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7 de janeiro de 2015

"Eu me amo e quero você"


Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. (Mateus 5:29-30)

Isso não significa que devamos nos mutilar fisicamente, mas que devamos, isso sim, estar dispostos a abrir mão do que quer que nos conduza ao pecado, mesmo aquilo que em si aparente ser perfeitamente bom. Em outras palavras, temos de fazer alguns sacrifícios em prol de nosso bem-estar espiritual. Não existe atalho para a santidade.

Todo esse sacrifício é em última instância feito visando o amor. A autonegação deve ser exercida visando o amor a Deus e ao próximo. Desnecessário dizer que esse tipo de amor não tem a ver com emoções ou sentimentos, mas trata-se de uma doação dinâmica de nossas vidas ao próximo. Jesus disse: "Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos" (João 15:13). Precisamente este é o amor de Deus por nós:

Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou Seu Filho para propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o Seu amor. (I João 4:10-12)

Hoje em dia muito se fala sobre o "amor". Todavia, a ideia secular de amor tem a ver com auto-satisfação, não com auto-sacrifício. No mais das vezes, "eu te amo" significa "eu me amo e quero você". Isso não é amor, mas uma paródia demoníaca de amor. Quem quer que pregue um sistema ético baseado num amor que não envolva autonegação e auto-sacrifício prega a doutrina do Anticristo. Não se deixe enganar pelos lobos em pele de cordeiro. O amor que não exige a entrega total de si não é amor. Conforme ensinou São Tiago:

E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? (Tiago 2:15-16)

Portanto, o caminho do Cristo é o caminho da Cruz. Não há caminho alternativo à vida eterna que não seja através do sacrifício do amor sofredor.

Fonte: The Faith, Clark Carlton, Regina Orthodox Press,Salisbury, EUA,  1997, pág. 131-132.

Nota: um exemplo de falso sistema ético de amor é o apresentado por José Ortega y Gasset aqui.

27 de maio de 2010

O que é "palamismo"?

Recentemente, um amigo me mandou um post de um blog de um teólogo acadêmico que pensou ter refutado as doutrinas de São Gregório Palamás ao citar São Basílio de maneira completamente descontextualizada. Bem, não é a toa que a internet é chamada de "a maior revista Caras do mundo".

Ora, já que o dia de São Gregório está chegando, pensei que seria o momento ideal para darmos uma olhada na teologia dele. A primeira coisa que precisamos entender sobre o palamismo é que o palamismo absolutamente não existe. O palamismo foi inventado por pensadores católicos romanos -- não ousarei chamá-los de teólogos -- que queriam justificar sua própria heresia mediante o expediente de rotular a doutrina tradicional da Igreja Ortodoxa com alguma palavra exótica, transformando-a assim em algum "ismo" historicamente condicionado. Tudo o que São Gregório fez foi expressar a milenar doutrina da Igreja no quadro contextual da controvérsia da época, a saber, a natureza dos métodos hesicastas de oração. Por trás das discussões sobre focar o peito e enxergar luzes encontra-se uma distinção fundamental sobre a qual os teólogos ortodoxos têm versado pelo menos desde os tempos de Santo Atanásio.

Em poucas palavras, a doutrina é a seguinte: Desde o princípio, os homens têm passado por dois tipos bem diferentes de experiências com Deus. Por um lado, Deus é percebido como algo radicalmente diferente, ou seja, como um "Outro" tão distinto de nós que simplesmente não conseguimos nos referir a Ele com palavras como "ser" e "existência" de maneira perfeitamente inequívoca e direta. "Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos" [Isaías 55:8], disse o Senhor. O termo técnico que designa esse sentido da distância divina em relação a nós é "transcendência". Por outro lado, nós, homens, ou pelo menos alguns homens, também experimentaram Deus como algo que está mais próximo de nós do que nossos próprios egos. O Cristianismo é a religião de Emanuel, que significa "Deus conosco". São Pedro nos exorta para que nos tornemos "participantes da natureza divina" [II Pedro 1:4]. O termo técnico que designa essa proximidade de Deus é "imanência".

