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12 de outubro de 2012

Os logoi das coisas criadas



Hieromonge Damascene Christensen

O Caminho cria, mas não exige nada para si ...
Controla, mas sem compulsão.
(Tao Te Ching, cap. 51 – tradução da versão de Gi-ming Shien).

Segundo a teologia mística cristã, o Criador-Logos implantou em cada coisa criada seu próprio logos, seu próprio princípio ou essência interior, aquilo que faz a coisa ser o que propriamente é e que ao mesmo tempo direciona essa coisa a seu fim próprio, isto é, a Deus. O Criador-Logos, trazendo tudo à unidade, faz do universo um “cosmos” integrado e harmonioso. Ele atrai todos as coisas a Si (cf. João 12:32), embora domine sem compulsão, direcionando cada coisa naturalmente, segundo seu próprio logos. Conforme ensina São Máximo, o Confessor, “a Origem e Causa dos seres criados tem, enquanto Verdade, conquistado todos as coisas naturalmente, atraindo suas atividades a Si”.

Enquanto seguidores do Criador-Logos, é nosso dever discernir e identificar o logos de todas as coisas. Se somos chamados ao comando de algo, devemos exercê-lo naturalmente, sem forçar, sem agir segundo as aparências ou opiniões, mas segundo a essência interior de cada coisa. Isso vale especialmente para a relação com outros seres humanos, os quais, a despeito de suas carapaças, possuem implantados em si este princípio interior que tende a Deus.

* * *

A doutrina de que o Cristo Logos é o Fim de todas as coisas é misteriosa e profunda. Conforme dissemos acima, todas as coisas criadas possuem seu logos, sua essência ou princípio interior. O logos de cada coisa é uma “ideia” de Deus, e é mediante o logos que a coisa passa a existir em um determinado tempo e lugar e de uma determinada forma, e é mediante o logos que ela se desenvolve. O logos é o ponto de contato da coisa com Deus, ao mesmo tempo em que é o fim ao qual ela tende. Deus introduziu nas criaturas o amor que as faz tender a Si, atraindo-as para sua realização.

As ideias ou logoi das coisas individuais estão contidas em ideias mais gerais ou superiores, como espécies contidas em um gênero. O todo, por sua vez, está contido no Criador-Logos, no Princípio Cósmico unificante. Portanto, quando buscamos penetrar nas essências ou princípios interiores (logoi ou “verbos”) das coisas criadas, somos ao cabo levados ao conhecimento do Verbo, da “causa operadora” e ao mesmo tempo Fim de todas as coisas.

O Logos é o Princípio de todas as coisas porque é dEle que fluem as emanações criativas, os logoi particulares das criaturas. Ele é o Fim de todas as coisas porque Ele é o centro para o qual todos os seres criados tendem. Eis o sentido místico por trás das palavras dEle: Eu sou o Alfa e o Omega, o Princípio e o Fim (Apocalipse 1:8).

Este entendimento ajuda a compreender a natureza da doutrina de Lao Tsé. Ao contemplar as essências interiores das coisas criadas e ao buscar penetrar-lhes em seu fim – seus logoi –, o Velho Sábio foi conduzido naturalmente ao conhecimento intuitivo do Logos. No capítulo 52 do Tao Te Ching lê-se:

Encontrada a mãe, conhecemos o filho;
Conhecendo o filho, observamos pois a mãe.
(Tradução da versão de Gi-ming Shien)

São Máximo, o Confessor, explica a coisa da seguinte forma: “Quem quer que não limite sua percepção da natureza das coisas visíveis ao que seus sentidos são capazes de observar, mas com seu espírito sabiamente busca a essência que reside no interior de cada criatura, encontrará também a Deus; pois da magnificência manifesta dos seres criados apreendemos quem é a Causa de seus princípios”.

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Quando Lao Tsé fala de retornar à Simplicidade primitiva, ele na verdade refere-se aos logoi das coisas criadas aproximando-se de seu Fim, do Logos simples e indivisível.

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Se a roda de trinta raios de Lao Tsé é uma metáfora do universo, então Cristo Tao ou Logos é o cubo da roda para onde os raios do universo convergem. Essa comparação corresponde ao ensinamento cristão de que o Logos é o centro ou ponto central ao qual todos os logoi das criaturas tendem. Situado no centro, Ele também é o ponto mais baixo.

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“O controle das paixões pela vontade é chamado de força”.
(Tao Te Ching, cap. 55 – tradução da versão de Gi-ming Shien)

Por meio do controle das paixões somos capazes de ter um insight das essências das coisas; por sua vez, esse insight nos ajuda a controlar as paixões. Tal foi a experiência de Lao Tsé, Sócrates e demais sábios pré-cristãos, e tal é a experiência dos seguidores do Caminho depois de se fazer carne. São Máximo, o Confessor, ensinava:

“Todo espírito arrebatado por Deus extirpa a energia das paixões bem como o turbilhão tosco de pensamentos. Além disso, conseguirá também cessar o uso indevido e desenfreado dos sentidos. Pois as paixões, levadas triunfalmente à sujeição ante as formas superiores de contemplação, serão destruídas pela visão sublime da natureza”.

* * *

Quem quer que supere suas paixões, abreviando seu desejo pelas coisas criadas, conseguirá enxergar para além das realidades sensíveis e para dentro das essências interiores (logoi) das coisas, incluindo os seres humanos. “Somente a alma liberta das paixões”, ensina São Máximo, “é capaz de contemplar infalivelmente os seres criados”.

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O Pe. Seraphim [Rose] dizia que Adão, a primeiro criatura humana, encontrava-se em “estado de sobriedade: nepsis, em grego”. “Ele mirava as coisas e as enxergava como são. Não haviam ‘pensamentos duplos’” como os que temos “em nosso estado caído”, não havia isso de “olhar para uma coisa e imaginar outra”.

Por meio da graça do Cristo em Sua Igreja, os santos ortodoxos também eram capazes de retornar a esse estado pré-queda de sobriedade e vigilância. Eles possuíam consciência pura e aberta, mediante a qual apreendiam a natureza original do homem e as distintas naturezas das coisas criadas, e, para além delas, as “ideias” ou “pensamentos-vontades” (logoi) das coisas criadas que preexistem na Mente de Deus. Na teologia ortodoxa, os logoi são os princípios incriados das coisas criadas. Eles estão contidos no Logos (Verbo) e são separados das coisas criadas, assim como as ideias e vontades de um artesão estão separadas da obra nas quais se manifestam. Típicos das Energias de Deus, e não de Sua Essência, os logoi determinam as diferenças entre as coisas criadas, incluindo aí os diferentes modos segundo os quais as coisas participam nas Energias incriadas. Tudo na ordem da criação recebe sua existência segundo os logoi, e tudo tende a seu fim segundo esses mesmos logoi. Elevando-se à visão de Deus em Suas Energias, os santos também adquiriam o conhecimento dos logoi incriados. (Cf. Melchisedec Törönen, Union and Distinction in the Thought of St. Maximus the Confessor; Vladimir Lossky, The Mystical Theology of the Eastern Church, p. 94-100; Fr. Dumitru Staniloae, Orthodox Spirituality, p. 203-223. No Cristo, os santos experienciaram não apenas a proximidade com Deus a qual Adão desfrutou no princípio, mas a união espiritual com Deus (theosis) a qual Adão terial angariado se não tivesse caído em desobediência.

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São Nicodemos da Santa Montanha ensinou o seguinte acerca dos logoi: “Adão foi criado por Deus sem a faculdade da imaginação. Sua mente era pura e singular, não adquirindo nenhuma impressão ou forma sob influência dos sentidos ou de imagens das coisas sensíveis. Ao dispensar o uso da faculdade inferior da imaginação, Adão não visualizava os contornos, cores, silhuetas ou dimensões das coisas, mas com a faculdade superior de sua alma, isto é, com o intelecto, ele contemplava imaterialmente, puramente e espiritualmente somente os princípios interiores [logoi] dos seres”.


Ilustração: Adão e Eva no Paraíso, Peter Paul RUBENS, c. 1628.

10 de outubro de 2012

A vida do ego



Pe. Damascene Christensen

Antes de versarmos sobre a vida espiritual do homem, é necessário que compreendamos o que é, afinal, o espírito humano. Não é necessária nenhuma revelação divina para entendermos isso. É perfeitamente possível, pelo menos em parte, que saibamos o que é o espírito humano mediante a simples observação atenta e silenciosa de nosso próprio ser interior. Portanto, ninguém deve se surpreender ao perceber que a antiga doutrina cristã sobre o espírito humano encontra paralelos idênticos com a doutrina dos seguidores chineses de Lao Tsé.

O espírito humano não é um pedaço do Espírito do Criador, mas uma imagem dEle: é a parte mais pessoal do homem, o princípio de sua consciência e liberdade. Poderíamos dizer que o espírito é o trono ou centro da pessoa humana, o qual contém em si a totalidade da natureza humana.

O espírito é aquilo que constitui a “imagem de Deus” em nós. Se Deus é Luz, então o espírito humano também é luz. Por ter sido soprado pelo próprio Deus em nós, o espírito busca a Deus, conhece a Deus, e somente nEle encontra seu devido repouso. [1]

Dado que a criação veio a existir através do Verbo – o Tao/Logos –, ela agora é guiada e sustentada por Ele, ou seja, é como que informada pelo Verbo. O espírito é precisamente a faculdade capaz de “ouvir” a voz silenciosa do Verbo falando em nós.

