6 de fevereiro de 2017

A vida após a morte


1. A parábola do homem rico e Lázaro

Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; e desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite. (Lucas 16:19-31).

  • A parábola é sobre o estado intermediário das almas, e não após a Segunda Vinda.
  • A morte -- separação da alma do corpo -- existe na vida humana.
  • Enquanto anjos tomaram Lázaro, demônios tomaram o homem rico. Os Santos Padres falam dos telônios, isto é, de demônios que tentam as almas. Como as almas pecadoras não têm mais o corpo para satisfazerem suas paixões, tornam-se enfurecidas. Portanto, depende das condições da alma se ela será tomada por anjos ou demônios.
  • O nome do homem rico não é mencionado porque ele não é uma pessoa em relação a Deus, já que não possui a graça do Espírito em si. O noûs do homem rico atraiu-se pelo mundo material, por coisas.
  • O seio de Abraão (Deus), atrás do peito, é o coração, o amor, que constitui-se de comunhão e união, isto é, Lázaro está unido a Deus. Lázaro não se importa com o rido porque, vivendo na Luz Incriada, esquece-se do mundo.
  • O fogo no qual o rico queima é a Luz Incriada, a mesma de Lázaro. Mas como ele não morreu curado, arrependido, a Luz é experienciada como uma energia cáustica. O grau de cura ou doença determina se a pessoa recebe a Luz como luz ou fogo. Mas todos verão a Luz. 
  • Os santos ouvem as orações dos pecadores.
  • O abismo é intransponível porque os pecadores veem a Luz como fogo. Eles não têm obras espirituais (cf. a iconografia da Segunda Vinda).
  • O homem carnal é incapaz de se arrepender, não importa o milagre que lhe seja mostrado. Ele não se deixa persuadir pelos santos, e não se deixará pelos milagres.
  • Para ser curado, deve-se ouvir os profetas, isto é, os teólogos e guias espirituais. Quem não se associa a um homem deificado não poderá ser salvo (um possível substituto são os escritos dos profetas, para que aprendamos o que é o Reino dos Céus e como chegar lá).

2. A separação da alma e do corpo

  • Definição de alma. São Gregório de Nissa ensina que a alma é criada, feita por Deus, um ser vivo e noético que, com a ajuda e a energia de Deus, transmite vida ao corpo.
  • Criação da alma. A alma é criada por Deus juntamente com a gênese do corpo, e se revela e se expressa à medida que o corpo cresce.
  • Morte e pecado ancestral. A causa  da morte não é Deus, mas o pecado que o primeiro homem criado cometeu no Paraíso, por livre escolha. Deus permitiu a morte por amor e filantropia, já que dá ao homem a chance de arrepender-se e seguir uma vida espiritual. Portanto, a morte concede ao homem a chance de não morrer para sempre.
  • O mistério da separação da alma e do corpo. A morte é um mistério porque coisas misteriosas ocorrem sem que a razão humana consiga entender. A violência com que o liame alma-corpo é rompido constitui esse mistério, deixando a alma aterrorizada. São Theognostos ensina que a morte é um novo nascimento, sugerindo que, ao mesmo tempo que devemos estar alegres e esperançosos, devemos também estar vigilantes e atentos por causa dos demônios. Enquanto Deus permite que os santos vejam outros santos (visões divinas), os pecadores têm visões demoníacas. Os santos, ainda em vida, reconhecem os falecidos, isto é, eles veem suas almas, uma prova de que a hipóstase (pessoa) não se destrói com a partida da alma.
  • A taxação de almas. A alma do recém-falecido sente a presença de demônios ("demônios alfandegários"). A alma se aterroriza, mas esses demônios não têm autoridade sobre os justos (ver João 14:30).  No Velho Testamento há trechos sobre os telônios aéreos: Salmo 7:1-2, Jeremias 20:9-10. Mas importante: a alma dos que não se arrependeram estará sujeita a ação dos demônios e de suas próprias paixões. Para se livrar disso, o pecador deve confessar ps seus pecados completamente, amar os homens, pensar em Deus e Sua justiça etc. Assim, os anjos que transportam a alma poderão "muni-la" de boas obras, livrando-a dos demônios. Os Santos Padres não cogitam acerca dessas coisas, mas as conhecem por experiência iluminada. São eles que oram para que sejamos livres da "morte súbita". Por causa do liame corpo-alma, há também uma estreita relação entre paixões da alma e do corpo. Quando a alma se separa do corpo, ela não consegue satisfazer suas paixões. Tais paixões insatisfeitas produzem uma dor intolerável. É por isso que os Santos Padres urgem para que nos livremos das paixões nesta vida a fim de que nos atraiamos somente por Deus. Portanto, o importante não são os demônios alfandegários, mas curar a alma das paixões, participando assim da Luz Incriada, tudo isso em vida, para que nossa partida seja alegre e bem-sucedida. A doutrina patrística dos telônios deve ser assim interpretada: (1) a linguagem da Bíblia requer a interpretação ortodoxa adequada, (2) os demônios são pessoas e, portanto, têm liberdade e fazem mau uso da liberdade humana e os dominam, (3) os demônios não têm autoridade sobre os justos e santos, que, portanto, não passarão pelos telônios e (4) os demônios agem por maior das paixões humanas.
  • Estado intermediário. É o estado entre a partida da alma e a Segunda Vinda de Cristo. Não é um estado natural da alma, pois ela vive afastada do corpo. Os justos e pecadores aqui obtêm somente uma prefiguração do Paraíso e do Inferno. São Marcos Eugênico ensina que os justos e pecadores estão "em seus locais apropriados". Há uma distinção entre Paraíso e Reino dos Céus e entre Hades e Inferno (antes e depois da ressurreição dos corpos). Os santos, em princípio, não conseguem nos enxergar e ouvir, porque estão sem seus corpos. Mas, pela graça, como estão unidos a Deus, eles nos ouvem e recebem nossas orações, embora não estejam em seu estado natural. São Nicetas Stethatos ensina que os santos, após a morte, são carregados por anjos "até a luz principal", isto é, até o Deus Trinitário e, depois, para a luz secundária (anjos e justos) que participam da luz principal. Santo André de Creta menciona que até mesmo os santos devem descer ao Hades, a fim de que sejam iniciados na economia divina, isto é, a descida de Cristo ao Hades e Sua vitória sobre o Hades e a morte. Em suma, o estado intermediário é um estado de espera. É por isso que as orações aos mortos são importantes, já que eles mesmos não podem se ajudar. E peçamos também aos santos, já que eles têm grande liberdade junto a Deus, pois estão em Sua Luz Incriada.
  • A morte de bebês. São Gregório de Nissa explica passo-a-passo: (1) Para que na Terra não falte o elemento noético, Deus criou o homem com parte sensível e noética; (2) É o elemento noético o responsável pela comunhão com Deus; (3) A questão da morte das crianças não deve ser avaliada em função da "justiça", mas do estado natural da saúde ou doença da natureza humana. Quando nasce, o homem experimenta iluminação do noûs e, portanto, podem ter oração noética, proporcional à sua idade. As crianças, como os santos, também veem anjos. (4) As crianças podem estar sendo poupadas pela Providência de coisas futuras malignas. Deus remove a crianças do banqueta da vida, sabendo que ela fará mal uso do mundo. (5) Alguns maus não morrem facilmente, cuja razão cabe somente a Deus saber. Alguns benefícios dessas pessoas más podem ser deduzidos.

