O filósofo
americano Edward Feser, cujas obras já estudamos algumas por aqui, prossegue
seu Scholastic Metaphysics aplicando a metafísica aristotélico-tomista à física
moderna. Seu argumento central não se resume a demonstrar a plausibilidade
dessa metafísica, mas a provar que além de funcional a metafísica
aristotélico-tomista é a única capaz de explicar plenamente as descobertas
científicas modernas. É claro que é inevitável que Feser desbanque a
filosofia mecanicista, que é ainda a preferida entre os cientistas e filósofos
da ciência. Algo semelhante fez Bernardo Kastrup aqui,
e inclusive nos chamou a atenção a curiosa proximidade entre a abordagem do idealismo
analítico com o aristotelismo. Claro, faltam a Kastrup as noções clássicas de teleologia,
causa eficiente etc., as quais, como demonstrará Feser, são não apenas úteis ou
convenientes, mas essenciais ao entendimento da estrutura da realidade.
Antes de
nos imiscuirmos em alguns detalhes que considero centrais, destaco alguns
trechos que são importantes que relembremos e os tenhamos em mente.
A distinção entre forma e matéria não é, contudo, a mesma distinção que aquela entre atualidade e potencialidade, mas sim um caso especial dessa distinção. Tudo o que é composto de forma e matéria é, portanto, composto de atualidade e potencialidade, mas nem tudo o que é composto de atualidade e potencialidade é composto de forma e matéria. Um intelecto angélico ou uma res cogitans cartesiana, sendo incorpóreos, não seriam um composto de forma e matéria [Edith Stein discordaria desta afirmação, pelo menos em parte], mas ainda assim seriam um composto de atualidade e potencialidade (na medida em que Deus teria de criá-los e, assim, atualizaria o que de outro modo seria apenas uma existência potencial). A distinção entre forma e matéria é uma aplicação da distinção entre atualidade e potencialidade às coisas corpóreas, especificamente aos objetos físicos que conhecemos pela experiência. Assim, enquanto a teoria da atualidade e da potencialidade tem aplicabilidade metafísica completamente geral, a aplicação adequada da distinção entre forma e matéria pertence à filosofia da natureza.
[...]
Ora, a diferença entre aquilo que possui um princípio intrínseco de operação e aquilo que não o possui é, essencialmente, a diferença entre algo ter uma forma substancial e algo ter apenas uma forma acidental. Ser um cipó implica possuir uma forma substancial, enquanto ser uma rede de descanso envolve, ao contrário, a imposição de uma forma acidental sobre componentes que já possuem uma forma substancial — a forma substancial do próprio cipó. Assim, um cipó é uma verdadeira substância, conforme os filósofos aristotélicos entendem o termo. Uma rede não é uma verdadeira substância precisamente porque, enquanto rede, não possui uma forma substancial — um princípio intrínseco pelo qual opera como o faz caracteristicamente — mas apenas uma forma acidental. Em geral, as verdadeiras substâncias são objetos naturais, enquanto os artefatos normalmente não são verdadeiras substâncias. Um cão, uma árvore e a água seriam verdadeiras substâncias, pois cada um possui uma forma substancial ou princípio intrínseco pelo qual se comporta de maneira característica. Um relógio, uma cama ou um computador não seriam verdadeiras substâncias, pois cada um se comporta de modo característico apenas na medida em que certas formas acidentais lhes foram impostas externamente. As verdadeiras substâncias nesses casos seriam as matérias-primas (metal, madeira, vidro etc.) das quais esses artefatos são feitos.
É importante enfatizar, contudo, que a correlação entre o que ocorre “na natureza” e o que possui uma forma substancial, e entre o que é feito pelo homem e possui apenas uma forma acidental, é apenas aproximada. Existem objetos que ocorrem na natureza sem intervenção humana e que, ainda assim, possuem apenas formas acidentais, como pilhas de pedras que se acumulam ao pé de uma colina, emaranhados de algas que chegam à praia ou represas de castores. E há objetos feitos pelo homem que possuem formas substanciais, como bebês (que são “artefatos” num sentido comum, mas também verdadeiras substâncias), água sintetizada em laboratório e raças de animais. Mesmo objetos “artificiais” podem ser considerados como tendo formas substanciais, já que exigem conhecimento científico e tecnológico significativo para serem produzidos. O poliestireno extrudado (styrofoam) [uma espécie de “isopor” usado para isolamento térmico em paredes e telhados na construção civil] seria um exemplo possível.
