Vocês que
escutam credulamente os sussurros da fantasia e perseguem com avidez os
fantasmas da esperança, que esperam que a maturidade realizará as promessas
da juventude, e que as deficiências do presente serão supridas pelo amanhã,
escutem a história de Rásselas, príncipe da Abissínia.
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O
conhecimento constitui, certamente, um dos meios para obter prazer, como atesta
o desejo natural que cada mente tem de incrementar as suas ideias. A
ignorância é mera privação, mediante a qual nada pode ser produzido: é uma vacuidade
na qual a alma permanece imóvel e aletargada por falta de atração; e, sem
saber por que, sempre nos regozijamos quando aprendemos e nos lamentamos quando
esquecemos. Portanto, inclino-me a concluir que, se nada neutraliza a
consequência natural da aprendizagem, tornamo-nos mais felizes à medida que
as nossas mentes ampliam os seus alcances de apreensão.
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A vida
humana é em toda a parte um estado em que há muito a suportar e pouco a
desfrutar.
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Poderá
existir comunidade — disse Imlac — de posses materiais, mas nunca poderá
haver comunidade de amor ou de estima. Forçosamente acontecerá que um
agrade mais do que outro; aquele que se sabe desprezado sentir-se-á sempre
invejoso, e ainda mais invejoso e malévolo se for condenado a viver na presença
daqueles que o desprezam. Os convites com que atraem outros [ao Vale Feliz] para
o estado que eles próprios consideram desgraçado são produto da malignidade
natural que acompanha a miséria sem esperança. Estão cansados de si mesmos e de
cada um dos outros, e esperam encontrar alívio em novos companheiros. Invejam a
liberdade que a sua insensatez lhes arrebatou [i.e. a liberdade de quem vive
fora do Vale Feliz] e de bom grado veriam toda a humanidade encarcerada como
eles.
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Voltam a
trabalhar dia após dia e, em pouco tempo, encontraram uma fissura na rocha, que
lhes permitiu avançar mais longe com muita pouca obstrução. Rásselas considerou
isto um bom presságio. “Não perturbe a sua mente”, disse Imlac, “com esperanças
ou medos diferentes daqueles que a razão possa sugerir: se se sente
satisfeito com prognósticos de algum bem, encontrar-se-á aterrorizado de igual
modo pelos indícios de algum mal, e a sua vida inteira será presa da
superstição. Tudo o que facilite o nosso trabalho é mais do que um
presságio, é uma causa de êxito. Esta é uma dessas agradáveis surpresas que
frequentemente se apresentam à resolução ativa. Muitas coisas difíceis
de planejar resultam fáceis de executar”.
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— Todo
homem pode — disse Imlac —, através do exame da sua própria mente, supor o que
se passa na dos outros: quando você sente que a sua própria alegria é falsa,
isso pode com justiça levá-lo a suspeitar de que a dos seus companheiros não
seja sincera. A inveja é comumente recíproca. Passa-se muito tempo antes que
nos convençamos de que a felicidade não pode ser encontrada, e cada um julga
que os demais a possuem a fim de manter viva a esperança de obtê-la para si
mesmo. Na assembleia onde o senhor passou a noite anterior percebia-se tal
vivacidade no ar e tal desenvoltura da imaginação como as que poderiam convir a
seres de uma ordem superior, criados para habitar regiões mais serenas e
inacessíveis à preocupação ou à dor; contudo, acredite em mim, príncipe, não
havia um único que não temesse o momento em que a solidão haveria de entregá-lo
à tirania da reflexão.
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— As causas
do bem e do mal — respondeu Imlac — são tão variadas e incertas, frequentemente
tão entrelaçadas umas com as outras, tão diversificadas por múltiplas relações
e tão sujeitas a acidentes imprevisíveis, que quem determinar a sua condição
com base em razões de preferência incontestáveis deverá viver e morrer
indagando e deliberando.
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Rásselas
levantou-se no dia seguinte e decidiu começar os seus experimentos sobre a
vida. “A juventude”, exclamou, “é a época do regozijo: unir-me-ei aos jovens,
cuja única ocupação é satisfazer os seus desejos e cujo tempo é empregado
inteiramente numa sucessão de desfrutes”.
