23 de novembro de 2022

As características fundamentais da vida adulta


É certo que cada pessoa tem suas próprias características, seus próprios valores e suas próprias atitudes. Mas aqui do que vamos tratar são as características fundamentais que marcam a passagem da vida infanto-juvenil para a vida adulta. Não me refiro às características físicas, sobre as quais um bom manual de anatomia basta para delineá-las: diferenças em tamanho, musculatura, desenvolvimento cerebral, produção hormonal etc., são visíveis e, dadas as condições mínimas de cuidado e alimentação, inevitáveis. Por outro lado, tampouco me refiro às características sociais, como levar uma vida independente e produtiva, mesmo porque tais traços também são de certa forma visíveis e sobre as quais restam poucas dúvidas. Me refiro às características psicológicas, por definição invisíveis, que devem estar presentes para que uma "criança grande" possa adentrar à vida adulta e buscar sua realização pessoal.

Tais características não surgem naturalmente, como é o caso das características físicas. A simples passagem do tempo não basta para que se desenvolvam. É necessário o emprego da intenção consciente, de um esforço pessoal e contínuo, para que possam estabelecer-se como hábitos mentais e, por conseguinte, como parte de uma identidade adulta, saudável e sensata.

As diversas terapias cognitivo-comportamentais listam alguns comportamentos e valores que habitualmente se encontram em adultos saudáveis e mnimamente desenvlvidos. Aqui tomaremos as características listadas pela psicóloga espanhola Leonor Lega, embora pequenas variações possam ser encontradas em outras obras.

(1) Responsabilidade emocional vs. irresponsabilidade emocional

As pessoas saudáveis tendem a aceitar a resposabilidade por sua própria existência em vez de culpar o passado, os outros ou as condições sociais por seus pensamentos, sentimentos e comportamentos disfuncionais. Elas são capazesde escolher com liberdade suas própria emoções, comportamentos e estilo de vida.

As pessoas saudáveis sabem que elas mesmas são as principais responsáveis por seus próprios transtornos. Elas não dizem "Ele me ofendeu", mas "Eu me ofendi". Isso significa que não é "ele" (seja esse "ele" quem seja) que é injusto, que lhe causa malestar, que não é razoável, que lhe prejudica, que não tem direito de fazer o que fez etc., mas apenas que ele está louco, que ele está muito perturbado, que ele tem direito a estar enganado, que sua conduta é má etc. Observe que em lugar de sentir raiva, que não apenas é um sentimento negativo mas insalubre, sentimos aborrecimento, pesar e decepção, que são sentimentos negativos mas saudáveis.

(2) Autointeresse vs. interesse social

As pessoas sensatas e emocionalmente saudáveis tendem a estar interessadas prioritária e fudamentalmente em si mesmas, e a colocar ligeiramente à frente seus próprios intereses em relação aos interesses dos outros. Elas se sacrificam a si mesmas por aquelas que estimam, mas só até certo ponto, nunca de forma completa ou totalmente entregada. Os seres humanos se preocupam sobretudo de si mesmos, se interessam, basicamente, por seu próprio bem-estar e por sua própria sobrevivência.

A ideia aqui não é ser egoísta, ou seja, usar o próximo para seu próprio benefício, mas tampouco permitir que o próximo seja um elemento que promova sua destruição, não importa se o faça consciente ou inconscientemente. O interesse social (familiar, laboral, escolar, comunitário, religioso, não importa) é racional, pois escolhemos viver em comunidade, mas passa a ser insensato se tal convivio implica em sacrificar-se enquanto pessoa, enquanto ser humano, enquanto adulto.

(3) Autodireção vs. dependência

As pessoas adultas, ao assumirem responsabilidades e compromissos, tendem a tomar as rédeas de suas próprias vidas e podem cooperar, apoiar e colaborar com os demais. Mas não precisam ou exigem um apoio ou socorro constantes dos outros.

A autodireção ensina às pessoas a saberem o que querem fazer de suas vidas, a seguirem seus caminhos e a tomarem suas próprias decisões, mesmo que fracassem ou se enganem, e a não a seguirem cegamente o que dizem seus pais ou outras pessoas. O adulto controla sua vida, pensa por si mesmo e é autônomo em suas decisões. Ele escolhe suas próprias metas, persegue ativamente seus próprios objetivos, toma suas próprias decisões e supera as dificuldades que surgem pelo caminho.

(4) Flexibilidade vs. rigidez

Os indivíduos adultos, sãos e maduros tendem a ser flexíveis em sua forma de pensar, abertos à mudança, tolerantes e pluralistas em sua visão das coisas e das pessoas. Não estabelecem regras rígidas e inamovíveis acerca de si mesmos e dos demais. O pensamento flexível permite ajustar-se, gerenciar melhor o tempo, romper a monotonia e adaptar-se às novas circunstânias que requerem novas formas de pensar e agir. Um visão extremista das coisas, um visão "8 ou 80", resultará em problemas.

Mas exatamente o quê devemos flexibilizar? Precisamente os valores que se situam abaixo dos valores que aqui elencamos. Os valores devem ser encarados como preferências, não como normas rígidas. Se aparece uma nova informação que põe em xeque uma visão que temos sobre determinado assunto ou mesmo sobre a vida como um todo, convém que a adaptemos. Os valores não somos nós. Nós temos valores, não os valores a nós. Portanto, para um adulto, a mudança é um desafio, não uma ameaça. 

(5) Incerteza vs. certeza absoluta

Os adultos tendem a reconhecer e aceitar a ideia de que vivem em um mundo de incertezas e probabilidades, onde não existem as certezas absolutas. Se dão conta, inclusive, que viver nesta vida incerta é às vezes fascinante e divertido, não algo terrível. Importante: a incerteza aqui refere-se ao futuro, ou seja, viver com certo grau de ordem e organização é, sim, benéfico, desde que não se exija saber exatamente o que acontecerá no futuro.

A vida é como uma roleta de cassino: nunca se sabe se, e quando, vai sair o prêmio para você. Melhor que a segurança e a certeza é a aceitação de que não podemos controlar o futuro.

(6) Interesse vital vs. desinteresse vital

A maoria das pessoas tende a sentir-se mais sãs e felizes quando estão vitalmente ocupadas em um projeto alheio a si mesmas, seja em um tema de interesse coletivo, seja algum comprmisso humano, ao qual outorgam tanta importância que planejam boa parte de sua vida diária em função desse interesse ou compromisso.

Uma vida com pouco ou nenhum compromisso acarreta em aborrecimento, insatisfação e mesmo depressão. O próprio indivíduo escolhe seus interesses, seja a educação física, intelectual ou espiritual, seja alguma atividade extra-laboral, seja costurar etc. Esas metas são especialmente importantes conforme envelhecemos e os objetivos meramente laborais perdem sua relevância e interesse e criar os filhos perde o sentido.

(7) Pensamento científico vs. pensamento mágico

Os adultos tendem a ser mais objetivos, racionais e científicos. São capazes de sentir profundamente e agir de maneira concentrada, e tendem a regular suas emoções e ações refletindo sobre elas e avaliando as consequências de suas condutas a curto e longo prazo.

A perspectiva religiosa ou mística não deve ser a base da vida adulta, e sim a evidência científica. Qualquer traço de fanatismo ou visão sectária e preconceituosa deve ser recusada in limine. Assim também uma teoria científica, para ser levada a sério, deve ser comprovada cientificamente.

Infelizmente parece que o ser humano tende a pensar de forma mágica, criando neuroses e transtornos emocionais a partir de pensamentos completamente ilógicos. Qualquer hipótese que não se demonstre empiricamente deve ser vista como mágica.

(8) Risco vs. controle

Uma vida perfeitamente predizível e segura em geral resulta insatisfatória, monótona e aborrecida. As pessoas adultas e, portanto, emocionalmente saudáveis, tendem a assumir riscos, aprender coisas novas, levar a cabo ações nas quais não se tem garantia de sucesso, iniciam novas relações pessoais etc. mesmo que existam muitas possibilidades de fracassar. 

E por que assumir riscos é importante? Porque essa é a forma de se conhecer nossos limites pessoais, expandir nossos interesses, resolver problemas e desenvolver habilidades. Em suma, é mediante as experiências que arriscamos viver que expandimos nossa personalidade e testamos nosso caráter.

A propósito, a palavra "risco" é equívoca aqui. Ora, só existe "risco" quando imaginamos que algo possa dar errado. Mas se não pensamos que tudo tem que funcionar perfeitamente, então não há "risco" propriamente. A ansiedade é a predição de um horror futuro que está na cabeça do indivíduo. Claro que "errado" é quando as coisas não funcionam como queremos, mas nada disso é terrivel ou espantoso.

(9) Felicidade vs. contentamento

Os adultos saudáveis sabem trocar os prazeres imediatos pela felicidade futura. Em outras palavras, aprendem que desenvolver-se como pessoa e ampliar sua consciência vale mais do que a obtenção dos pequenos contentamentos de curto prazo. Comer é gostoso, mas ter um corpo bonito e saudável é melhor. A experiência de comer é boa, mas a experiência de ser capaz de educar e direcionar o próprio corpo é muitíssimo melhor. Idem para bebida, álcool, drogas, dinheiro, sexo, bens móveis e imóveis, compras etc.

Os prazeres imediatos têm, sim, seu papel na vida adulta, mas eles são inseridos de maneira racional, de maneira que façam parte da experiência total de longo prazo do indivíduo, não que sejam elas mesmas a experiência principal da vida.

Conclusão

A vida adulta não é uma vida consciente, da qual até mesmo os animais disfrutam, mas uma vida autoconsciente, ou seja, uma vida na qual a consciência superior (noûs) não esteja dispersa nas correntes e movimentos da alma inferior (desejos, imaginações, devaneios, sensações, memórias, subconsciente) e do corpo, mas conduza todos esses elementos e os alinhe de acordo com aquilo que seja condigno para a vida da alma superior (noûs, logos, pneuma). As características aqui indicadas são as balizas dentro das quais o homem adulto deve viver, mas elas mesmas não fornecem os valores e os sentidos para a vida de cada um.

Quem sabe assim o noûs, liberto dos devaneios da vida infanto-juvenil do ego, possa estar preparado para abraçar uma nova identidade, uma nova dimensão, digamos, dada por aqueles que se encontram ontologicamente acima dele: os anjos, os logoi das coisas criadas, os santos e o próprio Espírito. Mas isso é uma nova aventura, um capítulo completamente novo e fresco na vida de nossa raça.

Fonte: Leonor Lega,  Terapia Racional Emotiva Conductual, Ediciones Paidós, Barcelona, Espanha, 2017.

