11 de dezembro de 2008

Entrevista com o Bispo Calisto Ware

Entrevista publicada na revista Road to Emmaus [Estrada de Emaús] no 3º trimestre de 2002.

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Nota editorial: De 8 a 10 de feveiro deste ano [2002], um membro do conselho administrativo de Estrada de Emaús esteve no retiro de fim-de-semana da Catedral Ortodoxa Antioquina de São Jorge, em Wichita, Kansas, EUA. Lá estava o Bispo Calisto Ware [elevado a Metropolita em 2007] de Diocléia na Grã-Bretanha. Há mais de 40 anos, o Bispo Calisto escreveu uma clássica introdução à Ortodoxia que, desde então, nunca foi superada em clareza, profundidade e objetividade: The Orthodox Church. Nas décadas seguintes, além de professor de Estudos em Cristianismo Oriental e pastor da paróquia ortodoxa em Oxford, ele também co-traduziu o Triodion Quaresmal e o Menaion das Festas para a língua inglesa, bem como quatro volumes do maior clássico da espiritualidade ortodoxa, a famosa Filocalia [volumes 1, 2, 3 e 4 -- o 5º e último volume ainda não foi publicado]. A dívida que o mundo de língua inglesa tem por suas explicações claras e concisas e por suas traduções fiéis às fontes e ofícios originais é enorme. Estrada de Emaús acrescenta sua parte a esta dívida, já que Sua Graça se dispôs gentilmente a nos responder algumas perguntas.

EDE: Sua Graça, muitos ortodoxos vieram de famílias católicas, protestantes, e até mesmo agnósticas. Eles em geral sentem que foi o próprio Cristo quem os conduziu à Ortodoxia. Quando nos tornamos ortodoxos, topamos com certo “constrangimento de riquezas” – ícones, ofícios, a tradição patrística, a história da Igreja – de maneira que ficamos tentados em mergulhar de cabeça nisso tudo. No entanto, é muito comum trazermos conosco experiências de cultos muito racionais ou muito emocionais. Como um convertido deve adentrar à Igreja sem que incorra nesses extremos? Não desejamos romper os laços com o passado e com as valiosas lições que aprendemos pelo caminho, mas como proceder para nos inserirmos plenamente na tradição? A Oração de Jesus é uma porta acessível ao recém-convertido?

BISPO CALISTO: Sim. O primeiro ponto que temos de entender, o qual você mesmo já citou, é que quando nos tornamos ortodoxos, devemos encarar este fato como o cumprimento de nosso passado, e não como sua negação. Devemos encará-lo como a afirmação de tudo aquilo que é bom em nossa experiência pregressa. Para mim, é sempre muito triste ver ortodoxos atacando as comunidades cristãs às quais pertenceram no passado. É claro, talvez eles queiram dizer por que se tornaram ortodoxos, ou o que eles encontraram na Ortodoxia que não havia anteriormente, mas eles devem sempre ter em mente que suas antigas comunidades cristãs, se tiveram uma, é o que os levaram à Ortodoxia. Portanto, devemos encarar a Ortodoxia como o coroamento, ou seja, como a afirmação de tudo aquilo que é bom, e não apenas como ruptura.

Dito isto, é verdade que trazemos muita bagagem conosco, e precisamos nos desfazer de parte dessa bagagem. No entanto, a coisa mais importante para uma pessoa não-ortodoxa que se sente atraída pela Ortodoxia – e aqui não importa se ela pertence a outra comunidade cristã ou se é agnóstica – é que ela deve experimentar a Ortodoxia como uma via de oração, como uma comunidade de oração.

A primeira coisa que digo a alguém que esteja interessado na Ortodoxia é: “Aprenda a rezar com a Igreja Ortodoxa”. Isso significa comparecer à Divina Liturgia (sem participar da Santa Comunhão, é claro), mas comparecer à Liturgia todo domingo, caso esteja sinceramente interessado em se juntar à Ortodoxia. Em paralelo, utilize as orações ortodoxas nas suas orações diárias, e aqui a Oração de Jesus tem seu papel. Eu os encorajo, antes mesmo de se tornarem ortodoxos, a começar a rezar a Oração de Jesus de maneira simples, mas séria e consistentemente.

Portanto, a melhor maneira de se aproximar da Ortodoxia é por meio da oração. Sim, devemos ler livros, devemos conversar com outros ortodoxos, mas, acima de tudo, devemos aprender a rezar com a Igreja Ortodoxa. Ora, é claro que isso não eliminará todas as posturas não-ortodoxas, mas, no mínimo, é por aí que devemos começar.

Então, sendo mais específico em relação à sua pergunta, o que significa ser uma pessoa? Possuímos um cérebro que raciocina, e trata-se de um dom de Deus que deve ser usado de maneira plena. Possuímos emoções, e elas também não devem ser suprimidas. Elas devem ser postas a serviço de Deus. Mas temos de reconhecer que a pessoa humana é mais do que apenas faculdades racionais e mais do que apenas sentimentos e afinidades emocionais.

Esse “algo a mais” é exatamente aquilo que a literatura tradicional ortodoxa resume em dois termos: noûs e espírito. Noûs é uma palavra difícil de traduzir. Se disséssemos que é “mente”, seria vago demais. Na tradução que fizemos da Filocalia, optamos em traduzi-la, com muita hesitação, por “intelecto”, deixando claro que “intelecto” não designa em princípio a faculdade racional do homem. [Muitos tradutores contemporâneos têm optado por não traduzir a palavra noûs, deixando-a no original grego - N. do T.] O noûs é a visão espiritual que todos nós possuímos, embora a maioria não a tenha descoberto ainda. O noûs implica em apreciação direta e intuitiva da verdade, na qual a verdade é apreendida não como se fosse a conclusão de um raciocínio, mas simplesmente vemos que algo é assim.

O noûs também é cultivado por meio do estudo, do treinamento de nossas faculdades, mas ele também é desenvolvido por meio da oração, do jejum, e da vida cristã em geral. É isso que, mais do que tudo, precisamos desenvolver enquanto ortodoxos. É algo muito mais importante e elevado do que o cérebro racional e muito mais profundo que as emoções.

EDE: Quando tentamos alcançar esse algo a mais, tudo na Ortodoxia aponta para a Santíssima Trindade e, em especial, para o Senhor, já que ele também era humano. Em sua opinião, qual o melhor caminho para que um convertido possa alcançá-Lo? O senhor mencionou a Oração de Jesus como parte integrante desse caminho. O senhor poderia esclarecer melhor o assunto?

BISPO CALISTO: De fato, a Oração de Jesus é uma via para cultivar a visão espiritual. Não se trata de uma forma de imaginação discursiva, que supostamente nos forneceria novos retratos imaginários sobre como Cristo era; também não é uma forma de imiscuir-se em argumentos teológicos que nos conduziriam a novas idéias sobre Cristo. Na verdade, a Oração de Jesus apela diretamente ao noûs, ao coração, ao espírito. Esta é uma das maneiras de alcançar este nível especial de pessoalidade do qual estávamos falando. Eu não diria que é a única via, além de que a Oração de Jesus existe num determinado contexto. Ela pressupõe que as pessoas que rezam a Oração de Jesus estejam plenamente imersas na vida sacramental da Igreja, sobretudo no sacramento da confissão e da Santa Comunhão. A Oração de Jesus anda de mãos dadas com a vida sacramental.

No entanto, gostaria de mencionar, além da Oração de Jesus e da vida sacramental, a especial importância da leitura das Escrituras. Alguns convertidos não se atentam a este detalhe porque, em geral, se entusiasmam tanto com os ícones, com o incenso, com a riqueza da Divina Liturgia etc., mas também devem refletir como é profundo o elemento bíblico e evangélico na Ortodoxia. Por “evangélico”, refiro-me ao sentido literal de “viver nos Evangelhos”.

Na Ortodoxia, cultivamos um modo todo particular de ler as Escrituras. Era algo comum tanto no Oriente quanto no Ocidente, embora não seja agora muito comum no Ocidente. Devemos ler a Bíblia não necessariamente munidos de um monte de comentários, mas devemos lê-la lentamente – ouvindo-a, lendo-a como se tivesse sido endereçada a mim mesmo. Leia-a cuidadosamente, de maneira reflexiva, meditativa, contemplativa, mas sem desenvolver argumentos, porém com uma postura de simplesmente ouvi-la.

Este é o modo tradicionalmente ortodoxo de ler as Escrituras. Não as lemos rodeados de comentários, embora isso também tenha a sua importância, mas as lemos como parte de nossas orações – não como um estudo racional mas como um ato de oração. Não devemos forçar o sentido das Escrituras de maneira que se conformem artificialmente à nossa própria condição, mas, à medida que as lemos, devemos aplicá-las a nós mesmos, não com exemplos confeccionados a partir da imaginação, mas simplesmente ouvindo-as. Creio que se as Escrituras fossem lidas desta maneira, elas nos ajudariam a cultivar uma relação pessoal com Jesus Cristo.

Quanto à Oração de Jesus, é bom sempre nos lembrarmos que ela não é uma técnica de relaxamento ou concentração. Ela é, isso sim, uma invocação pessoal, são palavras de oração direcionadas especificamente à pessoa de Jesus, nosso Salvador.

EDE: Quando comecei a ler livros ortodoxos, muitos anos atrás, iniciei pelos Relatos de um Peregrino Russo. Tínhamos também, na época, a tradução inglesa da Filocalia. Quando eu descobri que os Relatos se baseavam em livros reais, que a Filocalia existia, comprei-a imediatamente com a esperança de que, “Ahá! Agora sim, vou conseguir rezar como o peregrino”. Porém, assim que comecei a ler a Filocalia, percebi que a leitura era dificílima, que era algo que estava anos-luz à frente das minhas limitadas experiências, mas que também tinha algo a ver com o conceito de “mente no coração”. Depois de uns quatro ou cinco capítulos, a gente percebe que não tem absolutamente nenhuma idéia de como aplicar esse conceito, e fica pensando: “Será que minha mente já está no coração? Como eu chego lá? Será que eu deveria estar fazendo alguma coisa, ou será que Deus vai fazer alguma coisa por mim para que isso aconteça? Será que eu devo pensar, será que eu não devo pensar...?”

BISPO CALISTO: Sim. Em primeiro lugar, a Filocalia não é um livro fácil. De qualquer maneira, as obras da edição grega não estão organizadas por nenhum critério, ou melhor, a seqüência é meramente cronológica, mas não há um arranjo sistemático de tópicos. É até possível que leiamos a Filocalia a fim de saber o que Deus tem a dizer a nosso coração, mas é muito melhor que a leiamos com auxílio e orientação.

Se me pedissem para recomendar textos da Filocalia, eu sugeriria os Cem Textos (a Centúria) de Calisto e Ignácio Xanthopoulos. Eles se encontram no quinto volume da Filocalia, o qual ainda não foi publicado, mas que pode ser encontrado em inglês numa antiga tradução feita a partir de uma tradução russa feita por São Teófano, o Recluso, em Writings from the Philokalia on Prayer of the Heart [Textos da Filocalia sobre a Oração do Coração]. É um excelente começo. Depois, sugeriria que as pessoas lessem Hesíquio, do primeiro volume; do segundo volume, a vida do Ancião Filomeno; e também, talvez, as obras mais curtas de São Gregório do Sinai, que se encontram no quarto volume.

São textos muito úteis para principiantes mas, repito, temos de reconhecer que a Filocalia é um livro difícil. Quiçá, quando terminar o quinto volume, com a graça de Deus, eu possa preparar uma espécie de introdução à Filocalia, a qual conteria os textos mais fáceis organizados por temas. Não seria um substituto à tradução completa, mas uma introdução.

Outro livro que pode ajudar as pessoas, algo mais fácil e simples que a Filocalia, é uma antologia publicada em inglês com o título de The Art of Prayer [A Arte de Rezar], pelo Hegúmeno Chariton de Valamo. Acho que os ensinamentos da Filocalia ficam bem mais fáceis por meio das explicações de São Teófano e Santo Ignácio Brianchaninov.