Foi
admitido imediatamente em tais sociedades, mas poucos dias depois estava de
volta, cansado e desgostoso. As suas diversões careciam de substância, e as
suas risadas de motivo; os seus prazeres eram grosseiros e sensuais, e neles a
mente não tinha lugar; a sua conduta era ao mesmo tempo selvagem e vil; riam-se
da lei e da ordem, mas o cenho do poder os encolhia, e o olho da sabedoria os
perturbava.
O príncipe
concluiu logo que nunca seria feliz com um estilo de vida do qual se
envergonhava. Considerou inadequado para um ser racional conduzir-se sem um
plano e encontrar-se triste ou contente apenas por acidente. “A felicidade”,
disse para si mesmo, “deve ser algo sólido e permanente, sem medo e sem
incerteza”.
Mas os seus
jovens companheiros tinham conquistado tanto o seu apreço devido à sua
franqueza e cortesia, que não pôde abandoná-los sem adverti-los e
repreendê-los. “Amigos meus”, disse, “considerei seriamente os nossos costumes
e as nossas perspectivas, e encontro que nos equivocamos em prejuízo do nosso
próprio interesse. Os primeiros anos de um homem devem fazer provisão para os
últimos. Aquele que nunca pensa, nunca pode ser sábio. A leviandade
perpétua deve terminar em ignorância, e a intemperança, embora possa inflamar
os espíritos por uma hora, fará a vida curta ou miserável. Consideremos que
a juventude dura muito pouco e que na idade madura, quando os encantamentos da
fantasia tiverem cessado e os fantasmas do deleite não dançarem mais ao nosso
redor, não teremos outro consolo senão a estima do sábio e os recursos para
fazer o bem. Portanto, detenhamo-nos enquanto deter-nos está no nosso
poder: vivamos como homens que um dia envelhecerão e para os quais será o mais
temível de todos os males o contar os seus anos passados apenas pelas suas
loucuras, e recordar a sua antiga abundância de saúde apenas pelas enfermidades
que a dissipação produziu”.
Olharam-se
por um momento em silêncio uns para os outros e, por fim, expulsaram-no com um
coro geral de risadas intermináveis.
A
consciência de que os seus sentimentos eram justos e a sua intenção nobre mal
foi suficiente para sustentá-lo diante do horror da zombaria. Mas recobrou a
tranquilidade e continuou com a sua busca.
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— As coisas
que se encontram hoje diante de nós — disse a princesa — requerem atenção e
merecem-na. Que tenho eu a ver com os heróis ou os monumentos de épocas
antigas, com tempos que não podem voltar e com heróis cuja forma de vida era
diferente de tudo o que a presente condição da humanidade requer ou permite?
— Para
saber algo — replicou o poeta — devemos conhecer os seus efeitos; para ver os
homens devemos ver as suas obras, de tal sorte que possamos compreender o que a
razão ditou ou a paixão incitou, e descobrir quais são os motivos de ação mais
poderosos. Para julgar corretamente o presente devemos contrapô-lo ao
passado, pois todo o juízo é comparativo, e do futuro nada podemos saber. A
verdade é que nenhuma mente se ocupa demasiado do presente: recordações e
antecipações enchem quase todos os nossos instantes. As nossas paixões são
o gozo e a pena, o amor e o ódio, a esperança e o medo. O objeto do gozo e da
pena é o passado, e o da esperança e do medo, o futuro; inclusive o amor e o
ódio dizem respeito ao passado, pois a causa deve anteceder o efeito.
O presente
estado das coisas é consequência do anterior, e é natural inquirir onde
estão as fontes do bem de que desfrutamos ou do mal que sofremos. Se
atuamos apenas para nós mesmos, negligenciar o estudo da história é imprudente;
se nos foi confiado o cuidado de outros, é injusto. A ignorância,
quando é voluntária, resulta criminal, e com toda a justiça se pode acusar de
maldade quem se recusa a aprender como poderia evitá-la.
