9 de abril de 2011

O mistério do pecado no mistério da salvação



Arquimandrita Touma (Bitar)

7/nov/2010

No próximo sábado, 13 de novembro, com a permissão de Deus, celebraremos a festa de São João Crisóstomo.

São João foi um daqueles bons pastores enviados pelo Bom Pastor. O Senhor Deus provê pastores notáveis para que os homens possam ser confortados e fortalecidos, e também para que possam aprender. Mas nem sempre é assim. Apesar de tudo, o verdadeiro pastor continua sendo o Senhor Jesus Cristo, que estará conosco todos os dias, até o fim dos tempos. Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre, o Pastor de Seu rebanho. A despeito de quem sejam os pastores que guiam o rebanho de Cristo, Jesus continua sendo pessoalmente o Pastor eterno que cuida individualmente de Seu rebanho, com ou sem Seus pastores. Há pastores que vêm do alto; quando eles cuidam de nós, é como se o Bom Pastor que está no alto estivesse cuidando de nós através deles. Mas há também os pastores que não vêm do alto, que não se inclinam para as coisas do alto, que são escolhidos pelas paixões humanas e comportam-se segundo suas próprias paixões. Esses também guiam o rebanho de Cristo em Seu nome e com Sua permissão, mesmo que se pareçam mais com servos malignos ou lobos do que com pastores. Eles obstruem a obra de Jesus por certo período de tempo, mas são incapazes de anulá-la por completo. O que quer que aconteça de ruim, o que quer que seja feito contra a obra de Deus, o Bom Pastor fará com que tudo seja transmutado para o bem daqueles que buscam a face do Senhor, não importa se por meios que nos sejam conhecidos ou desconhecidos. Mas por que o Senhor Deus permite que pessoas como essas governem Seu rebanho?! É precisamente aqui que se oculta o mistério: como o mal opera em prol do mistério da salvação?

No que tange a salvação, o mistério está na maneira através da qual o Senhor Deus opera, a qual está além da percepção humana. No que tange o pecado, o mistério está na maneira através da qual o diabo opera, algo deveras misterioso aos olhos humanos, mas revelado aos olhos de Deus. O pecado não ocorre se o Senhor Deus não o permitir, pois Ele é o Mestre de tudo e de todos. Deus coloca o pecado a serviço da salvação, em consideração ao estado decaído da humanidade pós-Queda, transformando-a em remédio, assim como os venenos das serpentes são transformados em remédio pelos bons médicos.

Não restam dúvidas de que o Senhor Deus não erradicou o pecado do mundo mediante Sua morte e ressurreição. Se Ele tivesse feito isso, então não haveria sentido em pecar, pois a fonte do pecado, além de Satanás, é o coração humano, e se o coração não renunciar ao pecado, então o pecado não o deixará, e muito menos deixará o mundo. É assim que o Senhor Deus criou o homem: suscetível ao pecado, pois não haveria sentido em aceitar o amor de Deus se o homem não fosse capaz de pecar.

Por isso, a salvação é uma graça que vem do alto, mas não sem a prévia aceitação do homem, ou seja, de sua vontade e cooperação. Ou o homem aceita a palavra da salvação e anda nos caminhos da graça de Deus, de maneira que a graça ative nele e cause nele o ímpeto para imitar o exemplo de seu Senhor, ou o pecado deixará o homem por conta da vontade de seu coração, gentilmente estimulado pela dor, arrependendo-se porque conhece o mal do pecado, seu vazio, sua falsidade, sua feiúra, e por autopreservação volta-se, com a ajuda de Deus, contra os pecados, de maneira que não morra desesperado por causa deles.

