo. O meditador, ele mesmo, está completamente ausente.

É a mente religiosa, a mente que não age por princípio, por valores, por deveres morais dessa ou daquela natureza. É, enfim, a mente que ama sem saber o que é amor.

Fonte: Jiddu Krishnamurti, Freedom from the Known, Random House, Londres, Reino Unido, 2010.

6 de janeiro de 2022

O herói revolucionário: Jordan Peterson entre o caos e a ordem


Muitos gostam de citar Jordan Peterson, sobretudo aqueles que professam ser politicamente conservadores. Suas duas obras mais famosas, aquelas em que expõe suas regras para viver, são largamente resenhadas não somente por profissionais da psicologia, mas também por aqueles que se apresentam como conservadores ou de direita.

No entanto, há uma obra anterior a essas duas que fornece o pano de fundo de seu pensamento e, portanto, deve necessariamente ser estudada por aqueles que se interessam por Jordan Peterson. É uma obra pouco conhecida de seu público porque, além de densa e extensa, é um tanto mal escrita. Peterson começou a escrevê-la aos 24 anos de idade, em 1986 e, durante treze anos, revisou-a e corrigiu-a inúmeras vezes, motivado não somente por sua inclinação pessoal à precisão, mas também em prol de seus alunos, já que passou a usá-la, mesmo sem ter sido formalmente publicada, como um dos livros-texto de seu curso de psicologia na Harvard University. Finalmente publicada em 1999 pela Routledge, Maps of Meaning contém cinco longos capítulos cujo estilo entrecortado e repetitivo explicam em parte a impopularidade da obra. Mas é a ela que seus maiores fãs, especialmente os que se declaram conservadores, deveriam dedicar mais tempo e energia. É a partir dela que entenderão o mal que o conservadorismo pode fazer à sociedade e, originalmente, a si mesmos.

O objetivo de Peterson é simples, mas ousado. Explicar algo que o afetou tão profundamente a ponto de despertar-lhe pensamentos suicidas: por que existe o mal no mundo? Não o mal do criminoso isolado, mas o mal do genocídio, o mal dos campos de morte, o mal das armas nucleares, o mal da destruição em massa. E sua explicação, como era de se esperar, não é de natureza político-ideológica, mas psicológica. A fonte de sua explicação, a mesma fonte que o ajudou a livrar-se de seus pesadelos mais terríveis, encontra-se sobretudo em Carl Jung, a quem considera um dos maiores gênios da humanidade. Incompreendido, mas gênio.

Peterson começa sua explicação apontando para um fato que frequentemente nos passa despercebido. Quando exploramos o mundo, quando exploramos as pessoas, os objetos, os movimentos, as transformações, o tempo, a disposição das coisas e tudo o mais, o fazemos, como homens de nosso tempo, sob o ponto de vista científico. Gostamos, porque assim nos impõe a cultura vigente, de explorar o mundo, e, portanto, entendê-lo, tomando dados, informações e, por último, relações lógicas entre elas. E isso está perfeitamente correto, segundo Peterson. Ocorre que a abordagem científica não é a única possível. Ela responde à pergunta “o que é?”, mas há outra pergunta que espreita a mente humana. É a pergunta “como deveria ser?”. Em outras palavras, as coisas e pessoas, tal como estão, devem continuar assim? Se sim, por quê? Se não, por quê? E como?

Observe que o pensamento científico é mudo aqui. Atribuir significado às coisas não é tarefa da ciência, explica Peterson, e nem poderia ser. A ciência enquanto tal ocupa-se das propriedades sensoriais empíricas, mas não diz nada sobre o status do objeto, ou seja, não diz nada acerca do que tal objeto implica para nosso comportamento. A natureza objetiva de uma coisa não diz nada sobre seu significado, ou seja, sobre o que o objeto implica para a ação, sobre o afeto do objeto sobre nós, sobre as emoções que eventualmente nos desperta, não diz nada sobre seu valor, sua relevância, sobre sua natureza moral. Ora, e quem, se não a ciência, nos poderia transmitir o significado das coisas? O mito. Sim, são nossas convenções mitológicas, ou seja, as narrações, os rituais patrióticos, as histórias dos heróis ancestrais, os símbolos de identidade cultural, são os mitos enfim que, quer queiramos ou não, guiam nossa capacidade de entender o significado das coisas, do mundo. E mais: é impossível viver sem crenças, ou seja, sem valorações, o que significa dizer que necessariamente temos de depositar nossa fé em algo.

Aquilo que é conhecido, aquilo que nos é familiar, é dado pelas narrações e mitos. Espere, um momento. Nunca é demais lembrar que não se trata aqui de conhecimento científico. Estamos tão acostumados com a ideia de que conhecemos algo quando o conhecemos em suas propriedades intrínsecas que nos custa muito aceitar a noção de que conhecer é não apenas o que é, mas o que deveria ser. E isso, uma vez mais, a ciência não pode fornecer. Muito bem, dizíamos que o que nos é familiar é dado pelas narrações e mitos. Mas também é verdade que no transcurso da vida, seja pessoal, seja social, frequentemente nos deparamos com situações nas quais nossas ações são inadequadas, ineficazes. Mudamos nossas ações e nos adaptamos. Mas isso, adverte Peterson, pode não bastar. A simples mudança comportamental, quando mais profunda, terá de ser acompanhada de uma mudança naquilo que cremos que é importante.