Imagem: Mulher com frutas, pintura de 1931 do artista eslovaco Martin Benka. 

18 de novembro de 2022

Trágica vs. moral: as visões sobre a natureza humana


O economista alemão Ernst Schumacher dizia em seu Guide for the Perplexed que há no mundo dois tipos de problemas: os convergentes e os divergentes. Os convergentes são aqueles que se resolvem mediante o emprego de inteligência e tempo. Problemas desse tipo encontramos nas engenharias, por exemplo, nas quais um dispositivo, máquina ou equipamento é construído com inversão de horas, mão-de-obra e capital.

Os problemas divergentes não são assim. Eles tocam temas complexos que não se referem ao mundo material, mas ao mundo imaterial, interior, espiritual. Exigem experiência, profundidade, ponderação, maturidade, tato, compromissos. Lidam com o imponderável, com o arbítrio, com sonhos, com visões de mundo, com relacionamentos. Aqui a mentalidade lógica, simplória e concreta da ciência e da tecnologia não os alcançam, e não é incomum que ofereçam soluções simples e erradas para problemas complexos. As abordagens dos problemas divergentes normalmente se cristalizam em polos, que podem ser dois ou mais, e a solução do problema, se é que há uma, frequentemente passa por ponderar qual polo, ou quais aspectos de cada polo, podem ser aplicados em dado momento. Schumacher cita como exemplo a questão da educação infantil. Qual o melhor método para educar uma criança? Devemos ser liberais ou rígidos? A pedagogia nos oferece alguns caminhos, mas a resposta será sempre "depende". O mesmo vale para hipertrofia muscular, alimentação, ensino de idiomas, gestão de pessoas, entre outros. A vida é maior do que a lógica.

O cientista político americano Thomas Sowell também notou esse fenômeno e em sua obra-prima A Conflict of Visions tratou precisamente de apresentar quais são esses polos, ou "visões", que dominam o âmbito da política. Vejamos como ele se sai.

* * *

Sowell fala de "visões", não de ideologias. As ideologias, diz ele, se derivarão logicamente das visões, mas as visões em si são produto de uma maneira de enxergar o mundo, a história, a sociedade e, acima de tudo, a natureza do homem. Em outras palavras, não há uma maneira precisa ou "científica" que garanta que as duas visões apresentadas por Sowell sejam de fato aquelas que predominam na ciência política. É uma questão de experiência, bom senso e, claro, conhecimento histórico.

As visões são como premissas de um conjunto de pensamentos. São elas que os moldam, digamos. Por trás dos conflitos de interesses, das conspirações, das alianças, dos subornos, das chantagens, dos discursos -- por trás de tudo isso estão as duas visões, ou duas categorias de visões, que de maneira invisível, sutil, mas decisiva, conduzem os rumos politicos do concerto das nações.

As duas visões são a visão restrita e a visão irrestrita. Nenhuma é melhor que a outra. Nenhuma é mais precisa que a outra. Ambas coexistem, ambas se comunicam, ambas se misturam em determinados autores, mas ambas podem ser claramente identificadas.

Os adeptos da visão restrita em geral enxergam a natureza humana como egcêntrica, moralmente limitada, essencialmente corrupta e imperfectível. O desafio não está tanto em aperfeiçoar o comportamento dos homens, pois este tende a mover-se dentro das limitações de sua natureza, mas em procurar extrair o melhor dentro de suas possibilidades. O progresso social se dá mediante permutas e o incentivo de valores que promovam a coesão social como honra e nobreza. O prorgesso está no processo. Exemplos de pensadores desta visão: Adam Smith, Thomas Hobbes, Edmund Burke, Oliver Wendell Holmes, Milton Friedman, Friedrich Hayek.

Os adeptos da visão irrestrita em geral enxergam a natureza humana como altruista, moralmente aperfeiçoável, essencialmente benevolente e perfectível. O desafio não está tanto em aperfeiçoar as sociedades, pois estas tendem a impedir o desenvolvimento dos homens, mas em procurar libertá-las o mais que possível. O progresso social se dá mediante a aplicação de soluções que promovam a liberdade de ação e pensamento dos homens. O progresso está no resultado. Exemplos de pensadores desta visão: Jean-Jacques Rousseau, Voltaire, Condorcet, Thomas Paine, Holbach, Saint-Simon, Robert Owen, George Bernard Shaw, Harold Laski, Thorstein Veblen, John Kenneth Galbraith, Ronald Dworkin, Earl Warren.

Há dois grandes pensadores que não se encaixam claramente em nenhuma das duas visões: John Stuart Mill e Karl Marx.

Na visão restrita, o conhecimento de um indivíduo, ou de um conjunto de indivíduos, jamais suplantará a experiência transmitida pelas instituições sociais, seja mediante um sistema de preços, seja pelas diversas tradições incorporadas na sociedade. Há muito mais inteligência presente no sistema de regras de conduta do que na inteligência de um homem, ou mesmo de alguns homens. A experiência dos povos está condensada nos sentimentos, formalidades e até mesmo preconceitos de sua cultura e comportamentos.

Na visão irrestrita, a razão é o elemento primordial. É o poder racional de uma mente culta que tem, ou deveria ter, predominância na sociedade. Somente pelo poder da ponderação e da meditação racional que podemos alcançar verdades gerais de benefício social. A validação deve ser algo direto, individual, intencional. As pessoas de mente estreita, aquelas cujo horizonte de consciência é limitado, não podem ser comparadas às pessoas cultas, sábias e inteligentes. A missão social dessas pessoas é infundir visões sociais justas nos membros bem educados e formados da sociedade, que, por sua vez, servirão como guias e instrutores do povo em geral.

Os membros da visão restrita tendem a criar condições que impeçam o surgimento de desigualdades de poder que uma elite governante possa acumular.

Os membros da visão irrestrita tendem a criar condições sociais e econômicas equalizantes, mesmo que isso implique em desigualdades no direito individual de decidir sobre essas questões. 

Na visão restrita, o elemento moral central é a fidelidade ao seu dever na sociedade. O empresário deve ser fiel aos acionistas, o juiz deve ser fiel à lei, o inteletual deve ser fiel à promoção intelectual de seus alunos e leitores. Na visão irrestrita, o elemento moral central é a sinceridade e dedicação ao bem comum, em especial nos indivíduos sábios e conscientes.

Na visão restrita, os velhos são incomparavelmente superiores aos jovens em sabedoria e experiência, daí serem eles os elementos mais valorizados na sociedade. Na visão irrestrita, os jovens apresentam inegáveis vantagens sobre os velhos, pois as enfermidades do mundo são produto das crenças e instituições existentes, e o fato de eles terem sido pouco expostos a elas os tornam elementos importantes no melhoramento social. Preconceito e avareza, eis as características típicas dos velhos.

Em termos comportamentais, os defensores da visão irrestrita da natureza humana afirmam que os comprometimentos intertemporais não são imparciais, ou seja, a lealdade, as promessas, o patriotismo, a gratidão, os precedentes, os juramentos de fidelidade, as constituições, os casamentos, as tradições sociais, os tratados internacionais, tudo isso são restrições impostas no passado, quando o conhecimento era inferior, sobre o conhecimento contemporâneo, que é necessariamente superior.

Os membros da visão restrita da natureza humana veem com enorme desconfiança as "ciências sociais", que seriam um delírio pretencioso de fazer ciência onde os pressupostos para uma ciência não existe. Similarmente, um juiz de direito jamais deveria tentar fazer "justiça social" na aplicação das leis.

A abordagem que dão à liberdade é marcadamente distinta em ambas visões. Na visão restrita, a liberdade é um processo caracteristico: é a ausência de impedimentos externamente impostos. Na visão irrestrita, a liberdade é abordada assim, mas com um acréscimo: também é a ausência de limitações circunstanciais que reduzem o leque de escolhas.

Quanto à igualdade, para os adeptos da visão restrita basta que o processo garanta tratamento igual a todos os membros. Mas os adeptos da visão irrestrita não encaram assim: os resultados também devem ser equalizados. Veja que "igualdade de oportunidade" ou "igualdade perante a lei" também são conceitos diferentes entre as visões: para a visão restrita significa que os membros da sociedade são tratados igualmente; para a visão irrestrita, é igualar as probabilidades de alcançar resultados desejados, seja na educação, no emprego ou na justiça.

A guerra, na visão irrestrita, é uma catástrofe resultado de desentendimentos ou emoções paranóicas, cuja resolução deve provir da influência de membros intelectual e moralmente capacitados. É causada pelas instituições. Na visão restrita, a guerra é resultado da natureza humana e deve ser evitada mediante o preparo militar generalizado e o consequente aumento de custos nela envolvido. É mitigada pelas instituições.

Similarmente, os membros da visão restrita veem o crime como algo natural, ou seja, como algo parte da natureza humana, que tendem a elevar os ditames do ego acima dos interesses e sentimentos alheios. O castigo é um fator necessário, digamos, e ademais não tem o objetivo de recuperr o preso. Mas para os defensores da visão irrestrira, o crime tem necessariamente uma causa social, seja na forma de injustiças, insensibilidades ou brutalidades sociais. O castigo é uma vingança desnecessária, digamos, e ademais pode ter o objetivo de recuperar o preso.

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A título de conclusão, ou comentário geral, embora Sowell não o diga, fica claro que a visão restrita é típica dos conservadores e a visão irrestrita é típica dos progressistas. No entanto, e como já havia dito, ambas visões estão corretas e incorretas a depender do contexto em que se encontram. Não há uma "visão melhor" que a outra, mas parece que há algo na visão restrita que escapa aos conservadores.

Se o conhecimento disperso na sociedade na forma de tradição, instituições, preços, direito etc. é superior ao conhecimento individual, atomizado, das "mentes cultas" -- como pregram os ideólogos conservadores -- e se foi no seio dessa mesma sociedade tradicional que se formaram os processos revolucionários que deram origem aos regimes democráticos liberais, socialistas e demais modelos modernos e pós-modernos, então que sentido tem uma volta ao passado, um reacionarismo monárquico, um conservadorismo retrógrado? O conservadorismo só tem sentido como diferença de grau em relação ao progressismo, e não de tipo. É um "progressismo light", na melhor das hpóteses.

O consrvadorismo perdeu no seu próprio terreno e com suas próprias regras.

Fonte: Thomas Sowell, A Conflict of Visions, Basic Books, Nova York, EUA, 2007.

