29 de junho de 2010

Literatura, cultura e a alma ocidental


No mundo atual, entrar na Ortodoxia é como se converter da mediocridade para a plenitude, da superficialidade para a profundidade, da impostura para uma realidade tão rica e tão vasta que, às vezes, ficamos na dúvida se é possível que a Igreja e o mundo “real” possam existir juntos e ao mesmo tempo.

Esta conversão ocorre não sem certo desconforto, pois a conciliação dos aspectos exteriores da vida moderna com o pensamento profundo e interior da Ortodoxia parece-nos algo impossível. A Ortodoxia se apresenta a nós como uma realidade muito mais intensa e transcendente. Esta impressão origina-se do fato de que quase sempre trazemos conosco uma parte da mediocridade, da superficialidade e da impostura da vida moderna. Esta superficialidade aos poucos corrói a vida espiritual -- a despeito de nossas boas intenções --, e em pouco tempo chegamos à conclusão de que há algo de muito errado conosco.

No entanto, quem acha que todas as coisas ocidentais são ruins está muito enganado. Viver pensando desse jeito é simplesmente impossível. Somos ocidentais: afinal, nossas almas foram forjadas pela psicologia e pela mentalidade ocidental. O esforço freqüentemente doloroso de conhecermos a nós mesmos só poderá ser bem-sucedido se compreendermos as forças que nos moldaram.

Ao invés de ficarmos fugindo de nossa própria cultura, ou de tentarmos negar o poder que ela exerce em nós, seria muito melhor se a encarássemos com honestidade e sinceridade a fim de compreendermos sua essência e origem. Este é o primeiro passo para a formação de uma cosmovisão ortodoxa, e esta é a tarefa número 1 que nos aguarda. Se lograrmos êxito nessa tarefa, então seremos capazes de distinguir aquilo que é culturalmente útil daquilo que é culturalmente desprezível. Talvez ainda mais importante do que isso, seremos capazes de alcançar o autoconhecimento, ou seja, de alcançarmos a profundidade de alma que nos permitirá vislumbrar o caminho para que nos tornemos bons cristãos.

Na verdade, não herdamos a cultura ocidental coisa nenhuma. Este é o grande problema. Nós fomos educados e aculturados nas ruínas dessa cultura. Não vivemos no Ocidente, mas na memória pálida e moribunda do Ocidente. A “cultura” contemporânea é uma cultura inexistente, um vácuo que contrai a alma e asfixia o espírito. Antes de tentar mergulhar o espírito nas águas profundas da Ortodoxia, o homem contemporâneo faria melhor se primeiro nutrisse sua alma, pois a má-nutrição paralisa toda e qualquer tentativa de desenvolvimento espiritual. O homem ocidental moderno é como uma planta de raízes superficiais: ela jamais conseguirá crescer de maneira vigorosa e sustentável. O espírito do homem moderno é incapaz de se elevar, pois um espírito elevado exige uma alma profunda, que tenha maturidade e sensibilidade suficientes para perceber a nobreza das coisas e para ser enobrecida por elas.

Os Padres sempre ensinaram que a parte mais elevada e espiritual da natureza humana funda-se sobre o primeiro nível da alma, que é justamente o nível que melhor responde aos estímulos produzidos pelas coisas virtuosas, nobres e belas. As capacidades humanas, distorcidas pela Queda, devem ser restauradas à sua normalidade, e somente depois que essa normalidade estiver restabelecida é que conseguiremos progredir nas coisas espirituais. A “percepção superior”, que São João Clímaco chamava de “atributo” da alma, é “esbofeteada” pelo pecado, e por isso temos de nos treinar melhor. O redirecionamento e a elevação da alma é a tarefa essencial de todos os cristãos ortodoxos.

Ao contemplar o belo e o nobre contidos nas obras de arte, o cristão terá a chance de restabelecer em si a sensibilidade para um tipo muito especial de ternura e de simpatia. A inclinação para o belo e para o nobre vem de Deus, mas essa capacidade foi obscurecida pela própria negligência humana. O crescimento espiritual autêntico só será possível depois que o primeiro nível da alma tiver sido elevado e purificado. Do contrário, será extremamente difícil atingir a sobriedade, a fertilidade, a autenticidade e a profundidade na vida espiritual. A alma incultivada raramente possui o discernimento e o equilíbrio para enxergar com clareza e honestidade, nem a sensibilidade para sentir com profundidade, nem a inspiração para esforçar-se intensamente, nem o idealismo para alcançar incondicionalmente o que há de melhor e mais verdadeiro. A sensibilidade e a intensidade não são em si atributos espirituais. No entanto, servem de prelúdio às coisas espirituais.

É psicologicamente impossível que, de uma hora para outra, nos tornemos “não-ocidentais”, mesmo que isso fosse uma coisa desejável. A rejeição pura e simples dos frutos de centenas de anos de cultura cristã, na esperança de escaparmos da mácula do “ocidentalismo”, é uma postura intelectualmente irresponsável. A recusa em nos nutrirmos daquilo que é edificante e elevado inevitavelmente implicará em nos nutrirmos daquilo que não é edificante nem elevado: a cultura pop americana, repleta de superficialidade e falsidade, infiltra-se dia após dia em nossos corações desprotegidos. Se não reagirmos, se recusarmos a escolher as coisas sublimes, então nossas almas serão inapelavelmente asfixiadas pelo artificialismo e pela baixeza. Seremos perpetuamente contaminados pela imundície mortal do mundo -- e por nossa própria imundície --, e jamais seremos capazes de tocar o fundo de nossos corações, nem responder as necessidades de nossos próximos.

Observe o exemplo da Igreja primitiva. Quando a Igreja denunciava a cultura pagã, ela denunciava somente os aspectos que se fundavam no demonismo da religião pagã e no hedonismo da arte pagã. No entanto, os aspectos da cultura helênica que eram úteis e saudáveis não foram rejeitados e denunciados pela Igreja, mas, pelo contrário, foram transmutados por ela em declarações missionárias profundamente convincentes.

Ontem como hoje, muitas pessoas negavam que a arte e a cultura seculares poderiam ser utilizadas como instrumentos para cultivar e educar a alma, e o faziam lançando mão da exortação do Apóstolo: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8).

Os Padres da Igreja, ao lidarem com esta questão, formularam a resposta que se tornaria a postura ortodoxa por excelência, a resposta registrada nas obras de homens como São Clemente de Alexandria, São Basílio e São João Damasceno.

Em seu Stromateis, São Clemente ensina que a exortação do Apóstolo aplica-se somente aos casos em que a pessoa abandona as coisas espirituais para abraçar as coisas do mundo, ou seja, quando ela abandona a verdade altíssima do Cristo para abraçar a verdade parcial da cultura secular, pois “a filosofia é extremamente rudimentar se comparada ao Cristianismo, e serve tão-somente de treino preparatório para a verdade”. (Stromateis, VI, 7).

É bem verdade que os estudos da poesia, da história, da arte e da ficção são “extremamente rudimentares”. Não são estudos espirituais. Mas nós, inseridos na realidade do mundo moderno, precisamos demais desses rudimentos; precisamos não apenas de vida espiritual, mas de humanidade pura e simples. O Apóstolo exorta-nos a não confundirmos a vida inferior da alma com a vida superior do espírito, e pede para que não abandonemos a plenitude do Cristo para abraçarmos a vacuidade do mundo. Porém, notem que ele não pede para ignorarmos o desenvolvimento da alma.

