4 de julho de 2008

A Filosofia não salva

Este texto é a resposta de São Gregório Palamás (+1359) a um discípulo desnorteado pelos ataques de Barlaam e seus seguidores. Mais tarde, este e outros textos de São Gregório foram reunidos em famosas Tríades.

Portanto, primeiramente leremos a carta do discípulo em busca de guiamento para, em seguida, lermos a sábia resposta do santo.

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Ouvi algumas pessoas afirmarem que os monges também deveriam buscar a sabedoria secular, e que se não possuíssem tal sabedoria seria impossível evitar a ignorância e as falsas opiniões, mesmo que tivessem alcançado o nível mais alto de espiritualidade; e que não conseguiriam adquirir perfeição e santidade sem buscar todo tipo de sabedoria, sobretudo a cultura grega, que também seria um dom de Deus assim como as visões concedidas aos Profetas e Apóstolos por meio de revelações. Essa educação conferiria à alma o conhecimento dos seres criados e enriqueceria a faculdade do conhecimento, que seria a maior de todas as potências da alma. Pois a educação não somente dissiparia todos os males da alma – já que toda paixão tem sua raiz e fundação na ignorância – mas também levaria o homem ao conhecimento de Deus, pois Ele seria cognoscível somente mediante Suas criaturas.

Não me deixei convencer quando ouvi essas coisas, pois minha pequena experiência na vida monástica mostrou-me exatamente o contrário; mas não consigo preparar uma defesa adequada contra essas coisas. ‘Não apenas ocupamo-nos com os mistérios da natureza’, dizem eles orgulhosamente, ‘medindo o ciclo celestial, e estudando os movimentos opostos das estrelas, suas conjunções, fases e nascentes, e calculando as conseqüências dessas coisas (nos orgulhamos de tudo isso); mas também, dado que os princípios implícitos a estes fenômenos são todos divinos e encontram-se na Mente criativa primordial, e as imagens desses princípios existem em nossa alma, somos zelosos em entendê-los, e descartamos todo tipo de ignorância a seu respeito pelos métodos da diferenciação, do raciocínio silogístico e da análise; portanto, tanto nesta vida quanto na próxima, desejamos nos conformar à semelhança do Criador’.

Senti-me incapaz de responder a esses argumentos e, portanto, calei-me diante desses homens; mas agora te imploro, Padre: ensina-me o que deve ser dito em defesa da verdade, de maneira que cumpra-se a injunção do Apóstolo e eu possa estar pronto para responder a qualquer que vos pedir a razão da fé que há em vós (1 Pedro 3:15).

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Ao examinar a natureza das coisas sensíveis, essas pessoas conseguiram chegar a um conceito de Deus, mas não a um conceito verdadeiramente digno dEle e apropriado a Sua santa natureza. Pois seu coração desordenado foi obscurecido pelas maquinações dos demônios que os estavam instruindo. Pois se um conceito digno de Deus pudesse ser alcançado por meio do raciocínio, como então essas pessoas puderam tomar os demônios por deuses, e como puderam acreditar nos demônios ao ensinarem o politeísmo aos homens? Dessa maneira, enredados por essa sabedoria tola e por essa educação sem luzes, eles caluniaram tanto a Deus quanto à natureza. Eles despiram Deus de Sua soberania (pelo menos naquilo que ensinaram); eles atribuíram o Nome Divino a demônios; e eles se distanciaram tanto do conhecimento das coisas – o objeto de seu desejo e entusiasmo – que afirmaram que as coisas inanimadas têm uma alma e participam numa alma superior a si próprias. Eles também alegaram que as coisas sem razão são lógicas, uma vez que são capazes de receber uma alma humana; que os demônios são superiores a nós e que até mesmo são nossos criadores (tal é sua impiedade); eles classificaram entre as coisas incriadas e não-originadas e co-eternas com Deus não apenas a matéria, e o que eles chamam de Alma do Mundo, mas também os seres inteligíveis não vestidos na opacidade corporal, e até mesmo nossas próprias almas.