Tanto o Cristo quanto Lao Tsé chamavam o espírito humano de “luz”. [2] Com o tempo, os seguidores da doutrina de Lao Tsé passaram a chamá-lo de “espírito original” (yüan-shen) e os antigos ascetas cristãos passaram a chamá-lo de nous, uma palavra grega que poderia ser traduzida como “espírito” ou “mente superior”. [*]

Na vida do homem caído e irregenerado, o espírito encontra-se como que escondido atrás da consciência inferior dos pensamentos, fantasias e emoções. Na terminologia cristã tradicional essa consciência inferior é conhecida como o aspecto inferior da “alma”. Os seguidores chineses de Lao Tsé a chamam de “espírito consciente” ou “espírito do conhecimento” (shih-shen). [3]

Potencialmente falando, o espírito (nous ou yüan-shen) é uma consciência pura, informe, desprovida de imagens, incondicionada e incomposta, cujo objetivo e desígnio é aproximar-se o mais que possível de Deus, unindo-se a seu Criador. Desde que purificado, o espírito é capaz de conhecer a Deus e as essências interiores das coisas criadas mediante a percepção intuitiva direta. Entre as criaturas visíveis, somente o homem possui um espírito.

A alma inferior (shih-shen), por outro lado, é moldada e condicionada por aspectos culturais e pessoais. Ela reage ao ambiente em que está inserida, a exemplo dos animais, ocupando-se das necessidades temporais e terrenas do homem. Desde o tempo em que o homem afastou-se do Caminho, a alma inferior tornou-se uma massa de emoções, memórias e pensamentos compostos, buscando conhecer as coisas mediante a imaginação e a dedução abstrata. Na sua porção mais inferior, a alma inferior assemelha-se à alma de um animal, já que os animais também possuem emoções, memória e imaginação. [4]

Em última instância, a distinção entre espírito e alma inferior é mera analogia. Em outras palavras, isso significa que não existem dois seres em nós, ou seja, o espírito e a alma inferior são como que dois aspectos diferentes de nosso ser interior. O espírito é o lado oculto de nosso ser interior, a parte mais pura da alma. [5] Os antigos mestres cristãos chamavam o espírito de “olho da alma”, pois ele é o “órgão” que percebe a Divindade.

O grande autor místico Máximo, o Confessor, (+ 662 d.C.) ensinou o seguinte a respeito da alma: “A alma possui três faculdades: primeiro, a faculdade da nutrição e crescimento; segundo, a da imaginação e instinto; terceiro, da inteligência superior (logikos) e do espírito (nous). As plantas apresentam apenas a primeira dessas faculdades; os animais a primeira e a segunda; os homens possuem as três. As primeiras duas faculdades são perecíveis; a terceira é evidentemente imperecível e imortal”. [6]

Portanto, o homem é composto de corpo e alma, sendo o espírito a parte mais superior da alma, o que nos permite chamá-lo de “alma superior”. Lao Tsé fez precisamente isso no capítulo 10 do Tao Te Ching, referindo-se à “alma superior” e à “alma inferior” ou “animal”. [**]

Na vida interior do homem, o espírito foi designado para ser o mestre, enquanto a alma inferior deveria ser a serva e o corpo o servo de ambos. “O verdadeiro governante”, ensinou São Máximo, “é aquele que governa a si próprio, sujeitando a alma e o corpo ao espírito”. [7]

São Teófano, o Recluso, (+ 1894), que foi um dos maiores professores modernos da antiga sabedoria, ensinou também: “Segundo seu desígnio natural, o homem deve viver no espírito, subordinar tudo ao espírito, viver penetrado pelo espírito em tudo aquilo que é da alma e mais ainda em tudo aquilo que é físico – além disso, também nas coisas exteriores, ou seja, na vida familiar e social. Esta é a norma!” [8]

Quando esta hierarquia for devidamente respeitada, não mais depositaremos nossa confiança em pensamentos, fantasias e raciocínios. Mesmo em nossos afazeres cotidianos, condicionados que são pela cultura e pelo entorno, a alma continuamente retornará ao conhecimento intuitivo direto do espírito. Conforme ensina Lao Tsé: “Use sua luz para retornar à luz da intuição”. [9] A alma conhece a Verdade através da sua conexão inquebrantável com o espírito e a respectiva subordinação a ele, enquanto o espírito conhece a Verdade através de sua conexão e subordinação a seu Criador, o Tao/Logos.

São Teófano ensina ainda: “Quando o espírito reina supremo no homem, embora seja seu caráter e postura exclusivos, ele não erra. Isso acontece porque, em primeiro lugar, a espiritualidade é a norma na vida humana, e por isso, sendo espiritual, o homem é uma pessoa real, enquanto o homem intelectual ou carnal não é uma pessoa real. Em segundo lugar, a despeito do grau de sua espiritualidade, o homem obrigatoriamente tem de colocar o intelectual e o carnal no seu devido lugar; ele guarda apenas um pouco deles, ambos subordinados ao espírito. Que a intelectualidade, portanto, não lhe seja tão ampla (em conhecimento cientifico, artístico e demais assuntos) e que a carnalidade lhe seja rigidamente restrita – então ele será uma pessoa real, íntegra. Mas o homem intelectual (o especialista, o connoisseur, o inteligente) – e pior ainda o homem carnal – não é uma pessoa real, a despeito de seu aspecto exterior e de sua reputação”. [10]

Quando a humanidade afastou-se do Caminho, essa hierarquia natural inverteu-se. O corpo e o aspecto inferior da alma passaram a ser os mestres, assumindo, por assim dizer, o controle do ser humano, o qual agora se encontra tomado por pensamentos, imaginações, emoções e ocupações corporais.

A alma do homem caído encontra-se agora sob a ilusão de sua auto-suficiência. Isso significa que ela não se contenta apenas com as necessidades temporais do homem (comida, roupa, abrigo), mas busca também meios para sua própria ascendência e para o prazer sensual. Essa alma tornou-se (ou melhor, apegou-se a) aquilo que hoje chamamos de “ego”. Se o espírito é nosso verdadeiro eu – o trono verdadeiro de nossa pessoalidade – o ego é nosso falso eu, uma entidade ilusoriamente auto-suficiente. Já que ele acha que consegue alcançar seus objetivos e superar os obstáculos mediante seus próprios poderes, podemos chamar o ego de nosso falso “solucionador-de-problemas”.

Apossando-se do homem por meio da ilusão de sua autonomia, o ego faz o que pode para ocultar a existência do espírito. Dessa forma, o espírito não consegue cumprir o desígnio de elevar-se a Deus, obscurecendo sua luz. Não que sua luz tenha se apagado; ela ainda é luz, mas por estar apartada do Criador, essa luz encontra-se como que em trevas. É por isso que o Cristo disse: Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas. [11]

Por ter sido escravizado pelo ego no mundo dos sentidos, o espírito caiu doente. A única cura para essa doença é devolver ao espírito o domínio que lhe é devido, resgatando a alma da forma de ego em que se encontra. Quando então a alma inferior for refinada, segundo São Teófano, “a alma crescerá dentro do espírito e nele se permeará”. [12] [***] Lao Tsé descreve esse fenômeno da seguinte forma:

Quando a alma superior e a alma inferior forem unidas em
um mesmo enlace, é possível evitar que se separem. [13]

Quando a alma assume sua posição de serva, alinhando-se com o espírito, então o espírito volta a si e cumpre naturalmente seu verdadeiro propósito, ascendendo ao Criador. São Basílio, o Grande, (+379) descreve esse processo espiritual da seguinte forma: “Quando o espírito [nous] não estiver dedicado a afazeres exteriores nem disperso mundo afora pelos sentidos, ele volta-se para si mesmo e ascende espontaneamente em contemplações a Deus”. [14]

Lao Tsé, ao concentrar seu espírito e não permitir que se dispersasse no mundo sensorial, foi capaz de participar dessa experiência. Diz ele:

As cinco cores cegam os olhos dos homens;
Os cinco tons ensurdecem os ouvidos dos homens;
Os cinco sabores embotam o paladar dos homens;
O galope e a caça desconcertam a mente dos homens.
Artigos raros desviam do curso.
Por causa disso o sábio não considera o olho, mas as coisas interiores. [15]

Por este relato, o espírito de Lao Tsé foi capaz de ascender em contemplação às qualidades do Tao, alinhando-se com o Caminho do Céu.

Agora que o Tao se fez carne, abriu-se a possibilidade de uma conexão muito mais intensa entre o espírito humano – o trono de sua verdadeira pessoalidade – e a Pessoa do Tao. Trata-se de uma conexão que se desenvolve para uma união, ou seja, para uma verdadeira deificação do espírito humano através de uma ação específica do Te Incriado. [O autor entende que o “Te” de Lao Tsé é o mesmo que a “Graça” da espiritualidade cristã – N. do T.] Antes de descrevermos essa condição exaltada do espírito humano, é necessário que versemos em maiores detalhes sobre nossa condição atual e irregenerada, de modo que saibamos o que afinal temos de transcender e superar.

