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16 de junho de 2023

O narcisismo como privação da razão abstrata


O jovem psiquiatra Flávio Gikovate, então com apenas 35 anos de idade, defende a ideia de que a felicidade de alguma forma guarda relação íntima com a moralidade. É impossível, segundo seu entendimento, ser real e profundamente feliz sem ser real e profundamente moral.

Aqui não cumpre tanto falar de regras ou preceitos morais, mas de denunciar um caráter sobre o qual a imoralidade se funda. Descrevê-lo para denunciá-lo é, no entender de Gikovate, a maneira mais eficaz para que não apenas os portadores desse caráter se deem conta e busquem aprimorar-se, mas também, e sobretudo, para que os demais estejam atentos ao seu potencial destrutivo, mesmo que oculto por temperamentos aparentemente equilibrados e positivos. A esse caráter, a esse desvio de caráter, Gikovate chama de narcisismo.

O narcisista se desenvolverá em função de uma pobreza insistente e prolongada de seu mundo interior. A falta de entendimento, a falta de sentido, a falta de certa profundidade intelectual e, por que não dizer, espiritual, se refletirá numa personalidade do tipo narcisista. Essa pobreza interior se manifestará exteriormente pela dificuldade em estabelecer relações afetivas, pois elas exigem uma comunhão entre vidas interiores (pensamentos, sentimentos, valores, objetivos, crenças), que é precisamente do que está privado. O narcisista, portador de uma vida interior atrofiada, não terá alternativa senão tomar o acúmulo dos signos exteriores de prosperidade material e social como se fossem os signos interiores do aprimoramento intelectual e espiritual. As relações humanas se tornarão forçosamente aquisitivas (dinheiro, poder, status, fama) dado que o narcisista não detém uma vida interior genuína a ser oferecida.

No entanto, por mais pobre que seja sua vida interior, o indivíduo narcisista de alguma forma percebe essa pobreza em si e a contrasta com os demais. Da consciência desse contraste brotará um grande desconforto psicológico que, por conseguinte, não engendrará um desejo de admiração, e portanto preservação, da vida alheia, mas um desejo de destruição da vida alheia. Desejar que o outro não tenha o que tem, ou que não seja o que é, é o que chamamos de inveja. O narcisista é um invejoso.

Similarmente, e pelas mesmas causas, o narcisista será um egoísta, ou seja, extrairá sua energia vital de outras pessoas. Isso significa que o narcisista desenvolve em si a noção de que os demais são portadores de uma energia que ele deve possuir por direito. Se os outros têm, ele também tem o direito de ter.

Curiosamente, a pobreza da vida interior se traduzirá em hipersensibilidade e comportamento agressivo. A baixa tolerância à frustração é reflexo de uma vida interior vulnerável, subdesenvolvida, indefesa. No caso do narcisista, a agressividade será seletiva: será agressivo em casa com a mulher, será manso no trabalho com o chefe.

Gikovate observa que existem dois tipos de razão. A razão concreta, que é aquela com a qual nascemos e que se dirige primordialmente à perceber a forma, a função e as propriedades relacionadas aos objetos do meio exterior – é uma “razão estanque”, uma “razão pessimista” e portanto uma “razão oportunista” –, e a razão abstrata, que é aquela que se dirige à essência das coisas e pessoas, às ideias, princípios, valores, conceitos que regem a realidade – é uma “razão criativa”, uma “razão otimista” e portanto uma “razão generosa”.

“[Os narcisistas] invejam aqueles que são capazes de invadir a estranha região da mente onde outros estímulos (além dos externos) determinam outro tipo de pensamento e ideias diferentes; uma área onde as coisas são vistas não como elas são, mas como se deseja imaginar; sem compromissos com o existente; onde as coisas novas tomam corpo, inicialmente sob forma de ideias. A inveja significa o reconhecimento da superioridade da abstração. Significa o reconhecimento de tal potencial, de sua importância; e ao mesmo tempo a consciência de que ele não está sendo desenvolvido, de que nada está sendo feito neste sentido. É a percepção de que toda a energia mental está dirigida para a prática da vida, e que isto significa um enorme prejuízo para o desenvolvimento psíquico”.

A razão abstrata deveria desenvolver-se a partir dos 6-7 anos de idade. Até essa idade, toda criança é “narcisista” por definição, o que Gikovate chama de narcisismo primário. As crianças normais, nessa faixa de idade, começam a renunciar a tal narcisismo em prol de “algo” à qual a abstração tem acesso. O termo narcisismo secundário se aplica propriamente à regressão ao comportamento narcisista em uma pessoa que verdadeiramente o tenha superado. Em geral, Gikovate acredita que algum estado de doença física seja o elemento principal que empurra o indivíduo de volta ao estado narcisista infantil.

No campo do amor, como o narcisista se sabe fraco e, portanto, exigente, se sentirá atraído por pessoas mais generosas e estruturalmente mais completas e complexas. No entanto, conforme a relação avança, e a inveja percorre esse vínculo oportunista/generoso o tempo todo, a compreensão da mutilação parcial do desenvolvimento intelectual vai se tornando cada vez mais patente para o narcisista. A agressividade tende a aumentar, mas as demandas por relações sexuais regulares permanece, pois para o narcisista o sexo não possui nenhuma significação simbólica, afetiva ou moral, mas apenas alívio da pulsão sexual e busca do prazer corporal do orgasmo. Na prática clínica de Gikovate, a grande maioria dos casais que enfrenta dificuldades sexuais se configura como uma relação entre tipos mais narcisistas e tipos mais generosos.