E eis que algo aparentemente simplório se mostra complexo, trágico mesmo. Mudar aquilo que cremos que é importante implica entrar no território do desconhecido, ou, para usar uma expressão largamente empregado por Peterson, implica entrar no território do caos. E o caos tem uma natureza própria, que se nos apresenta com valência afetiva, não objetiva. Ou seja, nossa reação natural é a surpresa, o medo, o pânico. E é aqui, caro leitor, que começam os problemas.

***

Peterson ensina que o domínio do conhecido e o domínio do desconhecido são os elementos constitutivos permanentes da experiência humana. O domínio do conhecido é o que genericamente chamamos de cultura, embora tal palavra deva ser empregada de maneira meramente aproximativa. De qualquer forma, nós, seres humanos, embora sejamos obrigados a nos adaptar à cultura vigente, estamos permanentemente em contato com a insuficiência dessa cultura. A exploração criativa do desconhecido, e a geração de conhecimento que advém dessa exploração, é a construção e a atualização de padrões de comportamento e representação. Ora, a capacidade para esse tipo de exploração criativa é o terceiro e último elemento constitutivo permanente da experiência humana.

As representações mitológicas do mundo costumam atribuir um caráter afetivamente feminino (“mãe”, “devoradora” de tudo e todos), enquanto o eterno masculino se considera como sendo tipicamente masculino. E, por fim, o eternamente conhecedor é o cavaleiro que mata o dragão do caos, é o herói que substitui a desordem e a confusão por claridade e certeza.

Expliquemos um pouco mais isso. Em nossos planos, em nossos cursos de vida, surgem inconvenientes com os quais evitamos tratar. Quando tais inconvenientes se acumulam em uma quantidade suficiente é gerada uma catástrofe. A catástrofe tanto pode servir para rejuvenescer como para destruir. Quanto mais se ignore os inconvenientes de uma catástrofe tanto mais provável será que cause uma destruição.

Peterson traça um curioso paralelo com as funções neuropsicológicas do cérebro. Se dividirmos o cérebro em dois hemisférios comprovaremos, de maneira muito geral, que o hemisfério direito é o que está a cargo de representar o desconhecido com esquemas, hipóteses, metáforas, enquanto o hemisfério esquerdo transforma tais esquemas em descrições verbais detalhadas. Quando o curso de nossas vidas prossegue conforme planejado o hemisfério esquerdo prevalece e as emoções aí geradas são de baixa intensidade. Quando o desconhecido se apresenta o hemisfério direto “se incomoda” e a necessidade de transformar o desconhecido em conhecido pode gerar emoções intensas que são frequentemente (mal) interpretadas como emoções negativas.

Dissemos há pouco que as mitologias do mundo apresentam estruturalmente três elementos da experiência: o conhecido, o desconhecido e conhecedor. Na realidade há um quarto elemento, que é anterior a esses três: o caos precosmogônico. Trata-se da fonte última de todas as coisas, frequentemente representado pelo uróboro, a serpente que se come a si mesma. Peterson faz uso do mito mesopotâmico da criação (Enûma Elish) e seus quatro personagens para explicar as experiências fundamentais: (a) Tiamat (que representa simultaneamente o uróboro e a Grande Mãe), (b) Apsu (consorte de Tiamat), (c) os deuses maiores (filhos de Tiamat e Apsu) e (d) Marduk (herói mítico). Em suma, os deuses maiores matam Apsu, e Tiamat, cheia de vingança, decide destruir tudo o que criou. Seus filhos enviam vários voluntários para derrotá-la, mas acabam vencidos. Marduk por fim é declarado rei e se voluntaria para matá-la. Não só a mata como a corta em pedaços a partir dos quais cria o cosmo. O imperador da Mesopotâmia, a encarnação de Marduk, encena uma batalha na qual o Ano Novo renova o “velho mundo”, ou seja, é a cultura sendo heroicamente renovada. A “moral da história” é que o reino da ordem é insuficiente porque a ordem mesma se converte em algo dominante, sufocante, mortífero, caso a ordem permaneça inalterada. As ações do herói são, portanto, o antídoto do caos contra a tirania da ordem.

***

Aqui cabe introduzir o tema da ideologia. As ideologias são como mitos incompletos. Elas têm alguma relevância porque macaqueiam os mitos. Peterson explica as ideologias como se elas fossem a consequência natural do crescimento. Conforme crescemos nos filiamos a um grupo que nos protegerá, mediante um conjunto de tradições, doutrinas e crenças, da sociedade ameaçadora e desconhecida. À medida que se alcança certa disciplina, a proteção deixa de ser necessária e estamos maduros para a verdadeira liberdade. Preparar o indivíduo para essa liberdade é o serviço que toda religião autêntica deveria prestar. No entanto, as falsas religiões e as ideologias transformam a couraça protetora em uma redoma de vidro limitante e tirânica, cuja única função será esmagar o indivíduo e mantê-lo eternamente adolescente.

Essa paralisia na adolescência grupal se explica pela maneira como alguns indivíduos reagem ao que Peterson chama de “anomalia”, ou seja, como eles reagem ao desconhecido, às ideias estranhas, aos indivíduos criativos. O temor que sentem, a agressão que se lhes desperta, pode ser mais bem compreendido quando entendemos que para esses indivíduos a anomalia é percebida como uma espécie de desastre natural, como um tsunami, um incêndio de grandes proporções ou algo assim. No entanto, o que esses indivíduos não notam, ou não admitem, é que a anomalia é não apenas a fonte vital de interesse, de significado e de força individual, mas também é aquilo que nos torna capaz de mudar, de despertar o aspecto intrínseco e “divino” da psique humana. Em outras palavras, de despertar parte do “Verbo” seminal. É precisamente o Verbo que pode criar novos mundos, que pode destruir velhos mundos, que pode ameaçar culturas aparentemente estáveis, que pode redimir aqueles que chegaram à velhice, à inflexibilidade, à paralisia. No entanto, o Verbo, para aqueles que venderam sua alma ao grupo, é nada mais nada menos que “o” Inimigo.

