Até agora, nesta análise da injustiça
característica do capitalismo, tentei deixar claro que, quando os defensores do
capitalismo apontam, com razão, que ele foi capaz de gerar prosperidade
material em um nível mais elevado e para mais pessoas do que qualquer outro
sistema econômico na história da humanidade, o que eles dizem é irrelevante
como refutação das acusações de injustiça. Mas o crescente padrão de
prosperidade material nas economias capitalistas está intimamente ligado a
outro aspecto de seu fracasso em relação à justiça. Não se trata apenas de
indivíduos e grupos não receberem o que merecem, mas também de serem educados,
ou melhor, mal-educados, a acreditarem que o que devem almejar e esperar não é
o que merecem, mas sim o que desejam. A tentativa é fazê-los se
considerarem, primordialmente, consumidores cujas atividades práticas e
produtivas não passam de um meio para o consumo. O que constitui sucesso na
vida torna-se uma questão de aquisição bem-sucedida de bens de consumo, e,
assim, essa avidez, que tantas vezes é uma característica necessária para o
sucesso na acumulação de capital, é ainda mais legitimada. Não
surpreendentemente, a pleonexia, o impulso de ter cada vez mais, passa a
ser tratada como uma virtude central. Mas os teólogos cristãos da Idade Média
aprenderam com Aristóteles, bem como com as Escrituras, que a pleonexia
é o vício que contrapõe a virtude da justiça. E eles compreenderam, ao
contrário do que os teólogos posteriores não conseguiram fazer, a forte ligação
entre o capitalismo em ascensão e o pecado da usura. Portanto, não é que a
simples pecaminosidade humana generalizada gere atos individuais de injustiça numa
sociedade capitalista. O capitalismo em si também oferece incentivos
sistemáticos para o desenvolvimento de um tipo de caráter com propensão à
injustiça.
Por fim, é importante notar que, embora as
críticas cristãs ao capitalismo tenham corretamente focado a atenção nos males
cometidos contra os pobres e explorados, o Cristianismo precisa considerar
qualquer ordem social e econômica que trate a ideia de que enriquecer seja desejável
como um ato imoral mesmo àqueles que, tendo aceitado esse objetivo, consigam alcançá-lo.
Do ponto de vista bíblico, a riqueza é uma miséria, um obstáculo quase
intransponível para entrar no reino dos céus. O capitalismo é perverso
tanto para aqueles que prosperam segundo seus padrões quanto para aqueles que
fracassam, algo que muitos pregadores e teólogos não reconheceram. E os
cristãos que o reconheceram muitas vezes se viram em desacordo com as
autoridades eclesiásticas, políticas e econômicas.
Fonte: Alasdair MacIntyre, Ethics and Politics,
Volume 2, Cambridge University Press, Nova York, NY, EUA, 2006.
