11 de outubro de 2012

Os logoi das coisas criadas



Hieromonge Damascene Christensen

O Caminho cria, mas não exige nada para si ...
Controla, mas sem compulsão.
(Tao Te Ching, cap. 51 – tradução da versão de Gi-ming Shien).

Segundo a teologia mística cristã, o Criador-Logos implantou em cada coisa criada seu próprio logos, seu próprio princípio ou essência interior, aquilo que faz a coisa ser o que propriamente é e que ao mesmo tempo direciona essa coisa a seu fim próprio, isto é, a Deus. O Criador-Logos, trazendo tudo à unidade, faz do universo um “cosmos” integrado e harmonioso. Ele atrai todos as coisas a Si (cf. João 12:32), embora domine sem compulsão, direcionando cada coisa naturalmente, segundo seu próprio logos. Conforme ensina São Máximo, o Confessor, “a Origem e Causa dos seres criados tem, enquanto Verdade, conquistado todos as coisas naturalmente, atraindo suas atividades a Si”.

Enquanto seguidores do Criador-Logos, é nosso dever discernir e identificar o logos de todas as coisas. Se somos chamados ao comando de algo, devemos exercê-lo naturalmente, sem forçar, sem agir segundo as aparências ou opiniões, mas segundo a essência interior de cada coisa. Isso vale especialmente para a relação com outros seres humanos, os quais, a despeito de suas carapaças, possuem implantados em si este princípio interior que tende a Deus.

* * *

A doutrina de que o Cristo Logos é o Fim de todas as coisas é misteriosa e profunda. Conforme dissemos acima, todas as coisas criadas possuem seu logos, sua essência ou princípio interior. O logos de cada coisa é uma “ideia” de Deus, e é mediante o logos que a coisa passa a existir em um determinado tempo e lugar e de uma determinada forma, e é mediante o logos que ela se desenvolve. O logos é o ponto de contato da coisa com Deus, ao mesmo tempo em que é o fim ao qual ela tende. Deus introduziu nas criaturas o amor que as faz tender a Si, atraindo-as para sua realização.

As ideias ou logoi das coisas individuais estão contidas em ideias mais gerais ou superiores, como espécies contidas em um gênero. O todo, por sua vez, está contido no Criador-Logos, no Princípio Cósmico unificante. Portanto, quando buscamos penetrar nas essências ou princípios interiores (logoi ou “verbos”) das coisas criadas, somos ao cabo levados ao conhecimento do Verbo, da “causa operadora” e ao mesmo tempo Fim de todas as coisas.

O Logos é o Princípio de todas as coisas porque é dEle que fluem as emanações criativas, os logoi particulares das criaturas. Ele é o Fim de todas as coisas porque Ele é o centro para o qual todos os seres criados tendem. Eis o sentido místico por trás das palavras dEle: Eu sou o Alfa e o Omega, o Princípio e o Fim (Apocalipse 1:8).

Este entendimento ajuda a compreender a natureza da doutrina de Lao Tsé. Ao contemplar as essências interiores das coisas criadas e ao buscar penetrar-lhes em seu fim – seus logoi –, o Velho Sábio foi conduzido naturalmente ao conhecimento intuitivo do Logos. No capítulo 52 do Tao Te Ching lê-se:

Encontrada a mãe, conhecemos o filho;
Conhecendo o filho, observamos pois a mãe.
(Tradução da versão de Gi-ming Shien)

São Máximo, o Confessor, explica a coisa da seguinte forma: “Quem quer que não limite sua percepção da natureza das coisas visíveis ao que seus sentidos são capazes de observar, mas com seu espírito sabiamente busca a essência que reside no interior de cada criatura, encontrará também a Deus; pois da magnificência manifesta dos seres criados apreendemos quem é a Causa de seus princípios”.

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Quando Lao Tsé fala de retornar à Simplicidade primitiva, ele na verdade refere-se aos logoi das coisas criadas aproximando-se de seu Fim, do Logos simples e indivisível.

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Se a roda de trinta raios de Lao Tsé é uma metáfora do universo, então Cristo Tao ou Logos é o cubo da roda para onde os raios do universo convergem. Essa comparação corresponde ao ensinamento cristão de que o Logos é o centro ou ponto central ao qual todos os logoi das criaturas tendem. Situado no centro, Ele também é o ponto mais baixo.

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“O controle das paixões pela vontade é chamado de força”.
(Tao Te Ching, cap. 55 – tradução da versão de Gi-ming Shien)

Por meio do controle das paixões somos capazes de ter um insight das essências das coisas; por sua vez, esse insight nos ajuda a controlar as paixões. Tal foi a experiência de Lao Tsé, Sócrates e demais sábios pré-cristãos, e tal é a experiência dos seguidores do Caminho depois de se fazer carne. São Máximo, o Confessor, ensinava:

“Todo espírito arrebatado por Deus extirpa a energia das paixões bem como o turbilhão tosco de pensamentos. Além disso, conseguirá também cessar o uso indevido e desenfreado dos sentidos. Pois as paixões, levadas triunfalmente à sujeição ante as formas superiores de contemplação, serão destruídas pela visão sublime da natureza”.

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Quem quer que supere suas paixões, abreviando seu desejo pelas coisas criadas, conseguirá enxergar para além das realidades sensíveis e para dentro das essências interiores (logoi) das coisas, incluindo os seres humanos. “Somente a alma liberta das paixões”, ensina São Máximo, “é capaz de contemplar infalivelmente os seres criados”.

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O Pe. Seraphim [Rose] dizia que Adão, a primeiro criatura humana, encontrava-se em “estado de sobriedade: nepsis, em grego”. “Ele mirava as coisas e as enxergava como são. Não haviam ‘pensamentos duplos’” como os que temos “em nosso estado caído”, não havia isso de “olhar para uma coisa e imaginar outra”.

