28 de novembro de 2005

Ciência Moderna e Sabedoria Tradicional

O germano-suíço Titus Burckhardt (1908-1984) dedicou sua vida ao estudo da cosmologia, da metafísica e das artes tradicionais. A exemplo de René Guénon e de boa parte da chamada escola tradicionalista (ou escola perenialista), Burckhardt centra suas análises a partir de aspectos antitradicionais da modernidade. Ele nos lembra que há, sim, um conhecimento que transcende a razão; no entanto, há dois grandes obstáculos que impedem o homem moderno de alcançá-lo. Primeiro, o significado da simbologia simplesmente nos é desconhecido. Segundo, o pensar estritamente científico, no sentido moderno e quantitativo da palavra, limita nossa imaginação.

Os quatro ensaios que exporei abaixo, escritos em alemão ao longo da década de 1970, procuram precisamente explicar, sob diferentes aspectos, que tipo de conhecimento é esse e como a modernidade o perverteu. Reunidos posteriormente numa edição espanhola intitulada Ciencia Moderna y Sabiduría Tradicional (os ensaios III e IV também foram traduzidos para o inglês e podem ser encontrados aqui), Burckhardt começa introduzindo o leitor nos fundamentos da cosmologia perene, para então mostrar como sua má aplicação prejudica o entendimento moderno em três ciências: Física, Biologia e Psicologia. Há ainda um quinto ensaio sobre a Divina Comédia (Dante Alighieri), que deixarei para analisar em outra oportunidade.

Sempre é bom lembrar que o resumo foi feito com minhas próprias palavras, a partir do entendimento que pude extrair da leitura. Às vezes, traduzi frases inteiras nos trechos que enfrentei maior dificuldade de entendimento. De qualquer forma, todas as incongruências devem ser debitadas na minha conta, jamais na do autor.


* * *

I - Cosmologia Perene

No mundo tal como é realmente, corpo, mente e espírito se entrelaçam numa ordem mais complexa do que somente "coisas" espalhadas e niveladas igualmente. Segundo as doutrinas tradicionais, o universo divide-se em três esferas: a corpórea (dada pela matéria, pelo número, pelo espaço e pelo tempo), a psíquica (livre das codições corpóreas mas ainda limitada) e a espiritual (totalmente livre de condições existenciais).

Para o homem moderno, no entanto, somente os dados registrados e medidos são reais, o que acaba engendrando uma visão um tanto totalitária do mundo. Mesmo a psicologia moderna, que poderia aliviar a visão totalitária do homem moderno, não consegue mais do que fazê-lo oscilar entre a "realidade" única das coisas exteriores e um subjetivismo psicológico desorientativo.

Ora, dizer que a Terra é plana, como os antigos poderiam eventualmente supor, é um erro muito menor do que afirmar, como os modernos o fazem, que a percepção sensorial é apenas um processo físico. Isso porque aquele é um erro sobre um aspecto particular do mundo criado enquanto este é um erro sobre a natureza do mundo criado.

Uma ciência que se limita ao corpóreo não pode ser designada como "cosmologia". Isso se explica pelo fato de que kosmos, em grego, implica em forma, uma lei interior que, conforme vimos em estudos anteriores, é negada pelos modernos. Esse aspecto qualitativo não pode ser apreendido somente pela razão, mas principalmente pela intuição espiritual, que Guénon denominava intuição intelectual.

A intuição espiritual, ao contrário do que o consenso moderno ensina, não é feeling nem premonição. A verdadeira intuição espiritual é ainda menos subjetiva do que as verdades às quais a razão chega. Por exemplo, a intuição espiritual, em seu grau mais elevado, pode referir-se à essência do próprio Deus. Ora, trata-se de uma verdade muito superior a qualquer teologia. Em resumo:

  • Teologia: deduz e ensina a partir de dogmas, limitando-se a uma visão pessoas de Deus como criador, conservador e redentor.
  • Intuição espiritual: não está ligada a nenhuma forma pré-fixada, penetrando até o fundo suprapessoal da Divindade, do Absoluto.

Ora, a metafísica é precisamente a visão espiritual que se abre ao Absoluto, ao Infinito ("para cima"). A cosmologia, por sua vez, se abre à existência, ao mundo criado ("para baixo"), mas precisa de uma metafísica para que dela extraia suas certezas últimas.

A teologia precisa validar-se a partir de uma infraestrutura cosmológica coerente. O homem moderno, ao valorizar excessivamente os progressos materiais, obstaculiza o conhecimento da onipresença e onipotência de Deus ao subordinar os aspectos qualitativos aos quantitativos. Tal postura gera erros cosmológicos que, para serem corrigidos, precisam de um "antídoto": uma visão metafísica de Deus. A concepção metafísica, por exemplo, jamais cairá na tentação de considerar um aspecto parcial do cosmo (o mundo corpóreo) como algo independente.

O objeto da cosmologia é a existência diferenciada, criada; seu pressuposto é a doutrina do Ser unitário, compreendida por sua vez na doutrina do Infinito e do Absoluto da metafísica pura. Portanto, o saber tradicional garante conhecimentos incomparavelmente mais profundos e reais do que todos os ensinamentos da ciência moderna, embora às vezes, no plano meramente empírico, as representações do saber tradicional sejam "ingênuas", isto é, simplesmente humanas.

Segundo a cosmologia cristã, o Logos é a origem do universo, a quintessência da existência na qual estão contidas todas as coisas criadas: "Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. " (João 1:3-9).

Este aspecto cosmológico do Logos pode ser melhor descrito pela concepção de Plotino, segundo o qual o Espírito, emanado do Uno, olha o Uno e o reflete, trazendo objetividade àquilo que vê. Essa objetividade não é uma ação material, mas uma emanação, já que nada é subtraído do Uno. É fácil perceber que o Espírito é o próprio Logos, o Intelecto.

Não há dúvida de que existe uma diferença entre a representação bíblica da criação e a doutrina plotiniana da emanação da existência a partir do Uno. Mas essa diferença não é difícil de superar, uma vez que enfocamos as terminologias com o devido cuidado. Por exemplo, a Bíblia ensina que Deus criou o mundo do nada. Isso quer dizer que não havia matéria fora de Deus. Similarmente, a metafísica plotiniana ensina que o mundo emana de Deus. Outro exemplo: a Bíblia ensina que o mundo começou no mesmo momento em que Deus o criou. Segundo os filósofos gregos (Plotino inclusive), o cosmo é uma expressão de Deus e, portanto, eterno. A aparente contradição é facilmente solúvel quando entendemos que o começo do mundo não é de natureza temporal, embora o expressemos como tal pois necessitamos de uma representação simbólica que dê conta da ação de Deus.

