Marcus Plested, em seu Orthodox
Readings of Aquinas, fez eco às observações de Gerhard Podskalsky,
segundo quem os cristãos ortodoxos posteriores a São Gregório Palamás,
"confrontados com a tradição teológica latina mais sofisticada, tiveram
apenas duas opções: espanto paralisante ou rejeição pura e simples".
Philip Sherrard, a exemplo de John Romanides e outros teólogos ortodoxos no
século XX, segue a segunda postura ao rejeitar in limine não
apenas a tradição aristotélico-tomista, mas ao descaracterizá-la a tal ponto de
torná-la irreconhecível. Mas seu interesse é duplo: não apenas apresenta
Aristóteles e Santo Tomás de Aquino com roupagens que não lhes poderiam caber,
mas introduz conceitos filosóficos estranhos à Ortodoxia fazendo de São
Gregório Palamás uma espécie de apóstolo de uma antiga religião grega dualista
rediviva pela "tradição cristã". Fica claro por que Andrew Louth via
na sofiologia de Sergey Bulgakov uma prefiguração de Philip Sherrard.
As diferenças entre “Oriente grego” e “Ocidente
latino” ficaram claras em sua obra e, por isso mesmo, não convincentes.
Sherrard fundamenta sua crítica ao chamado “Ocidente latino” em dois pontos:
(1) Aristóteles teria rompido uma antiga tradição monista grega, cujo último
expoente teria sido Platão, e inaugurado uma revolução filosófica ao implantar
um dualismo absoluto entre forma e matéria e, com isso, rejeitado o mesocosmo das
ideias platônicas. (2) Dessa forma, Aristóteles teria dado impulso a uma “exteriorização
do pensamento” (palavras de Sherrard), a partir da qual o escolasticismo em
geral, e Santo Tomás de Aquino em particular, teria intensificado, cujo
resultado se veria na subsequente dessacralização do mundo sensível (pois perde
contato com o mundo dos logoi, que lhe daria sentido) e no triunfo da
ciência moderna.
Particularmente vejo as críticas de
Sherrard um tanto decepcionantes. A maioria dos historiadores da Filosofia, e
mesmo os comentadores de Platão e Aristóteles, apontam precisamente o
contrário: Platão e seu Hiperurânio é considerado dualista (há uma dualidade
entre o mundo sensível e o mundo inteligível) e Aristóteles, ao reduzir matéria
e forma a princípios que se unificam na substância, teria unificado a verdade
na realidade. Por outro lado, Sherrard critica o tomismo por bloquear o acesso
místico às verdades reveladas, o que é curiosíssimo, uma vez que a graça divina
é um elemento central em sua teologia e mesmo em sua psicologia, uma vez que a
graça é um hábito entitativo. Por fim, a ideia de que a razão é algo externo e
alheio à interioridade é um velho preconceito kantiano, e a crítica à analogia
entis, quase idêntica à de John Romanides, apenas reforça esse aspecto.
O fato de Sherrard louvar o (suposto)
monismo platônico em seu Demiurgo, menosprezar o intelecto e o raciocínio como
algo enganador e “extrínseco”, considerar o intelecto humano como incriado
(claramente contrário à doutrina ortodoxa, portanto) e apontar o fim humano
como a identificação com o Intelecto mediante a participação nas energias
incriadas (e não mera união) ajuda a entender por que Sherrard é bem-vindo nos
meios perenialistas e gnósticos.
Deixo aqui um trecho que caracteriza um
pouco do que disse acima.