3. Experiências pós-morte


O Pe. Seraphim Rose identificou 3 traços comuns nas experiências descritas pelo Dr. Moody:


(a) As experiências "extra corporais": a alma sai do corpo, retendo sua consciência, sentindo um grande aconchego, vendo as pessoas ao seu redor, mas sem poder se comunicar com elas.

(b) Encontro com outras pessoas: logo após essa solidão de (a), a alma se encontra com outras pessoas (parentes e amigos mortos).

(c) Os "seres de luz": surge uma luz, que aumenta seu brilho, reconhecendo-se nela uma personalidade particular ("Cristo" ou algum "anjo").

Segundo o Pe. Seraphim, estas coisas também ocorrem na Igreja, mas muita confusão é gerada aí. O "Arcebispo" Lázaro sustenta que essas experiências extra-corporais são estados demoníacos. Ele aponta 3 argumentos:

(a) A experiência espiritual do Reino de Deus não pode ocorrer fora do corpo, porque é nele que se encontra o templo do Espírito Santo.

(b) Quem quer que busque a partida da alma do corpo está apenas projetando sua imaginação e suas emoções no mundo dos espíritos demoníacos, que oferecem suas próprias revelações.

(c) As experiências dos Padres da Igreja são noéticas, ou seja, se encontram nas profundezas de seus seres.

No entanto, as explicações do Pe. Seraphim parecem mais ortodoxas, já que o "Arcebispo" Lázaro usa incorretamente citações de São Gregório Palamás (ele falava de êxtase espiritual, e não de experiências extra-corporais).

Discernimento. Ver I João 4:1: Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.

Os Santos Padres ensinam que o discernimento pressupõe conhecimento e vida espirituais. São Máximo diz que a recompensa do autocontrole é a abnegação ("dispassion") e a abnegação engendra discriminação. Os Santos Padres analisam as experiências em profundidade, e não apenas superficialmente. No entanto, há um ponto extremo que pode revelar a natureza da experiência: "pelos seus frutos os conhecereis". Se, após essa visão, paz e calma prevalecerem em seu coração, é um indício que vem de Deus, mas se criar comoção (ou orgulho), vem do diabo. Resumo: a vida subsequente da pessoa indica a natureza da visão. Mesmo durante uma visão, os santos viam sua própria vergonha.


4. A imortalidade da alma


A imortalidade de acordo com a filosofia. (a) A alma não é gerada, pois pertence ao mundo das ideias e é, portanto, incriada. (b) A alma tem um valor muitíssimo maior se comparada ao corpo; na verdade, o corpo é mau, pois aprisiona a alma imortal e incriada na matéria, impedindo que retorne ao mundo de onde veio. (c) A filosofia não admite a ressurreição do corpo, pois, por ser material e criado, jamais almejaria o "retorno"; eis porque o Apóstolo Paulo foi ridicularizado quando falou da resurreição dos corpos na Colina de Marte.

A teologia ortodoxa. A alma é criada, mas imortal, não por natureza ou porque teria sido criada antes do corpo, mas pela graça. A teologia ortodoxa também não separa alma e corpo dialeticamente, pois não há dualidade no homem, que é composto de alma+corpo. Os homens não devem, portanto, se preocupar com a sobrevivência da alma após a morte (pois a alma é imortal pela graça, mesmo a dos pecadores), nem com a ressurreição dos corpos (os corpos dos pecadores também ressuscitarão): o importante mesmo é a vida em Cristo após a morte e após a ressurreição dos corpos (só prolongar a vida de nada adianta).


5. O fogo purificador


Em Ferrara-Florença. Os latinos ensinam 3 lugares de destino da alma, os ortodoxos afirmam apenas 2: paraíso e inferno, mas cada um tem muitas "moradas". No inferno estão as  que pecaram imperdoavelmente e os que pecaram moderadamente, sendo para estes as súplicas, litanias, ofícios fúnebres etc. É por Deus, e não pelo purgatório, que esperamos misericórdia. As duas grandes diferenças são: (1) o purgatório é diferente do fogo eterno do inferno e (2) o purgatório leva à visão da essência de Deus, mas como essência=energia, então o fogo purgatório é criado.

São Marcos de Éfeso

(a) Segundo a parábola de Lázaro, não um terceiro lugar, mas, pelo contrário, um "grande abismo". Como a alma não está com o corpo, não faz sentido o purgatório atormentar corporalmente a alma. O purgatório passa a ideia de que não é necessário lutar nesta vida espiritualmente. 

(b) Não há fogo purificador na Bíblia e nos Santos Padres. Quando os latinos citam os Santos Padres, acabam os interpretando incorretamente.

(c) Argumentos teológicos contra o purgatório:

(1) Se a atração pelo divino purifica as pessoas, porque não o faria após a morte purificando os pequenos pecados?

(2) A bondade de Deus não despreza os pequenos bens nem pune os pequenos pecados.

(3) Como há diferentes prazeres para os justos e diferentes punições para os pecadores, não há necessidade de purgatório.

(4) A visão de Deus se dará a todos, mas a visão depende da profundidade da purificação. Os imperfeitos na purificação não precisam, portanto, de purgatório.

(5) São Gregório, o Teólogo: "Não há purificação para além desta morte".

(6) São Gregório, o Teólogo: É melhor buscarmos a purificação aqui porque depois a vida será de "tormentos, e não purificação".

(7) Na parábola de Lázaro não há um terceiro lugar.

(8) A alma sem corpo não pode ser punida corporalmente.

(9)  O Hades não é em forma de fogo e inferno, mas como uma prisão. Após a Segunda Vinda, o inferno começará. Não é necessário, portanto, purgatório aqui e agora.

(10) Os Santos Padres, que foram iniciados por visões, sonhos e maravilhas na vida dos tormentos eternos dos pecadores, como na parábola de Lázaro, nunca jamais mencionaram qualquer purgatório.

(11) O purgatório desencoraja as pessoas a lutarem espiritualmente aqui.

(12) A vontade do homem não pode ser mudada após a morte. Como a integridade da vontade é indispensável para a beatitude, logo o purgatório não poderia contribuir a ela.


6. A Segunda Vinda de Cristo


(a) A vinda do Cristo em glória. A vinda do Cristo é caracterizado como um "dia", um "dia de julgamento". (Cf. 2 Pe 3:10, 1 Cor 1:8, 1 Cor 3:13, 1 Jo 4:17). O dia tem a ver com o sol. Cristo é o Sol da Justiça. Mas esse dia é desconhecido (Mc 13:32). Cristo afirma não saber quando virá, mas Ele disse isso enquanto natureza humana. Por ser uma Pessoa da Trindade, Cristo sabe quando virá. Mas há sinais (Mt 24) que, no entanto, são muito difíceis de detectar: é necessário ser iluminado e ter recebido uma revelação para saber com mais precisão. Assim como a luz das estrelas se extingue com a luz do sol, todas as coisas visíveis darão lugar para o Criador do céu e da terra. Em essência, o julgamento se dá nesta vida; a pessoa que vê a luz está batizada com o Espírito Santo e não leva em conta o dia do julgamento pois, por sua associação com Deus, ele é integralmente um brilhante e radiante dia. Portanto, a Segunda Vinda aparecerá somente aos pecadores, que vivem em paixões e não seguem os mandamentos.