Por meio da graça do Cristo em Sua Igreja, os santos ortodoxos também eram capazes de retornar a esse estado pré-queda de sobriedade e vigilância. Eles possuíam consciência pura e aberta, mediante a qual apreendiam a natureza original do homem e as distintas naturezas das coisas criadas, e, para além delas, as “ideias” ou “pensamentos-vontades” (logoi) das coisas criadas que preexistem na Mente de Deus. Na teologia ortodoxa, os logoi são os princípios incriados das coisas criadas. Eles estão contidos no Logos (Verbo) e são separados das coisas criadas, assim como as ideias e vontades de um artesão estão separadas da obra nas quais se manifestam. Típicos das Energias de Deus, e não de Sua Essência, os logoi determinam as diferenças entre as coisas criadas, incluindo aí os diferentes modos segundo os quais as coisas participam nas Energias incriadas. Tudo na ordem da criação recebe sua existência segundo os logoi, e tudo tende a seu fim segundo esses mesmos logoi. Elevando-se à visão de Deus em Suas Energias, os santos também adquiriam o conhecimento dos logoi incriados. (Cf. Melchisedec Törönen, Union and Distinction in the Thought of St. Maximus the Confessor; Vladimir Lossky, The Mystical Theology of the Eastern Church, p. 94-100; Fr. Dumitru Staniloae, Orthodox Spirituality, p. 203-223. No Cristo, os santos experienciaram não apenas a proximidade com Deus a qual Adão desfrutou no princípio, mas a união espiritual com Deus (theosis) a qual Adão terial angariado se não tivesse caído em desobediência.

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São Nicodemos da Santa Montanha ensinou o seguinte acerca dos logoi: “Adão foi criado por Deus sem a faculdade da imaginação. Sua mente era pura e singular, não adquirindo nenhuma impressão ou forma sob influência dos sentidos ou de imagens das coisas sensíveis. Ao dispensar o uso da faculdade inferior da imaginação, Adão não visualizava os contornos, cores, silhuetas ou dimensões das coisas, mas com a faculdade superior de sua alma, isto é, com o intelecto, ele contemplava imaterialmente, puramente e espiritualmente somente os princípios interiores [logoi] dos seres”.


Ilustração: Adão e Eva no Paraíso, Peter Paul RUBENS, c. 1628.

9 de outubro de 2012

A vida do ego



Pe. Damascene Christensen

Antes de versarmos sobre a vida espiritual do homem, é necessário que compreendamos o que é, afinal, o espírito humano. Não é necessária nenhuma revelação divina para entendermos isso. É perfeitamente possível, pelo menos em parte, que saibamos o que é o espírito humano mediante a simples observação atenta e silenciosa de nosso próprio ser interior. Portanto, ninguém deve se surpreender ao perceber que a antiga doutrina cristã sobre o espírito humano encontra paralelos idênticos com a doutrina dos seguidores chineses de Lao Tsé.

O espírito humano não é um pedaço do Espírito do Criador, mas uma imagem dEle: é a parte mais pessoal do homem, o princípio de sua consciência e liberdade. Poderíamos dizer que o espírito é o trono ou centro da pessoa humana, o qual contém em si a totalidade da natureza humana.

O espírito é aquilo que constitui a “imagem de Deus” em nós. Se Deus é Luz, então o espírito humano também é luz. Por ter sido soprado pelo próprio Deus em nós, o espírito busca a Deus, conhece a Deus, e somente nEle encontra seu devido repouso. [1]

Dado que a criação veio a existir através do Verbo – o Tao/Logos –, ela agora é guiada e sustentada por Ele, ou seja, é como que informada pelo Verbo. O espírito é precisamente a faculdade capaz de “ouvir” a voz silenciosa do Verbo falando em nós.

Tanto o Cristo quanto Lao Tsé chamavam o espírito humano de “luz”. [2] Com o tempo, os seguidores da doutrina de Lao Tsé passaram a chamá-lo de “espírito original” (yüan-shen) e os antigos ascetas cristãos passaram a chamá-lo de nous, uma palavra grega que poderia ser traduzida como “espírito” ou “mente superior”. [*]

Na vida do homem caído e irregenerado, o espírito encontra-se como que escondido atrás da consciência inferior dos pensamentos, fantasias e emoções. Na terminologia cristã tradicional essa consciência inferior é conhecida como o aspecto inferior da “alma”. Os seguidores chineses de Lao Tsé a chamam de “espírito consciente” ou “espírito do conhecimento” (shih-shen). [3]

Potencialmente falando, o espírito (nous ou yüan-shen) é uma consciência pura, informe, desprovida de imagens, incondicionada e incomposta, cujo objetivo e desígnio é aproximar-se o mais que possível de Deus, unindo-se a seu Criador. Desde que purificado, o espírito é capaz de conhecer a Deus e as essências interiores das coisas criadas mediante a percepção intuitiva direta. Entre as criaturas visíveis, somente o homem possui um espírito.

A alma inferior (shih-shen), por outro lado, é moldada e condicionada por aspectos culturais e pessoais. Ela reage ao ambiente em que está inserida, a exemplo dos animais, ocupando-se das necessidades temporais e terrenas do homem. Desde o tempo em que o homem afastou-se do Caminho, a alma inferior tornou-se uma massa de emoções, memórias e pensamentos compostos, buscando conhecer as coisas mediante a imaginação e a dedução abstrata. Na sua porção mais inferior, a alma inferior assemelha-se à alma de um animal, já que os animais também possuem emoções, memória e imaginação. [4]

Em última instância, a distinção entre espírito e alma inferior é mera analogia. Em outras palavras, isso significa que não existem dois seres em nós, ou seja, o espírito e a alma inferior são como que dois aspectos diferentes de nosso ser interior. O espírito é o lado oculto de nosso ser interior, a parte mais pura da alma. [5] Os antigos mestres cristãos chamavam o espírito de “olho da alma”, pois ele é o “órgão” que percebe a Divindade.

