1) A
descendência de Jesus desde David é transmitida por seu pai José, e não por
Maria, e mesmo assim o nascimento é tido como virginal por Mateus e Lucas.
2) Jesus
nasceu provavelmente em Nazaré e era um judeu da Galileia.
3) A família
de Jesus Nazaré era composta de pelo menos sete filhos: quatro irmãos e várias
irmãs. A interpretação mais natural é de que os irmãos de Jesus não eram
“primos” ou parentes próximos de casamentos anteriores de José, mas seus irmãos
biológicos.
4) A ideia de
um Jesus simples, amável, sensível e doce é completamente idílica e, portanto,
falsa. Ademais, Jesus não tinha nada de inculto, mas, pelo contrário, estava muito bem
familiarizado com a tradição judaica escrita e oral, e tinha pleno domínio dela. Não
era a toa que as pessoas lhe chamavam de “rabi” mesmo não sendo ele um escriba.
5) Um traço
psicológico inegável de Jesus é seu menosprezo pela família em que nasceu, como
em João 2:4 (Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é
chegada a minha hora). Vice-versa, sua família também lhe era alienada. Flusser
cita a Shlomo Pinès (The Jewish Christians of the early centuries of
Christianity according to a new source, Jerusalém, Israel, 1966), que conta
que se aproximaram de Jesus na cruz sua mãe Maria e seus filhos Tiago, João e
Judas, que lhes disse: “Toma teus filhos e vá embora”. Esta tensão também está
presente nos Evangelhos: E, falando ele ainda à multidão, eis que estavam
fora sua mãe e seus irmãos, pretendendo falar-lhe. E disse-lhe alguém: Eis que
estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te. Ele, porém,
respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?
E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e
meus irmãos (Mateus 12:46-49). Flusser também conta que Tiago, irmão de
Jesus, acreditou nele somente graças a uma aparição do Ressuscitado e que, mais
tarde, também creram os demais irmãos de Jesus. Isso também é prova de que
antes de morrer sua família não tinha fé nele. Mesmo Maria foi incapaz de
compreender a Jesus adequadamente.
6) No relato
original, o que a voz celestial disse a Jesus foi: Eis aqui o meu servo, a
quem sustento, o meu eleito, em quem se compraz a minha alma; pus o meu
espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios (Isaías 42:1). Vozes
celestiais eram comuns na época, e experiencias extáticas frequentes. Portanto,
Jesus não era “meu Filho”, mas apenas um servo eleito de Deus.
7) Jesus, ao
contrário do que se apregoa tradicionalmente, não “superou” nem “cumpriu” a
lei. Os fariseus não aparecem nos três primeiros Evangelhos como acusadores no
julgamento de Jesus porque, quando estes foram redigidos (cerca do ano 80) ainda
se sabia que os fariseus não haviam aprovado a entrega de Jesus aos romanos. Os
Evangelhos sinóticos, portanto, não puderam mencionar os fariseus no julgamento
de Jesus porque, de outra forma, não se teria dado crédito aos seus relatos. E
mais tarde proibiu-se a todos os cristãos observar os preceitos da Antiga
Aliança, apesar de Jesus ter dito: Porque em verdade vos digo que, até que o
céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo
seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que
seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus;
aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.
Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus,
de modo nenhum entrareis no reino dos céus (Mateus 5:18-20). Ademais, Jesus
não tinha grande estima pelos não-judeus, os “gentios”: Jesus enviou estes
doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem
entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa
de Israel (Mateus 10:5-6). E ainda: E, partindo Jesus dali, foi para as
partes de Tiro e de Sidom. E eis que uma mulher cananeia, que saíra daquelas
cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que
minha filha está miseravelmente endemoninhada. Mas ele não lhe respondeu
palavra. E os seus discípulos, chegando a ele, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a,
que vem gritando atrás de nós. E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado
senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Então chegou ela, e adorou-o,
dizendo: Senhor, socorre-me! Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no
pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, Senhor, mas
também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Então
respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para
contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã (Mateus
15:21-28). E, entrando Jesus em Cafarnaum, chegou junto dele um centurião,
rogando-lhe, e dizendo: Senhor, o meu criado jaz em casa, paralítico, e
violentamente atormentado. E Jesus lhe disse: Eu irei, e lhe darei saúde. E o
centurião, respondendo, disse: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do
meu telhado, mas dize somente uma palavra, e o meu criado há de sarar. Pois
também eu sou homem sob autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a
este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu criado: Faze isto, e
ele o faz. E maravilhou-se Jesus, ouvindo isto, e disse aos que o seguiam: Em
verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé. Mas eu vos digo
que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão,
e Isaque, e Jacó, no reino dos céus; e os filhos do reino serão lançados nas
trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então disse Jesus ao
centurião: Vai, e como creste te seja feito. E naquela mesma hora o seu criado
sarou (Mateus 8:5-13). E, depois de concluir todos estes discursos para
a audiência do povo, entrou em Cafarnaum. E o servo de um certo centurião, o
qual era muito estimado por ele, estava doente, e à morte. E, quando ouviu
falar de Jesus, enviou-lhe uns anciãos dos judeus, rogando-lhe que viesse curar
o seu servo. E, chegando eles junto de Jesus, rogaram-lhe muito, dizendo: É
digno de que lhe concedas isto, porque ama a nossa nação, e ele mesmo nos
edificou a sinagoga. E foi Jesus com eles; mas, quando já estava perto da casa,
enviou-lhe o centurião uns amigos, dizendo-lhe: Senhor, não te incomodes,
porque não sou digno de que entres debaixo do meu telhado. E por isso nem ainda
me julguei digno de ir ter contigo; dize, porém, uma palavra, e o meu criado
sarará. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados sob o
meu poder, e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu
servo: Faze isto, e ele o faz. E, ouvindo isto Jesus, maravilhou-se dele, e
voltando-se, disse à multidão que o seguia: Digo-vos que nem ainda em Israel
tenho achado tanta fé. E, voltando para casa os que foram enviados, acharam são
o servo enfermo (Lucas 7:1-10). Nesses relatos não é Jesus quem dá a
palavra decisiva, mas o gentil. Ademais, nas fontes rabínicos não existe
nenhuma proibição em curar a um gentil, portanto Jesus não teria enfrentado a
tradição vigente.
8) A pregação de
Jesus do amor ao próximo e a Deus como o maior dos mandamentos não era nenhuma
novidade na Palestina do século I. Essa ideia estava plenamente presente no
farisaísmo, e nos documentos rabínicos estava clara a noção de que o amor a
Deus é superior ao temor a Deus.
9) A mensagem
genuinamente cristã é a pregação social. Vale a pena ler um excerto sobre o
tema. Observe como Jesus repudia a ideia de viver em comunidades isoladas do mundo e ao mesmo tempo repudia frontalmente a ideia de acúmulo de riquezas:
A dimensão social está mais acentuada em Jesus do que entre os rabinos; ela constitui o núcleo de sua autêntica mensagem. No entanto, ele não foi um revolucionário socialista no sentido usual da palavra. Nesse aspecto, os essênios tinham outra orientação. Originalmente, o movimento essênio foi um movimento apocalíptico revolucionário, cuja ideologia da pobreza estava estreitamente vinculada à doutrina da dupla predestinação: eles, os verdadeiros filhos da luz, os pobres escolhidos por Deus, graças às suas próprias armas e com a ajuda do exército celeste, herdarão a terra e conquistarão o mundo inteiro no fim dos tempos, que já se aproximava. Nesse momento serão exterminados os filhos das trevas, o restante de Israel e as nações, juntamente com as potências demoníacas que governam o mundo. Embora na época de Jesus a ideologia essênia provavelmente já não fosse tão ativa e seus adeptos se inclinassem mais para uma mística contemplativa, continuavam, no entanto, praticando a comunhão de bens, davam grande valor à pobreza e mantinham-se rigorosamente separados do restante dos judeus.
Como filhos da luz, os essênios haviam reduzido ao mínimo as relações econômicas com o mundo ao seu redor: “Que ninguém coma nada que provenha deles, nem beba ou receba algo de suas mãos sem pagar o justo preço..., porque... todos os que desprezam sua palavra serão extirpados da terra, pois impuras são suas obras diante de Deus e a imundície reina em tudo o que possuem”. Os essênios, portanto, viam-se obrigados a “separar-se dos filhos da perdição e abster-se da posse impura da iniquidade”.
Naturalmente, Jesus não podia aprovar o separatismo ideológico e econômico dos essênios. Os filhos deste mundo são mais astutos para com os seus semelhantes do que os filhos da luz. Eu vos digo: fazei amigos por meio das riquezas injustas... Porque, se não fostes fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras? E, se não fostes fiéis no que é alheio, quem vos dará o que é vosso? (Lucas 16:8-12). [Aqui não se trata de fazer amigos "com" riquezas injustas, o que não faria sentido, mas a partir dos logion (na teologia e no estudo bíblico, os estudiosos defendem que existiu um documento primitivo chamado de Fonte Q, do alemão Quelle, que significa "fonte"; este documento teria sido precisamente uma lista de logia ("ditos", plural de logion) de Jesus que os autores de Mateus e Lucas usaram para escrever os seus próprios Evangelhos.] Jesus, portanto, deve ter conhecido os essênios e feito alusão a eles, não sem certa ironia, ao utilizar a própria autodesignação deles: “os filhos da luz”.
