30 de maio de 2013

Oração antes da leitura espiritual


São João Crisóstomo

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo: Ó Senhor Jesus Cristo, abre meu coração para que possa ouvir e entender Tua palavra e fazer Tua vontade, pois sou um residente temporário nesta terra. Não oculte Teus mandamentos de mim, mas abre meus olhos para que possa compreender as maravilhas de Tua lei. Dizei-me as coisas ocultas e secretas de Tua sabedoria. Em Ti deposito minha esperança, ó Deus meu, de que Tu iluminarás minha mente e meu entendimento com a luz de Tua sabedoria, não apenas para cultivar as coisas que estão escritas, mas para cumpri-las, para que não peque ao ler as vidas, obras e provérbios dos santos, mas para que sirvam à  minha restauração, iluminação e santificação, para a salvação da minha alma e herança da vida eterna. Pois Tu és a luz daqueles que residem nas trevas, e de Ti vem toda boa obra e dádiva. Amém.

28 de maio de 2013

A teologia da mistagogia


Pe. Michael Azkoul

A teologia da mistagogia é sempre negativa ou apofática. A Mistagogia de São Fócio está repleta de expressões teológicas negativas. Quem estiver familiarizado com as liturgias de São João Crisóstomo e São Basílio, o Grande, se lembrará que estes ofícios expressam a linguagem da "santa e augusta hierurgia dos cristãos". [*] Dessa forma, Fócio é coerente com os outros Padres ao referir-se a Deus como o "transcendente em essência", "incorpóreo", "superdivino", "Deus indiferenciado e indivisível" (Mistagogia 6). Ele é a "Trindade superboa (hyperágathos)" (Mistagogia 43), a qual não deve ser confundida com o summum bonum dos escolásticos. Deus não é o "bem supremo"; Ele está para além de todo bem, para além de todos os nomes, descrições, atributos e denominações. Ele está para além de todo conhecimento e todo ser, não sendo nem totum esse nem verum esse. [**]

São Dionísio, o Areopagita, declara apofaticamente no capítulo V de sua Teologia Mística:
Ascendendo cada vez mais alto, sustentamos que Ele [Deus] não é nem alma, nem intelecto; nem possui Ele imaginação, opinião, razão ou entendimento; nem pode Ele ser expresso ou concebido, pois Ele não é nem número, nem ordem; nem grandeza, nem pequeneza, nem igualdade, nem desigualdade; nem similaridade, nem dissimilaridade; nem possui Ele poder, nem é Ele poder, nem luz; nem vive Ele, nem é Ele vida; nem é Ele essência, nem eternidade, nem tempo; nem está Ele sujeito a contato inteligível; nem é Ele ciência, ou verdade, ou realeza, ou sabedoria; nem um, nem unicidade; nem divindade, nem bondade; nem é Ele espírito, segundo nosso entendimento, nem filiação, nem paternidade; nem nada conhecido a nós ou a qualquer outro ser, nem das coisas que existem ou das coisas que não existem; nem nada que existe O conhece como Ele é; nem conhece Ele as coisas que existem segundo o conhecimento existente; nem a razão O alcança, nem O nomeia, nem O conhece; nem é Ele trevas, nem luz, nem falso, nem verdadeiro; nenhuma afirmação ou negação pode a Ele ser aplicada, pois embora afirmemos ou neguemos as coisas que Lhe estão abaixo, não podemos afirmá-Lo ou negá-Lo, na medida em que a Causa única e oniperfeita de todas as coisas transcende toda afirmação, e a simples preeminência de Sua natureza absoluta está fora de qualquer negação -- livre de toda e qualquer limitação e para além de todas elas.
Não fosse "o conhecimento de Deus implantado em nós por natureza", conforme declarou São João Damasceno [***], e não tivesse Ele revelado-Se em Seus "efeitos", isto é, em Sua energias e operações, e por fim em Sua encarnação, não teríamos absolutamente nenhum conhecimento acerca de Deus.