14 de novembro de 2022

Alguns conceitos filosóficos de Józef Bochenski


Filosofar é preciso. É até mesmo inevitável. Embora o uso da autoconsciência (noûs) seja algo que exija esforço intencional, um certo distanciamento do turbilhão de impressões e pensamentos que trafegam pela consciência, há momentos na vida de todos os homens que questões alheias aos interesses imediatos, laborais, familiares e sociais se apresentam de maneira imperiosa, que demandam respostas sem as quais perdemos a capacidade de nos orientar. São questões ou "problemas" cuja resolução é necessária como uma bússola é necessária a um navegante. Navegar é preciso, e orientar-se nessa navegação é ainda mais preciso. 

Assim que seria interessante conhecermos como o filósofo polonês Józef Maria Bochenski apresenta e pensa sobre alguns desses assuntos. De uma adolescência dissoluta e anarquista, Bochenski decidiu tomar as rédeas de seus pensamentos e sentimentos e empreendeu uma longa e frutífera carreira intelectual no seio da filosofia, em especial da lógica e da teologia.

(1) Onde ficam as leis do mundo?

A lei entra profudamente em nossa vida. Ela é o elemento de clareza e racionalidade em nossa visão de mundo. Se pensarmos, por exemplo, em uma lei da física ou sobre as relações matemáticas, constatamos que a lei, a despeito dos demais entes da realidade, não se encontra em um lugar específica (espaço), não começou nem terminará num tempo determinado, não está submetida a mudanças e não se aplica a indivíduos ou situações particulares, mas é de caráter geral. Mas, acima de tudo, e talvez o mais importante de tudo, a lei é necessária, ou seja, ela não pode ser de outro modo a não ser da maneira como se enuncia.

Porém tudo isso e estranho. O mundo é muito diferente das leis. O mundo se nos apresenta como familiar, temporal, espacial, perecível, individual e contingente. Eis o problema filosófico: todas as ciências dão por bem a existência das leis. As ciências enunciam leis, as buscam e investigam, mas nenhuma dessas ciências se interessa por dizer o quê, afinal, é uma lei.

Aimensa maioria dos filósofos afirma que as leis são algo que não depende de nosso espírito nem de nosso pensamento. Nós, homens, só podemos conhecê-las melhor ou pior, mas não criá-las, assim como não podemos criar, pela "força do pensamento", uma pedra, uma árvore ou um animal. Isso supõe que as leis contituem uma segunda espécie de ente, algo que é inteiramente outra. Diz-se que as leis pertencem ao ser ideal. Em outras palavras, há dois tipos de ente: o real e o ideal.

Há distintas escolas de pensamento segundo a maneira de conceber esse ideal. A primeira diz que o ideal existe independentemente do real. Tudo no mundo ideal é puro, eterno, imutável e necessário. Platão é o grande representante dessa teoria. A segunda diz que o ideal existe no real, ou seja, como que "junto" do real. As fórmulas das leis possuem um fundamento nas coisas, e por aí regem o mundo. Aristoteles é o mais famoso expoente dessa teoria. A terceira afirma que o ideal se dá no pensamento, ou seja, as leis se originam por uma projeção das leis do pensamento. Kant defendia essa solução.

(2) O que é filosofia?

Bochenski acredita que a filosofia não pode ser identificada com as ciências especiais nem limitada a apenas um terreno. Pode ocorrer, e de fato ocorre, que a filosofia trate dos mesmos objetos dos quais se ocupam as outras ciências. Mas qual a diferença?

A filosofia se distingue por seu método porque ao filósofo não se lhe veda nenhum dos métodos de conhecer. O filósofo não tem por que limitar-se a um método empírico e reducionista. Pode valer-se da intuição dos dados, por exemplo. O ponto de vista que adota também é diferente, no sentido de que a filosofia mira sempre e exclusivamente desde o ponto de vista do limite, dos aspectos fundamentais, das questões que trata. As ciências conhecem, a filosofia estuda o que é conhecer. As ciências estabelecem leis, a filosofia estuda o que é uma lei. O homem fala de sentido da vida, a filosofia estuda o que é sentido e finalidade.

(3) Chegamos a realmente conhecer alguma coisa?

Um físico, um botânico, um historiador e qualquer um de nós, na vida diária, supomos que existem coisase que podemos conhecê-las. Mas os céticos duvidam disso. Dizem eles que nda pode ser conhecido. Mas se é assim, como essa mesma afirmação se sustentaria? Por outro lado, se realmente existem coisas e podemos conhecê-las, essa hipótese se harmoniza com quase tudo o que eperimentamos. A diferença entre o que chamamos realidade e a aparêcia cosiste em que a realidade está ordenada, nela mandam leis, enquanto que a aparência não se rege por nenhuma ordem. Ora, essa ordem, no mundo de nossa experiência, reina quase que por toda parte. Bochenski se deixa levar pelo bom senso: é "evidente" que existem coisas e que podemos conhecê-las.

(4) O que é verdade?

Há dois conceitos gerais de verdade. A verdade ontológica, ou seja, aquela em que uma coisa corresponde a uma ideia/juízo/proposição ("este metal é feito de ouro de verdade", o que está em jogo é se a coisa é verdadeira), e a verdade lógica, ou seja, aquela em que uma ideia/juízo/proposição corresponde a uma coisa ("o sol está brilhando hoje", o que está em jogo é se ojuízo é verdadeiro). Bochenski se limita a este segundo caso. 

Ele explica que há duas possíveis interpretações da realidade: 

(a) O idealismo, segundo o qual o conhecimento cria seus próprios objetos. Aqui há um problema: é evidente que nosso pensamento pessoal e individual pode criar muito pouco, basicamente entes de razão, imaginações ou fantasmas, e mesmo esse pouco é feito de elementos que não criamos, mas apenas combinamos. Daí que os idealistas se veem forçados a supor um duplo sujeito, o "eu empírico" (um eu "menor") e o "eu absoluto" (um eu "maior"). É este eu absoluto, transcendente, que cria os objetos.

(b) O realismo, segundo o qual o conhecimento é apreendido pelo conhecedor. Os realistas veem o idelismo como problemático, quase supersticioso. Por sua vez, os realistas explicam as dificuldades de sua própria interpretação explicando que a fronteira entre o conhecedor e o mundo exterior não precisa estar na pele do homem, mas onde se dá o trânsito entre os processos físicos e psíquicos. É como se os óculos, ou os olhos, os responsáveis pelo efeito ou resultado do que experimentamos.

A despeito de qual interpretação seja a correta -- Bochenski acredita ser o realismo --, a decisão tem que ser total, ou seja, ou não existe em absoluto o mundo exterior e nosso espírito cria tudo, ou que ele não cria nada, a não ser a combinação de conteúdos, e que tudo o que conhecemos há de existir de alguma maneira fora do espírito.

(5) O que é pensamento científico?

De modo muito geral, se chama "pensamento" todo movimento em nossas ideias, imaginações, conceitos etc. O pensamento científico é um pensamento sério, disciplinado. Um homem que pensa com seriedade não deixa que suas ideias e conceitos flutuem livremente diante dele, mas os endireita e organiza rigorosamente para um fim determinado: para o saber.

Há somente dois casos possíveis para que se dê o pensamento: o objeto de pensamento é dado ou não é dado. Se é dado, então há somente uma possibilidade de saber algo sobre ele: por dedução e conclusão. Não existe uma terceira via de conhecimento. É verdade que se pode acreditar em algo, mas crear não é saber. O saber somente vem da observação do objeto dado ou da dedução e conclusão.

Para realizar uma concluão é fundamental sempre, sem exceção, que tenhamos como pressupostos duas coisas: de uma lado, certas premissas, ou seja, juízos, proposições que se dão por conhecidas e verdadeiras ou de algum modo se admitem; por outro lado, certas regras lógicas segundo as quais se tire uma conclusão.

As regras lógicas são infalíveis. No entanto, há muitas regras que são falíveis. E o delicado aqui é que na vida e nas ciências tais regras falíveis desempenham um papel muito mais frequente que as regras infalíveis. Por exemplo, na indução temos como premissa que alguns indivíduos se comportam assim ou assado. Por outro lado, sabemos pela lógica que, se todos os indivíduos se comportam de um modo determinado, também se comportarão assim alguns. Ora, do comportamento de alguns cocluímos que é o comportamento de todos. Em suma: se todos, logo alguns; portanto, se alguns, logo todos. Sim, claro,a ciência moderna desenvolveu métodos sofisticados para confirmar suas conclusões falíveis. No entanto, isso não altera o fato de que a ciência avança mediante regras falíveis. O resultado é que as torias científicas não são nunca verdades inteiramente certas. Tudo o que a ciência pode alcançar são probabilidades. Que razão temos para crer que o sol nascerá amanhã? Dizer que sempre tem sido assim não é razão suficiente.

A ciência é falível, e se nos encontramos uma evidência que vá de encontro ao que afirma a ciência, temos de estar do lado da evidência, e não das teorias científicas. Infelizmente acontece de cientistas pontificarem sobre temas dos quais pouco ou nada têm a ver com sua especialidade. O que tentam fazer é preencher o enorme vazio do saber científico com suas opiniões filosóficas amadoras e, o mais das vezes, grosseiramente ingênuas e falsas. Que a população em geral o faça é natural, mas quando esse comportamento vem de cientistas, que hoje em dia gozam de grande prestígio, o poder de enganar os incautos é multiplicado por mil. Daí vem boa parte da exaltação e do desvario contemporâneos.

(6) Como atribuímos valor âs coisas?

Contemplar a realidade não é apenas vê-la, mas atribuir-lhe valor ou "estima". O homem sente a realidade como bela ou feia, como boa ou má, como agradável ou penosa, como nobre ou vil, como santa ou condenável etc. Aqui é importante distinguirmos três coisa completamente distintas: o portador do valor (pessoa ou objeto), o valor mesmo e a reação humana ante o valor. 

Quanto ao valor em si mesmo, em geral identificamos três tipos: os valores morais (dever-fazer), os valores estéticos (dever-ser) e os valores religiosos (dever-fazer e dever-ser).

Bochenski acredita, como os idealistas, que os valores são independentes da valoração. As valorações são relativas,mas os valores são eternos e imutáveis. Assim como há homens cegos para as cores, há homens cegos para os valores. Os positivistas reduzem os valores à valoração, ou seja, à sua utilidade imediata. Os idealistas, embora admitam certa relativamente, não deixam de admitar que os valores exercem um efeito atrativo sobre si. Em suma: há certa relatividade imanente que gravita em torno da imutabilidade dos valores em si. Qaundo Cristo diz que ninguém é bom fora de Deus isso significa que o valor da bondade é algo que se esgota soment em Deus, mas não quer dizer que fora de Deus a bondade não exista de maneira parcial, relativa, fragmentária. Somente um espírito plenamente santo pode plenamente compreender um valor. 