E qual é a anomalia mais “anômala”? Qual a anomalia mais espinhosa de todas? Certamente é a morte. Para nós, seres humanos, que somos capazes de imaginar nossa própria morte e a de nossos entes queridos, o desconhecido está irremediavelmente contaminado pela morte. E não por acaso os “adolescentes grupais” sentem tanta repulsa pelo Verbo: em última instância, a anomalia que ele traz está contaminada pelo aspecto mais desconhecido, e temido, de todos, ou seja, pela morte.

À medida que a autoconsciência se desenvolve ao longo da história e a anomalia da ameaça da morte, ou seja, do fim da existência, se torna cada vez mais presente, o desconhecido ganha dimensões literalmente insuportáveis. Aqui Peterson desenvolve uma interessante descrição dos padrões de comportamento transpessoais, ou esquemas de representação, que se encarnaram na mitologia como os “irmãos hostis” ou os “filhos eternos de Deus”:

(1) O herói mitológico. É aquele que enfrenta o desconhecido de maneira aberta, ou seja, com uma atitude esperançosa ante a renovação e a redenção que resultará de tal contato. Aqui há uma união criativa com a Grande Mãe. O herói organiza as exigências do ser social e as responsabilidades de sua própria alma em uma unidade coerente e disposta hierarquicamente. Em outras palavras, o herói aceita placidamente sacrificar a segurança em favor do significado. A existência não deixa de ser trágica, mas é aceitável.

(2) O adversário eterno. É o espírito da racionalidade que, horrorizado por seu medo das condições da existência, evita o contato com tudo o que não compreende. Esse comportamento esquivo debilita sua personalidade, que já não se alimenta da “água da vida” e o converte em alguém rígido e autoritário e que se apega tenazmente ao familiar, ao “racional”, ao estável. Aqui podemos distinguir dois grupos: (a) o fascista, que sacrifica sua alma em prol do grupo, que por sua vez promete protegê-lo do desconhecido; (b) o decadente, que, ao contrário do fascista, é indisciplinado e se nega a unir-se a um grupo social e se aferra rigidamente às suas próprias ideias.

O verdadeiro crente é aquele que verdadeiramente almeja imitar o Cristo, ou seja, é aquele que se propõe a realizar a alma do herói, aquele que encarna essa alma em todos os aspectos de sua vida cotidiana. E para explicar esse processo de identificação com o herói Peterson lança mão da análise da alquimia de Jung. Segundo explica Peterson, a matéria alquímica é uma substância como o Tao, ou seja, uma substância “que produzia ou constituía o fluxo do ser”, algo mais parecido ao que modernamente chamamos “informação”. É, em outras palavras, a matriz do ser, o desconhecido. Não é difícil concluir o que os alquimistas diziam daqueles que assimilavam completamente o “espírito do desconhecido”: eram eles equivalentes ao próprio Cristo.

Portanto, em hipótese alguma o pensamento de Peterson pode ser considerado como um apego à ordem, muito menos um apego ao conservadorismo político, seja ele americano, europeu ou qualquer outro. O que Peterson ensina é precisamente o oposto: o indivíduo deve assumir plena responsabilidade por seus sentimentos, pensamentos e comportamentos e, motivado pelo interesse no desenvolvimento de sua individualidade, deve buscar identificar-se com o herói. Somente atendendo ao chamado da anomalia, que vive na fronteira entre o caos e a ordem, e pondo em risco sua própria segurança e enfrentando o desconhecido poderá o individuo identificar-se com o herói, ou seja, o Cristo, o Tao. Deixe de mentir a ti mesmo, faça com que seu coração te diga o que deve sinceramente fazer. Você não apenas será melhor, mas o mundo também o será. Que não tenhamos medo da responsabilidade a qual a anomalia nos chama.

 

Fonte: Jordan B. Peterson, Mapas de Sentidos, Editorial Planeta, Barcelona, Espanha, 2020.

9 de agosto de 2021

O misticismo do templo


Nesta obra a pesquisadora Margaret Barker apresenta um conjunto de análises e interpretações, baseados em uma grande coleção de escritos antigos, que apontam à hipótese de que o objetivo principal da ecclesia, tal como apresentada não somente por Jesus Cristo e seus apóstolos, mas pelos Padres, historiadores, fiéis e cronistas das primeiras décadas e séculos da era cristã, é retomar o misticismo do templo, vigente durante o período do Primeiro Templo e abandonado no Segundo Templo. Em outras palavras, o Cristianismo seria uma "religião de mistério", um herdeiro do templo original. “Misticismo do templo” é aqui usado uma expressão sinônima de “ver o Senhor”. No caso do Cristianismo, segundo a interpretação de Barker às palavras do Apóstolo João, o templo não é mais necessário para o vero o Senhor porque o próprio Senhor veio ao mudo. Cristo, portanto, teria abolido a necessidade de um templo. 

