8 de janeiro de 2026

A ética do delito: Jesus vs. Paulo


Para o homem religioso o espaço não é homogêneo. (Mircea Eliade)

Muito se fala sobre a divindade de Jesus Cristo, sua natureza, vontade, graça, substância, unigenitude etc., mas pouco se fala sobre sua humanidade. O teólogo espanhol José María Castillo defende a tese de que o homem se torna mais divino à medida que se faz mais humano. E não só isso: é da essência da religião desumanizar o fiel. Por isso não é incomum encontrar pessoas profundamente religiosas e profundamente desumanas. Castillo explica esse fenômeno, que é nuclear em seu pensamento, da seguinte forma: os anseios elevados que os homens religiosos vivem em suas intimidades secretas os levam a pensar que são mais que humanos; em outras palavras, as pessoas que estão persuadidas de que possuem graças e saberes divinos invariavelmente concluem que valem mais do que as pessoas que possuem apenas saberes humanos. O fato religioso rompe a homogeneidade do real de que falava Mircea Eliade, fazendo com que o divino se anteponha ao humano.

Ora, lidar com o real significa lidar com nossa humanidade, com nossas potências. Não nos relacionamos com o real a partir do divino. Se nos livros sagrados Deus se apresenta de forma vingativa, violenta, cruel, criminosa, então evidentemente não se trata de manifestações de Deus. A religião deforma a imagem de Deus e, por conseguinte, deforma o religioso.

As representações de Deus invariavelmente resultam em ânsias de poder e dominação. Isso vale desde a religião da Mesopotâmia (Marduk, e seu equivalente semítico baal, “Senhor dos senhores”, “Rei dos resis”) até os títulos gregos e latinos (kyrios, dominus, déspotes, týrannos, pantokrátor etc.). A relação que se estabelece é do tipo vertical: do poderoso ao fraco, do seguro ao inseguro, do que está acima (divino) ao que está abaixo (humano). A verdade de fundo do fenômeno religioso é dar sentido ao problema do mal. O homem estaria viciado pelo pecado e, por isso, seu pecado deveria ser limpo não pela relação com o humano, mas pela submissão ao divino.

Ocorre que o Apóstolo Paulo nunca conheceu Jesus Cristo. Sim, claro, ele descreve seu encontro com Ele, mas com o Cristo ressuscitado, com um “ser divino”. Paulo deixou claro (2 Cor 5:16) que o Cristo “segundo a carne” não lhe interessava. Em suma, Paulo não se interessou pelo conhecimento humano de Jesus Cristo, mas pelo seu aspecto puramente divino, ressuscitado. De fato, Paulo continuou fiel à tradição religiosa de Israel.

A maioria dos primeiros cristãos se formaram e se organizaram como cristãos sem poder conhecer a humanidade de Jesus. Fica assim evidente que o cristianismo pôde sobreviver e se difundir como mais uma religião, uma religião de redenção, centrada na “outra vida”. Não como uma forma de viver (a forma de vida vivida e explicada por Jesus), centrada “nesta vida”, com a esperança na plenitude da ressurreição futura obviamente, mas sempre começando pela humanização deste mundo.

Castillo entende que há duas formas de viver a fé, duas formas de salvação. (1) Quando Jesus diz “tua fé te salvou”, Ele se refere à libertação dos sofrimentos, de carências, de dores, de rejeições sociais e religiosas; ou seja, à restauração integral da pessoa. Claro que Jesus se importava com a relação com Deus, mas o fato é que ele não viveu a religiosidade como nós entendemos a religiosidade. Em outras palavras, para Jesus Cristo a religiosidade não é observação de rituais, mas comportamento humano. (2) Para Paulo, salvar tem a ver com o destino eterno da pessoa, um evento escatológico, vindouro, do “além”.

Há três circunstâncias em que Castillo nota claramente a diferença entre Jesus e Paulo: (a) a desigualdade no tratamento da mulher, (b) a condenação da homossexualidade e (c) a normalização da escravidão. Na história da religiosidade cristã, a Igreja apenas renunciou a determinados comportamentos depois, e somente depois, que as condições sociais e ideológicos do entorno não mais permitiam praticá-las. Foi o caso, por exemplo, da Inquisição e da escravidão. Não é a religião cristã que fornece os critérios a partir dos quais devem ser abolidas as crueldades e desumanidades, mas, pelo contrário, é a sociedade que “arrasta” a religião para que seja complacente e justa com os seus.

As consequências da religião paulina são: (1) temor ao Deus de Abraão, chegando a dizer que Deus destinou Jesus Cristo para sacrifício de expiação de pecados (Romanos 3:25), (2) o pecado como centro da salvação humana, e assim Deus, como uma espécie de justiceiro, concede a bênção aos que passam pela maldição do pecado; sim, pois não se trata apenas do sacrifício de “oblação” ou “comunhão”, mas de agressão, de humilhação, de destruição que recai sobre os mais fracos; o Deus de Paulo odeia o pecado, o Deus de Jesus ama o pecador; o centro das preocupações do Deus de Paulo é o pecado (porque rompe com o divino), o centro das preocupações do Deus de Jesus é o sofrimento (porque rompe com o humano). Confira como Caio Fábio se ocupa da questão do sofrimento.