Será que aqueles que sustentam tal filosofia possuem a sabedoria de Deus, ou mesmo uma sabedoria humana em geral? Creio que nenhum de nós seria louco o bastante para afirmar isso, conforme declarou o Senhor: Não pode a árvore boa dar maus frutos (Mateus 7:18). Na minha avaliação, essa “sabedoria” não é digna nem mesmo de ser chamada de “humana”, pois sua inconsistência é tão grande que chega ao ponto de afirmar que as coisas são ao mesmo tempo animadas e inanimadas, providas e desprovidas de razão, e que as coisas sem sensibilidade por natureza, isto é, que não possuem órgãos sensoriais, podem conter nossas almas! É verdade que o Apóstolo Paulo às vezes chama isso de sabedoria humana, como quando afirma: Falamos essas coisas não com palavras de sabedoria humana (1 Coríntios 2:13). Mas, ao mesmo tempo, ele acha correto chamar aqueles que a adquiriram de sábios que se tornaram loucos (Romanos 1:22), de os inquiridores deste século (1 Coríntios 1:20), sendo que sua sabedoria é por ele qualificada em termos similares: é a sabedoria que se tornou louca (1 Coríntios 1:20), as coisas vis deste mundo (1 Coríntios 1:28), as vãs sutilezas (Colossenses 2:8), a sabedoria deste século que pertence aos príncipes desde século – que se aniquilam (1 Coríntios 2:6).

Quanto a mim, dou ouvidos ao Padre que diz, “Ai do corpo quando não consome o alimento que vem de fora, e ai da alma que não recebe a graça que vem do alto!” Ele falou com justiça – pois o corpo que passar para o mundo das coisas inanimadas perecerá e a alma que se afastar das coisas que lhe são próprias será enredada na vida demoníaca e em pensamentos demoníacos.

Mas se alguém disser que a filosofia, por ser algo natural, é um dom de Deus, então dirá a verdade, sem se contradizer e sem incorrer na acusação que recai sobre aqueles que a abusam e a pervertem para fins não-naturais. De fato, eles tornam sua condenação ainda pior por utilizarem um dom de Deus de maneira desagradável a Ele.

Além disso, a mente dos demônios, criada por Deus, possui por natureza a faculdade da razão. Mas nem por isso dizemos que sua atividade vem de Deus, mesmo que a possibilidade de sua ação venha de Deus; poderíamos dizer, com toda a propriedade, que tal razão é irrazoável. Todavia, ela foi pervertida pelos engodos do diabo, que a transformou numa sabedoria tola, maléfica e insensível por ter proposto tais doutrinas.

Mas se alguém replicar afirmando que os próprios demônios não têm desejos e conhecimentos absolutamente maus, já que desejam existir, viver e pensar, eis a resposta que eu lhe daria: não é correto discutir conosco só porque dizemos que a sabedoria grega é demoníaca (Tiago 3:15), com base no fato de que ela desperta contendas, contém todo tipo de falso ensinamento e aliena-se de seu próprio fim, isto é, o conhecimento de Deus; pois nós também reconhecemos que ela tem alguma participação no bem, de maneira incipiente e remota. É importante lembrar que nada é mal simplesmente porque existe, mas porque se aparta de sua atividade apropriada e, portanto, do fim que é designado a essa atividade.

Então, qual deveria ser a atividade e o objetivo daqueles que buscam a sabedoria de Deus nas criaturas? Não seria a aquisição da verdade e a glorificação do Criador? Isso está claro para todos. Mas o conhecimento dos filósofos pagãos se afastou de ambos os objetivos.

Haveria então alguma utilidade para essa filosofia? Sem dúvida, pois assim como há grande valor terapêutico até mesmo nas substâncias obtidas da carne das serpentes, e os médicos consideram-nas os melhores e mais úteis remédios, assim também há algo de benéfico a ser extraído dos filósofos profanos – mas é como se fosse mel misturado com cicuta. Urge, portanto, que aqueles que desejam extrair o mel da mistura não levem consigo nenhum resíduo mortal. E, se tu pensares no problema, verás que todas ou quase todas as heresias originam-se dessa maneira.

É o que ocorre com os “iconognósticos”, ou seja, aqueles que acham que o homem recebe a imagem de Deus por meio do conhecimento, e que esse conhecimento conforma a alma a Deus. Pois, como foi dito a Caim, Se bem fizeres sua oferta, sem dividir corretamente... (Gênesis 4:7). Mas dividir bem é propriedade de pouquíssimos homens. Somente aqueles cujas almas estão treinadas para distinguir o bem do mal dividem bem.