A principal fonte de Barker é, claro, a Bíblia. No entanto, muitos trechos utilizados por Cristo e os apóstolos correspondem à versão Septuaginta do VT da Bíblia, que embora outrora considerada insubstituível foi posteriormente condenada pelos judeus no século II d.C. e substituída por uma versão editada para justamente suprimir e/ou alterar trechos que mencionavam explicitamente o misticismo do templo bem como o papel central de Jesus Cristo nele. Mais tarde a tradução latina de São Jerônimo, feita com base no VT alterado, acabou por contribuir ao ocultamento do misticismo do templo, e evidentemente os reformadores protestantes, ao assumirem tal versão como base de suas doutrinas, igualmente sufocaram a verdade do misticismo do templo. No entanto, Barker entende que o que os primeiros cristãos chamavam de “mistérios” é uma referência à tradição do templo. Isso se pode ver, por exemplo, em Santo Ignácio de Antioquia, Clemente de Alexandria, Orígenes e outros já nas primeiras gerações de cristãos. Há menções explícitas de Cristo como o Sumo Sacerdote que assumiu o santo dos santos, por exemplo. Ou declarações de Orígenes de que os mistérios foram transmitidos aos sumos sacerdotes e ficaram registrados sobretudo nas liturgias, não em escrituras. O mesmo se pode dizer das cartas do Apóstolo Paulo: seu conteúdo esclarecia questões pontuais, temas gerais que poderiam ser tratados à distância. Barker entende que a religião não se registrava nas cartas, mas nas liturgias.

Há alguns conceitos que Barker considera fundamentais para que se compreenda a religião do templo e seu misticismo:

(1) Um. Em outras palavras, Unidade. Quando o Um se manifestava, tal manifestação a chamavam de “reino” ou “santo dos santos”, no sentido de que se transmitia a santidade. Portanto, os místicos que adentravam o santo dos santos se tornavam santos, também chamados “anjos”.

(2) Muitos. Em outras palavras, Pluralidade. A unidade e a pluralidade se expressam na literatura do misticismo do templo, bem como no Cristianismo primitivo, como fogo e luz. Os místicos viam a luz invisível. E também ouviam a música inaudível. Aliás, a capacidade de ouvir a música celestial teria sido perdida por Adão, e eis que os pastores de Belém puderam ouvi-la outra vez quando do nascimento de Jesus. Na Igreja a ideia de restaurar a música angelical era algo muito importante (p.ex.: São João Crisóstomo, São Basílio, São Gregório de Nissa, São Dionísio Areopagita). Infelizmente os elementos-chave da música angélica e seu significado - a visão de Deus, o trono, as hostes, a música e o chamado do Senhor ao templo, a expiação - estão ausentes dos escritos deuteronômicos. Seus relatos acerca de Moisés recebendo os mandamentos nega que o Senhor tenha sido visto (Deuteronômio 4.12); sua descrição do templo em 1 Reis nada diz sobre o trono (cf. 1 Crônicas 28.18); eles nada falam sobre os levitas e sua música; eles negaram que o Senhor pudesse habitar no templo (1 Reis 8.27); eles removeram os 'Exércitos' do título “Senhor dos Exércitos” (Is 37.16, cf. 2 Reis 19.15); não havia dia de expiação em seu calendário (Deut. 16); e eles negaram que alguém pudesse expiar os pecados de Israel (Êxodo 32,31-33). Os primeiros cristãos, por outro lado, guardavam todas essas coisas e adoravam como os levitas. Com sua música eles louvaram ao Senhor, deram graças (‘eucaristia’) e clamaram ao Senhor para que viesse.

(3) Trono. Representa a Senhora. Não é possível dizer se a Senhora do templo de Jerusalém era a personificação do trono ou se o trono era seu símbolo. O que se tem certeza é que quando Ezequiel descreveu o trono da carruagem partindo de Jerusalém, ele descreveu a partida de uma figura feminina na qual a glória do Senhor estava entronizada. A Senhora não é algo que apareça nas traduções porque os tradutores não esperavam encontrá-la e, quando tiveram que escolher entre várias possibilidades para palavras difíceis, o fizeram sabendo o que o texto deveria dizer e o que não. O trono como a Mãe do Senhor é um elemento que aparece no Cristianismo também, e por todas as partes, o que sugere que se trata de algo original, não local.

(4) Servos. Eram os místicos propriamente. Em inúmeros trechos do VT os homens de Deus, os grandes em honra e glória, os homens que viram a Deus, são chamados de “servos”. Não por acaso “servo” era o título preferido da Igreja primitiva de Jerusalém para se referir a Jesus. Isso pode ser visto nos Atos dos Apóstolos, na carta do Apóstolo Paulo aos Filipenses e no Didaquê, por exemplo.

Em suma, Barker conclui que o misticismo do templo foi ocultado por quatro grandes movimentos ou fenômenos: (a) pelos deuteronomistas, (b) pela necessidade de distinguir a ecclesia da gnose, o que acabou por jogar a água do banho fora com a criança, (c) pela pressão da ecclesia para que os cristãos não praticassem os costumes judaicos, e (d) por muitos Bible scholars modernos que insistem, movidos por seu preconceito classicista, em purgar elementos “neoplatônicos” ao invés de identificá-los como elementos próprios da tradição do templo e, portanto, do Cristianismo.

Por fim, cabe mencionar alguns conceitos interessantes expostos por Barker:

Adão significa “o Homem”, no sentido de ser humano. Ele era o sumo sacerdote original, o Filho de Deus. Portanto, são “Filhos do Homem” todos aqueles que alcançam a theosis, ou seja, todos aqueles que alcançam a mesma condição do Homem, todos aqueles que se tornam Adão antes da queda, que se tornam servos (místicos). Enoque, por exemplo, descreve sua transformação em um Filho do Homem, ou seja, descreve sua theosis.