A ideia básica é que parece essencial, para que algo tenha uma forma substancial, que possua propriedades e poderes causais irredutíveis aos de suas partes. Assim, a água tem propriedades e poderes causais que o hidrogênio e o oxigênio não têm, enquanto as propriedades e poderes de, digamos, um machado parecem não ultrapassar a soma das propriedades e poderes da madeira e do metal que o compõem. Quando a água é sintetizada a partir de hidrogênio e oxigênio, a matéria-prima subjacente perde as formas substanciais do hidrogênio e do oxigênio e adquire uma nova forma substancial — a da água. Em contraste, quando um machado é feito de madeira e metal, a matéria subjacente à madeira e ao metal não perde suas formas substanciais. Mantendo-as, ela apenas adquire uma nova forma acidental — a de ser um machado. A fabricação do poliestireno extrudado parece mais semelhante à síntese da água a partir de hidrogênio e oxigênio do que à fabricação de um machado. O poliestireno extrudado possui propriedades e poderes irredutíveis aos dos materiais de que é feito, o que indica a presença de uma forma substancial e, portanto, de uma verdadeira substância.
[...]
[A matéria é definida funcionalmente. Apenas modernamente passou a ser definida fisicamente.]
Matéria, para o aristotélico, é essencialmente aquilo que não apenas limita a forma a uma coisa, tempo e lugar particulares, mas também aquilo que persiste quando um atributo é adquirido ou perdido. É absolutamente crucial compreender que as características da matéria identificadas até aqui — sua correspondência à potencialidade (em contraste com a correspondência da forma à atualidade), seu status como princípio de limitação da forma e seu status como princípio de persistência através da mudança — são definitivas da matéria tal como o aristotélico a entende. Ou seja, o aristotélico usa o termo “matéria” em um sentido técnico. Ele não está dizendo que a matéria, tal como passou a ser entendida de forma independente na física e na química modernas, é o que limita a forma e corresponde aos papéis de persistir através da mudança, possuir forma e corresponder à potencialidade. Até aqui, ele não está dizendo nada sobre a matéria no sentido moderno. Em vez disso, está definindo “matéria”, conforme usada na filosofia aristotélica da natureza, como aquilo que desempenha esses papéis. (E isso não é um uso excêntrico; na verdade, é um uso mais antigo do que aquele familiar à física e à química modernas.)
[...]
O metafísico aristotélico-tomista sustenta que a causalidade eficiente é ininteligível sem a causalidade final. A causalidade eficiente se manifesta em regularidades causais. Plante uma bolota, e o que crescerá dela será um carvalho — não uma roseira, nem um gato, nem um Fusca. Acenda um fósforo, e ele gerará chama e calor, em vez de se transformar em uma cobra ou em um buquê de rosas. Deixe um cubo de gelo ao sol, e ele derreterá em uma poça de água líquida, em vez de se transformar em pedra ou em gasolina. É claro que esses efeitos podem ser impedidos: a causa pode ser danificada de algum modo, como quando uma bolota é esmagada ou comida por um esquilo, ou um fósforo é molhado. Ou pode faltar um fator desencadeador necessário para que a causa produza seu efeito — como quando o fósforo é guardado em uma gaveta em vez de ser riscado, ou o cubo de gelo é colocado no congelador em vez de ser deixado ao sol. Mas continua sendo verdade que, se as causas não tivessem sido danificadas e os fatores desencadeadores relevantes estivessem presentes, então o efeito habitual teria ocorrido.
[...]
O princípio da finalidade é tradicionalmente formulado como a tese de que todo agente age por um fim, sendo o “agente” uma causa eficiente.