São Clemente não foi o único que percebeu a necessidade e a utilidade de coisas tão “mundanas” como a poesia. São Basílio, em seu “Discurso aos jovens sobre o uso correto da literatura grega”, demonstra claramente a relevância da cultura secular para a vida espiritual:

"Devemos depositar nossas esperanças nas coisas transcendentes; preparem-se para a vida eterna fazendo aquilo que nós fazemos. As Escrituras apontam para a vida eterna; elas ensinam com palavras divinas. Porém, na medida em que nossa imaturidade nos impede de entender seus [das Escrituras] pensamentos profundos, exercitemos nossas percepções espirituais com obras seculares, as quais não são completamente distintas [das Escrituras] e nas quais percebemos a verdade como em sombras e espelhos... Conseqüentemente, devemos conversar com os poetas, com os historiadores, com os oradores, em verdade, com todos os homens que possam auxiliar a salvação de nossas almas... [Devemos] preservar os recursos, sem deixar de revirar nenhuma pedra...de onde devemos extrair toda ajuda... A virtude é o único e verdadeiro tesouro, o tesouro que permanece conosco na vida e na morte, [e] já que temos de alcançar a vida futura mediante a virtude, nossa atenção deve apegar-se aos trechos das obras dos poetas, dos historiadores e especialmente dos filósofos nos quais a virtude é enaltecida, [pois] aqueles que foram instruídos nos exemplos pagãos não considerarão impraticáveis os preceitos cristãos... Portanto, nós devemos agir com sabedoria e extrair dos livros pagãos tudo aquilo que é benéfico e aliado da verdade, e ignorar o resto".

Similarmente, São João Damasceno, na Exposição da Fé Ortodoxa, exorta aos cristãos ortodoxos que têm “sede de conhecimento” a “deleitarem-se” nas Escrituras, “pois [elas] contêm a graça que jamais se exaure. Porém, se somos capazes de lucrar com outras fontes, então isto não nos será proibido. Sejamos, pois, bons banqueiros: coletemos o ouro puro e genuíno e rejeitemos o que é espúrio. Aceitemos as boas doutrinas, mas atiremos aos cães os deuses ridículos e as fábulas insanas, pois daquelas extrairemos grande força contra estas”. (Iv. 17)

Adotando, pois, esta postura, a Igreja batizou a cultura pagã; os dejetos foram expurgados e o restante foi elevado. Essa cultura batizada era precisamente a cultura ocidental. Por onde a Igreja passou na Europa, ela sempre adotou esta mesma postura. Na Irlanda ou na Gália, na Bretanha ou na Espanha, a Igreja preservou tudo o que era bom e verdadeiro nas artes e na literatura popular, na natureza e na sociedade. A cultura pagã da Europa pré-cristã encontrou no Cristo a realização para suas mais sublimes aspirações, e foi assim que a Europa floresceu.

Por conseguinte, gerações de homens e mulheres desenvolveram suas mais profundas aspirações construindo, cantando, criando e vivendo. Eles regozijaram-se em Deus, nas maravilhas de Suas obras e de Seu mundo, e o legado que nos deixaram manifestam essa alegria. Eles criaram uma época cujas maravilhas e belezas estão praticamente esquecidas, onde a poesia corria solta no sangue e a castidade não era vergonhosa, mas corajosa, onde o escárnio e a superficialidade não eram sinais de fortaleza e as lágrimas não eram sinônimo de fraqueza, um mundo gentil e cortês, honrado e preciso, nobre e íntegro.

Este era o nosso mundo. A imundície da publicidade e das novelas nem sempre fez parte do mundo. Houve um tempo em que o júbilo, a nobreza e a alegria faziam parte do mundo ocidental. Se formos incapazes de enxergar esses aspectos, então jamais conheceremos a nós mesmos. Se não enxergarmos a objetividade bela e cristalina da mente medieval -- por exemplo, a visão profunda e humilde que tinham do cosmo como um grande baile real --, e tivermos olhos tão-somente para as provas de Anselmo e para a auto-exaltação papal, daremos a demonstração mais cabal possível do entorpecimento de nossos corações. O homem medieval contemplava o céu noturno e chorava, sentindo-se enclausurado nas duplas trevas da separação física e moral de Deus. Mas ele também acreditava que as estrelas eram buracos no chão do céu: aqueles pontos de luz vinham de um mundo onde o dia era perpétuo e onde todas as coisas dançavam jubilando-se pela criação e brilhando na luz imutável de Deus.

O homem medieval valorizava a hierarquia porque, para ele, a hierarquia era uma lembrança de Deus. O mundo inteiro era como que um desvelamento incessante, uma alegoria intrincada da majestade e do amor de Deus. Ele exultava-se em júbilo na obediência e caminhava temeroso na humildade da autoridade, porque ambas eram imagens de profundas realidade espirituais. Ele alegrava-se pelas cores e pela beleza do mundo físico, porque elas eram prenúncios dos esplendores ainda maiores do Reino de Deus.

Ele poderia empenhar sua vida inteira na construção de uma catedral, e jamais se esquecer da transiência do mundo temporal. A literatura, a didática, a moral, tudo o fazia lembrar da beleza da virtude e da nobreza e da brevidade da vida. A poesia entoava o esplendor do mundo criado e o temor de Deus. A sociedade lhe ensinava a sentir a realidade e a proximidade do reino espiritual de maneira quase tão intensa quanto o mundo físico. As igrejas – resplandecentes, delicadas, formosas – elevavam a alma e o espírito a grandes alturas.

O ímpeto apostólico impulsionou este mundo por quase mil anos. O alimento fornecido por mil anos de Ortodoxia formaram a base espiritual sobre a qual cresceram tudo o que há de melhor na arte e na cultura ocidentais. Esse ímpeto permaneceu praticamente intacto até o Iluminismo, mas foi intensamente corroído durante a Era Romântica e, por fim, ruiu inteiramente em nossa época. O que de melhor foi feito, foi feito neste espírito e vem deste mundo. A comunidade de sentimentos e intenções que marcam os melhores escritores, artistas e músicos vem desta fonte. A despeito das mudanças sociais, políticas e religiosas, Shakespeare e Dickens, Bach e Mozart, Donne e Hugo compartilham deste mundo, e é para este mundo que os cristãos ortodoxos devem se voltar a fim de moldarem suas almas. Há lições que temos de aprender com o passado antes que possamos alimentar esperanças quanto ao futuro.

Os Padres recomendavam o estudo das artes e letras pagãs como instrumentos para treinar a alma. Nós, que temos a nosso dispor os produtos da cultura ocidental fundados no Cristianismo, não apenas não devemos temer o uso destes produtos, mas não temos desculpas para ignorá-los. Pensar que tudo o que é ocidental é ipso facto suspeito revela uma profunda insegurança, um legalismo mais rígido do que qualquer seita, um escolasticismo mais árido do que qualquer summa.

Temos de recuperar os sentimentos e sensibilidades que outrora fizeram parte de todos os povos civilizados. As obras de arte, a literatura e a música pré-modernas portam valores essenciais para nós. Elas podem nos ensinar coisas que nada do que se produz hoje poderia nos ensinar: o que é nobreza, o que é virtude, o que é honra, o que é pureza, o que são sacrifício e lealdade, o que é digno e o que não é. Poesia, música, arte, ficção: nada disso é alimento espiritual, mas tudo isso é leite e pão de que precisamos a fim de ganharmos força para vivermos da carne do espírito.