A Ortodoxia é a religião do e, não a religião do ou. Isso significa que a Ortodoxia tem, desde sempre, ensinado a transcendência inconciliável de Deus e a presença e comunhão imediata de Deus com os homens -- a ponto de Ele nos tornar participantes de Sua própria vida.

No entanto, as heresias têm quase sempre ensinado a religião do ou. Já expliquei em programas anteriores que há dois tipos de heresias. As "heresias entusiastas" são aquelas que se apegam a alguma sujeito carismático que acha que tem uma relação especial com Deus e que banca o profeta auto-ungido. Montano é um exemplo típico dessa heresia. Dizem que seus seguidores batizaram pessoas em nome do Pai, do Filho e do Senhor Montano. Joseph Smith, bem como a maioria dos carismáticos modernos, também se enquadram nessa categoria. O segundo tipo de heresia, e que é a categoria mais comum, são as "heresias racionalistas". A grande maioria dos "ismos" que afetaram a Igreja ao longo dos séculos eram heresias desse tipo -- desde o sabelianismo até o calvinismo. Porém, há uma coisa em comum nesse tipo de heresia: seus heresiarcas ensinam que a experiência com Deus deve se conformar a uma determinada estrutura racional. Em outras palavras, todos eles presumem que Deus tem de fazer sentido para nós.

Acho que fica mais fácil de entender se eu lançar mão de uma ilustração. Por exemplo, vamos considerar a doutrina da Trindade. Sabemos que, desde o princípio, a Igreja confessa sua fé no Pai, Filho e Espírito Santo, bem como batiza em Seu nome. Sabemos também que a Igreja é o novo Israel e, por isso, ensina que há um e apenas um Deus, e não três. Portanto, a Igreja confessa que Deus é Três Pessoas divinas e Um ser eterno e onipotente.

Contudo, o presbítero romano Sabélio não aceitou o e da Trindade. 1 + 1 + 1 não é igual a 1. Ora, ele queria que Deus se conformasse à razão humana e à lógica matemática. Assim, ele resolveu o dilema lógico da Trindade concluindo que as Pessoas eram apenas modos do Deus Uno, e que, apesar de desempenharem papéis distintos em momentos distintos, havia sempre o mesmo Deus por trás daquela máscara. Mais tarde, Ário enfrentou exatamente o mesmo problema. Porém, como os sabelianos haviam sido banidos da Igreja, ele teve de bolar uma solução diferente. Ário rebaixou o Filho e o Espírito ao nível de seres criados. Esse esquema mantinha intacta a unidade de Deus, mas ao mesmo tempo tornava mentirosa a experiência da Igreja. A Igreja sempre adorou Cristo como Deus. Por conseguinte, o arianismo acabou sendo rejeitado.

A função da famosa expressão homoousios do credo niceno nada mais é do que afirmar que Cristo é uma Pessoa distina da Pessoa do Pai e é consubstancial -- de mesma essência ou natureza -- ao Pai. Em outras palavras, a Trindade é trina e una.

Quanto à distinção entre essência e energias de Deus -- aquilo que os católicos romanos gostam de chamar de "palamismo", mas que está presente em toda a história do pensamento ortodoxo --, ela nada mais é do que uma convenção lingüística para afirmar a transcendência e a imanência de Deus. A doutrina da Luz incriada, que é um corolário desta distinção, afirma simplesmente que, quando os santos experimentavam a glória de Deus, eles estavam experimentando nada menos do que o próprio Deus, embora Ele ainda estivesse absolutamente oculto e intocável no que tange a Sua natureza mais íntima.

A glória de Deus, ou a graça de Deus, não são intermediários criados, mas o próprio Deus. Quando o homem participa dessa graça, ele encontra-se literalmente deificado, mas nunca, nem nesta vida nem no século futuro, o homem será transformado na natureza de Deus. Deus é participável (se é que essa palavra existe) segundo Suas atividades ou energias, mas Ele também é totalmente transcendente por natureza. Em contrapartida, o homem se torna deificado pela graça, embora permaneça criatura por toda a eternidade. Foi isto isto que São Basílio quis dizer quando afirmou que o homem é uma criatura destinada a se tornar Deus.

