Aspectos gerais
Marcuse foi um crítico radical da ordem
social existente. Se por um lado o liberalismo aproveita-se do Estado para
eliminar quaisquer críticas à economia de livre mercado, por outro lado, quando
esta estratégia não funciona, o totalitarismo blinda o livre mercado de
críticas. Assim, a função da filosofia, de acordo com Marcuse, é criticar a
realidade em momentos que encontra forças para sobrepujar o meio ambiente
imediato. A filosofia não deve dizer como as coisas são, mas como podem ser. A
razão tem de confrontar o domínio da realidade com o domínio da possibilidade.
Marcuse critica a fenomenologia de Husserl
porque ela impede a possibilidade por meio do bloqueio do acesso à existência. A
fenomenologia e seu retorno às coisas mesmas congelaria, segundo Marcuse, a
realidade na essência em detrimento da existência.
Marcuse oferece duas características da história
da cultura moderna: (1) a transição de um período de afirmação (burguesia
liberal) para um período posterior de resignação e negação (burguesia
totalitária), e (2) a relação entre liberdade e felicidade (só pode ser feliz
quem é livre, e a liberdade tem de implicar a liberdade de prazer, negada tanto
pelos filósofos morais quanto pela sociedade burguesa, que orienta a liberdade
humana aos deveres do trabalho e do mercado em detrimento do abandono das
relações sexuais).
O papel de Hegel no pensamento
marcuseano
Hegel não aceita a ideia kantiana de que as
categorias sejam intemporais e inalteráveis. A estrutura do pensamento tem de
ser elucidada pela história da razão humana. É a Fenomenologia do Espírito
(1806). O objetivo da história, ensina
Hegel, é recuperar a unidade perdida da natureza humana mediante a reintegração
do finito e o infinito. Mediante sucessivas formas de unidade e desunião, os
homens se movem para o exterior para verem o mundo como objetivo para, posteriormente,
se darem conta de que a razão é que faz do homem e do mundo o que são. A
objetificação aliena o homem e é papel da razão reconhecer que a liberdade é o
objetivo da história. O cume da história é quando a razão atinge sua
autoconsciência; é quando a Ideia se realiza de forma racional, e por isso
Hegel diz que sua pena estava escrevendo “pensamentos de Deus”. Por outro lado,
na Lógica, Hegel define a forma do conhecimento absoluto em que culmina a
racionalidade: qualquer procedimento formal deve ser filosoficamente
justificado por uma metalógica e, portanto, burlar as exigências da
formalização. À medida que o conhecimento real se desenvolve, o “Conceito”
ganha vida.
Por isso os comentaristas de Hegel tendem a
se dividir em duas alas: os hegelianos de direita, que acentuam o fato
das categorias serem “anteriores” à natureza e à história (ou seja, a Ideia Absoluta
nunca se reduz às suas manifestações finitas, enfatizando a Lógica), e
os hegelianos de esquerda (ou “jovens hegelianos”), que acentuam o fato
das categorias não terem existência fora de sua corporificação no mundo da
experiência (enfatizando a Fenomenologia do Espírito).
Marcuse dá ênfase à Lógica e, ao
mesmo tempo, dota a análise da sociedade burguesa de Karl Marx com as características
da realização da Ideia Absoluta. Em outras palavras, Hegel mescla os dois lados
em algo ambíguo. A Ideia está entre nós, mas não na Fenomenologia do
Espírito, mas no Capital. Marcuse parece apontar que a razão foi substituída
pela felicidade marxista, mas Marx mesmo nunca adotou a felicidade como meta
humana. Trotsky havia deixado claro que uma das características permanentes da
vida humana é a tragédia porque, imersos da liberdade, os homens produzirão
situações frustrantes e infelizes. MacIntyre considera que o conceito de felicidade
de Marcuse é uma adulteração do pensamento de Karl Marx.