(b) A ressurreição dos mortos. (Cf. Is 27:19, Ez 37:1-14, Jo 11:22-23). As 3 ressurreições engendrados por Cristo são uma prefiguração à ressurreição dos mortos na Segunda Vinda (Cf. Jo 5:28, Jo 11:25, Rom 8:23, 1 Tm 4:15-16, Lc 20:35-36, Fp 3:21, 1  Cor 12-16, 1 Cor 15:35-41, 1 Cor 15:43-44).( Os corpos ressurretos serão incorruptíveis, sem necessidade de alimento, repouso ou sono. Cada pessoa receberá a graça de acordo com sua capacidade; assim todos adquirirão a idade de uma pessoa madura (idade do Cristo) aproximadamente 30 anos.

Há gente que ridiculariza a ressurreição dos mortos, mas acha normal a formação de um embrião. Ambos são possíveis porque ambos foram criados pelo mesmo Deus.

O sono é um indício ou símbolo do mistério da ressurreição dos mortos (sono=morte, estar acordado=ressurreição). O sono é o "irmão da morte".

Cremar o corpo não é aceito pela Igreja, pois dá a entender que o corpo é a prisão da alma, e deve ser queimado para liberá-la.

(c) O julgamento futuro. Cristo é o protótipo do homem; é Ele, portanto, que nos julgará. 2 Cor 6:2 significa que haverá uma comparação dos santos com pecadores. Mt 22:1-14: A veste nupcial são as virtudes, mas são os frutos do Espírito Santo, e não as virtudes humanas superficiais. Os pés e as mãos amarradas são as restrições que o pecado impõe ainda nesta vida. As terras exteriores são o fogo incriado que lhe queimará após, no inferno. Mt 25:31-46): É a caridade o critério de seleção? (a) quem faz caridade é justo, gentil e anda nos caminhos das virtudes. (b) o amor pela humanidade é a virtude que está no topo de todas as virtudes. (c) quem faz caridade tem, por característica, a humildade. São Simeão diz que Cristo estará faminto por sua salvação, mas ele não Lhe dará ouvidos; Ele  foi preso no seu coração, mas ele não quis visitá-Lo. Mt 25:1-13: A virgindade refere-se à "virgindade" da alma: asceticismo, autocontrole, batalha nas virtudes. As mãos são a vida difusa da alma: arrependimento. As lâmpadas acesas são o noûs iluminado. O óleo em grande quantidade é o amor, a maior de todas as virtudes.

Portanto, o julgamento não será um processo legal, mas a revelação de Cristo da condição espiritual interior dos homens. Quem não pecou, mas também não recebeu o Espírito Santo, não terá a vida eterna. A visão da Luz incriada não é, portanto, um luxo, mas a essência e o propósito da vida.

7. Paraíso e Inferno

(a) As Sagradas Escrituras sobre o Paraíso e o Inferno 
  • (Lc 23:42) Reino de Deus e Paraíso são a mesma coisa.
  • (2 Cor 12:3-4). Os 3 céus, segundo São Máximo, são filosofia prática, theoria natural e teologia mística e, desta, o Apóstolo Paulo foi levado ao Paraíso.
  • (Ap 2:7). André de Cesareia diz que a "árvore da vida" é uma referência perifrástica à vida eterna.
  • Inferno: Mt 25:46 e 1 Jo 4:18.

(b) Os Santos Padres sobre Paraíso e Inferno

Paraíso e Inferno não existem segundo o ponto de vista de Deus, mas do homem. Ou seja, Deus é Paraíso para os santos e Inferno para os pecadores; Deus nunca se opõe aos homens, mas os homens é que se opõem a Deus. Santo Isaque, o Sírio, ensina que Paraíso é o amor de Deus, isto é, a energia incriada divina. Portanto, o Inferno é o tormento do amor de Deus; seria absurdo dizer que o Inferno é a ausência de Deus. São Teofilacto: o sol derrete a cera, mas endurece a argila. O fogo tem dois poderes: cáustico e iluminador.

(c) Paraíso e Inferno na vida da Igreja

A comunhão também atua de acordo com a condição espiritual de cada um: se a pessoa é impura, o queima, se está lutando para ser purificado ou está deificado, então o ajuda.

A iconografia da Segunda Vinda mostra que a luz em torno dos santos vem do trono de Deus, e do mesmo trono vem o rio de fogo que queima os pecadores.

8. A restauração de todas as coisas

A teoria da restauração de todas as coisas (palingênese) implica que não há Inferno eterno.

(a) Filosofia e teologia antigas. Orígenes ensinava (séc. III) que as almas em geral precisavam de mais tempo para se purificarem, reencarnando sucessivamente (reciclagem de almas).

Em Atos 3:19-21 aparece a expressão "restauração de todas as coisas", mas deve ser entendido como a renovação da criação quando da Segunda Vinda.

(b) Os intérpretes sobre São Gregório. Não concorda em tudo com Orígenes e, segundo o autor, nem com a restauração de todas as coisas.

(c) Comentários do autor. São Gregório forneceu a forma final do credo sobre o Espírito Santo. Como pode uma teoria rejeitada nos sínodos que participou ser defendida por ele? Ele é o "Padre dos Padres". Sobre a filosofia, São Gregório vê na vida de Moisés um símbolo: a cesta é a educação nas diversas disciplinas que, apesar de não deixá-la afundar, acaba nas margens, a filha do faraó estéril é a filosofia profana. Mas quando subiu a montanha, Moisés se sentiu envergonhado por ser filho de uma mulher estéril. É a vergonha daqueles que atingem a visão de Deus e foram anteriormente chamados de filhos da filosofia. Portanto, São Gregório critica a filosofia, afirma que há algo de estéril e incircuncidado nela. Mesmo que se ocupe com Deus e, portanto, tenha certa piedade, ela é um tanto carnal. Ora, São Gregório não era um filósofo, nem se deixou enredar por filosofias, pois era um santo deificado, além de intelectualmente dotado. Alguns intérpretes entenderam errado São Gregório, que ensinava que, de fato, os deificados serão sucessivamente purificados, incessantemente. Mas isso não vale para aqueles que não se arrependeram. A restauração dos punidos é apenas o despir das vestes da pele da decadência e da mortalidade, a qual os pecadores também passarão. Os santos são entendidos pelos santos. São Marcos de Éfeso explicou que tanto São Gregório quanto São Máximo entendiam o "fogo purificador" como sendo o fogo eterno e a punição eterna. São Máximo acha que São Gregório exagerou ao enfatizar a restauração dos poderes da alma. Isso não é um "erro" propriamente dito. O que São Gregório quis dizer é que os pecadores também adquirirão o conhecimento das coisas boas e se conscientizarão que Deus não é o culpado pelo mal, embora não tenham participação em Deus.

9. Vida eterna

O desenvolvimento no século futuro

(1) O homem foi formado à imagem e semalhança de Deus, sendo que "semelhança" indica movimento em direção a Deus.

(2) O criado move-se em direção ao Incriado, mas nunca o atinge, pois jamais se tornará incriado por natureza.

São Máximo, em oposição a Orígenes, cunhou a expressão "fixidez que sempre se move" e "movimento estacionário".