Todavia, as pessoas que negam tal distinção alegam que ela viola a simplicidade divina -- o que é uma maneira insincera de dizer que ela viola a racionalidade humana --, pois Deus teria de ser ou, não e. Mas a natureza divina não é, e nem poderia ser, objeto da cognição humana. Um deus que possa ser compreendido pela razão humana não é absolutamente Deus. Em suma, Deus não está sujeito às leis da não-contradição e do terceiro excluído.

Ocorre que São Gregório fez uso de um método de argumentação que São Marcos, o Monge, e outros santos utilizaram desde há muitos séculos. Ele se pergunta, retoricamente, "E se esse pessoal do ou estiver certo?" Se as atividades ou energias divinas não forem realmente Deus, mas coisas criadas, então o homem será incapaz de efetivamente comungar com Deus. Nossa relação com Deus seria puramente extrínseca. Esta é a maneira de pensar dos muçulmanos e de algumas denominações protestantes. Jamais nos tornaremos deuses pela graça, ou participantes da natureza divina, ou legítimos co-herdeiros com Cristo. Seremos apenas servos. Por outro lado, se as atividades ou energias divinas são idênticas à natureza divina, então participar delas significa, de algum modo, participar da própria natureza divina. Se levarmos esse raciocínio às últimas conseqüências, a conclusão final será inevitavelmente o panteísmo. Com efeito, o Cristianismo Ocidental tem vacilado entre ambas as conclusões ao longo dos últimos mil anos. No entanto, ambos os cenários, repetindo o que falei acima, tornam mentirosa a experiência da Igreja. Os santos sabiam que estavam experienciando o próprio Deus, e não uma criatura intermediária, mas também sabiam que esse Deus era inexaurível e inconciliável em Seu ser mais íntimo.

Por conseguinte, restam-nos duas opções. Podemos aceitar o e e os paradoxos e contradições lógicas que advêm disso, ou sacrificamos a experiência viva da Igreja no altar da razão humana decaída e conformamos Deus aos nossos padrões de racionalidade.

O verdadeiro problema aqui, conforme falei anteriormente, é o fato de as pessoas insistirem em fazer teologia com livros ao invés de fazer teologia com o cordão de oração. Não há nada esotérico, nem mesmo místico, na doutrina da distinção entre essência e energias divinas. Trata-se simplesmente do modo da Igreja preservar o e e, conseqüentemente, preservar a possibilidade de que descubramos essa verdade por nós mesmos, seguindo o caminho eclesiástico do arrependimento, da obediência e da oração.

7 de janeiro de 2008

Fé e ciência III: Ciência e demônios

Esta é a parte III da série Fé e Ciência, do podcast de Clark Carlton. As partes I e II podem ser lidas aqui e aqui, respectivamente.

Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra (Isaías 1:18-19).

Olá. Bem-vindos de volta ao programa Faith and Philosophy (Fé e Filosofia). O tópico de hoje é Deus e Ciência, parte 3: ciência e demônios.

Trata-se de uma continuação de minha última conversa sobre a ciência e sua relação com a Ortodoxia. Porém, admito que o tópico de hoje foi inspirado por um filme bem medíocre ao qual assisti na TV a cabo semana passada, O Exorcismo de Emily Rose. À exemplo do livro O Exorcista, de William Peter Blatty, que aliás resultou num filme bem melhor e mais assustador, o enredo foi supostamente baseado em fatos reais.

A morte da personagem do título, Emily, seguiu-se a uma série de tentativas malsucedidas de exorcismo. O exorcista foi então processado por homicídio negligente. A história conta que ele a aconselhou a parar de tomar os remédios que lhe haviam sido prescritos por causa de seus surtos psicóticos de feitio epiléptico. Confiando somente na fé, ao invés da medicina, o padre estava determinado a curar Emily de um mal que julgava ser espiritual, e não físico.

Embora o filme em si seja medíocre, ele levanta algumas questões interessantes sobre a relação entre fé e ciência – neste caso, ciência médica. Nossa fé ortodoxa tem contribuições importantes a dar nesta discussão.