Como os essênios de sua época, também Jesus via em toda posse um perigo para a verdadeira piedade: Ninguém pode servir a dois senhores; porque odiará um e amará o outro; ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro (Mateus 6:24). A terminologia dualista deste dito é essênia: os essênios esforçavam-se por “amar tudo o que Ele escolheu e odiar tudo o que Ele rejeitou, afastar-se de toda maldade e aderir a toda boa obra”. A hostilidade eterna entre o bem e o mal aparece também entre os filhos da luz e os das trevas, entre Deus e Belial, o diabo. Jesus não podia pensar dessa maneira, pois não adotou a teologia dos essênios, mas apenas algumas consequências sociais de sua ideologia. Por isso, os dois senhores de sua sentença não são Deus e Belial, o diabo, mas Deus e Mammon.
Jesus, portanto, considera as riquezas um obstáculo à virtude. Como é difícil para os que confiam nas riquezas entrar no Reino dos Céus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus (Marcos 10:24-25). Daí que a pobreza, a humildade, a pureza de coração e a simplicidade fossem valores religiosos essenciais tanto para Jesus quanto para os essênios. Jesus e os essênios pensavam que os marginalizados e perseguidos da sociedade presente seriam os primeiros no iminente juízo divino, que deles é o Reino dos Céus e que os que choram serão consolados. Essas afirmações de Jesus estão longe de qualquer sentimentalismo, como se vê pelas maldições dirigidas contra os ricos, os saciados e os que agora riem, porque terão aflição e pranto. Graças aos novos documentos do Mar Morto podemos compreender agora a expressão pobres de espírito, que também aparece entre eles como um título honorífico dos essênios: são os pobres que receberam o dom do Espírito Santo.
Em uma passagem do Livro dos Hinos (18,14-15), o autor dá graças a Deus por tê-lo escolhido para anunciar sua bondade, “para anunciar aos humildes a riqueza da tua misericórdia, e a salvação proveniente da fonte eterna aos de coração contrito, e a alegria eterna aos que choram”. Isso corresponde aos humildes, aos pobres de espírito e aos que choram das três primeiras bem-aventuranças de Jesus.
10) Jesus nunca
pregou a moral tradicional; pelo contrário, a justiça divina é de uma ordem
diferente da justiça humana, seja ela distributiva ou corretiva. A ideia de que
Deus premia os bons e pune os maus é fruto da fantasia humana, não do mundo
real.
O paradoxo de sua ruptura com a moral tradicional é exposto admiravelmente por Jesus na parábola dos trabalhadores da vinha (Mateus 20:1-16). Um proprietário saiu para contratar trabalhadores para sua vinha e prometeu dar um denário por dia a cada um. Ao cair da tarde, pagou a todos o mesmo salário, sem levar em conta o tempo que haviam trabalhado. Os que tinham começado nas primeiras horas da manhã murmuravam contra o proprietário. Mas ele respondeu a um deles: “Amigo, não estou sendo injusto com você. Não combinamos um denário? Então pegue o que é seu e vá embora. Quero dar a este último o mesmo que dei a você. Não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que é meu? Ou você fica com inveja porque eu sou bom? Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.”
Aqui, como em todo o seu ensinamento, Jesus aceita o princípio do salário, mas modifica completamente as concepções habituais sobre a justiça de Deus. Talvez alguém pense que isso acontece porque Deus, em seu amor e sua misericórdia universais, não faz distinção entre as pessoas. Mas a mudança da escala de valores em Jesus não é idílica: a desgraça também não distingue entre pecadores e justos. Certa vez contaram a Jesus a respeito dos galileus cujo sangue Pilatos havia misturado ao dos seus sacrifícios. Sem dúvida esperavam uma resposta política, mas Jesus lhes disse: Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os demais galileus porque sofreram essas coisas? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, todos perecereis do mesmo modo. Ou aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, pensais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, todos perecereis do mesmo modo. (Lucas 13:1-5)
A concepção que Jesus tinha da justiça de Deus é, portanto, incompreensível para a razão. Não é possível medi-la, embora seja possível compreendê-la e entendê-la. Essa concepção estará no centro da pregação do Reino, no qual os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. Ela leva o espírito do Sermão da Montanha até o Gólgota, onde o justo morre como um criminoso. Tal concepção é profundamente moral, mas, ao mesmo tempo, está para além do bem e do mal. À luz dessa intuição genial, tudo aquilo que costuma ser considerado “importante” — as virtudes habituais, a personalidade mais perfeita, a dignidade terrena e o orgulhoso empenho no cumprimento formal da Lei — torna-se frágil e vão. Sócrates tornou problemático o aspecto intelectual da pessoa; Jesus, o aspecto moral. Ambos foram executados. Seria isso uma simples coincidência?