Aqui é importante salientar que ver ou compreender um valor tem menos a ver com a inteligência e mais com a vontade. Um homem decente vê ou compreende melhor a retidão (ou falta dela) que um homem pouco decente. Daí que homens cultos e eruditos podem, em determinadas ordens de valores, se mostrarem incrivelmente bárbaros e subdesenvolvidos. É o caso, por exemplo, de "pessoas formadas" que se aborrecem ouvindo a Nona Sinfonia de Beethoven.

Bochenski acredita que os valores se fundam no mundo, mais especificamente na relação entre os homen e entre os homens e as coisas. Ainda mais especificamente, é na constituição espiritual e física da raça humana que se fundam a estética e a moral. É nesta constituição que está gravada, por exemplo, que fazer-se homem a criança deve amar e obedecer seus pais. Claro, há homens que são, ou se tornam, cegos para determnados valores (basta imaginar por exemplo um filho que mata sua própria mãe por motivo torpe).

(7) Como pensar sobre o homem?

O homem, e somente o homem, ostenta uma série de qualidades completamente distintas. As mais notáveis são as seguintes:

(a) A técnica, ou seja, o homem se erve de certos instrumentos produzids por ele mesmo.

(b) A tradição, ou seja, o elemento que ensina ao homem mediante uma linguagem complicada a viver em sociedade, já que essa capacidade não lhe é ingênita, ou seja, não se desenvolve por instinto.

(c) O progresso, ou seja, o efeito de aprender mais e mais, não apenas como indivíduo, mas como sociedade também. Biologicamente não somos diferentes dos antigos gregos, mas sem dúvida sabemos muito mais que eles.

(d) A abstração, ou seja, a capacidade de pensar universalmente, e não apena mirar o particular e concreto. E mais: a abstração permite não apenas pensar sobre universais, mas em objetos ideais também: como números, valores morais e estéticos etc. A abstração nos livra da teleologia que domina os animais: os homens são capazes de pensar e desenvolver um saber puro, ou seja, o saber pelo saber, e não apenas um saber para um fim ou objetivo útil. A ciência e a religião apresentam aspectos típicos desse tipo de qualidade humana. 

(e) A reflexão, ou seja, a capacidade de mirar não apenas ao mundo exterior, mas ocupar-se de si mesmo, de perguntar-se qual o sentido da vida, a consciência da morte etc.

Se nota no homem uma curiosa inquetude: por um lado, almeja o ilimitado, ao progresso, ao acúmulo material e espiritual, à insatisfação de seu estado atual; por outro lado, a morte e a limitação existencial o aprisiona. Essa tensão, esse "enigma trágico", como o chama Bochenski, só pode ser aliviar alcançando-se o infinito. Não é possível alcançá-lo nesta vida, mas no além, no além-túmulo. Como? Não é a filosofia quem vai responder a essa pergunta, mas a religião.

Fonte: Józef Maria Bochenski, Introducción al Pensamiento Filosófico, Herder Editorial, Barcelona, Espanha, 1992. 

9 de novembro de 2022

A metafísica do inferno


Segundo o historiador americano Matthew Raphael Johnson, o nominalismo é o grande inimigo da raça humana e, em especial, da Igreja. A natureza, explica Johnson, não é uma força cega, um cenário neutro, mas uma "habitação" de Deus e Seu poder. Em outras palavras, Deus não está "lá" no céu, mas existe imanente na criação, embora não se identifique com ela. As palavras escondem mais do que revelam, ou seja, elas são veículos ineficientes para expressar a ação da graça. A doutrina sempre será algo incompleto porque se manifesta em palavras. Eis porque a Igreja usa expressões artísticas para suplementar os canais da graça.

Guilherme de Ockham (1285-1347) rejeita a ideia de que as coisas tenham "espécies", ou seja, ele reduz toda e qualquer categorização à mera aplicação utilitária das palavras. O mundo seria apenas e tão-somente um "palco" ou "fluxo". Um "universal", portanto, seria uma palavra que convenientemente aplicamos a várias coisas, uma maneira fácil e prática que a humanidade usa para se comunicar e se referenciar às coisas. Se você ao ler isso pensou "mas é óbvio que as palavras são isso", então assume de maneira um tanto inconsciente que a realidade se estrutura de acordo com os ditames nominalistas. Em suma, a visão nominalista nega que a realidade seja substancial, ou seja, quando uma pessoa descreve um objeto que não está presente, segundo essa visão, o faz com referência a uma imagem mental que ela e as demais pessoas têm desse objeto. As palavras são meros nomes, daí "nominalismo". Ockham não nega a existência de ideias/formas, mas afirma que estão na mente de Deus e, portanto, são incognoscíveis.

O modernismo, conclui Johnson, é um fenômeno intelectual baseado na ideia nominalista de que os universais não são reais. Afinal, se houvesse um reino aespacial e atemporal no qual a ciência moderna não pudesse exercer nenhum controle então essa mesma ciência teria de adaptar seus métodos a ele, ou seja, teria de abrir mão de sua visão nominalista, o que é algo que não está disposta a fazer de maneira alguma.

A estrutura da realidade cristã, essencialmente platônica, ensina que os objetos individuais são símbolos, "emblemas" ou "marcas" que apontam para objetos mais abrangentes, mais amplos, mais abarcantes, que se encontram fora do espaço e do tempo. Uma vez que os apreendamos, que os percebamos, que os contemplemos, servirão de portais para experienciar as energias (ou seja, a presença) de Deus.

As leis naturais não são "naturais" no sentido de que são meras descrições de como o mundo funciona, mas elas têm uma fonte que as mantêm ativas, que as sustentam, que é a Lei das leis: Cristo, o Logos. Ele está presente na natureza como o Fiador de seu funcionamento normal. Contudo, a queda de Adão invadiu o mundo natural tornando o Logos menos transparente, mais opaco. O homem, nesta condição decaída, irremida, enxerga apenas causa e efeito no mundo, e não mais origem e propósito.

Quanto à Trindade, Johnson explica o seguinte:

"O Pai está sempre ontologicamente distante e para além de Sua criação. O Logos é o princípio "ativo", que Se manifesta na lei natural e na consciência humana. Neste sentido Ele não está de forma alguma distante. O Espírito Santo é a manifestação dessa graça especificamente na igreja e em seus membros. O Espírito não tem outra função que não a de agir como o "andaime ontológico" da igreja. Fora dela, o Espírito não funciona de maneira tão íntima. O "mundo" é matéria morta do ponto de vista da humanidade degenerada.

O Pai é inacessível ao pensamento humano. Isso porque o Fundamento (Ground) do fundamento do ser (ground of being) não é um objeto entre muitos e, portanto, não pode ser descrito na linguagem dos homens. Ninguém é capaz de experienciar intelectualmente o Fundamento do fundamento, ou a realidade fundamental do fundamento de todos os seres. Se pudesse ser experienciado de alguma maneira humana então não seria o fundamento supremo. O Pai é acessível somente pela presença do Logos possibilitada pela ação do Espírito. O Logos é necessário porque Ele é Deus sob o ponto de vista da atividade [cf. E.F. Schumacher e as progressões do ser]; o movimento da lei natural no sentido biológico e químico, mas também no sentido ético de nosso arbítrio, uma liberdade que somente existe na igreja, já que fora dela não há espírito.

Portanto, o "livre arbítrio" é algo a ser conquistado e com o qual ninguém nasce. Os homens nascem totalmente dependentes e determinados; somente com a maturidade e a graça o potencial para o livre arbítrio pode despertar, e mesmo assim será um grande esforço pensar e agir livremente. Conformar-se é muito mais fácil. Somente os santos têm livre arbítrio, no sentido normal do termo. O salário do pecado é a determinação natural, que é uma outro maneira de dizer "a morte". A humanidade degenerada não pensa livremente, mas conforma-se a um partido, paixão ou carreira, concentrando sua atividade de acordo. O santo vive em outro mundo, no mundo numênico inacessível ao mundo".

Johnson entende que a matéria morta, amorfa, é o Deus dos pagãos. Ela seria eterna (sempre existiu e sempre existirá) e é a partir dela que se produzem as coisas. O verdadeiro "maçom" é aquele que molda o caos primordial da matéria eterna em formas úteis. As máquinas e dispositivos são o produto da imitação demoníaca das formas orgânicas, formas essas que os demônios são incapazes de criar pois suas máquinas dependem somente da matéria já pré-existente. Um engenheiro não é um criador, mas tão-somente um manipulador. Ele não cria nada, mas apenas desloca a forma da matéria existente. Aqui cabe lembrar que "forma", no sentido platônico, não tem nada a ver com o "formato" ou "figura" que os objetos podem assumir pelas mãos humanas. Tais artes e engenhos foram ensinados aos primeiros homens por demônios. Altamente inteligentes e sempre tentando imitar a Deus, os demônios procuram "criar" mediante civilizações e estruturas burocráticas centralizadas. O Velho Testamento apresenta a Caim sendo ensinado por esses seres. Caim não poderia ter "edificado uma cidade" do nada. Ele foi ensinado para que se tornasse autossuficiente, sem Deus. Essa "cidade" se tornou o coração da civilização mesopotâmica. A tecnologia é demoníaca porque seu propósito é elevar uma classe dominante ao status de quase-divindade. A tecnologia procura substituir o mundo orgânico que, embora decaído, contém tudo o que é necessário para a salvação dos homens. Isso não significa que as invenções humanas sejam demoníacas em si, pois elas podem cooperar com o mundo orgânico, mas quando o objetivo da "civilização" é substituí-lo, então será certamente demoníaco.