Ora, se o que os homens conhecem de Deus é resultado de Sua condescendência e se tal conhecimento flui por inspiração, e não por especulação, isso significa que a verdade ou falsidade do filioque deve ser determinada à parte de quaisquer formulações do intelecto humano. O teólogo deve possuir a "mente" (phronema) da Igreja. Portanto, São Fócio revela que todos os hierarcas presentes no sínodo de 879-880 -- inclusive os emissários do papa -- aprovaram "a verdadeira doutrina do Espírito Santo, adotando uma profissão de fé em completo acordo com os Padres, Concílios e, sem sombra de dúvida, com as palavras do próprio Senhor". "Eles aprovaram a doutrina com idêntica intensão (homophrones), com palavra e discurso, e com a assinatura de suas próprias mãos". (Mistagogia 25). De modo oposto, o santo não deixou de notar que aqueles que declaram falsas doutrinas -- neste caso, o filioque -- fracassam na tentativa de "teologizar mistagogicamente" (Mistagogia 20).

Segundo o Patriarca de Constantinopla, o filioque está fora da mistagogia. Ora, em que consiste sua falsidade? Em primeiro lugar, o filioque impôs a analogia do ser à Trindade, ao mistério do Divino. O filioque é uma noção catafática, sendo que os Padres ensinam que todas as afirmações "positivas" acerca de Deus referem-se à Seus "efeitos", à "economia" de Sua ações. Regozijamos na misericórdia que vem de Deus, mas não podemos dizer que a misericórdia seja um atributo de Deus. Podemos crer nas palavras do Gênesis de que o homem é feito "à imagem e semelhança de Deus", mas não podemos depreender daí que o Criador possui "memória", "intelecto" ou "vontade". Esse tipo de linguagem é própria dos homens e só pode ser aplicada a Deus equivocamente.

[*] Ad. Amph., q. 111 (PG 101, 656c)

[**] Sobre a teologia latina medieval tardia, cf. E. Gilson, The Spirit of Medieval Philosophy, traduzida por A. H. C. Downes (Nova York: Charles Scribner´s Sons, 1940), pág. 64ff, 96ff. O escolasticismo reduziu a "teologia negativa" a mero catafaticismo corretivo. Para os Padres, porém, a abordagem apofática era algo normal, e até mesmo os nomes das Pessoas eram compreendidas negativamente. "Declaramos que Deus Pai, aquele que não tem princípio, não é o Filho, nem o Espírito; e o Filho gerado não é nem o Pai, nem o Espírito; e o Espírito Santo 'que procede do Pai" não é nem o Pai, nem o Filho" (São Gregório, o Teólogo, Ora XXXI, 9, PG 36, 141d-144a).

[***] De Fid. Orth. I, 3.

Fonte: Introdução de On the Mystagogy of the Holy Spirit, de São Fócio, o Grande, tradução do Mosteiro da Santa Transfiguração, Studion Publishers, 1983, pág. 20-22, 26.

8 de maio de 2013

Cristo não é um imenso papagaio vermelho


Pe. Nicolae Steinhardt

A ressurreição não é uma farsa nem engano, só se for verificado que qualquer milagre é impossível, toda ressurreição é uma lenda. Se os monofisistas, os nestorianos ou docetistas tivessem razão, não me teria tornado cristão por nada deste mundo. Significaria que a ressurreição foi, na melhor das hipóteses, um símbolo ou uma representação. Não seja! Apenas a desesperança humana na cruz prova a integridade e a seriedade do sacrifício, impede-o de ser quem sabe que jogo, que truque.

O Senhor tinha vindo decidido a beber até o fundo do cálice e a batizar-se com o batismo da cruz, mas no Monte das Oliveiras, quando se aproximava o momento, rogou, porém, que se afastasse dele o cálice. É certo que acrescenta: faça-se Tua vontade. No entanto, foi real a vacilação. E na cruz, apesar da comunicação dos idiomas, apesar do fato que tinha a consciência plena da ressurreição, a natureza humana parece ter prevalecido certo tempo – assim como, contrapontisticamente, predominou a natureza divina no Monte Tabor, porque de outro modo não se teria ouvido tão naturalmente estou com sede nem tampouco o allzumenschlich (tão-humano): Meu Deus, por que me abandonaste?