A causalidade final também é conhecida como “teleologia” (do grego telos, “fim”), um termo que, no uso contemporâneo, possui várias conotações enganosas. Por exemplo, costuma-se supor que atribuir teleologia a algo é, ipso facto, considerá-lo como um tipo de artefato que foi “projetado”. Mas isso não é o caso. Considere novamente os exemplos do cipó e da rede que Tarzan faz com os cipós. Uma rede tem uma teleologia específica — servir como cama — e, claro, é um artefato projetado por seres humanos para cumprir essa função. Mas um cipó também possui certa teleologia, na medida em que tende a atividades como absorver água e nutrientes por suas raízes e crescer em substância. A razão pela qual tende a essas atividades não é porque algum projetista humano a faz agir assim (como Tarzan faz os cipós servirem à função de rede), mas porque isso é simplesmente o que os cipós fazem por natureza, desde que nada os impeça. Algo que não fizesse isso simplesmente não seria um cipó.
Em outras palavras, os cipós e outras substâncias naturais possuem suas propriedades teleológicas de modo intrínseco ou inerente, enquanto artefatos como redes possuem propriedades teleológicas de modo extrínseco ou imposto externamente. Isso reflete o fato de que os cipós e outros objetos naturais têm formas substanciais, enquanto as redes e outros artefatos têm apenas formas acidentais. Os cipós que compõem a rede de Tarzan não têm, por si mesmos, tendência a funcionar como cama. Esse fim ou causa final, assim como a forma da própria rede, precisa ser imposto a eles de fora. Em contraste, os cipós têm, por si mesmos, tendência a absorver nutrientes e apresentar certos padrões de crescimento. Essa tendência, como a forma de ser um cipó, está neles por natureza.
Assim, do ponto de vista aristotélico-tomista, ser uma substância natural é precisamente não ser um artefato, pois ser um artefato é ter apenas uma forma acidental e uma teleologia extrínseca, enquanto ser uma substância natural é ter uma forma substancial e uma teleologia intrínseca.”
Crítica ao
mecanicismo e ode à metafísica aristotélica
A filosofia
aristotélico-tomista, quando aplicada ao domínio da ciência moderna, resulta,
confesso, especialmente desafiadora àqueles que, como eu, provêm de décadas de formação
acadêmica e profissional no campo da engenharia e da tecnologia em geral. Nossa
intuição é invariavelmente moldada em uma cosmovisão mecanicista que, por mais
que fora do domínio da ciência e da engenharia ela se mostre inadequada, quando
não pura e simplesmente falsa, perdura impávida no campo da física-matemática,
que é a base mesma da engenharia. A leitura atenta de um livro como este de
Feser soa como provocativa.
Veja-se,
por exemplo, o caso das “leis da física”. Feser propõe, apoiando-se em Nancy
Cartwright, que as leis da física não existem, ou, pelo menos, não existem
enquanto leis. O que Feser propõe é que as leis da física são apenas
regularidades e que apenas aplicam-se de maneira geral aos fenômenos físicos e
que apenas podem ser deduzidas mediante forçando-lhes a ideia de ceteris
paribus. Todos esses “apenas” rebaixam as leis da física, tomadas como
sacrossantas pela ciência, a regularidades inteligentes e nada mais. O ponto
aqui é entender que as chamadas leis da física são deduzidas e calculadas na
periferia do mundo, digamos, e que o que verdadeiramente existem são as
naturezas dos entes que, combinadas tal como são na periferia, resultam em
certas regularidades que podem, a partir daí, serem formuladas matematicamente dadas
condições idealizadas e, digamos logo, inventadas. Isso não significa dizer que
as leis da física estejam “erradas” ou que sejam “falsas”. Apenas não são leis,
mas arranjos (ou “arremedos”) que se apoiam em regularidades forçadas do real.
Essas regularidades acidentais são o que Cartwright chama de máquina
nomológica. Não há, portanto, leis da física, mas leis de naturezas
(nem mesmo “leis da natureza”) que jamais poderiam se unificar em leis (menos
ainda em uma mítica “lei universal”).