A cosmologia cristã -- bem como a islâmica e a hebraica -- tomou de Aristóteles o pensamento analítico e de Platão a teoria dos arquétipos. Mas o que isso tudo tem a ver com fé? Ora, enquanto a cosmologia tem um caráter cognoscitivo impessoal, a fé parte de uma decisão pessoal a partir de algo pré-sentido ("a fé vem pelo ouvido"). Pois a visão antiga e medieval do mundo -- cosmologia e filosofia -- estavam estreitamente vinculadas entre si. Separaram-se precisamente quando a cosmologia se reduziu a uma mera descrição do universo visível; assim, a filosofia perdeu seu fundo universalmente válido e assume gradualmente o caráter solitário, oportunista e arbitrário que hoje a caracteriza.

II - Ciência Ignorante

Neste ensaio, Burckhardt aplica os conceitos cosmológicos e metafísicos descritos acima na análise da Física moderna. Segundo o autor, todos os erros das chamadas "ciências exatas" provém de uma má compreensão fundamental: a de que a existência do sujeito humana é prescindível nas experiências e teorias. Ora, é justamente no espelho contido no homem que os fenômenos do mundo se revelam.

Isso quer dizer que o conhecimento objetivo do mundo pressupõe certos critérios indiscutíveis que existem precisamente no sujeito individual. Afinal, tem de haver um fundo imparcial que traz unidade à ciência: é o espírito puro. Sem perceber, o homem moderno o afirma ao propor a objetividade absoluta da ciência. Ocorre que, ao matematizar tudo, a ciência moderna capta apenas o aspecto quantitativo dos fenômenos que visa explicar, peneirando o qualitativo. Para a cosmologia tradicional, são justamente os aspectos qualitativos, que transcendem os quantitativos, que interessam. Por exemplo, para o homem moderno, as cores não passam de impressões subjetivas de diferentes graus de oscilação de luz.

Nesse processo de peneiragem, a ciência moderna despreza não só as qualidades secundárias (cor, odor etc.) mas também a essência, a forma. Tal essência não se descobre por uma árdua investigação científica (moderna) simplesmente porque não são mensuráveis. Eis por que a cosmologia é direta e especulativa, pois capta as verdades de forma imediata, sem rodeios. São, digamos, "verdades poéticas". Se considerarmos a dimensão horizontal como a da existência material, a dimensão das qualidades cósmicas é vertical, pois une o inferior com o superior, o transitório com o eterno.

O suposto progresso científico é altamente duvidoso. Uma dominação não-sábia da natureza provoca conseqüências desastrosas (p.ex.: poluição, fissão atômica, controle de natalidade etc). Isso acontece porque a ciência moderna é manca, ou seja, é uma mistura de sabedoria com ignorância: enquanto a matemática lida com as características descontínuas do número, as relações contínuas e sutis são olimpicamente ignoradas.

Uma questão física que é aos modernos difícil de lidar é a respeito dos campos magnéticos. Como os campos magnéticos se sustentam? Afinal, não pode haver espaço vazio, uma típica intuição que o homem moderno não tem.

Segundo a cosmologia tradicional, o espaço está uniformemente cheio de éter. Todavia, logo depois de comprovar que não há obstáculos para o movimento de rotação da Terra, a Física moderna conclui que o éter não existe. Ora, os físicos modernos esquecem-se que este "quinto elemento", que constitui o fundamento de todos os modos de ser materiais, não possui em si nenhuma qualidade física particular. Ele representa, na verdade, o fundo contínuo do qual se destacam todas as descontinuidades materiais, de modo que não pode se opor a coisa alguma. Portanto, a inexistência do éter não poderia ter sido concluída após verificar-se que a Terra não possui obstáculos ao seu movimento.

Se a ciência moderna aceitasse a presença do éter, talvez pudesse responder se a luz se propaga como onda ou como emanação corpuscular. Ora, é provável que a propagação da luz não se explique nem de uma forma nem de outra: a luz está em relação direta com o éter e, como tal, participa da sua natureza contínua e indiferenciada. A luz é contínua como o éter.

Outro dilema diz respeito à relatividade. Supõem-se que a famosa velocidade da luz é "constante". Mas como pode um movimento com uma determinada velocidade, cuja definição seguirá sendo uma determinada relação entre espaço e tempo (km/s, por exemplo), ser em si mesmo a medida absoluta das condições do estado físico? Ora, claro está que a natureza da luz é fundamental para todo o mundo físico e que o movimento da luz representa algo assim como a "medida cósmica" do mundo. Mas por que se ater infantilmente ao valor 300.000 km/s? Ou seja, como pode a velocidade da luz ser fixa se a velocidade é medida por tempo e espaço, que são em si mesmos relativos?

É possível, portanto, que todas as distâncias entre os astros calculadas em "anos-luz" tenham uma validez tão subjetiva quanto as relações de qualquer cosmologia "obsoleta", sem falar que o conhecimento da natureza está condicionado aos limites de nossas faculdades sensoriais.

A doutrina tradicional ensina que as matérias -- visíveis ou invisíveis -- são compostas entre dois pólos: a essência plasmadora (introjetada pela ação imóvel do espírito criador) e a matéria indiferenciada (a materia prima). É como a luz incolor da qual originam-se cores num meio também incolor (água, cristal etc). No entanto, a Física moderna reduz tudo ao mundo corpuscular, ou seja, à quantidade. Fazendo isso, a Física aproxima-se perigosamente da indeterminação, afastando-se da determinação qualitativa. É o caso da cisão atômica, por exemplo.

Embora os homens antigos e medievais tivessem concepções físicas errôneas, eram sabedores de algo infinitamente mais importante: que a realidade não está limitada à matéria. Curiosamente, o homem moderno sabe que uma pequena irregularidade nos movimentos astronômicos, a inclusão de um astro estranho no sistema planetário, uma variação na trajetória solar ou qualquer outro acidente cósmico bastaria para destruir a humanidade. Não obstante, o homem moderno vive e atua como se o desenvolvimento normal e cotidiano dos ritmos da natureza lhe estivesse assegurado. Ele não pensa nem nos abismos do mundo estelar nem nas terríveis forças latentes em cada elemento da matéria. Ele contempla o céu acima de si como qualquer menino, com o Sol e as estrelas, pois a lembrança das teorias astronômicas o impede de conhecer os signos vivos, tornando-o incapaz de vê-los como são: a manifestação natural do Espírito que engloba o mundo e o ilumina.

III - A Origem das Espécies

Burckhardt inicia sua explanação sobre a origem das espécies lembrando que as quantidades se somam, mas as qualidade não: elas assumem uma nova característica, que participa de certa forma das outras mas, em verdade, é algo novo. É como a mistura de azul com amarelo com a qual se obtém o verde. O verde é um salto qualitativo em relação às cores anteriores.

Na natureza, as coisas funcionam assim também. Entre o ovo e o pássaro, entre a mariposa e a larva, há uma diferença qualitativa, um salto. Essa qualidade é dada pela forma, que, conforme vimos nos estudos anteriores, é a quintessência das qualidades de uma coisa ou de um ser, a marca de sua essência imutável.

No mundo individual ao qual nossos sentidos têm acesso, as coisas são compostas por forma (que, em essência, não é individual, mas um arquétipo) e matéria (física ou psíquica). A forma é, em outras palavras, uma unidade cognoscitiva e, como tal, está contida primordialmente na unidade mais ampla do Espírito.