O grande autor místico Máximo, o Confessor, (+ 662 d.C.) ensinou o seguinte a respeito da alma: “A alma possui três faculdades: primeiro, a faculdade da nutrição e crescimento; segundo, a da imaginação e instinto; terceiro, da inteligência superior (logikos) e do espírito (nous). As plantas apresentam apenas a primeira dessas faculdades; os animais a primeira e a segunda; os homens possuem as três. As primeiras duas faculdades são perecíveis; a terceira é evidentemente imperecível e imortal”. [6]

Portanto, o homem é composto de corpo e alma, sendo o espírito a parte mais superior da alma, o que nos permite chamá-lo de “alma superior”. Lao Tsé fez precisamente isso no capítulo 10 do Tao Te Ching, referindo-se à “alma superior” e à “alma inferior” ou “animal”. [**]

Na vida interior do homem, o espírito foi designado para ser o mestre, enquanto a alma inferior deveria ser a serva e o corpo o servo de ambos. “O verdadeiro governante”, ensinou São Máximo, “é aquele que governa a si próprio, sujeitando a alma e o corpo ao espírito”. [7]

São Teófano, o Recluso, (+ 1894), que foi um dos maiores professores modernos da antiga sabedoria, ensinou também: “Segundo seu desígnio natural, o homem deve viver no espírito, subordinar tudo ao espírito, viver penetrado pelo espírito em tudo aquilo que é da alma e mais ainda em tudo aquilo que é físico – além disso, também nas coisas exteriores, ou seja, na vida familiar e social. Esta é a norma!” [8]

Quando esta hierarquia for devidamente respeitada, não mais depositaremos nossa confiança em pensamentos, fantasias e raciocínios. Mesmo em nossos afazeres cotidianos, condicionados que são pela cultura e pelo entorno, a alma continuamente retornará ao conhecimento intuitivo direto do espírito. Conforme ensina Lao Tsé: “Use sua luz para retornar à luz da intuição”. [9] A alma conhece a Verdade através da sua conexão inquebrantável com o espírito e a respectiva subordinação a ele, enquanto o espírito conhece a Verdade através de sua conexão e subordinação a seu Criador, o Tao/Logos.

São Teófano ensina ainda: “Quando o espírito reina supremo no homem, embora seja seu caráter e postura exclusivos, ele não erra. Isso acontece porque, em primeiro lugar, a espiritualidade é a norma na vida humana, e por isso, sendo espiritual, o homem é uma pessoa real, enquanto o homem intelectual ou carnal não é uma pessoa real. Em segundo lugar, a despeito do grau de sua espiritualidade, o homem obrigatoriamente tem de colocar o intelectual e o carnal no seu devido lugar; ele guarda apenas um pouco deles, ambos subordinados ao espírito. Que a intelectualidade, portanto, não lhe seja tão ampla (em conhecimento cientifico, artístico e demais assuntos) e que a carnalidade lhe seja rigidamente restrita – então ele será uma pessoa real, íntegra. Mas o homem intelectual (o especialista, o connoisseur, o inteligente) – e pior ainda o homem carnal – não é uma pessoa real, a despeito de seu aspecto exterior e de sua reputação”. [10]

Quando a humanidade afastou-se do Caminho, essa hierarquia natural inverteu-se. O corpo e o aspecto inferior da alma passaram a ser os mestres, assumindo, por assim dizer, o controle do ser humano, o qual agora se encontra tomado por pensamentos, imaginações, emoções e ocupações corporais.

A alma do homem caído encontra-se agora sob a ilusão de sua auto-suficiência. Isso significa que ela não se contenta apenas com as necessidades temporais do homem (comida, roupa, abrigo), mas busca também meios para sua própria ascendência e para o prazer sensual. Essa alma tornou-se (ou melhor, apegou-se a) aquilo que hoje chamamos de “ego”. Se o espírito é nosso verdadeiro eu – o trono verdadeiro de nossa pessoalidade – o ego é nosso falso eu, uma entidade ilusoriamente auto-suficiente. Já que ele acha que consegue alcançar seus objetivos e superar os obstáculos mediante seus próprios poderes, podemos chamar o ego de nosso falso “solucionador-de-problemas”.

Apossando-se do homem por meio da ilusão de sua autonomia, o ego faz o que pode para ocultar a existência do espírito. Dessa forma, o espírito não consegue cumprir o desígnio de elevar-se a Deus, obscurecendo sua luz. Não que sua luz tenha se apagado; ela ainda é luz, mas por estar apartada do Criador, essa luz encontra-se como que em trevas. É por isso que o Cristo disse: Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas. [11]

Por ter sido escravizado pelo ego no mundo dos sentidos, o espírito caiu doente. A única cura para essa doença é devolver ao espírito o domínio que lhe é devido, resgatando a alma da forma de ego em que se encontra. Quando então a alma inferior for refinada, segundo São Teófano, “a alma crescerá dentro do espírito e nele se permeará”. [12] [***] Lao Tsé descreve esse fenômeno da seguinte forma:

Quando a alma superior e a alma inferior forem unidas em
um mesmo enlace, é possível evitar que se separem. [13]