Antes de entrar de cabeça no assunto, eu queria dizer algumas coisas sobre as representações cinematográficas dos demônios. A maioria delas pressupõe um tipo particular de piedade católica romana. Não estou me referindo ao fato de as personagens serem católicas romanas; refiro-me ao fato de que a maneira como as personagens interpretam e respondem aos fenômenos acaba camuflando certo tipo de espiritualidade...e que essa espiritualidade não é ortodoxa.

Em primeiro lugar, há a suposição – às vezes explícita, às vezes apenas implícita – de que se as pessoas acreditarem na existência de demônios, então elas vão acreditar em Deus. Em outras palavras, o demônio se torna uma ferramenta de evangelização. William Peter Blatty chegou a declarar que escreveu O Exorcista para promover a fé. No Exorcismo de Emily Rose, o padre afirma que a história da possessão de Emily faria muitas pessoas acreditarem em Deus. Espero que eu não seja o único a ver algo muito esquisito nisso tudo.

Em segundo lugar, essas possessões quase sempre são apresentadas como sendo de caráter martirizador. No fim do filme, Emily tem uma visão da Abençoada Mãe, que lhe propõe uma escolha: ou o alívio de seus sofrimentos, isto é, a morte, ou a oportunidade de continuar na batalha pelo bem de outras pessoas. Ela bravamente escolhe a segunda opção. No caso real, no qual o filme supostamente foi baseado, muitos acreditavam que a menina estava sofrendo por aqueles que se encontravam no Purgatório.

Francamente, esse tipo de raciocínio é bem mais demoníaco do que contorções, vômitos, cusparadas e obscenidades lançadas contra o padre durante o exorcismo. Esse tipo de espiritualidade vem de Francisco de Assis, que supunha estar sofrendo como o Cristo. Esta não é a espiritualidade cristã autêntica; trata-se de uma ilusão. Prelest é o maior feito da arte do diabo.

Um terceiro aspecto notável da demonologia cinematográfica é quando o demônio se identifica ao padre. A gente descobre que ele tem sido um demoniozinho bem danadinho. Não se trata de um mero servo do Tártaro. Não, esse é o demônio que possuiu Nero e a maioria dos vilões da história, inclusive Hitler.

Repito: há algo muito errado aí. Não é uma explicação apenas simplista; é perigosa. Ela explica o mal do mundo como sendo obra do diabo. Não deveríamos estar mais preocupados com as forças e os eventos históricos que criaram o tipo de ambiente no qual uma pessoa maluca – e talvez possessa – como Hitler teria chegado ao poder? A insanidade e a indecência que foi a Primeira Guerra Mundial. O Tratado de Versailles. A crise econômica resultante de uma política econômica e monetária débil e imoral.

Não, não. É bem mais fácil culpar o diabo. Como dizíamos nos anos 1970: “Não foi culpa minha; o diabo é que me fez fazer isso!”

Ainda mais preocupante do que as características da demonologia cinematográfica é o fato de que tais representações costumam ser a única alternativa à abordagem secular e materialista das ciências médicas modernas. Portanto, somos expostos a uma falsa dicotomia: ou a atividade demoníaca é representada com os traços caricaturais dos filmes de Hollywood ou ela é uma superstição boba do que, em essência, não passariam de fenômenos bioquímicos cerebrais.

Quaisquer respostas ou explicações ortodoxas a esses fenômenos devem, obrigatoriamente, começar com a experiência ascética dos santos. É fato que, na hagiografia, há inúmeras histórias de santos que lutaram espiritualmente com figuras grotescas e demoníacas, mas ler esses relatos de maneira superficial é tão produtivo quanto ler o Apocalipse desse jeito, ou seja, esperando que literalmente uma besta de dez chifres surgirá do mar para governar o mundo.

Para que compreendamos a natureza das batalhas espirituais contra o que São Paulo chamou de “principados e potestades”, é necessário entendermos a natureza do homem e os efeitos da queda.

Já mencionei diversas vezes que os Santos Padres faziam uma distinção entre a razão discursiva (dianoia) e a faculdade da percepção intuitiva (nous). De acordo com São Paulo em Romanos 1, bem como os Santos Padres, a essência da queda está no obscurecimento das faculdades noéticas do homem.