Ora, com respeito aos indivíduos, a espécie (species) é um arquétipo, isto é, não é uma mera abrangência de um grupo mas uma unidade lógica ou ontológica, uma forma existencial indivisível. Por tanto, a espécie não pode "evoluir", ou seja, não pode passar gradualmente a outra espécie. Embora a espécie possua subespécies, estas ainda representam reflexos da mesma forma essencial, do mesmo arquétipo.

Pois é precisamente a confusão entre espécie e subespécie a base de toda a teoria evolucionista. Para a teoria evolucionista, uma variante de um pássaro é entendida como uma nova espécie. Ora, mesmo que eliminássemos as fronteiras entre uma espécie e outra, ainda assim estariam separadas entre si por diferenças abismais. Pois nem sequer existem formas que indiquem uma possível conexão entre as diversas ordens de seres vivos, como peixes, pássaros, répteis e mamíferos. Na verdade, pela própria lei da seleção natural, os "projetos" de uma nova espécie deveriam ser muito mais numerosos do que os antepassados.

É verdade que a paleontologia demonstra uma ordem ascendente de manifestações animais. Mas isso se explica pelo fato de que, no plano material, o que é relativamente informe e inarticulado precede sempre ao mais complexo, já que toda "matéria" é como um espelho que reflete, invertendo-a, a atividade dos arquétipos. Enquanto a essência dos arquétipos contém possibilidades riquíssimas por ser indivisível, no plano material as formas simples iniciais são pobres e as mais ricas estão subdivididas; assim, a semente existe antes do que a árvore e o botão existe antes do que a flor. O que é válido para o ser físico singular vale também, em conjunto, para o mundo animal e vegetal. Em suma, é como se o arquétipo dos arquétipos animais manifestasse no conjunto dos animais: assim como o embrião preceder o homem está para o arquétipo Homem, os animais mais simples precederem os mais complexos está para o arquétipo dos animais. Mas isso, em hipótese alguma, dá margem para uma "evolução de arquétipos". Não só não há elos perdidos como há espécies que imitam outras sem nunca deixar de ser o que foram (por exemplo, a baleia).

Todo arquétipo é um espelho que reflete a todos os demais arquétipos que, por sua vez, o refletem. O arquétipo Mamífero reflete todos os arquétipos abaixo dele (por exemplo, Cão, Gato, Baleia) que, por sua vez, refletem o arquétipo Mamífero. O fato de que os tipos cósmicos estejam compreendidos uns nos outros remete, em última instância, à unidade do Ser.

Em última instância, a tese evolucionista é uma tentativa dirigida não tanto a negar completamente o "milagre da criação", mas a isolá-lo. Em suma, o evolucionismo e todas suas contradições intrínsecas resultam da incapacidade própria da ciência moderna de conceber dimensões da realidade que não sejam encadeamentos puramente físicos. Logicamente, a origem das espécies só se aplica a partir da gradual emanação das realidades, conforme vimos acima.

Para melhor entender a descendência vertical das espécies, é preciso saber que a matéria que compõe este mundo físico nem sempre teve o mesmo grau de dureza cósmica. É como se a realidade física se "endurecesse", ou seja, se tornasse cada vez menos plasmável. Isso significa que, no plano da existência superior ao estado físico, os diversos tipos de animais estavam presentes como formas não-físicas no mundo sutil. Dali descenderam à existência física enquanto esta estivesse disposta a recebê-los.

IV - Psicologia Moderna

Burckhardt inicia sua análise da psicologia moderna face à sabedoria tradicional lembrando de um dilema já conhecido por Jung: todo julgamento feito pelo psicólogo tem de ser subjetivo pois a psique do próprio psicólogo é subjetiva. Ou, em outras palavras, a psique é o objeto da psicologia e ao mesmo tempo é o sujeito da psicologia.

No entanto, há algo em nós que escapa a essa limitação subjetiva, conseguindo percebê-la desde acima. Este algo não é outra coisa senão o espírito, o que os latinos chamavam de intellectus. Mas atenção: não confunda intelecto com razão; a razão reflete mentalmente o espírito mas é limitada ao setor ao qual está sendo aplicada. Como o homem moderno só admite dados empíricos então a razão fica limitada e esse setor. Portanto, não é de espantar que o homem moderno considere os fenômenos psíquicos como "irracionais".

Enquanto os fenômenos corpóreos podem ser observados com objetividade por um clínico, os fenômenos psíquicos não podem ser observados com a mesma objetividade por um psicólogo. Isso acontece porque o psicólogo tem de incluir o seu "eu" na experiência. É o dilema da alma tentando captar a alma. Eis aí um dos erros mais primários cometidos pela psicologia moderna: supor que o psicólogo pode se "distanciar" das experiências relatadas pelo paciente.

O psicólogo precisa de algo "acima" das experiências, de algo que o ajude a transcender o plano dos fenômenos: em suma, uma metafísica. A inteligência tem de ser algo que ultrapasse a psique.

Há dois critérios que situam a psique em seu contexto cósmico adequado: (1) a cosmologia e (2) a moral, devidamente enfocada por uma meta espiritual. A razão de ser desses critérios pode ser explicada mais ou menos assim: um rio, para mostrar o seu vigor, precisa de um obstáculo no meio do caminho, como uma rocha, um pedaço de madeira fincado no fundo do rio ou mesmo uma curva. O rio é o fluxo constante da psique, enquanto o obstáculo é o princípio imutável que mostrará à psique suas inclinações e tendências.

  • Cosmologia = dimensão impessoal e teórica da psicologia tradicional.
  • Moral = dimensão pessoal e prática da psicologia tradicional.

Ambas, juntas, dão uma visão desde acima da própria psique: é o autoconhecimento. Para a psicanálise, a moral não passa de costumes sociais que podem, algumas vezes, ser úteis mas que, geralmente, impedem o desenvolvimento normal da psique. O psicanalista torna-se então o novo sacerdote que, ao conseguir extrair os complexos reprimidos do paciente, lhe dá a absolvição dos pecados. O paciente, ao invés de distanciar de suas tendências, acaba assumindo-os como se esse fosse seu legítimo "eu".

O verdadeiro sacerdote, por outro lado, é o vigário da Verdade. O arrependimento cria uma distância entre o fiel e suas tendências caóticas e tenebrosas, possibilitando-lhe que as objetive e que restabeleça o equilíbrio com Deus. Isso acontece porque o sacerdote expressa e dá testemunho de uma presença superior.

Eis por que as doutrinas tradicionais da salvação são tão diferentes da "salvação" psicoterápica: aquelas sabem que a psique não pode curar a si mesmo. As tradições sabem que a "cura" pode vir de duas fontes: (1) do corpo, ao reequilibrar a dosagem de certas substâncias, ou (2) do espírito.