Por que correr esses perigos desnecessariamente, quando é possível contemplar a sabedoria de Deus em Suas criaturas não apenas sem riscos mas com lucro? Uma vida na qual a esperança em Deus libertou-a de toda preocupação naturalmente impele a alma para a contemplação das criaturas de Deus. Ela então se admira, aprofundando-se em entendimento, persistindo na glorificação do Criador e, por meio desse sentimento de assombro, é levada para algo maior. De acordo com Santo Isaque, Ela encontra tesouros que não podem ser expressos em palavras; e, usando a oração como uma chave, ela penetra em mistérios que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem (1 Coríntios 2:9), mistérios manifestados somente pelo Espírito àqueles que são dignos, conforme ensina São Paulo.

Vês o caminho ligeiro, cheio de lucro e sem perigo, que leva àqueles tesouros sobrenaturais e celestiais?

No caso da sabedoria secular, tu deves primeiro matar a serpente, em outras palavras, superar o orgulho que surge dessa filosofia. Como isso é difícil! A arrogância da filosofia não tem nada em comum com a humildade, diz o ditado. Tendo-a superado, então, você deve separar a cabeça da cauda, pois estas coisas são maléficas no sentido mais intenso do termo. Com cabeça quero dizer as opiniões erradas sobre as coisas inteligíveis, divinas e primordiais; e por cauda quero dizer as fábulas que se contam sobre as coisas criadas. Quanto àquilo que está entre a cabeça e a cauda, você deve separar as idéias inúteis por meio das faculdades do exame e da inspeção que a alma possui, da mesma maneira que os farmacêuticos purificam a carne da serpente com fogo e água. Mesmo que faças tudo isso, e faças bom uso daquilo que foi posto de lado, quanto trabalho e circunspeção serão necessários para executar essa tarefa!

Apesar disso, se tu fizeres bom uso daquela sabedoria profana que foi extirpada, nenhum mal lhe resultará, pois ela naturalmente foi transformada em um instrumento para o bem. Mas mesmo assim ela não pode propriamente ser chamada de dom de Deus e de algo espiritual, pois pertence à ordem da natureza e não de algo enviado do Alto. Eis por que São Paulo, que é tão sábio nas questões divinas, chama-a de carnal (2 Coríntios 1:12); pois, conforme ele diz, Vede, irmãos, entre nós que fomos chamados não são muitos os sábios segundo a carne (1 Coríntios 1:26). Pois quem poderia fazer melhor uso dessa sabedoria do que aqueles a quem São Paulo chama de sábios de fora (1 Timóteo 3:7)? Mas com essa sabedoria em mente, ele corretamente os chama de sábios segundo a carne.

Assim como o prazer da procriação no casamento não pode propriamente ser chamado de dom de Deus, uma vez que é carnal e constitui um dom da natureza e não da graça (mesmo que tal natureza tenha sido criada por Deus), assim também o conhecimento que provém da educação profana, mesmo que bem utilizado, é um dom da natureza, e não da graça – um dom que Deus concede a todos sem exceção por natureza e que pode ser desenvolvido por exercício. Esta última observação, isto é, de que ninguém o adquire sem esforço e exercício, é prova evidente de que se trata de um dom natural, e não espiritual.

É a sabedoria sagrada que deve legitimamente ser chamada de dom de Deus, e não dom natural, pois até mesmo simples pescadores que a receberam do Alto tornam-se, conforme São Gregório, o Teólogo, afirmou, filhos do Trovão, cuja expressão abrange até os confins do universo. Por meio desta graça, até mesmo publicanos tornam-se comerciantes de almas, e algozes implacáveis são transformados em Paulos ao invés de Saulos, deixando a terra para atingir o terceiro céu e ouvir coisas inefáveis. Por esta verdadeira sabedoria nós também conseguimos nos conformar à imagem de Deus, e continuar assim após a morte.