Quando lhe é dito a Adão para dominar o mundo, animais etc., isso não significa dominar a natureza, domar animais, praticar agricultura nem nada do gênero. O que se quer dizer é que Adão deve expiar, ou seja, restaurar os laços rompidos da aliança, ou seja, que Adão deve reatar a terra. Aliás, este mesmo entendimento é usado pelo Apóstolo Paulo para se referir a Jesus Cristo.

Quando lhe é dito a Adão e Eva “frutificai e multiplicai-vos” o que se quer dizer é que o casal deve buscar a glorificação (frutificai) e que sejam grandes (multiplicação). Multiplicar aí não tem sentido aritmético, mas espiritual.

Fonte: Margaret Barker, Temple Mysticism, SPCK Publishing, Londres, Reino Unido, 2011.

21 de julho de 2021

Vidas secas


— Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.

— Um bicho, Fabiano.

*****

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais.

*****

Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia.

*****

Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos — exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.

*****

Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar?

*****

Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianças divertiram-se, animaram-se, e o espírito de Fabiano se destoldou. Aquilo é que estava certo. Baleia não podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exercício fácil — bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal.

*****

Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.

— Está aí.

Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.

*****

Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia.

*****

Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se.

*****

Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?

Se não fosse aquilo... Nem sabia. O fio da ideia cresceu, engrossou — e partiu-se. Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos... Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.

*****

Fabiano também não sabia falar. Às vezes largava nomes arrevesados, por embromação. Via perfeitamente que tudo era besteira. Não podia arrumar o que tinha no interior.

*****

Como não sabia falar direito, o menino balbuciava expressões complicadas, repetia as sílabas, imitava os berros dos animais, o barulho do vento, o som dos galhos que rangiam na catinga, roçando-se.

*****

Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.

*****

Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa. Os nego-ciantes furtavam na medida, no preço e na conta. O patrão realizava com pena e tinta cálculos incompreensíveis.

*****

Todos lhe davam prejuízo. Os caixeiros, os comerciantes e o proprietário tiravam-lhe o couro, e os que não tinham negócio com ele riam vendo-o passar nas ruas, tropeçando. Por isso Fabiano se desviava daqueles viventes.

*****

Fonte: Graciliano Ramos, Vidas Secas, Editora Record, Rio de Janeiro, Brasil, 120ª edição, 2013.


11 de julho de 2021

There's no free market


O mercado livre não existe. A velha ideia de que os economistas de livre mercado estão apenas tentando defender o mercado das interferências políticas do governo é falsa. O governo está sempre envolvido de uma forma ou de outra, e os defensores do livre mercado são tão politicamente motivados quanto qualquer um. O mesmo mercado pode ser percebido como tendo vários graus de liberdade para diferentes pessoas. Se alguns mercados parecem livres, é apenas porque estão tão habituados com os regulamentos que os sustentam que se tornam invisíveis. Enxergamos um regulamento somente quando não endossamos os valores morais por trás dele. Reconhecer que as fronteiras do mercado são ambíguas e não podem ser determinadas de forma objetiva nos permite perceber que a economia não é uma ciência como a física ou a química, mas um exercício político. Quando os economistas de livre mercado dizem que certa regulamentação não deve ser introduzida porque restringiria a "liberdade" de um determinado mercado, eles estão apenas expressando uma opinião política. Seu manto ideológico é fingir que sua política não é realmente política, mas sim uma verdade econômica objetiva, enquanto a política dos outros é política. No entanto, eles são tão motivados politicamente quanto seus oponentes. Romper com a ilusão da objetividade do mercado é o primeiro passo para compreender o capitalismo.

Fonte: Ha-Joon Chang, 23 Things They Don’t Tell You about Capitalism, Penguin Books, Londres, Reino Unido, 2010, trechos do capítulo 1.

11 de junho de 2021

Reflexões

 

O ciúme não é prova de amor. Costuma acompanhá-lo, mas os ciumentos são os que estabelecem mais dependências práticas, e não os que mais amam. Assim, não cabe a excessiva tolerância de alguns para com esse sentimento. Trata-se de uma emoção inevitável, mas que deve ser objeto de administração e máximo controle justamente a fim de preservar os legítimos direitos do amado.

[...]

As pessoas que com mais frequência sentem ciúme não são, como regra, as que mais intensamente amam, mas as que mais temem perder o parceiro, o que corresponde, antes de tudo, à fraqueza pessoal e ao medo de lidar com frustrações, dores e perdas práticas de todo tipo.

[...]

O medo da felicidade corresponde à sensação de iminência de tragédia que acompanha nossos melhores momentos. É como se a grande desgraça viesse a se repetir: estávamos no útero, felizes, em harmonia e simbiose com nossa mãe; à situação paradisíaca seguiu-se a dramática e dolorosa ruptura do nascimento.

[...]

A revolta contra fatos irreversíveis é imaturidade emocional e autocondenação à infelicidade eterna. A aceitação de como somos nos permite elaborar os rumos que deveríamos seguir.

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Entre amor e individualidade, opto pela segunda. Faço isso ciente de que ela implica a morte do amor romântico, a meus olhos o grande vilão da história. O final é feliz porque determina a supressão de uma gama enorme de sofrimentos inúteis e dilacerantes. Libertos do anseio de fusão – que entendo como algo que aponta para o passado, e não para a frente –, indivíduos podem seguir seu caminho na direção da autonomia e da liberdade.

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Individualismo é um termo que costuma provocar uma reação negativa na maior parte das pessoas porque parece sinônimo de egoísmo, o que não faz o menor sentido, uma vez que o egoísta costuma ser a favor dos grupos exatamente para poder encontrar alguém a quem parasitar.