Quando a psicologia moderna atribui a um rito alguma efetividade, o remete a certas disposições psíquicas de origem ancestral. O psicólogo moderno jamais se questiona se há um sentido atemporal e sobre-humano nos ritos ou nos símbolos, como se a alma pudesse curar-se crendo na projeção ilusória de suas próprias preocupações.

Para entender um pouco melhor essas explicações, Burckhardt explica os diversos "mundos" lançando mão de uma comparação geométrica. Imagine círculos concêntricos. O círculo central representa o mundo corpóreo. Os círculos intermediários representam os diversos graus do mundo psíquico (também chamado de mundo sutil). O círculo mais externo representa o Espírito puro. Observe que os círculos mais externos contêm os círculos mais internos. Observe também que o círculo de menor abrangência é o interno, isto é, o mundo corpóreo.

Evidentemente, não é a alma individual que engloba o mundo físico; é o estado sutil inteiro que o engloba. Por um lado, a consciência subjetiva -- que é o objeto da psicologia -- acaba separando a alma de seu contexto cósmico, fazendo-a parecer isolada do mundo exterior e de sua ordem universalmente válida. Por outro lado, a mesma consciência subjetiva se serve de suas próprias faculdades congnoscitivas na confiança de que elas correspondam à ordem cósmica total. Há aí como que um processo de diferenciação e integração: a consciência individual "se separa" do mundo ao mesmo tempo que confia que ela pertença a uma ordem cósmica comum a todas as consciências individuais. É mais ou menos como se, ao mesmo tempo que sabemos que nossa alma é nossa alma, soubéssemos também que ela está imersa num mundo sutil comum a todas as almas. É o peixe que, embora sendo o peixe individual que é, também está imerso num oceano ("mundo") comum a todos os peixes e que, de certa forma, tal oceano afeta todos os peixes.

Por exemplo, a consciência de alguém que dorme e está sonhando é permeável aos influxos que atuam sobre ela advindos de diversas regiões do mundo sutil, como demonstram as premonições ou telepatias. Os sonhos podem ser feitos de recordações ou de "pegadas" de transfusão psíquica de um indivíduo a outro, embora tais casos sejam raros. Também podem ser introjetados por um Anjo, algo que fica patente naqueles sonhos que permanecem mesmo após acordarmos. Há também os sonhos infernais, que são introduzidos por uma "porta aberta" deixada pelo indivíduo. Essa "porta aberta" é normalmente alguma paixão. Esse tipo de sonho costuma pretensiosamente mesclar Deus com o "eu" pessoal, um orgulho tipicamente diabólico.

Entendemos ainda melhor essa diferenciação e integração das consciências quando nos damos conta que é o plano essencial (eidos) que as une e que é o plano material (hylé) que as diferencia. A dimensão essencial, no simbolismo da cruz, é representado pelo eixo vertical que une as consciências para além da forma que têm, enquanto o eixo horizontal é o plano sutil/psíquico que dá a cada consciência sua forma diferenciada mas, ao mesmo tempo, também as une, num certo sentido, no plano psíquico em que todas se encontram. Pode parecer estranho, à primeira vista, falar de "matéria" para a psique. No entanto, a psique ainda não é espírito puro e, portanto, possui suas determinações características, mesmo não possuindo um corpo físico próprio.

As dimensões vertical e horizontal de qualquer fenômeno psíquicos são essenciais para entendê-los. Isso é ainda mais válido para os fenômenos psíquicos, que são altamente complexos e podem ser um entrelaçamento de várias respostas: impressões sensoriais, manifestações de desejos, conseqüências de ações transcorridas, traços de disposições típicas ou hereditárias do indivíduo, expressões de seu gênio, reflexos de realidades supraindividuais etc.

Os eixos da cruz ajudam a entender que os arquétipos, segundo a utilização tradicional (platônica) do termo, são as fontes do ser e do conhecimento, e não, como pretende Jung, disposições inconscientes da ação e da imaginação. Similarmente, os instintos não são apenas uma série de reflexos automáticos da inteligência mas, na verdade, são determinações primordiais e qualitativas da própria espécie. Jung negava esta realidade, explicando os instintos a partir de "resquícios" meramente evolucionistas dos homens primordiais.

Retirando a psique de seu eixo vertical e considerando o homem apenas como um ser evoluído, não é à toa que Jung atribuía à psicanálise um caráter iniciático, como nas tradições esotéricas. Os Pais da Igreja, que não duvidaram em designar o batismo e a confirmação como ritos iniciáticos, não mais faziam do que uma "análise do inconsciente".

É verdade que Jung rompeu certos moldes puramente materialistas da ciência moderna, mas não nos resulta de nenhuma utilidade, dado que os influxos que se infiltram através dessa brecha procedem de setores psíquicos sinistros, e não do Espírito.

17 de novembro de 2005

Algumas perguntas relevantes

Mortimer J. Adler ensina em seu How to Read a Book que uma das melhores maneiras de apreender o conteúdo de um livro bem como testar se o entendimento deles extraído está correto é formular perguntas e procurar respondê-las com suas próprias palavras. No caso da leitura sintópica -- aquela que envolve mais de um livro -- as perguntas e temas devem ser amplos o suficiente para abordá-los todos. Porcurei então fazer isso com as perguntas e respostas a seguir.

Outros livros a respeito de Filosofia Perene serão estudados, seguindo o roteiro aqui sugerido, e portanto novas perguntas serão formuladas e respondidas.

* * *

1) O que é o homem moderno? Como ele se diferencia do homem tradicional?

Homem moderno é aquele que reúne as características típicas do homem surgido a partir da Renascença, isto é, após a Idade Média. Em suma, o homem moderno:
  • É centrado na ação, isto é, despreza as causas que estão por trás dos fenômenos visíveis. Por exemplo, o homem moderno conhece muitas doenças, mas é incapaz de detectar o significado delas e sua relação com o paciente. Alguém que sofre de esclerose múltipla pode ser tratado com drogas, mas a causa da doença pode estar na psique ou no espírito ( pneuma), não necessariamente numa disfunção corporal. O homem moderno também sabe construir edifícios com robustez e grande velocidade, mas é incapaz de imprimir ao ambiente a arquitetura adequada para o viver e o lazer segundo as necessidades e objetivos do edifício. O homem tradicional, por sua vez, é centrado na contemplação, isto é, na observação meditativa que lhe pode fornecer a síntese necessária entre o mundo físico e o metafísico (supra-sensível).
  • É centrado em si, isto é, é individualista. Isso quer dizer que o homem moderno não admite princípios que estejam acima de si mesmo. A negação desses princípios leva, senão explicitamente, pelo menos à negação implícita de autoridades espirituais e intelectuais.
  • É materialista, isto é, nega a importância ou mesmo a existência de um mundo além.
  • É racionalista, isto é, nega a eficácia ou mesmo a existência de uma intuição intelectual capaz de lidar com o mundo imaterial , reservando à razão humana o título de função máxima do homem.

2) Como a modernidade influencia a ciência? Cite exemplos.