Em particular, São Paulo diz que o fato de o homem ter trocado a glória de Deus pela glória das coisas corruptíveis o tornou “vão em suas imaginações”. Isso não quer dizer apenas que o homem passou a pensar mais em si mesmo do que deveria, embora isso também seja verdade. Creio que São Paulo está tentando dizer que o obscurecimento das faculdades noéticas do homem resultou na perda da habilidade em discernir fantasia de realidade. Não apenas limitamos nosso campo de visão ao mundo material como enfrentamos dificuldades em perceber esse campo corretamente.

Em outras palavras, somos todos psicóticos em potencial, pois todos nós temos uma faculdade de atenção que não funciona como originalmente pretendido. Não se trata de mero subproduto da Queda, mas da essência mesma das criaturas caídas.

Ora, algumas pessoas, seja por causa de disfunções bioquímicas ou hereditárias, são mais propensas a estados psicóticos do que outras. Elas podem ouvir vozes ou ver e imaginar coisas, e essas fantasias se tornam mais reais do que os dados sensoriais imediatos. Na verdade, elas são propensas a aceitar e interpretar essas fantasias precisamente como se fossem dados sensoriais.

Mesmo que a imensa maioria das histórias de possessões demoníacas que encontramos na literatura da Igreja pudesse ser racionalmente explicada em termos de psicose, elas não seriam menos demoníacas em sua natureza. Pois a inabilidade em discernir fantasia de realidade é um dos muitos sinais de nosso cativeiro. O diabo não é apenas um sujeito malvado; e deveríamos nos lembrar sempre disso.

De todos os dons espirituais, o mais útil talvez seja o dom do discernimento de pensamentos. Discernir a realidade e a origem de nossos pensamentos – aquilo que os Padres chamam de logismoi – é um dos sinais mais evidentes de maturidade espiritual.

E não são apenas as pessoas malucas, aquelas que ouvem vozes ordenando-lhes a matar em nome de Deus, que sofrem de logismoi demoníaco. Todos nós sofremos, em diferentes graus. De repente, posso estar dirigindo sobre uma ponte ou viaduto e surgir um pensamento assim: “E se eu virasse o volante para a direita e caísse da ponte?” Ora, eu não tenho tendências suicidas e, portanto, não acho que tais pensamentos sejam produto de um desejo reprimido de me ferir. Um psicólogo poderia opinar que isso tem a ver com o fato de eu não gostar de altura, no que haveria um pouco de verdade. Mas a total irracionalidade do pensamento é que impressiona aqui.

Não consigo vislumbrar qualquer benefício evolucionário em tais pensamentos. Pelo contrário, logismoi não são produtos de seleção natural nem de desenvolvimento evolucionário: eles são produtos da Queda. Eles são a arma preferida do diabo. A verdadeira batalha contra as forças demoníacas encontra-se no âmbito noético. Na verdade, é uma batalha para restaurarmos nossa sanidade, para nos tornarmos a totalidade psico-somática para a qual fomos criados.

Os santos são aqueles que por meio da cooperação com a graça de Deus purificaram seu nous e aprenderam a enxergar si próprios e o mundo de maneira correta. Eles foram “salvos”, que no linguajar bíblico significa que se tornaram íntegros. Nós, cristãos ortodoxos, somos chamados a seguir seu caminho. Eles são o modelo do que a vida humana deveria ser. Ao mesmo tempo, eles nos revelam a real natureza das ilusões demoníacas.

Bem, admito: eu gosto de filmes de terror. Talvez seja por isso que eu não fique horrorizado com o Halloween. Eu gostei do Exorcista e do Omen original [no Brasil, A Profecia – N. do T.], e adoro um bom filme de vampiro. Porém, é absolutamente crucial que não deixemos nossa percepção da batalha espiritual ser contaminada pelas fantasias hollywoodianas, ou pelas correntes mais lúgubres e perigosas da piedade católica romana e pentecostal.

Não lutamos contra a carne e o sangue, diz o Apóstolo. Temos sempre que nos lembrar que nossa batalha espiritual é pelo nous, e nos aproveitar do método terapêutico dado a nós por Cristo em Sua Igreja. Temos de entender também que atingir a verdadeira cura é atingir a verdadeira sanidade.