Críticas a Marx e Freud
Marx não explica como os trabalhadores irão
aprender as verdades do marxismo. Essa consciência política da classe
trabalhadora é um dos grandes vácuos da teoria marxista. No entanto, está claro
que, no capitalismo, a opressão não se dá apenas por elementos externos (ricos,
governantes etc.), mas também por formas de consciência limitantes.
Por outro lado, Marcuse rejeita o moralismo
freudiano segundo o qual os grandes avanços civilizacionais foram obtidos
graças à renúncia sexual. Ele entende que as relações humanas podem ser
moldadas por uma liberação e satisfação libidinais que não necessariamente
levariam à destruição da ordem social. Há uma mais-repressão nas
sociedades modernas que, para além de restringirem os instintos para fundar e
manter a civilização, a deprimem desnecessariamente. O conceito da
mais-repressão está ligado ao princípio do desempenho, segundo o qual
após a era moderna já não são necessárias as limitações da família monogâmica.
Marcuse infelizmente não entra em detalhes como, afinal, poderiam se dar as
relações sexuais nas sociedades pós-modernas.
Críticas ao “marxismo soviético”
Marcuse acusa a União Soviético de não se
dobrar ao marxismo teórico, mas dobrar o marxismo teórico à União Soviética.
Por exemplo, Hegel e Marx entendem que a arte deve servir para “cobrir” o hiato
entre o ideal e o real e, por isso, não deve ser naturalista. O marxismo soviético
faz precisamente o contrário: usa o naturalismo para ossificar a realidade
soviética como se ela já tivesse alcançado a vitória comunista.
O homem unidimensional
Marcuse condena o progresso técnico por
solapar as forças opostas ao sistema ao produzir abundância. A superação da
carência material no capitalismo transforma-se não num instrumento de libertação,
mas de servidão. Não há dissensão porque não há necessidades e, assim, os
homens se tornam passivos a dóceis ao sistema. Mas as necessidades que o
capitalismo satisfaz são falsas: os bens materiais “satisfeitos” desviam a atenção
dos verdadeiros bens espirituais que lhes dariam aos homens a liberdade
almejada.
MacIntyre acusa Marcuse de se autodeclarar,
mesmo que sub-repticiamente, a supraconsciência capaz de ensinar aos homens
quais são suas “reais necessidades”. Ademais, Marcuse faz pouco ou nenhum caso
às particularidades tradicionais e sociais de cada país ou comunidade, ou seja,
tudo se explicaria única e exclusivamente pela satisfação ou insatisfação de
bens materiais.
A arte e a literatura modernas igualmente são
alvos das críticas marcuseanas. Ao se torcerem às necessidades comerciais,
ambas terminam por horizontalizar a cultura, formando o que ele chama de homens
unidimensionais.
Críticas à filosofia
São três as críticas à filosofia:
(1) À lógica formal. O pensamento
antigamente era subordinado e controlado pelas leis da lógica. A Marcuse não
lhe ocorre a ideia de que muito antes de Aristóteles os homens já silogizavam e
que o Estagirita apenas explicitou as regras da lógica. As contradições, para
Marcuse, não são uma penalidade da incoerência, mas são uma espécie de “doutrina
especial da lógica formal” (Adorno e Horkheimer seguirão linhas semelhantes na
crítica à lógica). Marcuse inventa a lógica dialética, uma lógica sui
generis na qual não há distinção entre forma e conteúdo nem entre
descoberta e formalização.
(2) À linguística. Wittgenstein, em
suas Investigações Filosóficas, demonstrou que a estrutura de uma língua
é muito diferente de um cálculo aritmético. O cálculo pode ser coerente ou não,
mas uma língua não: o falante é que é coerente ou incoerente. Obedecer às
regras de uma língua não tem relação com a obediência às regras da aritmética.
Wittgenstein nunca negou que os termos técnicos são necessários em filosofia ou
em qualquer outro campo de investigação. Mas Marcuse entende que a linguística
moderna ossificou a linguagem e, por conseguinte, contribuiu para ossificar a
sociedade. A filosofia deveria, segundo os ditamos dos hegelianos de esquerda,
transmutar a linguagem.