A ciência, segundo a clássica definição de Aristóteles, é o conhecimento das coisas pelas causas. Ora, a ciência pode, grosso modo, ser divida em ciência primeira e ciência segunda. A ciência segunda é a Física, isto é, o estudo da natureza, do mundo sensível, do mundo material. A ciência primeira é a Metafísica, isto é, o estudo do mundo supra-sensível, intuitivo, imaterial. Se, como vimos acima, o homem moderno nega ou despreza o mundo supra-sensível, então sua ciência é manca, ou seja, restrita às observações e pesquisas mundanas, materiais, físicas.

Por exemplo, o astrônomo moderno conhece os diversos astros, suas trajetórias, compoosições físico-químicas etc. Mas o astrólogo tradicional, embora não tivesse à sua disposição os instrumentos e laboratórios atuais, conhece algo mais: a influência que os astros podem imprimir na psique a na sociedade humana.

3) Por que democracia e igualdade são conceitos tipicamente modernos?

Uma vez que o homem moderno nega autoridades espirituais superiores a si mesmo, então não há diferença entre as naturezas dos homens, ou seja, todos os homens são naturalmente iguais entre si. O homem tradicional, pelo contrário, sabe que há castas ou arquétipos distintos entre os homens.

Já que não há tais diferenças essenciais entre os homens, então elas reduzem-se a diferenças meramente substanciais. Daí conclui-se que o poder, se não vem daquele que é maior em termos qualitativos, virá daquele que é maior em termos quantitativos, isto é, da maioria dos homens. Eis o conceito de democracia: o poder baseado na opinião da maioria, ao contrário da aristocracia, que é o poder baseado numa elite inclinada e inspirada para o comando político-militar.

4) Explique o que é "forma" e "matéria", citando exemplos.

Forma e matéria são os princípios que explicam o devir (mudança, movimento). A matéria não é nem isto nem aquilo mas apenas pode ser isto ou aquilo. A forma é a coisa determinada, real.

Por exemplo, a matéria de uma casa é a madeira, enquanto sua forma é a idéia de casa. Embora ainda sejam necessários dois outros princípios para explicar o devir -- a causa motriz (o arquiteto) e a causa final (habitação) --, esses dois princípios podem ser reduzidos à forma (a idéia da casa está no arquiteto e a habitação é a forma final a que tende a casa).

No entanto, cabe aqui uma explicação importante quanto ao conceito moderno de matéria. Para o homem moderno, matéria é a composição sólida/líquida/gasosa de algo. Embora tal definição não esteja totalmente incorreta -- Aristóteles também a utilizava assim -- ela é parcial. Conforme disse acima, matéria é um princípio, ou seja, é algo que está por trás das manifestações visíveis. Tal princípio é universal, ou seja, é potencialidade pura (pode ser qualquer coisa). A substância às quais nossos olhos enxergam é também substância, mas não universal como a matéria mas relativa. A diferença entre a substância universal (matéria primeira ou materia prima) e a substância relativa (matéria segunda ou materia secunda) é que esta é caracterizada pela quantidade, enquanto aquela não pois é apenas um princípio. É por isso que Santo Tomás de Aquino chamava a matéria segunda de materia signata quantitate.

5) Qual a diferença entre quantidade e qualidade?

A diferença é que a qualidade refere-se à forma enquanto a quantidade refere-se à matéria (no sentido moderno do termo, isto é, relativo).

6) Por que a modernidade está ligada à quantidade?

Porque a modernidade nega o princípio essencial das manifestações. Por exemplo, uma doença mental pode ser estudada a partir da falta (ou excesso) de certas enzimas ou hormônios produzidos pelo corpo. No entanto, tal estudo estaria reduzindo a mente ao espaço, ignorando o fato de que a mente é algo que se desenvolve exclusivamente no tempo. Isto quer dizer que o tratamento de doenças mentais via administração de drogas cuida apenas das relações corporais que a mente exerce, e não da doença propriamente dita, que é mental.

7) Relacione materialismo com individualismo.

A matéria é o princípio que separa, que distingüe os seres, mesmo sendo da mesma espécie.

8) Relacione uniformidade com individualismo.

À medida que os homens se afastam do princípio essencial das manifestações, eles se afastam daquilo que é capaz de unir e explicar os fenômenos. Por exemplo, um homem intempestivo pode ser entendido a partir da casta e da raça a que pertence, mas para isso é necessário admitir que há arquétipos fora e acima dos homens particulares e relativos.

Reduzidos a seus aspectos quantitativos (materiais), os homens não diferem qualitativamente entre si, dando fruto assim a graus cada vez maiores de uniformidade. Não é à toa que a ciência moderna, restrita aos aspectos quantitativos das coisas, seja utilizada exclusivamente na produção em massa (industrialização), engendrando assim uma uniformização até mesmo do aspecto externo do mundo.

9 de novembro de 2005

Émile Boutroux

Segue um antigo estudo que fiz do excelente livrinho introdutório de Émile Boutroux sobre Aristóteles. Este livro foi o primeiro da coleção Biblioteca de Filosofia, editada por Olavo de Carvalho e publicada pela Editora Record.

* * *

Título: Aristóteles
Autor: Émile Boutroux
Editora: Record
Título original: Aristote (francês)
Tradutor: Carlos Nougué
Revisão e notas: Olavo de Carvalho
Ano de publicação da edição original: 1925
Ano de publicação da edição brasileira: 2000


Lógica

“É uma análise racional das condições a que deve satisfazer um raciocínio para que sua conclusão seja concebida como necessária.”

Instrumentos do pensamento

1) Noções

  • Categoremas: noções universais: gênero, espécie, diferença, próprio, acidente.
  • Categorias: gêneros irredutíveis das palavras, os gêneros supremos: essência (1ª classe), quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, situação, maneira de ser, ação, paixão (2ª classe).
  • Relações lógicas: a) identidade, b) oposição: contrariedade, contradição, relação privação-posse.

2) Proposições: reunião dos conceitos

  • Conceitos isolados não são verdadeiros nem falsos.
  • Só as proposições comportam verdade e erro.

3) Raciocínio: consiste essencialmente no silogismo.

  • Colocadas certas coisas, alguma outra resulta necessariamente.
  • Silogismo mais importante é a indução (particular-> geral).

A ciência e os instrumentos do pensamento

  • Ciência: conhecimento das coisas pelas causas, isto é, das coisas enquanto necessárias.
  • Este conhecimento é realizado quando conseguimos ligar a coisa à sua causa.
  • Há três tipos de ligações:
  1. Conjunções que sempre se realizam (ciência perfeita).
  2. Conjunções que geralmente se realizam (ciência imperfeita, limitada à possibilidade).
  3. Conjunções que pouco ou nunca se realizam (fora da ciência).
  • Se obtém ciência pela demonstração.