São Basílio ensinava que o propósito da metafísica é fornecer bases sólidas para a paz mental e espiritual, ou seja, para que o pensamento não se disperse. A dispersão do pensamento é inimigo da paz, que exige unidade e concentração. Em sua famosa Segunda Carta a São Gregório Teólogo, São Basílio afirma que os "afazeres mundanos" prejudicam e mesmo destroem a "apreensão da verdade". Em outras palavras, a verdade é algo que se encontra à parte das ocupações mundanas, ou seja, é de uma ordem completamente diferente. Tudo o que nominalismo enxerga como importante e real (objetos físicos, dinheiro, reputação, destreza técnica etc.) é exatamente aquilo que está apartado da verdade. São precisamente essas coisas "reais" que não são reais. Bem, dizíamos que a metafísica ocupa-se de trazer a paz, ou seja, a concentração da mente: é precisamente o contrário do nominalismo, cujo efeito é dispersar o pensamento nas coisas sensíveis particulares do mundo. A dispersão do pensamento é a raiz do pecado. Ora, ao reduzir a natureza a praticamente nada, a um turbilhão caótico de qualidades e quantidades, o nominalismo oculta o Cristo, pois é nela, na natureza, que Ele reside. Lembre-se, a essência das coisas criadas não está nas coisas mesmas, então ceifar o mundo material de sua essência é ceifar o mundo da presença do Cristo. Pecar não é "errar", não é uma infração moral, mas é "incompletar", ou seja, é estar em um estado no qual a mente depende do mundo para ganhar identidade. "Quando o mundo produz sua identidade, eis o pecado", diz Johnson. O ato pecaminoso é efeito do pecado, não é o pecado em si. São as coisas individuais, as coisas valorizadas pelo nominalismo, que despertam nossas paixões. Alguém por acaso se excita pelos conceitos geométricos das curvas de uma mulher? Alguém se excita pela conceito ou ideia de "mulher"? Ou será que são as curvas individuais dessa mulher individual que me excitam? O homem só consegue controlar, ou seja, "possuir", "tornar útil", coisas individuais. Uma forma, um universal, é impossível controlar. Daí a luxúria, ou qualquer ato pecaminoso, se exerce sobre coisas individuais, sobre aquilo que o nominalismo entrona. Somente a ideia, a forma, o universal, pode integrar a mente.

E como se faz isso? Como se integra a mente? A ideia aqui é praticar as virtudes, ou seja, purificar a mente (noûs) para que reconheça e apreenda as energias dAquele que contém todas as ideias (logoi) das coisas criadas em Si, ou seja, as energias incriadas do Logos/Cristo na terra. O Cristo/Logos não se faz presente apenas na natureza, mas Ele se acerca daquele que se purifica para recebê-Lo mediante esforço. Esforçar-se em praticar as virtudes, isto é, em amar. É na experiência comunal, no convívio (cf Christos Yannaras e o conceito de "evento eclesial"), que o ego individual pode ser atrofiado para que a mente abra espaço para a ação do Espírito. Aqui Johnson deriva uma conclusão importante: o elemento primordial da vida não é o indivíduo, mas a comunidade. É quando minha vontade se mescla com a vontade do outro que se forma um laço de amor. O nominalismo, que só enxerga indivíduos ou, na melhor das hipóteses, agrupamentos de indivíduos, é incapaz de inspirar o verdadeiro amor entre as pessoas. O outro é sempre um instrumento para que meu ego se fortaleça, se estime. Daí que Johnson conclui que o nominalismo é a metafísica do inferno. E a democracia, a soma de indivíduos, é o sistema político do nominalismo por excelência. O orgulho, o motor do ego, eis o pecado primordial do nominalismo. Só o ego existe, só o ego tem valor, só o ego precisa ser salvo. 

Neste sentido, em um ambiente onde grassa o nominalismo, a igreja é uma mera coleção de egos-indivíduos, e portanto não existe uma dimensão vertical na qual a interpretação da Bíblia possa se dar. Assim que todos os egos são capazes, ou estão aptos, a interpretá-la. O Protestantismo é a religião cristã do nominalismo. A oração protestante a Deus é feita como se Deus fosse um Ego como qualquer outro ego, com Quem falamos como falamos com um vizinho através de uma parede. É por isso que as orações protestantes estão recheadas de pedidos, como se Deus não soubesse o que você precisa ou o que você pode pedir. O status ontológico de Deus no Protestantismo é, a rigor, o mesmo que o nosso. Não somos indivíduos que lutamos para sermos pessoas, mas são as Pessoas que se reduzem a um Ego-Indivíduo.

Vimos que a natureza não é uma coleção de indivíduos, mas são comunidades. No entanto, isso vale para os animais também. Sim, é verdade, as espécies de animais estão contidas no Logos, que lhes fornece os instintos e desejos típicos de cada espécie. Mas não para por aí. Uma espécie faz parte também do ambiente no qual está inserido, e é esse ecossistema que lhe mantém viva. Portanto, os ecossistemas, enquanto comunidades de comunidades, também têm suas essências contidas no Logos

Muito bem, vimos que as formas platônicas são um elemento fundamental da metafísica. As formas são mais reais que a "realidade" que nos cerca, mas, afinal, quem pode "ver" essas formas? As formas são reais para quem? Platão foi um "profeta" que "viu" as formas, mas a estrutura da realidade descrita por ele só poderia estar completa mais tarde, mediante a revelação de Jesus Cristo, mediante a revelação do EU SOU, porque foi através de Sua revelação, de Seus ensinamentos, de Seu exemplo, da Sua presença na forma de energias, que a ascese da mente adquiriu uma forma mais definida, um método mais assertivo e inequívoco. A Igreja enquanto "evento eclesial" ensina como purificar o homem de suas paixões, ou seja, como transfigurá-las sem reprimi-las. Vivemos em um mundo nominalista, ou seja, em um mundo em que os objetos são indivíduos, são meros exemplares, e a eles atribuímos nomes, e portanto não podem ser verdadeiros objetos de conhecimento no sentido profundo do termo "conhecimento". Daí que entra a ascese mental, a purificação do noûs: o objetivo é deixar o mundo dos objetos individuais e elevar o espírito para apreender, mesmo que de maneira limitada, as próprias formas desses objetos as quais, por sua vez, nos revelam o Logos que as contém. Eis ao quê se deve dedicar um filósofo, isto é, um amante da sabedoria. Novamente, os objetos individuais não estimulam a razão, mas estimulam a paixão, ou seja, o desejo de controlá-los, possuí-los e desfrutá-los. Observe que isso não é algo ruim em si. Em certo sentido é algo até mesmo necessário. Mas é incompleto. Não é a isso que nossa raça foi chamada: para isso estão os animais. Os objetos individuais que compõem nosso dia-a-dia implicam a existência de Objetos que existem eternamente. Os prazeres e apetites que desfrutamos no dia-a-dia desvanecem rápida e facilmente. Não são a eles que devemos nos devotar. Há um prazer e uma alegria que não desvanece, há um Amor que não vacila como os amores do mundo. Esse Amor, digamos logo, a Trindade, é algo que nossa mentalidade nominalista é incapaz de captar: Três Pessoas que compartilham uma e mesma substância. O mundo da Trindade é um mundo social, um mundo que exclui o conceito de individualidade. As relações da Trindade são tão importantes quanto as Pessoas que a compõem: são as relações de amor.

O Cristo, ao encarnar-Se, trouxe ao mundo as formas platônicas de maneira que os homens possam contemplar sua estrutura e seu propósito sem a necessidade de possuir conhecimento filosófico prévio. Ao observá-Lo, ao contemplá-Lo, ao segui-Lo, os apóstolos e as comunidades que surgiram a partir de suas pregações entenderam que é necessário purificar a mente, a vontade e os sentidos para que pudessem experienciar a graça (presença) dEle e para que pudessem "ver" (ser iluminados) pelo Logos/Sabedoria/Cristo e consequentemente vê-Lo no mundo natural. Ao vê-Lo no mundo natural entenderam que as qualidades desse mundo, embora emanem certa beleza e harmonia, são completamente secundárias em relação à sua causa final e formal. As qualidades (ou "acidentes") são ilusões que surgem da relação passional que estabelecemos com os objetos individuais. Essa paixão surge, claro, de uma mente que se dispersa nesses objetos, que os aborda como indivíduos, não como símbolos que apontam para o mundo da Forma. Johnson cita o filósofo ucraniano Gregor Skovoroda ao dizer: "A matéria é a mera qualidade da aparência". Ou seja, a matéria é o acidente de uma coisa, enquanto a essência permanece oculta. O objetivo da filosofia é ir além da aparência. A realidade apenas gera uma aparência, mas não é a aparência.

A Igreja, enquanto evento eclesial (e não mera indústria litúrgico-sacramental), existe para que as formas, e o Logos que as contém, possam ser conhecidas por todos, e não apenas pelas pessoas especialmente dotadas como Platão, os profetas do Velho Testamento, o imperador Marco Aurélio etc. O espírito dos homens quer conhecer a Verdade, a Forma, mas o mundo os "puxa para baixo", os distrai nos elementos que lhes servem de instrumento para dominar os objetos individuais e para se sentirem seguros, sejam governos, propriedades, exércitos, burocracias, fábricas, empresas, carreiras, fama etc. É necessário disciplina para escapar do mundo nominal, do mundo passional, do "fetiche das commodities", dos fantasmas e das respectivas emoções que criamos a partir do mundo das aparências, do mundo dos nomes que ocultam a realidade mais ampla e profunda. Para o homem nominalista, as coisas do mundo só têm valor quando uma máquina ou dispositivo lhe confere valor. Para o homem real, os símbolos não são irrealidades, mas são portais para uma realidade mais verdadeira e profunda.

O mundo nominal é um mundo medíocre. É um mundo no qual até mesmo os ignorantes podem viver. Os objetos do mundo nominal não são objetos para serem conhecidos, mas objetos acima de tudo para serem desejados, almejados.

A identificação das formas com os anjos é algo que Johnson explica, como não poderia deixar de ser, a partir da obra de São Dionísio Areopagita. Embora hoje em dia a comunidade científica negue que São Dionísio seja quem diz ser, ou seja, a pessoa convertida pelo Apóstolo Paulo (Todavia, chegando alguns homens a ele [Paulo], creram; entre os quais foi Dionísio, areopagita, uma mulher por nome Dâmaris, e com eles outros. Atos 17:34), Johnson não deixa de lembrar que os medievais tinham acesso a muito mais obras e fontes que nós temos hoje em dia e, portanto, poderiam muito bem estar corretos ao afirmar que São Dionísio foi realmente o discípulo do Apóstolo. A criação, segundo São Dionísio, provém de um "transbordamento" de Deus, ou seja, do amor de Deus, da vontade de Deus. É a transferência da ação de Deus do incriado para o criado. Nesse processo de criação, Deus cria ("transborda") duas coisas: (1) os objetos universais e (2) os objetos particulares que dependem dos objetos universais. A matéria manifesta a presença do Logos, embora, claro, em grau menor. O Logos está presente tanto na lama e na saliva quanto em uma Ideia. Os anjos, por sua vez, completam a estrutura metafísica da realidade no sentido de que eles são a manifestação dessa dependência ontológica mencionada em (2). Os anjos são universais concretos, ou seja, são universais que têm personalidade, pois a personalidade/vontade é um dos atributos de Deus. Aqui o nominalismo falha porque se recusa a acreditar que a natureza tenha personalidade/vontade. O ser dos anjos vem da Luz de Deus. "Luz" tem duplo sentido: é o centro unificado da Verdade e ao mesmo tempo é a "força" que mantém a Forma e a matéria que a informa unidos.