Quanto à questão da mente no coração, eu não recomendaria que as pessoas começassem a pensar nisso. Eu diria para começarem com a Oração de Jesus em si. Não pense “Onde está minha mente? Será que está no coração?” Não pense “Estou rezando a Oração de Jesus”. Em vez disso, pense em Jesus. O ponto de partida é recitar a Oração de Jesus confinando a mente nas palavras da oração. Temos de estar cientes que estamos falando a Jesus. São palavras vivas de oração direcionadas para outra pessoa viva. Não fique pensando “Onde está minha mente?” Não pense em seu próprio ego, pense apenas em Jesus. Confine sua mente nas palavras da oração: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”. Concentre-se na própria recitação da oração, e todo o resto seguirá como e quando Deus desejar.

EDE: Algumas pessoas, sobretudo monges, rezam certa quantidade de Orações de Jesus por dia; outros rezam por um determinado período de tempo. O que o senhor sugeriria para um iniciante?

BISPO CALISTO: Ambas as formas são aceitáveis. No entanto, eu sugeriria a um iniciante que reserve um período de tempo, sem dar muita importância ao número de orações que conseguir recitar. Na verdade, é possível combinar as duas formas porque você rapidamente descobrirá quanto tempo leva para rezar cem Orações de Jesus. Se eu levo doze minutos, então reservarei, digamos, 25 minutos para rezar 200. Mas isso seria apenas uma sugestão. Comece com a idéia de reservar um tempo para isso. A quantidade de vezes que conseguir rezar a Oração de Jesus é menos importante, mesmo porque há muitas e diferentes tradições. Na Grécia, é comum rezá-la rapidamente, enquanto na tradição russa é costume rezá-la mais lentamente.

EDE: Se temos de rezá-la com atenção e amor, acho que faz mais sentido recitá-la lentamente. Como é possível rezá-la rapidamente, como sugere a tradição grega?

BISPO CALISTO: Eu prefiro a tradição de rezá-la mais lentamente, mas não quero julgar ninguém só porque não recito a Oração de Jesus rapidamente. Se você rezá-la livremente, ao longo do dia, conforme suas tarefas diárias lhe permitirem, é provável que o fará rapidamente, mas não tenha dúvida de que eu recomendaria às pessoas que, no tempo específico que reservarem para rezar, que o façam lentamente.

Ora, os monges frequentemente possuem regras que determinam uma quantidade fixa de repetições. Creio que isso é mais adequado à vida monástica porque ali há uma vida disciplinada, com uma seqüência fixa e elaborada de ofícios litúrgicos, de maneira que a regra de oração acaba se inserindo nesse contexto. É um contexto bem mais estruturado. Ali faz sentido dizer: “Ok, agora você vai rezar trezentas Orações de Jesus com determinado número de metanias, sejam inclinações ou prostrações”.

Quanto aos leigos, no entanto, é muito melhor dizer: “Bem, é razoável que eu reserve tanto e tanto de tempo pela manhã ou à noite”. Pode ser apenas 25 minutos, mas isso já vai fazer uma diferença enorme. Você começa daí, sem se preocupar com quantidades. Conforme ensinava Santo Isaque, o Sírio: “Não quero contar marcos, quero entrar no leito nupcial”.

EDE: Obrigado, Sua Graça, a entrevista foi excelente. Temos uma última pergunta, formulada por uma pessoa do auditório durante sua palestra, e que acho particularmente importante. Como a Oração de Jesus, que aparentemente é direcionada somente a uma pessoa da Santíssima Trindade, participa na liturgia trinitariana e na vida de oração da Igreja?

BISPO CALISTO: A dimensão trinitariana da oração é, de fato, uma questão fundamental. Não há oração verdadeira sem a Santíssima Trindade. Você poderia perguntar: “Ora, a Oração de Jesus é uma oração trinitariana?” De fato, isso faz sentido se nos detivéssemos somente em seu aspecto mais exterior; mas se nos aprofundarmos na oração, encontraremos uma dimensão trinitariana na Oração de Jesus. Primeiramente, a Oração de Jesus, sim, é uma oração direcionada a Cristo, mas falamos de Cristo enquanto Filho de Deus, e aquele que fala do Filho, fala, por conseguinte, do Pai, de maneira que, ao falar a Jesus enquanto Filho de Deus, estamos certamente incluindo em nossa oração a pessoa de Deus Pai.

E o Espírito Santo? Ele não é explicitamente mencionado na oração, mas Ele é, a despeito disso, a atmosfera na qual a oração é recitada. Um dos textos mais importantes da história da Oração de Jesus está em I Coríntios 12:3: Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo. Os santos que versam sobre a Oração de Jesus repetem este versículo das Escrituras muitas e muitas vezes. Embora o Espírito Santo não seja mencionado, Ele está ali. Invocamos Jesus no Espírito Santo. É propósito do Espírito Santo nos levar a Cristo.

Na última ceia de nosso Senhor, Cristo afirma: “Ele não falará de Si próprio, ou por Sua própria autoridade, Ele tomará o que é meu e mostrar-vos-á”. Portanto, precisamente, a função do Espírito na economia trinitariana é levar-nos a Cristo, e Cristo leva-nos ao Pai. Dessa forma, a Oração de Jesus, implicitamente, é uma oração verdadeiramente trinitariana. Uma boa maneira de pensar sobre oração é não achar que eu estou falando com Deus: “Eu, uma pessoa aqui embaixo, estou tendo um diálogo com Deus lá em cima”. Devemos pensar assim: “Eu estou entrando no diálogo de amor que continuamente perpassa por entre as Três Pessoas da Trindade”. Assim, quando rezo, não sou bem eu que estou rezando, mas é como se eu estivesse adentrando em um diálogo que já está ocorrendo. Desde a eternidade, já há um diálogo na Divindade, um diálogo de amor. Desde a eternidade, a Primeira Pessoa diz à Segunda: “Tu és meu Filho amado”. Desde a eternidade, a Segunda Pessoa responde à Primeira: “Abba, Pai, Abba, Pai”. Desde a eternidade, o Espírito Santo sela essa troca entre Pai e Filho. Assim, quando rezamos, não somos exatamente nós que rezamos, mas nós adentramos no diálogo da Trindade. Através do Espírito Santo, somos levados a falar as palavras de Cristo como se fossem nossas. No Espírito Santo, dizemos: “Abba, Pai”, e assim nos tornamos parte do eterno diálogo trinitariano.

É desta maneira que a oração é entendida, particularmente em Romanos 8. Se a lermos com cuidado, constataremos que ali há essa idéia de oração enquanto inserção no diálogo da Trindade. Podemos não sentir isso de imediato, conscientemente, mas é isso que acontece. Tornamos-nos parte do diálogo trinitariano de amor. Através do Espírito, nos tornamos filhos no Filho, e com o Filho dizemos ao Pai: “Abba, Pai”.

3 de dezembro de 2008

A veneração ortodoxa de Maria, a Deípara

Em 1933, a Irmandade São Jó de Pochaev, na cidade checa de Vladimirova, publicou um calendário religioso em cujas páginas encontravam-se algumas explicações a respeito de como os cristãos ortodoxos deveriam venerar a Theotokos, isto é, a Mãe de Deus. O Pe. Serafim (Rose) de Platina achou por bem reeditar e publicar o texto, já que muitos ortodoxos recém-convertidos, sobretudo ex-protestantes, apresentavam evidentes dificuldades na correta veneração da Mãe de Deus. O título do livro é The Orthodox Veneration of Mary The Birthgiver of God e foi publicado pela editora do Mosteiro de São Germano do Alaska, Platina, CA, EUA.

O autor daquelas explicações era o então jovem Hieromonge João, de apenas 36 anos. Mais tarde, o Pe. João seria ordenado Arcebispo de Xangai (China), depois Arcebispo da Europa Ocidental (França) e, finalmente, Arcebispo de San Francisco (EUA), no âmbito da jurisdição da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior. Essas mudanças se deram sobretudo em função da perseguição que os comunistas empreendiam contra a Igreja Ortodoxa e seus membros. No entanto, mesmo antes de seu repouso, em 1966, o Arcebispo João já era famoso por ser um taumaturgo de venerável humildade e retidão. No entanto, conforme nos atesta o Pe. Serafim Rose em sua palestra God´s Revelation to the Human Heart, o mais notável no Vladyka João não eram os milagres e maravilhas que Deus operava por meio dele, mas sua Ortodoxia do coração, isto é, o fato dele ser um autêntico transmissor da mente dos Santos Padres da Igreja. Era a verdade que ele portava, e não propriamente os milagres, que mais chamavam a atenção no Arcebispo João.

Em 1994, o Arcebispo João foi oficialmente glorificado, tornando-se São João de Xangai e San Francisco, a quem todos os fiéis podem pedir suas orações e intercessões.

As fontes utilizadas por São João neste estudo foram (1) a Bíblia, (2) as obras dos Santos Padres (especialmente os Padres dos séculos IV e V) e (3) os ofícios da Igreja Ortodoxa. O livro está disponível online aqui.

Este resumo divide-se em duas partes. Na primeira, leremos a tradução completa do capítulo VI, que contém a história da Santíssima Mãe de Deus bem como de sua veneração ortodoxa. A segunda contém o resumo do restante do livro, que descreve os diversos ataques e inimigos que a veneração à Mãe de Deus sofreu ao longo dos anos, desde os tempos apostólicos até nossos dias.

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Cap. VI - A veneração ortodoxa da Mãe de Deus.

A Igreja Ortodoxa ensina sobre a Mãe de Deus aquilo que a Santa Tradição e as Sagradas Escrituras informam sobre ela, e a glorifica diariamente em seus templos, pedindo-lhe ajuda e defesa. Sabedora de que ela se agrada somente dos louvores que correspondem à sua real glória, os Santos Padres e os compositores de hinos a imploravam, bem como a seu Filho, para que lhes ensinassem como cantar a ela. “Levanta uma proteção em meu entorno, ó meu Cristo, pois fui ousado em cantar o louvor de Tua pura Mãe” (Ikos da Dormição). “A Igreja ensina que Cristo nasceu verdadeiramente da Sempre-Virgem Maria” (São Epifânio, “A Verdadeira Palavra sobre a Fé”). “É essencial que nós confessemos a Sempre-Virgem Maria como sendo a verdadeira Theotokos (Mãe de Deus), para que não caiamos em blasfêmia. Aqueles que negam que a Santa Virgem seja realmente a Theotokos não são mais fiéis, mas discípulos de fariseus e saduceus” (Santo Efraim, o Sírio, “A João, o Monge”).

[Foto: Ícone da Deípara Soberana de Kolomenskoye.]

Da Tradição, sabemos que Maria era filha dos idosos Joaquim e Ana, e que Joaquim era da linhagem real de David, e Ana de linhagem sacerdotal. A despeito de tão nobre origem, eles eram pobres. Porém, não foi isso que entristecera os justos, mas o fato de que eles não tinham filhos e não poderiam esperar que seus descendentes vissem o Messias. E eis que, certa vez, desdenhados pelos hebreus por causa de sua esterilidade, eles oravam a Deus com grande contrição. Joaquim foi a uma montanha, logo após os sacerdotes terem negado seu sacrifício no Templo, e Ana estava em seu jardim, chorando por causa de sua esterilidade. Foi então que lhes apareceu um anjo que lhes informou que dariam luz a uma filha. Com muita alegria, eles prometeram consagrar a criança a Deus.