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Muitos são os que se entristecem o tempo todo com sua aparência física, com a falta de habilidade para práticas esportivas, com a pouca competência para atividades manuais, com os dotes verbais escassos ou o senso de humor precário, e várias dessas propriedades correspondem a uma forma peculiar da atividade cerebral que, creio, não convém pretender modificar. Nesse caso, mudar significa aceitar os fatos, não lutar contra eles. Mudar significa, portanto, alterar o modo como pensamos para que possamos aproveitar melhor a vida, viver com mais harmonia e serenidade – e isso está longe de ser pouca coisa.

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Aqueles que vivem sós por certo período aprendem a se tornar independentes e a cuidar melhor de si mesmos. Desenvolvem prazer e orgulho por ser capazes disso. Avançam assim na direção da justiça, abandonando tanto o egoísmo como a generosidade originais.

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Buscar a verdade é um indicador de coragem para a introspecção, condição indispensável para conseguir avançar para o autoconhecimento e para a liberdade.

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Muitas de nossas verdadeiras propriedades, como a inveja, a vaidade e a agressividade, são negadas e vão para o porão do inconsciente, de onde influenciam dramaticamente a conduta real da maior parte das pessoas, mesmo daquelas que se pretendem mais idealistas e despojadas.

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Poderíamos nos satisfazer com uma única regra moral para as questões da vida prática: temos de atribuir a nós mesmos e aos outros direitos iguais.

Fonte: Flávio Gikovate, Reflexões que Permanecem, MG Editores, São Paulo, Brasil, 2017.

23 de maio de 2021

Contra a religião


Algumas obserevações acerca de Against Religion, de Christos Yannaras.

Religião

A religião é fruto do instinto humano de preservação de seu eu individual, de seu ego, face à ameaça do desconhecido. A partir daí se abrem três vertentes para aplacar o problema: (1) a criação de uma doutrina metafísica, ou seja, de um conjunto a priori de axiomas que explicam o mundo sobrenatural a partir de observações do mundo natural e que não podem ser questionados nem pela razão, nem pela experiência comum; e (2) a criação de um conjunto de sacrifícios, sejam eles externos (sacrifícios de coisas ou pessoas), internos (abstinência de comida ou sexo) ou expressões e cerimônias (adoração, hinos, poesia, arquitetura), cujo objetivo é em última instância subornar a Deus e colocá-Lo contra a parede; (3) a criação de um código moral, ou seja, de um conjunto de comportamentos, alguns obrigatórios, outros proibidos, que assegurem ao individuo que ele é bom aos olhos de Deus.

Todas essas vertentes refletem ao fim e ao cabo o esforço do ego em ganhar sua salvação por meio do mérito, seja por fidelidade mental a um conjunto de doutrinas e dogmas, seja como pagamento pela consecução de sacrifícios, seja como fruto da chantagem em parecer uma pessoa boazinha.

Quanto à primeira vertente (apego racional a doutrinas e dogmas), as proposições metafísicas, não importa quais sejam, estarão sempre e constantemente sob ataque de novas objeções. Portanto, o intelectualismo metafísico só poderá sustentar-se lançando mão do recurso da autoridade, ou seja, a doutrina metafísica precisa provir de uma fonte irracional ou a-racional (líderes religiosos, revelações, insights, experiencias existenciais etc.). Aqui observa-se uma vez mais o elemento da escolha individual, da preferência atomizada, típicos da vida do ego. É por isso que se observa em tais grupos o comportamento ilógico, mas perfeitamente compreensível, de se construir um cerco fechado em torno das autoridades que protegem a doutrina metafísica: em face à ameaça externa o grupo se blinda e se enrijece em torno da fonte que lhes confere a certeza.

Evento eclesial

Enquanto a religião se caracteriza por mover-se dentro das limitações impostas pela natureza, a ekkesia se caracteriza precisamente por livrar-se dessas limitações dadas pela natureza. É por isso que se diz que Cristo não veio para fundar uma nova religião, mas uma nova criatura, um novo modo de existência. A este novo modo de existência Cristo chamou amor. Amor não é, portanto, um “gostar muito”, uma afeição carinhosa, um sentimento romântico, uma virtude altruísta. Amor é livrar-se da existência individualizada e atomizada, é livrar-se da vida do ego, é livrar-se das limitações impostas pela natureza.

Quando se diz que “Deus é amor” o que se quer dizer é precisamente que Deus não está limitado pelas condições e determinações naturais. Em outras palavras, Deus não “tem” amor, mas “é” amor, ou seja, ele se define precisamente por sua ausência de individualidade, atomicidade, por Seu modo de existência. Por isso Deus não é Deus no sentido das doutrinas metafísicas (“Ser”, “Ser Supremo” etc.), que se caracterizam precisamente por tomar as definições naturais como fundamento de sua lógica interna, mas é Pai, Filho, Espírito, ou seja, hipóstases (existências reais) em livre comunhão entre si, isto é, em comunhão não imposta por nenhuma condição natural ou criada. Observe que Pai, Filho e Espírito vivem um para o outro em liberdade hipostática, ou seja, em uma liberdade que parte exclusivamente da vontade de existir em comunhão, e não de existirem de modo que se autocompletem de maneira independente, nem de existirem por uma espécie de compulsão ou predeterminação de sua “natureza divina”. Este ponto é fundamental, vale a pena insistir: Pai, Filho e Espírito não estão predeterminados por nenhuma natureza ou essência, mas se autodeterminam por sua liberdade de relação entre si. Por isso Pai, Filho e Espírito são hipóstases, não indivíduos ou “pessoas” no sentido que naturalmente atribuímos a essa palavra. O efeito de autocompletar-se, a propósito, é o típico modo de existência autista, atômico, egocêntrico. É por isso que as doutrinas metafísicas, por mais que se cerquem de certa linguagem intelectualizada, são ao fim e ao cabo produto do instinto da religião natural.