E que nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que destruiu o poder do diabo e esmagou a morte com a morte, pelas intercessões de Santo Inocêncio do Alaska e do Abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de todos nós e nos conceda uma entrada rica em Seu reino eterno.

Meu nome é Clark Carlton, falando para a Ancient Faith Radio.

17 de dezembro de 2007

Fé e ciência II: A evolução é um fato?

Esta é a segunda parte da série Fé e Ciência, do podcast de Clark Carlton. A primeira parte está aqui.

Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra (Isaías 1:18-19).

Olá. E bem-vindos de volta ao programa Faith and Philosophy (Fé e Filosofia). O tema de hoje é Deus e Ciência, parte 2: “A evolução é um fato?”

O tema de hoje é uma continuação da semana passada, e admito, de saída, que é um tema polêmico. Eu não vou aqui examinar as evidências pró e contra a evolução. Ou seja, eu não estarei preocupado com a questão “A seleção natural explica de maneira satisfatória o surgimento da vida humana na terra?” A propósito, eu duvido que ela explique, mas não é disso que me ocuparei aqui.

A pergunta que quero responder é “A evolução é um fato?” A palavra-chave é fato. Acho essa questão importante porque é algo que a gente sempre ouve por aí. Nos debates públicos sobre Design Inteligente ou “ciência” criacionista – e eu já mostrei, na semana passada, que ciência criacionista não é ciência – ouvimos professores afirmando que “A evolução é um fato”. Quem quer que se atreva a negar isso será tachado de ignorante, de bronco anticientífico.

Às vezes, quando alguém sugere que há alguma coisa mal explicada na seleção natural, ouve-se a seguinte resposta: “Mesmo que não conheçamos o mecanismo por completo, mesmo assim, a evolução é um fato”.

Será? A resposta curta para essa pergunta é “não”. Na verdade, a afirmação de que a evolução é um fato oculta um desprezo gigantesco pela maneira correta de usar a palavra. E mais, o abuso de linguagem denuncia um comprometimento fundamental com o que chamamos, semana passada, de materialismo enquanto pressuposição metafísica.

Vocês se lembram que fiz uma distinção entre materialismo enquanto suposição metodológica e materialismo enquanto suposição metafísica. A ciência é materialista; ela estuda o mundo material à sua maneira e tenta, sempre que possível, fornecer explicações de âmbito material. Por outro lado, o materialismo metafísico é uma suposição a priori de que a matéria é tudo o que existe no mundo.

Também disse, semana passada, que a ciência, estando confinada ao mundo material, pode responder a pergunta “como?” mas não a pergunta “por que?”, em última instância. A pergunta “Por que estamos aqui?” situa-se fora do escopo da investigação científica. É uma pergunta que a ciência não deveria nem mesmo formular, muito menos responder.

No entanto, a questão se a vida na terra evoluiu de uma sopa primordial de elementos situa-se, sim, no escopo da ciência. É uma questão legítima. Mas o fato de ser legítima não significa que ela possa ser respondida definitivamente.

Vamos começar do começo. O elemento central de quase todas as definições da palavra “fato” é a inegabilidade. Um fato é algo que nenhuma pessoa sã pode negar.

Ora, imaginem que estejamos trabalhando numa escavação arqueológica e que descubramos alguns fósseis – vamos chamá-los de grupo fóssil A – numa determinada profundidade que chamaremos de camada 4. A descoberta do grupo A na camada 4 é um fato. É claro que alguém do outro lado do mundo poderia negar tal descoberta, mas, pelo menos para as pessoas que descobriram os fósseis, trata-se de um fato, não importa o que os outros pensem.

Imagine agora que encontramos outra série de fósseis – o grupo B – numa camada mais profunda, que chamaremos de camada 9. Isso também é um fato. Porém, nenhum desses fatos, em si e por si, são interessantes.

Todavia, com base no que sabemos sobre o solo e as camadas rochosas, concluímos que o grupo B é mais antigo que o grupo A, porque foi encontrado num nível mais profundo. Isto é um fato? Propriamente falando, não; é uma inferência. Mas poderia ser uma inferência tão bem embasada que nenhuma pessoa séria se atreveria a negá-la. Nesse caso, muitas pessoas concordariam em chamar tal inferência de “fato”.