Para chegar
a tal conclusão Feser lança mão de vários argumentos. Um deles é a própria experiência
do cientista. Ocorre que a própria atividade intelectual do cientista implica a
relação ato-potência porque está obviamente dado que o cientista, antes,
durante e depois das medições e estudos, permanece o mesmo apesar de ele mesmo sofrer
mudanças intelectuais. Ora, tanto na observação empírica quanto no raciocínio
lógico é inescapável a ideia de que há um ente real passível de mudança
(potência -> ato). Se é assim, torna-se incoerente a ideia do espaço-tempo
de Minkowski ou o quadridimensionalismo, segundo os quais o universo é um bloco
estático no qual não há mudança real. Não se trata de mero tecnicismo ou “pegadinha”:
ocorre que o próprio cético passa por mudança (a crença que antes não tinha e
agora tem), o que, se é assim, então abre-se uma “cisão cartesiana” entre mente
mutável e universo estático. Se o cético avança um pouco mais e nega a existência
de seus próprios estados cognitivos (“eliminativismo”), bem, então a base
mesma sobre a qual residem as evidências observacionais e experimentais é
destruída. Feser refuta de maneira semelhante o representacionalismo, segundo
o qual a percepção não passaria de sense-data e/ou colisões mecânicas de
partículas: se fosse assim, novamente a base da própria ciência estaria
destruída. Feser vai mais longe e acusa os mecanicistas de propagaram um
mistério ontológico, referindo-se à recusa em aceitar que o pensamento humano necessariamente
envolve uma intencionalidade, ou seja, ele inescapavelmente apela às
causas finais (teleologia), seja ela intrínseca (pensar em um gato), derivada
(a palavra “gato”), as-if (metafórica, como dizer que “o termostato
pensa que a casa está fria”) ou, como ensinam Heidegger e Merleau-Ponty, motora
(nossas ações sempre tacitamente implicam uma direção ou fim a despeito de
conceitos ou atenção continuada. A própria existência do cientista que projeta
experimentos e formula teorias estabelece um limite absoluto contra o projeto
mecanicista moderno de expulsar o propósito e a causa final da realidade física.
Como, então,
se estrutura a realidade segundo Feser? Feser defende um realismo estrutural
nos seguintes moldes: (a) quando uma teoria substitui outra o que é preservado são
as equações matemáticas e não os entes metafísicos postulados (por exemplo,
quando o antigo “éter sólido elástico” (vimos sua defesa por René Descartes e IsaacNewton aqui, por exemplo)
foi substituído pelo campo eletromagnético de James Maxwell), sendo que as
novas equações permanecem como “casos limites” das novas; (b) as abstrações físicas-matemáticas
relacionam “leituras de ponteiros”; (c) a realidade vai além da mera restrição
da cardinalidade sobre as coisas, ou seja, há, nas palavras de Bertrand
Russell, relações isomórficas entre a experiência perceptiva e a estrutura do
evento físico que a causa. Feser lembra que não basta um realismo
estrutural ôntico, ou seja, um realismo que restrinja a estrutura do mundo às relações
matemáticas já que isso seria incoerente: se as equações matemáticas relacionam,
então têm de relacionar algo com algo. As equações matemáticas não têm eficácia
causal própria.
O espaço
Aqui nos
aprofundamos um pouco mais na travessia do mundo físico-matemático para o mundo
real, ou seja, o mundo da vida. Quando observamos o espaço entre nossas mãos
compreendemos que há muito mais do que a “distância” ou “dimensionalidade”
entre elas. E eis aqui uma pedra de tropeço que pode nos afrontar. Para
aqueles que portam fortes convicções científicas, ou pelo menos que têm na física-matemática
um universo no qual transitam com facilidade e confiança, pode lhes parecer o
contrário: é a dimensionalidade que vai dizer “mais” do que compreendemos entre
as duas mãos. Isso porque os dados da dimensionalidade são “algo” enquanto a compreensão
ou percepção do espaço entre as mãos é “nada” ou “trivial” ou “óbvio”. É a isso
que o leitor tem de se acostumar: a vida é vivida no mundo real, no mundo
humano e concreto dos sentidos e do espírito. O mundo da física-matemática é
virtual, abstrato, artificial, pobre e, digamos logo, morto. É algo que podemos
usar para viver, mas não é algo no qual vivemos.
Sabemos
como nos mover através do espaço, alcançar objetos e nos desviar de obstáculos.
Esse knowing-how prático e corporal pressupõe a existência de fatos
físicos sobre o espaço real que a física-matemática não consegue capturar.