É a este modo de existência, a esta nova criação, que os sinais operados por Jesus Cristo apontam. Esses sinais não devem ser interpretados como uma demonstração espetacular do poder de Cristo para que, a partir daí, nos entreguemos de maneira submissa à autoridade. Tal seria a resposta tipicamente religiosa. O que Cristo demonstra, não somente em si mesmo, mas em muitos outros à sua volta, é um novo modo de existência, um modo de existência a qual somos chamados para superar as limitações naturais, a uma verdadeira liberdade existencial, a uma liberdade de relação. Este é o sentido do evangelho, da boa nova. É a pregação do amor, desta nova vida, dessa nova, real e verdadeira existência.

Quando a vontade gnômica se liberta dos imperativos do ego, eis quando o pecado cessa. Pecar é errar o alvo, e o alvo é o modo de existência livre das limitações da natureza. Portanto, pecar é viver de acordo com as imposições do ego, de acordo com aquilo que interessa à sobrevivência e perpetuação do ego, à autoimagem, à vida natural, não uma infração a alguma regra moral. Há de ser muito claro

Ora, mas desapegar-se do ego não é algo que possa ser levado a cabo pelo próprio ego, pelo indivíduo, de maneira autista. Por isso falamos de “evento eclesial”, ou seja, de um esforço conjunto de pessoas em direção a uma vida em comunhão de amor, ou seja, que vivam conjuntamente o esforço de livrarem-se da vida egocêntrica. Haverá altos e baixos, e assim o esforço por eliminar os impulsos de autopreservação -- da preservação do ego -- será constante. Tal impulso, se porventura prevalecer, anulará o modo de existência relacional, e regressaremos ao estágio da vida natural.

O que acontece quando o evento eclesial se transforma em uma religião

Eis aqui alguns exemplos do que a religionização do evento eclesial causa:

(1) A fé se transforma em ideologia. A originalmente é a confiança que as pessoas que amam sinceramente experimentam. É uma experiência, e a linguagem que expressa essa experiência evidentemente pressupõe a existência dessa experiência e, obviamente, essa linguagem precisa ser controlada, ponderada, dirigida pela experiência que a originou. Mas a religião, escrava do ego e, portanto, desprovida da experiência proveniente do evento eclesial, toma o produto da linguagem que expressa essa experiência e o ideologiza por meio da introdução de uma falsa experiência a fim de conferir-lhe validação: a intelecção natural. No entanto, a intelecção é incapaz de garantir a certeza de seus encadeamentos lógicos porque os axiomas sobre os quais se baseiam são necessariamente arbitrários. Para esconder a dolorosa realidade dessa falta de certeza entra em ação um curioso mecanismo de defesa: o desejo de obter a certeza busca na imaginação, em “memórias vestigiais”, experiências emocionais passadas de euforia, excitação, alegria, autossuficiência etc., e substitui o objetivo real e original do desejo, que é a certeza da validade dos axiomas das doutrinas metafísicas, por essas memórias vestigiais. Por sua vez, a experiência subjetiva das memórias vestigiais é reaplicada na linguagem das doutrinas metafísicas, de maneira que o encadeamento lógico, em lugar de buscar a garantia de sua certeza na artificialidade dos axiomas, sub-repticiamente a buscará na invocação da certeza subjetiva que lhe conferem as memórias vestigiais. A fé se transforma em uma ideologia ou, em outras palavras, em uma construção psicológica. A religião não se interessa realmente por ontologia, mas por “psicologia”.

(2) A salvação em uma nova criatura se transforma em salvação do ego. O instinto religioso nega o evento eclesial, nega o modo de existência da comunhão em amor, nega o caminho para uma nova criatura. Assim que lhe resta buscar a salvação do que já existe. Em outras palavras, lhe resta salvar o ego psicológico individual. E essa certeza de salvação será construída mediante o cumprimento da lei. A lei, da qual o evento eclesial se opõe, é uma maldição porque é uma manifestação do poder do pecado, ou seja, do poder da vida natural, psicológica, do poder da escravização ao ego e seus ditames de autoestima, autossuficiência e respeitabilidade narcisista. Quando o Apóstolo sugere que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes (Atos 15:29) isso de forma alguma representa regras que, se cumpridas, farão parte da garantia da salvação do indivíduo. Tais são apenas sinais exteriores, objetivos, para distinguir os cristãos dos pagãos. Uma mera necessidade social circunscrita àquele ambiente em especial. No entanto, o instinto religioso, que sempre se espreitou e se manifestou aqui e ali na vida da ekklesia, ganhou enorme impulso a partir da proclamação da Ortodoxia em religio imperii e, em especial, ganhou forma nos cânones do Concílio Quinissexto de Constantinopla de 692, que publicou uma série de regras socias e morais, com especial ênfase à regulação da vida sexual dos fiéis. A elaboração desse e muitos outros códigos morais, e a respectiva exigência de seu cumprimento para a salvação do ego, impactou várias gerações, milhares ou milhões de seres humanos, que viveram sua única vida em um inferno de culpa imaginária, de desejos reprimidos, de ansiedade implacável, de autotortura narcisista. Gerações inteiras foram presas involuntariamente no tormento do legalismo, na existência deficiente de uma vida sem amor. Milhões de pessoas foram levadas a identificar no amor erótico o medo do pecado, na virtude a repugnância pelo próprio corpo e na expressão perceptível de afeto na repulsa. Tudo em nome da concessão humilhante à brutalidade da natureza humana.