Orígenes = movimento/devir/fixidez

São Máximo = devir (criação do mundo)/movimento (depois Deus introduziu o movimento-ascese)/fixidez (sempre em movimento)

10. Escatologia diacrônica

  • Na concepção ortodoxa do tempo, vivemos a unidade do passado, presente e futuro, pois nos santos o passado e o futuro são vividos como presente. É por isso que, na Igreja, falamos em escatologia diacrônica (escatologia = últimos dias). 
  • São Gregório Palamás identifica na Bíblia três maneiras nas quais o Reino de Deus se explica: o Reino de Deus está vindo (arrependam-se), o Reino de Deus veio (e está dentro de nós(Lc 17:21)) e o Reino de Deus virá (em sua glória e plenitude). O Reino de Deus é, assim, o próprio Cristo e a graça incriada.
  • O Velho Testamento está cheio de visões de Deus, por deificações. Portanto, havia, sim, deificados no Velho Testamento.
  • Todas as aparições de Deus no Velho Testamento eram o Verbo, e não o Pai, e era pelo Verbo que os profetas tinham comunhão com o Pai. Ver hinos da Igreja e 1 Cor 10:1-4 e Jo 6:31-41.
  • Mesmo assim, como a morte ainda não havia sido abolida, foram levados ao Hades, de onde Cristo os libertou.
  • O Apóstolo Paulo atingiu o terceiro céu: (1º) purificação do coração, (2º) iluminação do noûs e (3º) theosis.
  • 1 Cor 13:12: "conhecer em parte" é a iluminação, o conhecimento parcial, que é a oração noética.


Epílogo

Há duas maneiras de lembrar a morte:

(1) racional = nos leva ao desapego das coisas materiais.

(2) existencial/carismático = fruto da experiência de Deus, um dom espiritual, que nos leva à oração fervorosa, ao esforço ascético intenso.

Fonte: Metropolitan Hierotheos Nafpaktos,  Life After Death, Birth of the Theotokos Monastery, 1996, Levadia, Grécia. anotações pessoais.

27 de janeiro de 2017

O caminho da felicidade


Introdução

Chamamos de “asceticismo” a prática constante de boas obras, e quem se esforça na prática de boas obras chamamos de “asceta”.

O treinamento espiritual consiste em esforçar-se para a realização de boas obras e refrear os maus hábitos e aspirações da alma que se opõem a esse treinamento. Não é uma tarefa fácil visto que vem sempre acompanhada de esforços árduos e quase sempre por uma batalha digna de martírio, a qual os Santos Padres e ascetas chamam, não sem razão, de autocrucificação, de acordo com as palavras de São Paulo: E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. (Gálatas 5:24)

O ponto aqui não são as obras, mas a disposição interior do homem, a vontade boa ou má de sua alma e a condição virtuosa ou depravada de seu coração, do qual as boas e más obras brotam naturalmente. O próprio Cristo Salvador se manifestou a respeito disso: Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. (Mateus 15:18-19)

É óbvio, portanto, que o centro de gravidade da vida espiritual não está nas obras em si, mas nas disposições da alma e no estado interior do homem das quais elas resultam. “Tema os maus hábitos”, disse um dos maiores professores do asceticismo, Santo Isaque, o Sírio, “mais do que os demônios”.

“Esforço” [podvig] é uma palavra tipicamente russa e que corresponde perfeitamente ao espírito da palavra grega “asceticismo” [askesis].

Mas será que todos os cristãos deveriam ser ascetas?

Fazer essa pergunta é a mesma coisa que perguntar se todas as pessoas criadas por Deus estão destinadas à comunhão espiritual com seu Criador. Ora, o asceticismo é para todos, e não apenas para monges.

Pois a felicidade, conforme a experiência da vida demonstra, não está fora do homem, onde ele inutilmente a procura, mas dentro dele: a felicidade está na disposição pacífica da alma, na paz interior serena proveniente da profunda satisfação interior que provém da conquista do mal após desarraigar os maus hábitos que tiranizam a alma.

Quem se abstém do asceticismo é inimigo de si mesmo, privando-se do maior dos bens: a paz de consciência e a comunhão abençoada com Deus.

O discernimento espiritual

Normalmente as pessoas afirmam que o órgão responsável pelos sentimentos é o coração humano. Isso acontece porque todas as emoções – alegria ou tristeza, desalento ou prazer, gostos ou desgostos, raiva ou disposição pacífica do espírito, calma ou agitação – sempre ressoam no coração, seja agregando-lhe energia ou diminuindo sua atividade. O coração registra aquilo que dá prazer ou desprazer. Dado que as pessoas naturalmente buscam aquilo que dá prazer e desejam evitar aquilo que é desagradável, o coração se torna o centro de nossas vidas, o lugar onde tudo o que entra de fora fica contido e do qual advém tudo o que está no interior.

A vontade controla os desejos da pessoa e não está localizada em nenhum órgão específico. A vontade age em todas as partes do corpo, e são essas partes que põem o corpo em movimento, ou seja, é a decisão da vontade que age nos músculos e nervos.

O homem moderno no mais das vezes não é capaz de diferenciar as ações do corpo, da alma e da vida espiritual, e acaba misturando tudo, gerando uma grande confusão. É por isso que hoje em dia absolutamente qualquer coisa é associada à expressão “vida espiritual”, menos o que é autenticamente vida espiritual. A ciência, bem como todo tipo de descoberta e invenção – cinema, teatro, balé, e até o circo – são hoje em dia tidos como elementos da área da espiritualidade. Em outras palavras, tudo aquilo que é emocional ou natural é tido como espiritual, e tudo o que está totalmente relacionado à vida secular é confundido com “vida espiritual”.

Contudo, não importa o quanto tentemos suprimir de nosso interior as necessidades do espírito, essas necessidades vão exigir seus direitos. O espírito aspira por Deus, mas, incapaz de encontrar um meio de realizar suas aspirações sob a pressão violenta da pesada opressão do orgulho humano, o espírito se satisfaz com seus substitutos, os quais são inventados pelo próprio orgulho humano com o intuito de acalmá-lo. No lugar da autêntica religião, o espírito se embebe de doutrinas filosóficas nebulosas, seja a teosofia, seja o espiritismo, seja o que for. No lugar da Igreja, o espírito busca o “templo” da ciência, do teatro, do balé etc. – ou seja, qualquer coisa da vida mundana que seja capaz de cativar a pessoa. Esse tipo de falsificação, ou seja, a substituição da espiritualidade por elementos emocionais, é o traço característico de nossos tempos.

Por exemplo, muitos de nós, russos, no passado e no presente, vão à igreja com o intuito de desfrutar de sentimentos estéticos, de ouvir belas canções. Não há dúvida de que os sentimentos estéticos sejam, evidentemente, uma sensação exaltada, o senso do belo na alma, o reflexo de uma Beleza divina superior. Porém, na medida em que essa sensação permaneça inconsciente, ou seja, desconectada de uma consciência de atração por Deus, ela permanecerá no âmbito do mundanismo e alheia à verdadeira espiritualidade.

O homem moderno acha que as coisas “emotivas” são “espirituais”. A genuína vida espiritual está sempre totalmente desprovida de paixões, tão exaltada que chega ao ponto de elevar a pessoa acima da terra, sem lhe oferecer quaisquer sensações mundanas. Por outro lado, todo estado mundano e natural, por mais elevado que seja, irá, sem dúvida alguma, despertar sensações mundanas e carnais – por exemplo, batimentos cardíacos acelerados, agradáveis cintilações nervosas, arrepios – os quais sempre surgem quando a pessoa ouve belas músicas e canções. Esse amplo predomínio do emocionalismo no homem contemporâneo explica porque o canto eclesiástico genuíno, que satisfaz apenas a espiritualidade, é atordoante e tedioso para a grande maioria das pessoas, mesmo para aquelas que frequentemente vão à igreja.