Quando a alma assume sua posição de serva, alinhando-se com o espírito, então o espírito volta a si e cumpre naturalmente seu verdadeiro propósito, ascendendo ao Criador. São Basílio, o Grande, (+379) descreve esse processo espiritual da seguinte forma: “Quando o espírito [nous] não estiver dedicado a afazeres exteriores nem disperso mundo afora pelos sentidos, ele volta-se para si mesmo e ascende espontaneamente em contemplações a Deus”. [14]

Lao Tsé, ao concentrar seu espírito e não permitir que se dispersasse no mundo sensorial, foi capaz de participar dessa experiência. Diz ele:

As cinco cores cegam os olhos dos homens;
Os cinco tons ensurdecem os ouvidos dos homens;
Os cinco sabores embotam o paladar dos homens;
O galope e a caça desconcertam a mente dos homens.
Artigos raros desviam do curso.
Por causa disso o sábio não considera o olho, mas as coisas interiores. [15]

Por este relato, o espírito de Lao Tsé foi capaz de ascender em contemplação às qualidades do Tao, alinhando-se com o Caminho do Céu.

Agora que o Tao se fez carne, abriu-se a possibilidade de uma conexão muito mais intensa entre o espírito humano – o trono de sua verdadeira pessoalidade – e a Pessoa do Tao. Trata-se de uma conexão que se desenvolve para uma união, ou seja, para uma verdadeira deificação do espírito humano através de uma ação específica do Te Incriado. [O autor entende que o “Te” de Lao Tsé é o mesmo que a “Graça” da espiritualidade cristã – N. do T.] Antes de descrevermos essa condição exaltada do espírito humano, é necessário que versemos em maiores detalhes sobre nossa condição atual e irregenerada, de modo que saibamos o que afinal temos de transcender e superar.

No momento em que desobedeceu ao Caminho pela primeira vez, surgiu no homem um senso de que ele se tornou errado. Esse senso do errado (“o conhecimento do bem e do mal”) marcou o nascimento do ego e, por conseguinte, da autoconsciência. O homem perdeu assim a roupa da Luz Incriada com a qual havia se vestido, tornando-se cônscio de que estava nu (Gênesis 3:10).

Uma vez que o ego humano nasceu a partir da tentativa de tornar-se deus para si próprio (Gênesis 3:5), é da própria natureza do ego tentar tornar-se autônomo. É por isso que o ego reluta em admitir que esteja errado; admitir isso seria admitir que ele não é um deus e que há um padrão acima de si próprio. O medo dessa admissão foi constatado pela primeira vez na tentativa do ego de esconder-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim (Gênesis 3:8).

Mas não é apenas a si próprio que o ego tenta ocultar de Deus; conforme vimos, ele também tenta ocultar o espírito, pois o espírito também transmite ao ego o senso de errado. Dado que é o espírito, e não o ego, que deveria ser o mestre da pessoa, sua própria presença denuncia o ego como falso usurpador, destruindo o próprio fundamento na qual o ego apóia sua existência.

Como é possível que o ego afogue-se em sua própria gratificação ao mesmo tempo em que oculta a realidade onipresente de Deus e do espírito? Ora, de que outra maneira senão pela constante distração em prazeres sensuais, pensamentos, memórias e fantasias? Por conseguinte, a queda do homem na desobediência foi sob certo ponto de vista uma queda na distração, e foi assim que sua consciência chegou a tornar-se composta e fragmentada da maneira como é hoje.

Ao distrair-se para não encarar o senso de errado, o homem busca precisamente aquilo que originalmente o deixou nesse estado: o amor próprio e o prazer sensual. Gratificando-se, o homem volta a se sentir “certo” – apenas temporariamente, claro. Na verdade, ele apenas intensificou seu atual estado, de maneira que precisará de distrações cada vez maiores em doses cada vez maiores para sentir-se “certo” de novo. Passo a passo, o homem avança no caminho de sua autodestruição, tentando superar a queda apelando à própria causa dela.

O ego busca qualquer garantia de que está tudo bem, de que não cometeu erro algum, de que ele é Deus realmente. Nosso eu consciente pode até não admitir que isso esteja acontecendo, mas o objetivo da vida do ego não passa disso: encontrar qualquer coisa que o faça esquecer do verdadeiro eu e esquecer de sua condição hedionda, fazendo-o sentir-se, nem que seja por um instante, como Deus, sentir que ele está no controle, por cima de tudo e de todos, auto-suficiente. Este é o princípio que está por trás do constante desejo de escapar aos prazeres sensuais – comida, sexo, drogas, álcool, cigarro, entretenimento etc – e do desejo de inflar-se mediante o ódio, o julgamento e a condenação alheia.

Para cumprir seu objetivo, o ego (ou o “solucionador-de-problemas”) atua por meio de dois poderes: (1) o poder calculador do cérebro humano, equipado com as faculdades da análise, da criatividade, do planejamento e da fantasia, e (2) o poder do ressentimento. Com a calculadora, o ego tenta conseguir algo, dando a si mesmo a impressão de que está por cima de tudo. Com o ressentimento, o ego tenta automaticamente – por hábito, sem pensar – estar por cima de algo ressentindo ou julgando (condenando) esse algo. Quando o processo do ressentimento é disparado, nenhuma emoção ou mesmo pensamento entra em jogo. O ressentimento é uma espécie de mecanismo do qual o ego lança mão para imediatamente exaltar-se acima de algo ou alguém, sobretudo alguém que o faz se lembrar de que não é um deus, para só depois os pensamentos e as emoções se juntarem a esse ressentimento.