Tentar eliminar esse conceito de senso comum do espaço em prol de uma descrição
puramente geométrica nos deixa com uma mera abstração causalmente inerte,
transformando a ciência empírica em matemática pura a priori.
Feser
explica que o espaço não é um sistema de coordenadas, mas um receptáculo ou
recipiente para os objetos nele contidos e que nele se movem. O espaço
nunca é um vácuo porque, se fosse, objetos distantes estariam necessariamente
unidos e, ademais, não haveria nesse “espaço vazio” nenhuma base física
objetiva que limite a três dimensões ou que conecte causalmente objetos
distantes. O “espaço vazio” tem propriedades por mais “vazio” que esteja.
Movimento
Assim como
a "humanidade" só existe nos humanos reais, e o espaço só existe nas
coisas físicas estendidas, o movimento só existe nos objetos físicos reais
que estão mudando. Ele não é uma ilusão da mente (idealismo), mas também
não é uma propriedade flutuante medida contra um plano de fundo místico e vazio
(absolutismo substancializado).
E a inércia,
ou seja, o movimento retilíneo uniforme conforme ensinado por Newton realmente
existe? Segundo Feser, náo há contradição com a teoria aristotélica porque
Newton nada diz sobre se há ou não um elemento externo que ponha o objeto em
marcha e o deixe em inércia. Mas e quanto ao objeto deixado em inércia, como
explicar que ele continue se movimento sem nada que atualize essa potência? A solução
que vislumbra Feser é adotar que a inércia é um fenômeno estagnado que espera a
atualização de algo externo a ele que o atualize em algo diverso. Se é assim, então
corremos o risco de colapsar o universo a um sistema de Minkovski fechado em
bloco onde nada efetivamente se atualiza já que não haveria nada em potência.
Esse dilema se resolve com o presentismo.
Tempo
Feser
define o tempo, sob a lente aristotélica, como a medida da mudança com
relação à sobredeterminação ou sucessão. Isso significa que só há tempo
onde há mudança e, sob a lente aristotélica, só há mudança quando há perda ou
ganho de um atributo pelo ente que persiste ao longo dessa transição. Então
fica claro que Feser nega o “tempo sem mudança” e nega também a ideia do absolutismo newtoniano (tempo como algo
independente). Em suma, o tempo só existe incorporado em entes em mudança.
O tempo, assim como o espaço, é contínuo, e suas partes menores só existem em
potência, não em ato. Somente o presente é real, daí o presenteísmo.
E quanto à
teoria da relatividade? A Teoria Especial da Relatividade (STR) de Einstein e o
espaço-tempo de Minkowski são habitualmente usados para defender um universo de
bloco de quatro dimensões estático. Contudo, Feser salienta que o sucesso
empírico de uma teoria física não é suficiente para ditar sua interpretação
metafísica. Negar a mudança dinâmica com base na relatividade é incoerente
porque a própria validação empírica da física depende de cientistas que passam
sucessivamente por mudanças de estados mentais ao fazer previsões, realizar
experimentos e observar resultados no tempo.
Mecânica
quântica
Este é o
tema que melhor ilustra a tal “vingança de Aristóteles” de que trata Feser. O
ponto de partida é a obra do filósofo americano Robert Koons, que assume a interpretação
cientificamente mais aceita da mecânica quântica, a chamada interpretação de
Copenhague (uma criação conjunta de Niels Bohr e Werner Heisenberg). Foi
Heisenberg quem explicitamente fez uso de Aristóteles para explicar a então nova
mecânica quântica. Em linhas gerais, essa interpretação, sobre a qual tangenciamos algo aqui, diz que antes de uma medição o sistema
quântico está em superposição, ou seja, várias possibilidades coexistem
matematicamente nele. A medição então acaba “colapsando” a função de onda,
selecionando um único resultado. As probabilidades desses resultados são intrínsecas,
isto é, não são fruto de uma suposta “ignorância” sobre variáveis ocultas. O
importante a deixar claro aqui é que não há uma interação mente-matéria, como
alguns intérpretes da mecânica quântica querem fazer crer (como se “pensar”
sobre o sistema o modificasse). Em outras palavras, a “medição” que causa o
colapso da função de onda não é uma medição no sentido cotidiano (olhar,
observar, ver). Na interpretação de Copenhague, medir significa interagir
fisicamente com o sistema quântico de modo que ele deixe registros
macroscópicos irreversíveis. Uma medição pode ser uma interação com um detector
(um elétron bate num sensor e deixa um ponto na tela), a absorção de fótons (a
luz refletida por um objeto já é uma interação que destrói a superposição), uma
amplificação macroscópica (um estado quântico aciona um mecanismo clássico,
como uma corrente elétrica, um cristal fotossensível etc.), um registro
irreversível (quando um resultado fica “gravado” no mundo clássico e não pode
ser apagado sem destruir o sistema) etc.