Não
existe uma parte da história tão geralmente útil como aquela que relata o progresso da
mente humana, o gradual melhoramento da razão, os sucessivos avanços da
ciência, as vicissitudes da aprendizagem e da ignorância, que são a luz e a
escuridão dos seres pensantes, a extinção e ressurreição das artes, e todas
as revoluções do mundo intelectual. Se os relatos de batalhas e invasões
resultam de especial interesse para os príncipes, as artes liberais ou as elegantes
não estão para ser negligenciadas; aqueles que têm reinos para governar possuem
entendimentos para cultivar.
O exemplo é
sempre mais eficaz do que o preceito. Um soldado forma-se na guerra, e um
pintor deve copiar imagens. Nisto a vida contemplativa tem a vantagem: as
grandes ações raramente são vistas, mas as obras de arte estão sempre
disponíveis para aqueles que desejam conhecer o que a arte foi capaz de
realizar.
Quando a
vista ou a imaginação é impactada por qualquer trabalho singular, a transição
seguinte de uma mente ativa dá-se em direção aos meios através dos quais foi
realizado. Aqui começa a verdadeira utilidade de tal contemplação;
expandimos a nossa compreensão mediante novas ideias e talvez recuperamos
alguma arte perdida para a humanidade ou aprendemos o que é conhecido menos
perfeitamente no nosso próprio país. Ao menos comparamos a nossa própria época
com as anteriores e regozijamo-nos com as nossas melhorias ou, o que constitui
o primeiro passo para o bem, descobrimos os nossos defeitos.
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— Que os
mortos nunca mais são vistos — disse Imlac — é algo que não me atrevo a
sustentar contra o concomitante e invariável testemunho de todas as épocas e de
todas as nações. Não há povo, inculto ou instruído, entre o qual as
aparições dos mortos não sejam mencionadas e acreditadas. Esta opinião, que
prevalece na medida em que a natureza humana é difusa, só pode se tornar
universal pela sua veracidade: aqueles que nunca ouviram falar uns dos
outros não poderiam ter concordado em uma história que nada, exceto a
experiência, pode tornar credível. O fato de ser posta em dúvida por
polemistas isolados enfraquece muito pouco a evidência geral, e alguns que a
negam com a língua a confessam com os seus medos.
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— Grande
princesa — disse Imlac —, não se reprove pela sua virtude nem considere como
culposo aquilo que causou um mal apenas acidentalmente. A sua ternura
diante da timidez de Pekuah foi generosa e boa. Quando atuamos de acordo com o
nosso dever, confiamos o desenrolar dos eventos a Aquele por cujas leis são
governadas as nossas ações e que não permitirá que ninguém seja punido em
última instância pela sua obediência. Quando, diante da perspectiva de algum
bem, seja natural ou moral, violamos as regras que nos foram prescritas,
afastamo-nos da guia do saber superior e arrogamo-nos todas as consequências
dos nossos atos. O homem não pode conhecer todas as conexões entre causas e
efeitos a ponto de se aventurar a fazer um mal com a intenção de fazer um bem.
Quando perseguimos o nosso fim por meio de meios lícitos, podemos sempre
consolar-nos do nosso fracasso com a esperança de uma recompensa no futuro. Quando
consideramos apenas a nossa própria conveniência e tentamos encontrar um atalho
para o bem saltando os limites estabelecidos entre o correto e o incorreto, não
podemos ser felizes mesmo que tenhamos êxito, pois não podemos escapar da
consciência da nossa falta; e se falhamos, a decepção torna-se
irremediavelmente mais amarga. Quão inconsolável é a dor daquele que sofre ao
mesmo tempo as presas da culpa e a dor de uma calamidade que a própria culpa
trouxe sobre ele!
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— Se havia
mulheres na fortaleza do árabe — disse a princesa —, por que não as fez suas
companheiras, desfrutou da conversa delas e compartilhou das suas diversões? Em
um lugar onde elas encontravam ocupação e entretenimento, por que haveria você
de se encontrar sozinha corroída por uma ociosa melancolia? Ou por que não
podia suportar por uns poucos meses essa condição à qual elas estavam
condenadas por toda a vida?