Quanto à sabedoria natural, ensina-se que até mesmo Adão a possuía em abundância, mais do que todos os seus descendentes, embora ele tivesse sido o primeiro a romper a conformidade com a imagem. A filosofia profana existia enquanto auxílio à sabedoria natural antes do advento dAquele que veio para restaurar a alma em sua antiga beleza; por que, então, não conseguimos ser restaurados por esta filosofia antes da vinda do Cristo? Por que precisamos de alguém, não para ensinar filosofia – uma arte que perecerá com este mundo, por isso chamada de sabedoria deste mundo (1 Coríntios 2:6) –, mas de Alguém que tira o pecado do mundo (João 1:29) e que nos conceda a verdadeira e eterna sabedoria – mesmo que aparente ser loucura (1 Coríntios 1:18) aos efêmeros e corruptos homens deste mundo que, todavia, são loucos por não se ligarem espiritualmente a ela? Tu não percebes que não é o estudo das ciências profanas que salva, que purifica a faculdade cognitiva da alma, que a conforma ao Arquétipo divino?

Eis, pois, minha conclusão: se o homem que busca a purificação por meio do cumprimento da Lei não receber benefício algum do Cristo – mesmo que a Lei tenha sido manifestamente promulgada por Deus – então ele também não receberá benefício algum das ciências profanas. Pois Cristo será ainda menos benevolente para com aqueles que se voltarem à filosofia alheia para purificar suas almas. É São Paulo, o porta-voz do Cristo, que nos diz isso e nos dá seu testemunho.

2 de julho de 2008

A espiritualidade ortodoxa

Pe. George Metallinos

1. A expressão “vida espiritual”, no contexto ortodoxo, refere-se a uma realidade específica, a um tipo de vida tangível, ampla e específica. Não se trata de utopia ou de idealismo confinado nos limites da meditação e da fantasia. A espiritualidade da Ortodoxia engloba materialidade e realidade, bem como elementos mundanos. É uma tradição; o veículo e a continuidade de um tipo de vida, um tipo de existência perpétua que entrou na história e tornou-se uma realidade mundana, terrena, por meio da Encarnação do Deus-Logos, nosso Senhor Jesus Cristo. A vida espiritual cristã é inconcebível se não estiver lastreada no fato da Encarnação de Deus.

O objetivo da Encarnação do Filho de Deus não foi somente o melhoramento da realidade humana, mas sua reforma e transformação. Seu objetivo é um “novo mundo”, uma realidade teantrópica (Deus-humana). De acordo com os Padres da Igreja Ortodoxa, Deus tornou-se theanthropos (Deus-humano) para tornar-nos teantrópicos.

A tradição ortodoxa é a luta para a continuidade da nova vida em Cristo e através de Cristo nas vidas humanas, que, por sua vez, manifesta-se também em relações sociais fraternas. Os homens que, de geração em geração, manifestam esta nova vida são os Santos Padres. A Ortodoxia é expressa pelos Santos Padre e somente eles podem ser considerados testemunhas autênticas desta vida. A tradição ortodoxa e a experiência dos Santos Padres são coisas idênticas, formando uma continuidade pessoal, e não uma mera transmissão mecânica de ensinamentos codificados. Estas experiências se dão no mundo da Verdade Encarnada, dentro de realidades e épocas específicas (isto é, dentro de civilizações e culturas políticas e sociais).

Chegamos à conclusão que para nós, ortodoxos, as palavras verdade, justiça, paz, igualdade, fraternidade não são conceitos ideológicos ou questões morais, mas são modos de existência em Jesus Cristo, tal como os Santos Padres, Profetas, Padres e Madres de todas as épocas. Nosso esforço em percebê-las em nossas vidas não se baseia somente em nossa boa-vontade e iniciativa, mas sobretudo nas ações poderosas de Deus.

Portanto, a espiritualidade ortodoxa não é algo “esotericista” (isto é, um mero desenvolvimento cultural), centrado no homem e idealista, nem mesmo é uma religião. É, isso sim, a participação pessoal na vida divina, que se tornou realidade mundana mas que não se manifesta apenas pelo poder humano, isto é, sem a sinergia divina.

Espiritualidade é vida e esforço no Espírito Santo, e ela se identifica com toda a vida da Igreja enquanto corpo e com sua tradição, na qual o homem é motivado a buscar a salvação.

