30 de maio de 2008

Como escolher uma esposa

Eis os trechos principais de uma homilia de São João Crisóstomo intitulada "Como escolher uma esposa", publicada na seleção On Marriage & Family Life (pág. 89-114). A tradução para o inglês é de Catherine P. Roth e David Anderson e a editora é a St. Vladimir´s Seminary Press (Crestwood, Nova York, 2003).

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1) Portanto, quando fordes escolher uma esposa, não examineis somente as leis do Estado, mas, antes, examineis as leis da Igreja. Deus não vos julgará no último dia segundo as leis do Estado, mas segundo Suas leis.

2) Não é mesmo uma tolice? Quando estamos sob ameaça de perder dinheiro, tomamos todos os cuidados possíveis, mas quando nossa alma está sob risco de ser eternamente punida, nem ao menos prestamos atenção.

3) Tu sabes que tem duas escolhas. Se tu escolheres uma má esposa, terás de enfrentar aborrecimentos. Se não aceitares enfrentá-los, serás culpado de adultério por divorciar-te dela. Se tivesses investigado as leis do Senhor e as conhecesse bem antes de te casares, terias tomado muito cuidado e escolhido uma esposa decente e compatível com teu caráter desde o início . Se tivesses te casado com uma esposa assim, terias ganhado não apenas o benefício de não te divorciares dela como o benefício de amá-la intensamente, conforme Paulo ordenou. Pois quando ele diz Maridos, amem vossas esposas, ele não pára por aí, mas fornece a medida deste amor, como Cristo amou a Igreja.

4) Vejamos, porém, se a beleza e a virtude da alma da noiva atraiu o Noivo. Não, ela não era atraente nem pura, conforme estas palavras de Paulo: Ele se entregou por ela para a santificar, purificando-a com a lavagem da água (Efésios 5:25-26). [...] Apesar disso, Ele não abominou sua feiúra, mas neutralizou sua repulsividade, remoldando-a, reformando-a e remitindo seus pecados. Tu deves imitá-Lo. Mesmo que tua esposa peque contra ti mais vezes do que podes contar, tu deves perdoá-la em tudo.

5) Quando surge uma infecção em nossos corpos, não cortamos o membro fora, mas tentamos curar a doença. Devemos fazer o mesmo com uma esposa.

6) Mesmo que ela não apresente melhoras em função de nossos ensinamentos, assim mesmo receberemos uma grande recompensa de Deus pela nossa paciência e por termos mostrado tanto auto-domínio em temor a Ele. Nós conseguimos suportar as maldades dela com nobreza, sem cortar o membro fora. Pois uma esposa é como se fosse um membro nosso, e por causa disso devemos amá-la. É precisamente isto que ensina Paulo: Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos...Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Cristo à Igreja; porque somos membros do Seu corpo, da Sua carne, e dos Seus ossos (Efésios 5:28-30).

7) Devemos amar nossa esposa também porque Deus estabeleceu uma lei a esse respeito quando disse: Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne (Gênesis 2:24; Efésios 5:31).

8) Assim como o noivo deixa a casa de seu pai e junta-se à noiva, assim também Cristo deixou o trono de Seu Pai e juntou-se à Sua noiva.

9) De maneira geral, a vida é composta de duas esferas de atividade: a pública e a privada. Quando Deus a diviviu assim, Ele designou a administração da vida doméstica à mulher, mas ao homem designou todas as tarefas relativas à cidade, às questões comerciais, judiciais, políticas, militares e assim por diante. [...] De fato, o que quer que o marido pense sobre questões domésticas, a esposa o saberá melhor que ele. Ela é incapaz de administrar as questões públicas competentemente, mas ela é capaz de cuidar bem dos filhos, que é o maior dos tesouros. [...] Se Deus tivesse dotado o homem para administrar ambas as esferas de atividade, teria sido fácil aos homens dispensar o gênero feminino. [...] Por isso Deus não concedeu ambas as esferas a um sexo, para que nenhum deles pareça supérfluo. Mas Deus não designou ambas as esferas igualmente a cada sexo, para que a igualdade de honra não engendre rixas e conflitos. Deus preservou a paz reservando a cada um sua esfera adequada. Ele dividiu nossas vidas em duas partes, e deu a mais necessária e importante ao homem e a parte menor e inferior à mulher. Assim, Ele organizou a vida de maneira a que admirássemos mais o homem do que a mulher, pois seus serviços são mais necessários do que os dela, e para que a mulher tivesse uma forma mais humilde e, assim, não se rebelasse contra o marido.

