Os meios de
comunicação dominantes continuam a equiparar o feminismo enquanto tal
com o feminismo liberal. Concentrado no Norte global entre o estrato
profissional-gerencial, [o feminismo liberal está] voltado a promover que um
pequeno grupo de mulheres privilegiadas ascenda na escala empresarial e nas
fileiras do exército, e propõe uma visão de igualdade centrada no mercado, que
se encaixa perfeitamente com o entusiasmo empresarial dominante pela “diversidade”.
Seu objetivo real não é a emancipação das mulheres, mas sim tentar abolir a
hierarquia social, buscando “diversificá-la”, “empoderando” mulheres “talentosas”
para que cheguem ao topo. O feminismo liberal recusa-se terminantemente a
enfrentar as restrições socioeconômicas que tornam a liberdade e o
empoderamento inacessíveis para a grande maioria das mulheres. Seu objetivo
real não é a igualdade, mas sim a meritocracia. Suas promotoras
buscam garantir que algumas poucas almas privilegiadas possam alcançar posições
e salários em nível de igualdade com os homens de sua própria classe. Por
definição, as principais beneficiárias são aquelas que já possuem consideráveis
vantagens sociais, culturais e econômicas. Todas as demais ficam encalhadas no
porão. Seu romance com o progresso individual impregna igualmente o mundo das
celebridades das redes sociais, que também confunde o feminismo com a mulher
individual. Ao encobrir políticas regressivas sob uma aura de emancipação,
torna possível que as forças que apoiam o capital global se apresentem como “progressistas”.
Longe de celebrar as CEOs que ocupam os escritórios com as melhores vistas,
queremos nos desfazer delas e desses escritórios prestigiosos.
O feminismo
que temos em mente defende as necessidades e os direitos das muitas: das
mulheres pobres e da classe trabalhadora, das racializadas e migrantes, das
mulheres queer, das trans, das com deficiência, das incentivadas
a se ver como “classe média”, mesmo quando o capital não para de explorá-las.
Representando a todas as exploradas, dominadas e oprimidas, querem
transformar-se em uma fonte de esperança para toda a humanidade. Por isso o
chamamos de feminismo para os 99%. Propomos, ao contrário, unir-nos a
todos os movimentos que lutam pelos 99%, seja combatendo pela justiça ambiental
ou pela educação gratuita de alta qualidade, por serviços públicos generosos ou
uma política de moradias sociais, pelos direitos trabalhistas, pela atenção
médica universal e gratuita, ou por um mundo sem racismo nem guerras.
A jogada
decisiva [do capitalismo] foi separar a produção de seres humanos da produção
de lucros, atribuindo a primeira tarefa à mulher e subordinando-a à segunda. A perversidade torna-se evidente
quando lembramos o quão vital e complexo é, na realidade, o trabalho de
produzir pessoas. Essa atividade não apenas cria e sustenta a vida no sentido
biológico, mas também cria e sustenta nossa capacidade de trabalhar — o que
Marx chamou de “força de trabalho”. E isso significa moldar os indivíduos de
acordo com “boas” atitudes, disposições e valores; com aptidões, competências e
habilidades. Em resumo, o trabalho de formar pessoas fornece certas
precondições fundamentais (materiais, sociais e culturais) à sociedade humana
em geral e à produção capitalista em particular. Sem esse trabalho, nem a vida
nem a força de trabalho poderiam se encarnar em seres humanos. Chamamos essa
vasta obra de atividade vital de reprodução social. Nas sociedades
capitalistas, o papel fundamental da reprodução social é ocultado e rejeitado.
Longe de ser valorizada por si mesma, a reprodução da vida é tratada como um
simples meio para a produção de lucros. Como o capital evita pagar por esse
trabalho tanto quanto possível, enquanto trata o dinheiro como o summum de
tudo, relega aqueles que realizam a reprodução social a uma posição de
subordinação — não apenas os donos do capital, mas também os trabalhadores mais
bem pagos, que podem transferir a responsabilidade dessa reprodução para
outros. A luta de classes inclui as lutas pela reprodução social: pela atenção
médica universal e pela educação gratuita, pela justiça ambiental e pelo acesso
à energia limpa, pela moradia e pelo transporte público. Igualmente centrais
nela são as lutas políticas pela libertação da mulher, contra o racismo e a
xenofobia, a guerra e o colonialismo.