A visão, o som e a sensação do sublime são coisas que perdemos. Para recuperá-las, devemos retornar a um tempo onde a moral nebulosa e arenosa ainda não havia dominado o mundo: um tempo onde a visão do homem ainda era suficientemente clara e sua alma suficientemente apurada. Se não dominarmos os planaltos da alma, dificilmente conseguiremos alcançar os píncaros do espírito. Embrutecidos pelo zunido e pela cacofonia moral do mundo, os corações permanecem frios e as consciências entorpecidas. Estamos insensíveis à piedade, à honra, à nobreza, à pureza, porque quase nunca as vemos. Até mesmo pela beleza não somos mais movidos, uma vez que já nem mais sabemos o que é beleza. Assim como a maioria dos termos de valor, “beleza” tornou-se uma palavra vazia, sem conteúdo, desprovida de sentido absoluto. Hoje em dia, beleza é aquilo que nós gostamos, ou o que quer que nos digam que é bonito. A arte passou a ser aquilo que decidimos que é arte. Já não podemos mais dizer que um monte de calotas enferrujadas e canos retorcidos não é “arte” da mesma maneira que Rembrandt é “arte”.

A apreciação artística tornou-se algo inteiramente pessoal apenas recentemente. A beleza, assim como os demais aspectos da arte, era outrora um aspecto da Verdade absoluta, que era Deus. Portanto, uma coisa era bela proporcionalmente à fidelidade com que refletia alguma parte da imagem e da verdade de Deus. Ora, como o coneito de Verdade está totalmente perdido, não mais somos capazes de expressas o conceito verdadeiro de Beleza, e nutrimo-nos de mediocridade, feiúra, de anti-beleza, anti-heroísmo, anti-arte, daquilo que zomba Deus e o homem.

Temos de reaprender o que é beleza. Temos de aprender a sermos arrebatados pelo furor de uma fuga, a sermos enebriados pela loucura de Lear, a sermos consumidos pela sanidade de Quixote. Temos de ser renovados pela saúde e caridade de Dickens, iluminados pela clareza e pela percepção de Hugo, fortalecidos pela gravidade sóbria e pela esperteza oblíqua de Johnson, tocados pelo fogo de Donne, tranquilizados pela flora primaveril de Chaucer.

Temos de sentir de novo a dor da saudade, a alegria amarga de quase tocar, mas nunca apreender, de quase ouvir, mas nunca compreender Aquele cuja Beleza torna a arte bela. Em seu sentido mais profundo e verdadeiro, é exatamente isto o que a arte faz: precisamos dela precisamente porque ela nunca sacia. Ela sempre estimula a sede, ela sempre nos lembra da fome que nunca é saciada. Ela nos leva aos pontos mais altos da experiência humana, para depois nos deixar com saudades não sabemos exatamente do quê. Neste ponto, o espírito estará pronto para prosseguir, para encontrar seu verdadeiro lar em Deus. A alma inculta, informe, não sentirá a verdadeira profundeza e dor da saudade, nem saberá como remediá-la. Se quisermos sentir fome e sede suficientes para buscar a Deus com diligência e comprometimento, temos de moldar a alma com cuidado e persistência.

E temos de moldar as almas de nossos filhos. A criança que nasce e cresce nos dias de hoje encontra-se em desvantagem ainda maior do que seus pais. Sem o esforço e a preocupação constantes, os pais não conseguirão evitar que seus filhos cresçam aleijados de alma e atrofiados de espírito. É importante que os adultos lutem pela elavação e pela pureza de suas almas; ainda mais urgente é instilar o idealismo, a agilidade espiritual, a simplicidade e a amabilidade nas almas das crianças. As crianças que são criadas em meio à boa música, boa leitura e boa arte desenvolverão a genuinidade instintiva, a acuidade do ouvido espiritual, as quais serão valiosíssimas para suas vidas. Elas não serão enganadas pela futilidade, e jamais se esquecerão das imagens de pureza, cavalheirismo, integridade e beleza que ganharam quando leram e ouviram aquilo que de melhor o coração e a mente humana puderam produzir. Quando suas almas forem bem formadas, elas serão capazes de resistir às muitas ilusões e divertimentos tolos que os aguardam pelo mundo afora.

Se quisermos servir a Deus de todo o coração e mente e alma, temos de garantir que nossas almas sejam verdadeiras e retas, que sejam bem treinadas para pelo menos reconhecer a nobreza e a integridade, mesmo que a debilidade da carne impeça que as pratiquemos. Portanto, é o ensinamento ortodoxo das necessidades da alma que demonstra a utilidade espirtual da cultura e da literatura.

Fonte: St. Xenia Skete, The Orthodox Word, Vol. 19, nº 1 e 2, 1983, St. Herman of Alaska Brotherhood, Platina, CA, EUA.

28 de junho de 2010

A influência da mídia na vida espiritual


Há sessenta anos, São Silvano escreveu sobre os danos que os jornais e os livros populares causavam às pessoas. Imaginem o que São Silvano diria se ele ainda estivesse vivo. O mundo contemporâneo é notoriamente distinto do mundo em que São Silvano viveu. Na atual "era da informação" -- e certamente ainda mais no mundo de amanhã -- o fluxo constante das múltiplas formas midiáticas contribui intensamente para prejudicar a busca pela verdadeira oração. As formas modernas de "entretenimento" e os canais de notícias -- e mais ainda o mundo complexo e intrincado das telecomunicações, incluindo aí o papel cada vez maior desempenhado pelos computadores e o uso (e abuso) crescente da internet -- têm contribuído para deteriorar os fundamentos da vida espiritual, bem como para "despersonalizar" o homem e a sociedade contemporâneas. Até mesmo os cristãos mais bem-intencionados encontram-se infectados pelo desejo insaciável de informações frívolas, conhecimento fútil e "entretenimento" superficial. No fundo, a maior parte dessas atividades não apenas são inúteis para o bem-estar pessoal, mas, segundo São Silvano, desempenham um papel explicitamente negativo na vida espiritual.

* * *

Dr. Harry Boosalis, Orthodox Spiritual Life According to Saint Siloan the Athonite, St. Tikhon´s Seminary Press, 2000.

No pergaminho do ícone de São Silvano, o Atonita, acima, lê-se: "Rogo-Te, ó Senhor misericordioso, para que todos os povos da terra possam conhecer-Te pelo Teu Espírito Santo".

22 de junho de 2010

O simbolismo do análavos


O άνάλαβος [análavos] é o vestuário utilizado exclusivamente pelos monges e monjas tonsurados no mais alto grau do monasticismo cristão ortodoxo, que é o μεγάλο σχήμα [megalosquema], sendo ricamente adornado com os símbolos da Paixão do Cristo. A palavra “análavos” origina-se da palavra grega αναλαμβάνω [tomar, assumir], cujo objetivo é lembrar a quem utiliza tal vestuário para que “tome cada dia a sua cruz” (Lucas 9:23). As cruzes que adornam e cobrem o análavos são chamadas de polystavrion (πολυσταύριον, de πολύς, “muitas” e σταυρός, “cruz”), o que faz o monge se lembrar de que ele está “crucificado com Cristo” (Gálatas 2:20). Algumas pessoas chamam o análavos de polystavrion, embora seja uma prática um tanto imprecisa.

Analisemos as imagens retratadas no análavos. O galo representa o “o galo [que] cantou” (Mateus 26:69; Marcos 14:68; Lucas 22:60; João 18:27) após São Pedro ter “negado três vezes” (João 13:38) o Cristo que lamentara sobre Jerusalém: “Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!” (Mateus 23:37).

