Sábio é
aquele a quem todas as coisas têm sabor do que realmente são. (São Bernardo de Claraval, Sermones
de diversis, 18, 1; PL. 183, 587)
A palavra “realidade”
pode assumir no meio escolástico dois sentidos próximos: (1) como realis
é tudo aquilo cujo conteúdo é independente do pensamento, (2) como res é
a objetividade da realis que se torna patente no conhecer. O que
Pieper procurará demonstrar é que é a realidade enquanto objetividade que
determina o que é “bom”. Em outras palavras, a realidade (verdade) é a fonte da
bondade.
O enraizamento do bem no ser objetivo se manifesta em um tipo humano concreto e impede determinados modos de comportamento.
A realidade
objetiva é a fonte normativa do ser. Para orientar-se na vida e a seu fim, o
homem não tem alternativa senão fixar seus olhos no ser. A ação moral não é algo
facultativo ao homem, mas uma necessidade pautada pelo mundo real. Isso reforça
a ideia de que a busca pela felicidade é algo do qual o homem não escapa mesmo
quando escolhe fazer o mal a si próprio, ao próximo, à sociedade, ou até mesmo
quando comete suicídio.
“As coisas são
a medida (mensura) de nosso conhecer”, dizia Tomás. Mas esta “medida” não
é obviamente algo quantitativo, mas algo qualitativo, que tem a ver com a forma
substancial. Dado que o Ser é a medida de todas as coisas (o “arquétipo”, o “modelo”),
então a “medida” é a causa formal externa de todas as coisas, que é anterior
às suas causas formais internas (formas substanciais). Daí que as coisas,
por sua vez, sejam a medida (causa formal externa) de nosso conhecer (forma
substancial). Por sua vez ainda, quando o homem, enquanto artífice, materializa
a forma em um artefato, a forma desse artefato em sua mente é sua medida (causa
formal externa). A intelecção tem as coisas, o mundo real, como medida. E é por
isso que o intelecto “pode ser todas as coisas”: a medida e o medido são,
afinal, idênticos e iguais em sua essência, apenas ocupando um lugar diferente
na hierarquia das atualidades.
É claro que
o intelecto não opera isolado da vontade. O espírito humano conta com os atos
da vontade, e aqui é mister ter claro que a vontade não deve impor sua influência
subjetiva ao conteúdo do conhecimento sob pena de não se alcançar conhecimento
nenhum. A postura de amor à realidade é necessária para que se produza o
conhecimento no intelecto.
Pieper
explica que a vontade é configurada interiormente pela razão. Em outras palavras,
é como se o intelecto se expandisse para o interior da vontade, moldando-a de
acordo com o bem que apreendeu do mundo real. A verdade portada pela razão é a
medida da vontade e da ação: a verdade se estendo à bondade. O
conhecimento do ser se amplia e se revela em forma de decisão e mandato.
Agora
podemos propriamente analisar os atos da vontade e os atos intelectuais que lhes
precedem:
Contemplação
do bem. É a percepção
puramente especulativa. Aqui a razão meramente apresenta seu objeto à simples
volição (ou “veleidade”), que se dirige ao bem em si.
Ditame
da sindérese. Os
primeiros princípios da práxis (vimos com mais detalhes aqui)
são impostos pelo conhecer, que começa a estender-se no querer. A sindérese é a
lei moral natural, infalível, originária, principial: se deve amar e obrar o
bem e evitar o mal. É o equivalente ao princípio de identidade para o intelecto.
Assim como o princípio de identidade de assenta na noção de ser, a sindérese se
assenta na noção de bem. A lei natural não
é outra coisa que a participação da lei eterna na criatura racional. O apetite
(ou “intenção”) não se limita a dirigir-se ao bem em si, mas o quer como fim
do movimento.
Deliberação. É a busca pelos meios apropriados
para cumprimento do fim querido pelo apetite. Por sua vez há o consentimento da
totalidade dos meios apropriados.
Juízo. Aqui, partindo-se dos meios
apropriados, reconhece-se um caminho específico e concreto para chegar
de modo idôneo ao fim. Por sua vez, a decisão (ou “eleição”) é propriamente
o querer esse algo concreto. Este é o momento em que a popular "livre escolha" se faz plenamente presente porque cessou-se a busca por meios: aqui o ato é voltado para o interior da vontade, digamos.
Mandato (ou “resolução”). A razão então se
faz eminentemente prática e a vontade efetivamente entra em execução das
ações decididas empregando as forças com as quais conta o ser humano.
O homem
movimenta-se em busca do bem, ou seja, da meta, do fim. Embora a sindérese sempre
seja justa, isso não quer dizer que a deliberação, o juízo e o mandato não possam
ser injustos e falsos. Eis a importância da virtude da prudência (Pieper
nota que a “consciência”, entendida no âmbito tomista, é sinônima à
prudência). É a prudência que garante, ou ao menos habitualmente garante, que o
mandato resulte em uma ação concreta real, e não aparente. É o mandato da
prudência, uma vez adquirida, que será a medida (mensura) entre a razão teórica
e a razão prática, assim como a medida é a relação entre a realidade e a razão teórica.
A sindérese, enquanto princípio moral, aliada às realidades e questões particulares
são os elementos que circunscrevem cada ação moral.
Por fim, cabe lembrar o que dissemos em nosso estudo de São Máximo, o Confessor: após a morte, no escathon, como os bens aparentes não mais estarão presentes, a dinâmica interna da escolha humana reduz-se a três estágios apenas: conceito (equivalente aqui à "contemplação do bem"), desejo ("simples volição" ou "veleidade") e decisão (também "decisão" aqui).
Fonte: Josef Pieper, El descubrimiento de la realidad, Ediciones Rialp, Madrid, Espanha, [1951] 2024.
