6 de abril de 2026

A matéria como aparência extrínseca


Com base nas dissonâncias da integralidade da experiência dissertadas por Gilson, é interessante detectarmos onde precisamente está o desvio, do ponto de vista aristotélico-tomista, de um idealista tout court. Aqui vamos tomar o já mencionado filósofo holandês Bernardo Kastrup, em especial em sua obra mais filosófica. É verdade que seu objetivo é não apenas apresentar seu idealismo analítico, mas apresentá-lo ao mesmo tempo que refuta o fisicalismo.

Kastrup admite que a dicotomia mente-matéria teve como grandes expoentes Descartes e Kant, mas foi no século XIX que ela se instalou com vigor. Edward Feser também concorda que o fisicalismo é a teoria ontológica dominante, e também ele procura refutá-la em sua obra.

Para Kastrup, a matéria não é um fato observável, mas uma abstração explicativa. O que é epistemicamente primário é a mente. É a mente o verdadeiro, e único, substrato (ou “fundamento”) da experiência. O fisicalismo e suas leis é capaz de acomodar os padrões e regularidades da experiência, mas ele não dá conta da experiência em si. Assim como havia demonstrado Feser, as qualidades da experiência são irredutíveis aos arranjos fisicalistas.

É claro que Kastrup tem razão em apontar as inconsistências e absurdos do fisicalismo, mas como ele explica as “coisas”? São elas produto da nossa mente? Elas simplesmente não existem? Sim, existem, mas as coisas são meras aparências extrínsecas. Isso significa que o mundo é dividido em processos mentais pessoais e processos mentais impessoais. Os objetos que vemos, tocamos etc. são as aparências (ou “aparições”, como diria Deleuze) dos processos mentais impessoais. Sim, claro, Kastrup vai (muito) mais longe e defende sua teoria dos “alters” que, em verdade, não passam de subprodutos da Mente (ou “mind-at-large”), um pouco à moda da força metafísica cega e irracional da vontade indomita de Schopenhauer. A semelhança com as doutrinas gnósticas e suas centelhas divinas (Eckhart, Boehme, Plotino, Guénon, Silesius etc.) é inegável.

De qualquer forma, o argumento mais interessante de Kastrup contra o fisicalismo é o contextualismo do mundo, ou seja, a ideia derivada da mecânica quântica segundo a qual as supostas propriedades físicas do mundo dependem da decisão do observador. Isso provaria que o mundo não tem tais ou quais propriedades extramentais, mas apresenta uma determinada reação a depender de nossa interação com ele. Kastrup toma emprestada essa ideia da interpretação relacional do físico italiano Carlo Rovelli e introduz o Envoltório (ou Manta) de Markov (“Markov Blanket”), uma espécie de fronteira probabilística que unifica os alters ao mind-at-large à moda dos modelos de IA.

Uma solução engenhosa, não há dúvida, e bastante original. Cada alter tem seu “mundo físico” criado a partir de seu estado sensorial s e seu estado ativo a. Assim, o estado externo ψ se relaciona quanticamente entre os alters quando estes procuram interagir. Os fenômenos de Kant não são fenômenos dos alters, mas fenômenos do mind-at-large, que é o único e verdadeiro númeno.

Conforme vejo as coisas, o idealismo, pelo menos o tipo apresentado por Kastrup, está mais próximo da abordagem aristotélico-tomista do que o fisicalismo. Apesar dos pesares, Kastrup admite que as mentes (alters) pensam coisas (os outros alters), que esses alters têm “presença física” (as aparências extrínsecas dos Markov blankets em torno de si), que esses alters têm formas essenciais para além de suas formas acidentais (os estados s e a). Estas semelhanças só podem ser explicadas porque o aristotelismo também nega o dualismo ao qual Kastrup critica, e, embora, claro, falte ao idealismo analítico a ideia de finalidade, causalidade, participação (e não identidade), não é difícil aproveitar as boas lições que ele apresenta em sua obra.

Por fim, cabe comentar que Kastrup psicologiza a defesa do fisicalismo. Em outras palavras, apesar das evidências em contrário, o apego ao fisicalismo só se explicaria por um apego neurótico. O ego se recusa a integrar afetos indesejados advindo do inconsciente e ativa um dos mecanismo de repressão mais clássico, a projeção. Em vez de assumir as responsabilidades por suas escolhas e ações, o fisicalista exonera-se delas e projeta esse vazio interior no mundo exterior, tornando-o mera matéria inerme. É uma kenosis secular, um deslocamento de identidade: nós, em última instância, não existimos. O doloroso processo de integração psicológica é evidente mediante o expediente de negar a realidade hoje a despeito dos efeitos dessa negação a longo prazo. O controle egóico da natureza lhe parece ao fisicalista algo irresistível: o trauma ontológico da perda da religião e da salvação da alma cristalizou na mentalidade da elite científica a salvação do ego através do fisicalismo.

Fonte: Bernardo Kastrup, The Idea of the World, iff Books, Hampshire, Reino Unido, 2019.