Quando somos verdadeiramente humildes e submissos a Deus, é possível discernir o certo do errado sem julgar ou condenar. Mas quando brincamos de ser Deus, não conseguimos exercer essa distinção; só conseguimos julgar. Mesmo que o julgamento esteja tecnicamente correto, ainda assim ele é essencialmente errado, pois foi elaborado para que nos sintamos mais certos do que a pessoa que julgamos. Trata-se de julgamento ao nível do ego, apartando-nos de Deus, e não de discernimento ao nível do espírito, que vem de Deus. Não julgueis segundo a aparência, ensinou o Cristo, mas julgai segundo a reta justiça. [16] Infelizmente, o sujeito orgulhoso será incapaz de diferenciar entre os dois, mas julgará segundo as aparências pensando estar discernindo. O único fator que os distingue é a humildade.

Quando uma injustiça recai sobre a pessoa humilde, ela não reagirá internamente; ela discernirá a injustiça sem ressentir-se dela. Quando a mesma injustiça recair sobre a pessoa que tem um ego, ela imediatamente reagirá com ressentimento. Em ambos os casos, isso acontece sem nenhum pensamento. Quando o ressentimento transforma-se em pensamento, temos o que chamamos de julgamento.

Se a vontade da pessoa estiver subconscientemente inclinada a desejar estar por cima de tudo e se fazer de Deus, sua consciência atrairá para si todo tipo de pensamento através dos quais ela poderá cultivar, saborear e talvez até cumprir seu desejo: pensamentos de aceitação e admiração, pensamentos julgamentais, pensamentos sensuais e materiais etc. Se a pessoa continuar brincando com esses pensamentos, as emoções surgirão e se agregarão a eles. “Emoção” significa literalmente e-moção, ou seja, “mover-se de, afastar-se”; é por meio das emoções que a pessoa se afasta de seu verdadeiro eu, de seu espírito.

Ocorre que, apegando-se a esses pensamentos, as emoções despertam ainda mais pensamentos. A pessoa acaba afogando-se em um caldeirão de pensamentos e sentimentos, vivendo assim em uma espécie de realidade virtual, sem saber que pode sair dela se quiser. As deliberações dessa pessoa tornam-se compulsivas, deixando-se inflamar pelo trinômio pensamento-desejo-emoção, o qual chamamos de “paixão”. Eis a vida do ego. O espírito humano passa a ser guiado exclusivamente pelas paixões, afastando-se cada vez mais de seu Criador.

[*] A palavra nous [alguns dicionários em português trazem a palavra assim mesmo, “noûs” – N. do T.] normalmente é traduzida como “intelecto”, a exemplo do que foi feita na edição em língua inglesa da Filocalia. Essa tradução, no entanto, pode ser muito enganosa, pois modernamente usamos “intelecto” com a conotação de razão abstrata ou dedutiva, da qual o noûs deve ser cuidadosamente distinguido. Optamos por traduzir noûs como “espírito”, pois entendemos que essa palavra porta melhor o sentido original da palavra.

[**] P´o (“alma inferior”, “alma animal”, “alma do corpo”) e ying, o qual, segundo Gi-ming Shien, é o mesmo que hun (“alma superior”, “alma do sopro”, “alma do espírito”). Na antiga concepção chinesa, o hun passa para o outro mundo quando o corpo morre. De maneira similar, a antiga tradição cristã ensina que somente o noûs passa para a vida futura no momento da morte, enquanto os poderes inferiores da alma deixam de existir. (Cf. Fr. Dumitru Staniloae, Orthodox Spirituality, p. 86-87, 96-97).

[***] Sobre a união da alma com o espírito, cf. Santo Isaías, o Solitário, On Guarding the Intellect, The Philokalia, vol. 1, p. 26.

[1] Lossky, Mystical Theology, p. 201; St. Theophan the Recluse, The Spiritual Life, p. 61-62.

[2] Lucas 11:35; Tao Te Ching, cap. 52.

[3] Lü Tung-pin [Lü Yen], The Secret of the Golden Flower, Thomas Cleary, trans., p. 13-15, 138-139.

[4] St. Theophan, The Spiritual Lifei, p. 61.

[5] Pomazansky, Orthodox Dogmatic Theology, p. 135. St. John Damascene, "Orthodox Faith", p. 236.

[6] The Philokalia, vol. 2, p. 88.

[7] Ibid., p. 308.

[8] St. Theophan, The Spiritual Life, p. 75.

[9] Tao Te Ching, cap. 52 (Rose and Mair, trans.).

[10] St. Theophan, The Spiritual Life, p. 74-75.

[11] Lucas 11:35.

[12] St. Theophan, The Path to Salvation, p. 260.

[13] Tao Te Ching, cap. 10 (Rose trans.).

[14] St. Basil, letter 2, p. 7.

[15] Tao Te Ching, cap. 12 (Gi-ming Shien, trans.).

[16] João 7:24.

Fonte: Christ the Eternal Tao, p. 276-285.

20 de setembro de 2012

A trajetória espiritual de Konstantin Leontiev




O conhecimento que não for contido pelo temor a Deus resultará em arrogância.
São Máximo, o Confessor

A leitura da vida dos santos, de seus feitos e conquistas espirituais, sempre nos provoca admiração. Ocorre que emular esses "anjos na Terra" -- que é o que realmente deveríamos fazer -- parece frustrante. Ou são destinados à santidade desde pequenos, ou, no caso dos grandes pecadores, suas conversões são tão radicais, seus arrependimentos tão plenos, que eles rapidamente galgam até os últimos degraus da escada da perfeição cristã. Sentimo-nos inferiorizados, nós que mal alcançamos o primeiro degrau da escada. Embora estejam próximos de nós, até em função de seu amor pelos homens, fato é que a experiência desses santos está muito longe da nossa. Seria muito mais encorajador se encontrássemos homens e mulheres "comuns" com os quais pudéssemos nos identificar -- encontrar pessoas que, como nós, vivem entre a atração dos prazeres terrenos e o desejo de adentrar no Reido dos Céu.