— As
diversões destas mulheres — respondeu Pekuah — eram apenas jogos pueris que não
podiam manter ocupada uma mente acostumada a exercícios mais vigorosos. Eu
podia fazer tudo o que elas se deleitavam em fazer aplicando apenas os
sentidos, enquanto as minhas faculdades intelectuais voavam rumo ao Cairo. As
mulheres corriam de quarto em quarto assim como uma ave salta de poleiro em poleiro
dentro da sua gaiola. Dançavam apenas por se mover, assim como os cordeiros
folgam no prado. Em ocasiões uma fingia ter se machucado para que as outras se
alarmassem ou se escondia para que alguém mais a procurasse. Parte do seu tempo
ia em olhar a passagem dos corpos leves que flutuavam pelo rio, e parte em
apontar as várias formas que adotavam as nuvens no firmamento. »A sua única
ocupação consistia em fazer bordado, no qual as minhas donzelas e eu as
ajudávamos em ocasiões; mas vocês sabem que a mente se separa facilmente dos
dedos, e não suspeitarão que umas flores de seda pudessem me consolar do
cativeiro e da ausência de Nekayah.
Tampouco
podia esperar muita satisfação da conversa delas, pois de que se podia esperar
que falassem? Não tinham visto nada, já que tinham vivido desde a sua
primeira juventude naquele lugar estreito, e daquilo que não tinham visto não
podiam ter conhecimento algum, pois não podiam ler. Não tinham ideia
exceto das poucas coisas diante dos seus olhos e mal possuíam os nomes de nada
exceto as suas roupas e os seus alimentos. Como eu exibia um caráter
superior, com frequência me chamavam para terminar as suas disputas, as quais
eu julgava tão equitativamente quanto me era possível. Se eu tivesse me
divertido em escutar as queixas de cada uma contra as outras, ter-me-iam detido
frequentemente com longas histórias; mas os motivos da sua animosidade eram
tão minúsculos que eu não podia escutá-las sem interromper o seu relato.
— Como —
disse Rásselas — pode o árabe, a quem você representou como um homem de
realizações mais que comuns, obter prazer algum do seu seralho [antigo palácio
real do sultão no período otomano], quando este está cheio apenas de mulheres
como estas? São elas requintadamente belas?
— Não
careciam — disse Pekuah — dessa beleza vulgar e sem afetação que pode subsistir
sem vivacidade ou grandeza, sem a energia do pensamento ou a dignidade da
virtude. Mas para um homem como o árabe tal beleza era apenas uma flor
casualmente colhida e descuidadamente descartada. Quaisquer que fossem os
prazeres que podia encontrar entre elas, não eram os da amizade ou da companhia.
Quando brincavam perto dele, olhava-as com superioridade distraída; quando
competiam pela sua atenção, afastava-se com desgosto em algumas ocasiões. Já
que não possuíam conhecimento algum, a sua conversa não podia diminuir em nada
o tédio da vida; como não tinham escolha, o seu afeto, ou aparência de afeto,
não excitava nele nem orgulho nem gratidão; o seu amor-próprio não podia
ser exaltado pelos sorrisos de uma mulher que não via nenhum outro homem nem
estava comprometida por essa consideração que ele nunca saberia se era sincera
e que frequentemente poderia perceber como exercida tanto para deleitá-lo
quanto para perturbar uma rival. Isso que ele dava, e elas recebiam, como amor,
era apenas uma descuidada distribuição de tempo livre, um amor tal como um
homem pode conferir a quem despreza, tal como aquele que não tem nem medo nem
esperança, nem gozo nem dor.
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— As
desordens do intelecto — respondeu Imlac — ocorrem com maior frequência do que
os observadores superficiais creriam com facilidade. Talvez, se falarmos com
rigorosa exatidão, nenhuma mente humana se encontre de todo em seu perfeito
juízo. Não existe um homem cuja imaginação não predomine algumas vezes sobre
a sua razão, que possa regular a sua atenção completamente à vontade e cujas
ideias vão e venham segundo as suas ordens. Não encontraremos nenhum homem
cuja mente não seja tiranizada algumas vezes por ideias vazias e que o obriguem
a esperar ou temer para além dos limites de uma estrita probabilidade. Todo
poder da fantasia sobre a razão é um grau de loucura; mas enquanto este
poder for tal que possamos controlá-lo e reprimi-lo, não resulta visível para
os outros nem é considerado uma depravação das faculdades mentais: não se o
qualifica de loucura senão quando se torna ingovernável e influi
perceptivelmente sobre a fala ou a conduta.