Koons defende
três teses sobre o hilemorfismo quântico: (1) interdependência ontológica
(nível microfísico e macrofísico não são ontologicamente distintos, mas ambos
se dependem mutuamente), (2) entrelaçamento quântico (quando o estado
conjunto não pode ser separado em partes, ou seja, o estado de A depende do
estado de B e vice-versa, reforçando a ideia de que a soma não pode ser
reduzida às parte) e (3) presença virtual (a partícula perde sua
individualidade em um sistema maior, reforçando a ideia aristotélico-tomista de
distinção virtual).
Feser
resgata a tese de doutorado do filósofo americano Stanley Grove sobre como
outros fenômenos quânticos ilustram o hilemorfismo. A dualidade
onda-partícula reflete a maior indeterminação de entes físicos que estão mais
próximas do nível da matéria prima. As transições descontínuas (os famosos “saltos
quânticos” de elétrons mudando de órbita) assemelham-se ao caráter descontínuo
e de “tudo ou nada” da mudança substancial aristotélica. O princípio da incerteza
de Heisenberg é perfeitamente lógico sob uma lente hilemórfica, uma vez que
posição e momento representam potencialidades mutuamente exclusivas, e não
propriedades simultaneamente reais.
Por fim, e
este é um aspecto crucial, o indeterminismo quântico não viola a causalidade
aristotélica. Este erro de interpretação ocorre porque popularmente se acredita
que a causalidade tem a ver com o determinismo físico, isto é, com “coisas” que
causam “outras coisas”. Causalidade não é isso: a causa simplesmente fornece
uma explicação que torne o efeito inteligível. Não importa que os
antecedentes de uma transição sejam a equação de Schrödinger ou o próprio ato
de medição, o que importa é que a explicação seja inteligível.
Termodinâmica
e química
Feser recorre
a Lawrence Sklar para explicar que a temperatura não é uma propriedade
microscópica (ou seja, não é “a energia cinética de cada molécula”), mas uma
propriedade macroscópica emergente que só existe quando o sistema está em um
estado estável. Isso está em conformidade com a famosa Lei Zero da Termodinâmica,
segundo a qual a temperatura só é uma grandeza definida quando o sistema está
em equilíbrio termodinâmico. A ideia de “temperatura instantânea” em sistemas
fora de equilíbrio é conceitualmente ilegítima: não há critério físico que
permita atribuir um valor único. A temperatura é definida operacionalmente: é
aquilo que um termômetro mede quando está em equilíbrio com o sistema. Portanto,
falar de temperatura sem equilíbrio é misturar níveis de descrição
incompatíveis. A própria mecânica estatística não consegue selecionar os pontos
probabilísticos iniciais corretos para descrever o nível micro sem antes
recorrer à nossa apreensão macroscópica da temperatura do sistema. Em suma, o
reducionismo físico-químico tampouco funciona no campo da termodinâmica.
Robin
Hendry aponta para o problema dos isômeros (como o etanol e o dimetiléter), que
possuem exatamente a mesma composição de partículas microfísicas, mas
manifestam estruturas e propriedades químicas completamente diferentes,
provando que a forma estrutural química é irredutível à física de partículas
pura.
Neurociência
A biologia
e a neurociência não podem renunciar à linguagem computacional (“algoritmo”, “mau
funcionamento”, “bug”, “processamento” etc.) porque ela descreve “padrões reais”
e uma normatividade objetiva na natureza (que é a diferença real entre o
funcionamento normal de um órgão e uma patologia/“mau funcionamento”).