A preocupação máxima de João Batista era com o tema do pecado., [...] a imagem do “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Quando os evangelhos começam a relatar o que foi e como se desenvolveu a vida, a atividade e os ensinamentos de Jesus, a abordagem de tudo o que se refere ao tema do pecado muda completamente. Assim, quando os evangelhos falam do “pecado” (hamartía), eles não pretendem teorizar sobre a maldade ou suas consequências, mas simplesmente afirmar que Jesus, quando se depara com o pecado, perdoa imediatamente, sem impor condicionamentos ou exigências, isto é, sem exigir confissão, arrependimento, propósito de emenda ou cumprimento de pendência do pecador. É o caso concreto do paralítico (Marcos 2:5, Mateus 9:2, Lucas 5:20). [...] Tanto que a relação de Jesus com os pecadores foi motivo de escândalo para os observantes religiosos, sobretudo os fariseus e os doutores da lei.

Nota-se que a ética de Paulo é a ética do pecado, enquanto a ética de Jesus é a ética do delito. Aqui Castillo usa a palavra delito não no sentido jurídico, mas no sentido social: delito é ocultar a realidade, é ocultar as causas e os motivos do sofrimento humano, das injustiças, desigualdades, humilhações, fracassos, aflições, de tudo o que aniquila o homem, tudo o que lhe desordena, corrompe, aliena. O religioso se compraz em observar os preceitos e, assim, tranquilizar sua consciência. Não é isso que quer Jesus Cristo.

Castillo entende que o Apóstolo Paulo estava imerso numa cultura gnóstica e estoica, na qual o sexo é visto com desconfiança e mesmo repulsa. O dualismo platônico (espírito vs. corpo) aliou-se ao dualismo oriental (Irã, Índia), atribuindo caráter ilusório aos sentidos e, assim, desembocando num dualismo anticósmico, que abre um hiato entre Deus e o mundo. O corpo, a matéria, é inútil e, pior, perversa, e engana o homem que busca sua salvação. Só a gnosis pode salvar. Eis por que Paulo nunca se interessou pelo “Jesus histórico”, pelo “Jesus humano”. A relação com o Ser Supremo implica uma suprema desumanização.

No entanto, o Pai apresentado por Jesus sempre acolhe, sempre perdoa, não pede explicações, não “acerta contas”. A ira que aparece em Jesus Cristo é contra os demônios, contra os causadores de sofrimento, contra os perseguidores, contra os religiosos que ameaçam.

Outro tema que chama a atenção é a autoridade. Paulo parece estar sempre exigindo obediência, como se suas palavras fossem a do próprio Deus, como se negar a ele seria renegar o próprio Deus. Com frequência se arroga o título de “apóstolo”, como se isso fosse um diploma, um título, uma “carteirada”. Jesus, pelo contrário, repelia discussões acerca de quem era maior ou menor, quem seria primeiro “no dia da glória” (“Não sabeis o que pedis”, Mateus 20:22, Marcos 10:38). Ademais, Jesus notou que Pedro queria evangelizar com poder e comando, e por isso não aceitava que o Messias seria crucificado como um criminoso qualquer (“Afasta-te de mim, Satanás”, Mateus 16:23).

Por fim, cabe comentar a questão do culto sagrado. Jesus organizava cerimônias, ofícios, rituais, cultos, atos? Não. Jesus exigia sacrifícios? Não. Jesus ensinou batismo, eucaristia, confissão, unção, casamento? Não. Jesus exigiu conversão do centurião romano, da mulher cananeia, dos samaritanos, dos gregos? Não. O que Ele queria então? Jesus queria misericórdia (fazer justiça), pureza de coração. O fator determinante em Jesus Cristo não era a religião, mas a humanidade e sensibilidade ante o sofrimento ou a felicidade. Dois fatos saltam aos olhos aqui: (1) nas bodas de Caná ele substitui a água das “purificações rituais” pelo melhor vinho de uma festa de amor, (2) ele expulsa os vendilhões do templo substituindo o lugar supostamente sagrado pela relação pessoal. Na teologia de Jesus Cristo a adoração a Deus não se dá num espaço específico, mas “em espírito e verdade” (João 4:21-24). Os cristãos se reconhecem não pela igreja ou ritual que frequentam, mas pelo muito que se querem mutuamente (João 13:33-35).

Deus faz cair a chuva e o sol sobre bons e maus, Deus acolhe o filho extraviado, Deus se alegra no banquete com vagabundos de todos os tipos. Jesus Cristo não fundou nenhuma igreja ortodoxa, católica ou evangélica.

Fonte: José María Castillo, A humanidade de Jesus, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil, 2017.