  • Apodíctica: ciência da demonstração.
  • Demonstração faz-se por silogismo direto do primeiro tipo de ligação.
  • Há três elementos na demonstração:
  1. O sujeito.
  2. O atributo, que se liga ao sujeito por um liame de necessidade.
  3. Princípios gerais sobre os quais se funda a demonstração.
  • Estes princípios gerais são indemonstráveis; caso contrário, teríamos progressão ao infinito ou círculo vicioso.
  • Portanto, cada ciência tem seus princípios.
  • De onde vêm os princípios?
  1. Não são inatos.
  2. Não são recebidos de fora.
  3. Há em nós uma disposição para concebê-los.
  4. Por efeito da experiência, essa disposição passa ao ato.
  5. Pois isto é a indução (particular-> geral), pela qual conhecemos os primeiros princípios próprios a cada ciência.
  • Demonstração supõe definição.
  • Similarmente, é necessário que haja definições indemonstráveis.
  • A definição faz-se pela indicação do gênero próximo e das diferenças específicas. [Humanos são animais racionais. Animal=gênero (sobrenome). Racional=diferença específica (nome)] (Kelley, The Art of Reasoning).
  • Resumo: uma coisa é necessária quando é ligada a uma essência específica.

  • Dialética: é a lógica do provável; está abaixo da apodíctica.
  • Parte de opiniões, e não de definições necessárias em si.
  • O dialético raciocina silogisticamente, mas partindo do verossímil.
  • Verossímil: essência apenas genérica, ainda não determinada pela diferença específica.

  • Retórica: busca tornar o verossímil persuasivo.
  • A dialética está para a lógica assim como a retórica está para a moral.
  • Modo de raciocínio da retórica é o entimema.
  • Entimema é o silogismo no qual uma das três proposições é subentendida.

  • Erística: prende-se aos acidentes.
  • Portanto, raciocínio erístico é puro sofisma.



Metafísica

Ampliação da noção de ciência

  • Nem toda ciência lida com o geral.
  • A ciência tem dois modos, dois graus.
  • Há a ciência em potência e a ciência em ato.
  • Ciência em ato: tem por objeto o ser perfeitamente determinado, o indivíduo.
  • Eis aí a idéia-mestra do aristotelismo: o geral não é o princípio constitutivo do ser; o individual não se reduz ao geral; [ciência lida com o geral, mas deve haver uma que lida com o indivíduo].
  • Por exemplo: toda a ciência do geral não chegaria a construir a individualidade de Sócrates.
  • O conhecimento dos indivíduos obtém-se por uma intuição.
  • Assim, a especulação abstrata será impotente para nos fazer conhecer a natureza.

Os princípios do ser

  • O ser está submetido ao devir [A significação do termo devir não é unívoca. [...] Às vezes se chama “mudança” ou “movimento”] J. Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia.
  • Se o devir existe então há princípios não engendrados [não originados, não gerados, não produzidos, Dicionário Aurélio] que o explicam.
  • Tais princípios são quatro:
  1. Uma matéria ou substrato, teatro da mudança, teatro da substituição de uma maneira de ser por outra.
  2. Uma forma.
  3. Uma causa motrriz.
  4. Um objetivo.
  • Por exemplo, os princípios de uma casa:
  1. Matéria = madeira.
  2. Forma = idéia da casa.
  3. Causa motriz = arquiteto.
  4. Objetivo = habitação.
  • Esses princípios reduzem-se em dois:
  1. Matéria = madeira.
  2. Forma = idéia da casa.
  3. Causa motriz = arquiteto = forma num sujeito já realizado. [O arquiteto tem a idéia da casa em mente. Portanto, a causa motriz é a própria idéia da casa (forma) num sujeito].
  4. Objetivo = habitação = forma a que a casa tende.
  • Eis, portanto, os dois princípios necessários, suficientes e não engendrados que explicam o devir:
  1. Matéria (não é nem isto, nem aquilo: pode tornar-se isto ou aquilo).
  2. Forma (o que faz da matéria uma coisa determinada e real; é a alma da coisa; não confundir forma com figura, como a mão de uma estátua, que é apenas a figura de uma mão, e não a forma de uma mão).
  • Aristóteles aproxima os dois princípios, remetendo-os à potência e ao ato:
  1. Matéria é potência, capaz de dois contrários: ser e não-ser. A matéria tem uma disposição para receber a forma, deseja-o.
  2. Forma é ato, é o acabamento natural da matéria.
  • Resumo: o devir deriva do ser-em-potência, intermediário entre o ser e o não-ser.

O ser e a imperfeição

  • Pois é desse ser-em-potência (isto é, da matéria) que origina-se tudo o que é indeterminado e imperfeito porque...
  • A matéria, em certo sentido, resiste à forma.
  • Eis por que as criações da natureza são sempre imperfeitas.
  • Eis por que produzem-se muitas coisas desprovidas de objetivo, dado que nascem pela exclusiva ação de forças mecânicas.
  • Eis por que a matéria é o princípio da contingência dos futuros, pois da matéria origina-se o acaso.
  • O acaso é necessário apenas mecanicamente, mas não por finalidade.
  • Ou seja, o evento fortuito, do ponto de vista da finalidade, é indeterminável e incognoscível.
  • Resumo: a matéria é a causa da imperfeição dos seres, e do mal.

Deus e o devir

  • Explicar o ser atendo-nos a seus elementos próximos não basta.
  • O ser, que está submetido ao devir, só pode ser explicado com base num ser eterno.
  • Existência de Deus se prova:
  1. Popularmente: pela perfeição gradual dos seres e pela finalidade que reina na natureza.
  2. Cientificamente: pela análise das condições do movimento; é o que chamamos de argumento do primeiro motor.
  • Movimento é a relação da matéria com a forma, é mudança.
  • O movimento do mundo é eterno.
  • Portanto, o tempo é necessariamente eterno, pois sem movimento não há tempo.
  • Movimento implica em móvel e motor.
  • Exemplo: o carro é o móvel e seu motor o motor.
  • O mundo, móvel eterno, implica num motor imóvel.
  • Este motor imóvel é o que chamamos Deus.
  • Em suma, há dois princípios que fundam a demonstração da existência de Deus:
  1. O ato é anterior à potência [Apenas com base no atual se pode entender o potencial, J. Ferrater Mora]; Deus é portanto ato puro.
  2. O condicionado (dependente) supõe o incondicionado (independente).

Que é Deus?

  • Deus desempenha o papel de primeiro motor.
  • Deus é ato puro.
  • Deus é isento de indeterminação.
  • Deus é isento de imperfeição.
  • Deus é isento de mudança.
  • Deus é imóvel.
  • Deus é imutável.
  • Deus é o pensamento que tem por objeto tão-somente o pensamento.
  • Deus é vida eterna.
  • Deus excelente.
  • Deus é soberanamente feliz.
  • Deus pensa, movendo o mundo sem mover a si mesmo.

Física Geral

Princípio e objeto de estudo

  • [A Metafísica ocupa-se das causas primeiras. A Física ocupa-se das causas segundas, que operam na natureza] J. Ferrater Mora.
  • A Metafísica tem por objeto o ser imóvel e incorpóreo, Deus (às vezes, Aristóteles mesmo chamava esta ciência de “filosofia teológica”) .
  • A Física tem por objeto o ser móvel e corporal.
  • O princípio fundamental da Física é que Deus e a natureza não fazem nada em vão, que a natureza tende sempre ao melhor e ao mais belo [princípio do melhor].