Em termos políticos, a ausência de ordem e hierarquia otológica na metafísica nominalista implica na intensificação de um aspecto no cenário econômico-político: o uso da força mediante revoluções políticas. Não há alternativa: a força tem de ser usada para que ela garanta a "ordem" na sociedade caótica engendrada pelo nominalismo. 

Fonte: Matthew Raphael Johnson, The Ontology of Death, Hromada Books, 2022.

28 de outubro de 2022

O homem absurdo e a ideia do suicídio


É segunda-feira. Acordo de manhã, tomo banho, como alguma coisa. Carro, trânsito, escritório. Reuniões, e-mails, projetos, clientes, chefe. Hora do almoço, como mais alguma coisa. Depois mais escritório. Fim da tarde, carro, trânsito, casa. Assisto qualquer coisa em qualquer tela. Pago as contas. Como mais alguma coisa. Cama. Terça-feira, mesma coisa. E também a quarta, a quinta, a sexta. Sábados e domingos iguais aos anteriores. Uma viagem aqui, alguma ativiadde extra-laboral ali.

Talvez esta rotina faça sentido para você. Talvez em meio às atvidades do dia-a-dia você encontre momentos de alegria e esperança que, em si, são suficientes para fazê-lo seguir em frente. Talvez você tenha alguma religião, fé, espiritualidade, filosofia, meditação, ou seja lá o que for, que lhe conforte e lhe dê "forças".

Mas talvez você tenha uma consciência mais desenvolvida, uma inteligênia mais aguçada, uma percepção mais profunda da vida -- digamos logo, um QI acima da média --, e nada do que descrevi acima o satisfaça. A vida como um todo não faz sentido para você. Angústias, sofrimentos, dores: a vida enquanto tal, a vida em sua totalidade, não tem unidade, não fornece nenhum motivo em si que a torne digna de ser vivida, digna de ser suportada. Os momentos alegres e singulares da vida se diluem no oceano do absurdo.

O que fazer? Em seu Mito de Sísifo, Albert Camus invoca o que, em sua opinião, é o problema filosófico mais importante de toda a história da humanidade: o suicídio. Sim, a ideia parece irreverente, inóspita, mas diante do absurdo da vida, diante da ausência de toda razão profunda, do caráter insensato da agitação cotidiana, é perfeitamente legítimo que perguntemos: por que não?

A ciência e a psicologia classificam o mundo, ensinam coisas notáveis a seu respeito, mas ao fim e ao cabo tudo não passa de imagens, de metáforas. Como diz Camus com eloquência, "as suaves linhas destas colinas e a mão da tarde sobre este coração agitado me ensinam muito mais". As categorias da ciência e do conhecimento não têm nada a ver com o espírito. Aqui é notável a semelhança de raciocínio com Schumacher.

Qaunto à filosofia, Camus tampouco encontra consolo. A postura existencial ele entende ser uma espécie de "suicídio filosófico", ou seja, uma forma cômoda de superar o dilema negando-o. A negação é o Deus dos existencialistas na medida em que nega a razão humana. Husserl, por sua vez, apenas reúne o universo que outrora encontrava-se disperso, desconexo, mas não resolve o dlema de que a mera reunião não implica em unidade. Ao fim e ao cabo, a fenomenologia também nega versar sobre o absurdo da vida.

Ocore que Camus, mediante uma série de insights, chega a uma brilhante conclusão: quanto menos sentido ten a vida, melhor. Viver uma experiência, um destino, é aceitá-lo plenamente. Mas para viver esse destino é necessário ter em mente sua absurdidade. A palavra-chave é rebelião, ou seja, rebelar-se conscientemente. Viver é fazer viver o absurdo. O homem tem de enfrentar a obscuridade da vida. Enfrentar tal obscuridade significa resignar-se a nosso destino devastador. Suicidar-se é render-se ao absurdo. Rebelar-se é aceitar a realidade do absurdo. A única verdade é o próprio desafio de viver em rebelião.

O homem inconsciente do absurdo vive escravo do sentido que artificialmente atribui à vida. A ideia de que somos eternos, fingir que há um "amanhã", é apegar-se à bola de ferro acorrentada a seu tornozelo. Somente na rebeldia, na revolução, é possível exercitar a liberdade. Dar sentido à vida é criar barreiras dentro das quais encerro minha vida. Portanto, a ideia não é viver "melhor" (segundo a moral comum), mas viver "mais", viver com verdadeira paixão (acumular experiências, estar diante do mundo com a maior freqência possível, da maneira mais presente pssível).

Portanto, eis as três consequências que Camus deriva do absurdo: a rebelião, a liberdade e a paixão (pela diversidade).

O homem absurdo

Camus delinea três exemplos de homem absurdo: o amante, o comediante e o aventureiro. Nenhum deles, e nenhum homem absurdo, nega o eterno; ocorre apenas que eles não têm o que fazer com ele.

Em termos éticos e morais, o homem absurdo reconhece apenas a existência de responsáveis, mas não de culpados. Em outras palavras, a carga condenatória, o castigo psicológico, é inexistente para o homem absurdo. Ele é responsável por tudo o que faz, mas não aceita ser culpado por nada: a vida humana é um sopro, e seu objetivo não pode ser cumprir regras morais.

Don Juan, por exemplo, o amante por excelência, não tem objetivos morais. ele não quer ser santo. O que ele quer é quantidade, ao contrário do santo, que quer qualidade. Qualidade para quê? Por acaso as coisas têm alguma sentido profundo? Por acaso a vida tem sentido? Claro que não. A vida do santo é movida pelo mito do sentido, da eternidade, do além. O santo finge não existir o absurdo. O homem absurdo, pelo contrário, não só não finge como vive de acordo com ele. O homem absurdo não se separa do tempo, afinal. O amor convencional, aquele através do qual nos doamos a uma mulher, pode ser "enriquecedor" para ambos, mas em termos pessoais será empobrecedor a ambos, pois estarão literalmente apartados da vida, das experiências que ela pode proporcional para além da mera doação mútua. O amor convencional não é libertador, é uma prisão. O homem absurdo não quer "ser" algo na eternidade: o homem absurdo escolhe não ser nada, mas escolhe ser algo nesta vida. Eis a única grandeza a que pode aspirar.

O pensamento absurdo não quer explicar, não quer se aprofundar. Quer apenas descrever. Eis sua ambição. O autêntico artista absurdo é aquele que retrata o contreto, e que tal retratação não signfique nada além do concreto. A obra absurda ilustra < renúncia do pensamento a seus prestígios e sua resignação a ser apenas uma inteligência que põe em marcha as aparências e cobre com imagens o que carece de razão. A arte absurda deve refletir aquilo que deve manifestar o pensamento absurdo: rebelião, liberdade e diversidade. E, claro, uma profunda inutilidade.

Fonte: Albert Camus, El Mito de Sísifo, Literatura Random House, Barcelona, Espanha, 2021.

22 de outubro de 2022

Um guia para os perplexos


O economista alemão E.F. Schumacher goza de boa fama como distributista, tendo sido intelectualmente influenciado por pessoas tão diferentes como Mahatma Gandhi, Karl Marx, Buda, Lord Keynes e pelo pensamento econômico da Igreja Católica. No entanto, é sua obra filosófica que me interessou, em especial seu A Guide for the Perplexed, recomendado por James Schall, se não me engano, em On the Unseriousness of Human Affairs.

Para Schumacher, filosofar é contemplar o mundo em sua totalidade, e não em suas partes, o que estaria mais bem a cargo das diversas ciências humanas. Daí o "guia para os perplexos": os perplexos somos nós, aqueles que, diante da miríade de conhecimentos novos e fascinantes produzidos pelas ciências, sentem falta de um mapa a partir do qual possam navegar e orientar-se na vida.

A crítica de Schumacher não vai tanto direcionada à ciência enquanto tal, mas a sua incapacidade de responder às perguntas que realmente valem a pena. Na verdade, o cientificismo que se formou em torno das ciências modernas simplesmente nega a validade dessas perguntas. Neste ponto, a obra-prima de Jordan Peterson, Maps of Meaning, é fundamental para entender a questão: a ciência é parte da porção "o que é" do mundo, mas não da porção "o que deveria ser". A destruição da sabedoria antiga levou consigo os antigos mapas que nos norteavam no mundo. Como dizia Viktor Frankl, o lamentável não é tanto que os cientistas se especializem, mas que os especialistas generalizem.

Mas que perguntas são essas? São aquelas que se referem aos fins, aos sentidos, da vida, dos sentimentos, das ações, dos pensamentos. O que precisamos para ser felizes? Qual é a verdade que nos liberta? Onde encontrá-la? O que devo fazer da minha vida? E assim por diante.

O mapa de Schumacher se baseia no que ele chama de Grandes Verdades. São quatro:

1. A Grande Verdade sobre o mundo: é a estrutura hierárquica dos 4 grandes níveis do ser.

2. A Grande Verdade sobre o homem: é o princípio da adequação (adaequatio).

3. A Grande Verdade sobre o aprendizado: são os 4 campos do conhecimento.

4. A Grande Verdade sobre a vida: é a distinção entre problemas convergentes e divergentes.

René Descartes e Francis Bacon, pensadores típicos da era moderna, afirmavam que o alcance da mente humana era estritamente limitado, ou seja, que não havia razão para interessar-se por assuntos que ultrapassem sua capacidade. No entanto, a sabedoria tradicional considerava que a mente humana, embora fraca, era ilimitada, ou seja, que era capaz de alçar-se acima de si mesma a níveis cada vez mais elevados. Assim, Schumacher entende que o cientificismo se desfez dessa dimensão vertical da existência. Não há mais "superior" e "inferior", não há melhor e pior, não há hierarquia. A matematica e a física, por exemplo, são absolutamente mudas a esse respeito. A vida se encontra sem orientação, sem diretrizes, sem sentido.


1. Os níveis do ser

Schumacher recorda que no mundo natural há certas diferenças entre os seres ou, mais precisamente, certas "descontiuidades ontológicas", certos "saltos de nível", que podemos destruir embora sejamos incapazes de construir. Os seres são classificados por reinos: mineral ("seres inanimados"), vegetal, animal e humano, e as respectivas qualidades que identificam sua descontinuidade ontológica são vida (vegetal), consciência (animal) e autoconsciência (humano), esta última entendida como uma capacidade de dizer "eu" e de dirigir a consciência de acordo com fins próprios. Observe que, embora possamos destruir a vida, a consciência e a autoconsciência, somos incapazes de dar vida a uma pedra, consciência a uma planta e autoconsciência a um animal.