Konstantin Leontiev certamente não era um homem "comum": diplomata, médico, filósofo, Leontiev era um homem muito culto. No entanto, sua trajetória espiritual -- os contornos gerais dela, pelo menos -- é familiar a quase todo mundo, sobretudo aos convertidos, e observar seu progresso poderá ajudar em nosso próprio progresso. O relato abaixo foi parcialmente extraído de um capítulo do livro "O Mosteiro de Optina e Sua Era", de I.M. Kontzevitch [*], e também de uma pesquisa empreendida pela Monja Natália, cujo artigo "A Salvação da Alma ou os Bens Terrenos", publicado recentemente pela revista Orthodox Life (versão russa), em homenagem ao centenário da morte de Leontiev.

O início da jornada espiritual consciente de Leontiev deu-se com sua conversão na aurora de sua vida adulta. Como ele mesmo relatou em carta a um amigo, em julho de 1871, Leontiev encontrava-se em Tessalônica naquele verão quando subitamente adoeceu de cólera. A doença progrediu a ponto de tornar-se terminal. "Àquela altura eu nem pensava na salvação da minha alma (a fé num Deus pessoal era algo mais fácil de aceitar do que a fé na minha imortalidade); e eu, que em geral não sou de ficar com medo, fiquei simplesmente aterrorizado com a perspectiva de morrer". Um monge do Monte Atos havia lhe trazido um ícone na Mãe de Deus. Ao observá-lo, conta Leontiev, "subitamente, naquele instante, acreditei na existência e no poder dessa Mãe de Deus, acreditei tão intensamente, tão concretamente, que é como se aquela mulher estivesse ali, viva e presente, diante de mim, afável e poderosíssima, e exclamei: 'Mãe de Deus! É cedo demais para eu morrer! Eu ainda não fiz nada de digno com meus talentos, eu tenho levado uma vida promíscua e pecaminosa no sentido mais estrito da palavra. Ergue-me deste meu leito de morte. Eu irei ao Monte Atos, prostrar-me-ei diante dos anciãos e implorar-lhes-ei para que me façam um ortodoxo simples e autêntico, alguém que acredite nas quartas e sextas-feiras [os intelectuais, em geral, menosprezam os jejuns às quartas e sextas-feiras] e nos milagres; até mesmo um monge me tornarei'".

Em outra carta, Leontiev conta: "Pela primeira vez senti uma mão sobre mim vinda do Alto, e quis submeter-me a essa mão justa e encontrar nela apoio para levar adiante a violenta tempestade que se dava em meu interior; buscava somente as maneiras para entrar em comunhão com Deus. Fui ao Monte Atos e tentei transformar-me num verdadeiro cristão ortodoxo para que os anciãos mais rigorosos me ensinassem a fé. Estava preparado para submeter-lhes meu intelecto, minha vontade".

Após sua milagrosa recuperação, Leontiev cumpriu sua promessa à Mãe de Deus e foi ao Monte Atos. Porém, os anciãos Pe. Jerônimo e Pe. Macário não concordaram em tonsurá-lo monge, julgando-o muito imaturo. É evidente que eles previram que, depois que a chama da conversão aferrecesse, Leontiev teria muita dificuldade em submeter-se aos rigores da disciplina monástica. Esteta confesso, Leontiev havia sido até então um homem do mundo, o que significa que ainda havia uma longa e árdua estrada a percorrer até que se livrasse das amarras que o mantinham preso ao mundo.

A batalha de Leontiev deu-se em dois fronts. Em ambos a batalha foi duríssima, já que os hábitos pecaminosos tiveram tempo suficiente para se enraizarem e amadurecerem. Em prmeiro lugar, ele teve de lutar contra "a luxúria da carne e a luxúria dos olhos". Como ele mesmo admitira, sua vida era imoral em todos os campos, chegando a ponto de tornar-se "um verdadeiro libertino, um libertino requintado". Em segundo lugar, e esta batalha foi a mais difícil, Leontiev teve de lutar contra o orgulho intelectual. Kontzevitch descreve Leontiev como sendo "um homem de inteligência profunda e brilhante", citando outro autor que julgava Leontiev como um sujeito de "mente extraordinariamente independente, uma das mentes mais independentes da Rússia; ele não se apegava a nada".

O meio cultural de Leontiev, ou seja, a elite intelectual da Rússia do século XIX, encontrava-se francamente divorciado da liderança espiritual ortodoxa. Ocorre que Leontiev havia descoberto que a inteligência superior não precisa ser uma pedra de tropeço que bloqueie a fé. "Muitos", dizia ele, "nem mesmo concediam a hipótese de que um intelectual pudesse também ser um homem de fé viva e sincera, algo que só seria cabível às massas ignorantes. Mas isso é um grande erro. A pessoa culta, depois de certo ponto, está melhor capacitada a crer com profundidade e sinceridade do que uma pessoa comum que crê por hábito (pois segue os exemplos dos outros) ou que crê porque sua fé nunca é desafiada por ideias opostas. Não há nada que a pessoa comum tenha de conquistar, não há batalhas intelectuais as quais se dedicar. Ele não precisa conquistar nada na arena intelectual, mas apenas as paixões, sentimentos, hábitos, raiva, rudeza, malícia, inveja, ganância, gula, depravação, preguiça etc. Para o intelectual, a batalha é bem mais difícil e complexa. Ele também tem de derrotar as paixões e hábitos que perturbam a pessoa comum, mas além disso tem de derrotar seu orgulho intelectual e conscientemente subjugar sua mente aos ensinamentos da Igreja. Quando esta barreira mística tiver sido transposta, que é precisamente o 'ponto' que mencionei acima, então a erudição se tornará um impulso adicional ao fortalecimento da fé".