(3) A assembleia eucarística se reduz a um ritual mágico. Jesus Cristo, na Última Ceia, apresentou uma realidade ontológica imageada no pão e no vinho. Os participantes ali presentes, assim como os participantes presentes nas subsequentes assembleias eucarísticas, devem evidentemente apresentar os mesmos pressupostos eucarísticos: a abnegação de seus egos individuais em prol da vida em comunhão amorosa. A realidade ontológica originalmente apresentada por Cristo só poderá ser “reproduzida” cumpridas tais condições. No entanto, de maneira lenta e imperceptível, o instinto religioso perverteu essa realidade em uma possessão individual do pão e do vinho que, milagrosamente, como num passe de mágica, se “transubstancia” (há outras expressões igualmente absurdas) em Corpo e Sangue de Cristo. Os participantes, agora transformados em “paroquianos”, se aproximam do pão e do vinho magicamente, como se fosse possível apossar-se do Corpo e Sangue objetivamente. O fetiche egocêntrico manifestado por esse entendimento é escandaloso: a ideia de purificar-se da culpa a fim angariar mérito para a salvação individual não tem absolutamente nenhuma relação com o modo de existência do evento eclesial. Todo o espaço eucarístico se preenche de expressões artísticas (orações, hinos, iconografia, arquitetura, idiomas eclesiásticos, indumentária) para impressionar o indivíduo, para conduzi-lo, como em uma sessão de hipnose, a sentimentos, emoções, euforias, imagens, cujo objetivo final será, evidentemente, satisfazer o ego.

(4) O sexo como fonte de alegria se transforma em sexo como fonte de neuroses. A perspectiva eclesial sobre as relações entre homens e mulheres atinge seu clímax em Paulo com a famosa passagem de sua Epístola aos Efésios onde ele vê na união amorosa de um homem e uma mulher e na “partilha de toda a vida” a imagem da relação de Cristo com a Igreja, uma imagem que não é metafórica ou intelectualmente alegorizada, mas é uma imagem/manifestação do poder dos seres humanos para realizar a relação vital do Filho Encarnado com a humanidade (vital porque é o provedor de vida ilimitada) como um evento existencial por meio de sua natureza psicossomática criada. É um poder que define aquilo que a Igreja chama de mistério, aquilo que distingue nitidamente o casamento eclesial da instituição natural/social /legal do casamento (cf. Ef 5, 21-33). Dentro do contexto do relacionamento mutuamente autotranscendente de marido e mulher, Paulo exige da esposa que ela cultive ativamente o respeito por seu marido, esteja sujeita a seu marido “em tudo”, como a Igreja o é para Cristo. Ele pede correspondentemente aos maridos que eles devem amar suas esposas “como eles amam seus próprios corpos” e muito mais, “assim como Cristo amou a igreja e se entregou por ela”. Essas demandas não constituem princípios reguladores do comportamento social; são os termos da transformação da instituição natural em mistério eclesial, em luta pela renúncia à vontade egoísta, luta de autotranscendência e oferta de si realistas. É apenas em termos de mistério (o modo de existência eclesial) que essas demandas podem ser julgadas, não de acordo com os padrões dos “direitos do indivíduo”, os padrões do moderno individualismo democrático de massa.

Há também a preferência claramente expressa de Paulo pela vida celibatária, que pode ser interpretada de várias maneiras: como um senso de reserva, depreciação e desprezo em relação à sexualidade, ou como uma busca pela liberação mais plena possível das leis naturais que regem natureza humana. O próprio Paulo não esclarece sua preferência analiticamente, mas também não pode ser discernido no que ele diz qualquer disposição ou sugestão de uma depreciação do sexo feminino - não há nada neles que nos permitiria atribuir a Paulo uma demonização das mulheres e de sexualidade.

Paralelamente a isso, podem-se discernir duas sugestões indiretas de que o instinto sexual natural pode cooperar com a meta da salvação humana (a meta de que o ser humano pode ser salvo, tornar-se sadio ou íntegro, com seus poderes existenciais totalmente integrados). A primeira sugestão diz respeito ao homem que é ajudado pela instituição natural do casamento a "deixar seu pai e sua mãe" (Ef 5:31), a romper com a garantia que reforça o ego de sua proteção, a fim de ousar aceitar o risco de atingir a vida adulta. A segunda dica diz respeito à mulher que “será salva por ter filhos” (1 Tm 2:15). A função natural da maternidade ajuda também a mulher a compartilhar seu ser, seu próprio corpo, a comunicar sua individualidade corporal, por meio da renúncia e da oferta de si que a maternidade acarreta. Ambas as dicas que encontramos em Paulo referem-se a potencialidades que são características da função generativa, não a preceitos reguladores que a "ética" de Paulo quer impor à natureza. É precisamente esse mal-entendido que causou (e ainda causa) muita desumanidade - atormentou (e ainda atormenta) gerações de seres humanos ao longo de muitos séculos.

Quando o evento eclesial é religioso, são esses textos do apóstolo Paulo que são idolatrados e proclamados (não apenas pelos protestantes) como sendo divinamente inspirados ao pé da letra. Mesmo seus elementos circunstanciais e historicamente condicionados são tratados como princípios reguladores obrigatórios para os cristãos de todas as épocas.

Leia: Christos Yannaras, Against Religion, Holy Cross Orthodox Press, Brookline, MA, EUA, 2013.