A pilastra representa a coluna a qual Pilatos atou e "açoitou" (Marcos 15:15) o Cristo, por cujas “pisaduras fomos sarados” (Isaías 53:5; I Pedro 2:22).

A coroa que orna a cruz representa a “coroa de espinhos” (Mateus 27:29; Marcos 15:17; João 19:25) que “os soldados teceram” (João 19:2) e “puseram-lha na cabeça” (Mateus 27:29) do “Deus nosso Rei desde a antiguidade” (Salmo 73:12), que é o Cristo que libertou o homem de ter de pelejar contra “espinhos...e cardos...no suor do... [seu]... rosto” (Gênesis 3:18-19).

A trave vertical e a trave horizontal representam os suportes e o patíbulo que formam “a Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 6:14), da qual “todo o dia...[Ele] estendeu... [Suas] mãos a um povo rebelde e contradizente” (Isaías 65:2; Romanos 10:21).

As quatro estacas localizadas no centro da Cruz e o martelo abaixo da base da Cruz representam os “cravos” (João 20:25) e o martelo com o qual “eles traspassaram” (Salmo 21:16; João 19:37) “Suas mãos e Seus pés” (Lucas 24:40), quando eles “levantaram da terra” (João 12:32) o Cristo que “riscou a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária... cravando-a na Sua Cruz” (Colossenses 2:14).

A base sobre a qual a Cruz se sustenta representa “o lugar chamado Calvário [a Caveira]” (Lucas 23:33) ou “Gólgota, que se diz o Lugar da Caveira” (Mateus 27:33) “onde crucificaram” (João 19:18) o Cristo que “operou a salvação no meio da terra” (Salmo 73:13).

A caveira e os ossos cruzados representam “o primeiro homem Adão” (I Coríntios 15:45), o qual, segundo a tradição, “tornou à terra” (Gênesis 3:19) neste mesmo lugar, razão pela qual este local de execução, “cheios de ossos de mortos” (Mateus 23:27), tornou-se o local onde “o último Adão foi feito em espírito vivificante” (I Coríntios 15:45).

A placa no topo da Cruz representa o “título” (João 19:19-20), na qual “estava escrita a Sua acusação” (Marcos 15:26) que “Pilatos escreveu” (João 19:19) “por cima de Sua cabeça” (Mateus 27:37); porém, ao invés de “Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus” (João 19:19), o qual “estava escrito em letras gregas, romanas e hebraicas” (Lucas 23:38) – as três línguas são uma alusão às Três Hipóstases “do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19) –, o título do análavos contém a inscrição “O Rei da Glória” (Salmo 23:7-10), “porque, se conhecessem [a sabedoria de Deus], nunca crucificariam ao Senhor da glória” (I Coríntios 2:8).

A cana representa o “hissope” (João 19:29) no qual colocou-se “uma esponja embebida em vinagre” (Marcos 15:36) e que “lhe chegaram à boca” (João 19:29), quando em Sua “sede deram [a Ele] a beber vinagre” (Salmo 68:21), o mesmo Cristo do qual “todos...se maravilhavam das palavras de graça que saíam da Sua boca” (Lucas 4:22).

A flecha representa a “lança [que] lhe furou o lado”; “e logo saiu sangue e água” (João 19:34) do Cristo que “tomou uma das costelas [de Adão], e cerrou a carne em seu lugar” (Gênesis 2:21) e que “em Seu sangue nos lavou dos nossos pecados” (Apocalipse 1:5).

A pequena trave na parte inferior da Cruz representa o suporte dos pés do Cristo, “o escabelo de Seus pés” (Salmo 98:5). A trave está inclinada porque, segundo a tradição, no momento em que “Jesus, dando um grande brado, expirou” (Marcos 15:37), Ele permitiu que esse espasmo mortal e violento convulsionasse Suas pernas, deslocando o escabelo de tal forma que uma das pontas ficasse voltada para cima, indicando que a alma do ladrão penitente, São Dimas, o que estava “à sua direita” (Marcos 15:27), seria “elevada ao céu” (Lucas 24:51), enquanto a outra ponta ficasse voltada para baixo, indicando que a alma do ladrão impenitente, Gestas, “à sua esquerda” (Marcos 15:27) seria “abatida até o hades” (Lucas 10:15), mostrando a nós todos que os “maus e bons...os justos e injustos” (Mateus 5:45) “são pesados na balança” (Eclesiástico 21:25) da Cruz do Cristo.

A escada e a pinça que se encontra abaixo da base da Cruz representam os meios de deposição pelos quais São José de Arimatéia, o “homem rico” (Mateus 27:57) que “pediu o corpo de Jesus” (Mateus 27:58; Lucas 23:52), “o tirou” (Lucas 23:53), pois assim como em corpo Ele desceu da Cruz, assim também em alma “tinha descido às partes mais baixas da terra” (Efésios 4:9), “no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão” (I Pedro 3:17).

Por meio de todos estes instrumentos, “a Cruz do Cristo” (I Coríntios 1:17; Gálatas 6:12; Filipenses 3:18) tornou-se a “Árvore da Vida” (Gênesis 2:9; 3:22, 24; Provérbios 3:18; 11:30; 13:12; 15:4; Apocalipse 2:7; 22:2, 14), pela qual o Senhor Jesus concretizou Suas palavras de que “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em Mim, nunca morrerá”. (João 11:25-26).


As letras gregas que se encontram por quase todo o análavos são abreviaturas de frases que exaltam a Cruz como “o poder de Deus” (I Coríntios 1:18). De cima para baixo, eis o que significam algumas expressões:

ΟΒΤΔ – Ό Βασιλεύς της Δόξης – O Rei da Glória

ΙC XC NIKΑ – Ιησούς Χριστός νικά – Jesus Cristo vence

ΤΤΔΦ – Τετιμημένον τρόπαιον δαιμόνων φρίκη – Honorável Troféu, o temor dos demônios

ΡΡΔΡ – Ρητορικοτέρα ρητόρων δακρύων ροή – Torrente de lágrimas mais eloqüente do que orações

ΧΧΧΧ – Χριστός Χριστιανοίς Χαρίζει Χάριν – Cristo concede a graça aos cristãos

ξΓΘΗ – Ξύλου γεύσις θάνατον ηγαγεν – A experimentação do madeiro engendrada pela morte

CξζE – Σταυρού Ξύλω ζωήν εύρομεν – Através da Árvore da Cruz encontramos a vida

EEEE – Ελένης εύρημα εύρηκεν Εδέμ – A descoberta de Helena revelou o Éden

ΦΧΦΠ – Φως Χριστού φαίνοι πάσι – A luz do Cristo brilha a todos

ΘΘΘΘ – Θεού Θέα Θείον Θαύμα – Visão de Deus, maravilha divina

ΤCΔΦ – Τύπον Σταυρού δαίμονες φρίττουσιν – Os demônios temem o sinal da Cruz

ΑΔΑΜ – Αδάμ – Adão

ΤΚΠΓ – Τόπος Κρανίου Παράδεισος γέγονε – O lugar da caveira tornou-se o Paraíso

ξζ – Ξύλον Ζωής – Árvore da Vida

O análavos possui outros itens e abreviaturas, mas as imagens acima descritas bastam para demonstrar que este santo vestuário proclama em silêncio “o Logos da Cruz” (I Coríntios 1:18) através de seu simbolismo místico, declarando àqueles que o portam: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gálatas 6:14).