Para combater o orgulho, os Santos Padres recomendavam a virtude que lhe é oposta: a humildade. Porém, o orgulho intelectual é extremamente teimoso. Ao recordar de sua conversão, Lentiev escreveu: "Naqueles tempos eu simplesmente não sofria. Eu não tinha um pingo de humildade; eu acreditava em mim mesmo. Eu era mais feliz naqueles tempos do que na minha juventude; eu estava totalmente satisfeito comigo mesmo".

Se a estrada da humildade lhe estava temporariamente fechada, de quais meios Leontiev lançou mão para empreender tão dura batalha? Ele tinha boa vontade e os conselhos divinos do Ancião Ambrósio, pois o desejo sincero pelo Reino de Deus levou-o ao famoso Mosteiro de Optina, o qual já havia atraído a seus domínios grandes intelectuais como Gogol, Kireyevsky e Dostoyevsky. Ele admitira também ter sido ajudado "por uma antiga antipatia filosófica pelas formas e pelo espírito da nova vida europeia e, por outro lado, por uma espécie de atração estética e ingênua pelas formas exteriores da Ortodoxia". Mas o principal aliado de Leontiev nessa arena espiritual foi, sem dúvida, o temor a Deus.

Assim como há város tipos de amor, e vários graus de amor, há também vários tipos de temores. A jornada espiritual de Leontiev iniciou-se com o medo da morte. Ao refletir sobre sua conversão, escreveu ele: "O inesperado momento chegou quando finalmente eu, que sempre fora tão ousado, senti um terror incomum, não um mero medo. Esse terror era ao mesmo tempo medo do pecado e medo de morrer. Nunca antes eu experimentei algo assim... Comecei a temer a Deus e a Igreja. Com o tempo o medo físico foi desaparecendo, ficando em seu lugar um crescente temor genuinamente espiritual". Na opinião de Leontiev, segundo a Monja Natália, somente o temor genuíno -- não o medo físico, corporal, não o medo de perder bens temporais, mas o medo da destruição da alma, da aniquilação total, do desaparecimento, da não-existência -- somente esse tipo de temor pode conduzir um intelectual à fé.

Os críticos de Leontiev acusavam-no de enfatizar demais o temor às custas do amor, distorcendo assim o verdadeiro ensinamento cristão. Contudo, segundo os Santos Padres, ninguém vai ao amor senão pelo temor. "O temor", ensinava Santo Isaque, o Sírio, "leva-nos a bordo do barco do arrependimento, conduz-nos ao outro lado do mar fétido da vida, guiando-nos até as praias divinas do amor". E São João Clímaco dizia: "A ascensão do temor é o princípio do amor". Leontiev superara o medo primitivo da morte e progrediu à fé e ao temor a Deus, do medo da retribuição divina ao temor de ofender a Deus -- por amor a Deus. "O fiel teme a Deus", explica o filósofo russo Príncipe Trubetskoy, "não apenas quando reconhece que transgrediu Sua verdade, mas quando se submete a Ele com fé e amor. Pois o temor a Deus é melhor revelado na obediência, na humildade e na oração do que nos tormentos da consciência. O fruto do temor a Deus é o amor".

Mais tarde, Leontiev torna-se monge, com o Ancião Ambrósio tonsurando-o em 1891 com o nome de Clemente, indubitavelmente em memória a seu caro amigo Pe. Clemente Sederholm, monge de Optina. Ciente de que seu filho espiritual não se adaptaria aos rigores da vida ascética em Optina, o Ancião Ambrósio decidiu enviá-lo à Lavra da Santíssima Trindade-São Sérgio. Em parte, o ancião consolou Leontiev dizendo-lhe: "Em breve nos veremos". De fato, o ancião repousou no dia 10 de outubro de 1891 e Leontiev repousou um mê depois, em 12 de novembro, juntando-se a ele no além-túmulo. Leontiev morrera de pneumonia.

Só Deus sabe o quanto Leontiev progrediu nesse temor perfeito que, segundo os Santos Padres, "é igual em poder ao amor perfeito". Leontiev esperava que os outros intelectuais, ao lerem a história de sua conversão, "também não perdessem a esperança de encontrar o caminho certo". Ele mesmo apontara o caminho. Conforme escreveu o Arquimandrita Constantino (Zaitsev): "O feito maior de Leontiev reside no fato de que ele dissera  algo como 'afasta-te daqueles que portam palavras de amor nos lábios mas que o desviam da Igreja, e aprende em vez disso o temor, isto é, renuncia a assertividade, reflete acerca da morte e do que lhe aguarda após a morte e, sem filosofias engenhosas, entrega-te livre e alegremente ao guiamento da Igreja. Somente dessa forma tu alcançarás a salvação; somente dessa forma tu aprenderás o verdadeiro amor'".

[*] Um capítulo deste livro encontra-se traduzido aqui.

7 de setembro de 2012

O amor em Ortega



O que é amor? Amor é um sentimento? É um “gostar muito” de alguém? É uma atração inevitável? É possível amar coisas ou se ama apenas pessoas?

Em Estudios sobre el amor, uma coletânea publicada na Argentina de artigos que Ortega escreveu para o diário El Sol, de Madrid, em 1927, quinze breves capítulos resumem o que o filósofo espanhol pensava sobre o assunto.