A graça é aquilo que auxilia o homem a abrir seus olhos e a tornar-se disposto a essa mudança. A graça também faz com que ele sinta e veja seus próprios pecados e o caráter pecaminoso de seu estilo de vida. O sofrimento interior que advém deste processo, mesmo que por um período curto de tempo, faz com que o homem ganhe ímpeto em purificar-se, humilhar-se e arrepender-se, tremendo diante de seu Senhor, com modéstia e dor. Se a dor não o detém, então restar-lhe-á somente alguns poucos momentos antes da morte. A extrema fraqueza é a oportunidade final para incitar o coração. O Senhor ouve o despertar interior, ou então o homem morrerá em seus pecados.

O pecado estava e ainda está presente e ativo neste mundo, e permanecerá assim até que o Senhor envie seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os Seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus (Mateus 24:31). É por isso que Judas Iscariotes fazia parte do círculo dos discípulos de Jesus Cristo. Jesus sabia perfeitamente o que estava no coração de Judas, o que ele estava tramando e o que lhe faltava. Jesus também o escolheu por respeito à liberdade que Ele deu à natureza humana. A liberdade, mesmo que engendre pecado, também pode engendrar o amor.

As coisas mais preciosas também correm o risco de se impurificarem, pois, se não fosse assim, não seriam preciosas. Judas Iscariotes foi necessário porque, não fosse por ele, não teria havido Cruz nem Ressurreição. Supõe-se que ele teria sido apóstolo e pastor caso tivesse aceitado ser assim, e teria aceitado ser assim caso tivesse desejado. Naturalmente, nós queremos que todos os pastores da Igreja de Cristo, em todo tempo e em todo lugar, sejam bons, mas isso é ilusão pura e simples. A verdade e que sempre haverá pastores corruptos. Porém, de uma maneira que eles mesmos não desejam e não conhecem, eles invocam a graça sobre o rebanho de Deus em abundância, pois onde o pecado abundou, superabundou a graça (Romanos 5:20). Assim, o rebanho permanece seguro, apesar de tudo. A graça abunda sobre a graça pois ela precisa de um pastor de almas e corpos. O Senhor Deus não deseja que confiemos nas pessoas. Ele não quer que tratemos os bons pastores como ídolos e os pastores corruptos com desespero. “Eis o homem!” Ele não quer que dependamos de ninguém que não seja Ele mesmo. Cristo está ativo mediante a condução pastoral do homem e mediante a condução pastoral de Seus pastores, assim como mediante suas paixões e crueldades!

Naturalmente, os fracos caem. Por isso os fortes sempre devem fortalecê-los para que a face do Altíssimo permaneça sendo a única coisa digna de ser buscada. Sê vigilante, e confirma os restantes (Apocalipse 3:2). E tu, quando te converteres, confirma teus irmãos (Lucas 22:32). Com paciência e humildade, com dor e sofrimento, com a cruz a alegria virá ao mundo. O Senhor conforta as almas e fortalece os fracos. Eles acham que os pastores iludidos, os lobos, corrompem a Igreja de Cristo, que a prejudicam, mas eles são incapazes de uma coisa dessas. O Senhor Deus permite que os maus pastores corrompam no seio da Igreja, mas somente por um tempo e por economia, pois o propósito espiritual é muito mais amplo e profundo. Por que o Altíssimo permite que o diabo cause o tropeço das pessoas? Ora, não é porque Ele abandonou Seu rebanho. É por eles que Ele derramou Seu sangue! Deus é zeloso para com Seu rebanho, por cada fio de cabelo da cabeça de Seus amados. Ele é o Mestre de Todos, ninguém os arrebatará de Suas mãos (João 10:28), não importa o que pensam ou o quanto tentem. Cristo é aquele que nos preserva, que pega o esperto em seus truques! O que quero dizer é que aquilo as pessoas malignas acreditam terem feito por suas paixões é, sem dúvida, um meio para a purificação da Igreja, a fim de santificar seus fiéis. Se Satanás não nos tentasse, então nenhuma alma seria salva. Se não fossem os pastores maus, o rebanho não se apegaria a seu único e verdadeiro Pastor.