11) Flusser conclui
que Jesus nunca se viu como “Messias” nem cogitava a hipótese de que poderia “expiar”
os pecados de quem quer que seja. Embora Flusser considere a transfiguração de
Jesus, narrada em Lucas 9:28-36, como real, nela Jesus é chamado de “meu Filho,
o Eleito” (a versão grega traduz o termo hebraico “único” como “amado”, mas a
palavra “eleito” expressa melhor o original). No mesmo Evangelho de Lucas
(20:9-19), na parábola dos lavradores homicidas, Jesus deixa clara sua condição
de Filho, de pregador profético e, consequentemente, de futura vítima de assassinato.
Flusser entende que foi a Igreja primitiva que, décadas mais tarde, enxertou a
ideia de que Jesus operaria uma suposta “remissão dos pecados”.
12) Um dos
temas mais curiosos é sobre a expressão “Filho do Homem”, que Jesus a usava sempre
em terceira pessoa, como se não se identificasse com ela. Há três contextos em
que a expressão Filho do Homem é usada: (1) como simples sinônimo de “homem”,
como quando Jesus diz que o Filho do Homem não tem onde reclinar sua cabeça,
(2) como aquele que será morto e ressuscitará, o qual Flusser claramente
identifica como uma invenção da Igreja primitiva e deve ser descartado in
limine, e (3) como alguém que há de vir. É a este personagem do item (3)
que se refere este trecho do Evangelho de Mateus: E quando o Filho do Homem
vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no
trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará
uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas; e porá as ovelhas à
sua direita, mas os bodes à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua
direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está
preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer;
tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu,
e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes me ver. Então
os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te
demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos
estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo,
ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos
digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o
fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de
mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque
tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo
estrangeiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na
prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor,
quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na
prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo
que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão
estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna (Mateus
25:31-46). Observe que o Filho do Homem é uma figura sobre-humana, celeste, é o
juiz escatológico do cosmo. Segundo fragmentos essênios, esse juiz escatológico
é Melquisedeque, o rei sacerdotal de Jerusalém que viveu nos tempos de Abraão.
É a Melquisedeque que se refere este trecho dos Salmos: Deus está na
congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses (Salmos 82:1). Este “Deus”
é, na verdade, um juiz escatológico de aparência humana, a quem os salmos
identificam com Melquisedeque: Assenta-te à minha mão direita…tu és um
sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque (Salmos 110:1,4). Em hebraico,
“segundo a ordem de” significa o próprio Melquisedeque, ou pelo menos é assim
que os essênios entendiam. Jesus teria interpretado à maneira corrente, em que “segundo
a ordem de” significa alguém similar a Melquisedeque. De qualquer forma, em
Marcos 12:35-37 Jesus citou o começo desse salmo 110 referindo-se ao Messias (E,
falando Jesus, dizia, ensinando no templo: Como dizem os escribas que o Cristo
é filho de Davi? Porque o próprio Davi disse pelo Espírito Santo: O Senhor
disse ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita até que eu ponha os teus
inimigos por escabelo dos teus pés. Pois, se Davi mesmo lhe chama Senhor, como
é logo seu filho? E a grande multidão o ouvia de boa vontade). E ainda
outra vez diz Jesus: Desde agora o Filho do Homem se assentará à direita do
poder de Deus (Lucas 22:69). Flusser conclui, assim, que no início de sua
carreira profética Jesus não se via como o Messias, e por isso designava o
Filho do Homem em terceira pessoa. No entanto, próximo de sua paixão, Jesus
teria se dado conta de que efetivamente é o Messias, o futuro Filho do Homem. No
contexto do judaísmo antigo, Jesus certamente é o mais elevado dos homens. Michael Heiser concordaria com isso, mas iria além:
Jesus não seria apenas o Messias escatológico, mas com base sobretudo em Daniel
7 uma figura que participa da própria identidade divina.
Fonte: David Flusser, Jesús,
Ediciones Cristiandad, Madrid, Espanha, [1968] 1975.
Imagem: Jan van Eyck, O Juízo Final,
Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA, ca. 1436-1438.