Em nove meses, nasceu-lhes uma menina chamada Maria, que, desde a tenra infância, manifestava as melhores qualidades de alma. Quando ela tinha três anos de idade, seus pais, cumprindo a promessa, solenemente levaram a pequena Maria ao Templo de Jerusalém; ela ascendeu sozinha as escadas e, por revelação de Deus, foi levada ao Santo dos Santos pelo sumo sacerdote, que a encontrou no caminho, levando consigo a graça de Deus que repousara sobre ela no Templo, que até então não possuía essa graça. (Cf. Kondákio da Entrada no Templo. Este era o Templo recém-construído, sobre o qual a glória de Deus ainda não havia descido como descera sobre a Arca ou sobre o Templo de Salomão). Ela foi assentada no Templo em uma área destinada às virgens, mas ela dedicava-se tanto às orações no Santo dos Santos que, dizia-se, ela morava ali. (Ofício da Entrada, segundo sticheron do Senhor, "eu clamei" e o “Glória, agora e sempre...”). Adornada com todas as virtudes, ela manifestou um exemplo de vida extraordinariamente puro. Submissa e obediente a todos, ela não ofendia ninguém, não dizia uma única palavra rude, era amiga de todos, e não se permitia pensamentos impuros. (Santo Ambrósio de Milão, “Sobre a Perpétua Virgindade da Virgem Maria”).

“A despeito da retidão e da imaculabilidade de vida que a Mãe de Deus levava, o pecado e a morte eterna manifestaram sua presença nela. Não havia outro jeito: tal é o ensinamento preciso e fiel da Igreja Ortodoxa sobre a Mãe de Deus com respeito ao pecado original e a morte” (Santo Ignácio Branchaninov, “Exposição do Ensinamento da Igreja Ortodoxa sobre a Mãe de Deus”). “Estranha a qualquer queda em pecado” (Santo Ambrósio de Milão, Comentário sobre o Salmo 118), “A ela não eram estranhas as tentações pecaminosas”. “Somente Deus é sem pecado”, (Santo Ambrósio, idem), “enquanto o homem sempre terá em si algo que necessita correção e aperfeiçoamento, para que se cumpra o mandamento de Deus; Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo (Levítico 19:2). Quanto mais puro e perfeito se é, tanto mais se notarão as imperfeições e tanto mais se há de considerar indigno".

A Virgem Maria entregou-se por completo a Deus, mas, embora tenha expulsado de si todo impulso ao pecado, sentia a fraqueza da natureza ainda mais intensamente que os demais, desejando ardentemente, portanto, a vinda do Salvador. Em sua humildade, ela considerava-se indigna até mesmo de ser a serva virgem que daria a luz a Ele. De maneira que nada pudesse distraí-la da oração e da vigilância, Maria prometeu não se casar, a fim de agradá-Lo por toda a vida. Ao ser prometida noiva ao velho José, quando sua idade não mais permitia que permanecesse no Templo, ela estabeleceu-se em sua casa, em Nazaré. Foi lá que à Virgem foi concedida a vinda do Arcanjo Gabriel, que lhe contou as boas novas do nascimento virginal, isto é, do Filho do Altíssimo.

Salve, cheia de graça, o Senhor é contigo. Bendita és tu entre as mulheres... Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus (Lucas 1:28-35).

Maria recebeu as boas novas angelicais humilde e mansamente. “Então, o Verbo, de maneira que Lhe é conhecida, desceu e, como Ele mesmo quisesse, entrou em Maria e habitou nela” (Santo Efraim, o Sírio, “Louvor à Mãe de Deus”). “Assim como o relâmpago ilumina o que está oculto, assim também Cristo purifica o que está oculto na natureza das coisas. Ele também purificou a Virgem, preparando-a pelo Espírito Santo, e seu ventre, tornando-se puro, concebeu-Lhe. Não digo que Maria tornou-se imortal, mas, iluminada pela graça, digo que ela não foi perturbada por desejos pecaminosos” (Santo Efraim, o Sírio, Homilia contra os Heréticos, 41). “A Luz habitou nela, purificou sua mente, tornou puros seus pensamentos, tornou castos seus interesses, santificou sua virgindade” (Santo Efraim, o Sírio, “Maria e Eva”). “Pura segundo o entendimento humano, Ele a tornou pura pela graça” (Santo Ignácio Brianchaninov, “Exposição do Ensinamento da Igreja Ortodoxa sobre a Mãe de Deus”).

Maria não contou a ninguém sobre o surgimento do anjo, mas o próprio anjo revelou a José a concepção miraculosa de Maria a partir do Espírito Santo (Mateus 1:18-25); e, após a Natividade de Cristo, juntamente com uma multidão dos exércitos celestiais, ele anunciou aos pastores. Os pastores, ao virem para adorar o recém-nascido, disseram que ouviram falar dEle. Após suportar suspeitas a seu respeito em silêncio, Maria, conferindo-os em seu coração, agora ouvia em silêncio os dizeres sobre a grandeza de seu Filho (Lucas 2:8-19). Quarenta dias mais tarde, ela ouviu o louvor de Simeão e a profecia sobre a arma que transpassaria sua alma. Mais tarde, ela viu como Jesus avançava em sabedoria; ela O ouviu pregando no Templo, com doze anos de idade, e a tudo ela conferia em seu coração (Lucas 2:21-51). Embora cheia de graça, ela não compreendeu plenamente em quê o serviço e a grandeza de seu Filho consistiriam. As concepções hebraicas do Messias ainda lhe eram próximas, e os sentimentos naturais a forçaram a se preocupar com Ele, preservando-O de esforços e perigos excessivos. Assim, ela protegia seu Filho involuntariamente, o que inspirou Seu ensinamento sobre a superioridade do espiritual sobre a filiação corporal (Mateus 12:46-49). “Ele também se preocupava com a honra de Sua Mãe, mas ainda mais lhe preocupava a salvação de sua alma e dos homens de bem, pois para isso vestiu-se de carne” (São João Crisóstomo, Comentários sobre João, Homilia 21). Maria entendeu isto, e ouviu a palavra de Deus e a guardou (Lucas 11:27-28). Como ninguém, ela possuía os mesmos sentimentos de Cristo (Filipenses 2:5), suportando a dor de ver seu próprio Filho sendo perseguido, sem murmurar. Alegrando-se no dia da Ressurreição e no dia de Pentecostes, ela foi revestida de poder do alto (Lucas 24:49). O Espírito Santo, que sobre ela descera, ensinou(-lhe) todas as coisas (João 14:26), e guiou(-a) em toda a verdade (João 16:13). Iluminada, ela esforçou-se com ainda mais zelo a fim de desempenhar o que ouvira de seu Filho e Redentor, e ascender a Ele para com Ele permanecer.

O fim da vida terrena da Santíssima Mãe de Deus foi o início de sua grandeza. “Adornada com a glória divina” (Irmos do Canon da Dormição), ela estará, tanto no dia do Julgamento Final quanto no século futuro, à direita do trono de seu Filho. Ela reina com Ele e é ousada para com Ele, como Sua Mãe segundo a carne, e como uma em espírito com Ele, como aquela que cumpre a vontade de Deus e instrui os demais (Mateus 5:19). Misericordiosa e cheia de amor, ela manifesta seu amor para com seu Filho e Deus em amor pela raça humana. Ela intercede pela raça humana diante do Misericordioso enquanto, na terra, auxilia os homens. Tendo experimentado todas as dificuldades da vida terrena, o Intercessor da raça cristã vê toda lágrima, ouve todo gemido e súplica a ela direcionados. Especialmente próximos a ela estão aqueles que se esforçam na batalha contra as paixões e são zelosos por uma vida agradável a Deus. No entanto, até mesmo em questões mundanas ela é uma auxiliadora insubstituível. “Alegria de todos os que sofrem e intercessora pelos ofendidos, alimentadora dos famintos, consolação dos viajantes, porto seguro em meio a tempestades, visitação dos doentes, proteção e intercessão dos enfermos, apoio dos idosos, tu és a Mãe de Deus nas alturas, ó Puríssima” (Sticheron do Ofício à Hodigitria). “Esperança e intercessão e refúgio dos cristãos”, “A Mãe de Deus incessante em orações” (Kondákion da Dormição), “salvando o mundo por tua oração incessante” (Theotokion do Terceiro Tom). “Ela ora dia e noite por nós, e os cetros dos reinos são confirmados por suas orações”.

Não há palavras ou intelecto que expressem sua grandeza, que nasceu na pecadora raça humana mas tornou-se “mais honorável que os querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os serafins”. “Vendo a graça dos mistérios ocultos de Deus se manifestar e se cumprir na virgem, eu regozijo; e não sei como entender a maneira estranha e secreta por meio da qual o Incorrupto foi revelado como o único escolhido acima de toda criação, visível e espiritual. Portanto, desejando louvá-la, torno-me mudo de assombro em mente e voz. Mesmo assim, atrevo-me a proclamá-la e a magnificá-la: ela é verdadeiramente o Tabernáculo celeste” (Ikos da Entrada no Templo). “Toda língua fracassa ao louvar-te como deveria; até mesmo um espírito do alto tem vertigens quando canta teus louvores, ó Theotokos. Mas como tu és boa, aceita nossa fé. Tu conheces como ninguém nosso amor inspirado por Deus, pois tu és a Protetora dos cristãos, e nós de magnificamos” (Irmos do 9º Cântico, Ofício da Teofania).

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Nos tempos apostólicos. O Apóstolo João, o Teólogo, cumprindo o desejo expresso por Jesus Cristo ainda na Cruz – Eis aí tua mãe (João 19:27) – tomou conta da Virgem Maria como uma mãe. Por sua vez, o Apóstolo Lucas pintou diversas imagens da Mãe de Deus. Quando ele lhe mostrou, ela teria dito: “A graça de Meu Filho estará com eles”. Antes de repousar, ela orou para que seu Filho, Jesus Cristo, a livrasse dos espíritos maliciosos que encontram as almas humanas ao longo do caminho para o céu. Na hora de sua morte, o próprio Cristo desceu dos céus, cercado de uma multidão de anjos, a fim de receber a alma de sua mãe. Além disso, a Virgem Maria também orou para que pudesse se despedir dos apóstolos. Cristo também lhe concedeu esse pedido, reunindo milagrosamente todos os apóstolos, exceto o Apóstolo Tomé, em Jerusalém. No terceiro dia após seu repouso, os apóstolos abriram sua tumba para venerar suas relíquias, pois o Apóstolo Tomé já se encontrava em Jerusalém. No entanto, seu corpo não estava lá. Ao retornarem, perplexos, os apóstolos tiveram uma visão, na qual a Mãe de Deus lhes informava que seu corpo havia sido glorificado, e que ela encontrava-se ressuscitada e diante do Trono de Cristo. Ela também prometeu estar com eles até o fim. A partir desse instante, os apóstolos passaram a venerá-la não apenas como a Mãe de Deus, mas também como sua auxiliadora celestial, como protetora dos cristãos e como intercessora em favor da raça humana diante do Juiz de tudo.

[Foto: Ícone da Deípara Soberana de Kolomenskoye, na Catedral Ortodoxa Antioquina de São Paulo, para venração dos fiéis e clérigos. Clique para ampliar.]

Os primeiros inimigos. É apenas natural que todos os que odeiem Jesus Cristo também odeiem o Evangelho, a Igreja e, por conseguinte, também a Mãe de Deus. Desde o início, inimigos surgiram com o objetivo de diminuir e menosprezar a Theotokos. É bastante significativo que o primeiro incidente ocorreu já no enterro da Mãe de Deus. Os apóstolos estavam carregando seu corpo a fim de enterrá-lo no Getsêmani. No entanto, um sacerdote judeu chamado Athonius tentou derrubar o corpo da Virgem Maria no chão, mas eis que o Arcanjo Miguel surgiu e decepou sua mão. Arrependido, Athonius pediu perdão a Cristo pelo que fez, e sua mão foi restaurada. Naqueles tempos, surgiu também um boato de que a Mãe de Deus era proveniente de uma família imoral e que teria se associado a um soldado romano, mas tal boato não se espalhou seriamente pois a fama de José e da própria Virgem era extremamente digna e excelente.