Essa distinção [no campo da verdade e da estrutura da realidade] talvez possa ser mais bem indicada por um resumo das respectivas visões dos dois filósofos [Platão e Aristóteles] sobre as relações entre forma e matéria informe, bem como sobre seu valor e significado. Na visão platônica, a existência sensível é o resultado da interação entre o princípio da forma e a matéria informe. Mas, embora no plano da existência sensível possa parecer haver uma oposição ou dualidade entre forma e matéria, essa oposição ou dualidade não é absoluta. Pois, em primeiro lugar, o princípio da forma, o que Platão chama de Demiurgo, não é a realidade suprema, o Bem; é uma determinação do Bem, enquanto o próprio Bem transcende todas as características formais. Em segundo lugar, a matéria informe (χώρα) de Platão não é a substância da qual as coisas são feitas, o ὕλη aristotélico: é algo que a precede, o “receptáculo” no qual as coisas sensíveis vêm a existir; nem, ao contrário do ὕλη aristotélico, se diz que “preexiste”: origina-se e (“embora de maneira muito obscura”) participa dessa mesma realidade pré-formal e “indeterminada” da qual deriva o próprio princípio da forma. Assim, tanto a forma quanto a matéria informe possuem um valor e um significado que não dependem, em última análise, de sua relação mútua, nem da subordinação de uma à outra, mas do fato de ambas terem sua origem nessa realidade suprema na qual sua aparente oposição ou dualidade é transcendida e absorvida.
Além disso, as múltiplas formas em si, ou Ideias, como Platão as chama, sinteticamente contidas, ou reunidas, no ser do Princípio criador formal, não são meramente transcendentes e “ideais” em relação à multiplicidade de objetos sensíveis que determinam; pelo contrário, elas também estão presentes, ou imanentes, nos próprios objetos: a criatura possui sua própria natureza inteligível por meio da participação efetiva na causa criadora que a trouxe à existência. Ao mesmo tempo, essas Ideias, ou formas principiais, têm uma realidade objetiva própria, bastante independente tanto de seus objetos sensíveis correspondentes quanto da mente de qualquer sujeito pensante individual. Assim, por um lado, como determinações da natureza absoluta do Divino, elas podem ser distinguidas dele; e, por outro lado, embora condicionem e estejam presentes em seus objetos sensíveis correspondentes, são, no entanto, independentes deles.
A mudança nessa visão platônica das coisas, introduzida por Aristóteles — que, como dissemos, equivale a uma exteriorização do pensamento — centra-se precisamente na rejeição, por parte deste, da realidade objetiva dessas formas criadoras, ou Ideias. De fato, Aristóteles era incapaz de visualizar a existência de tais formas separadamente de seus objetos sensíveis. Isso, por sua vez, tinha seu paralelo em sua incapacidade de visualizar um princípio criador, não apenas dos objetos sensíveis, mas das próprias formas criadoras. O princípio supremo de Aristóteles, o Primeiro Motor, não é a realidade pré-formal e indeterminada da qual o princípio da forma cósmica e as Ideias criadoras são determinações, nem é realmente o princípio criador dos objetos sensíveis atuais. Em vez disso, é a perfeição ideal e imutável de todas as formas cuja existência atual depende de seus objetos sensíveis. Além disso, não há relação direta entre esse Primeiro Motor e as formas que existem nos objetos materiais, nem estes últimos podem participar daquele, embora possam ser, e sejam, atraídos por ele. Ao mesmo tempo, a matéria, na qual essas formas existem, mas que em si mesma é informe, não pode ter sua própria origem, ou princípio, no Divino, pela simples razão de que este, sendo agora identificado exclusivamente com a perfeição da forma, não pode produzir o que é informe. A matéria deve, portanto, ser considerada preexistente e não divina, e, de fato, o oposto do Divino. Na medida em que a Realidade absoluta é identificada com uma perfeição formal, o que possui forma possuirá, em grau correspondente, realidade, enquanto o que não possui forma, a matéria informe, é, por essa razão, irreal. Em outras palavras, existe um dualismo absoluto, e não meramente relativo, entre forma e matéria informe; e o que a exteriorização do pensamento representa é uma falha em reconhecer e realizar qualquer princípio superior a ambos e que os abranja.
Fonte: Philip Sherrard, The Greek East and the Latin West, Oxford University Press, Londres, Reino Unido, 1959.