Aqui observamos que a evolução, entendida como o processo de surgimento espontâneo e acidental dos poderes vitais, da cosciência e da autoconsciência a partir da matéria inanimada, é algo totalmente incompreensível. Não é possível o surgimento acidental do superior a partir do inferior.

Do nível inferior, o nível mineral, se ocupa a física e a química. E talvez aqui resida uma das grandes confusões da era moderna: dizer que a vida, o primeiro fator que explica o segundo nível do ser ("reino vegetal"), é apenas uma combinação atômica é o mesmo que dizer que Hamlet, de Shakespeare, é apenas uma combinação de letras. Descrever um animal como um complexo sistema físico-químo não está errado. O que está errado é fingir que tal descrição não omite a animalidade do animal. Há, portanto, uma diferença de tipo, não de grau, entre os níveis do ser.

É curioso observar que o superior compreende em certo sentido o inferior, mas é incapaz de entender algo superior a si mesmo. Isso explica por que as pessoas que têm sua autoconsciência pouco desenvolvida tendem a considerá-la uma simples extensão da consciência. E explica por que essas pessoas tendem a tratar o próximo com certa brutalidade, certa bestialidade. Não é incomum que se tratem a si mesmas assim também. Ao contrário da vida e da conscieêcia, que agem de maneira automática, involutária, a autoconsciência é uma potencialidade, não tanto uma realidade, que cada indivíduo deve desenvolvê-la se quer chegar a ser verdadeiramente humano, se quer chegar a ser uma persona.

Há certos traços que caracterizam os níveis do ser aos quais chamamos "progressões". 

A progressão mais notável é a passividade/atividade, ou seja, a passagem da passividade para a atividade conforme se sobe no nível do ser. A partir da passividade total de uma pedra, coforme subimos a escada dos níveis do ser, chegamos a contemplar o ser humano, no qual existe um sujeito que diz "eu" (ou seja, que tem consciência de si mesmo, que tem autoconsciência), que não apresenta virtualmente nenhuma limitação, muito embora, claro, existam limitações práticas as quais deve respeitar. Por isso os homens são obrigados a lançar mão de sua imaginação, de sua capacidade intuitiva, para completar o processo de atividade e, assim, por extrapolação, superar essas limitações impostas pelas circunstâncias do entorno.

O movimento, a atividade, possui origens distintas nos níveis do ser. No nível da matéria inanimada é a relação causa-efeito física, e totalmente externa, que explica o movimento. Nas plantas, é essa cadeia causal física e também o estímulo interno que produz (fototropismo, a busca das raízes por umidade etc.). Nos animais, é tudo isso mais o motivo (certos impulsos, atrações e forças, como a curiosidade, o medo do inimigo, o reconhecimento do dono etc.), que ocorre no chamado "espaço interior". Ainda assim, a causa dos motivos deve estar fisicamente presente para que os motivos se manifestem. Nos homens a autoconsciência acrescenta outro fator causal da atividade: a vontade. Aqui não há coação física, nem estímulo, nem força motivadora, mas uma pura "ideia", ou seja, a mente humana é capaz de prever acontecimentos futuros. É o poder da presciência. Claro, é limitada de acordo com cada ser humano, de acordo com as condições presentes etc., mas é um poder típico deste nível do ser.

Há outras progressões além da passividade/atividade. Por exemplo, a progressão necessidade/liberdade. Schumacher explica que o espaço interior é o cenário da liberdade. Em outras palavras, é num espaço interior desenvolvido que se produz a liberdade. Da observação direta deduzimos que a maioria das pessoas se comporta mecanicamente, como uma máquina, na maior parte do tempo. O poder especificamente humano da autoconsciência se encontra adormecido, e o ser humano, como o animal, somente age -- com mais ou menos inteligência -- em resposta a influências externas. Somente quando o homem faz uso do poder da autoconsciência alcança o nível de persona, o nível da liberdade. Neste exato momento o homem está vivendo, e não sendo vivido. Sim, as forças da necessidade continuam existindo e atuando, acumuladas no passado, mas ao mesmo tempo se produz aí uma pequena fenda, uma minúscula mudança de direção. Assim que ser livre é como ser rico: é uma possibilidade, uma meta, um destino ao qual nos esforçamos.

Observa-se nos níveis do ser a progressão desintegração/integração. A matéria inanimada pode ser dividida e subdividida inúmeras vezes sem perder suas características. No nível vegetal a integração é frágil. Nos animais, no entanto, as partes não podem sobreviver à sua separação, mas em nível mental a logicidade e coerência são modestas, a memória é escassa e o intelecto, na melhor das hipóteses, nebuloso. Nos homens, no entanto, a integridade é uma possibilidade que lhe está dada pela autoconsciência mas, novamente, é necessário esforçar-se por conseguí-la. Em geral, o nível de autoconsciência das pessoas é muito baixo, de forma que convive nelas uma miríade de personalidades, de egos, que dizem "eu" alternadamente.

Não é difícil a esta altura identificar a progressão visível/invisível. Todos os nossos pensamentos, emoções, sentimentos, imaginações, devaneios, fantasias, sonhos são invisíveis. Tudo o que se refere a nossos projetos, planos, segredos, ambições, todas as nossas esperanças, medos, dúvidas, perplexidades, todos os nossos afetos, suposições, reflexões, vazios, incertezas, todos os nossos desejos, saudades, apetites, sensações, gostos, antipatias, aversões, atrações, amores e ódios: tudo isso é invisível.

E quanto ao mundo? Sim, o mundo tem tamanhos, ou "alcances", diferentes de acordo com o nível do ser. Poderíamos chamar essa progressão espacial de inexistente/ilimitado. A matéria inanimada não tem mundo. As plantas e animais têm mundos proporcionais às suas necessidades biológicas e materiais. Os homens são capax universi, ou seja, são capazes de trazer o universo inteiro à sua experiência. Segundo Hobbes, o homem que nega viver como persona, mas insiste em voltar-se às suas necessidades meramente biológicas, às comodidades materais, àquilo que lhe ocorre por acidente, "atrairá" inveitavelmente uma vida miserável: é uma vida "solitaria, pobre, suja, bestial e breve".

Em suma, a autoconsciência confere aos homens potencialidades infinitas e, segundo deduz Schumacher, não somente a potencialidade mas a necessidade de tornar-se sobre-humano.


2. O princípio da adequação

A adequação tem a ver com possuir o instrumento apropriado para conhecer a si mesmo e o mundo que o rodeia. Em outras palavras, o entendimento deve adequar-se ao objeto que se pretende conhecer. Tomás de Aquino dizia, de maneira muito eloquente, que "o conhecimento se produz na medida em que o objeto conhecido se encontra dentro da pessoa". 

Os cinco sentidos são suficientes para conhecermos a matéria inanimada. Mas se queremos que os dados que os sentidos coletam tenham sentido, que identifiquemos forma, estrutura, regularidade, harmonia, ritmo, significado etc, serão necessárias aptidões diferentes, superiores. Serão necessário "sentidos intelectuais", por assim dizer. Há muitas coisas que algumas pessoas "veem", enquanto outras não as "veem". Em outras palavras, algumas pessoas são adequadas, enquanto outras não são.

E aqui Schumacher expõe um entendimento bastante curioso. Segundo ele, o observador deverá escolher o nível adequado por meio da fé. Isso mesmo, fé, pois Schumacher está de acordo com o velho slogan agostiniano segundo o qual credo ut intelligam. O mundo real não nos chega com etiquetas ou rótuos indicando qual o nível adequado a ser utilizado. A propósito, escolher um nível inadequado não significa necessariamente que a conclusão implicará em erro ou contradição lógica, mas apenas que os diferentes níveis, embora todos verdadeiros, lógicos e objetivos, não são por isso igualmente reais. Em termos práticos, o observador tem de possuir um intelecto devidamente formado, treinado e educado, mas também sua fé (suas "suposições fundamentais") terá de estar bem desenvolvida, sob pena de entregar-se a repetir aquilo que seu tempo e sua época dizem de acordo com o nível de fé, ou ausência de fé, vigente.

Aqui cabe fazer uma distinção entre intelecto e fé. O intelecto é capaz de ver para além dos cinco sentidos. As verdades matemáticas e geométricas, por exemplo, são típicas do exercício intelectual. Mas a fé enxerga para além do intelecto. A fé abre o chamado "olho do coração", algo que todos nós possuímos, mas nem todos o exercitam. A plena compreensão, a plena certeza, é algo que somente o olho do coração pode proporcionar. O intelecto, por mais "verdadeira" que seja a conclusão a que chegue, nunca ultrapassa o nível da opinião. Somente o olho do coração possui essa misteriosa capacidade de reconhecer a verdade aí onde se encontra. Os sentidos e o intelecto nos dão experiência. O olho do coração nos dá iluminação. Schumacher acredita que o mundo das ideias está dentro de nós.


3. Os campos de conhecimento

O aprendizado compreende 4 grandes campos de conhecimento, os quais respondem às seguintes pergutas:

(I) O que acontece no meu mundo interior? O que eu sinto?

(II) O que acontece no mundo interior dos outros seres? O que você sente?

(III) O que pareço aos olhos dos outros seres? O que eu pareço?

(IV) O que realmente obervo no mundo que me rodeia? O que você parece?

Vamos examiná-los um a um.


(I) A atenção (noûs)

Dizem que a psicologia é uma ciência nova. Trata-se de um entendimento completamente falso; pelo contrário, o que se observa é que a psicologia é uma das ciências mais antigas. O que ocorre é que os aspectos essenciais da psicologia foram esquecidos, o que faz com que muitos concluam que seja portanto algo novo. A psicologia tradicional tinha como objetivo não tanto curar as pessoas mentalmente enfermas e convertê-las à normalidade, mas curar as pessoas mentalmente normais e convertê-las à supernormalidade.

A psicologia tradicional entendia que a autoconsciência está intimamente ligada à faculdade da atenção, mais especificamente à faculdade de dirigir a atenção. Schumacher nos lembra que são raros os momentos em qe nos damos conta da possibilidade de dirigir nossa atenção aonde queremos, ou seja, livre de qualquer "atração", e mantê-la aí pelo tempo que desejarmos. São raros esses momentos de liberdade e autoconsciência.

O objetivo aqui é que a atenção esteja plenamente desperta. Não se trata evidentemente de despertar do sono noturno comum, mas de despertar do movimento errante e sem rumo da atenção. Esses movimentos, segundo Schumacher, nos tornam incompetentes, miseráveis e algo menos humanos.