Fonte: Hieromonge Gregório, Mosteiro de São Gregório Palamás

21 de junho de 2010

Uma tentativa de resumir a teologia trinitária


1. Há um Deus, o Pai, um Senhor, Jesus Cristo, e um Espírito Santo. O Pai é a fonte da divindade: o Filho é eternamente (mas não temporalmente) gerado do Pai e o Espírito Santo procede eternamente (mas não temporalmente) do Pai. Somos levados pelo Espírito Santo a conhecer o Filho, que mostra-nos o Pai.

2. Pai, Filho e Espírito Santo são essencialmente um e inomináveis, mas são hipostaticamente distintos e nomeáveis: o Pai é ingênito, o Filho é o unigênito do Pai e o Espírito Santo procede do Pai. Essência (ousia) refere-se àquilo que lhes é comum (e que na divindade só pode ser abordado apofaticamente) e hipóstase refere-se às características particularizantes.

3. A unidade de Pai, Filho e Espírito Santo pode ser expressa em termos de comunhão, co-inerência mútua e atividade, vontade ou energia comum.

Conclui-se que:

1. Há um Deus porque há um Pai.

2. A fonte da unidade da Trindade é o Pai, e não a essência compartilhada..

3. A unidade se expressa na cooperação do Filho e do Espírito Santo com o Pai, e não na essência compartilhada (consubstancialidade).

Lembre-se:

1. Seja preciso com os termos que empregar. Não é correto afirmar que “Deus é Trindade” ou que “Deus é um em três e três em um”, nem é correto aludir a um “Deus Triuno”. Os autores do Novo Testamento, os Padres e os compiladores dos livros litúrgicos não usavam essas expressões e, portanto, você também não deve usá-las. Porém, é lícito referir-se à “Divindade Triuna”.

2. A “monarquia” do Pai significa que Ele é a fonte única do Filho e do Espírito Santo, mas não que Ele seja “Rei” da Trindade.

3. Embora haja um Deus e Pai, isso não significa que o Filho e o Espírito Santo sejam menos divinos. Pai, Filho e Espírito Santo são igualmente divinos; eles são divinos com a mesma divindade plena do Pai. Jesus Cristo é o Filho de Deus, ou seja, Ele é tudo o que o Pai é, sem ser o Pai. Conseqüentemente, afirmamos que Cristo é Deus e, portanto, confessamos que a Virgem Maria é verdadeiramente a Theotokos (Mãe de Deus), que não é mãe da divindade, mas mãe do Deus Verbo encarnado. Similarmente, dado que a encarnação de Cristo deificou a carne e santificou a matéria, veneramos imagens materiais (por exemplo: ícones, cruz, Evangelho, relíquias).

4. O ponto de partida para refletirmos acerca da Trindade não deve ser um quebra-cabeça metafísico sobre um em três e três e um, mas o Jesus Cristo pregado pelos apóstolos, segundo as Escrituras. As obras teológicas dos Padres fornecem a gramática pela qual os dados bíblicos devem ser interpretados; a terminologia empregada pelos Padres é o guia exegético primordial para se interpretar a Escritura. No entanto, a linguagem teológica é incapaz de descrever a essência mesma de Deus. Ademais, a essência divina é incognoscível, mas é revelada e comunicada a nós mediante Suas energias divinas, pelas quais somos deificados. Embora façamos a distinção entre essência e energia, isso não significa que sejam duas “partes” de Deus.


Foto: Catedral da Santíssima Trindade da Igreja Ortodoxa Georgiana, Tbilisi, Geórgia

16 de junho de 2010

O que é gestão empresarial?


Nota introdutória: Ludwig von Mises explica que a gestão empresarial não deve ser confundida com a função empresarial. Em outras palavras, as atividades típicas da gestão empresarial, sejam elas administrativas, comerciais, tecnológicas ou financeiras, não são do mesmo tipo que a atividade empresarial. Essa confusão engendrou-se a partir da crescente regulamentação do mercado, pois ela torna praticamente inútil a perspicácia e a vivacidade típicas da mentalidade empresarial. Isso acontence porque a regulamentação, desfavorecendo a concorrência, desfavorece também a busca pela satisfação do consumidor, o que transforma as gestões lucrativas em gestões burocráticas. A diferença entre o empresário e seus diretores é de tipo, e não de grau.

* * *

Os empresários não são onipresentes, ou seja, eles não podem executar por conta própria as múltiplas tarefas que lhes são incumbidas.

O cálculo econômico, tal como é praticado na economia de mercado, e especialmente o sistema contábil de partidas dobradas, liberta o empresário de ter de se envolver com uma quantidade enorme de pequenos detalhes, permitindo-lhe dar maior atenção às grandes tarefas sem precisar enredar-se numa miríade de pequenas questões cujo entendimento supera a capacidade de qualquer mortal.

Pode, assim, designar assistentes a quem encarrega de zelar por tarefas empresariais de menor importância. E esses assistentes, por sua vez, seguindo o mesmo princípio, podem ser ajudados por outros colaboradores, que zelarão por tarefas de importância ainda menor. Desta forma, estrutura-se toda uma hierarquia gerencial.

Um gerente é, por assim dizer, um sócio menor do empresário, a despeito dos termos legais e financeiros de seu contrato. O único aspecto relevante reside no fato de o gerente ser obrigado, pelo seu próprio interesse financeiro, a empregar o melhor de seus esforços na realização das funções empresariais que lhe são atribuídas num campo de ação limitado e definido com precisão.

É o sistema contábil de partidas dobradas que torna possível o funcionamento do sistema gerencial. Graças a esse sistema contábil, o empresário tem condições de separar o cálculo de cada setor da empresa de maneira a poder determinar sua participação na empresa como um todo.

Nesse sistema de contabilidade comercial, cada departamento de uma empresa representa uma entidade completa, como se fosse uma unidade de negócio independente. Supõe-se que cada departamento “possua” uma determinada parte do capital da empresa, que compre e venda a outros departamentos, que tenha suas próprias receitas e despesas, que seus procedimentos resultem em lucro ou prejuízo imputável à sua própria direção independentemente do resultado das outras seções. Desta forma, o empresário pode atribuir à gerência de cada departamento uma grande margem de autonomia. A única recomendação que faz a alguém encarregado de dirigir um serviço específico é a de que, em sua gestão, realize o maior lucro possível.

Um exame contábil mostrará em que medida os gerentes foram bem sucedidos na realização desse objetivo. Todo gerente e subgerente é responsável pelo bom funcionamento de seu departamento ou seção. Se a contabilidade mostra um lucro, este fato será considerado a seu favor; e se apresenta um prejuízo, será em seu detrimento. Seu próprio interesse o impele a dedicar a maior atenção e empenho à condução do departamento sob sua responsabilidade. Se incorrer em perdas, será substituído por outra pessoa de quem o empresário espera uma melhor performance; ou então o departamento será desativado. De qualquer forma, o gerente perderá seu emprego. Se conseguir realizar lucros, sua renda aumentará ou, pelo menos, não corre o risco de perdê-la. Se o gerente tem ou não direito a uma parte do lucro atribuído ao seu departamento, é questão de menor importância no que concerne ao seu interesse pessoal nos resultados da operação do departamento que dirige. Seu bem-estar está intimamente ligado ao bom funcionamento de seu departamento. Sua tarefa não é, como a do técnico, a de realizar um determinado trabalho de acordo com as instruções recebidas. É ajustar – nos limites deixados ao seu discernimento – o funcionamento de seu departamento à realidade do mercado.