Todos os entretenimentos modernos agem como álcool e cocaína no homem contemporâneo. Os entretenimentos de hoje em dia anestesiam a vida espiritual do homem, paralisam os impulsos espirituais e suprimem a voz da consciência e das normas morais.

Amor evangélico e altruísmo humanista

Sem fé em Jesus Cristo como Filho de Deus não há verdadeiro amor a Deus ou ao próximo. O verdadeiro, puro e desinteressado amor a Deus e aos homens é impossível exceto sob a ação da fé na divindade do Cristo Salvador – fé no fato de que Ele é o Filho de Deus encarnado, o qual desceu à terra para salvar a humanidade.

Pois somente esse tipo de fé no Filho de Deus – uma fé ardente e viva nAquele que se humilhou por nós homens e se entregou a uma morte desgraçada e tortuosa – é capaz de despertar em nós uma grata resposta de amor a Deus. Esse amor nos inspira a um desejo ardente de viver segundo Sua vontade e a nunca ofendê-Lo e, consequentemente, a amar o próximo como semelhante e filho de Deus, como nosso irmão em Cristo para o qual Cristo nosso Salvador também derramou seu puro e precioso sangue.

Além disso tudo, nossa natureza encontra-se tão quebrantada pelo pecado que, sem essa fé na salvífica graça de Deus a nós dada pelo sofrimento do Filho de Deus na cruz, sem essa santificação e iluminação cheia de graça, somos incapazes de fazer qualquer coisa realmente boa; somos incapazes de amar pura e desinteressadamente a Deus e ao próximo. Sem a santificação e a iluminação que vêm do alto, nosso amor – se é que realmente está dentro de nós – permanecerá desprovido da pureza e da santidade do Evangelho. Nosso amor estará envenenado de amor próprio e egoísmo, o qual é tão sutil e difícil de identificar que nem mesmo conseguimos notá-lo. Pensamos que verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, quando na verdade tudo isso não passa de amor próprio, não de amor a Deus e ao próximo.

Os defensores da moralidade autônoma atacam a moralidade cristã como se esta fosse motivada por princípios morais primitivos: medo dos futuros tormentos no inferno e desejo de ser recompensado na vida futura. Ora, já passou da hora de rejeitarmos essa ideia católica romana de que Deus nos recompensa por boas obras e nos pune pelas más ações.

A única motivação da moralidade  cristã é o amor, isto é, amor a Deus como nosso Pai e Benfeitor.

Se Deus não existe e não somos todos irmãos, então qual o propósito de fazer o bem ao próximo? Não seria melhor que cada um de nós vivesse única e exclusivamente para nosso próprio prazer, a buscar nossos próprios objetivos e interesses?

Outro aspecto da moralidade irreligiosa que frequentemente nos passa despercebido é a vaidade. Este sentimento de vaidade é quase sempre a motivação por trás dos fundadores e administradores das sociedades filantrópicas, das pessoas ricas que doam uma parte insignificante de suas riquezas para boas ações, ou seja, para se mostrarem como pessoas boas. Muito frequentemente a vaidade é a força que compele as pessoas sentimentais, aquelas pessoas que sinceramente se consideram pessoas decentes, que fazem o bem e choram por causa de suas ações benevolentes. Muita gente pensa, com toda a sinceridade, que essas pessoas estão fazendo o bem pelo bem quando, na verdade, estão apenas alimentando suas próprias vaidades.

É absurdo sustentar que alguém possa ser realmente virtuoso – no sentido cristão da palavra – sem fé em Deus, sem amor a Deus. Pois qual é o propósito e em nome de quem a pessoa restringirá seus próprios impulsos egoísticos?

Dostoyevsky dizia que “se Deus não existe então tudo é permitido”. Isso acontece não apenas quando não há medo de castigo pelos pecados, mas acima de tudo quando não há um estímulo poderoso para a vida moral, ou seja, o amor a Deus.

Não é raro o caso em que as pessoas que aceitam os frutos das ações sociais não apenas não experimentarem nenhum calor humano, mas frequentemente certa degradação moral.

Adquirindo o amor evangélico

Muitas pessoas que pensam amar a Deus na verdade amam apenas suas próprias fantasias, amam a si mesmas, deleitam-se em suas próprias emoções e sentimentos.

Para adquirirmos o amor evangélico devemos suprimir de nós quaisquer manifestações de orgulho, pois é imperativo termos um coração humilde e um espírito contrito. A pessoa orgulhosa não ama a Deus, mas ama seu amor a Deus, admirando-o, deleitando-se em suas experiências emocionais e em seus nervos excitados. Imaginando que ama a Deus, a pessoa orgulhosa ama apenas a si mesma e as suas sensações emocionais, as quais ela preza acima da fé genuína e da devoção a Deus.

Na realidade, quem verdadeiramente ama a Deus, não apenas em palavras e ações, é aquele que luta com todas as suas forças para cumprir os mandamentos de Deus, os mandamentos do Santo Evangelho.

Mesmo que o desejo inato pelo verdadeiro amor evangélico resida em nossos corações, é difícil alcançá-lo. “Não pensem vocês, amados irmãos”, disse o Bispo Ignácio, “que o mandamento de amar o próximo esteja próximo de nosso coração caído. O mandamento é espiritual; nosso coração é comandado pela carne e pelo sangue. O mandamento é novo, mas nosso coração é velho”.

“Nosso amor natural foi ferido pela queda”, diz o Bispo Ignácio. Está envenenado pelo egoísmo. Quem ama as pessoas que lhe são próximas – seja família ou amigos – com amor natural, os ama em maior ou menor grau egoisticamente.

Por esta razão o Evangelho não tem em alta conta aquilo que é da carne e puramente emocional e que advém dos sentimentos do coração natural. É sobre isto que diz o Cristo Salvador: Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os seus familiares. (Mateus 10:34-36).

A muitos estas palavras soam difíceis de entender, às vezes até mesmo duvidam delas. O ponto essencial aqui é que o amor carnal-natural, o amor egoístico, interfere com o verdadeiro amor espiritual do Evangelho. Por esta razão é necessário minimizar a importância deste amor corporal inferior, considerá-lo digno de desprezo, a fim de adquirirmos o amor evangélico superior. Ame ao próximo com amor santo, sem qualquer mescla de egoísmo, e puramente, sem quaisquer sensualidades ou paixões.

O que é inaceitável, e especialmente ruim para a vida espiritual, é o fato de o amor natural estar sempre acoplado a certo viés e injustiça para com o próximo. Quem ama com amor natural o faz com parcialidade prejudicial para com o amado, idealizando a pessoa, incapaz de enxergar defeitos, pronto a prover todas as suas falhas, a machucar e ofender as pessoas por sua causa, e mesmo a cometer maldades se isso agradar ao amado. Em outras palavras, o amor natural é cego, injusto e escraviza a quem o possui.

O amor espiritual não conhece nenhuma parcialidade injusta; é razoável e estrito, desejando ao amado não tesouros terrenos e enganosos – e frequentemente danosos –, mas os tesouros verdadeiros e espirituais. O amor espiritual – puro, santo, livre, completamente dedicado a Deus – é o Espírito Santo agindo na alma. Quem ama ao próximo com amor santo, espiritual, deseja acima de tudo ajudá-lo naquilo que é mais importante: na salvação de sua alma, no seu progresso espiritual, na aproximação a Deus.