2. O esforço humano pela completa imersão nesta comunidade possui uma expressão puramente revolucionária. A revolução pessoal cristã é o asceticismo enquanto exercício espiritual. A revolução é contra a natureza autônoma e morta, para que ela seja “vacinada” na vida em Cristo com a ressurreição do Cristo. Uma rebelião contra nós mesmos, que vivemos na morte e na corrupção. E por quê? A salvação da corrupção e da morte é Graça de Deus, um dom do Deus Incriado à Sua criatura criada. Não é uma realização nossa, um feito de nossa natureza. Ela é concedida quando o homem atinge um tipo de existência cuja natureza está livre da escravidão às necessidades, que constitui a escravidão à morte e à corrupção. As palavras do Cristo são verdadeiramente revolucionárias: Vim lançar fogo na terra (Lucas 12:49); Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada (Mateus 10:34); Se faz violência ao Reino dos Céus, e pela força se apoderam dele (Mateus 11:12). Como devemos entender estas palavras?

A violência à natureza é absolutamente necessária para derrotar a escravidão interna. As tribulações são o esforço para negar “nosso velho homem” (cf. Mateus 16:24 e Romanos 6:6). A vontade humana deve se acostumar a resistir ao pecado, isto é, às posturas egocêntricas para com as pessoas e o mundo. Mergulhados no pecado, na vida-morte que vivemos, encaramos todas as coisas como se fossem objetos neutros, sujeitos às nossas necessidades e desejos. Vejam, por exemplo, a exploração do mundo (da criação) e das pessoas, a poluição ambiental, a produção de armas nucleares utilizadas na corrida entre as superpotências pela hegemonia. O fiel ao Cristo luta contra sua natureza egocêntrica por meio da privação voluntária, desejando, assim, alcançar o controle da carne a fim de atingir a libertação externa. Ele recusa a tendência de sujeitar tudo, aprende a amar o mundo e percebe sua unidade com o mundo, discernindo o selo do poder criativo de Deus em cada criatura individual e utiliza o mundo (de maneira agradável aos olhos de Deus) como uma contínua liturgia e referência a Deus. Por meio de sofrimentos e tribulações (isto é, de exercícios espirituais), o homem alcança a autêntica comunhão, onde a vida torna-se auto-superação de amor.

Este mesmo caráter revolucionário e libertador encontra-se no tormento, que constitui a superação do sentido da vida enquanto “sobrevivência individual”. O modo de existência individual transforma-se em comunhão pessoal de amor por meio do asceticismo. É por isso que a Ortodoxia chama o asceticismo voluntário de “tormento da consciência”.

3. A espiritualidade ortodoxa é exatamente este esforço pelo encontro histórico e libertador entre o Incriado e o criado. Ocorre que nenhum homem jamais conseguirá “conhecer” o Incriado por meio do raciocínio, mas sim pela presença e aquisição do Incriado no criado. O propósito da tradição ortodoxa é promover o homem à unificação com Deus, ou seja, à deificação. Este propósito requer um instrumento: o coração. Em geral, achamos que a circulação do sangue é a única função do coração e, consequentemente, consideramos o cérebro e o sistema nervoso como os centros de nossa autoconsciência. Porém, na verdadeira tradição cristã, o coração é a região de comunhão com Deus. O poder da alma energizada no coração é chamado de “mente” pelos Santos Padres. Mas, neste caso, mente não é o mesmo que lógica. A mente é também chamada de oração do coração (oração mental), que consiste em energizar a mente no coração. Essa oração torna-se incessante (I Tessalonicenses 5:17) quando o coração é purificado e recebe a Graça do Espírito Santo.

A inatividade da faculdade noética (e não a lógica) é a essência da queda do homem. A ausência de função (ou a função limitada) do poder mental e sua confusão com a função cerebral ou corporal escraviza o homem ao mundo e ao materialismo, concentrando sua atenção no corpo. Dessa maneira, os homens serviram mais à criatura do que o Criador, cujas conseqüências são o desmantelamento da autenticidade em suas relações, a individualização, as posturas anti-sociais, a auto-deificação e a auto-idolatria. Em suma, é o uso de Deus e das pessoas para garantir segurança e felicidade pessoal.

Após curar a doença do coração, o homem retorna à verdadeira sociabilidade. O coração puro recebe a iluminação do Espírito Santo. Neste ponto, o amor auto-centrado transforma-se no amor desinteressado de Deus. Sem a iluminação de Deus, o amor é incapaz de ultrapassar a postura auto-centrada e imperfeita. Ele permanecerá imperfeito e falso. Pela iluminação, o homem se torna o templo do Espírito Santo, verdadeiro e espiritual.