10) Assim sendo, eis o que tu deves buscar em uma esposa: virtude de alma e nobreza de caráter, para que desfrutes de tranquilidade, para que luxuries em harmonia e amor duradouro.

11) O homem que se casa com uma mulher rica se casa com um chefe, e não com uma esposa. Porém, o homem que se casa com uma esposa em iguais condições ou mais pobre se casa com uma ajudante e aliada, trazendo inúmeras bênçãos para dentro de casa. Sua pobreza a força a cuidar de seu marido com muito cuidado, obedecendo-o em tudo. [...] Portanto, o dinheiro é inútil quando se trata de encontrar um parceiro de boa alma.

12) Assim sendo, deixemos de lado as riquezas da esposa, mas examinenos seu caráter e sua piedade e recato. A esposa recatada, gentil e moderada, mesmo que seja pobre, irá transformar a pobreza em algo muito melhor do que a riqueza.

13) Antes de mais nada, tu deves aprender qual o propósito do casamento, e por que ele foi introduzido em nossas vidas. Não te perguntes mais nada. Qual seria, então, o objetivo do casamento, e por que Deus o criou? Ouve o que Paulo diz: Mas, por causa da tentação à imoralidade, cada um tenha a sua própria mulher (I Coríntios 7:2). [...] Portanto, não despreza o maior nem busca o menor. A riqueza é muitíssimo inferior ao recato. É somente por este motivo que devemos buscar uma esposa: para evitarmos o pecado, para nos libertarmos de toda imoralidade.

14) A beleza do corpo, se não estiver aliada à virtuda da alma, será capaz de atrair o marido somente por uns vinte ou trinta dias, mas não conseguirá ir além disto antes que a perversidade da esposa destrua toda sua atratividade. Quanto àquelas que irradiam beleza de alma, quanto mais o tempo passsa e sua nobreza se evidencia, tanto mais aquecido será o amor do marido e tanto mais ele sentirá afeição por ela.

15) É por meio do recato que o marido conseguirá atrair à sua família a boa vontade e a proteção de Deus. É assim que os homens de bem dos velhos tempos se casavam: buscando nobreza de alma em fez de riqueza monetária.

16) Quando te decidires por uma eposa, não corre atrás de ajuda humana. Volta-te a Deus, pois Ele não se envergonhará de ser vosso casamenteiro. Foi Ele mesmo quem prometeu: Buscai primeiro o Reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mateus 6:33). Não te perguntes: "Como posso ver a Deus? Afinal, Ele não falará nem conversará comigo de maneira explícita, e portanto não conseguirei Lhe fazer perguntas". Estas são palavras de uma alma de pouca fé. Deus pode facilmente organizar tudo da maneira que Ele quiser, sem o uso da voz.

17) A castidade é algo maravilhoso, mas é mais maravilhoso ainda quando está aliada à beleza física. As Escrituras nos falam sobre José e sua castidade, mas antes mencionam a beleza de seu corpo: José era formoso de porte, e de semblante (Gênesis 39:6). Em seguida, as Escrituras versam sobre sua castidade, deixando claro, assim, que a beleza não levou José a licenciosidade. Pois nem sempre a beleza causa imoralidade ou a feiúra causa recato. Muitas mulheres que resplandecem em beleza física resplandecem ainda mais em recato. Outras que são feias em aparência são ainda mais feias de alma, manchada por inúmeras imoralidades. Não é a natureza do corpo mas a inclinação da alma que produz recato ou imoralidade.

19 de maio de 2008

Os teólogos "científicos"

Eis um pequeno trecho de Meetings with Kontoglou, do Dr. Constantine Cavarnos. Kontoglou (1896-1965) foi um exímio iconógrafo e escritor ortodoxo grego, com quem o Dr. Cavarnos travou diversos diálogos.

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Meu próximo encontro com Kontoglou deu-se em sua casa, no dia 20 de abril de 1958. Nossa conversa foi sobre os teólogos gregos contemporâneos e sobre a arte bizantina no Ocidente.

Kontoglou comentou sobre certos teólogos “científicos” (epistemones), homens que estudaram teologia na Europa e trouxeram às universidades gregas um tipo de teologia mais cerebral e “liberal”. Kontoglou observou que Theocletos Pharmakidis (1784-1862) foi o primeiro teólogo grego desse tipo. Dos mais recentes, ele citou Demetrios Balanos.