Deus e a natureza

  • Mas é Deus necessário nesta ordem e harmonia? Não seria a harmonia da natureza fruto do acaso? Não, responde Aristóteles, porque o acaso só é feliz como exceção, e não por regra. E os monstros [corpos de conformação anômala, Aurélio]? Monstros existem porque a natureza se engana, pois ela é constituída de matéria
  • Não importa que não vemos Deus agindo, porque Deus age inteligentemente; é como a arte, também não vemos seu princípio agindo.
  • Ocorre que a natureza é uma causa, mas não é a única. A natureza tem de agir em cooperação com a matéria. E a matéria não se deixa submeter à natureza inteiramente.
  • Então, de um lado, o princípio do melhor é legítimo na explicação das coisas da natureza; este princípio representa a forma ou destinação das coisas.
  • Por outro lado, a natureza é sempre imperfeita em algum ponto, pois é ela constituída de matéria.
  • Portanto, a explicação teleológica (finalista) deve ser empregada para completar a explicação mecânica.

A natureza e o devir

  • O devir (movimento, mudança) é a actualização de um possível.
  • A mudança possui quatro espécies:
  1. Mudança substancial: do nascer ao perecer, do não-ser ao ser, e vice-versa.
  2. Mudança quantitativa: aumento ou diminuição.
  3. Mudança qualitativa: passagem de uma substância a outra.
  4. Mudança espacial: deslocamento.
  • Como é este último que condiciona os outros três, Aristóteles detém-se no estudo dele, analisando a natureza do lugar.
  • O lugar do corpo é o limite interior do corpo ambiente, ou seja, do corpo onde aquele está encerrado.
  • O tempo é o número do movimento.
  • O contínuo é a característica do tempo e do espaço. É divisível ao infinito.
  • Portanto, fora do mundo não há espaço nem tempo.
  • Todas as quatro mudanças estão condicionadas à mudança espacial, mas ela não é a única que explica as mudanças. A mudança qualitativa é irredutível ao espaço, isto é, tem algo a mais, que é a nova substância que se torna.
  • Eis por que Aristóteles põe como princípio a distinção qualitativa das substâncias

Matemáticas

  • As matemáticas lidam apenas com as relações de grandeza, a quantidade e o contínuo, fazendo abstração das outras qualidades físicas.
  • Tratam, assim, das coisas que são imóveis sem existir à parte, essências intermediárias entre o mundo e Deus.
  • O matemático isola, por abstração, a forma da matéria.

Cosmologia

[Teoria geral do mundo, ou do cosmo] J. Ferrater Mora

  • O mundo é belo e bom, tanto quanto o permite a resistência do elemento material.
  • O mundo tem uma forma perfeita: a forma esférica.
  • O mundo compõe-s de duas metades desiguais:
  1. O mundo supralunar ou celeste: onde estão grudadas as estrelas fixas.
  2. O mundo infralunar ou terrestre.
  • A matéria das estrelas é o éter, ou quinto elemento, que é incorruptível.
  • Os outros elementos são corruptíveis.
  • O céu dos planetas é feito de uma substância cada vez menos pura à medida que se afasta do céu das estrelas fixas.

Astronomia

  • Todos os seres celestes são esféricos.
  • O primeiro céu é uma esfera.
  • Os planetas são movidos pelas esferas; a terra é esférica [É como se o planeta fosse a “parte visível” da esfera, mas um ser animado, racional, superior ao homem] Edward.
  • Aristóteles admitia 33 esferas, porém teve de acrescentar 22 esferas (as chamadas esferas antagonistas) para que as esferas dos astros exteriores não interferissem nas esferas dos astros interiores.
  • Total = 55 esferas.

Meteorologia

  • Os fenômenos meteorológicos resultam da ação mútua de quatro elementos.
  • Como esses quatro elementos são corruptíveis, Aristóteles busca para os meteoros explicações empíricas e mecânicas.
  • P.ex.: ventos são movimentos de vapores resultante de diferenças de temperatura.

Biologia

  • A alma é a forma do corpo, isto é, o corpo é o instrumento da alma.
  • A alma vence o corpo pouco a pouco pois, como vimos, a matéria tende a resistir à forma.
  • Este triunfo da alma dá origem a três graus na vida psíquica:
  1. Nutritividade: comum a todos os seres vivos; dela procede a vida e a morte.
  2. Sensibilidade: comum aos animais e ao homem.
  3. Inteligência: exclusiva do homem.

Anatomia e Fisiologia Animais

Anatomia: estrutura dos órgãos
Fisiologia: função dos órgãos
[Aurélio]

Anatomia e Fisiologia Gerais

  • As partes do organismo se dividem em duas espécies:
  1. Homogêneo: veias, ossos, unhas, pêlos, chifres, gordura, sebo, sangue, medula, leite, membranas.
  2. Heterogêneo:coração, diafragma, órgãos dos sentidos, órgãos do movimento, encéfalo.
  • Os sentidos consistem em “ser movido”, “sofrer alterações”, e se dividem em duas espécies:
  1. Sentidos mediatos: atuam por meio do ar: visão, audição e olfato.
  2. Sentidos imediatos: atuam por contato: tato e paladar.
  • Quanto à hereditariedade, Aristóteles ensina que o novo ser (embrião) forma-se de substâncias diferentes dos próprios pais, isto é, da mistura do esperma com o mênstruo resulta o embrião.
  • Do homem nasce a alma e da mulher o corpo.

Anatomia e Fisiologia Comparadas

  • Aristóteles estudou as diferenças e semelhanças orgânicas.
  • Ele elaborou a lei de divisão do trabalho: a natureza, sempre que possível, emprega dois órgãos para duas funções diferentes.
  • Ele estudou também a fisiognomia, isto é, a relação do físico com o moral.

Zoologia

Ciência que trata dos animais [Aurélio]

  • Aristóteles procura classificar os animais basendo-se em suas semelhanças, distinguindo a essência do acidente:
  1. Animais que têm sangue (vertebrados):
    a) Vivíparos verdadeiros
    b) Ovovivíparos
    c) Ovíparos
  2. Animais que não têm sangue (invertebrados):
    a) Moluscos
    b) Crustáceos
    c) Testáceos
    d) Insetos

Psicologia

Ciência que estuda a psique (alma, espírito) e o comportamento. [Definição adaptada do Aurélio]

  • O que diferencia o homem dos outros animais é o núus.
  • Sensação: é a transmissão da forma do objeto ao sujeito: por causa dela, os animais são capazes de prazer e dor e, portanto, de desejos e paixões.
  • Imaginação: é a nova aparição da imagem, pois a sensação durou mais tempo que o limiar.
  • Memória: é a imagem reconhecida como percepção passada.
  • Núus é o conhecimento das causas primeiras; não tem nascimento, é eterno, nunca está passivo (em potência), mas sempre ativo (em ato); não tem órgão; é a inteligência.
  • Funções da alma animal (sensação, imaginação, prazer, dor, memória, desejos, paixões).
  • Núus pathéticos: inferior, passivo, mesclado com a alma animal.
  1. Função teórica: como tabula rasa, funcionando com imagens e influência do núus superior. É o núus superior que liberta da sensação o geral que está nela contido.
  2. Função prática: aplicação das idéias teóricas.
    a) pela produção
    b) pela ação
  • Núus theoréticos, apathos, absoluto, superior: superior; procede a priori, partindo das causas.
  • Vontade: combinação da inteligência (núus) com desejo (alma animal); no entanto, esse desejo pode ser engendrado pela razão (eis a vontade), e não necessariamente apenas pela sensação (isso seria apenas apetite); o desejo fornece fins a realizar, enquanto a inteligência fornece os meios.
  • Livre-arbítrio: é faculdade da autodeterminação, ou seja, justamente a capacidade de decidir entre a vontade (razão) e o apetite (sensação).