Os primeiros séculos. A alguns tradutores judeus (Áquila, Teodocião e Símaco) foi confiada uma nova tradução do Velho Testamento em grego. O objetivo de diminuir a honra e a glória da Santíssima Virgem foi mantido. Na Septuaginta, que é a versão tradicional e apostólica da Bíblia, lê-se em Isaías 7:14: Eis que a virgem conceberá. No entanto, esses tradutores trocaram a tradução da palavra hebraica Aalma de “virgem” para “jovem”. No entanto, as intenções malignas desses tradutores foram reveladas, uma vez que não apenas os cristãos mas até mesmo pagãos estranharam a nova tradução, já que suas tradições e profecias sempre falavam de um Redentor nascido de uma Virgem. Posteriormente, boatos foram lançados segundo os quais Maria permaneceu virgem somente até que deu a luz seu Filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus (Mateus 1:25). No entanto, tal malícia também não se sustentou, uma vez que a palavra “até” freqüentemente tem o sentido de eternidade, como nestes trechos:

Nos seus dias florescerá o justo, e abundância de paz haverá até durar a lua. (Salmo 71:7).

Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. (I Coríntios 15:25).

Assim como os olhos dos servos atentam para as mãos dos seus senhores, e os olhos da serva para as mãos de sua senhora, assim os nossos olhos atentam para o Senhor nosso Deus, até que tenha piedade de nós. (Salmo 122:2).

Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. (Mateus 28:20).

Quanto à questão de Jesus Cristo possuir irmãos, no sentido consangüíneo da palavra, o fato é que os “irmãos” e “irmãs” não eram filhos de Sua Mãe, e uma das muitas evidências é que o próprio Senhor confiou Sua Mãe, logo antes de Sua morte, a seu discípulo amado, São João, o Teólogo. Por que Ele assim agiria, caso a Mãe de Deus tivesse outros filhos além dEle próprio?

O Terceiro Concílio Ecumênico. No século V, o Arcebispo Nestório de Constantinopla começou a pregar uma idéia nova, segundo a qual a Virgem Maria teria dado a luz ao homem Jesus, em quem a divindade foi posteriormente conferida. Ele considerava humilhante adorar uma criança que nascera envolta em faixas numa manjedoura. Ele dizia ainda que deveríamos aprender a distinguir o Jesus homem do Filho de Deus, e que Maria não deveria ser chamada Theotokos, mas Christotokos, isto é, Mãe de Cristo. As implicações desta nova teologia eram enormes: quem sofreu por nós na Cruz não teria sido o próprio Deus, mas um homem. São Cirilo de Alexandria tentou persuadir Nestório a abandonar essa nova doutrina, e também avisou ao Papa São Celestino sobre o ocorrido. São Celestino permaneceu firme na fé ortodoxa, apelando a Nestório para que desistisse de propagar tal heresia e voltasse a pregar a doutrina tradicional. São Cirilo compôs doze anátemas, distribuídos em doze parágrafos, e declarou que ninguém poderia negar um único daqueles parágrafos sem desviar-se da fé ortodoxa. Nestório não apenas os negou, mas compôs outros doze parágrafos e afirmou o mesmo, isto é, que quem os negasse cairia em anátema. Decidiu-se então convocar um Concílio Ecumênico em Éfeso, que foi a mesma cidade onde a Mãe de Deus habitara com São João, o Teólogo. Nesse Concílio, os hierarcas da Igreja decidiram que a doutrina de Nestório era ímpia, condenando-a em seguida, e destituiu Nestório de sua sé episcopal. A cidade de Éfeso alegrou-se abundantemente com a decisão, pois a honra de Santa Maria, a Mãe de Deus, foi restaurada. Neste mesmo Concílio, a heresia de Pelágio, segundo a qual o homem pode ser salvo mediante seus próprios poderes, sem a necessidade do auxílio da graça divina, foi condenada; também se decidiu que a doutrina da Igreja Ortodoxa estava plenamente enunciada no Credo Niceno-Constantinopolitano, sendo proibida qualquer adição, sob pena de compor-se uma nova e heterodoxa fé. O Papa de Roma, São Celestino, aceitou e defendeu bravamente todas as decisões deste Terceiro Concílio Ecumênico.

Os iconoclastas. O príncipe deste mundo mais uma vez armou os filhos da apostasia para mais uma batalha, no século VIII, em Constantinopla, que, assim como Éfeso, também passara a venerar a Mãe de Deus. Esses apóstatas, chamados de iconoclastas, desejavam proibir a veneração aos ícones de Cristo e Seus santos, chamando tal prática de idolatria. Tal perseguição terminou novamente em vitória para os cristãos, cuja Ortodoxia triunfou mais uma vez, permitindo que os ícones voltassem a ser venerados.

A heresia da imaculada conceição da Virgem Maria. Esta heresia foi aceita pelos seguidores do trono papal de Roma. Embora aparentemente exalte a Virgem Maria, na verdade esta heresia nega todas as suas virtudes. Ela ensina que a Mãe de Deus teria sido poupada do pecado original pela graça de Deus. Esta heresia surgiu no século IX, quando o abade de Corvey, Paschasius Radbertus, expressou a opinião de que a Santa Virgem foi concebida sem o pecado original. Nem todos os membros da igreja romana aceitavam esta opinião. Tomás de Aquino e Bernardo de Clairvaux a censuravam com veemência, enquanto Duns Scotus a defendia. Foi só muitos séculos mais tarde, em 1854, que a imaculada conceição foi declarada dogma pela igreja romana. Mais tarde, em 1870, o mesmo papa romano, Pio IX, declarou o dogma de que os papas são infalíveis em questões de fé. No texto do dogma da imaculada conceição, citam-se inúmeros Santos Padres que teria supostamente defendido esta heresia. No entanto, quando nos debruçamos em tais declarações, verificamos que os Santos Padres exaltavam a pureza e a imaculabilidade da Mãe de Deus, mas não a imaculabilidade de sua concepção. Os mesmos Santos Padres ensinam que somente Jesus Cristo estava completamente livre de pecados, enquanto todos os homens estavam sujeitos à lei do pecado. Ademais, a igreja romana também acredita que a Mãe de Deus foi co-redentora da raça humana, em função de seu sofrimento diante da Cruz de Cristo. Dessa maneira, a Virgem Maria é colocada lado a lado com Cristo na obra da redenção, abrindo as portas para sua deificação. A Igreja Ortodoxa, por sua vez, jamais ensinou tal doutrina. Santo Ambrósio e Santo Agostinho, por exemplo, foram claros em declarar que somente Jesus Cristo era perfeitamente santo e sem pecado. A ninguém foi dado o direito de ser concebido em santidade, somente o Senhor Jesus Cristo, que foi concebido do Espírito Santo, e somente Ele é santo desde a concepção. Em suma, podemos dizer que:

(1) A imaculada conceição não corresponde às Sagradas Escrituras: Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem (I Timóteo 2:5); E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado. (I João 3:5); Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados (I Pedro 2:22); Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado (Hebreus 4:15); Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (II Coríntios 5:21).

(2) A imaculada conceição contradiz a tradição e a doutrina dos Santos Padres, conforme mencionado acima (Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo, São Basílio, o Grande, etc.).

(3) A imaculada conceição é ilógica porque, se Cristo precisasse nascer de uma Virgem que também precisasse nascer pura, então por extensão teríamos de concluir que os pais, avós, bisavós etc. da Virgem Maria também nasceram puros, sem o pecado original. Por conseguinte, todos os ancestrais de Cristo, até Adão, teriam de ter nascido puros.

(4) A imaculada conceição torna Deus um ser sem misericórdia e injusto, pois Ele salvaria pessoas a despeito suas vontades humanas, predeterminando-as antes de nascerem à salvação.

(5) A imaculada conceição nega todas as virtudes da Mãe de Deus. Se ela foi preservada de todas as impurezas, então em que consiste seu mérito? Não há vitória sem adversário. Seu “sim” foi inócuo.

2 de dezembro de 2008

Espiritualidade ortodoxa: uma breve introdução

Sendo talvez a melhor introdução contemporânea à espiritualidade ortodoxa, Orthodox Spirituality: a Brief Introduction é um pequeno mas importante livro do Metropolita Hieroteu de Nafpaktos, o qual fornece os conceitos e estágios fundamentais da vida espiritual cristã. O capítulo mais importante do livro (Degrees of spiritual perfection) não está disponível online, por isso recomendo que o leitor adquira o livro.

O objetivo do autor é livrar o leitor das influências ocidentais a respeito da vida ascética.

* * *

O homem espiritual é aquele que tem o Espírito Santo em si. Isso quer dizer que os homens do mundo são cegos, incapazes de enxergar as coisas de Deus, enquanto os homens espirituais são santos, que possuem duas características fundamentais:

1) receberam a Revelação de Deus, formulando-a posteriormente; e,
2) produzem relíquias.

A partir desta simples descrição, percebe-se que a função primordial da Igreja é levar os homens à comunhão com Deus e, de certa maneira, pode-se dizer que sua função é “produzir relíquias”. Uma Igreja sem santos não é Igreja. Ademais, conclui-se também que os santos são o próprio critério da infalibilidade dos Concílios Ecumênicos, uma vez que são portadores do Espírito Santo, isto é, do próprio Deus. Os dogmas são o resultado das decisões tomadas nos Concílios Ecumênicos, e estabelecem os limites entre verdade e erro, entre saúde e doença. Somente os santos, que receberam a Revelação de Deus, são capazes de enunciar dogmas. Os dogmas não são, portanto, meras considerações acadêmicas ou produto de estudos bíblicos. Seria impossível enunciar os dogmas somente a partir de reflexões sobre a Bíblia ou sobre as obras dos santos. Sua função é fornecer balizas, para além das quais o cristão não poderá circular sob pena de não curar sua alma, ou seja, de não atingir a comunhão com Deus. Os dogmas fornecem o quadro mental dentro do qual o cristão terá de limitar-se. Para além dele, somente trevas, ilusão e pseudo-curas o aguardam.

A principal diferença entre a espiritualidade ortodoxa e as demais espiritualidades é a ausência nestas de um método propriamente terapêutico, curativo. Para a Igreja Ortodoxa, a teologia é a própria visão da glória de Deus, isto é, uma teologia empírica, prática, mística, e leva seus membros a atingirem a chamada theoria (visão da Luz Incriada, ou seja, visão da Luz divina). No catolicismo, a teologia é eminentemente intelectual, filosófica, racional. A própria questão do Filioque é, muito além de um mero detalhe vocabular do Credo, um indício da ausência entre os católicos romanos de uma teologia verdadeiramente empírica. Outro indício é a aceitação quase cega e integral da metafísica aristotélica. Quanto aos protestantes, de maneira geral, eles crêem que a salvação vem pela aceitação racional da Revelação. Trata-se de um conceito falso, uma vez que lhes falta o essencial: a própria theoria, ou seja, a visão de Deus. Por fim, as diversas religiões orientais, embora conservem em seu bojo a prática de eliminar pensamentos e imaginações, não possuem a noção de pessoalidade e, portanto, de princípio hipostático, teantrópico. Aliado à influência da dialética filosófica que lhes é característica, as religiões orientais levam seus seguidores ao “nada”, isto é, à não-existência, abrindo as portas para influências demoníacas.

Segundo a teologia cristã ortodoxa, a alma humana, assim como o próprio Deus, é composta de essência (coração) e energia (noûs). O noûs é o “olho da alma”, e deve retornar a seu lugar natural, que é, precisamente, o coração. O coração é o centro da constituição psicossomática humana, e é lá que Deus se revela e se manifesta. O coração só pode ser encontrado asceticamente: é o que chamamos de deificação (theosis). No entanto, o pecado age dispersando o noûs em coisas mundanas, escravizando-o à razão. Por outro lado, nos santos, a razão humana funciona normalmente, no cérebro, enquanto o noûs, no coração, lembra-se incessantemente de Deus. Uma vez que retorna ao coração, o noûs pode então ascender à Trindade.