Tais teólogos, dizia-me Kontoglou, consideram a teologia ortodoxa tradicional – aquela que provém das raízes do Cristianismo e dos Padres gregos – como algo “fossilizado”, e no qual eles atuariam como agentes “renovadores”. Na verdade, faltam-lhes fé e vida espiritual interior. Eles encaram a teologia como sendo uma ciência qualquer, a exemplo da química e da física, empregando a razão discursiva como ferramenta e fornecendo explicações racionalistas.

Ao criticar esse tipo de teólogo, Kontoglou citou um trecho de São Dionísio, o Areopagita, no qual o santo afirma que não é possível tomar posse das verdades do Cristianismo de maneira puramente intelectual, pois elas devem ser experimentadas, vividas. Ele também leu o seguinte trecho de São Simeão, o Novo Teólogo, o maior místicos de Bizâncio:

Aquele que julga tudo saber porque foi instruído na sabedoria secular jamais conseguirá vislumbrar os mistérios de Deus até que, antes, ele deseje humilhar-se e tornar-se um “tolo”, despindo-se de seu orgulho e do conhecimento que adquiriu. Aquele que assim o fizer, seguindo com fé inabalável os sábios nas coisas divinas e deixando-se guiar por eles, irá com eles à cidade do Deus vivo. Iluminado pelo Espírito Santo, ele verá e será ensinado naquelas coisas que nenhum homem poderá vislumbrar ou aprender. Assim, ele será ensinado por Deus (Kontoglou, Pege Zoes, “Fonte de Vida”, 1951, pág. 82).

Em um livro publicado quatro anos antes do encontro, eis o que ele escreveu sobre tais teólogos:

Os teólogos modernos se tornaram cientistas, a exemplo dos médicos, químicos e engenheiros, pois agindo assim eles conseguem ser honrados pelo mundo. Eles vão à Europa – o lugar das trevas espirituais – para ganhar um diploma. Eles enchem suas cabeças com uma multidão de filosofias vãs e voltam à nossa terra apenas para transmitir sua descrença ao invés da fé... Eles não entram no Reino dos Céus, e impedem que os outros entrem, conforme disse nosso Senhor. Seu castigo é não ver as maravilhas vistas pelos crentes, e, assim, acaba lhes faltando a contrição e se esfriam. Eles estão separados de Deus e Seu Reino porque amam a glória dos homens ao invés da glória de Deus (Semeion Mega, “A Great Sign”, 1962, pág. 16-17).

Em outro livro, Papa-Nicholas Planas, publicado três anos antes, ele novamente enfatizou a importância da fé e da piedade:

Essa gente tenta encontrar a solução dos apuros da Igreja na educação teológica “científica”. Mas o mal só pode ser remediado pela educação na piedade (eusebeia)... Que benefício a Igreja obteria enviando estudantes a, digamos, Genebra? Eles voltarão com princípios protestantes. Essas pessoas dizem que a Igreja está atrasada em um século. Ah, como seria bom se os membros da Igreja tivessem a piedade das pessoas de um século atrás! A educação científica secular é boa quando se junta à piedade (Atenas, 1965, pág. 46).

Fonte: Orthodox Christian Information Center

16 de maio de 2008

Conservadores e liberais - Pe. João Romanides

Em sua imunda campanha, os opositores da renovação hesicasta estão tachando os defensores desta tradição de “conservadores”. Mas o que “conservador” significa no Ocidente? No Ocidente, um conservador é aquele que ainda identifica a Bíblia como sendo a revelação de Deus à humanidade e ao mundo, pois, nos velhos tempos, protestantes e católicos romanos acreditavam na inspiração literal das Sagradas Escrituras. Em outras palavras, eles acreditavam que o Cristo ditou a Bíblia palavra por palavra aos profetas e autores dos evangelhos por meio do Espírito Santo, ou seja, os autores da Bíblia eram como que escribas que registravam o que quer que ouvissem o Espírito Santo dizer.

Mas eis que surgiu a crítica bíblica e, no seu bojo, o descrédito à linha de pensamento vigente, dividindo o mundo protestante em duas facções: a conservadora e a liberal. Nos EUA há distintas igrejas luteranas: a liberal e a conservadora igreja do Sínodo de Missouri. A primeira não aceita a Bíblia enquanto revelação em termos absolutos, enquanto a segunda aceita. O mesmo fenômeno pode ser observado entre os batistas. Os batistas liberais não aceitam as Sagradas Escrituras enquanto revelação literalmente inspirada, enquanto os demais as aceitam enquanto revelação inspirada, palavra por palavra. A mesma divisão pode ser observada entre os metodistas. Na verdade, o racha entre liberais e conservadores pode ser observado em todas as denominações protestantes.