A violência
de gênero que experimentamos hoje reflete as dinâmicas contraditórias da vida
familiar e pessoal na sociedade capitalista. E estas, por sua vez, se baseiam
na característica divisão do sistema entre “produzir pessoas” e “produzir
lucros”, família e trabalho. Um momento evolutivo crucial foi a transição da
família extensa baseada no parentesco —na qual os homens mais velhos detinham o
poder de vida e morte sobre seus subordinados—, típica dos tempos antigos, para
a família nuclear heterossexual restrita da modernidade capitalista, que
concedia um direito de governo atenuado a homens “menores”, que chefiavam lares
mais reduzidos. Com essa mudança, alterou-se o caráter da violência de gênero
baseada no parentesco. O que antes era abertamente político tornou-se “privado”:
mais informal e mais “psicológico”, menos “racional” e menos controlado.
Esse tipo de violência de gênero, frequentemente alimentado pelo álcool, pela
vergonha e pela ansiedade de manter o domínio, é encontrado em qualquer período
do desenvolvimento capitalista. Como o capitalismo atribui o trabalho
reprodutivo de forma esmagadora às mulheres, restringe nossa capacidade de
participar plenamente, como iguais, no mundo do “trabalho produtivo”, com o
resultado de que a maioria de nós acaba em empregos sem futuro, onde não se
ganha o suficiente para sustentar a família. Isso repercute negativamente em
nossa vida “privada”, já que nossa menor capacidade de abandonar as relações
nos tira autonomia dentro delas.
A
reprodução social é o cenário de uma crise importante. Sustentamos que a razão
básica é a seguinte: o tratamento da reprodução social feito pelo capitalismo é
contraditório. Por um lado, o sistema não pode funcionar sem essa atividade;
por outro, renega seus custos e lhe atribui pouco ou nenhum valor econômico.
Isso significa que as capacidades disponíveis para o trabalho socio-reprodutivo
são tomadas como certas, consideradas “dons” gratuitos infinitamente
disponíveis, que não requerem atenção nem reposição. E quando o tema é abordado
de alguma forma, presume-se que sempre haverá energia suficiente para
produzir trabalhadores e sustentar as conexões sociais das quais dependem a
produção econômica e, de modo geral, a sociedade. Proclamando o novo ideal
da “família de dois que trabalham”, o neoliberalismo recruta massivamente
mulheres para o trabalho assalariado em todo o mundo. Mas esse ideal é uma
fraude; e o regime laboral que supostamente o legitima está longe de ser
libertador para a mulher.
O que
espera a grande maioria das mulheres é um trabalho precário e mal remunerado no
qual mulheres pobres, racializadas e imigrantes servem comida rápida e vendem
bugigangas em megastores; limpam escritórios, quartos de hotel e casas
particulares; esvaziam urinóis em hospitais e lares de idosos, e cuidam de
famílias de estratos mais privilegiados — muitas vezes às custas das suas
próprias e, às vezes, muito longe delas. A maior parte do trabalho remunerado
das mulheres é decididamente não libertador. Precário e mal pago, não
oferece acesso a direitos trabalhistas nem sociais, tampouco proporciona
autonomia, autorrealização ou oportunidade de adquirir e exercer aptidões. Pelo
contrário, o que esse trabalho de fato proporciona é vulnerabilidade
diante do abuso e do assédio. Em comparação com o período do pós-guerra, o
número de horas de trabalho assalariado por domicílio disparou, reduzindo o
tempo disponível para nos recuperarmos, cuidar de nossas famílias e amizades e
manter nossos lares e comunidades.
Fonte: Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya
e Nancy Fraser, Manifiesto de un feminismo para el 99%, Herder
Editorial, Barcelona, Espanha, 2019, trechos selecionados e adaptados.