Quanto à memória, o autor cita o ensinamento do Pe. João Romanides. Segundo ele, o homem possui três memórias: (1) a memória do homem em relação a si próprio (DNA), (2) a memória do homem em relação ao mundo (células cerebrais) e (3) a memória do homem em relação a Deus (coração). Esta última memória funciona muito mal nos homens, sendo que sua cura vem por meio da oração noética (isto é, do noûs).

Portanto, cabe concluir o seguinte: qualquer espiritualidade que esteja divorciada do objetivo curar e purificar o coração, permitindo que o noûs lá reze incessantemente, é uma espiritualidade moralista, abstrata, falsa.

Segundo a tradição ortodoxa, que é revelada pelo Espírito Santo no coração dos santos, há três estágios de aperfeiçoamento espiritual. Eles encontram-se resumidos na tabela abaixo (clique para ampliar):










Os três estágios também estão representados em Lucas 15:11-32, na famosa parábola do filho pródigo, na qual o estágio (1) da purificação é representado pelos servos, o (2) da iluminação pelos jornaleiros (servos contratados) e o (3) da glorificação pelos filhos: E disse: Um certo homem tinha dois filhos; e o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. E foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos, a apascentar porcos. E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros. E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés; e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos; porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se. E o seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças. E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. E ele lhe disse: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou, e não queria entrar. E saindo o pai, instava com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas; mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se.

Os Santos Padres também ensinam que há três categorias de pessoas salvas: (1) as que obedecem para evitar o Inferno, (2) as que obedecem para ganhar o Paraíso e (3) as que obedecem por amor a Deus, isto é, por pura filiação. Nas bem-aventuranças do Sermão da Montanha, Cristo ensina claramente que o homem deve se purificar das paixões e adquirir humildade de espírito para ser digno de ver a Deus: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus (Mateus 5:3-8).

Nas obras dos Santos Padres, os três estágios de vida espiritual são caracterizados pelo uso dos termos praxis e theoria. A praxis são os feitos e esforços que desempenhamos a fim de alcançarmos a theoria, isto é, a glorificação, a visão de Deus. Chamamos a praxis de “hesicasmo”, a verdadeira ética cristã, e ela é representada pela a purificação do coração, enquanto a theoria é a iluminação do noûs e a glorificação. A praxis possui três estágios:

1) cura das faculdades da alma: inteligente, apetitiva, incensiva;
2) livramento da dor e do prazer: não há ansiedade nem aflições em relação aos problemas da vida; e,
3) purificação do coração: não há mais logismoi, isto é, não há mais pensamentos cheios de paixão (“fixações”); quando a pessoa é desatenta, os pensamentos tornam-se desejos e adentram ao coração, exercendo nele um poder destrutivo; a oração do coração, quando é incessante, impede que esses logismoi desçam da razão para o coração.

A praxis também possui um efeito colateral muito benéfico: torna a pessoa equilibrada, perfeitamente sociável, pois o egoísmo desvanece-se em favor do verdadeiro amor, qual seja, o amor a Deus.

No entanto, não podemos esquecer que a vida ascética deve estar combinada com os sacramentos. Trata-se de um ensinamento essencial da Igreja Ortodoxa. São Gregório Palamás lutou precisamente contra duas heresias bem características desse ensinamento: (1) o massalianismo (que valorizava o hesicasmo em detrimento dos sacramentos) e (2) o baarlamismo (que valorizava os sacramentos em detrimento do hesicasmo). Para receber os sacramentos, os catecúmenos passavam por quatro estágios de penitência e arrependimento, a saber:

1) fora do templo;
2) dentro do templo, mas só durante a Liturgia dos Catecúmenos;
3) dentro do templo, ao longo de toda a Liturgia, de joelhos; e,
4) dentro do templo, ao longo de toda a Liturgia, de pé, mas sem comungar.

Tais estágios fazem-se necessários porque o pecado é o obscurecimento do noûs, sendo que o arrependimento atuará para sua posterior cura e iluminação. Os sacramentos, então, entram como elementos sinérgicos, isto é, co-operadores, e dependem do estado espiritual da pessoa. Se não houver arrependimento sincero (e não mero remorso), os sacramentos atuam inversamente, isto é, causam tormentos à pessoa.

O autor lembra que a verdadeira teologia cristã é “néptica”, ou seja, está ligada à vigilância (nepsis) e à oração. A vigilância (nepsis) é a presença da razão nas portas do coração, guardando-o contra tentações, pecados e logismoi. É o que os Santos Padres chamam de “sentinela do coração”. Os logismoi podem levar um homem à insanidade, escravizando seu noûs. Esse processo ocorre em etapas, a saber:

1) acoplagem: “conversa” com os logismoi;
2) consentimento: decisão de agir segundo os logismoi;
3) desejo: o pecado é cometido; e,
4) paixão: repetição do pecado.

Dessa maneira, vigiando e orando, o homem se torna um ser verdadeiramente sociável, no sentido mais amplo e profundo do termo. Ademais, a morte é um dos maiores problemas existenciais modernos. Conforme se aproxima da morte, caso a pessoa não creia realmente na existência de Deus, lhe será dificílimo superar a insegurança e os momentos de angústia. A maior obra social da Igreja é, portanto, ajudar o homem a superar a morte, por meio dos sacramentos e do hesicasmo. Além disso, a Igreja também ensina o amor a todas as criaturas, cujo efeito trará seguramente benefícios ecológicos.

Por fim, o autor lembra que a espiritualidade é acessível a todos, isto é, a monges e leigos. As pessoas casadas devem cumprir todos os mandamentos, como os monges, afinal, há santos que foram casados. No entanto, cabe lembrar que os casados dos tempos apostólicos viviam como monges, já que o monasticismo foi criado justamente por causa da paulatina secularização da Igreja, acarretando, assim, o desaparecimento da vida ascética nas cidades. A família é o mosteiro das pessoas casadas, e é no ambiente familiar que se dará sua ascese. São Gregório Palamás lembra que os casados também podem almejar a purificação do coração. A tonsura monástica é um segundo batismo, ou seja, é a iluminação do noûs após o noviço ter passado, ao longo de seu noviciado, pela purificação do coração.

Resumo de livros

A partir deste post, pretendo publicar uma série de pequenos resumos de livros que considero essenciais para a compreensão da fé cristã ortodoxa. Alerto desde já que, por serem produto de fichamentos pessoais, certamente ocorrerão erros dos mais variados tipos, desde a omissão de trechos importantes até a má-compreensão pura e simples. Portanto, em hipótese alguma estes resumos servem de substitutos à leitura regular dos livros, nem tampouco servem de referência para qualquer discussão séria a respeito dos temas versados. Seu único propósito é fornecer ao leitor uma idéia um pouco mais clara sobre o conteúdo dos livros, bem como dar-lhe uma noção inicial a respeito das conclusões às quais chegam os autores e, eventualmente, induzi-lo a aprofundar-se no assunto.

Em minhas leituras, costumo seguir uma sábia recomendação do Pe. Serafim (Rose) de Platina, segundo a qual é mais prudente ao leitor contemporâneo que tome contato com as obras patrísticas mais próximas de seu próprio tempo e, paulatinamente, retroceda cronologicamente até os Padres e teólogos mais antigos. Isso se faz necessário porque quanto mais distante de nosso tempo, maior a probabilidade de que nuances e detalhes importantes escapem à mente e à compreensão do leitor moderno, e mais provável que o leitor se deslumbre com os feitos espirituais de outrora.

Os autores serão pelo menos os seguintes:

* Pe. Serafim (Rose) de Platina (+1982)
* São Teófano, o Recluso (+1894)
* Santo Ignácio Brianchaninov (+1867)
* São João de Xangai e San Francisco (+1966)
* Pe. João Romanides (+2001)
* Metropolita Hieroteu de Nafpaktos
* Pe. Georges Florovsky (+1979)
* Vladimir Lossky (+1958)
* Metropolita Calisto (Ware) de Diokleia
* Constantine Cavarnos
* David Bradshaw
* Pe. Damasceno (Christiansen)
* Ancião Efraim de Filoteu e do Mosteiro de Santo Antônio

Quanto ao Pe. Serafim Rose, já publiquei um pequeno resumo de seu livro sobre Santo Agostinho.

Quando algum livro estiver parcial ou totalmente disponível na internet, indicarei o link correspondente.

24 de novembro de 2008

O sentido do Natal

No dia 23 de dezembro de 2001, o jornal grego Eleftherotypia publicou um curto e complexo artigo do Metropolita Hierotheos de Nafpaktos sobre o sentido do Natal [1]. A correria para comprar presentes e enfeitar as casas oculta uma situação trágica: o produto de uma visão de mundo religiosa.

Para muitos isso representa uma surpresa. Afinal, não é bom que as pessoas tenham uma visão de mundo religiosa? Não.

Religião, conforme explica o Metropolita Hierotheos e o Pe. João Romanides neste e em outros artigos, é uma maneira mágica de se relacionar com Deus, cuja origem está na disposição decaída humana em formular doutrinas metafísicas que expliquem o Incriado, isto é, Deus. A metafísica tem por característica essencial a tentativa de demonstrar, de maneira lógica e racional, como os elementos que compõem a Divindade se relacionam entre si e com o mundo. Por conseguinte, a metafísica frequentemente implica em uma correspondente visão cosmológica. O cosmo, isto é, o mundo criado, passa então a ter uma relação perfeitamente direta e lógica com o Incriado, e é a partir daí que surgem as diversas práticas religiosas. A religião, portanto, tenderá a reintegrar o homem ao mundo das idéias, diluindo-o novamente no Ser Supremo, por meio de ritos e práticas.

A vinda de Jesus Cristo acabou com a religião. Não apenas com as religiões em geral, mas com a religião enquanto tal. A Igreja Ortodoxa, fundada por Cristo no dia de Pentecostes, não é uma religião. Na verdade, rotular a Ortodoxia de "religião" seria não apenas errado mas ofensivo. Nossa tradição não é exterior, aparente, ritualística, mas interior, néptica, hesicasta. Não somos indivíduos buscando nos conformar da melhor maneira, cosmológica e metafisicamente falando, a Deus, mas somos uma comunidade -- uma Igreja -- buscando internamente a união com as energias divinas.

[Foto: Um dos encontros do Metropolita Hierotheos com o Ancião Sofrônio (Sakharov)].

* * *

A festa do Natal de Cristo não pode ficar confinada somente a circunstâncias meramente sentimentais, ou seja, a enfeites, a interpretações intelectuais e racionalistas, a esquemas moralistas. A festa tem um sentido muito mais profundo e existencial. Se permanecermos no nível meramente exterior, então estaremos infligindo fome e sede a nós mesmos, privando-nos do sentido da vida e da liberdade existencial.

A Encarnação de Cristo era considerada e celebrada pelos Padres da Igreja e pela comunidade eclesiástica em geral como sendo a abolição da religião e a sua transformação em uma Igreja. De fato, o memorável Pe. João Romanides dizia, de maneira categórica, que Cristo se fez homem para nos libertar da doença da religião.

A palavra “religião” é mencionada nas epopéias de Homero e usada por Heródoto para expressar a adoração e a honra que uma pessoa tinha de oferecer a Deus. Etimologicamente, a palavra religião [em grego, θρησκεία] é derivada de uma palavra antiga que implica em “ascender”, ou seja, a palavra religião implica na ascese do homem a Deus. Até mesmo a palavra homem [em grego, άνθρωπος] é etimologicamente derivada da expressão “olhar para o alto”, ou seja, também implica em ascese.

No entanto, à primeira vista, parece que uma ascese pressuporia a aceitação da essência da metafísica, de acordo com a qual a alma de uma pessoa decaiu do impessoal e imortal mundo das idéias e está enclausurada num corpo, tendo de se livrar desse corpo-signo-túmulo e retornar ao mundo das idéias. Até mesmo a palavra latina religio – da qual se deriva a palavra religião – significa, de acordo com os dicionários, a união-junção-unidade do homem com Deus; ela também denota o mesmo fato, ou seja, a essência e o conteúdo da metafísica. De fato, ela também pressupõe – a exemplo das religiões orientais – uma expressão impessoal, anônima, da humanidade, dado que o homem tende a desaparecer como uma gota d´água no oceano do Ser Supremo e, por conseguinte, a eliminar a persona.