No momento em que desobedeceu ao Caminho pela primeira vez, surgiu no homem um senso de que ele se tornou errado. Esse senso do errado (“o conhecimento do bem e do mal”) marcou o nascimento do ego e, por conseguinte, da autoconsciência. O homem perdeu assim a roupa da Luz Incriada com a qual havia se vestido, tornando-se cônscio de que estava nu (Gênesis 3:10).

Uma vez que o ego humano nasceu a partir da tentativa de tornar-se deus para si próprio (Gênesis 3:5), é da própria natureza do ego tentar tornar-se autônomo. É por isso que o ego reluta em admitir que esteja errado; admitir isso seria admitir que ele não é um deus e que há um padrão acima de si próprio. O medo dessa admissão foi constatado pela primeira vez na tentativa do ego de esconder-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim (Gênesis 3:8).

Mas não é apenas a si próprio que o ego tenta ocultar de Deus; conforme vimos, ele também tenta ocultar o espírito, pois o espírito também transmite ao ego o senso de errado. Dado que é o espírito, e não o ego, que deveria ser o mestre da pessoa, sua própria presença denuncia o ego como falso usurpador, destruindo o próprio fundamento na qual o ego apóia sua existência.

Como é possível que o ego afogue-se em sua própria gratificação ao mesmo tempo em que oculta a realidade onipresente de Deus e do espírito? Ora, de que outra maneira senão pela constante distração em prazeres sensuais, pensamentos, memórias e fantasias? Por conseguinte, a queda do homem na desobediência foi sob certo ponto de vista uma queda na distração, e foi assim que sua consciência chegou a tornar-se composta e fragmentada da maneira como é hoje.

Ao distrair-se para não encarar o senso de errado, o homem busca precisamente aquilo que originalmente o deixou nesse estado: o amor próprio e o prazer sensual. Gratificando-se, o homem volta a se sentir “certo” – apenas temporariamente, claro. Na verdade, ele apenas intensificou seu atual estado, de maneira que precisará de distrações cada vez maiores em doses cada vez maiores para sentir-se “certo” de novo. Passo a passo, o homem avança no caminho de sua autodestruição, tentando superar a queda apelando à própria causa dela.

O ego busca qualquer garantia de que está tudo bem, de que não cometeu erro algum, de que ele é Deus realmente. Nosso eu consciente pode até não admitir que isso esteja acontecendo, mas o objetivo da vida do ego não passa disso: encontrar qualquer coisa que o faça esquecer do verdadeiro eu e esquecer de sua condição hedionda, fazendo-o sentir-se, nem que seja por um instante, como Deus, sentir que ele está no controle, por cima de tudo e de todos, auto-suficiente. Este é o princípio que está por trás do constante desejo de escapar aos prazeres sensuais – comida, sexo, drogas, álcool, cigarro, entretenimento etc – e do desejo de inflar-se mediante o ódio, o julgamento e a condenação alheia.

Para cumprir seu objetivo, o ego (ou o “solucionador-de-problemas”) atua por meio de dois poderes: (1) o poder calculador do cérebro humano, equipado com as faculdades da análise, da criatividade, do planejamento e da fantasia, e (2) o poder do ressentimento. Com a calculadora, o ego tenta conseguir algo, dando a si mesmo a impressão de que está por cima de tudo. Com o ressentimento, o ego tenta automaticamente – por hábito, sem pensar – estar por cima de algo ressentindo ou julgando (condenando) esse algo. Quando o processo do ressentimento é disparado, nenhuma emoção ou mesmo pensamento entra em jogo. O ressentimento é uma espécie de mecanismo do qual o ego lança mão para imediatamente exaltar-se acima de algo ou alguém, sobretudo alguém que o faz se lembrar de que não é um deus, para só depois os pensamentos e as emoções se juntarem a esse ressentimento.

Quando somos verdadeiramente humildes e submissos a Deus, é possível discernir o certo do errado sem julgar ou condenar. Mas quando brincamos de ser Deus, não conseguimos exercer essa distinção; só conseguimos julgar. Mesmo que o julgamento esteja tecnicamente correto, ainda assim ele é essencialmente errado, pois foi elaborado para que nos sintamos mais certos do que a pessoa que julgamos. Trata-se de julgamento ao nível do ego, apartando-nos de Deus, e não de discernimento ao nível do espírito, que vem de Deus. Não julgueis segundo a aparência, ensinou o Cristo, mas julgai segundo a reta justiça. [16] Infelizmente, o sujeito orgulhoso será incapaz de diferenciar entre os dois, mas julgará segundo as aparências pensando estar discernindo. O único fator que os distingue é a humildade.

Quando uma injustiça recai sobre a pessoa humilde, ela não reagirá internamente; ela discernirá a injustiça sem ressentir-se dela. Quando a mesma injustiça recair sobre a pessoa que tem um ego, ela imediatamente reagirá com ressentimento. Em ambos os casos, isso acontece sem nenhum pensamento. Quando o ressentimento transforma-se em pensamento, temos o que chamamos de julgamento.

Se a vontade da pessoa estiver subconscientemente inclinada a desejar estar por cima de tudo e se fazer de Deus, sua consciência atrairá para si todo tipo de pensamento através dos quais ela poderá cultivar, saborear e talvez até cumprir seu desejo: pensamentos de aceitação e admiração, pensamentos julgamentais, pensamentos sensuais e materiais etc. Se a pessoa continuar brincando com esses pensamentos, as emoções surgirão e se agregarão a eles. “Emoção” significa literalmente e-moção, ou seja, “mover-se de, afastar-se”; é por meio das emoções que a pessoa se afasta de seu verdadeiro eu, de seu espírito.

Ocorre que, apegando-se a esses pensamentos, as emoções despertam ainda mais pensamentos. A pessoa acaba afogando-se em um caldeirão de pensamentos e sentimentos, vivendo assim em uma espécie de realidade virtual, sem saber que pode sair dela se quiser. As deliberações dessa pessoa tornam-se compulsivas, deixando-se inflamar pelo trinômio pensamento-desejo-emoção, o qual chamamos de “paixão”. Eis a vida do ego. O espírito humano passa a ser guiado exclusivamente pelas paixões, afastando-se cada vez mais de seu Criador.

[*] A palavra nous [alguns dicionários em português trazem a palavra assim mesmo, “noûs” – N. do T.] normalmente é traduzida como “intelecto”, a exemplo do que foi feita na edição em língua inglesa da Filocalia. Essa tradução, no entanto, pode ser muito enganosa, pois modernamente usamos “intelecto” com a conotação de razão abstrata ou dedutiva, da qual o noûs deve ser cuidadosamente distinguido. Optamos por traduzir noûs como “espírito”, pois entendemos que essa palavra porta melhor o sentido original da palavra.

[**] P´o (“alma inferior”, “alma animal”, “alma do corpo”) e ying, o qual, segundo Gi-ming Shien, é o mesmo que hun (“alma superior”, “alma do sopro”, “alma do espírito”). Na antiga concepção chinesa, o hun passa para o outro mundo quando o corpo morre. De maneira similar, a antiga tradição cristã ensina que somente o noûs passa para a vida futura no momento da morte, enquanto os poderes inferiores da alma deixam de existir. (Cf. Fr. Dumitru Staniloae, Orthodox Spirituality, p. 86-87, 96-97).

[***] Sobre a união da alma com o espírito, cf. Santo Isaías, o Solitário, On Guarding the Intellect, The Philokalia, vol. 1, p. 26.

[1] Lossky, Mystical Theology, p. 201; St. Theophan the Recluse, The Spiritual Life, p. 61-62.

[2] Lucas 11:35; Tao Te Ching, cap. 52.

[3] Lü Tung-pin [Lü Yen], The Secret of the Golden Flower, Thomas Cleary, trans., p. 13-15, 138-139.

[4] St. Theophan, The Spiritual Lifei, p. 61.

[5] Pomazansky, Orthodox Dogmatic Theology, p. 135. St. John Damascene, "Orthodox Faith", p. 236.

[6] The Philokalia, vol. 2, p. 88.

[7] Ibid., p. 308.

[8] St. Theophan, The Spiritual Life, p. 75.

[9] Tao Te Ching, cap. 52 (Rose and Mair, trans.).

[10] St. Theophan, The Spiritual Life, p. 74-75.

[11] Lucas 11:35.

[12] St. Theophan, The Path to Salvation, p. 260.

[13] Tao Te Ching, cap. 10 (Rose trans.).

[14] St. Basil, letter 2, p. 7.

[15] Tao Te Ching, cap. 12 (Gi-ming Shien, trans.).

[16] João 7:24.

Fonte: Christ the Eternal Tao, p. 276-285.

22 de maio de 2009

O noûs segundo o Apóstolo Paulo


Há alguns meses, encontrei uma aparente discordância entre a explicação do Pe. John Romanides e a do Pe. Damascene Christiansen sobre o sentido que o Apóstolo Paulo atribuiu à palavra noûs.