Talvez o dado mais importante sobre o amor é que, para Ortega, ele não é nem sentimento, nem desejo, nem pensamento, nem volição, nem ato: tudo isso são possíveis consequências do amor, possíveis efeitos dele, mas o amor não é, em si, nada disso. Desejar um bom vinho não é amá-lo; o viciado deseja a cocaína ao mesmo tempo em que a odeia por sua ação nociva. O desejo morre ao ser satisfeito; o amor por sua vez perdura. Quando desejo algo, sou o centro de gravidade para onde espero que as coisas venham a cair. Pelo contrário, no amor tudo é mover psíquico: sou eu que “vou” ao objeto e estou nele. Não é o objeto que gravita em mim, mas sou eu que gravito no objeto amado. O mover físico pode existir ou não, isso não importa tanto. Ademais, o amor não é pontual como o pensamento ou a vontade, mas um fluxo, como um fluido que emana continuamente de uma fonte, uma “irradiação psíquica”.

Mas o ódio também não é assim? A diferença é que o amor é pró ao objeto, enquanto o ódio é contra. O amor se ocupa de afirmar o objeto, sem duvidar por um instante do direito dele existir. O ódio, por outro lado, quer virtualmente matar o objeto.

Amor define-se, assim, como um ato centrífugo da alma, que vai até o objeto em fluxo constante e o envolve em cálida corroboração, unindo-a a ele e afirmando seu ser. O sintoma mais evidente do amor é um estar ontologicamente unido ao amado, fiel ao destino deste, seja qual for.

A esta altura, muita gente pensa no amor como sexo. Ora, o sexo pode ou não estar presente numa união amorosa, mas a presença do sexo não implica necessariamente na presença de amor. O instinto sexual é sinal de pura voluptuosidade. O amor sexual, por outro lado, é uma espécie de urgência em dissolver sua individualidade na do outro e, vice-versa, absorver na sua a do amado. O amor é uma atividade “sentimental” específica, distinta das atividades sentimentais corporais ou psíquicas. A melhor maneira de captar o que é o amor é não pensar somente no amor de um homem por uma mulher e vice-versa, mas também pensar no amor que um homem tenha pela ciência, por exemplo. Amor não é mania, não é obstinação.

Aliás, dizer que amor não é mania é outra forma de dizer que amor não é estar apaixonado. O estado de estar apaixonado é uma concentração superlativa da consciência, uma hiperatividade da alma, na qual o amor é apenas secundário. É amor apenas em sentido lato, mas não stricto: é o amor de novelas e romances populares, um estado inferior do espírito, uma “imbecilidade transitória”, nas palavras de Ortega. É verdade que há situações em que a alma fixa-se em assuntos políticos ou econômicos de gravidade, cuja urgência retém a consciência de forma intensa. Há no entanto uma diferença importante: nesses casos, a atenção se fixa de maneira obrigada, enquanto no estado de estar apaixonado ela o faz por seu próprio gosto. Segundo Ortega, esse estado de graça em que se encontra o sujeito apaixonado é semelhante ao do místico que se une a Deus: ambos encontram-se assoberbados, absortos, desligados. Ambos estados de graça, místico e erótico, conferem beleza e graciosidade a tudo que vislumbram.

Como se dá o processo de escolha no amor? Os atos e palavras que emitimos não revelam nosso verdadeiro ser, mas são os gestos e a fisionomia que melhor o fazem. São eles que revelam com mais sinceridade e precisão nossos “valores”, nossas predileções e rejeições. A vontade é capaz de suspender só por alguns instantes os gestos e a fisionomia que refletem o fundo secreto que nos define. Mas quando ama, o homem suspende mais prolongadamente esta falsificação produzida pela vontade. São esses princípios, essas preferências mais íntimas e arcanas, que selecionam o objeto do amor humano.

Assim, os homens que amam um mesmo tipo de mulher ao longo da vida denunciam que seu caráter, seu ser mais íntimo, não se desenvolve. É o caso, diz Ortega, do “bom burguês”. Normalmente, no entanto, os homens passam por mudanças radicais, por transformações em sua trajetória moral. O sistema de valores se altera e segue-se um novo esquema de seleção erótica.

11 de março de 2012

A impassibilidade de Deus



Podemos dizer que Deus é a superessência tripessoal, ou a tripessoalidade superessencial. O que esta superessência é, não sabemos. Mas ela existe em si mesma; assim como qualquer essência, porém, ela não é real exceto pelo fato de subsistir hipostaticamente em pessoas. Contudo, enquanto existência hipostática superessencial, Deus não está confinado a categorias de existência como as que conhecemos ou imaginamos, mas Ele as transcende. Pois todas as coisas que conhecemos como existentes extraem sua existência de outra coisa e, em sua existência, dependem de um sistema de referências. Isto remete a uma relatividade ou fraqueza de existências. Aquele que existe por Si mesmo, porém, possui uma existência livre de toda e qualquer relatividade. Ele não está integrado a nenhum sistema de referências e Ele não possui fraqueza alguma. Ele existe não apenas no sentido mais elevado possível, mas Ele também é uma existência superexistente.

Assim, Deus não mantém Sua existência passivamente, nem está Ele sujeito a paixões ou sofrimentos. Este é o significado da palavra grega apathes quando aplicada a Deus; apathes não quer dizer aqui "indiferente". A vida inteira de Deus é ato ou poder. Todos os Seus atributos Ele os têm em Si mesmo, e não mediante a participação em outras fontes. É por isso que Ele possui todos os atributos de modo incomparavelmente superior ao das criaturas, pois elas os possuem mediante a participação nos atributos de Deus, mediante Suas operações.

Pe. Dumitru Staniloae, The Experience of God Vol. 1 (Brookline, Massachusetts: Holy Cross Orthodox Press, 1998), 129-130. Extraído daqui.