Ora, será que a mesma divisão se aplica à tradição ortodoxa? Será que há Santos Padres conservadores e Santos Padres liberais? Será que há um único Padre da Igreja que tenha ensinado a inspiração literal das Sagradas Escrituras? Será que há um único Padre da Igreja que tenha identificado as Sagradas Escrituras com a experiência da theosis? Não, não há, porque a revelação de Deus à humanidade é a própria experiência da theosis. Na verdade, como a revelação é a experiência da theosis – uma experiência que transcende toda expressão e conceito – a identificação das Sagradas Escrituras com a revelação é, em termos de teologia dogmática, pura heresia.

Pode alguém que aceita o ensinamento patrístico da theosis ser caracterizado como conservador, baseado no racha sobre as Escrituras do mundo protestante? Quando os protestantes liberais ouvem falar deste princípio patrístico, dizem: “Ah, sim, isso aí é liberalismo!”, enquanto os protestantes dizem: “Não, isso aí é heresia!” Em outras palavras, quando seguimos os Padres, nós, ortodoxos, somos heréticos do ponto de vista protestante conservador.

Afinal, quem são os ortodoxos liberais e quem são os ortodoxos conservadores? São aqueles que fazem teologia à moda dos teólogos protestantes liberais e conservadores. Eis a razão por que determinados teólogos gregos têm se dividido entre liberais e conservadores. Os liberais seguem os protestantes liberais enquanto os conservadores seguem os protestantes conservadores.

Porém, será que é correto classificarmos a tradição patrística nesses termos? É claro que não. Todavia, o teólogo hesicasta da Igreja Oriental será visto como um liberal no Ocidente, pois ele se recusará a identificar o texto bíblico, incluindo seus provérbios e conceitos, com a revelação.

Dado que a revelação é a própria experiência da theosis, então a revelação está além da compreensão, da expressão e da conceitualização. Isso significa dizer que os rótulos “conservador” e “liberal” não devem ser aplicados àqueles que aderem à tradição ortodoxa. Portanto, os Padres não são nem liberais, nem conservadores. Em outras palavras, há Padres da Igreja que são santos por terem atingido a iluminação e há santos da Igreja que são santos porque, além da iluminação, atingiram também a theosis e são mais gloriosos do que a primeira classe de santos.

Esta é, pois, a tradição patrística – ou você alcança a iluminação ou você alcança a theosis após ter passado pela iluminação. A tradição ortodoxa nada mais é do que esta terapia, na qual o nous é purificado, iluminado e, no final das contas, glorificado com todo o homem, se Deus assim quiser. Ora, será que existe isso de “iluminado liberal” ou “iluminado conservador”? É claro que não. Ou você está iluminado ou não está. Ou você alcançou a theosis ou não alcançou. Ou você se submeteu a esta terapia ou não se submeteu. Além destas distinções, não há outras.

15 de maio de 2008

Qual o núcleo da tradição ortodoxa? - Pe. João Romanides

Foi-nos confiado um grande tesouro: a teologia da tradição ortodoxa. A teologia ortodoxa é o produto de séculos de experiências que têm sido repetidas, renovadas e rememoradas por aqueles que experimentaram a theosis. Assim, temos as experiências dos patriarcas e profetas bem como as experiências posteriores dos apóstolos. Chamamos todas essas experiências de “glorificações”. Dizer que um profeta foi glorificado significa dizer que o profeta viu a glória de Deus. Dizer que um apóstolo foi glorificado significa dizer que o apóstolo viu a glória de Deus. Ao ver a glória do Cristo, o apóstolo certificou-se, pela sua experiência, que a glória do Cristo no Novo Testamento é a glória de Deus no Velho Testamento. Por conseguinte, Cristo é o Yahweh e o Elohim do Velho Testamento.

Embora não esteja claro, no Velho Testamento, quem é o Espírito Santo, os apóstolos descobriram quem Ele é por experiência. A experiência deles é uma repetição da experiência dos profetas, mas há uma diferença: os apóstolos foram glorificados após a Encarnação. O Yahweh do Velho Testamento tem, agora, a natureza humana do Cristo. Embora três apóstolos tivessem sido parcialmente glorificados durante a Transfiguração no Monte Tabor, todos os apóstolos foram plenamente glorificados no Pentecostes, durante o qual alcançaram o estado mais elevado de glorificação que qualquer ser humano pode alcançar nesta vida.