Segundo o Pe. John Romanides:
É importante notar que há uma diferença terminológica entre o Apóstolo Paulo e os Padres [da Igreja]. O que São Paulo chama de noûs é o que os Padres chamam de dianoia. Quando o Apóstolo Paulo afirma Orarei com o espírito (I Coríntios 14:15), ele quer dizer o mesmo que os Padres quando dizem Orarei com o noûs. E quando ele afirma Orarei com o noûs, ele quer dizer Orarei com o intelecto (dianoia).
No entanto, segundo o Pe. Damascene Christiansen:
Do ponto de vista teológico, é importante ressaltar que a “renovação da mente” [Romanos 12:2] da qual fala São Paulo é, na verdade, a “renovação do noûs”. No original grego, a palavra mente é noûs. Na teologia ortodoxa, noûs é a faculdade ou poder mais elevado da alma humana. É a faculdade que conhece a Deus diretamente; é o centro de nossa personalidade, a qual tem experiência com a Pessoa de Deus em comunhão de amor. São Gregório Palamás e outros Santos Padres afirmam que é o noûs que melhor define qual a “imagem de Deus” em nós.
Portanto, segundo o Pe. John Romanides, para o Apóstolo Paulo, o noûs seria o intelecto, isto é, a faculdade racional do homem, enquanto que, segundo o Pe. Damascene Christiansen, o noûs seria para o Apóstolo Paulo o coração ou mente, isto é, a faculdade mais elevada da alma humana, que conhece a Deus diretamente.

Intrigado com essa aparente incoerência, pedi ao Pe. Damascene que me explicasse essa confusão, e ele teve a gentileza de me ensinar que, na verdade, não há confusão alguma. Compartilho com os leitores deste blog a explicação do sábio hieromonge.
Creio que o argumento do Pe. John Romanides é válido, especialmente no que se refere ao versículo que ele citou (I Coríntios 14:15). Por outro lado, não creio que São Paulo esteja se referindo somente ao intelecto (dianoia) em Romanos 12:2. Isso fica mais claro quando comparamos este versículo com Efésios, capítulo 4: "Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; e vos renoveis no espírito da vossa mente (to pneumati tou noos umon)" (Efésios 4:22-23). No primeiro versículo, São Paulo fala da renovação da mente, e neste versículo ele fala da renovação do espírito da mente. Creio que podemos dizer com segurança que ele está falando, nos dois casos, do mesmo tipo de renovação. Ao dizer "espírito da vossa mente", no último versículo, São Paulo está expressando seu pensamento de maneira mais ampla, de acordo com a terminologia que comumente emprega em suas epístolas.

20 de agosto de 2007

O caminho da transformação espiritual

Pe. Damasceno Christiansen

Palestra proferida em 9 de junho de 2005 na Parish Life Conference da Diocese Ortodoxa Antioquina de Wichita e da Centro-América, Sioux City, Iowa.

1. Transformação, Salvação, Deificação

O tema desta Conferência – “Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente” – é um pouco amedrontador por ser um tema muito vasto e abrangente. Esse tema toca exatamente no propósito central de nossas vidas enquanto cristãos ortodoxos. Nosso Senhor Jesus Cristo disse: Eu vos escolhi do mundo (João 15:19). Fomos escolhidos deste mundo para que nos tornemos cidadãos de um outro mundo: o Reino de Deus. Esse Reino começa agora, nesta vida, e continua depois de deixarmos este mundo, consumando-se na Segunda Vinda de nosso Salvador. Para que habitemos naquele Reino, para sermos seus cidadãos, temos de ser transformados.

Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente (Rom. 12:2). Estas palavras da Epístola do Santo Apóstolo Paulo aos Romanos ajuda a introduzir-nos em um ensinamento divinamente inspirado: a transformação espiritual. Nesta palestra, versarei primeiramente sobre o significado teológico de transformação na Igreja Ortodoxa. Depois, apresentarei comentários dos Santos Padres a respeito do ensinamento de São Paulo sobre transformação. A seguir, fornecerei algumas sugestões práticas sobre o caminho para a transformação, com ênfase na vigilância e na oração. E, para encerrar, falarei sobre o amor autêntico, que é a marca genuína da transformação espiritual.

Conforme eu disse, esse tema da transformação está relacionado com o propósito de nossas vidas. Esse propósito é a eterna união com Deus – deificação, theosis. Mas deificação não é uma condição estática: é um crescimento sem-fim, um processo, uma ascese a Deus. Não atingimos um fim nesta vida, nem mesmo na vida futura. São Simeão, o Novo Teólogo, que atingiu o que poderíamos chamar de o maior grau possível de união com Deus, disse: "No século dos séculos, o progresso será interminável, pois o encerramento deste crescimento em direção ao fim sem fim não seria nada mais do que uma compreensão do incompreensível”. [1]

Nossa união com Deus é uma transformação contínua na semelhança de Deus, que é a semelhança de Cristo.

Eu, assim como muitos de vocês, entrei para a Igreja Ortodoxa vindo de uma formação protestante. De vez em quando algum protestante me pergunta: “Você será salvo?” É uma pergunta difícil de responder para que um protestante entenda porque a concepção protestante de salvação é muito diferente da ortodoxa. Recentemente li The Life, de Clark Carlton. Ele também é ex-protestante e compreende bem a mentalidade protestante. Carlton fez um comentário bastante criterioso a respeito da salvação no Protestantismo, afirmando que a salvação significa simplesmente mudar a postura de Deus para conosco, para que então possamos entrar no Paraíso. De acordo com esse entendimento, levam-se somente alguns minutos para ser “salvo”. [2]

Na Ortodoxia, por outro lado, a salvação é vista em termos máximos, e não mínimos. Em seu livro Orthodox Spiritual Life According to St. Silouan the Athonite, eis o que Harry Boosalis do St. Tikhon’s Seminary disse: “Para a Igreja Ortodoxa, a salvação é mais do que um perdão de pecados e transgressões. É mais do que ser justificado ou absolvido por ofensas cometidas contra Deus. De acordo com o ensinamento ortodoxo, a salvação certamente envolve perdão e justificação, mas não é limitada a isso. Para os Santos Padres da Igreja, a salvação é a aquisição da Graça do Espírito Santo. Ser salvo é ser santificado e participar na vida de Deus – é se tornar participante da Natureza Divina (2 Pedro 1:4).” [3]

Na Ortodoxia, salvação não significa apenas mudar a postura de Deus, mas mudarmos nós mesmos e sermos mudados por Deus. A salvação, em última instância, significa deificação; e deificação, conforme vimos, implica em transformação. É nos unirmos a Deus ainda mais plenamente por meio de Sua Graça, Sua Energia Incriada, na qual Ele está totalmente presente. À medida que aumentamos nossa participação na vida de Deus por meio de Sua Graça, tornamo-nos cada vez mais deificados, cada vez mais semelhantes a Cristo. Então, no momento em que partirmos desta vida, poderemos habitar para sempre com Cristo em Seu Reino porque nós “pareceremos com Ele” espiritualmente, porque brilharemos com a Graça de Deus.

Há muitos anos, em 1982, fiz uma viagem à Terra Santa. Eu ainda era catecúmeno e estava planejando ser batizado na Califórnia mais ou menos um mês depois, quando eu voltasse da viagem. Lembro-me de um dia quando eu estava em Jerusalém, na Igreja do Santo Sepulcro, de pé no Gólgota, no local onde Cristo foi crucificado. Eu estava fazendo o sinal da cruz. Uma senhora que estava ao meu lado perguntou de onde eu era. Acho que ela era grega. Quando lhe disse que eu era americano, ela respondeu, “Você é da América e é ortodoxo?” Eu disse que não era, mas em breve seria, se Deus quisesse. Ela me olhou com enorme curiosidade e disse, “Quando você for ortodoxo, você pode se tornar santo”.

Para mim, tal afirmação referia-se justamente à vida que eu estava prestes a embarcar. Eu tinha ouvido essas palavras bem ali, no Calvário, onde Cristo morreu por minha salvação para que eu pudesse me tornar santo, para que eu pudesse ter a Graça de Deus em mim no Batismo, para que eu pudesse continuar a adquirir a Graça do Espírito Santo, para que eu pudesse ser deificado.

Com sua Encarnação, morte e Ressurreição, Cristo redimiu a natureza humana, abrindo caminho para a deificação e mesmo para a redenção do corpo, que ocorrerá na Ressurreição Geral. Esta é a dimensão objetiva de nossa salvação. Mas enquanto nossa natureza já está salva, temos de pessoalmente nos apropriar dessa salvação. Esta é a dimensão subjetiva de nossa salvação. Cristo já veio a nós; agora somos nós que temos de ir até Ele e nos unirmos a Ele.

Quando lemos ensinamentos ortodoxos sobre transformação, santificação e deificação – e ainda mais quando lemos relatos de pessoas que atingiram um alto grau de santidade – tudo isso pode parecer distante de nós. De certa maneira, isso tem de parecer distante; isto é, deveríamos sentir que temos um longo caminho pela frente, porque temos mesmo. Porém, não devemos sentir que santidade e deificação estão, em última instância, fora de nosso alcance. Cada um de nós é chamado para isso. Quando me lembro do que aquela senhora me disse no Gólgota, há vinte e três anos, penso no que eu não fiz para me tornar santo, para ser transformado à semelhança de Cristo, para ser “salvo” no sentido ortodoxo máximo da palavra. Tenho certeza de que cada um de nós também consegue pensar no que não fizemos, no que poderíamos ter feito em todo o tempo que somos cristãos ortodoxos. Mas não devemos nos desesperar. Em vez disso, tal situação deveria nos levar ao arrependimento, ao desejo de dedicar nossas vidas a Cristo, ao pensamento do que podemos fazer para sermos salvos, para sermos deificados, a partir de agora.