Conforme ensinava o Pe. João Romanides, o termo “religião” implica na relação do Incriado com o criado e, por conseguinte, na relação das representações do Incriado com noções e palavras do pensamento humano, sendo que tais relações são, é claro, o fundamento da religião e da adoração de ídolos. Portanto, neste caso, a face de Deus se perde, assim como a face da pessoa; o homem cai gravemente doente, dado que sua imaginação e seus vícios são cultivados ainda mais e, mais do que isso, podemos dizer que os chamados vícios naturalmente irrepreensíveis (fome, sede etc.) tornam-se vícios repreensíveis; causas de anomalias sociais por causa de ambições ilimitadas, ânsias injustas por bens e depravações sem-fim.

É famosa aquela frase de Feuerbach – repetida por Marx – de que “a religião é o ópio do povo”. Esse ponto de vista é aceitável – conforme verificamos no Oriente e nas visões religionizadas do Cristianismo Ocidental –, pois a religião estupidifica povos, mortifica sociedades e leva-as a tamanha inatividade que acaba tornando-as material de exploração para a instituição de tiranias que desprovêem a humanidade de seu direito inalienável à liberdade.

Eu gostaria de citar dois exemplos característicos das expressões religiosas.

O primeiro exemplo é o da religião budista. Sabemos que, de acordo com o budismo, o que tormenta a humanidade é o problema da dor, que se origina do desejo de viver. Daí, o objetivo final dos “iluminados” é sufocar essa paixão pela vida. A mortificação do desejo de viver é alcançada por um método especial chamado Yoga, que possui diversas variações, tais como o Hatha Yoga (união com o Brahma por meio de exercícios físicos), Karma Yoga (união com o Brahma por meio de feitos e rituais), Mantra Yoga (união com o Brahma por meio de cânticos e sílabas mágicas), Bhakti Yoga (união com o Brahma por meio da adoração absoluta de uma divindade ou do próprio guru), Jnana Yoga (união com o Brahma por meio do conhecimento místico), Kundalini Yoga (união com o Brahma por meio de atividades demoníacas), Tantra Yoga (união com o Brahma por meio de atos sexuais licenciosos). Através destes métodos, o homem supostamente alcança o Nirvana absoluto, o qual é a extinção de sua existência e seu desembaraço do desejo de viver, e cujo propósito último é evitar o Samsara – a reciclagem da vida, isto é, a reencarnação. Assim, o Atman pessoal é unido ao Brahma geral, assim como uma gota que adentra o oceano.

É óbvio que numa vida religiosa dessas não há personalidade; o homem é uma mera unidade, assim como não há sociedade; nenhuma vida social é encorajada, uma vez que esta vida é considerada um início de sofrimento.

O segundo exemplo origina-se das teorias de Anselmo de Canterbury, o teólogo escolástico que fundou o sistema cristão que prevaleceu no Ocidente e que tinha em mente o sistema feudal de organização social. Ocorre que o senhor feudal detinha honra e valor absolutos que não podiam ser violados, pois toda violação e todo distúrbio do sistema feudal – tido como obra de Deus – implicava na punição do infrator. Por conseguinte, dado que Deus é a forma suprema de justiça, que Ele possui honra e que instituiu a ordem na criação, então o infrator ou deve satisfazer o senso de justiça de Deus ou deve ser punido. Assim, Anselmo interpretou o sacrifício de Cristo na Cruz não como uma expressão de amor pela humanidade, mas como a expiação da justiça por Deus Pai. Esse sistema, aliado ao destino absoluto, engendrou enormes problemas no mundo ocidental – problemas pessoais e sociais, conforme analisados por Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

Estes dois exemplos, um do Oriente e outro do Ocidente, indicam de onde Feuerbach formulou seu slogan “a religião é o ópio do povo”. Naturalmente, nós, ortodoxos, também cremos que se dermos à religião este tipo de definição, isto é, uma definição metafísica, então fatalmente ela se tornará o ópio do povo, pois destruirá toda vida pessoal, eliminará a liberdade pessoal, e desintegrará a vida social, transformando o homem de pessoa em unidade.

Porém, o Cristianismo surgiu na história da humanidade para acabar com a religião, e para instituir a Igreja. A palavra “Igreja” é um antigo termo grego que insinua uma comunidade, uma congregação populacional – uma municipalidade – que resolve seus próprios problemas. Naturalmente, com o termo “Igreja” não implicamos algo somente exterior; implica a comunhão pessoal da humanidade com Deus e seus concidadãos, conforme verificado nos profetas do Velho Testamento, nos apóstolos do Novo Testamento, nos Atos dos Apóstolos, onde todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum; e vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister (Atos 2:44-45). Observamos esse fato nas comunas de monges, nos ensinamentos dos principais Padres da Igreja, e alcança até nosso tempo, conforme verificamos nas comunidades eclesiásticas narradas por Papadiamantis e nas memórias de Makriyannis. E sabemos muito bem, a partir de vários estudos, que tanto Papadiamantis quanto Makriyannis não eram pessoas religiosas, mas eclesiásticas, e não se inspiraram no puritanismo ocidental, mas na tradição hesicástico-néptica ortodoxa.

O maior problema dos cristãos ocidentais – e de muitos ortodoxos –, de acordo com Christos Yannaras, é a religionização do Cristianismo, transformando-o de Igreja em religião. Dessa maneira, eles cultivaram fundamentalismos, ódios, divisões, uma relação mágica com Deus, uma disposição competitiva entre si, uma visão autocentrada da vida, uma percepção utilitária e egoísta da sociedade, uma interpretação imaginária de tudo, uma abordagem sentimental da vida e, de maneira geral, a percepção de que os outros consistem – e são – uma ameaça à nossa existência.

Assim sendo, dadas estas circunstâncias, as belas árvores de Natal, as melodias sentimentais, as análises moralistas: tudo isso oculta criminosamente uma nudez existencial, transformando o homem num ser trágico.

Se os intelectuais contemporâneos investigassem o sentido do Natal de Cristo, concluiriam que, com Sua Natividade, Cristo aboliu a doença da religião e transformou-a em uma Igreja viva – com todos os sentidos autênticos que aí se consolidam. Tal é a carência do homem contemporâneo, que sofre da trindade trágica de Victor Frankl, a saber: sofrimento, culpa e morte, na medida em que percebe sua vida como sendo uma experiência pré-morte, uma morte existencial e eterna, e não apenas busca a experiência do prazer, mas, quiçá, através do prazer, busca a sobrevivência da existência.

Nota:

[1] O título original, em português, seria "A doença da religião". No entanto, a título de objetividade, decidi alterá-lo para "O sentido do Natal". Ademais, já há um ensaio do Pe. João Romanides cujo título é semelhante.

21 de novembro de 2008

Santo Agostinho e a Igreja Ortodoxa

Em 1978, o Pe. Serafim Rose, de abençoada memória, publicou em duas edições da revista The Orthodox Word um estudo sobre o Bispo Agostinho de Hipona (+430) e a maneira como os cristãos ortodoxos deveriam encará-lo e venerá-lo.

[Foto: Detalhe do ícone em mosaico bizantino de Santo Agostinho, em um dos absides da Catedral de Cefalù, Itália, século XII. Ele é comemorado nos dias 15/28 de junho e 28 de agosto/10 de setembro, data de seu repouso.]

Ocorre que Agostinho escreveu e defendeu algumas doutrinas que são consideradas errôneas do ponto de vista cristão ortodoxo. Não há teólogos ortodoxos consagrados que neguem este fato. Desde contemporâneos de Agostinho, como São João Cassiano e São Vicente de Lérins, até os mais recentes, como o Arcebispo Filareto de Chernigov e o próprio Pe. Serafim Rose, todos reconhecem que Agostinho, no mínimo, exagerou ou expressou-se mal em alguns pontos cruciais de sua vasta obra.

No entanto, motivada pela renovação patrística que se iniciou na segunda metade do século XX, uma postura outrora estranha à devoção ortodoxa despontou na mente daqueles que, por zelo excessivo pela doutrina da Igreja ou amor próprio exacerbado, tomaram para si a tarefa de resgatar e restaurar a filosofia e o ensinamento dos Santos Padres da Igreja Ortodoxa. Este zelo excessivo engendrou uma prática de caça às bruxas cujas vítimas contam-se, além dos conhecidos hereges e apóstatas da Igreja, alguns santos e veneráveis hierarcas ortodoxos que, a despeito de seus erros, triunfaram por seu amor a Cristo e pelo arrependimento sincero e verdadeiro que demonstraram.

O mais famoso destes perseguidos cristãos ortodoxos é, sem sombra de dúvida, Santo Agostinho. E foi para defendê-lo de semelhantes ataques que o Pe. Serafim Rose reuniu seus estudos em um livro, expandindo-o com notas e introduções, e publicando-o com o nome de The Place of Blessed Augustine in the Orthodox Church [O Lugar do Abençoado Agostinho na Igreja Ortodoxa]. Nele, o Pe. Serafim explica por que Agostinho pode e deve ser considerado um modelo de santidade para nós, mesmo que não possa ser considerado uma grande autoridade em questões espirituais e teológicas. A visão ortodoxa sobre o Abençoado Agostinho, tanto dos Santos Padres do Oriente quanto do Ocidente, não pende para nenhum dos extremos, isto é, os ortodoxos reconhecem sua inquestionável grandeza assim como suas inquestionáveis falhas.

Os erros de Santo Agostinho

Não restam dúvidas de que a controvérsia mais famosa em torno de Agostinho é a questão da graça e do livre arbítrio. O excesso de lógica por parte de Agostinho (o que o Pe. Serafim chamava de over-logicalness), um traço característico da mentalidade e da cultura latina a qual pertencia, levou-o a distorcer a doutrina da graça. Conhecemos bem os pontos de discórdia entre o Abençoado Agostinho e São João Cassiano, que expôs, pela primeira vez em latim, a autêntica doutrina oriental da vida monástica e espiritual. Mas o que não conhecemos tão bem são os pontos de concórdia entre eles. Influenciados pela contenda em si, não somos informados que Cassiano e Agostinho discordavam como dois Padres da Igreja, ou seja, nenhum deles julgava o outro um herege. Ambos procuravam ensinar a doutrina ortodoxa da graça e do livre arbítrio contra a heresia de Pelágio. No entanto, no calor da contenda contra o pelagianismo, Agostinho cometeu seu erro fundamental, que foi o de superestimar o papel da graça e subestimar o papel do livre arbítrio. Embora Agostinho jamais tivesse negado o livre arbítrio (ele censurava quem o fizesse), seu tratado Da repreensão e graça apresenta uma exposição exagerada em favor da graça, praticamente neutralizando o livre arbítrio [1]. A posição de São João Cassiano, apresentada em suas Conferências, é muito mais ponderada, equilibrada, quando afirma que a graça coopera com o homem que se esforça na vida cristã [2]. Esta doutrina mais tarde ganharia o nome de sinergia, isto é, a cooperação da graça divina com a liberdade humana. Para a mentalidade monástica de São João Cassiano, não há qualquer contradição entre graça e liberdade, pois tal contradição só surgiria quando a lógica humana trabalhasse de maneira abstrata e divorciada da vida.