Feser
demonstra que a computação só pode ser uma propriedade física real e intrínseca
se abandonarmos o mecanicismo moderno e reintroduzirmos as causas formais e
finais de Aristóteles. Para dizer que um estado físico S transporta informação
sobre um efeito E (por exemplo, o DNA transportando instruções para formar um
olho), é preciso que S esteja inerentemente direcionado ou apontado para esse
fim específico. Sem a causa final aristotélica, as causas e os efeitos são
puramente “soltos e separados” (como defendia Hume), e nenhum estado físico
possui direcionamento intrínseco em relação a outro. Se um embrião humano nasce
sem olhos, a biologia trata isso como um “mau funcionamento” do “programa”. Sob
o mecanicismo puro (que só reconhece causas eficientes brutas), não existem “erros”
ou “defeitos”; a física e a química do embrião cego estão agindo perfeitamente.
Para que a cegueira seja um erro real e objetivo (um “bug” no “software”), deve
haver uma forma substancial (essência) humana que determine como o organismo
deve se desenvolver de modo maduro e saudável. O princípio computacional de que
o algoritmo de saída não pode conter mais informação do que a entrada de dados
recapitula exatamente o princípio da causalidade proporcional de Aristóteles: o
efeito não pode conter o que não estava presente (formal, virtual ou
eminentemente) na sua causa total.
Feser aponta
que a tentativa moderna de naturalizar e mecanicizar a realidade usando
computadores produziu a maior ironia da história da ciência: ao descreverem o
mundo em termos de informação e algoritmos, os cientistas ressuscitaram
secretamente a teleologia e o hilemorfismo. O neurocientista Valentino
Braitenberg reconheceu isso explicitamente ao afirmar que o conceito moderno de
informação nada mais é do que “Aristóteles redivivus”. John Searle tenta
escapar disso confinando a teleologia e as funções apenas na mente humana
(tratando a biologia como teleologia ilusória). No entanto, Feser prova que
esse movimento prende Searle em um dilema insolúvel: ou ele adota o eliminativismo
radical (vimos acima que isso destrói a coerência de seus próprios pensamentos)
ou cai em uma forma implícita de dualismo cartesiano de propriedades, isolando
a mente humana como um reduto de propósitos em um universo físico morto.
Genética
O debate
contemporâneo na filosofia da biologia baseia-se na distinção de duas noções
totalmente diferentes de “gene”: (1) gene mendeliano: um conceito
puramente funcional, postulado como a causa hipotética de um padrão de herança
de características macroscópicas observáveis no organismo (como a cor dos olhos
ou o formato das sementes); (2) gene bioquímico (ou molecular): É uma
entidade física e estrutural concreta, definida como uma sequência física de
nucleotídeos no filamento de DNA.
O
reducionismo clássico pressupõe que o gene mendeliano é “nada mais que” o gene
bioquímico, de modo que toda a transmissão de características biológicas
poderia ser explicada de baixo para cima pela mecânica das moléculas de DNA. No
entanto, a prática científica revela que essa tradução linear é simplesmente impossível.
O primeiro grande obstáculo físico-químico para o reducionismo é a ausência de
uma correspondência biunívoca (um para um) entre os dois níveis. Feser chama
isso de problema many-many (em contraste ao já grave problema do one-to-many).
Raramente um único gene bioquímico é responsável por um traço mendeliano. Na
grande maioria das vezes, múltiplos genes bioquímicos complexos precisam cooperar
(essa palavra é fundamental) de forma integrada para expressar um único traço
macroscópico (é a chamada poligenia). Um único gene bioquímico frequentemente
participa e interfere na expressão de múltiplos traços macroscópicos
completamente diferentes e não relacionados (é a chamada pleiotropia).
Portanto, o
funcionamento e a expressão de uma sequência física de DNA são estritamente
determinados pelo seu contexto celular e organísmico. Sem o
contexto global, o gene bioquímico é incapaz de ditar de forma linear a
característica mendeliana, o que impede que o gene mendeliano seja mapeado de
forma direta no DNA.
Fonte: Edward Feser, Aristotle’s
Revenge; The Metaphysical Foundations of Physical and Biological Science, Editiones
Scholasticae, Neunkirchen-Seelscheid, Alemanha, 2019.