Filosofia prática

É a filosofia das coisas humanas. O homem não é um animal, ou seja, tem um fim que não se realiza imediata e necessariamente.

Divide-se em três partes:

1) Ética ou Moral: regra da vida individual
2) Econômica: regra da vida familiar
3) Política: regra da vida social

Moral

  • O bem para um ser vivo está para a plena realização da atividade que lhe é próprio assim como a felicidade para o homem está para a realização da atividade propriamente humana.
  • Felicidade é a constante atividade de nossas faculdades propriamente humanas, isto é, intelectuais; felicidade é a ação guiada pela razão.
  • A virtude é o elemento constitutivo da felicidade.
  • Virtude é um hábito caracterizado pela realização perfeita da parte superior da alma humana, das potências humanas.
  • Virtude é a forma da felicidade.
  • Saúde, beleza, fortuna, filhos, amigos são a matéria da felicidade.
  • A natureza humana é dupla: intelectual (que lida com o necessário) e moral (que lida com o contingente).
  • Há, portanto, dois tipos de virtudes correspondentes à duplicidade da natureza humana:
  1. Virtudes dianoéticas (intelectuais): são os hábitos perfeitos da parte inteligente da alma; são as mais elevadas; dependem de instrução, não da vontade; a ciência (ou contemplação) é a virtude que confere maior felicidade ao homem e é a que está mais próxima da divindade; o órgão da ciência é o núus. Há dois graus de inteligência: a) Inteligência científica, cujas virtudes são o núus (que conhece os primeiros princípios) e a ciência (que deduz desses princípios as verdades particulares); núus+ciência=sapiência. b) Inteligência logística, cujas virtudes são a arte (capacidade de produzir algo em vista de um fim) e o julgamento (inteligência prática).
  2. Virtudes éticas (morais): como as virtudes dianoéticas são muito raras, pois o homem está ligado ao corpo, resta-lhe as virtudes éticas; são hábitos da alma; tendem a escolher a justa medida para a natureza humana e determina o julgamento prático do homem inteligente; são muito numerosas; p.ex.: justiça e amizade.

Econômica

  • A família aumenta o grau de perfeição do indivíduo.
  • Relação entre homem e mulher:
    1) Homem tem autoridade sobre a mulher porque ele é mais perfeito.
    2) Mas a mulher é livre.
    3) Portanto, relação é de amizade e reciprocidade.
  • Relação entre pais e filhos:
    1) Criança não têm direito nenhum porque ela é parte do pai.
    2) Mas pai tem de velar pelo bem do filho.
    3) Portanto, pai deve comunicar sua perfeição ao filho, e o filho deve se apropriar dela.
  • Relação entre senhor e escravo:
    1) Escravidão é necessária e legítima porque escravo é um ser próprio só para trabalhos corporais.
    2) O senhor está para o intelectual assim como o escravo está para o corporal.
    3) O senhor está para a forma assim como o escravo está para a matéria.

Política

Aristóteles trata da política de duas entidades:

1) do Estado

  • Política é o aperfeiçoamento da econômica.
  • Política é a causa final das famílias.
  • Portanto, finalidade do Estado é a felicidade dos cidadãos, velando pelas virtudes e bens interiores, e só depois exteriores.
  • Propriedade e família são úteis ao Estado, pois ele é o todo e aquelas as partes.
  • Portanto, Estado deve regulamentá-las, não eliminá-las.
  • Estado deve educar os cidadãos, visando formar hábitos morais nas crianças, tendo em vista o bem da inteligência: gramática, ginástica, música e desenho; atividades mecânicas e utilitárias devem ser descartadas.

2) das Constituições

  • Para cumprir a finalidade do Estado, são necessários dois órgãos:
    i. Leis, que são a representação prática da razão.
    ii. Magistrado, para os casos precisos e específicos.
  • Há dois tipos de formas de governo:
  1. Formas justa de governo (um só governante = Realeza; muitos governantes = Aristocracia; a maioria governa = Poliarquia).
  2. Forma corrupta de governo (um só governante = Tirania; muitos governantes = Oligarquia; a maioria governa = Democracia).
  • A aristocracia é o melhor porque reúne ordem (somente os de boa situação cultural são cidadãos) e liberdade (muitos cidadãos podem governar).

Retórica

  • Retórica é a aplicação da dialética aos fins da política.
  • Essencial da retórica: os meios oratórios:
  1. Que se relacionam com o assunto:
    - Tem de fazer as afirmações aparecerem verdadeiras
    - Para isso, precisa de provas
    - Quanto às provas: os silogismos da dialética estão para as induções assim como os entimemas da retórica estão para os exemplos
  2. Que se relacionam com o orador:
    - Tem de fazer o orador aparecer dotado de inteligência, probidade e benevolência
    - Que se relacionam com o ouvinte
    - Tem de saber excitar e aplacar paixões
    - Estuda a idade e as disposições da platéia

Estética

Parte da filosofia que lida com a arte.

  • Caracteres essenciais do belo: simetria, coordenação, precisão.
  • Belo é geral, e não particular.
  • A essência da arte é a imitação, pois o homem está propenso a imitar, extraindo prazer disso.
  • Mas o homem imita o quê? A natureza, ou seja, principalmente a essência interna, ideal, das coisas naturais e, também, a aparência externa.
  • As artes produzem um efeito chamado catarse.
  • Catarse é a supressão de uma paixão que dominava e turbava a alma; é um tratamento homeopático.
  • Mas tem de ser uma excitação salutar, que se submete a uma medida e a uma lei.
  • As artes mais elevadas são a poesia e a música.

Poética

  • O que restou de Aristóteles foi praticamente só o estudo da tragédia.
  • Tragédia é a imitação de uma ação séria, completa.
  • Excita o terror e a piedade.
  • Ação deve apresentar não apenas aquilo que necessariamente teria acontecido, mas aquilo que poderia ter acontecido.

Gramática

  • As palavras fundam-se mais num acordo dos homens entre si do que na natureza
    - Portanto, a formação das palavras é mais arbitrária do que analógica.