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11 de março de 2014

Quem aplaca o orgulho exalta a humildade: a importância do perdão


“Quem – eu? – eu tenho de ir primeiro pedir perdão?! Por que eu deveria me humilhar e me rebaixar para ele? Quem ele pensa que é? E onde fica minha dignidade?” etc. Quem nunca disse coisas parecidas antes? Provavelmente todos nós, mas o fato é que Jesus Cristo nunca disse que deveríamos perdoar somente quando nossos oponentes viessem pedir perdão primeiro. Ele jamais ensinou que o menor deveria pedir perdão primeiro. Todos devem perdoar seus inimigos pessoais sempre que qualquer coisa tenha ferido seu orgulho. Se quem começou a briga resolver humildemente pedir desculpas a seu oponente, ser-lhe-á apagada a culpa de sua alma; se o inocente permanecer irreconciliável em seu orgulho, tornar-se-á ainda mais culpado do que quem começou a briga.

Os Santos Padres ensinam que quem perdoa sempre vence. A despeito das circunstâncias, se você perdoar, sua alma imediatamente será limpa e tornar-se-á digna do Paraíso. Se perdoar quem armou uma cilada para assassiná-lo, terá se tornado igual a um mártir. Quem aplaca o orgulho exalta a humildade.

Suponha que você tenha discutido com vizinho porque ele lhe tomou dinheiro emprestado e acabou não honrando sua dívida com você, e também não quer mais pagar-lhe de volta o que deve. O que devemos fazer para não pecar? Jesus Cristo disse que devemos perdoar! É claro que podemos gentilmente pedir-lhe que pague o que deve. Se o devedor perceber que é pecado roubar dinheiro dos outros e acabar por lhe devolvendo a soma emprestada, isso será bom para ele e para você. Mas se ele não lhe devolver, você deve deixar tudo nas mãos de Deus e perdoá-lo. Uma só prioridade você deve ter em mente – espantar o pecado! É melhor ser trapaceado do que levar o caso ao tribunal (cf. I Coríntios 6:7)!

É verdade que, agindo dessa forma, você perderá algo importante para o corpo, mas ao mesmo tempo ganhará algo muito mais precioso para a alma: você mostrará que estima o amor ao próximo mais do que o dinheiro e, assim, cortará as raízes do ódio de sua alma! É exatamente para ensinar essa verdade que Jesus Cristo deixou-lhe este mandamento: E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa. (Mateus 5:40)

O ladrão rouba a propriedade, mas Deus vê tudo. Se perdoar, Ele lhe recompensará mil vezes no céu e considerará a propriedade roubada como esmola. Então seu inimigo, contra a vontade dele, tornar-se-á seu benfeitor, e com sua ajuda você será salvo mais facilmente.

Perdendo o que é temporal você ganha o que é eterno. Como os Santos Padres tinham razão! Você consegue perceber isso, caro leitor? Se sim, bom para sua alma, mas se ao lembrar de seus inimigos e devedores você balança a cabeça em desaprovação é porque ainda não consegue imaginar como perdoar os malfeitores que lhe roubaram nem como se reconciliar com aquele que lhe insultou. Nesse caso, você não está no caminho certo – ora, são precisamente a esses inimigos odiosos que lhe é mandado perdoar. Se sua alma ainda é atormentada por pensamentos negativos, então é porque você ainda não experimentou o doce sabor do perdão; seus interesses carnais ainda falam mais alto do que os interesses espirituais. Você, todo preso na rede das coisas mundanas, não consegue alçar voo até os horizontes do espírito onde Jesus Cristo prepara uma grande bênção a Seus seguidores. Se, porém, você percebe que o conselho dos Santos Padres está certo, mesmo que eles desconheçam os interesses materiais e temporais que lhe afligem e que de qualquer forma devemos perdoar nossos inimigos, se você percebeu que há algo de profundamente verdadeiro no que acabou de ler, por mais tolo que possa parecer aos olhos do mundo, sorte a sua – pois você acaba de encontrar o caminho que leva ao Reino dos Céus.

A pessoa vingativa permanece irreconciliável. São Tikhon de Zadonsk disse muito claramente: “As portas da misericórdia de Deus estão abertas aos ladrões, aos assassinos, aos fornicadores, aos publicanos e todos os pecadores, mas estão fechadas aos vingativos”.

Fonte: Arquimandrita Seraphim Aleksiev, Strife and Reconciliation, St. Xenia Skete, Wildwood, CA, EUA, 1994.

28 de fevereiro de 2014

Quanto mais escura a noite, mais brilham as estrelas


Os sofrimentos dos infiéis são como as tempestades que tudo destroem, mas as lágrimas dos fiéis são como as chuvas finas e graciosas que fazem florescer as belas flores da virtude na alma. Eis uma das mais extraordinárias características de nossa fé cristã: ela traz a paz mesmo em meio ao sofrimento. Ela transforma os sofrimentos em júbilo.

[...]

Devemos então nos lamentar quando Deus nos manda os sofrimentos? Não, não devemos, mas devemos, isso sim, beijar a Mão que nos pune. Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, diz o Apóstolo Paulo, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. (Hebreus 12:6-8)

Não há um santo sequer que não tenha trilhado o caminho do sofrimento. São João Crisóstomo afirma: "Quando as tribulações [sofrimentos] vierem, não permitamos que esses sinais de Deus sejam tomados como abandono, mas devemos considerá-los como sinais de que o Senhor se preocupa conosco, pois, ao permitir que as tribulações recaiam sobre nós, Ele limpa nossos pecados". Deus não abandona a quem envia os sofrimentos e tribulações, mas, pelo contrário, Ele demonstra Sua proximidade. Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito. Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor o livra de todas. (Salmos 34:18-19) Quanto maior a angústia, mais próximo Deus está; quanto mais escura a noite, mais brilham as estrelas.