2. Sacrifícios vivos

Com isso em mente, vamos analisar com mais detalhes a exortação de São Paulo: Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente. Esse versículo faz parte de um capítulo inteiro da Escritura que versa sobre transformação espiritual. Ao examinar esse capítulo, vou fiar-me, antes de mais nada, num comentário feito por São João Crisóstomo, a quem podemos considerar como o maior comentarista ortodoxo das Escrituras. Os comentários de São João sobre as Epístolas de São Paulo são especialmente interessantes porque São João foi instruído pelo próprio São Paulo a respeito de como interpretar suas próprias epístolas. De acordo com a Vida de São João, em três ocasiões Proclus viu o Apóstolo Paulo sobre os ombros de São João, falando ao pé do ouvido enquanto ele escrevia seus comentários sobre as Epístolas.

O ensinamento de São Paulo sobre transformação espiritual – Romanos, capítulo 12 – começa nos dizendo quais as pré-condições para tal transformação. São Paulo escreve aos cristãos de Roma: Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

Ao comentar esta passagem, São João Crisóstomo se pergunta: “Como pode o corpo tornar-se um sacrifício? Que o olho não olhe para nada maléfico, e ele se tornará um sacrifício. Que a língua não fale nada imundo, e ela se tornará um sacrifício. Que sua mão não faça nada corrupto, e ela se tornará uma oferta em sacrifício. Mas isso não basta. Precisamos ter boas obras também. Que a mão faça caridades, que a boca abençoe aqueles que a ela se opõem, que os ouvidos encontrem consolação nos ensinamentos divinos. Pois o sacrifício não tolera coisas impuras: o sacrifício deve ser o primeiro fruto das outras ações. Entreguemos, pois, nossas mãos, nossos pés, nossas bocas e todos os nossos membros como primeiro fruto a Deus”. [4]

São João Crisóstomo afirma que, na Velha Aliança, os animais oferecidos em sacrifício morriam após o sacrifício. “Com nosso sacrifício”, diz ele, “é diferente. Esse sacrifício faz com que a coisa sacrificada viva. Quando formos capazes de mortificar nossos membros, então poderemos viver”. [5] São João refere-se a Colossenses 3:5, onde São Paulo afirma: Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria.

Portanto, de acordo com o ensinamento de São Paulo, devemos nos apresentar como sacrifícios vivos a Deus. Agindo assim, nosso “velho homem”, nosso “homem pecador” morre, e nosso “novo homem” vive (cf. Rom. 6:6; Ef. 4:22; Col. 3:9). Mortifiquemos nossas paixões pecaminosas para que Cristo viva em nós. Morramos para nós para que possamos renascer em Cristo.

Nossa morte e renascimento são marcados primeiramente pelo Batismo, quando, de acordo com São Paulo, morremos com Cristo e ressuscitamos com Ele (cf. Rom. 6:3-4). No Batismo, recebemos a Graça do Espírito Santo em nós, unida à nossa alma, como Adão e Eva a tinham em si antes da Queda. Tal é o início de nossa salvação e deificação em Cristo; mas isso é somente o começo. Temos de continuamente mortificar o restante de nosso “velho homem”, de maneira que continuemente a nos transformar à semelhança de Cristo. Eis porque São Paulo diz: Eu morro a cada dia (I Cor. 15:31).

Cristo ofereceu-Se na Cruz em sacrifício por nós. Para que conheçamos verdadeiramente a Cristo, temos de adentrar em Seu auto-esvaziamento e oferecer um sacrifício em troca. Um sacrifício interno, que é ato e sinal de nosso amor a Deus e ao próximo. O sacrifício de nossos corações e mentes a Deus. O sacrifício de nossos egos, de nosso orgulho, de nossos laços mundanos e de nossas paixões. O sacrifício de nosso tempo e energia ao próximo, a quem nos dedicamos em nome de Cristo.

Conforme permitamos que Cristo mortifique nosso ego, nosso ser carnal é consumido no altar do amor, e o sacrifício ascende como incenso a Deus. E à medida que isso acontece, somos verdadeiramente re-criados por Cristo em novos seres: seres espirituais, com uma maneira totalmente nova de enxergar a realidade, diferente dos amantes deste mundo.

O sacrifício é doloroso. Nosso “velho homem”, nosso “homem pecador” não quer morrer no altar do sacrifício. A inércia de nossa natureza caída é muito forte. Os Santos Padres ensinam que a Queda do homem ocorreu por dois motivos. O primeiro é a auto-estima ou amor próprio (no dia em que dele comerdes [do fruto da árvore] sereis como deuses – Gen. 3:5), e o segundo é o amor aos prazeres sensuais (a árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos – Gen. 3:6). Todos os pecados do mundo, dizem os Padres, originam-se destas duas causas. Não herdamos a culpa do pecado de Adão, mas herdamos a tendência ou inclinação para o pecado. Tal inclinação pertence a nosso “velho homem”, o homem egoísta, o homem carnal, a quem nos entregamos ao longo dos anos. Quando tentarmos mortificá-lo, ele lutará pelo seu direito de existir. É por isso que o sacrifício é tão doloroso.

A dor deste sacrifício é poderosamente expressa na autobiografia de Madre Thaisia, uma das grandes madres russas do século XIX. Certa vez ela teve um sonho no qual um dos grandes abades da Rússia, Damasceno, apareceu para ela. Abade Damasceno havia morrido há um ano e Madre Thaisia estava passando por grandes tribulações em sua vida. No sonho, o Abade Damasceno perguntou-lhe: “Você sabe o que significa o fato do véu do Templo de Jerusalém ter sido rasgado em dois, quando nosso Salvador morreu na Cruz?” Madre Thaisia respondeu que isso significa a divisão entre o Velho e o Novo Testamento. “Muito bem”, disse o Abade, “isso está de acordo com os livros. Mas pense: esse fato não se refere também à nossa vida cristã?”

Madre Thaisia começou a contemplar, e então respondeu: “Acho que significa a maneira como a alma humana se despedaça na medida em que anseia por Deus e em agradar a Deus. Ela rasga-se em duas partes, tornando-se espiritual, mas ainda pertencente ao homem carnal que habita nela; ela é rasgada, cortada e desligada da vontade externa do homem, que é doce mas inclinada ao pecado. Seu pobre coração é rasgado, cortado em pedaços. Alguns desses pedaços, impróprios mas ainda ligados a ela, são jogados ao mundo, mas os outros são transmitidos, como incenso puro, a seu Cristo. Ó, como às vezes é difícil para o coração; como ele é atormentado e sofre, literalmente, por ser cortado ao meio!”

Em seu sonho, Madre Thaisia disse essas palavras com tamanho fervor que se cobriu de lágrimas. Abade Damasceno disse a ela: “Sim, o Senhor não nos privou de Sua Graça. Será então que devemos crescer acovardados e desanimados pelos sofrimentos? Coragem!, e que seu coração se fortaleça no Senhor em esperança”. Com essas palavras, o Abade levantou-se e abençoou Madre Thaisia. Ela acordou em lágrimas, não lágrimas de sofrimento, mas de inexprimível alegria. [6]

As palavras de Madre Thaisia nos fornecem uma imagem exata do sacrifício que é exigido daqueles que conhecem a Cristo e se unem a Deus. É um sacrifício dos mais dolorosos ao ego – pois o ego morre lentamente nesse sacrifício. Mas é um sacrifício que traz grande alegria, coragem e liberdade de espírito, que se une em amor com seu Criador. Temos de “dar o sangue”, conforme afirmou o Santo Padre do Deserto Longinus do Egito, para “recebermos Espírito”.

Continuando a falar sobre o sacrifício que devemos oferecer a Deus, São João Crisóstomo novamente o compara com o sacrifício dos hebreus no Velho Testamento. Assim como os hebreus examinavam cuidadosamente os animais que ofereciam em sacrifício para terem certeza de que não teriam nenhuma mancha ou deformidade e de que estavam íntegros e saudáveis, devemos examinar a nós mesmos para que estejamos puros em todos os aspectos. Então, afirma São João, “nós poderemos também dizer com Paulo, Eu já estou pronto para ser oferecido, e o tempo da minha partida está próximo (II Tim. 4:6).... Mas isso acontecerá somente se mortificarmos o velho homem, se mortificarmos nossos membros que estão sobre a terra, se crucificarmos o mundo que está em nós.... Se, quando Elias ofereceu o sacrifício visível uma chama veio do alto e consumiu toda a água, madeira e pedras, muito mais será feito por você. E se há algo em vocês que está folgado e mundano, mas mesmo assim oferecerem o sacrifício com boas intenções, o fogo do Espírito virá do alto e consumirá essa mundanidade, aperfeiçoando todo o sacrifício”. [7]

Aqui vemos a base, o fundamento, da transformação espiritual. Temos de oferecer toda nossa vida a Cristo em sacrifício, para que Ele consuma os dejetos e recrie-nos à Sua semelhança.

3. Conformidade não, transformação sim

Agora estamos aptos a analisar o tema em seu contexto completo. Primeiro vem o sacrifício, depois a transformação. Eis por que, em Romanos 12, o primeiro precede o segundo: Apresentei os vossos corpos em sacrifício vivo, santo, aceitável a Deus...e não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação de vossa mente.