Essa atenção pura se alcança mediante a interrupção de todo e qualquer "murmúrio" interno, ou ao menos observar tal murmúrio com calma. A atenção pura é algo que está acima das atividades de pensar, raciocinar, debater, opinar etc., que, por mais importantes que sejam, são subsidiárias à atenção pura, ou seja, elas devem apenas classificar, conectar e verbalizar as ideias e conteúdos obtidos pela atenção pura. O pensamento é algo que está no nível da consciência, e não no nível superior da autoconsciência. A mente, explica Schumacher citando Nyanaponika, "regressa ao estado original das coisas. [...] A observação retrocede à fase primieva do processo de percepção, na qual a mente s enecontra em um estado meramente receptivo e a atenção se limita puramente a notar o objeto". A ideia portanto é que o ego do homem, com seus apegos e interesses, não adultere o material autêntico e imaculado recebido pela atenção pura. Os vários egos que habitam o homem agem de maneira descoordenada, destrutiva, e livrar-se desses egos é algo que o homem somente pode empreender esperando em Deus, com um "propósito puro", como é dito no clássico inglês The Cloud of the Unkown.

Segudo Schumacher, no Cristianismo a tradição que estabelece a técnica e a experiênca acumulada de milênios de prática da atenção pura encontra-se na Igreja Ortodoxa, mais especificamente na prática do hesicasmo e da oração incessante no interior de alguns mosteiros gregos e russos.  Citando o Metropolita Kallistos Ware, Schumacher explica que a Oração de Jesus opera como uma lembrança constante que leva o homem a voltar-se ao interior a todo momento, tornando-o consciente de seus pensamentos fugazes, de suas emoções repentinas, inclusive de seus movimentos, de modo que pode lhe servir de grande ajuda para controlá-los.

Vale a pena citar alguns trechos de Mysticism and Philosophy, de W.T. Stace:

"Suponhamos que uma pessoa interrompa interrompa o fluxo dos sentidos físicos de maneira que nenhuma sensação possa chegar à consciência. [...] Não parece existir nenhuma razão a priori para que um homem que se proponha este objetivo [...] não consiga, adquirindo concentração e controle suficientes, apartar de sua consciência toda sensação física.

Suponhamos que, depois de ter se libertado de todas as sensações, o homem continue excluindo da consciência todas as imagens sensuais e, depois, todos os pensamentos abstratos, processos de raciocínio, volições e demais conteúdos concretos. O que restaria à consciência? Não haveria nenhum conteúdo mental, apenas um completo vazio, o nada.

Se supõe a priori que a consciência se afundaria por inteiro e que ficaríamos adormecidos ou inconscientes. No entanto, os místicos introspectivos -- milhares deles em todo o mundo -- afirmam que alcançaram esse completo vazio de conteúdos mentais concretos, e o que ocorre é algo muito diferente do desmoronamento da consciência. Pelo contrário, o que surge é um estado de consciência pura, no sentido de que não é consciência de nenhum conteúdo empírico. A consciência é seu único conteúdo.

O paradoxo é que exista uma experiência autêntica sem um conteúdo autêntico, uma experiência que ao mesmo tempo seja algo e nada. Em nossa consciência normal e cotidiana sempre há objetos, imagens, inclusive nossos próprios sentimentos e pensamentos percebidos introspectivamente. Suponhamos então que apaguemos todos os objetos físicos e mentais. Quando o eu não está ocupado em apreender objetos se torna consciente de si mesmo. Surge o próprio eu. [...] Podemos dizer que o místico se liberta de seu ego empírico, com o qual o puro ego, normalmente oculto, sai à luz. O ego empírico é o fluxo da consciência. O ego puro é a unidade que mantém juntas as múltiplas correntes do fluxo".

O paradoxo só existe para quem se afana em acreditar que nada superior pode existir acima de sua conscincia e experiência cotidianas. É necessário transcender a consciência mediante a autoconsciência. O homem precisa abrir-se ao puro ego, ao eu, ao vazio, ao poder divino que habita em seu interior. É isso que ensinam as grandes espiritualidades.


(II) O autoconhecimento

Para conhecer o próximo é necessário antes conhecer-se a si mesmo melhor. É isso ao menos que ensinam as grandes tradições espirituais. A expicação é que por mais que as outras pessoas comuniquem o que pensam e sentem de maneira precisa, abrangente e correta, tais dados não serão corretamente interpretados se não dispusermos em nosso interior alguma experiência que corresponda àquela transmitida por nosso interlocutor. Isso vale desde as dores físicas até sentimentos como amor, ódio, alegria, tristeza, esperança, medo, angústia etc. Nada disso é observável por nossos sentidos externos e, portanto, exige certa eperiência interior para que as compreendamos verdadeiramente.

É possível que sejamos pessoas "honradas", "respeitosas", "dignas", "crentes" etc., mas sem uma atividade interior desenvolvida, toda e qualquer empatia, toda e qualquer compreensão da condição alheia, seremos como uma pianola, que apenas macaqueia a partitura que lhe inserem, ou como um computador, que executa à risca o que determnado programa lhe comanda.

Nossa consciência não é capaz de apreender corretamente os sinais que nos chegam pelos sentidos. Um gesto, por exemplo, não pode ser interpretado por uma mente puramente racional; é absolutamente necessário que a autoconsciência desempenhe este papel. Neste sentido, Schumacher recomenda que tomemos contato com a vida e a obra daqueles que conseguiram chegar a tal autoconhecimento (místicos, santos, mestres espirituais etc.).


(III) A auto-observação

Para entender como os outros me veem é necessário que esteja consciente de meu movimento pendular, ou seja, de como eu tendo a mudar com muita frequência de uma opinião a sua opinião oposta. A ideia não é apenas dar-se conta da mudança, mas observá-la sem julgá-la, sem justificá-la.

O segredo aqui está em observar e compreender as necessidades, perplexidades e dificuldades dos demais, mas de maneira que nossos egos, ou seja, nossas próprias necessidades, perplexidades e dificuldades, não interfiram nessa observação. O altruísmo, entendido aqui como ausência do ego, é um pré-requisito para aprendermos algo do próximo.

Quando uma pessoa ama a si mesmo não existe nada entre o que ama e o que é amado. Mas quando ama o próximo, seu pequeno ego costuma intrometer-se. Portanto, amar ao próximo como a si mesmo significa amar sem nehuma intromissão do próprio ego; significa alcançar o altuísmo perfeito, eliminar todo e qualquer vestígio de egoísmo.


(IV) A ciência

Atualmente acreditamos que a "ciência" é a fonte verdadeira do conhecimento a respeito do mundo que nos rodeia. Ela conta com a ajuda de instrumentos e equipamentos e, claro, de teorias e hipóteses que norteiam seus estudos.

Aqui Schumacher vê um problema importante. Sim, é verdade que a ciência está a cargo de tudo isso, mas seria o mesmo que dizer que uma grande obra de arte se limita aos materiais que a compõe. É como se o inferior ocupasse o lugar do superior.

Ele explica que as ciências grosso modo podem ser divididas em dois grupos ou dois "graus":

(a) Ciências descritivas: botânica, geografia, zoologia, história, biologia etc. Estas ciências se ocupam de toda a verdade. Aqui há classificações, regularidades observadas, conjecturas, teoremas com diferentes grau de plausibilidade, mas nunca provas.

(b) Ciências instrutivas: física, química, matemática etc. Estas ciências se ocupam de partes ou aspectos da verdade que são úteis para manipulação. Portanto, elas tratam somente do aspecto morto da natureza. Dado que seu objetivo é produzir resultados repetíveis e previsíveis, e dado que vida, consciência e autoconsciência são elementos que possuem "vontade própria", essas ciências não podem levá-los em conta. Aqui é possível falar de provas, de "comprovação científica".

Do ponto de vista científico, especialmente no caso das ciências instrutivas, não faz sentido distinguir entre o que podemos conhecer (epistemologia) e o que realmente existe (ontologia). Isso é importante entender porque as ciências, ao concentrarem-se no aspecto aparente do mundo, não são capazes ipso facto de dar-lhe sentido ao que estudam. As ciências, afinal, têm a ver mais com fertilidade (produzir resultados num campo previamente delimitado) do que com veracidade (explicar o mundo e sua estrutura). É por isso que as ciências descritivas, quando mais amplas se pretenderem, ou seja, quanto mais abrangentes, mais globalizantes, mais será necessário aplicar-lhes fé. Não por outro motivo o evolucionismo nos parece uma doutrina religiosa: seus postulados não podem ser provados.

As ciências descritiva estão vocacionadas a alcançar o significado e o propósito para além das aparências, mas para isso têm de contar com o apoio da experiência interior. Se não for assim, estarão fadadas a serem meras coleções, meros inventários, meras descrições enciclopédicas.


4. Os tipos de problemas

Na vida encontramos dois tipos de problemas:

(a) Problemas convergentes. São aqueles que se resolvem mediante o emprego da inteligência. Quanto mais inteligência se lhes aplicamos, tanto mais as respostas ao problema convergerão. Os problemas enfrentados pelas engenharias são típicos dessa classe de problemas. Tai problemas se relacionam com o aspecto inerte do universo. Consciência e autoconsciência não estão presentes para "atrapalhar" sua solução.

(b) Problemas divergentes. São aqueles cuja solução provém de um par de contrários, os quais, tomados em si, são irrenconciliáveis. Os problemas das ciências humanas são típicos dessa classe de problemas. O problema de como educar uma criança é resolvido a partir do par disciplina/liberdade, e sua solução é irredutível a esses termos. Quanto mais lógica e consistente a proposta de solução tanto mais divergente será a solução proposta em contrário. As soluções aqui não são meramente lógicas, mas existenciais. A experiência interior, a qualidade e profundidade dessa experiência, é o fator determinante. As grande obras de literatura em geral se ocupam destes problemas.

A vida é maior do que a lógica. Um educador é melhor ou pior que outro não tanto por conta do método que empregue, embora, claro, isso possa ter alguma influência, mas mais por conta de fatores como amor, empatia, participação, compreensão, compaixão. São as faculdades de ordem superior as que se requerem para aplicar qualquer política, seja de disciplina ou liberdade. Mobilizar essas faculdades exige um elevado grau de autoconsciência.

Os problemas divergentes ofendem a mente lógica, que deseja fazer desaparecer a tensão entre os pares, inclinando-se para um ou para outro lado. No entanto, os problemas divergentes provocam, estimulam e agudizam as faculdades mais elevadas do homem, sem as quais não seria mais que um animal inteligente. Neegar-se a aceitar a divergência dos problemas divergentes faz com que estas faculdades permaneçam inativas e se atrofiem, e quando isso acontece o mais provável é que o "animal inteligente" se destrua a si mesmo.

Fonte: E.F. Schumacher, Una Guía para los Perplejos, Atalanta, Girona, Espanha, 2019.