O ato da crucificação foi tão sério, tão autêntico e total, que até mesmo os apóstolos e os discípulos estavam convencidos de que o que estava pregado na cruz do meio não ressuscitaria. Se a sua crença não tivesse sido tão sacudida, Lucas e Cleofas não teriam andado entristecidos, arrastando os pés pelo caminho até Emaús, e teria reconhecido na hora o ressuscitado e não teriam ficado tão admirados quanto entenderam que era ele. (Tinham se sentido tão sem jeito, tão enganados, que pediram ao primeiro viandante, um desconhecido, para não os deixar sós, e ficasse com eles.) Nem Tomé teria apresentado condições tão drásticas (e, falando corretamente, ofensivas) se ele não estivesse seguro de que a ressurreição, de acordo como se passaram as coisas, não era possível.

Ninguém acreditou. A crucificação era tão definitiva para eles como para os escribas. E era necessário, para confirmar o sacrifício, que a crucificação desse impressão de final, de solucionado, de negócio classificado, de bom senso vencedor. Não bastavam – para a ressurreição que devia ser – não bastavam as torturas horríveis, os pregos, a lança, os espinhos – no quadro de Mathias Grünewald de Unterliden os espinhos trespassam todo o corpo entrado já em putrefação – ainda havia necessidade – para completar, para o endurecimento – parecer também uma catástrofe, confusão, fiasco.

Apenas o grito! Eli, Eli nos prova que o crucificado não brincou conosco, que não se aproximou para nos acariciar com fingimentos esfumados (Como sempre, tratou os homens como seres livres e maduros, capazes de receber as verdades desprazerosas.) Ao contrário de Buda e de Lao-tsé, ele não dá aforismos e exemplos, mas a carne e o sangue, o sofrimento e desesperança. A dor sem desesperança é como a comida sem sal, como uma boda sem músicos.

(E se o bom ladrão é o primeiro homem que chega ao paraíso – antes dos profetas, dos patriarcas e dos justos do Velho Testamento – pode ser que não tanto pela sua tremenda conversão como pelo fato que foi companheiro de sofrimento com o Senhor. Porque uma coisa é estar ao pé da cruz e sofrer, quanto de sincero e de esgarçado, outra coisa é estar na cruz. A dor do outro não é a tua, é dele, penetra em ti apenas por um processo ideativo, não pelos sentidos. Apenas o bom ladrão sente o mesmo que o Senhor.)

A encarnação foi total, como ensina o sínodo de Calcedônia.

Bem, total, mas Cristo na cruz não deixou de ser também Deus. Eu: não se contesta a permanência da comunicação de idiomas, mas depois de algumas horas na cruz o humano devia ser predominante; doutro modo a tragédia seria contrafeita.

Sou obstinado: que teriam querido os seguidores de Nestório, os docetistas, os monofisistas – ou os ateus? Fazer Cristo da cruz um sinal com os olhos para eles, para lhes dar a entender: deixai, que isso só serve para os olhos do mundo, estai despreocupados, sabemos o que fazemos, ver-nos-emos domingo de manhã?

Que horrível “espetáculo” pressupõe, sem querer, o monofisismo!

Os argumentos do texto: nos Romanos (8,32) escreve Paulo: “O que ainda a seu próprio Filho não perdoou, mas o entregou por todos nós...”. Esse não O perdoou demonstra-nos também que na cruz não se desdobraram os símbolos, e que aconteceu um sofrimento real. Apenas pela junção da dor física com a tortura moral se obtém o decocto final: a amargura suprema.

O mesmo Paulo em I, Cor 1,23: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado”, em 2,2: “Porque julguei não saber coisa alguma entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”. Por que o acréscimo “e Este crucificado” senão para acentuar o lado mais insano e mais escandaloso? A razão sábia se harmonizaria até o fim com um Deus crucificado simbolicamente e que concede sofrer aparentemente (doutro modo os homens não entendem), mas o paradoxo e a confusão (ou seja, o cristianismo) representa a divindade não apenas na cruz – solemniter – como pregado verdadeiramente; onde sofre manifestamente com os nervos (as lendas e as epopeias da Idade Média, que sabia o que é a dor, sempre se referem aos nervos), as fibras e a alma do pobre do homem até as consequências últimas (também Cristo tem, apesar da heresia de Apolinário, alma humana inteira). Se ele tivesse mantido – mesmo em parte – a impassibilidade na cruz, se não tivesse gostado plenamente a desesperança humana, o evento acontecido no Gólgota não teria sido – para os filósofos, para os sacerdotes e para o vulgo – uma ocasião de tropeço e de confusão, mas, “cenário” ou “ritual”, portanto, admissível, comestível.