Ligada ao erro da graça divina está a idéia da predestinação. No entanto, cabe lembrar que Agostinho jamais ensinou a doutrina calvinista da predestinação, como muitas pessoas pensam. O que Agostinho fez foi ensinar a doutrina ortodoxa da predestinação, mas de maneira exagerada. A doutrina ortodoxa encontra-se neste trecho bíblico: Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho...e aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou (Romanos 8:29-30). O erro de Agostinho foi aplicar sua over-logicalness a fim de superar as dificuldades do mistério da predestinação. Afinal, se somos predestinados, precisamos nos esforçar para alcançar a salvação? Se não somos predestinados, podemos desistir de nos esforçar, já que não ajudaria em nada mesmo? São João Crisóstomo explica este trecho: “O Apóstolo refere-se ao conhecimento anterior a fim de que nem tudo seja explicado pelo chamado... Pois se apenas o chamado fosse suficiente, então por que nem todos foram salvos? Portanto, ele afirma que a salvação dos chamados não se cumpre somente pelo chamado em si, mas também pelo conhecimento anterior, sendo que o chamado não é compulsório nem forçoso. Por conseguinte, todos foram chamados, mas nem todos obedeceram” (Homilia XV sobre Romanos). No entanto, uma das exegeses mais graves do Abençoado Agostinho foi em relação a I Timóteo 2:4 (Deus quer que todos se salvem, e venham ao conhecimento da verdade). Agostinho ensinava que Deus não quer literalmente que todos se salvem, pois se Ele predestina somente alguns para serem salvos, então Ele não poderia querer que todos se salvem. Portanto, Agostinho explicitamente defendeu a idéia de que Deus não quer que todos se salvem, o que é, sem dúvida, uma distorção grave da doutrina ortodoxa. No entanto, o Pe. Serafim Rose é claro ao afirmar que não foram propriamente as doutrinas erradas do Abençoado Agostinho que engendraram os posteriores predestinacionismos extremistas do Ocidente, mas a mentalidade super-lógica que sempre grassou entre os povos ocidentais. Tivesse Agostinho ensinado suas doutrinas no Oriente, provavelmente os predestinacionismos extremistas não teriam se desenvolvido, mas Agostinho continuaria sendo visto da maneira como sempre foi, ou seja, como um venerável Padre da Igreja que, em função de seus erros, situa-se abaixo dos grandes Padres do Oriente e Ocidente.

Santo Agostinho ao longo dos anos

Na Gália do século V, a doutrina do Abençoado Agostinho continuou a produzir controvérsias, mas apenas moderadamente. Por exemplo, Próspero de Aquitânia, o principal discípulo de Agostinho, admitiu, alguns anos após a morte de seu mestre, que Agostinho de fato havia se pronunciado muito rudemente (durius) quando defendera a idéia de que Deus não desejava que todos se salvassem (Respostas aos Capitula Gallorum, VIII). Em sua obra póstuma O Chamado de Todas as Nações (De vacatione omnium gentium), Próspero revela que a doutrina de Agostinho abrandou-se consideravelmente antes mesmo de sua morte. Nesta obra, Próspero esclarece que a graça não compele o homem, mas age em harmonia com o livre arbítrio humano.

[Foto: O mais antigo ícone de Santo Agostinho, do século VI, na Biblioteca da Igreja de São João Laterano, Roma.]

No século VI, a controvérsia agostiniana havia cessado, e a imagem de Agostinho permaneceu a mesma de sempre: a de um Padre da Igreja. Uma das maneiras mais claras de apurarmos esse dado é quando, no 5º Concílio Ecumênico, seu preâmbulo lista Agostinho como Santo Padre ao lado de santos como Atanásio, Basílio, Gregório, Cirilo, Proclo e Leão. O Papa de Roma, Vigilius, embora estivesse presente em Constantinopla, recusou-se a participar do Concílio. Meses mais tarde, aceitando a autoridade do Concílio, retratou-se de seu erro citando como exemplo as próprias retratações de Agostinho em relação a suas obras. É evidente, portanto, que no século VI Agostinho era reconhecido como Padre da Igreja.

No entanto, foi somente no século IX que o Abençoado Agostinho tornou-se controverso no Oriente, em função da contenda sobre o Filioque (a doutrina segundo a qual o Espírito Santo procede do Pai “e do Filho”, e não somente do Pai, conforme sempre ensinado no Oriente). Pela primeira vez, um Padre da Igreja grego (São Fócio, o Grande) examinou minuciosamente uma parte da teologia de Agostinho. Anteriormente, somente Padres ocidentais, embora sempre no espírito ortodoxo, haviam feito isso, e sempre em latim. Em sua Carta ao Patriarca de Aquiléia, que era um dos principais apologistas do Filioque no reino de Carlos Magno, São Fócio responde algumas objeções, das quais a principal seria de que “os grandes Ambrósio, Agostinho, Jerônimo e outros escreveram que o Espírito Santo procede também do Filho”. São Fócio respondeu: “Se dez ou mesmo vinte Padres disseram isso, 600 e muitos mais não disseram. Quem ofende aos Padres? Não seriam aqueles que, reunindo toda a piedade destes poucos Padres em umas poucas palavras, os colocam contra os concílios? Ou seriam aqueles que, em sua defesa, escolhem os demais Padres?” São Fócio continua: “Não ensinaram eles em condições complicadas, o que acarretou muitos Padres a, em parte, expressarem-se imprecisamente, em parte adaptarem-se às circunstâncias vigentes, contra ataques de inimigos, e às vezes por ignorância, a qual também estavam sujeitos?... Se alguns falaram com imprecisão, ou por alguma razão desconhecida desviaram-se do caminho certo, nós os admitimos na lista dos Padres como se não o tivessem dito, por causa de sua retidão de vida e virtude ímpar e fé, embora falhos nos demais aspectos. Nós, no entanto, não seguimos seus ensinamentos naquilo em que se desviaram da verdade... Nós não adotamos as doutrinas em cujas áreas sabemos que erraram, mas mesmo assim os abraçamos enquanto homens. Portanto, no caso daqueles que ensinaram que o Espírito procede do Filho, não admitimos que se oponham à palavra do Senhor, mas também não os lançamos fora da categoria de Padres”. O Pe. Serafim explica que se Agostinho tivesse conhecido a doutrina da Santíssima Trindade, ele não teria ensinado que o Espírito procede “do Filho”; Agostinho abordou a questão de um ponto de vista “psicológico”, inadequado à abordagem oriental nas questões sobre o conhecimento de Deus. No entanto, está claro que, mesmo num grau inferior e mesmo sob escrutínio oriental, Agostinho ainda assim era considerado santo e Padre da Igreja.

A questão da santidade de Agostinho

Nos primeiros séculos da Cristandade, a palavra “abençoado” era usada de maneira mais ou menos intercambiável com a palavra “santo”. Como não havia canonização formal naqueles tempos, a aclamação baseava-se em veneração popular. Por exemplo: São Martinho de Tours, um inquestionável santo e taumaturgo do século IV, era chamado por São Gregório de Tours de “abençoado” ou “beato” (beatus) e, às vezes, “santo” (sanctus); São Fausto de Lérins, no século V, referia-se a Agostinho como “beatíssimo” (beatissimus), enquanto São Gregório, o Grande, no século VI, referia-se a ele como “abençoado” ou “beato” (beatus), ou ainda “santo” (sanctus); São Fócio, no século IX, o chamava de “santo” (agios). No entanto, nos tempos de São Marcos de Éfeso, no século XV, a palavra “abençoado” começou a ser empregada para designar os Padres de menor autoridade; assim, São Marcos dizia “Abençoado Agostinho”, “Abençoado Gregório de Nyssa”, “Divino Ambrósio”, “Gregório, o Teólogo, grande entre os santos”, embora ele mesmo não tenha sido muito consistente nos critérios. Até hoje, na Rússia, a palavra blazhenny é usada para os Padres em torno dos quais houve alguma controvérsia, como Agostinho e Jerônimo, no Ocidente, e Teodoreto de Ciro, no Oriente, bem como para loucos-por-Cristo canonizados e não-canonizados e pessoas santas recentemente falecidas mas que ainda não foram canonizadas. Na Grécia, a situação é mais ou menos a mesma, embora lá seja mais comum a expressão “Santo Agostinho”. O teólogo grego Eustratius Argenti, bem como São Tikhon de Zadonsk, na Rússia, fizeram uso das obras de Santo Agostinho como se ele fosse um Padre da Igreja, embora tivessem reservado muito mais espaço para os Padres orientais. São João (Maximovitch) de Shanghai e San Francisco, ao ser designado bispo da diocese russa na França, encomendou a redação de um ofício de louvor a Agostinho.

Em suma, embora Agostinho não seja formalmente canonizado pela Igreja Ortodoxa e tenha cometido alguns deslizes e erros graves em determinados pontos de sua vasta obra, todos os ortodoxos podem e devem encará-lo como um Padre da Igreja que, embora de grau inferior a outros consagrados Padres, é um modelo de retidão, fé e virtude. Ninguém, portanto, pode ser censurado por chamar Agostinho de “Santo Agostinho”.

* * *

No dia 12 de outubro de 1975, o Pe. Serafim Rose enviou uma carta ao Pe. Igor Kapral, atual Metropolita Hilarion de Nova York e primaz da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, pedindo-lhe alguns conselhos sobre como lidar com os “super-ortodoxos” que insistiam em condenar Agostinho por completo. Nela, o Pe. Serafim resume sua posição a respeito do Abençoado Agostinho.

29 de setembro/12 de outubro de 1975
São Ciríaco

Caro Padre Igor,

... Agora, algo que, enfim, não é um pedido, mas uma expressão de nossa profunda preocupação com a atual missão ortodoxa. O Pe. N, em sua última edição de Witness, fez mais um ataque totalmente infundado contra o Abençoado Agostinho. Todos nós sabemos das doutrinas errôneas do Abençoado Agostinho sobre a graça – mas por que essa tentativa “fundamentalista” de destruir totalmente a imagem de alguém a quem jamais, na tradição ortodoxa, foi negado um lugar entre os Padres da Igreja? O Pe. Teodoritos, que sem dúvida expressa a opinião de outros zelotes da Grécia e da Santa Montanha, escreve-nos que sem dúvida aceitam Agostinho como santo, porque São Nicodemos da Santa Montanha aceita. Nosso Vladika João [São João de Shanghai e San Francisco] tinha um ofício composto a ele e tinha grande devoção por ele. São Nicodemos o introduziu em nosso calendário oriental (assim como o Vladika João fez com São Patrício), e nossos Padres russos do século XIX seguiram seu exemplo. O 5º Concílio Ecumênico classifica-o como autoridade teológica no mesmo nível de São Basílio, Gregório e João Crisóstomo, sem distinções. Os contemporâneos de Agostinho que dele discordavam (São Vicente de Lérins, São João Cassiano) corrigiram seus ensinamentos sem mencionar seu nome, por respeito, e muito menos o chamaram de “herege”. Outros contemporâneos seus, inclusive grandes Padres, se dirigiam a ele com enorme respeito. A tradição ortodoxa universal o aceita, sem a menor sombra de dúvida, como um Santo Padre, embora com falhas em suas doutrinas – mais ou menos como São Gregório de Nyssa, no Oriente. Por que, então, essa estranha campanha “protestante” para declarar o Abençoado Agostinho um herege, e condenar qualquer um que discorde dessa posição? Isto muito nos perturba, não tanto por causa do Abençoado Agostinho (afinal, ele era um Padre de menor peso do que os demais), mas por causa do doentio espírito “partidário” que ameaça toda a missão ortodoxa de língua inglesa. O Pe. N diz mais ou menos assim: se vocês não concordarem exatamente com o que diz o Pe. P, então vocês não são ortodoxos! Se você recomenda um catecismo do século XIX (como Vladika João sempre fazia com os convertidos), então você é um latino; se você ler Unseen Warfare [Batalha Invisível], então você está sob influência latina; se você se recusar a acreditar na evolução (!), então você está sob influência ocidental!!!

Compartilhamos nossas preocupações com o senhor porque realmente estamos sendo desmotivados por esta postura doentia, de zelo não com entendimento [Romanos 10:2]. Nós e outros tentamos nos comunicar gentilmente com o Pe. N e o Pe. P sobre estas coisas, mas a impressão é que nenhuma comunicação é possível; eles estão “certos” em todos os assuntos, eles se acham “especialistas”, e nenhuma outra opinião é possível....