Em seguida à experiência dos apóstolos vieram as experiências dos demais glorificados: os Padres da Igreja e os santos que atingiram a theosis. E a experiência da theosis continua a se manifestar em cada geração, até hoje. [63] Esta experiência da theosis é o núcleo da tradição ortodoxa, o fundamento dos concílios locais e ecumênicos, e a base da lei canônica e da vida litúrgica da Igreja.

Se os teólogos ortodoxos contemporâneos desejam adquirir objetividade em seus estudos, eles devem confiar na experiência da theosis. Em outras palavras, podemos dizer que um estudante da tradição patrística só terá adquirido verdadeira objetividade em seu método teológico quando ele mesmo tenha passado pela purificação e pela iluminação, alcançado a theosis. É somente desta maneira que o pesquisador não apenas entenderá a tradição patrística, mas verificará, por si próprio, a verdade desta tradição por meio do Espírito Santo.

Nota:

[63] Durante as últimas décadas, muitos santos da Igreja que experimentaram a theosis se tornaram conhecidos, tais como Ancião Paísio, o Hagiorita, Ancião Sofrônio de Essex, Ancião Porfírio de Atenas, Ancião Iakovos de Evia, Ancião José, o Hesicasta e Ancião Efraim de Katounakia, entre muitos outros dentro e fora da Grécia.

9 de maio de 2008

O que é o nous?

Eis o primeiro capítulo da recém-lançada tradução de Patristic Theology, do Pe. João Romanides.

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O principal interesse da Igreja Ortodoxa é a cura da alma humana. A Igreja sempre considerou a alma como sendo a parte do ser humano que precisa de cura porque a Igreja tem observado, a partir da tradição hebraica, do próprio Cristo e dos Apóstolos, que na região física do coração opera algo que os Padres chamam de nous. Em outras palavras: os Padres usaram o termo tradicional nous, que significa tanto intelecto (dianoia) quanto palavra ou razão (logos), dando-lhe um significado diferente. Não sabemos quando esta alteração de significado ocorreu, pois há Padres que usam nous para se referir à razão assim como há Padres que usam nous para se referir a essa energia noética que descende e opera na região do coração.

Portanto, sob este ponto de vista, a atividade noética é uma atividade essencial à alma. Ela opera no cérebro enquanto razão e, simultaneamente, opera no coração enquanto nous. Em outras palavras, o mesmo órgão, o nous, reza incessantemente no coração enquanto, por exemplo, pensa em problemas matemáticos no cérebro.

É importante notar que há uma diferença terminológica entre São Paulo e os Padres. O que São Paulo chama de nous é o que os Padres chamam de dianoia. Quando o Apóstolo Paulo afirma Orarei com o espírito [1], ele quer dizer o mesmo que os Padres quando afirmam Orarei com o nous. E quando ele afirma Orarei com o nous, ele quer dizer Orarei com o intelecto (dianoia). Quando os Padres usam nous, o Apóstolo Paulo usa “espírito”. Quando ele afirma Orarei com o nous, orarei com o espírito ou quando afirma Cantarei com o nous, cantarei com o espírito, e quando afirma o Espírito de Deus testifica com nosso espírito [2], ele usa a palavra “espírito” para se referir àquilo que os Padres chamam de nous. E com a palavra nous, ele quer dizer intelecto ou razão.

Na frase o Espírito de Deus testifica com nosso espírito, São Paulo fala de dois espíritos: o Espírito de Deus e o espírito humano. Por uma estranha conjunção de circunstâncias, o que São Paulo quis dizer com espírito humano, mais tarde, durante os tempos de São Macário do Egito, reapareceu com o nome de nous, e somente as palavras logos e dianoia continuaram a significar a habilidade racional do homem. E foi assim que o nous passou a ser identificado com o espírito, isto é, com o coração, já que, de acordo com São Paulo, o coração é onde está situado o espírito do homem. [3]