Em I, Cor, 6,20 e em 7,23, insiste Paulo: “Porque vós fostes comprados por um grande preço”.

Por um preço honesto. Inteiro. Deus não enganou a ninguém, nem ao diabo, nem a nós; nem a si mesmo não se enganou. Não pagou com aparência de sofrimento, com uma cruz mítica, ou com dinheiro falso. O preço não o pagou um fantasma; foi carne de nossa carne, sangue de nosso sangue.

E na carta aos Hebreus (2,17; 2,18 e 4,15): Por tudo isso era devedor entre todos (salvo do pecado, para se assemelhar aos irmãos (nossos); pois Ele em si foi tentado, pode ajudar aos que são tentados, tentado entre todos, segundo nossa semelhança). Assemelhou-se a nós em tudo e era tentado por todos como nós: assim também pela desesperança humana.


Deus, que abandonou Cristo na cruz, não está também ausente para conosco?

Uma coisa que não consigo entender, que nem os contemporâneos do Senhor entenderam. Os que esperavam a vinda do Messias em sua glória. Que não podiam entender, e que não podemos entender: pois o Senhor, como diz Kierkegaard, não é um imenso papagaio vermelho.

Se aparecesse na praça de repente e sem motivo um pássaro gigantesco muito colorido, certamente que todas as pessoas se precipitariam para vê-lo e entenderiam que não é algo muito comum.

Num caso desses, seriam muito fáceis à fé, a penitência. Mamão com açúcar. Toma lá, dá cá.

Pede-se-nos, porém, que creiamos na liberdade plena e se diria que – pior que isso – o cenário se desenvolve als ob [como se] estivéssemos não apenas completamente abandonados, mas também – além disso, um mal nunca vem só –, a providência faz de maneira intencional tudo para não crermos; dir-se-ia que lhe agrada acumular obstáculos, aumentar-nos os riscos, acrescentar argumentos para transformar em algo impossível a vontade bem intencionada de devoção.

Os caminhos que levam à fé têm o mesmo nome, todos: aposta, aventuras, incertezas, pensar de louco.

Dostoiévski: Se Deus não desceu da cruz, é decerto pelo motivo de querer converter o homem não pelo constrangimento de um milagre evidente, mas pela liberdade de crer e dando-lhe o ensejo de manifestar seu arrojo.

Quando se dizia ao Senhor no Gólgota: salva-te a ti mesmo e, então, cremos, o erro era, de fato, de ordem linguística, julgava-se com fundamento numa confusão de termos. Se tivesse descido da cruz, já não era necessário crer, pois teria havido o reconhecimento de um fato (como no caso do papagaio vermelho: a descida de cruz ter-se-ia constituído num imenso papagaio vermelho).

Pede-se-nos – um convite à valentia temerária e à aventura palpitante – algo mais misterioso e mais estranho: que contestemos a evidência e confiemos num não fato.

Age por vias tortuosas. Vias impenetráveis, dizem os franceses. Mas os ingleses são mais precisos: mexe-se de maneira misteriosa.

Leon Bloy: “Ó Cristo, que oras pelos que te crucificam e crucificas aqueles que te amam!”.

Quando Kierkegaard escreve que Deus não quer mostrar-se à maneira extravagante, deslumbrante e constrangedora de um imenso papagaio vermelho, está parafraseando as palavras de Lucas 17,20-21: “O Reino de Deus não virá com mostras algumas exteriores: nem dirão: Ei-lo aqui, ou ei-lo acolá. Porque eis que aqui está o Reino de Deus dentro de vós”.

É de admirar que um povo com uma mente tão afiada como o judeu tenha podido ater-se a um Messias glorificado, descendo do céu com uma pompa definitiva que não se poderia sofrer a mais mínima dúvida, mas apenas a prosternação, a verificação. Como não desconfiaram que o plano divino recorreria a um caminho menos simplista? A solução messiânica imaginada por Judas é de uma candura semelhante à solução cênica de um deus ex machina.

Fonte: N. Steinhardt, O Diário da Felicidade, É Realizações, São Paulo, 2009, trechos selecionados, pág. 109-110, 119-120 e 275-276).

Imagem: A Crucificação, de Matthias Grünewald (1470-1528).