Confiar na
fortuna (sorte mundana) é confiar na mudança, no repentino, no incerto, é
confiar na constância do inconstante. Quem sofre por causa das circunstâncias
mundanas e ao mesmo tempo culpa o destino comete um erro lógico crasso. Quem
busca a felicidade fora de si é ignorante porque busca a felicidade naquilo que
será arrebatado pela morte. Quem busca a alegria fora de si busca alegrias que
não são suas: as alegrias da natureza são apenas suficientes, mas quando a elas
lhes acrescentamos alegrias supérfluas se transformam em alegrias danosas.
O rico
não é aquele que tem mais, mas aquele que necessita menos. Observe o comportamento dos ricos:
quanto mais ricos, mais convencidos estão de que são dignos de possuir os
bens alheios. A avareza não é mera posse de bens supérfluos, mas é antes a
posse de bens alheios.
Raciocínio
semelhante vale para a honra. A honra se deve à virtude, e não ao cargo.
Ora, se honra o cargo pela virtude de quem o exerce, e não o contrário.
O poder é
ilusório porque, a exemplo de tudo o que recai no âmbito da fortuna, sua
existência poderá perder-se em um instante, seja porque a estrutura que o sustenta
rui, seja porque alguém tomará o poder do poderoso aos poucos ou repentinamente,
seja porque o corpo do poderoso padecerá de alguma doença ou enfermidade. Em
outras palavras, o poder é parte da fortuna. Dado que o poder é ilusório,
conclui-se, portanto, que o poder é falso, e é precisamente por isso que o
poder tende a ajuntar pessoas más. A ilusão e a malícia pertencem à mesma
classe. A fortuna nem sempre se associa aos bons, muito menos torna bons aqueles
que a ela se associam. Por isso feliz é o homem cuja fortuna lhe seja
adversa. A boa fortuna sempre engana com sua falsa aparência de felicidade.
Mas então o
que é felicidade? Felicidade é o bem supremo, é o estado perfeito da alma
causado pela reunião de todos os bens. Riquezas, poder, dinheiro,
fama, mulheres, força física, beleza, saúde: nada disso é a felicidade, mas de tudo
isso se constitui a felicidade. Senão vejamos, por exemplo, o caso da riqueza. Somos
levados a acreditar que a riqueza alivia o pobre de certas necessidades e o faz
bastar-se a si mesmo. A natureza se satisfaz com o pão, claro, mas o pão
realmente neutraliza tal necessidade da natureza? É claro que não: o pão, longe
de neutralizá-la, precisamente a provoca, no sentido de que é sua ausência que
a desperta. Portanto, nenhum dos elementos que constituem a felicidade pode, em
si mesmo, ser o bem supremo a que aspira individualmente porque ele representa não
uma satisfação final, mas uma necessidade atual. Quando isolamos um bem
aparente e o tornamos supremo, todos os demais bens se distorcem para atendê-lo.
Eis que Boécio
introduz a ideia, já arquiconhecida na filosofia, de que a felicidade, por ser
ela o bem supremo, a reunião de todos os bens, tem de ser encontrada para além
do âmbito da fortuna, no ser que supremamente a contém. Trata-se, logicamente, do
Deus Supremo. Assim como o todo é maior do que as partes, a reunião de todos
os bens é maior do que os bens. Logicamente conclui-se que a felicidade é o
próprio Deus. O homem é feliz é Deus, embora, obviamente, por participação, não
por essência.
Todos os
homens buscam o bem supremo, a despeito de como o fazem. Os maus o fazem
seguindo suas paixões mediante a promoção de um bem aparente a bem supremo. Os bons o fazem mediante segundo
suas virtudes mediante o esforço da alma em busca do bem supremo. Os maus
parecem fortes porque a eleição de algo aparente a supremo carrega ares de
finalidade. A força (virtus) está na busca pelo supremo a despeito das aparências.
A força dos maus é uma “força débil”
porque, a rigor, não são capazes de nada porque o mau não tem ser, é um nada. O
que realmente querem os poderosos, o bem supremo, isso não conseguem. Por isso
dizia Platão (Górgias, 466-481b) que só o sábio faz o que quer (veja
Santo Agostinho aqui).
O prêmio dos bons é converterem-se em deuses. O prêmio dos maus é deixarem
de existir. Por isso, apesar de seus males, devemos ter compaixão dos maus
assim como temos compaixão dos enfermos.
Aqui Boécio
introduz os conceitos de Providência e Destino. Embora pareçam a mesma
coisa, a Providência tem mais a ver com o plano do mundo tal como existe na
mente de Deus e reúne em si todos os seres, e o Destino tem mais a ver com o
plano do mundo tal com se desenrola nas coisas que ele move e controla. O
que nos confunde é que há coisas mais próximas da Providência, e por isso mais
estáveis, imutáveis, cuja presença escapa ao Destino. Por isso quanto mais
afastado da Providência, isto é, da Suma Inteligência, tanto mais enredado e
sujeito ao Destino. A Providência está para o Destino assim como a inteligência
está para o raciocínio, como criatura está para o Ser, como o tempo está para a
eternidade, como o círculo está para o centro. Isso tudo é dito para que os
homens entendam que, do ponto onde estão, imersos nas redes do Destino, se veem
incapazes de contemplar o plano do mundo tal como existe na mente de Deus, isto
é, na Providência. E também é dito para saciar as almas inquietas que, do
ponto onde estão, se veem indignadas pelo poder, pela glória e pela impunidade dos
maus.
Por isso a
fortuna é boa. Não importa se “favorável” ou “adversa”, a fortuna premia (ou
prova) os bons e castiga (ou corrige) os maus. A fortuna, se não é justa, é
certamente útil. E por isso também o livre arbítrio é um conceito insolúvel: a razão
humana encontra-se em um nível ontologicamente inferior à inteligência divina
e, portanto, é descabida e um tanto ridícula a tentativa de dar solução à questão
do livre arbítrio.
Fonte: Boécio, La consolación de la Filosofia, Alianza Editorial, Madrid, Espanha, 2015.