Naturalmente, da mesma forma que um empresário pode combinar na sua própria pessoa funções de empresário e de técnico, a união de várias funções também pode ocorrer no caso de um gerente. A gestão empresarial é sempre subordinada à função empresarial. Pode aliviar o empresário de algumas de suas responsabilidades menores; nunca poderá evoluir a ponto de substituir a função empresarial. Afirmar o contrário é confundir a categoria de atividade empresarial, tal como definida na construção imaginária da distribuição funcional, com aquilo que se passa no mundo real de uma economia de mercado. A função do empresário não pode ser dissociada da decisão sobre qual utilização deve ser dada aos fatores de produção para execução de tarefas específicas. O empresário controla os fatores de produção; é esse controle que lhe proporciona lucro ou prejuízo empresarial. É possível remunerar o gerente pagando por seus serviços proporcionalmente à contribuição de seu departamento ao lucro do empresário. Mas isso não é importante. Como já foi salientado antes, o gerente está sempre interessado no sucesso do departamento sob sua responsabilidade. Mas o gerente não pode ser responsabilizado patrimonialmente pelas perdas incorridas. Essas perdas são suportadas pelos proprietários do capital empregado. Elas não podem ser transferidas para o gerente.

A sociedade pode, tranquilamente, deixar aos proprietários de bens de capital a tarefa de escolher o melhor emprego possível para esses bens. Ao se engajarem em projetos específicos, estes proprietários colocam em risco seus bens, sua riqueza e sua posição social. Estão mais interessados no sucesso de sua atividade empresarial do que a sociedade como um todo. Para a sociedade como um todo, o desperdício de capital investido num determinado projeto significa apenas a perda de uma pequena parte de seus recursos totais; para o proprietário, significa muito mais, podendo chegar a representar a perda total de sua fortuna. Quando se dá carta branca ao gerente, as coisas se passam de maneira diferente; ao especular, ele estará arriscando o dinheiro de outras pessoas. Ele não avalia as possibilidades de um projeto arriscado do mesmo ângulo de quem é responsável pelos prejuízos. O gerente se torna imprudente precisamente quando é remunerado por uma parte dos lucros sem participar igualmente dos prejuízos.

A ilusão de que a gestão empresarial possa abranger a totalidade da atividade empresarial e de que o gerente possa ser um perfeito substituto do empresário é resultado de uma interpretação equivocada do que sejam as sociedades anônimas, entidades mercantis típicas dos negócios de nossos dias. Assevera-se que estas sociedades são dirigidas por gerentes assalariados, enquanto os acionistas são meros espectadores passivos Todos os poderes se acham concentrados nas mãos de empregados contratados. Os acionistas são ociosos e inúteis; colhem o que os gerentes semearam.

Essa doutrina desconsidera inteiramente o papel que o mercado de capitais e de divisas, a bolsa de valores e de ações – aquilo que numa linguagem pertinente denomina-se simplesmente de “mercado” – desempenha na direção das empresas. As operações neste mercado, em virtude de preconceitos populares anticapitalistas, são rotuladas de jogo de azar, de mera loteria. De fato, as mudanças nos preços das ações ordinárias e preferenciais e dos demais valores mobiliários são o meio utilizado pelos capitalistas para controlar o fluxo de capital. A estrutura de preços resultante das especulações nos mercados de capital e de divisas e nas grandes bolsas de mercadorias não apenas determina o volume de capital disponível para a condução dos negócios de cada companhia; cria, além disso, um estado de coisas ao qual os gerentes têm que se ajustar cuidadosamente.

A direção geral de uma companhia é exercida pelos acionistas [stockholders] e seus mandatários eleitos, os diretores. Os diretores indicam e demitem os gerentes. Nas companhias menores, e às vezes até mesmo nas grandes, as funções de diretor e gerente estão reunidas na mesma pessoa. Em última instância, uma companhia bem-sucedida nunca é controlada por gerentes assalariados. A emergência de uma classe gerencial onipotente não é um fenômeno do livre funcionamento do mercado. Muito pelo contrário, decorre de políticas intervencionistas que visam conscientemente a eliminação da influência dos acionistas e virtualmente a expropriação deles. [Mises critica a tendência contemporânea de confundir gestão empresarial com função empresarial. Isso ocorre porque, quando o mercado se torna muito regulamentado, a função empresarial perde sentido e os gerentes e diretores acabam se tornando “onipotentes” – N. do T.].

Na Alemanha, Itália e Áustria, foi o passo preliminar para a substituição da livre empresa pelo dirigismo estatal; o mesmo ocorreu na Inglaterra, no que se refere ao Banco da Inglaterra e às ferrovias. Tendências semelhantes predominam nos Estados Unidos em relação aos serviços públicos. As magníficas realizações das empresas comerciais e industriais não resultaram da atividade de uma oligarquia de gerentes assalariados; foram engendradas por pessoas que estavam ligadas à companhia pela propriedade de uma parte considerável, ou da maior parte, das ações, pessoas essas que uma parcela do público considera como aproveitadores e tubarões.

É o empresário que decide, independentemente de qualquer interferência gerencial, em que ramo de atividade deve aplicar capital e qual a quantidade de capital a empregar. É ele que determina a expansão e a contração do tamanho do seu negócio e das suas principais seções. É ele que determina a estrutura financeira da empresa. Essas são as decisões essenciais e basilares na implantação e condução de um negócio. Tanto nas sociedades anônimas como em qualquer outra forma legal de empresa essas decisões recaem exclusivamente sobre o empresário. Qualquer assessoramento dado ao empresário neste particular é apenas de caráter subsidiário; os especialistas em direito, estatísticas e tecnologia fornecem informações de como transcorreram as coisas no passado, mas a decisão final que implica sempre um julgamento quanto ao futuro estado do mercado cabe exclusivamente ao empresário. A execução dos detalhes dos seus projetos pode ser confiada aos gerentes.

As funções sociais da elite gerencial não são menos indispensáveis ao funcionamento da economia de mercado do que as funções da elite de inventores, técnicos, engenheiros, projetistas, cientistas e pesquisadores. Na classe dos gerentes, muitos homens eminentes servem à causa do progresso econômico. Gerentes competentes recebem altos salários e, freqüentemente, uma participação nos lucros totais da empresa. Muitos deles, no decurso de suas carreiras, acabam sendo, eles mesmos, capitalistas e empresários. Não obstante, a gestão empresarial é diferente da função empresarial.

Constitui um erro grave confundir o papel do empresário com o do gerente, como se faz na antítese popular “patrão/empregado”. Essa confusão é, evidentemente, intencional. Destina-se a obscurecer o fato de que a função empresarial é completamente diferente da gestão empresarial, responsável apenas por questões secundárias na condução da empresa. Considerando-se a estrutura dos negócios, a alocação de capital aos vários setores de produção e às várias empresas, o tamanho e a linha de produção de cada fábrica e de cada estabelecimento comercial como fatos dados, e ficando implícito que nenhuma mudança ocorrerá no futuro em relação aos mesmos, tudo o que se tem a fazer é cumprir as velhas rotinas. Nesse mundo hipoteticamente estacionário não há, evidentemente, necessidade de inovadores e empreendedores; o total de lucro é contrabalanceado pelo total de prejuízo. Para evidenciar a falácia dessa doutrina, basta comparar a estrutura da economia americana em 1945 com a de 1915.

Mas, mesmo num mundo estacionário, não teria sentido dar ao “trabalho”, como pretende um slogan popular, uma participação na gestão empresarial. A adoção dessa idéia resultaria no sindicalismo.

Existe também uma propensão para confundir gerente com burocrata.