Consentir o
poder da ficção e dar asas à imaginação é com frequência o passatempo daqueles
que se deleitam demasiado em uma especulação silenciosa. Quando estamos sós
nem sempre estamos ocupados; o trabalho de excogitar [meditar, refletir,
cogitar] é demasiado violento para prolongar-se muito; o ardor da indagação
cede passo algumas vezes à ociosidade ou à saciedade. [Cabe relembrar o que ensinava Magda Arnold,
qual seja, que a imaginação livre de condução consciente necessariamente
produzirá estórias, as quais funcionam como uma reorganização das impressões sensoriais
do passado.] Quem não tem nada externo que o possa distrair deve encontrar
prazer em seus próprios pensamentos e acabará concebendo a si mesmo como o que
não é, pois quem se sente satisfeito com o que é? Então ele se distende
sobre um futuro sem limites e escolhe de entre todas as condições imagináveis
aquela que no momento presente lhe resulta mais apetecível, entretém os seus
desejos com desfrutes impossíveis e confere ao seu orgulho uma soberania inalcançável.
A mente dança de cena em cena, conjuga todos os prazeres em todas as
combinações e desabafa em deleites que a natureza e a fortuna, com toda a sua
generosidade, não podem conceder.
Com o
tempo, uma série particular de ideias fixa a atenção, todas as demais
gratificações intelectuais são rejeitadas, e a mente, na fadiga ou no descanso,
recorre constantemente à sua concepção favorita e se ceva [se alimenta] em sua
empalagosa [melosa, “grudenta”, sentimental] falsidade sempre que se sente
ofendida pela amargura da verdade. Gradualmente confirma-se o reinado da fantasia; ao princípio torna-se
imperiosa, e com o tempo despótica. Depois as ficções começam a operar como
realidades, opiniões falsas se afiançam sobre a mente e a vida transcorre em
sonhos de êxtase ou de angústia.
— Tais —
disse Imlac — são os efeitos dos planos imaginários: ao concebê-los sabemos que
são absurdos, mas familiarizamo-nos com eles gradualmente e com o tempo
perdemos de vista o seu desatino [falta de tino, de juízo, de bom senso].
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— Mas os
materialistas — disse o astrônomo — insistem em que a matéria pode possuir
qualidades com as quais não estamos familiarizados.
— Quem
argumenta — replicou Imlac — contra o que conhece apenas porque pode existir
algo que desconhece, aquele que pode levantar possibilidades hipotéticas contra
certezas reconhecidas, não deve ser admitido entre as criaturas racionais.
Tudo o que sabemos a respeito da matéria consiste em que esta é inerte,
insensível e sem vida, e se esta convicção não pode ser rejeitada a não ser
referindo-nos a algo que desconhecemos, então temos toda a evidência que o
intelecto humano pode admitir. Se o que é conhecido pode ser abolido pelo
que é desconhecido, nenhum ser, nem mesmo um onisciente, pode alcançar a
certeza.
— Contudo —
disse o astrônomo —, não limitemos tão arrogantemente o poder do Criador.
— Não é
limitar a onipotência — replicou o poeta — supor que uma coisa não é
consistente com outra, que a mesma proposição não pode ser ao mesmo tempo
verdadeira e falsa, que o mesmo número não pode ser ímpar e par, que o
pensamento não pode ser conferido incapaz de pensar àquilo que é criado. [Lembremo-nos de que o princípio de não-contradição é tão fundamental que nenhum juízo é
pronunciado a partir dele, mas de acordo com ele. Por isso pensar
o que quer que seja em desacordo com tal princípio significa lançar-se fora do
real.]
Fonte: Samuel Johnson, La historia de
Rásselas, príncipe de Abisinia, Editorial Voces Témporis, Cidade do México,
México, [1759] 2020, trechos selecionados.