A liberdade cristã

Por que Deus criou o homem com livre arbítrio? Isso é fácil de entender: a única e exclusiva motivação de Deus ao criar o homem foi Seu amor. E o amor sempre deseja o maior bem ao seu amado. Ademais, o amor deseja uma resposta livre – amor por amor – que de forma alguma seja forçado. Apenas esse tipo de amor é digno: o amor que flui de um coração amoroso, sem compulsão ou coerção.

Daí conclui-se que a verdadeira liberdade é a capacidade de viver segundo a vontade de Deus, sem impedimentos. Aquele em quem o pecado não excita, sobre quem o pecado não tem poder, que progride corajosamente em direção ao ideal de perfeição moral, eis a verdadeira pessoa livre.

Aquele que se entrega às paixões e vícios começa a experimentar, já nesta vida, a força plena dos tormentos do inferno que aguardam o pecador na vida após a morte.

Ocorre que a concepção de liberdade do homem moderno é completamente diferente. Ele entende a liberdade como sendo o direito e a oportunidade de fazer o que quiser. Ninguém pode impedir o homem-deus no exercício de sua liberdade. “Eu quero, eu tenho o direito” se tornou o slogan do homem moderno. E em verdade a vida se tornou uma batalha: uma batalha feroz pela existência, ou melhor, pelo senhorio, pela predominância, pela posse exclusiva de todos os bens terrenos.

Tudo isso deriva de um entendimento incorreto da liberdade. Ao invés de liberdade de cometer pecados, as pessoas começaram a lutar pela liberdade para cometer pecados. A verdadeira liberdade, a liberdade do espírito, a liberdade cristã, começou a ser vista como “despotismo”, “coerção”, como opressão da Igreja, enquanto a devassidão da vontade pecaminosa, a qual leva à escravização do espírito, tornou-se um ideal de vida.

Hoje vislumbramos o que a realização dessas “liberdades” resultou. Ao invés da esperada liberdade, do paraíso na terra, o que colhemos é crueldade, escravidão, não apenas espiritual, mas também física. Ao invés de liberdade do mal, o que existe hoje é a liberdade para o mal.

Guiando o coração em meio às distrações da vida

Por que as distrações são tão prejudiciais? A resposta é óbvia: a pessoa distraída é incapaz de vigiar a si mesma. Ela está constantemente preocupada com as coisas que estão fora de si. Como conseguirá ela observar seu próprio coração quando o principal objeto de sua atenção não está em sua vida interior, mas nos eventos do mundo exterior. Ela não está preocupada em reduzir o influxo de impressões externas, mas, ao contrário, vive totalmente voltada a essas impressões externas. Ver, cheirar, sentir e provar tudo o que se lhe apresentar, eis o sentido e o propósito de sua vida.

“Como a borboleta que voa de uma flor a outra, a pessoa distraída voa de um prazer terreno a outro, de uma preocupação vã a outra”, diz Santo Ignácio. “A pessoa distraída é como uma casa sem portas e trancas: nenhum tesouro pode ser guardado em uma casa assim, pois está aberta a ladrões e prostitutas”.

O orgulho autoconfiante que prevalece na sociedade contemporânea não almeja a purificação do coração, mas o acúmulo do máximo de benefícios e proveitos para o ego, e esses desejos todos são considerados legítimos e dignos de serem imediatamente satisfeitos. É como se o homem moderno tivesse medo de omitir algo, de deixar de aproveitar um único conforto desta vida terrena e carnal. Podemos dizer com segurança que a vida do homem moderno não passa de uma busca frenética por todo tipo de conforto e prazer terreno.

Resistindo ao mal

Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes. (Mateus 5:38-42)

Nós, cristãos, jamais podemos ficar indiferentes ao mal, não importa quando e como ele surja. É necessário apenas que a batalha contra o mal seja livre de componentes pessoais. A batalha contra o mal deve sempre ser baseada puramente em princípios, não sob o ponto de vista pessoal. Ademais, nossa batalha, que é uma batalha de princípios contra o mal, deve ser livre de sentimentos de vingança, de desejo de nos vingarmos contra quem nos desagradou ou contra quem seja nosso inimigo. As palavras mencionadas acima pelo Salvador devem ser entendidas desta forma. Sem se referir a batalha contra o mal em geral, essas palavras apenas nos alertam contra o espírito de vingança, contra a tendência de querermos nos vingar contra alguma ofensa pessoal que nos é lançada.

Em primeiro lugar, devemos eliminar/superar o sentimento de vingança, que é natural em função de nossa natureza ferida pelo pecado.

Porém, não é verdade que toda e qualquer paz seja agradável a Deus, nem é necessário cultivar toda e qualquer paz. Os Santos Padres, os instrutores da vida espiritual, afirmam que pode, sim, existir uma “discórdia gloriosa” assim como “unanimidade desastrosa”. Devemos amar apenas a boa paz, aquela que tem o bom propósito de nos unir a Deus. O próprio Mestre do Amor, nosso Senhor Jesus Cristo, afirma que nem toda paz é agradável a Deus e que não é necessário louvar toda e qualquer paz: Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. (Mateus 10:34) Esta “paz de Cristo”, que sobrepuja todo entendimento, é uma paz muito específica, uma paz que não tem nada em comum com a paz humana. Esta é precisamente a “boa paz” que, segundo a expressão dos Padres, “tem bom propósito e nos conecta a Deus”. Qualquer outro tipo de paz, por mais atrativa que seja, deve ser considerada sedução satânica.

É necessário lembrarmos constantemente que quando o Evangelho fala de perdoar pecados e ofensas o que se tem em mente são os pecados pessoais e ofensas pessoais. Porém, o que nós normalmente entendemos é o contrário. O orgulho humano autoconfiante perdoa qualquer coisa, exceto as ofensas pessoais.

O direito à vingança pertence a Deus, não a você.

Travando a guerra invisível

O cristão deve lutar contra todo tipo de mal, onde quer que surja, mas esta batalha, antes de qualquer coisa, deve ser uma batalha travada em sua própria alma. A batalha contra o mal deve começar dentro de si, e somente aí é que a batalha será correta, razoável e sólida. Quem lutou e conseguiu extirpar o mal de sua alma lutará com muito mais facilidade contra o mal na alma das outras pessoas; quanto menos mal restar na alma do soldado de Cristo, mais bem sucedida será esta batalha.

No entanto, a “batalha visível” tomou o lugar da “batalha invisível” na vida do homem moderno. E a batalha contra o mal que o homem moderno trava não é bem sucedida porque as pessoas não lutam exatamente contra o mal, mas contra as outras pessoas, ao mesmo tempo em que conservam esses mesmos males em suas almas.

Eis porque uma vasta e ilimitada avenida está aberta para que laboremos contra o mal que está em nossas almas e semeemos a virtude que nelas faltam.

Nas palavras dos Santos Padres, quem se engajar nesta batalha invisível estará lutando contra si mesmo, ou melhor, contra seu amor próprio, seu amor auto-centrado, ou em linguagem secular, contra o egoísmo que está enraizado no orgulho humano autoconfiante.