Cristão, sê confortado na angústia que sofres. Saibas que Deus não pune apenas os que vendem sua alma ao diabo para desfrutarem de alegrias e prazeres terrenos. Deus não castiga apenas aqueles que não são Seus. Como bom Pai, Ele não está preocupado com a correção e a educação dos filhos dos outros; todo pai castiga seus próprios filhos. Se Deus te manda tribulações e castigos, não fiques desconsolado, mas alegra-te, pois tu és um de Seus filhos e Ele ocupa-se de tua salvação! Lamenta-te um pouco. Isso não é pecado. Mas lamenta-te com fé!

Fonte: Arquimandrita Seraphim Aleksiev, The Meaning of Suffering, St. Xenia Skete, Wildwood, CA, EUA, 1994.

Imagem: Sofrimento Inconsolável, Ivan Kramskoy, 1884, Rússia.

25 de fevereiro de 2014

"Não cometi nenhum pecado importante"


Caros leitores, nós fomos criados para Deus, e somente nEle encontramos a felicidade suprema a qual nossos corações aspiram. Somente Deus pode nos fazer felizes! Dê ao homem o que quiser. Ele o desfrutará por uns tempos, mas depois se tornará indiferente à coisa porque sentirá que algo mais, algo mais elevado, está faltando. Ora, não é exatamente assim que as crianças se comportam, se divertindo com um brinquedo novo até que comecem a sentir fome? Elas deixam o brinquedo de lado e vão atrás de comida. Uma espécie de fome interior por verdade, alegria e paz no Espírito Santo (cf. Romanos 14:17) tormenta a alma e não nos deixa em paz, mesmo entre os maiores prazeres da vida e entre as realizações mais invejáveis do mundo.

É em vão que algumas pessoas não esclarecidas tentam situar os maiores males da humanidade em outra parte que não no pecado. Alguns consideram a doença com o maior dos males, outras a pobreza, outras ainda a morte. Mas nem a doença, nem a pobreza, nem a morte, nem qualquer outro desastre terreno é tão maligno quanto o pecado. Essas desgraças terrenas não nos separam de Deus se O estivermos buscando com sinceridade, mas, pelo contrário, aproximam-nos dEle.

[...]

“Não cometi nenhum pecado importante”. Não mesmo? Quando alguém fica num quarto fechado por muito tempo acaba se acostumando ao ar impuro e nem percebe como ele está desagradável. Mas se alguém de fora entra no quarto não aguentará o fedor e fugirá.

Os Santos Padres ensinam que é muito difícil para o homem enxergar seus próprios pecados. Dizem eles que essa cegueira é causada pelo diabo. Abba Isaías afirma: “Quando o homem se aparta daquele que está à sua esquerda, isto é, da comunhão com os demônios e de suas sugestões, então enxergará plenamente seus pecados contra Deus; então ele conhecerá Jesus. Mas o homem será incapaz de enxergar seus pecados até que se aparte deles mediante esforços e sofrimentos. Quem conseguiu alcançar essa condição encontrou lágrimas e orações; à medida que se recordam da amizade dissimulada com as paixões, não se acanham em olhar à Deus e viver constantemente com o espírito aquebrantado”.

Se fosse fácil enxergar nossos pecados Santo Efraim, o Sírio, não teria rezado assim: “Senhor, permita que eu enxergue minhas transgressões”. Nem teria São João de Kronstadt dito: “Eis um autêntico dom de Deus: poder enxergar seus pecados em sua multidão e em toda sua repugnância”.

No fim das contas, quem acha que não tem pecados importantes está verdadeiramente cego.

Normalmente, os pecados menores são mais perigosos do que os maiores crimes, pois estes pesam muito na consciência e insistem em serem expiados, confessados, resolvidos, apagados, enquanto os pecados menores, embora não pesem tanto na alma, possuem aquela característica perigosa de a tornarem insensível à graça de Deus e indiferente à salvação. Poucas pessoas perecem por conta de animais ferozes, mas muitas morrem por causa da ação de minúsculos micróbios, invisíveis a olho nu. Por serem considerados insignificantes, os pecados pequenos normalmente passam desapercebidos. Embora sejam facilmente esquecidos, eles criam em nós o pior dos hábitos – o hábito de pecar, de embotar a consciência moral. Assim, o miserável pecador acaba enganando-se a si próprio, concluindo que não é pecador coisa nenhuma, que tudo está bem, quando na verdade ele não passa de um escravo abjeto do pecado.


Os pecados menores engendram uma verdadeira estagnação na vida espiritual da pessoa. Assim como o relógio de parede para de funcionar por causa do acúmulo de poeira, assim também o pulso espiritual do homem gradualmente desaparece sob a camada grossa de pecados acumulados. Para que o relógio volte a funcionar, a poeira tem de ser eliminada. Para que o homem restaure sua vida espiritual, ele tem de confessar até mesmo o menor dos pecados.

Fonte: Arquimandrita Seraphim Aleksiev, The Forgotten Medicine, St. Xenia Skete, Wildwood, CA, EUA, 1994.

Imagem: O anjo da guarda indica o caminho dizendo: "Vá, confessa teus pecados a teu pai espiritual". O demônio, porém, opondo-lhe, diz: "Tu és ainda jovem, e o que quer que tenhas pecado poderás confessar no teu leito de morte". - Gravura do livro Instruções Espirituais ao Penitente, séc. XIX.