Caso mortifiquemos nosso “velho homem” no altar do sacrifício, então não estaremos nos conformando com este mundo.

O que quer dizer “este mundo”? Há diversos significados de “mundo” nas Escrituras Sagradas. Pode significar o universo material ou o mundo habitado. Em sua conotação negativa, pode significar aqueles que se opõem a Deus, e, de acordo com alguns Santos Padres, “mundo” pode referir-se às paixões ou apegos às coisas sensuais. Santo Isaque, o Sírio, afirma: “’Mundo’ é um nome genérico para todas as paixões. As paixões são estas: amor às riquezas, desejo de posses, prazeres corporais (como a paixão sexual), amor à honra (que dá origem à inveja), cobiça por poder, arrogância e orgulho de status, desejo de adornar-se com roupas luxuosas e ornamentos vãos, comichão por glória humana (que é fonte de raiva e ressentimento), e temor físico. Quando tais paixões deixam de estar ativas, o mundo está morto... Alguém disse que os santos, enquanto estavam vivos, estavam mortos; pois embora vivos na carne, eles não viviam para a carne. Verifique para quais dessas paixões você vive. Então você descobrirá o quanto está vivo para o mundo e o quanto está morto”. [8]

Com este ensinamento patrístico em mente, a frase “Não sede conformados com este mundo” pode ser entendida como “Não sede conformados com as paixões”. Os Padres afirmam que todos nós temos nossas paixões favoritas: nossa primeira paixão favorita, nossa segunda paixão favorita etc. Portanto, examinemos a nós mesmos a fim de descobrirmos quais são nossas paixões favoritas, para que possamos confessá-las no Sacramento da Confissão e arrancá-las com a ajuda de Deus.

Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados… São João Crisóstomo, ao comentar este versículo, aponta as diferenças entre as raízes das palavras “conformar” e “transformar”. Na tradução inglesa [bem como na portuguesa – N. do T.] a raiz das palavras é a mesma, mas em grego são diferentes. A palavra grega para “conformar” vem da raiz schema, que significa pose externa, imagem exterior, investir-se de um hábito externo. Denota algo duradouro e fixo, mas algo insubstancial, que perece. Outra tradução para esta palavra é “aparência”, como numa passagem de São Paulo, quando ele usa a mesma palavra: A aparência deste mundo passa (I Cor. 7:31). Essa tradução tem a conotação que a palavra “moda” tem: algo que sempre muda, como a moda das roupas etc.

De acordo com São João Crisóstomo, quando São Paulo afirma “Não tenham a aparência deste mundo” ele escolhe a palavra “aparência” para indicar a superficialidade deste mundo de paixões. “Não tenham a aparência deste mundo de paixões”, poderíamos dizer. A palavra que São Paulo usa para “mundo” é aeon, que também pode ser traduzida como “era” ou “o mundo de acordo com o tempo” – novamente para indicar a superficialidade das delícias mundanas. São João Crisóstomo explica: “Se você falar de riquezas, ou de glória, ou de beleza pessoal, ou de luxos, ou do que quer que seja das supostamente grandes coisas do mundo, é uma moda apenas, não uma realidade, é um espetáculo e uma máscara, e não algo substancialmente permanente”. [9]

Pense nas imagens que a mídia nos apresenta como sendo dignas de admiração e emulação: o rico, o famoso, o belo. Não é precisamente a isso que São João se refere: “é uma moda apenas, não uma realidade, é um espetáculo e uma máscara”? Tudo isso perece.

Mas é diferente com a transformação espiritual. São Paulo afirma, “Sede transformados pela renovação de vossa mente”. A palavra grega original para “transformados” é metamorphosis. Ela denota algo duradouro e permanente: não como a mudança da imagem ou aparência de alguém, à exemplo da moda, mas a mudança da forma substancial e orgânica. São Paulo não está dizendo para mudarmos nossa moda ou aparência, mas para mudarmos quem nós somos. De acordo com São João Crisóstomo, São Paulo escolheu suas palavras para mostrar que “os caminhos do mundo são aparentes, mas os caminhos da virtude não são aparentes, mas um tipo de forma real com uma beleza natural toda sua, sem as fraudes e modas das coisas externas, que cedo ou tarde parecerão aquilo que são, isto é, nada. Se, então, descartarmos a moda, rapidamente chegaremos à forma”. [10]

Em outras palavras, não viva em função daquilo que perece, mas daquilo que dura para sempre. Nosso Senhor Jesus Cristo disse: Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou (João 6:27).

No mundo – o mundo das paixões – muita ênfase se dá à “imagem”: você tem de ter a “imagem” certa para ser bem sucedido neste mundo. Nosso objetivo enquanto cristãos é totalmente diferente. Temos de ser totalmente transformados para sermos bons cidadãos de outro mundo.

4. A renovação da mente

Sede transformados pela renovação de vossa mente. O que São Paulo quer dizer com renovação da mente? De acordo com São João Crisóstomo, ele quer dizer arrependimento. Somos chamados para a transformação mas, conforme nos avaliamos, constataremos que pecamos todos os dias. Isso pode nos levar ao desespero, a pensarmos “Não me transformei, e nunca conseguirei”. Eis por que São Paulo acrescentou as palavras “pela renovação de vossa mente”: para que não nos desesperemos. São João Crisóstomo escreveu: “Dado que seus ouvintes são homens, e sabendo que pecariam todos os dias, São Paulo consolou-os dizendo ‘renovem-se’ dia após dia. É o que fazemos com nossas casas: estamos sempre as consertando à medida que envelhecem. Vocês devem fazer o mesmo. Pecaram hoje? Fizeram sua alma ficar mais velha? Não desesperem, mas renovem suas almas por meio do arrependimento, das lágrimas, da Confissão, e das boas obras. E nunca parem de fazer isso”. [11]

Do ponto de vista teológico, é importante ressaltar que a “renovação da mente” da qual fala São Paulo é, na verdade, a “renovação do nous”. No original grego, a palavra mente é nous. Na teologia ortodoxa, nous é a faculdade ou poder mais elevado da alma humana. É a faculdade que conhece a Deus diretamente; é o centro de nossa personalidade, que tem experiência com a Pessoa de Deus em comunhão de amor. São Gregório Palamás e outros Santos Padres afirmam que é o nous que melhor define qual a “imagem de Deus” em nós. [12]

Na Queda do homem, o nous obscureceu-se e tornou-se doente. A Energia, Luz ou Graça Incriada de Deus tornou-se algo estranho a nós. Conforme mencionei anteriormente, por meio da obra redentora de Cristo – pelo Santo Batismo – o homem recebe a Graça de Deus novamente. Mas cada vez que um cristão batizado comete um pecado, ele mancha seu vestuário batismal, digamos assim. Ele atenua a Luz da Graça em si; ele novamente obscurece ou adoece seu nous. Ao invés de voltar-se e unir-se a Deus, seu nous volta-se para as paixões, para o amor próprio e para o amor aos prazeres sensuais. Ao voltar-se para as paixões, o nous repele a Graça de Deus, impedindo que o cristão continue no caminho da deificação em Cristo.

A doença do nous leva à morte spiritual. O obscurecimento do nous leva à doença espiritual, na qual não conseguimos enxergar as coisas com clareza e sobriedade. Não conseguimos enxergar as coisas como Deus as enxerga; ao invés disso, as enxergamos por meio do filtro de nossas paixões. Assim, passamos a tatear como cegos na vida, machucando a nós mesmos e ao próximo, consciente ou inconscientemente. Acabamos nos desgarrando de nosso propósito na vida, que é a união com Deus. Embora achemos que temos muitas coisas importantes a fazer, a verdade é que vagamos sem objetivo na vida; e todas as nossas atribulações servem apenas para nos distrair de nosso estado espiritual doente, do fato que não estamos cumprindo nosso verdadeiro propósito na vida. Nosso nous está doente porque nos separamos de Deus, porque corremos atrás de nossas paixões e não de Deus.

5. Vigilância e oração

A cura de nosso nous doente começa exatamente com o que temos discutido até agora: com o sacrifício de nosso “velho homem”, com a extirpação das paixões, com o arrependimento. Ao versarem sobre a cura do nous, os Santos Padres depositaram grande ênfase na prática da vigilância. A todo o momento devemos vigiar nossos pensamentos de maneira a rejeitar – extirpar – os pensamentos pecaminosos e cheios de paixão. Quando um pensamento pecaminoso surge e nós o extirpamos imediatamente, ele não chega a ser um pecado. Mas quando nós entretemos um pensamento pecaminoso, quando o cultivamos e o desenvolvemos porque nos deixamos atrair por ele, então ele se torna um pecado, separando-nos de Deus. Quando entretemos pensamentos cheios de paixão, nosso nous se obscurece, desprovendo-se da Luz da Graça Divina. Esses pensamentos levam a sentimentos cheios de paixão, e a paixão se torna um hábito. Eis por que devemos extirpar a doença onde ela surge, isto é, em nossos pensamentos.

Para extirparmos os pensamentos pecaminosos, primeiramente temos de reconhecer que tais pensamentos são nossos inimigos. Temos de perceber que eles podem nos separar de Deus. Por exemplo, quando temos um pensamento cheio de ódio e julgamento contra nosso próximo, temos de reconhecer que entreter esse pensamento nos colocará em inimizade com Deus. É então que devemos nos recusar a entretê-lo. Simplesmente o deixamos ir embora. E se ele voltar uma hora depois, ou mesmo (como frequentemente acontece) alguns minutos depois, novamente devemos extirpá-lo.