Portanto, os Santos Padres dizem que quem deseja a vitória na batalha invisível deve estabelecer em seu coração as seguintes quatro disposições ou inclinações: (1) nunca, jamais, confiar em si mesmo, (2) sempre preservar em seu coração uma esperança resoluta e inabalável no Deus único, (3) laborar sem cessar e (4) estar sempre em oração.

Desde os tempos da queda de nossos antepassados, apesar da evidente fraqueza de nossos poderes espirituais e morais, em geral nós pensamos que somos grande coisa. Embora a experiência do dia-a-dia não canse de nos convencer da falsidade desse tipo de pensamento, continuamos a acreditar, num incompreensível autoengano, que somos “alguma coisa” ou mesmo “pessoas especiais”. Essa opinião auto-exaltada que nutrimos sobre nós mesmos impede que a graça de Deus entre e habite em nós.

Os Santos Padres indicam as seguintes quatro disposições:

(1) Tente perceber sua fraqueza observando todas as experiências de sua vida, e mantenha constantemente a consciência do fato de que você não pode fazer nada de bom sem a ajuda de Deus. São Pedro Damasceno diz o seguinte: “Não há nada melhor do que perceber sua fraqueza e sua ignorância, e não há nada pior do que não estar consciente delas”. São Máximo, o Confessor, ensina que “o fundamento de toda virtude é perceber a fraqueza humana”. São João Crisóstomo confirma: “Somente aquele que sabe que não é nada sabe de alguma coisa”.

(2)  Peça a Deus em oração para que Ele lhe dê a percepção da sua fraqueza e insignificância, mas antes consolide em você a convicção de que você não tem essa consciência e que ela só pode ser adquirida como um dom de Deus.

(3)   Sempre desconfie de si mesmo e seja cauteloso com respeito às ardilosas armadilhas de Satanás, contra quem é impossível lutar sem a ajuda de Deus.

(4) Se acontecer de você cometer algum pecado, reconheça imediatamente sua fraqueza e total impotência. Convença-se do fato de que Deus permitiu esta queda para que você perceba sua debilidade e insignificância ante Deus e aprenda a desdenhar de si mesmo.

Portanto, o que é mais necessário para o sucesso na batalha invisível é o reconhecimento de sua própria fraqueza e total insignificância sem a ajuda de Deus. A consciência disso é tão necessária que Deus, em Sua providência, permite que as pessoas cometam pecados, especialmente os pecados contra os quais se consideravam fortes o suficiente para evitar.

Mas como conseguimos saber se estamos realmente livres de confiar em nós mesmos e esperar completamente em Deus?

Eis como. Algumas pessoas imaginam que não confiam em si mesmas e que depositam toda sua esperança em Deus. Bem, quando cometem algum pecado, elas se desesperam e entram em um estado de melancolia; sua alma se torna lúgubre. Esta tristeza excessiva, lúgubre, é um sinal de que elas esperavam não em Deus, mas em si mesmas, e que portanto a traição de sua autoconfiança, através do pecado, é algo particularmente difícil e tortuoso de aguantar, o que as leva ao desespero. Mas quem realmente não confia em si mesmo, quem não confia em seus próprios poderes, não vai ficar muito surpreso pelo pecado que cometeu e, portanto, não vai se deixar cair em tristeza excessiva; ele sabe e entende que isso aconteceu por causa de sua fraqueza e que nada de bom pode-se esperar dele.

A batalha cristã

Ao forçar-se a fazer o bem, o fiel demonstra que busca a virtude. Eis o que realmente atrai a poderosa graça de Deus, a qual, em conjunto com o esforço humano, torna a pessoa vitoriosa sobre o mal em sua alma. Eis o propósito supremo da batalha invisível.

O asceticismo é o único caminho para a tão desejada felicidade que as pessoas buscam. A experiência da vida mostra que a felicidade não está fora do homem, onde ele inutilmente a busca, mas dentro. A felicidade está no estado pacífico da alma, na serenidade e calma interiores, que advêm da satisfação interior em vencer o mal e a erradicação dos maus hábitos que tiranizam a alma. Os hábitos pecaminosos criam caos e confusão. As inclinações malignas jamais serão pacíficas, calmas e alegres. A única maneira de pacificar a alma é suprimir e erradicar os maus hábitos por meio do asceticismo, de um estilo de vida ascético.

Os pecados são cometidos segundo um padrão bem consistente. O primeiro estágio do pecado é o estágio da “sugestão”, quando pensamentos e sugestões pecaminosas entram de maneira não-intencional, por acaso, contrariamente à vontade, na alma da pessoa, seja  através dos sentidos, das emoções ou da imaginação. Nesta fase ainda não há pecado, mas apenas um prelúdio de pecado. O “aceite” é a recepção da “sugestão”, ou seja, é prestar atenção àquilo que foi sugerido, o que nem sempre ocorre sem pecado. O “consentimento” é quando a alma se deleita no pensamento ou na imagem que lhe foi apresentada; nesta altura é grande o perigo de realmente cometer o pecado com ação. O próximo estágio é o “cativeiro”, ou seja, quando a alma se sente tão fortemente atraída pelo pecado que o estado pacífico da alma se perde. Por fim vem a “paixão”, que nada mais é do que o deleite habitual e prolongado dos pensamentos e sentimentos pecaminosos, chegando ao ponto de cometer o pecado com ações. Eis a completa escravidão ao pecado, e aquele que não se arrepende e não expulsa sua paixão estará sujeito a tormentos eternos. Porém, aquele que está possuído por uma ou outra paixão começa a experimentar, ainda nesta vida, uma prefiguração do que será o tormento eterno na vida futura. Nesta altura, somente uma batalha intensa e persistente, aliada à graça de Deus, será capaz de extirpar o pecado que se tornou a segunda natureza da alma.

O que essencialmente precisamos nos lembrar na batalha contra as paixões? “Toda resistência às demandas da paixão a enfraquece; a constante resistência à paixão a destrona. Por outro lado, o apego à paixão a fortalece; o apego constante à paixão escraviza a pessoa que por ela se afeiçoou” (Santo Ignácio (Brianchaninov)).


Fonte: Archbishop Averky (Taushev), The Struggle for Virtue, Holy Trinity Publications, Jordanville, EUA, 2014, trechos selecionados.

24 de julho de 2016

Hino de Louvor a Santa Julia


A Mártir Julia,
Por ela Cristo foi crucificado,
O poder de Cristo ela invoca,
O poder no Honorável Madeiro.

Sangue foi derramado de seis feridas,
Com sangue a terra manchou,
Pois em Cristo ela cria
Sua fé ela não ocultou.

Nem Cristo a ocultou,
Ao mundo inteiro a proclamou,
E no Reino Imortal
No céu, a glorificou.

Quando Julia faleceu
Seu espírito, puro e santo,
De sua boca uma pomba branca
Às alturas ascendeu.

Quando os homens a isto viram
Todos tementes clamaram:
"Ai dos juízes malignos"
Aquele sangue justo eles verteram.

Fonte: St. Nicholas Velimirovich, The Prologues from Ochrid.

Imagem: Gabriel von Max, "Santa Julia, Mártir Crucificada", 1866.

20 de junho de 2016

Recado para quem quer ter uma visão espiritual


Os espíritas aceitam as manifestações do mundo espiritual como se fossem enviadas por Deus, e logo se gabam de que Deus lhes foi "revelado".