(3) À filosofia da ciência. A ciência
é uma forma de dominação porque ela se liga e se submete à tecnologia.
Marcuse conclui que a revolução não é
levada à cabo pela classe trabalhadora, mas por uma minoria esclarecida que
entende as carências, necessidades e aspirações da maioria. O que Marcuse quer
é uma ditadura da minoria liderada por intelectuais como ele mesmo. Há a
ala esquerda do comunismo (ala infantil) e a ala direita do comunismo (ala
oligárquica). Mas, como ensinaram Marx e Lênin, estar em conflito com a ordem
não significa necessariamente ser um agente de libertação.
Marcuse propõe que as revoltas estudantis,
comuns em sua época, são a saída para romper com a cultura mercantilista. O flower
power, os hippies, a cultura soul: eis exemplos de uma nova
sensibilidade que poderão abrir o espaço necessário para catalisar a
transformação da sociedade. O marxismo tradicional desprezava o lumpen-proletariat
(a escória, o povão, a ralé), enquanto Marcuse via nele o ponto de apoio de sua
posição teórica.
Conclui MacIntyre:
A institucionalização da racionalidade foi uma das grandes conquistas da sociedade burguesa. É claro que a própria institucionalização pode ser usada para tentar isolar a prática da crítica racional e assim evitar seja exercida sobre a ordem social; e há uma contínua pressão sobre as universidades e outras instituições no sentido de fazer da prática da pesquisa racional mero instrumento para as finalidades do governo. É preciso resistir a essas investidas à pesquisa racional efetuadas no interesse da ordem social estabelecida. O novo argumento radical de Marcuse contra a tolerância transforma os radicais que o esposam em aliados das mesmas forças que afirmam combater, e isso não apenas em teoria mas também na prática.
[...]
Minha opinião de que tolerância e racionalidade estão intimamente relacionadas não é apenas uma tese apriorística. A transformação do marxismo, de um corpo teórico racionalmente edificado em outro de sustentação irracional, é resultante do fato de o marxismo se ter eximido das possibilidades de crítica e de refutação. O uso do poder estatal para dender o marxismo como único conjunto de crenças verdadeiras na União Soviética produziu a atrofia do marxismo e levou à irracionalidade do marxismo soviético.
Não se pode libertar o povo de cima para baixo; não se pode reeducá-lo neste nível fundamental. Como bem viu o jovem Marx, os homens precisam libertar-se a si mesmos. A única educação que liberta é a autoeducação. A maioria dos homens nas sociedades industriais avançadas são amiúde confusos, infelizes e conscientes de sua falta de poder; são também frequentemente esperançosos, críticos e capazes de compreender possibilidades imediatas de se tornarem felizes e livres.
É corajosa a postura de MacIntyre de
defender, pelo menos em seus princípios críticos, a filosofia marxista. Ele,
como tomista que é, posiciona-se de forma autêntica ao encontrar na doutrina de
Marx uma saída para algum tipo de exercício de justiça distributiva. Ele não vê nas
sociedades modernas um alívio das condições miseráveis em que as populações vivem,
e é louvável que ele se volte à esquerda para ali encontrar certa abertura. Mas
me parece ingênuo supor que a própria ralé (para usar o termo propositalmente pejorativo adotado por Jessé Souza) possa conscientizar-se de alguma forma e, “de
baixo para cima”, racionalmente ganhar a autoconsciência necessária para identificar
as "possibilidades imediatas". “O povo é uma criança”, dizia Sertillanges.
Por mais que essa verdade doa a certos ouvidos progressistas, eis um truísmo
que precisa pesar em nossas personalidades.
Fonte: Alasdair MacIntyre, As ideias de Marcuse, Editora Cultrix, São Paulo, SP, Brasil, 1973.