Como tratar um narcisista? Bem, em geral o narcisista não busca um tratamento porque, nas sociedades modernas, o comportamento narcisista não apenas não é condenado mas é louvado. O individualismo, o crescimento social e financeiro, o “sucesso”, são ideias que oxigenam o comportamento narcisista. A busca pelo tratamento ocorrerá somente se algum evento externo muito intenso o forçar a tal. O que o terapeuta pode fazer, nesses casos, é tomar proveito do elemento de admiração que há na inveja e, a partir dele, acompanhar o narcisista na descoberta da abstração.

“[No entanto], o desenvolvimento da vertente abstrata da razão implica em sofrimento. Se identificar com o outro, em sua dor, significa sofrer tanto quanto ele, experimentar a situação dele como se a gente fosse ele. Significa se familiarizar com a condição humana em geral, o que tem estado em franca sintonia com sofrimentos físicos e morais. O paciente se fixa à terapia por causa da admiração e, com isto, poderá estabelecer uma relação que, se conduzida com propriedade, será capaz de iniciá-lo no mundo da frustração e da dor, caminho inevitável para a descoberta da abstração. Uma vez alcançada a abstração, a fisionomia das pessoas se modifica; o mundo, os homens e as coisas passam a ter sentido e graça”.

Fonte: Flávio Gikovate, Você é feliz?, MG Editores, São Paulo, Brasil, 1978.

11 de junho de 2021

Reflexões

 

O ciúme não é prova de amor. Costuma acompanhá-lo, mas os ciumentos são os que estabelecem mais dependências práticas, e não os que mais amam. Assim, não cabe a excessiva tolerância de alguns para com esse sentimento. Trata-se de uma emoção inevitável, mas que deve ser objeto de administração e máximo controle justamente a fim de preservar os legítimos direitos do amado.

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As pessoas que com mais frequência sentem ciúme não são, como regra, as que mais intensamente amam, mas as que mais temem perder o parceiro, o que corresponde, antes de tudo, à fraqueza pessoal e ao medo de lidar com frustrações, dores e perdas práticas de todo tipo.

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O medo da felicidade corresponde à sensação de iminência de tragédia que acompanha nossos melhores momentos. É como se a grande desgraça viesse a se repetir: estávamos no útero, felizes, em harmonia e simbiose com nossa mãe; à situação paradisíaca seguiu-se a dramática e dolorosa ruptura do nascimento.

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A revolta contra fatos irreversíveis é imaturidade emocional e autocondenação à infelicidade eterna. A aceitação de como somos nos permite elaborar os rumos que deveríamos seguir.

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Entre amor e individualidade, opto pela segunda. Faço isso ciente de que ela implica a morte do amor romântico, a meus olhos o grande vilão da história. O final é feliz porque determina a supressão de uma gama enorme de sofrimentos inúteis e dilacerantes. Libertos do anseio de fusão – que entendo como algo que aponta para o passado, e não para a frente –, indivíduos podem seguir seu caminho na direção da autonomia e da liberdade.

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Individualismo é um termo que costuma provocar uma reação negativa na maior parte das pessoas porque parece sinônimo de egoísmo, o que não faz o menor sentido, uma vez que o egoísta costuma ser a favor dos grupos exatamente para poder encontrar alguém a quem parasitar.

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Muitos são os que se entristecem o tempo todo com sua aparência física, com a falta de habilidade para práticas esportivas, com a pouca competência para atividades manuais, com os dotes verbais escassos ou o senso de humor precário, e várias dessas propriedades correspondem a uma forma peculiar da atividade cerebral que, creio, não convém pretender modificar. Nesse caso, mudar significa aceitar os fatos, não lutar contra eles. Mudar significa, portanto, alterar o modo como pensamos para que possamos aproveitar melhor a vida, viver com mais harmonia e serenidade – e isso está longe de ser pouca coisa.

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Aqueles que vivem sós por certo período aprendem a se tornar independentes e a cuidar melhor de si mesmos. Desenvolvem prazer e orgulho por ser capazes disso. Avançam assim na direção da justiça, abandonando tanto o egoísmo como a generosidade originais.

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Buscar a verdade é um indicador de coragem para a introspecção, condição indispensável para conseguir avançar para o autoconhecimento e para a liberdade.

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Muitas de nossas verdadeiras propriedades, como a inveja, a vaidade e a agressividade, são negadas e vão para o porão do inconsciente, de onde influenciam dramaticamente a conduta real da maior parte das pessoas, mesmo daquelas que se pretendem mais idealistas e despojadas.

[...]

Poderíamos nos satisfazer com uma única regra moral para as questões da vida prática: temos de atribuir a nós mesmos e aos outros direitos iguais.

Fonte: Flávio Gikovate, Reflexões que Permanecem, MG Editores, São Paulo, Brasil, 2017.