Na Igreja Ortodoxa temos um jeito especial de extirpar pensamentos: a Oração de Jesus. O efeito dessa Oração é duplo. Em primeiro lugar, a Oração nos ajuda a extirpar e afastar os pensamentos apaixonantes. Em segundo lugar, a Oração nos faz voltar continuamente a Cristo nosso Salvador em todos os momentos.

Quando praticamos a vigilância, com a ajuda da Oração de Jesus, nossa alma se abre para receber a Graça do Espírito Santo, que nos transforma e nos deifica. Não mais repelimos a Graça, mas a atraímos. Chamamos Cristo para que Ele tenha piedade de nossas almas obscurecidas, a habitar em nós de maneira mais plena, a preencher-nos com Sua vida interminável, com a Luz do Espírito Santo que Ele enviou do Pai (cf. João 15:26). É assim que nosso nous é iluminado pela Luz da Graça Incriada de Deus. “Somente o Espírito Santo pode purificar o nous”, escreveu São Diádoco de Photiki na Philokalia. “... De todas as maneiras, portanto, e em especial por meio da paz da alma, devemos nos tornar uma habitação para o Espírito Santo. Então sempre teremos a chama do conhecimento espiritual ardendo em nós”. [13]

Além de rezarmos a Oração de Jesus, devemos cultivar o hábito de clamar a Deus com nossas próprias palavras. Isso deve ser feito ao longo de todo o dia. Os Padres aconselham que evitemos os discursos longos e eloqüentes; devemos, isso sim, simplesmente rezar, de coração. Podemos clamá-Lo verbalmente ou mentalmente, dependendo da situação. Claro, devemos clamá-Lo quando a tentação nos assedia, mas de maneira alguma devemos esperar que tais momentos se apresentem. O Arquimandrita Sofrônio, discípulo de São Silouan do Monte Athos, tinha a prática de rezar a Deus toda vez que ele fosse ver ou conversar com alguém. Ele rezava para que Deus abençoasse o encontro que estava para acontecer, para que a Graça de Deus estivesse sobre esse encontro. Se simplesmente seguíssemos essa prática, pense como nossos encontros cotidianos seriam transformados, e como nossas vidas seriam diferentes.

Além de orarmos ao longo do dia conforme executamos nossas tarefas, é importante separarmos certos períodos do dia para a oração, isto é, a uma regra de orações. O conteúdo dessas orações varia de pessoa para pessoa. É bom obtermos a bênção de nosso padre ou pai espiritual a esse respeito. As orações podem consistir de orações do Livro de Orações Ortodoxo ou da Oração de Jesus, ou uma combinação delas, além das orações com nossas próprias palavras e a leitura dos versículos do Evangelho e da Epístola do dia. São Teófano, o Recluso, alerta que enquanto rezamos as orações do Livro de Orações ou a Oração de Jesus, haverá momentos em que desejaremos apenas ficar de pé, diante de Deus, com um profundo sentimento de nostalgia. Ele recomenda, nesses casos, que paremos de ler ou recitar as orações, e que voltemos a elas um pouco mais tarde. [14] “É melhor fazermos um pequeno número de orações adequadamente do que nos apressarmos em fazer um grande número de orações”, disse ele. “Após recitar cada oração, faça quantas prostrações quiser, acompanhadas por uma oração para qualquer necessidade que sinta,ou por uma oração curta comum... Você pode limitar toda a regra de orações a prostrações com orações curtas e orações com suas próprias palavras. Fique de pé e prostre-se, dizendo ‘Senhor, tem piedade’, ou alguma outra oração que expressa sua necessidade ou que louve e agradeça a Deus. Você deve ou estabelecer um número de orações ou uma duração para as orações, de maneira que você não fique com preguiça... Você deve rezar com suas palavras especialmente ao fim das orações, pedindo perdão pela distração desproposital da mente, e colocando-se nas mãos de Deus o dia inteiro”. [15]

Separar um tempo para as orações diárias é imprescindível para a vida espiritual. A família deve rezar unida diante de seus ícones. Mesmo que pouco tempo seja reservado para tal, a diferença na vida da família será enorme. Mas para que essa diferença realmente aconteça, as orações devem ser rezadas regularmente, nunca esporadicamente.

O segredo para a regra de orações é constância. Se pularmos nossa regra de orações, nossas leituras das Escrituras e nossas leituras espirituais do dia, o mundo começará a nos invadir: o mundo das paixões, o mundo das distrações. Se pularmos nossa regra de orações por dois dias, seremos invadidos ainda mais, e assim por diante. À medida que o tempo passa, teremos cada vez menos a mente de Cristo e cada vez mais a mente do mundo. Estaremos cada vez mais “conformados com este mundo”. [16]

Para que cresçamos na vida espiritual ortodoxa, temos de sacrificar raízes, como na parábola de Cristo do semeador. E para sacrificarmos raízes, devemos ter constância, consistência, em nossas orações e leituras diárias. Nesta prática também conseguimos “nos renovar dia a dia”, conforme ensinou São João Crisóstomo.

Evidentemente, as práticas diárias e contínuas da vigilância e da oração não substituem os Sacramentos da Igreja. Mas essas práticas podem nos preparar para receber os Sacramentos, e pode aprofundar nossa experiência nelas. São Simeão o Novo Teólogo diz que receber a Santa Comunhão é, em si, um tipo de deificação – pois estamos recebendo o Corpo e Sangue de nosso Salvador deificado. A prática de vigilância e oração, juntamente com o arrependimento, poderá nos ajudar a partilhar mais plenamente dessa deificação.

6. A marca principal da transformação espiritual

Bem, agora que já versamos sobre a transformação espiritual e o caminho para essa transformação, examinemos mais de perto das marcas da transformação em um cristão.

Já discutimos com alguns detalhes os dois primeiros versículos de Romanos 12. São Paulo devota o resto deste capítulo precisamente para as marcas da transformação. Continuando sua exortação, ele diz no quê nos transformaremos. Ele afirma que devemos exercitar misericórdia com alegria, para que o amor não seja fingido; amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros; não sejais vagarosos no cuidado, sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor; alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração; comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade. O Apóstolo continua: Abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram. Sede unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes. Não sejais sábios em vós mesmos. A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens. Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens... Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem (Rom. 12:8–18, 21).

Que belo e profundo projeto de vida cristã! É o projeto de uma vida não conformada com este mundo, mas transformada e renovada em Cristo. Cada ponto da exortação de São Paulo merece uma palestra, mas versarei aqui apenas de maneira geral. O que todos esses pontos têm em comum? Temos de amar uns aos outros, e mesmo nossos inimigos. São Paulo está apenas explicando o grande mandamento de Cristo.

A marca mais essencial da transformação espiritual é que temos amor. Nosso Senhor nos disse: Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (João 13:35).

Em novembro de 2002, um amigo nosso – Abade Jonas, do Mosteiro de São João, em Point Reyes, Califórnia – visitou o Mosteiro de Valaam, no norte da Rússia. Enquanto estava lá, o Pe. Jonas teve conversas maravilhosas com um eremita chamado Pe. Isaque, numa pequena ilha afastada da ilha principal de Valaam. O Pe. Jonas perguntou ao Pe. Isaque como podemos crescer em maturidade espiritual: em outras palavras, como somos transformados em Cristo. Ao responder esta questão, o Pe Isaque inspirou-se nos ensinamentos do Arquimandrita Sofrônio, que obviamente ele internalizara, vivendo eles na prática. Eu gostaria então de citar as palavras do Pe. Isaque que o Pe. Jonas registrou no jornal Divine Ascent [Ascese Divina], já que elas apontam ao cerne da questão da transformação espiritual. Para o Pe. Isaque, assim como para São Paulo, transformação significa amar de maneira autêntica.

“No começo de nossa jornada espiritual”, disse o Pe. Isaque, “quando somos espiritualmente imaturos, toda nossa postura religiosa é egocêntrica, emocional e racional. O nível mais profundo de consciência, a consciência noética [isto é, a consciência do nous], ainda não se abriu totalmente... Nós somos nossos egos, definidos por nossas paixões. Estamos muito longe de sermos pessoas autênticas pois estamos presos ao nosso individualismo isolado. [Mas] à medida que crescemos e ganhamos controle sobre nossas paixões, e nossas almas se purificam, a Graça ilumina nossas consciência noética. Nos tornamos mais conscientes da presença de Deus e mais conscientes dos outros. Afastamo-nos de nosso egocentrismo. O foco de nossa atenção está em Deus. À medida que isso acontece, nosso ‘Eu’ pessoal se expande, englobando os outros, de maneira que não conseguiremos mais conceber-nos isolados de Deus e de nossos irmãos... É este o laço do autêntico amor espiritual, energizado pela Graça. Quanto mais crescemos nesta consciência noética, tanto mais nosso amor englobará todos a nossa volta. Rezamos por eles de coração, e pelo mundo inteiro. Somos purificados pela Graça para que possamos amar com autenticidade, de maneira puramente altruísta. Esta é a essência de ser cristão: amar autenticamente.