Por favor, perdoe-nos por lhe incomodar com tudo isso. Nós gostaríamos muito de saber o que pensa a respeito disso tudo. Haveria alguma maneira de persuadi-los a serem menos temerários? Parece que há uma pessoa entre os “russos” que eles demonstram algum respeito – todos estariam sob “influência ocidental”. (Isso é schmemanismo!) Como fazê-los ver, antes que seja tarde demais, que todos nós devemos ser humildes e que todos nós não devemos pensar grande coisa de nossa própria “teologia”, que estamos todos nós quiçá sob “influências ocidentais” dos mais variados tipos (isso está muito claro no caso do próprio Pe. N), mas que isso não nos exclui da Ortodoxia, na medida em que estamos nos esforçando para entender a verdade.

Pedimos suas orações por nós.

Com amor em Cristo,
Serafim, monge

* * *

Notas:

[1] “Vós vos atreveríeis a dizer que quando Cristo rezou para que a fé de Pedro não falhasse, ela mesmo assim teria falhado caso Pedro assim o quisesse? Como se Pedro pudesse querer outra coisa além daquilo que Cristo quis que ele quisesse” (capítulo 17).

[2] “Ele disse: E a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo (I Coríntios 15:10). Quando ele diz trabalhei, ele demonstra o esforço de sua própria vontade; quando ele diz todavia não eu, mas a graça de Deus, ele aponta o valor da proteção divina; quando ele diz comigo, ele afirma que a graça coopera com ele quando não se encontra indolente e desleixado, mas trabalhando e se esforçando” (XIII, 13).

17 de novembro de 2008

Teologia "de brincadeira"

Neste artigo, o Metropolita Hierotheos de Nafpaktos versa sobre os falsos teólogos que, à exemplo das pessoas que se divertem dando conselhos sobre métodos práticos de suicídio, se divertem aconselhando seus ouvintes e leitores a cometerem suicídio espiritual. O autor lembra ainda que muitos desses teólogos fazem parte da Igreja Ortodoxa.

Ícone: Apóstolo São João, o Teólogo.

* * *

A época em que vivemos – essa época de informação e informática – produz certos eventos que despertam em nós surpresas e emoções. Observamos eventos trágicos, situações depressivas, atos desumanos, e chegamos ao ponto de dizer: “Mas vejam só o que o homem anda fazendo, ele que é a mais bela criação de Deus!”

Recentemente, os jornais publicaram uma notícia que nos entristeceu terrivelmente – não foi apenas o suicídio de um jovem, mas o meio pelo qual ele escolheu se suicidar.

“A opinião pública está chocada e tenta entender os detalhes que levaram ao fim trágico de um jovem de 18 anos em Ambelokipi, na periferia de Atenas. Ele obteve a informação de como se suicidar por meio de e-mails trocados na internet. Quando os funcionários da Secretaria de Segurança de Atenas informaram à pessoa que lhe fornecera os dados sobre o efeito letal de um determinado pesticida sobre o fim trágico do jovem rapaz, ela entrou em colapso psicológico, alegando que havia dado as instruções ‘só de brincadeira!’ ” (jornal Eleftheros Typos, edição de 21 de janeiro de 2008).

Este evento macabro expressa a frivolidade e a desumanidade das pessoas que, em nome da brincadeira ou mesmo do crime em si, fornecem informações que podem levar uma pessoa – sobretudo um jovem – ao fim, à aniquilação, à morte física e eterna, pois o suicídio é a coisa mais trágica que pode acontecer na vida de uma pessoa.

Porém, ao ler este artigo, ocorreu-me que também há por aí pessoas que, igualmente frívolas e desumanas, fornecem conselhos teológicos “só de brincadeira” e tornam-se, assim, a causa da morte espiritual de muitas pessoas e de muitos jovens. Não estou aqui me limitando à categoria das pessoas auto-entituladas “espirituais”, que escrevem, ensinam e aconselham jovens de forma imprudente; estou incluindo na categoria de “teólogos” as pessoas que estão dentro da Igreja, embora elas também preguem uma teologia “de brincadeira”.

A teologia da Igreja é uma palavra de conselho e que pertence à vida em si; ela é revelatória e terapêutica e, por isso, salvífica. Ela não é um conselho orientado a justificar ou disfarçar as paixões e fraquezas humanas. A palavra teológica versa sobre as paixões e sua terapia, e essencialmente indica o caminho para a união da pessoa com Deus. Observamos esse fato em todos os principais Padres da Igreja, sobretudo nos Padres da Philokalia, embora a maioria dos Padres da Igreja seja em essência “philokalianos”.

Por conseguinte, onde quer que haja “teólogos” em nossa época que falem e escrevam contemplativamente, psicologicamente ou façam uso de sua imaginação, ou seja, que expressem apenas uma teologia das paixões, então tal teólogo será apenas e tão-somente um teólogo “só de brincadeira”, o qual guiará o povo ao suicídio espiritual. E o que é pior: quando o perigo de suas atitudes lhes é apresentado, eles não sentem remorsos nem entram em colapso psicológico; ao invés disso, eles continuam a se regozijar e justificar “teologicamente” sua teologia “de brincadeira”, a qual leva ao suicídio espiritual.

E tal suicídio existencial constitui um crime eterno.

7 de novembro de 2008

Os graus de ateísmo

Este artigo do Metropolita Hierotheos de Nafpaktos foi publicado no livro "Quality of Life", editado pelo Mosteiro da Natividade da Mãe de Deus. A tradução foi feita a partir de uma tradução inglesa que, por sua vez, baseou-se no original grego.

O autor divide o ateísmo em três estágios ou graus, cujas características principais são: (1) anti-teísmo, (2) desespero e indiferença e (3) ocultismo. A ilustração acima pode ser ampliada clicando-se nela, e representa um "deserto escaldante", no qual o ateu ocultista perambula sem encontrar alívio para seus conflitos torturantes.

* * *

Todo evento e toda condição espiritual possui seus estágios. O homem desenvolve-se gradualmente, em estágios, e experimenta certas situações em estágios. Da mesma maneira, conseguimos identificar graus no pecado, assim como na virtude. Por conseguinte, podemos dizer que o ateísmo também possui determinados estágios.

Quando versamos sobre ateísmo, temos de ser um pouco cautelosos, pois uma pessoa que julgamos ser atéia pode, em verdade, não ser. Ela pode viver de maneira muito diferente da que nós, ortodoxos, vivemos, mas isso não deve necessariamente ser rotulado de “ateísmo”. Há o ateísmo teórico e o ateísmo prático; na verdade, podemos dizer que há até mesmo um “ateísmo religioso”. Esta categoria pertence às pessoas que vivem no âmbito da Igreja, mas muito superficialmente, sem nunca alcançar uma consciência pessoal da graça divina – um “conhecimento” pessoal de Deus. Os fariseus, no tempo de Cristo, observavam esse tipo bizarro de ateísmo. Eles defendiam e ensinavam a Lei, embora ignorassem o Legislador; de fato, eles não apenas ignoraram como crucificaram o Legislador. Eis porque é tão difícil traçar uma linha divisória entre fé e falta de fé: é possível parecer ser fiel e, mesmo assim, terminar em completo ateísmo e agnosticismo. Por outro lado, é possível parecer ser ateu e, mesmo assim, terminar encontrando a fé perfeita.

Apesar das dificuldades inerentes ao assunto, eu gostaria de apresentar os graus de ateísmo, conforme descritos por Clemente. Ele basicamente distingue três graus de ateísmo:

“O primeiro grau é o anti-teísmo, a revolta contra Deus em nome da liberdade e da justiça. O anti-teísmo nasce da decomposição do Cristianismo, quando este cai em silêncio mortal e transforma-se em ideologia, na esperança de que o totalitarismo possa substituir o poder perdido pelo todo”. Quando a religião vigente transforma-se em ideologia, o povo se desaponta e, influenciado por outras teorias mundanas, ataca abertamente a religião recém-morta e fossilizada. As reações são violentas; eles ridicularizam tudo o que tem a ver com religião e o fazem em nome da justiça e da liberdade. Em outras palavras, eles são revolucionários e opositores por natureza.

O segundo grau segue-se ao primeiro. Após exaurirem-se em zombarias e ataques, eles chegam a uma nova condição: “O ateísmo revolucionário e militante é enfraquecido por sua própria vitória, enquanto as massas resvalam para a indiferença...ou para o escapismo, para a ‘recreação’ provida pela ‘sociedade de espetáculos’. Os mais exigentes voltam-se contra algo finito e abrem mão de todo otimismo, desenvolvendo assim diversas filosofias ilógicas e nauseabundas”. Por conseguinte, nota-se que a indiferença e o desespero são os traços característicos deste segundo grau de ateísmo. De experiência religiosa ela passa a ser uma experiência sociológica. Exausto de tantas batalhas, o homem entra em um desespero do qual absolutamente nada poderá curá-lo. Ao invés de transformar esse desespero em um desespero voltado a Deus (em outras palavras, ao invés de arrepender-se), o homem transforma esse desespero em um desespero voltado ao mundo. Ele sente-se desiludido com tudo, e busca maneiras de aliviar seu sofrimento, mas sem sucesso.

Quando se encontra plenamente desiludido, o homem entra em um terceiro estágio de ateísmo: “Em seguida, surge um terceiro tipo de ateísmo; um ateísmo que poderíamos chamar de ‘oculto’. Busca-se por antídotos, pelo ‘deserto escaldante’ da ciência e da técnica, aspira-se por dar-lhes um ar ‘esotérico’, mas sempre dentro dos limites de uma ou de outra; em outras palavras, persevera-se na negação do Deus pessoal que se fez homem. Eles descobrem, uma vez mais, os bizarros e apócrifos potenciais do homem, e os velhos simbolismos do universo”. Durante este terceiro estágio, eles buscam “espiritualidade” nas religiões orientais, na filosofia, mas também na ilusão da justiça social de pseudo-messianismos. Podemos dizer que o homem contemporâneo está possuído por esse misticismo, por esse fenômeno mórbido.

Do que dissemos até agora, podemos extrair algumas conclusões:

A primeira é que, infelizmente, tudo aquilo que se tornou obsoleto no Ocidente está agora sendo revivido na Grécia. Estamos vivenciando situações que os ocidentais vivenciaram há 50 anos. Infelizmente, é o que está acontecendo em todos os campos. O Ocidente nos influencia, mas infelizmente é o Ocidente obsoleto que nos influencia; somos influenciados pelas coisas que o Ocidente já ultrapassou. Somos receptores de modos de vida vencidos, daí observarmos em muitos campos o fenômeno do anti-teísmo – o primeiro estágio de ateísmo – o qual já foi ultrapassado pelo Ocidente, onde já começaram a abandonar o segundo estágio e estão em busca do terceiro, isto é, estão em busca da redenção e do livramento de seus problemas internos e torturantes. Estamos sempre atrasados.

A segunda é que a tradição ortodoxa contém uma espiritualidade saudável, uma espiritualidade equilibrada e viva, que podemos vivenciar e, assim, escaparmos do trote do ocultismo mórbido. Somos capazes de adquirir o “conhecimento” pessoal de Deus. Nosso Deus não é abstrato – um Deus de filósofos e contempladores – mas um Deus real; o Deus de nossos Padres. Por que deveríamos nos entregar a um misticismo impessoal, oriental, ou a feitiçarias e assemelhados, quando nossa tradição é capaz de nos dar ensinamento e vida plena, de nos conduzir à experiência do Deus pessoal?

A Igreja Ortodoxa possui uma profundidade insondável, a qual não conseguimos discernir a olho nu; podemos até considerar a Igreja como uma instituição estabelecida, mas, para além dos aspectos superficiais, há uma realidade viva. A realidade existe, encarnada, em toda persona. A busca por esta verdade – e a busca por viver esta verdade – pode ser desviada do seu curso normal e acabar em ateísmo que, por sua vez, sugará nossa vida e toda nossa existência.