O Senhor Deus nos guia das mais variadas formas: Ele cuida diretamente das almas, consolando-as quando estão feridas e ulceradas, quando não se firmam na fé. Mas Ele também as guia em silêncio, nas circunstâncias acidentais da vida, de maneira que clamem a Ele, que sejam pacientes e firmes, que sejam purificadas. Cristo quer que combatamos em todas as situações. Assim também o Senhor Deus nos guia entregando-nos a pastores que mais parecem o Faraó, o qual nos molesta, nos envergonha, nos deixa com fome e sede, para que entendamos que a salvação que vem dos homens é vã, para que voltemos nossos corações para o alto, depositando no Pastor das almas toda nossa esperança. Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito (Romanos 8:28). Nunca somos deixados para trás. Cristo vem até nós quando não esperamos. As mesas serão viradas! Ele vai mudar a situação! “Conheci um homem soberbo e altivo como um cedro do Líbano; ele foi golpeado e caiu”.

A Igreja de Cristo não teme aqueles que entram furtivamente nela, tornando-a um veículo para suas paixões. Deus jamais será zombado! Eles lamberão seu próprio sangue e não mancharão o corpo de Cristo, contanto que os fiéis invoquem a Deus com paciência, lágrimas e regularidade! Os tempos de dificuldade são melhores do que os tempos de bonança, pois, mesmo que a bonança traga conforto, sempre traz também o perigo da lassidão da alma. Mas a dificuldade, por mais dolorosa que seja, fortalece aqueles que confiam no Senhor e não O abandonam. O Senhor Deus conhece aqueles que são Seus. E aqueles que não são Seus, Ele lhes envia a seca pois Ele quer justamente que eles sejam dissecados. Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada (Mateus 15:13). Deus é exigente. O amor é exigente. A fé é exigente! Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hebreus 10:31). Ele é um Deus ciumento! Ele chama todo coração e toda pessoa. Ele não precisa de nada dos homens. Por isso, Ele fortalece aqueles que precisam ser fortalecidos, e os que caem Ele os sujeita ao flagelo do pecado de maneira que vençam sua preguiça...ou pereçam! Tem de haver uma Babel, tem de haver o sofrimento!

Porém, não abandonemos a Igreja de Cristo por causa das tribulações. Prestemos testemunho da verdade e permaneçamos na Igreja. Não sejamos complacentes, mas ao mesmo tempo não nos entreguemos ao medo e ao desespero. Se a Igreja dependesse da sabedoria dos sábios deste mundo que governam a Igreja, a Igreja simplesmente não subsistiria. Nosso primeiro e último suporte é a sabedoria de Deus, a qual é considerada tola por este mundo. É ela que nos guia em todas as situações nos caminhos de Cristo. Os caminhos de Cristo não são os nossos caminhos. Não é importante que compreendamos plenamente este ponto. O mais importante é aceitar. Nas tuas mãos entrego o meu espírito (Lucas 23:46).

Em suma, não vos desespereis. Satanás é quem nos leva ao desespero! Porém, quando seu jugo nos sufocar, a salvação em Jesus Cristo estará próxima! Que ninguém faça mal à sua alma entregando-se ao medo, à tristeza, à morte, desesperança. Quando o nó se vos apertar, olhai para cima e levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima (Lucas 21:28). A cruz é necessária em todos os dias de nossa vida para que sejamos renovados. Mas Nosso Senhor envia-nos consolações em tempo hábil, de maneira que não caiamos em desespero. Porém, não é nas consolações que crescemos, mas na cruz! Sem a cruz, todas as coisas entram em estado de estagnação, apodrecendo em seguida. A dor e o sofrimento são necessários à purificação. O fruto virá em grande alegria. “Ponha tua mente no inferno, e não te desesperes”. Deus é glorificado na Sua economia da salvação!

Fonte: Notes on Arab Orthodoxy