Com base nas dissonâncias da integralidade
da experiência dissertadas por Gilson, é interessante detectarmos onde precisamente
está o desvio, do ponto de vista aristotélico-tomista, de um idealista tout
court. Aqui vamos tomar o já mencionado filósofo holandês Bernardo Kastrup,
em especial em sua obra mais filosófica. É verdade que seu objetivo é não apenas
apresentar seu idealismo analítico, mas apresentá-lo ao mesmo tempo que refuta
o fisicalismo.
Kastrup admite que a dicotomia mente-matéria
teve como grandes expoentes Descartes e Kant, mas foi no século XIX que ela se
instalou com vigor. Edward Feser também concorda que o fisicalismo é a teoria
ontológica dominante, e também ele procura refutá-la em sua obra.
Para Kastrup, a matéria não é um fato
observável, mas uma abstração explicativa. O que é epistemicamente
primário é a mente. É a mente o verdadeiro, e único, substrato (ou “fundamento”)
da experiência. O fisicalismo e suas leis é capaz de acomodar os padrões e
regularidades da experiência, mas ele não dá conta da experiência em si. Assim
como havia demonstrado Feser, as qualidades da experiência são irredutíveis aos
arranjos fisicalistas.
É claro que Kastrup tem razão em apontar as
inconsistências e absurdos do fisicalismo, mas como ele explica as “coisas”? São
elas produto da nossa mente? Elas simplesmente não existem? Sim, existem, mas as
coisas são meras aparências extrínsecas. Isso significa que o mundo é
dividido em processos mentais pessoais e processos mentais impessoais. Os
objetos que vemos, tocamos etc. são as aparências (ou “aparições”, como diria
Deleuze) dos processos mentais impessoais. Sim, claro, Kastrup vai (muito) mais
longe e defende sua teoria dos “alters” que, em verdade, não passam de subprodutos
da Mente (ou “mind-at-large”), um pouco à moda da força metafísica cega e irracional da vontade indomita de Schopenhauer. A semelhança com as doutrinas gnósticas e suas
centelhas divinas (Eckhart, Boehme, Plotino, Guénon, Silesius etc.) é inegável.
De qualquer forma, o argumento mais
interessante de Kastrup contra o fisicalismo é o contextualismo do mundo, ou
seja, a ideia derivada da mecânica quântica segundo a qual as supostas
propriedades físicas do mundo dependem da decisão do observador. Isso provaria
que o mundo não tem tais ou quais propriedades extramentais, mas apresenta uma
determinada reação a depender de nossa interação com ele. Kastrup toma emprestada
essa ideia da interpretação relacional do físico italiano Carlo Rovelli e
introduz o Envoltório (ou Manta) de Markov (“Markov Blanket”), uma
espécie de fronteira probabilística que unifica os alters ao mind-at-large à
moda dos modelos de IA.
Uma solução engenhosa, não há dúvida, e
bastante original. Cada alter tem seu “mundo físico” criado a partir de seu
estado sensorial s e seu estado ativo a. Assim, o estado externo ψ
se relaciona quanticamente entre os alters quando estes procuram interagir. Os
fenômenos de Kant não são fenômenos dos alters, mas fenômenos do mind-at-large,
que é o único e verdadeiro númeno.
Conforme vejo as coisas, o idealismo, pelo
menos o tipo apresentado por Kastrup, está mais próximo da abordagem
aristotélico-tomista do que o fisicalismo. Apesar dos pesares, Kastrup admite
que as mentes (alters) pensam coisas (os outros alters), que esses alters têm “presença
física” (as aparências extrínsecas dos Markov blankets em torno de si), que esses alters têm formas
essenciais para além de suas formas acidentais (os estados s e a).
Estas semelhanças só podem ser explicadas porque o aristotelismo também nega o
dualismo ao qual Kastrup critica, e, embora, claro, falte ao idealismo analítico
a ideia de finalidade, causalidade, participação (e não identidade), não é
difícil aproveitar as boas lições que ele apresenta em sua obra.
Por fim, cabe comentar que Kastrup
psicologiza a defesa do fisicalismo. Em outras palavras, apesar das evidências
em contrário, o apego ao fisicalismo só se explicaria por um apego neurótico. O
ego se recusa a integrar afetos indesejados advindo do inconsciente e ativa um
dos mecanismo de repressão mais clássico, a projeção. Em vez de assumir
as responsabilidades por suas escolhas e ações, o fisicalista exonera-se delas
e projeta esse vazio interior no mundo exterior, tornando-o mera matéria inerme.
É uma kenosis secular, um deslocamento de identidade: nós, em última
instância, não existimos. O doloroso processo de integração psicológica é
evidente mediante o expediente de negar a realidade hoje a despeito dos efeitos
dessa negação a longo prazo. O controle egóico da natureza lhe parece ao
fisicalista algo irresistível: o trauma ontológico da perda da religião e da
salvação da alma cristalizou na mentalidade da elite científica a salvação do ego
através do fisicalismo.
Fonte: Bernardo Kastrup, The Idea of the World,
iff Books, Hampshire, Reino Unido, 2019.