“Ao amar verdadeiramente a Deus a ao próximo...somos purificados, iluminados e deificados. Somos restaurados de nosso estado caído, de nosso egocentrismo, e da tirania de nossa consciência racional e emocional. As paixões são controladas, subordinadas ao amor ao Próximo. Somos purificados de tudo aquilo que nos faz focar em nós mesmos e de todas as barreiras do amor”. [17]

7. Saindo do atoleiro

Como pode as palavras do Pe. Isaque não nos inspirar? O que nos impede de crescermos até a medida da estatura completa de Cristo, conforme diz São Paulo (Ef. 4:13)? São nossos egos, nossas paixões, que nos impedem.

Freqüentemente nos encontramos atolados em nossas vidas espirituais. Essa situação resume-se a um aspecto: temos nossos pecados centrais, nossas paixões favoritas, das quais não queremos abrir mão. Essas paixões já estão tão enraizadas em nós que julgamos impossível nos livrar delas. Mas não é impossível. Cristo disse: Tende bom ânimo, eu venci o mundo (João 16:33). Com a ajuda de Sua Graça, conseguimos superar as paixões – que, conforme vimos, engloba um dos significados do termo “mundo” nas Escrituras Sagradas.

O problema é todo nosso. O problema é que, lá no fundo, sentimos que temos “direito” às nossas paixões favoritas. “Tenho direito de estar irado”, “Tenho direito de estar ressentido”, “Tenho direito a este pequeno prazer pecaminoso”. No fundo no fundo, não queremos abrir mão de nossas paixões.

Então a questão se resume a isto: O que realmente queremos? Queremos permanecer em nosso atoleiro, para que possamos mergulhar em orgulho, amor próprio, auto-justificação, raiva, ressentimento, prazeres pecaminosos? Será que eles são tão importantes para nós a ponto de, por causa dele, abandonarmos a possibilidade de uma vida autêntica em Cristo, conforme o Pe. Isaque tão belamente descreveu?

O que queremos, afinal? Queremos seguir a moda das paixões deste mundo, que perecem, ou queremos ter Cristo habitando em nós, recriando-nos em novos seres que habitarão nEle e com Ele para sempre?

Para que saiamos de nossos atoleiros e voltemos a trilhar o caminho da transformação e da deificação, temos de nos livrar de tudo aquilo que nos separa de Deus. A vida espiritual é como remar um barco contra a correnteza. O mundo, a carne e o demônio nos empurram contra o progresso. Se nosso barco estiver cheio de pecados e paixões, não iremos a lugar nenhum. Na verdade, vamos retroceder, até mesmo afundar. Portanto, o que temos de fazer é lançar fora tudo aquilo de que gostamos para que essas coisas não nos segurem. Então estaremos prontos para seguir adiante, para aquilo que fomos criados: para a união com Deus.

8. Não meça seu próprio progresso

Para concluir, eu gostaria de acrescentar um último comentário sobre esse tema da transformação. Os Santos Padres aconselham a não medir nosso progresso espiritual. Tentar medir nosso progresso pode, por um lado, despertar orgulho e, por outro, despertar desespero. Se pensarmos, “Estou fazendo grandes progressos, estou virando santo”, então certamente não estamos fazendo progresso porque estaremos orgulhosos, e o orgulho nos separa de Deus. Por outro lado, se nos desesperarmos quanto à nossa falta de progresso, esse desespero também nos separará de Deus.

Portanto, que Deus meça nosso progresso. Que Deus seja o juiz, tanto de nós quanto dos outros.
Benjamin Franklin tinha a prática de contar e registrar diariamente suas boas ações. Do ponto de vista do mundo, essa prática pode parecer boa; mas não é isso que devemos fazer enquanto cristãos ortodoxos. Não devemos contar nossas virtudes e boas obras e nos congratularmos com isso, pois Cristo disse, Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita (Mat.6:3). Na verdade, temos de fazer justamente o oposto: olharmos para nossos pecados. “Permita que eu enxergue meus próprios pecados e não julgue meu irmão”, conforme rezamos na Oração de Santo Efraim. Devemos nos acusar de nossos pecados, mas não nos sentenciar a ponto de nos condenar. Essa é uma distinção importante. A auto-acusação piedosa leva à responsabilidade por nossos pecados para que possamos nos arrepender deles, fazer as correções necessárias e, em última instância, nos livrar deles. A auto-condenação, por outro lado, leva ao desespero – porque, ao estabelecermos um julgamento definitivo sobre nós mesmos estaremos brincando de Deus exatamente como faríamos se estabelecêssemos um julgamento final sobre nosso próximo.

A transformação espiritual, conforme vimos, não ocorre sem a Graça do Espírito Santo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito (João 3:8). A transformação pela Graça de Deus é imperceptível. Nós somos mudados, mas não sabemos como e quando. Portanto, não devemos tentar experimentar momentos ou estados de transformação. Tal tentativa somente levará, no fim das contas, ao orgulho e à ilusão. Nossa tarefa é deixar para trás tudo aquilo que nos separa de Deus, voltarmos para Ele com todo o nosso ser, e deixar que Deus faça o resto.

A transformação espiritual só é perceptível em retrospecto. Um dia, olharemos para trás e perceberemos como as coisas mudaram. Talvez percebamos que não somos mais escravos de determinada paixão que, no passado, nos oprimia. Talvez, apesar das circunstâncias da vida estarem mais difíceis do que no passado, percebamos que não estamos reagindo tão negativamente quanto antes e que temos um senso de confiança de que nossas vidas estão nas mão de Deus maior do que antes. Se notarmos tais mudanças, vamos dar graças a Deus e não as creditarmos a nós, lembrando das palavras de São Diádoco: “Somente o Espírito Santo pode purificar nosso nous”. Então, continuando a praticar a vigilância, analisemos mais detidamente nosso interior a fim de descobrirmos paixões ainda mais profundas e sutis, para que as mortifiquemos no altar em sacrifício a Cristo.

Esse caminho da contínua recriação à semelhança de Cristo, do sacrifício que leva à deificação, é de fato difícil. Nosso Senhor nos disse: Estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem (Mat. 7:14). Mas este é o único caminho para que cumpramos a verdadeira razão de nossa existência.

Portanto, seguindo a exortação do Apóstolo Paulo, não nos conformemos com este século, não sigamos as modas deste mundo, não nos moldemos de acordo com as paixões. Em vez disso, sejamos transformados, transfigurados em novos seres por meio do arrependimento, por meio da cura e da purificação de nosso nous. Por meio desta transformação, passaremos a amar a Deus e nosso próximo de maneira genuína, passaremos a estar unidos a Deus através de Sua Graça, e passaremos a habitar com Cristo e Seus Santos em amor perfeito, para sempre. Amém.

Notas

1. Citado em Archbishop Basil Krivocheine, In the Light of Christ (Crestwood, N.Y.: St. Vladimir’s Seminary Press, 1986), p. 386.
2. Clark Carlton, The Life: The Orthodox Doctrine of Salvation (Salisbury, Mass.: Regina Orthodox Press, 2000), pp. 163–64.
3. Harry M. Boosalis, Orthodox Spiritual Life according to St. Silouan the Athonite (South Canaan, Pa.: St. Tikhon’s Seminary Press, 2000), p. 19.
4. St. John Chrysostom, Homilies on Romans, in The Nicene and Post-Nicene Fathers (Peabody, Mass.: Hendrickson Publishers, 1994), First Series, vol. 11, Homily 20, p. 496.
5. Ibid .
6. Abbess Thaisia: An Autobiography (Platina, Calif.: St. Herman of Alaska Brotherhood, 1989), pp. 167–69.
7. St. John Chrysostom, Homilies on Romans , Homily 20, p. 497.
8. St. Isaac the Syrian, Ascetical Homilies , Homily 2, quoted in St. Ignatius Brianchaninov, The Arena: An Offering to Contemporary Monasticism (Jordanville, N.Y., Holy Trinity Monastery, 1983), pp. 169–70.
9. St. John Chrysostom, Homilies on Romans , Homily 20, pp. 497–98.
10. Ibid., p. 498.
11. Ibid.
12. Veja, por exemplo, St. Gregory Palamas, "Topics of Natural and Theological Science," and Nikitas Stithatos, "On Spiritual Knowledge," in The Philokalia, vol. 4 (London: Faber and Faber, 1995), pp. 357, 139–40).
13. St. Diadochos of Photiki, "On Spiritual Knowledge and Discrimination," in The Philokalia, vol. 1 (London: Faber and Faber, 1979), p. 260.
14. St. Theophan the Recluse, The Path of Prayer (Newbury, Mass.: Praxis Institute Press, 1992), pp. 6–7.
15. St. Theophan the Recluse, The Spiritual Life and How to Be Attuned to It, third edition (Safford, Arizona: St. Paisius Serbian Orthodox Monastery, 2003), pp. 191–93.
16. Cf. Fr. Seraphim Rose, "In Step with Sts. Patrick and Gregory of Tours," The Orthodox Word, no. 136 (1987), pp. 272–73.
17. Abbot Jonah (Paffhausen), "A Vision of Contemporary Monasticism: Valaam and Fr. Sophrony, from Psychology to Spirituality," Divine Ascent, no. 9 (2004), pp. 9–10.
Extraído da revista The Orthodox Word, Vol. 41, Nos. 3 & 4 (#242-243, May-Aug, 2005), pp. 147-168.