Conheci um monge de 80 anos de idade a quem todos respeitavam como sendo um grande diretor espiritual. Perguntei-lhe em certa ocasião: "O senhor já viu algum vez na vida algo do mundo espiritual?" Ele respondeu: "Nada, nunca, graças a Deus". Ao perceber minha surpresa com essa resposta, ele disse: "Peço constantemente a Deus que nenhuma aparição ocorra comigo, de forma que, acidentalmente, eu não caia de orgulho e trate um demônio como anjo. Até aqui, Deus tem ouvido minhas orações". Este exemplo mostra como os anciãos eram humildes e cautelosos.

Um demônio disfarçado na luz de um anjo apareceu certa vez a um monge e disse: "Sou o Arcanjo Gabriel e fui enviado para você". O irmão lhe respondeu: "Pense bem! Será que você não foi enviado para outra pessoa? Não sou digno de ver um anjo". O demônio imediatamente tornou-se invisível e desapareceu.

Fonte: São Nicolau Velimirovich, Os Prólogos de Ochrid, 29 de março.

27 de maio de 2016

A fé e suas virtudes


Há dois tipos de fé: a que vem pelo ouvido e a que vem pela percepção interior. O primeiro tipo de fé consiste no livre acolhimento dos dogmas verdadeiros acerca de Deus e Suas criaturas. O segundo tipo de fé é possuído apenas por aqueles que foram iluminados pela graça divina. Ela é chamada de fé "substancial" (hypostatike). Quando o autor da Epístola aos Hebreus define a fé como "o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem", ele está se referindo ao segundo tipo de fé, ou seja, à fé superior. Assim também o faz São Máximo, o Confessor, (580-662), quando afirma: "A fé é o conhecimento cujos princípios são indemonstráveis e, portanto, é uma relação que transcende a natureza". Esse segundo tipo de fé engendra-se a partir do primeiro; ela não contradiz, mas confirma o primeiro. Ambas ordens de fé elevam quem as possui para além do conhecimento dado pelos sentidos físicos e pela razão discursiva; mas o segundo tipo é conhecimento, enquanto o primeiro é apenas crença. Quem se elevou até o segundo tipo conhece, em parte, a esfera transcendente dos mistérios; pois ele viu, mesmo que sombriamente, como "por espelho". O halo circular -- dourado ou ocre -- em torno da cabeça é o meio mais notável que o iconógrafo emprega para simbolizar o segundo tipo de fé. O halo é simbólico do estado de iluminação, do conhecimento superior, assim como da vitória sobre a morte e da santidade em geral. Quem apenas elevou-se à primeira ordem de fé é representado sem o halo, mas distingue-se dos infiéis pela confiança e reverência que demonstra para com o Cristo e demais pessoas santas, tudo devidamente expresso pelo olhar, postura e gestos.

É da fé que nasce a mansidão e as demais virtudes. A mansidão é o hábito da alma caracterizado pela liberdade da raiva e demais formas de agitação interior, e manifesta-se às outras pessoas como constante docilidade e suavidade. A mansidão não se deixa afetar por insultos ou elogios. A iconografia expressa essa virtude retratando as faces e gestos das pessoas santas livres de quaisquer agitações, perfeitamente calmas. Mesmo quando são representadas em situações que inevitavelmente associamos à raiva e ao excitamento, os santos portam expressões de serenidade e docilidade. Nota-se isso, por exemplo, nos ícones de São Jorge ao matar o dragão, nos santos mártires sendo torturados etc.

Estreitamente ligada à mansidão é a humildade. São João Clímaco atesta que a mansidão é a precondição da humildade: " A luz da manhã precede o sol assim como o precursor de toda humildade é a mansidão". A humildade não deve ser confundida com servilismo, a qual não tem nada de belo, sendo uma forma de covardia. A verdadeira humildade é o autoconhecimento. O homem é humilde quanto se vê como realmente é e como pode e deveria ser. Somos humildes quando estamos plenamente cientes de nossas deficiências, de como estamos longe da perfeição divina. A humildade é precisamente quando essa consciência se torna habitual, acarretando, por um lado, uma forte insatisfação consigo mesmo e, por outro, um desejo para elevar-se à perfeição infinita de Deus, segundo o preceito do Cristo: "Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus. Na verdadeira humildade está contido um sentimento de insuficiência, de indignidade, de necessidade da ajuda e misericórdia divinas para que a ascese seja engendrada. A exemplo das virtudes da fé e da mansidão, a humildade é indicada nos ícones pela expressão facial, pelas posturas e gestos das pessoas santas. Em especial é simbolizada pela cabeça e corpo arqueados e em postura reverencial. Às vezes é simbolizda mais notadamente quando o santo está ajoelhado, como no famoso mosaico da Igreja da Santa Sabedoria (Hagia Sophia) em Constantinopla, que mostra o Imperador Leão VI, o Filósofo, ajoelhado aos pés de Jesus Cristo, recebendo dEle a investidura da santa sabedoria.

A humildade prepara o cristão para o desenvolvimento do estado de desapego ou "apatia" (apatheia). Essa virtude consiste em estar livre de todas as paixões. O termo "paixões" (pathe), na literatura patrística grega, significa não apenas sentimentos como raiva, ganância e luxúria, mas todo e qualquer vício, pecado oculto e mesmo pensamentos ruins ou negativos. O estado livre de paixões é resultado de um longo e contínuo processo de purificação levado a cabo por uma vida submetida aos mandamentos divinas. Daí ser identificada com a pureza (katharotes), e eis porque os bizantinos usavam os dois termos indistintamente. Na ordem da aquisição das virtudes, a pureza vem depois das virtudes já mencionadas -- fé, mansidão, humildade.

Um elemento que invariavelmente acompanha a liberdade das paixões é a manifestação do amor espiritual, o qual se define como sendo "a última das virtudes na ordem de aquisição, mas a primeira na ordem de valor", e é "a plenitude da lei da perfeição segundo o Cristo". O amor manifesta-se em diferentes níveis: há o amor sensorial -- amor à beleza física, ao prazer corporal e às coisas materiais em geral --; o amor psíquico -- amor à honra, à fama, ao poder; e o amor espiritual -- acima de tudo e em primeiro lugar o amor a Deus, e amor ao homem enquanto imagem de Deus em segundo lugar. Mais do que as demais virtudes, o amor espiritual faz do homem semelhante a Deus e o une à Divindade. Os Padres gregos frequentemente citam a afirmação do Evangelista João de que "Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele". Amar a Deus é amá-Lo enquanto o Ser supremamente belo, bom, perfeito e pessoal e aspirar a unir-se a Ele pela graça. Tal união chamamos de theosis, "deificação", e representa o fim supremo para o qual o homem foi criado. Nos ícones essa virtude não se representa com faces róseas e açucaradas ou com gestos teatrais. Em um ícone, tudo, inclusive a expressão de amor, deve ser representado com solenidade, a qual advém do sentimento de respeito, temor e certo assombro para com Deus e do sentimento de reverência para com a imagem de Deus, ou seja, o homem. Nota-se isso até mesmo quanto dois santos, tais como Paulo e Pedro, se abraçam. Quando seu objeto de amor é o Cristo, o santo que fita o Deus-Homem apresenta expressões e gestos apropriados à adoração.

Fonte: Constantine Cavarnos, Orthodox Iconography, Institute for Byzantine and Modern Greek Studies, Belmont, MA, EUA, 1977, pág. 42-45.

Imagem: Ofício fúnebre do repouso do Monge Constantine (Cavarnos) de Florence (1918-2011).