A gestão burocrática, diferentemente da gestão lucrativa, é o método usado na condução dos assuntos administrativos, cujos efeitos não têm valor em dinheiro no mercado. O bom desempenho no cumprimento dos deveres confiados a um departamento de polícia é da maior importância para a preservação da cooperação social e beneficia todos os membros da sociedade. Mas não tem preço no mercado; não pode ser vendida nem comparada. Assim sendo, não se pode confrontar o resultado obtido com as despesas incorridas. É benéfica, resulta em ganhos, mas esses ganhos não podem ser expressos em termos monetários, como é o caso dos lucros. Os métodos de cálculo econômico e, especialmente, a contabilidade de partidas dobradas não lhe são aplicáveis. O sucesso ou o fracasso das atividades de um departamento de polícia não pode ser apurado pelos procedimentos aritméticos utilizados pelas atividades com fins lucrativos. Nenhum contador pode informar se um departamento de polícia ou uma de suas subdivisões é rentável ou não.

A quantia a ser investida em cada setor de atividade econômica que tem no lucro a sua motivação é determinada pelo comportamento dos consumidores. Se a indústria automobilística triplicasse o seu capital investido, certamente prestaria melhores serviços ao público. Haveria maior disponibilidade de carros. Mas essa expansão da indústria automobilística impediria que esse capital fosse investido em outros setores de produção nos quais atenderia a necessidades mais urgentes dos consumidores. Este fato tornaria improfícua a expansão da indústria automobilística e aumentaria os lucros em outros setores de produção. No seu afã para obter o maior lucro possível, os empresários são obrigados a alocar a cada setor de atividade somente aquela quantidade de capital que pode ser empregada sem comprometer a satisfação dos desejos mais urgentes dos consumidores. Desta forma, as atividades empresariais são, por assim dizer, automaticamente dirigidas pelos desejos dos consumidores conforme refletidos na estrutura de preços dos bens de consumo.

A alocação de fundos para a realização das tarefas incumbidas ao governo não sofre esse tipo de limitação. Não resta a menor dúvida de que os serviços prestados pelo departamento de polícia da cidade de Nova York poderiam ser consideravelmente melhorados se sua dotação orçamentária fosse triplicada. Mas a questão está em saber se esse melhoramento seria suficiente para justificar a diminuição dos serviços prestados por outro departamento – por exemplo, os do departamento de saneamento básico – ou a restrição do consumo dos contribuintes. Esta questão não pode ser respondida pela contabilidade do departamento de polícia. Este só tem condições de informar sobre as despesas incorridas; não tem como fornecer nenhuma informação acerca dos resultados obtidos, uma vez que esses resultados não podem ser expressos em termos monetários. Os cidadãos devem determinar diretamente o volume de serviços que desejam receber e pelos quais estão dispostos a pagar. Desincumbem-se dessa tarefa ao elegerem vereadores e governantes que estejam dispostos a agir de acordo com os desejos dos eleitores.

Assim, o prefeito e os vários secretários são limitados pelo orçamento do município. Não podem agir discricionariamente, fazendo o que consideram a melhor solução para os vários problemas que os cidadãos têm de enfrentar. São obrigados a gastar os recursos segundo as alocações feitas no orçamento. Não podem usá-los para outros fins. A auditoria no campo da administração pública é inteiramente diferente daquela que é feita nas empresas que visam ao lucro. Seu objetivo é verificar se os fundos alocados foram gastos em estrita conformidade com as provisões do orçamento.

Nos negócios com objetivo de lucro, a liberdade de ação dos gerentes e subgerentes é limitada por considerações de lucro e prejuízo. A motivação pelo lucro é a diretriz necessária e suficiente para submetê-los aos desejos dos consumidores. Não há necessidade de limitar sua liberdade de ação por instruções detalhadas e minuciosas. Se forem eficientes, essa ingerência seria no mínimo supérflua, senão perniciosa por lhes atar as mãos. Se forem ineficientes, ela não contribuiria para melhorar o seu desempenho. Tal ingerência somente lhes proporcionaria a desculpa pouco convincente de que seu fracasso foi causado por regulamentos inadequados. A única instrução necessária é evidente em si mesma e nem precisa ser explicitada: lucre.

Na administração pública, na condução dos negócios do governo, as coisas são diferentes. Neste campo, a liberdade de ação dos governantes e de seus auxiliares não é limitada por considerações de lucro e prejuízo. Se seu chefe supremo – seja ele o povo soberano ou um déspota soberano – deixar-lhes as mãos livres, estará renunciando à sua própria soberania. Esses governantes se converteriam em agentes que não precisariam prestar contas a ninguém e seu poder suplantaria o do povo ou o do déspota. Fariam o que quisessem e não o que seu chefe esperava que fizessem. Para evitar esse resultado e para submetê-los à vontade do chefe, é necessário dar-lhes instruções detalhadas de como devem proceder em cada caso. Ficam assim obrigados a cuidar de suas tarefas, obedecendo estritamente a essas regras e regulamentos. Sua liberdade para ajustar seus atos ao que lhes parece a solução mais apropriada de um problema concreto é limitada por essas normas. São burocratas, isto é, pessoas que em qualquer circunstância devem observar um conjunto de regras inflexíveis.

A gestão burocrática é uma conduta fadada a cumprir regras e regulamentos detalhados, fixados por uma autoridade superior. É a única alternativa à gestão lucrativa. A gestão lucrativa é inaplicável quando lidamos com objetivos que não têm valor de mercado expresso em termos de moeda ou quando queremos conduzir sem objetivo de lucro uma atividade que poderia ser conduzida com base nessa motivação. O primeiro caso é o da administração do aparato social de coerção e compulsão; o segundo caso é o da direção de uma instituição sem fins lucrativos, como por exemplo, uma escola, um hospital ou uma empresa de correios. Sempre que a gestão de um sistema não seja orientada pela motivação do lucro, terá que ser dirigida por regras burocráticas.

A gestão burocrática não é, em si mesma, um mal. É o único método apropriado para administrar o poder público, isto é, o aparato social de compulsão e coerção. Como o governo é necessário, a burocracia – na esfera do governo – também é necessária. Onde o cálculo econômico não é aplicável, os métodos burocráticos são a única alternativa. Por isso, um governo socialista deve aplicá-los a todos os seus campos de ação.

Nenhum negócio, qualquer que seja seu tamanho ou seu propósito, jamais se tornará burocrático enquanto for gerido, pura e exclusivamente, com base na motivação do lucro. Mas quando abandona a motivação do lucro, trocando-a pela idéia de prestação de serviço – isto é, o princípio segundo o qual os serviços devem ser prestados sem que se considere que os preços cobrados sejam suficientes para cobrir os custos –, deve também substituir a gestão empresarial pelos métodos burocráticos.

[...]

A educação é a transmissão de doutrinas e valores tradicionais; ela é, por natureza, uma atividade conservadora, pois produz imitação e rotina, e não melhoria e progresso. Os grandes inovadores e os gênios criativos jamais são forjados em escolas. Eles são precisamente as pessoas que desafiam o que as escolas lhes ensinam. Para ser bem-sucedido nos negócios, ninguém precisa de diplomas de administração de empresas. Essas escolas treinam os subordinados para que executem as tarefas rotineiras. As escolas nunca formam empreendedores. Não se treina um empreendedor. As pessoas se tornam empreendedoras quando agarram uma oportunidade e preenchem o vazio que ali se encontrava. Nenhuma educação transmite o julgamento fino, a perspicácia e a energia necessários para tal. A grande maioria dos empresários bem-sucedidos são pessoas incultas, se levarmos em conta os padrões culturais exigidos para a carreira educacional.