Assim, segundo o Apóstolo Paulo, a adoração racional ou lógica ocorre por meio do nous (isto é, razão ou intelecto) enquanto a oração noética ocorre por meio do espírito, isto é, por meio da oração espiritual ou oração do coração. [4] Portanto, quando o Apóstolo Paulo afirma eu prefiro falar cinco palavras com meu nous, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras com minha língua, [5] ele quer dizer que prefere falar cinco palavras, ou seja, falar pouco, para que outros sejam instruídos, do que orar noeticamente. Alguns monges interpretam as cinco palavras de São Paulo como sendo a Oração de Jesus [6], mas, aqui, o Apóstolo está na verdade se referindo às palavras usadas para instruir os outros. [7] Ora, como é possível ocorrer catequese com orações noéticas, já que tais orações são interiores e ninguém ao redor conseguiria ouvi-las? Porém, a catequese é possível, sim, com ensinamentos e adorações convincentes e racionais. Ensinamos e falamos usando a razão, que é o método que as pessoas usam para se comunicarem umas com as outras. [8]

Porém, aqueles que têm oração noética em seus corações conseguem se comunicar uns com os outros. Em outras palavras, eles conseguem sentar no mesmo local e se comunicar noeticamente, sem falar. Ou seja, eles são capazes de se comunicar espiritualmente. É claro que tal comunicação também ocorre quando estão afastados uns dos outros. Eles também possuem dons de clarividência e presciência. Por meio da clarividência, eles são capazes de sentir os pensamentos (logismoi) e pecados dos outros, enquanto que por meio da presciência eles conseguem ver e falar sobre assuntos, ações e eventos futuros. Tais pessoas carismáticas realmente existem. Se você se confessar com uma delas, essa pessoa saberá tudo o que você fez em vida antes mesmo que você abra a boca.

Notas

1. I Coríntios 14:15.

2. Romanos 8:16.

3. Isto significa que o Espírito de Deus fala com nosso espírito. Em outras palavras: Deus fala em nossos corações pela graça do Espírito Santo. São Gregório Palamás nota, em seu segundo discurso Em defesa dos santos hesicastas, que “o coração governa sobre todo o organismo humano... Pois o nous e todos os pensamentos (logismoi) da alma estão localizados lá”. No contexto da oração cheia de graça, fica claro que o termo “coração” não se refere ao coração físico, mas ao coração profundo, enquanto o termo nous não se refere ao intelecto (dianoia), mas à energia/atividade do coração, a atividade noética que flui da essência do nous (isto é, do coração). Por esta razão, São Gregório acrescenta que é necessário aos hesicastas que “tragam seus nous de volta, confinando-os em seus corpos e, em particular, nas profundezas de seus corpos, naquilo que chamamos de coração”. O termo “espírito” também é idêntico ao termo nous e “coração”. Philokalia, vol. IV (Londres: Faber and Faber, 1995), pág. 334.

4. O Metropolita Hierotheos Vlachos nota: “O homem tem dois centros de conhecimento: o nous, que é o órgão apropriado para receber a revelação de Deus, mais tarde traduzida em palavras pela razão, e a razão, que conhece o mundo sensível ao nosso redor”. The Person in Orthodox Tradition, tradução de Effie Mavromichali (Levadia: Monastery of the Birth of the Theotokos, 1994), pág. 24.

5. I Coríntios 14:19.

6. Em grego, a Oração de Jesus consiste de exatamente cinco palavras, em sua forma mais simples. Em português, traduz-se como “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”.

7. “Portanto, conforme ensina São João Damasceno, somos conduzidos como em uma escada no pensar de bons pensamentos...São Paulo também indica isso quando afirma ‘Eu prefiro falar cinco palavras com meu nous...’” São Pedro Damasceno, The Third Stage of Contemplation, Philokalia, 3, pág. 42.

8. A este respeito, São Nikitas Stithatos ensina: “[…] Se, enquanto ora e reza salmos, você fala em sua língua a Deus, você edifica a si próprio, conforme São Paulo afirma... Se não é para edificar seu rebanho que o pastor pretende ser enriquecido com a graça do ensinamento e do conhecimento do Espírito, então a ele falta fervor em sua busca pelos dons de Deus. Apenas orando e rezando salmos interiormente com sua língua, isto é, rezando na alma, você será edificado, mas seu nous estará improdutivo [ver I Coríntios 14:14], pois você não profetizará na língua do santo ensinamento nem edificará a Igreja de Deus. Se Paulo, que de todos os homens era o mais unido a Deus por meio da oração, preferia falar cinco palavras com seu fértil nous na igreja, para instruir os outros, do que dez mil palavras de salmos em privado com sua língua [ver I Coríntios 14:19], decerto os responsáveis por instruírem os outros se desviaram do caminho do amor caso tenham se limitado a pastorear somente com salmos e leituras”. São Nikitas Stithatos, On Spiritual Knowledge, Philokalia, vol. 4, pág. 169-170.