4. Na terminologia ortodoxa, o processo para reativar a faculdade noética no coração é chamado de “cura da existência humana”, e é este o principal objetivo da Igreja. Eis o propósito da presença da Igreja na história: restaurar a comunhão Deus-homem no coração.

Esta restauração das relações Deus-homem não se dará na vida futura pós-morte, mas é cumprida aqui mesmo, na história. O fiel, pela presença da ação de Deus em si, torna-se “templo de Deus” e detém a eternidade aqui, na realidade terrena, vivendo-a tanto na história quanto na pós-história. Ele se torna um homem celestial, como os santos. O santo, de acordo com a Ortodoxia, é o homem verdadeiro, capaz de criar a verdadeira irmandade, a verdadeira justiça. O propósito final da Ortodoxia não é honrar egoisticamente o indivíduo, mas restaurar a autêntica comunhão com nossos concidadãos. Nas palavras de Santo Isaque, o Sírio, todos os santos alcançaram esta perfeição, espalhando amor e filantropia para com todos. Não existe Ortodoxia individual ou salvação individual. No final das contas, a salvação não passa da completa imersão na sociedade fraternal. Isso vale para todas as pessoas, sem exceção.

A diferença entre Ortodoxia e os sistemas seculares é que estes tentam criar uma sociedade, enquanto os ortodoxos esforçam-se para se inserirem na sociedade revelada da Trindade, no Corpo do Cristo. Essa sociedade, por natureza, é fraternal e não possui classes sociais (cf. Gálatas 3:28).

5. Apesar das imperfeições humanas, essa vida até hoje é uma realidade nos mosteiros ortodoxos. É lá que a vida está imersa na Graça de Deus, em apoio mútuo, sem “posses pessoais”, em comunismo de amor, onde todos trabalham de acordo com suas habilidades e forças e desfrutam de acordo com suas necessidades. Portanto, inexiste qualquer suspeita de exploração e supervalorização, pois o propósito não é lucrar; o propósito é servir e apoiar uns aos outros.

O mosteiro é o modelo mais puro de comunhão na Ortodoxia, e influenciou intensamente a formação histórica das sociedades ortodoxas. Nossa vida secularizada e ocidentalizada reflete exatamente o oposto deste modelo, adotando modelos de estruturação social que são estranhos à Ortodoxia e sua cultura. A cultura ortodoxa é totalmente diferente da cultura ocidental porque seu ideal social não é a felicidade e o bem-estar individuais, mas a “distribuição equânime da miséria” e da solidariedade.

Alguém poderia supor (e isto é algo que ouço freqüentemente na Europa Ocidental) que este modelo social não passa de marxismo. De maneira alguma! O marxismo, assim como os demais sistemas sociais, concentra-se em estruturas e relações externas. A Ortodoxia age nas profundezas do homem, restaurando nele a imagem de Deus a fim de engendrar uma sociedade humana que reflita o modo de existência da Trindade. Assim sendo, o indivíduo jamais é sacrificado por Cristo em nome do bem comum, mas é o bem comum que se torna bem individual.

O interesse do homem ortodoxo não está limitado ao tempo, mas está constantemente orientado para a eternidade. Eis o que diz o Apóstolo Paulo em I Coríntios 15:19: Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.

A Ortodoxia não pretende ser uma comunidade religiosa de serviços comunitários nem uma organização humana que luta pela paz na terra e pela coexistência entre as nações. A Ortodoxia deseja ser, acima de tudo, o Corpo do Cristo, um laboratório salvífico para a cura da existência humana.

Além do mais, na Ortodoxia não existe processo evolucionário por meio de mudanças constantes. Nosso curso é centrado no Cristo, sem mudanças. Cristo permanece sendo o centro absoluto e o ponto de referência dos povos ortodoxos de todos os tempos. É Ele quem assegura nossa unidade ao longo do tempo por meio de Sua presença dentro de nós. Sua ação incriada unifica (tanto na dimensão horizontal quanto na vertical) os povos ortodoxos ao longo da história. Tal união entre os povos não resulta de uma sujeição cega a normas rígidas de vida e conduta, mas de Sua presença dentro deles.