Ludwig von Mises, Human Action, pág. 300-311 (adaptado da tradução do Instituto Liberal, pág. 304-312). Disponível como artigo aqui.

Pe. John Behr explica a Trindade


Há aproximadamente 30 anos, Karl Rahner dizia que a maioria dos cristãos “era apenas monoteísta”, e que se a doutrina da Trindade fosse refutada, a maior parte da literatura popular cristã e a mentalidade que ela reflete não precisaria ser corrigida em nada. Infelizmente, esse quadro continua praticamente inalterado até hoje.

Definir a doutrina da Trindade como um mistério que não pode ser perscrutado pela razão humana acarreta em posturas como a de Melanchton: “Adoramos os mistérios da Divindade. É melhor do que investigá-los”. Porém, o risco de não refletirmos detidamente acerca do que nos foi revelado e da forma como nos foi revelado é de que permaneçamos cegos em função de nossos falsos deuses e ídolos, por melhor que tenham sido teologicamente construídos.

Ora, como é possível que os cristãos creiam e adorem o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e que insistam que há somente um Deus, e não três? Como é possível conciliar o monoteísmo com a fé trinitária?

Os comentários que farei a seguir seguem a estrutura da revelação conforme apresentada nas Escrituras e refletida pelos Padres gregos do século IV, que foi a grande época dos debates trinitários. Para que se evitem as confusões que as explicações trinitárias costumam suscitar, é importante que se faça a devida distinção entre (1) o Deus único, (2) a substância única comum ao Pai, Filho e Espírito Santo e (3) a uni-cidade ou unidade desses Três.

Somente o Pai é o único e verdadeiro Deus. Essa afirmação está de acordo com a estrutura lingüística do Novo Testamento acerca de Deus, na qual, com poucas exceções, a palavra “Deus” (theos) com artigo (portanto, um nome próprio em grego) aplica-se somente àquele a quem Jesus chama de Pai, o Deus do qual se fala nas Escrituras. Este fato está bem preservado nos antigos credos, que sempre começam assim: “Creio em um só Deus, o Pai...”.

Para nós há um só Deus, o Pai...e um só Senhor, Jesus Cristo (I Coríntios 8:6). A proclamação da divindade de Jesus Cristo não é anunciada chamando-o de “Deus” (theos, sem artigo, em grego, torna-se um predicado, que pode ser atribuído a criaturas; cf. João 10:34-35), mas reconhecendo-o como o “Senhor” (Kyrios). Além de pronome de tratamento (“senhor”), essa palavra começou a ser usada para designar o nome impronunciável e divino do próprio Deus, YHWH. Quando Paulo afirma que Deus concedeu ao Cristo crucificado e ressuscitado o nome que é sobre todo o nome (Filipenses 2:9), isso significa que este Cristo é tudo o que o próprio YHWH é, sem ser YHWH. Novamente, verificamos esse fato nos credos: “E em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus...Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”.

Segundo o credo niceno, o Filho é “consubstancial ao Pai”. Santo Atanásio, que foi o Padre que mais contribuiu para a elaboração da ortodoxia nicena, disse: “O que é dito sobre o Pai na Escritura também é dito sobre o Filho, salvo Seu ser, que não é chamado de Pai” (Dos Sínodos 49). É importante notar que essa teologia segue à risca a idéia da total alteridade de Deus em relação às criaturas: as doutrinas servem para modular a linguagem teológica, e não para reduzir Deus a um ser entre outros seres. É importante notar também a assimetria essencial da relação entre o Pai e o Filho: o Filho deriva do Pai; Ele é, segundo o credo niceno, “da essência do Pai” – eles não derivam de uma fonte em comum. A esse fato chamamos de Monarquia do Pai.

Santo Atanásio começou a aplicar o mesmo argumento usado na defesa da divindade do Filho para defender a divindade do Espírito Santo; assim como o Filho tem de ser totalmente divino, pois somente Deus pode salvar, assim também o Espírito Santo tem de ser divino, pois Ele dá vida aos sepultados. Novamente, há aqui uma assimetria, que encontra sua contraparte na Escritura: recebemos o Espírito dAquele que ressuscitou Jesus dos mortos como sendo o Espírito de Cristo, aquele que permite que chamemos Deus de Abba. Embora recebamos o Espírito mediante Cristo, o Espírito procede somente do Pai, mesmo que isso implique na existência do Filho e, portanto, que o Espírito proceda do Pai já em relação com o Filho (cf. São Gregório de Nissa, A Ablábio: De que não há três Deuses).

Portanto, há somente um Deus, o Pai, um Senhor, Jesus Cristo, e um Espírito Santo, três “pessoas” (hypostases), que são a mesma ou uma em essência (ousiai); três pessoas igualmente Deus, que possuem as mesmas propriedades naturais; assim como são realmente Deus e possuem as mesmas propriedades naturais, assim também são realmente distintas e possuem suas próprias características pessoais. Além de serem uma em essência, essas três pessoas também existem em total uni-cidade ou unidade.

Os Padres gregos utilizaram três maneiras para caracterizar e descrever essa unidade. A primeira é em termos de comunhão: “A unidade [dos três] reside na comunhão da Divindade”, ensinou São Basílio, o Grande (Do Espírito Santo 45). A ênfase dada à comunhão serve para impedir que as tendências em enxergar as três pessoas como diferentes manifestações de uma mesma natureza aflorem; se elas fossem meros modos distintos do mesmo Deus, então o ato de comunhão não seria possível. Outra maneira similar de se expressar a unidade divina é em termos de “co-inerência” (perichoresis): Pai, Filho e Espírito Santo residem um no outro, de maneira totalmente transparente e mutuamente interpenetrada. Essa idéia obviamente origina-se nas palavras de Cristo expressas no Evangelho de João: Estou no Pai, e o Pai em mim (14:11). Já que o Pai reside nEle, o Cristo que nos revela o Pai é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1:15).

A terceira maneira na qual a total unidade de Pai, Filho e Espírito Santo pode ser expressa é mediante a unidade de operação ou atividade. Diferentemente de três seres humanos, que, na melhor das hipóteses, cooperam entre si, a atividade de Pai, Filho e Espírito Santo é uma. Deus opera, segundo a imagem de Santo Irineu, com Suas duas mãos, o Filho e o Espírito. Mais importante ainda, “a obra de Deus”, segundo Santo Irineu, “é a criação do homem” à imagem e semelhança de Deus (Contra os Hereges 5.15.2), que engloba de maneira inseparável a criação e a salvação, pois ela é realizável somente pelo Crucificado e Ressuscitado: a vontade do Pai é efetivada pelo Filho no Espírito.

Eis, pois, como os Padres gregos, fiéis à Escritura, sustentam que há um só Deus, cujo Filho e Espírito são igualmente Deus em unidade de essência e existência, sem comprometer a singularidade deste Deus único e verdadeiro.

O dilema obviamente permanece. A resposta a esse dilema aponta para duas direções distintas. A reflexão teológica é inicialmente uma tentativa de responder à pergunta nuclear colocada pelo próprio Cristo: E vós, quem dizeis que eu sou? (Mateus 16:15). Por outro lado, a pergunta também indica o destino para o qual somos chamados, o destino glorioso daqueles que sofrem com Cristo, para sermos conformes à imagem de seu Filho, o primogênito entre muitos irmãos (Romanos 8:29). O que Cristo é como primogênito, nós também poderemos desfrutar nEle, se também entrarmos em comunhão de amor: E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um (João 17:22).