Mas note que, nesse caso, estamos usando a palavra “fato” de maneira coloquial. Há uma grande diferença entre dizer “encontramos o grupo B na camada 9” e “o grupo B é mais antigo que o grupo A”. A primeira afirmação é confirmada pela observação direta; a segunda é produto de inferência, mesmo que seja bem embasada.

Sigamos em frente. Com base em evidências, podemos inferir uma relação entre o grupo B e o grupo A. Realmente, podemos concluir que o grupo A é resultado de um desenvolvimento evolucionário do animal cujos fósseis estão no grupo B. Além disso, posso imaginar uma situação na qual as evidências disso são tão abundantes que, novamente, nenhuma pessoa em sã consciência a negaria. Isso também seria chamado de “fato”, embora em sentido coloquial.

Mas a gente sabe que quando os cientistas aparecem na TV e proclamam que “a evolução é um fato”, eles não querem dizer que uma determinada espécie evoluiu uma determinada característica com o passar do tempo. Se fosse assim, até eu concordaria com o uso da palavra “fato”.

Mas não é isso que eles querem dizer. Eles querem dizer que toda vida na terra evoluiu até o presente estado a partir de formas simples de vida, e que tudo isso aconteceu por processos puramente naturalistas. Ora, isto pode ou não ser verdade, mas dificilmente poderíamos dizer que se trata de um fato inquestionável. Pelo contrário: trata-se de uma generalização indutiva que, em si, se baseia numa série de inferências que, em si, são derivadas de “fatos”. Em outras palavras, os cientistas concluíram que, para além da dúvida razoável, as espécies mudam com o passar do tempo e se adaptam a seus ambientes – seria absurdo negar isto – e, a partir daí, generalizaram, afirmando que o mesmo mecanismo se aplica a todas as vidas do planeta.

Ora, até mesmo quem acredita nisso deveria admitir que se trata de uma generalização bastante ambiciosa. Além do mais, pessoas razoáveis podem e, na verdade, discordam se tal generalização é um “fato”. A evolução, nesse sentido, simplesmente não pode ser chamada de fato por quem quer que entenda o que essa palavra realmente signifique.

Agora, preciso dizer algumas coisas sobre a “seleção natural”. Ela também não é um “fato”; é uma hipótese. A seleção natural seria o mecanismo pelo qual a evolução ocorreria. E, que fique claro, trata-se de uma hipótese bastante útil, que explica um grande número de “fatos” observados. Por outro lado, há outros fatos que não são facilmente explicados pela seleção natural.

Isto é importante porque para inferir que há uma relação evolucionária entre dois grupos fósseis, é necessário fornecer uma explicação plausível para que tal desenvolvimento tenha ocorrido. Ausente tal mecanismo, há pouca razão para inferirmos uma relação evolucionária.

É por isso que eu fico irritado quando ouço alguém dizendo: “Podemos não saber exatamente como a evolução ocorre, mas que ela ocorre é um fato”. Ora, isso é um absurdo. Explicar como as coisas acontecem é o papel da ciência. Insistir numa relação entre dois fatos, mesmo que não haja uma explicação materialista para como eles se relacionam, não é nada melhor do que invocar fadas e duendes para explicá-los. E nós é que somos acusados de usar “Deus” para preencher as falhas de nosso conhecimento.

Tudo isso nos leva de volta aonde começamos. Por que os cientistas que, afinal, são pessoas racionais, insistem em fazer afirmações absurdas? A resposta é que muitos deles estão comprometidos com o materialismo, não enquanto pressuposição metodológica, mas enquanto artigo de fé metafísico. Para muitos deles, o cientificismo, e seu dogma principal, o evolucionismo, é um culto religioso.

No final das contas, não faço a menor idéia se os humanos foram criados como são ou se são produto de desenvolvimento de formas pré-humanas. Mas o que eu sei é que as evidências para tal desenvolvimento estão muito longe de serem conclusivas. E sei também que aqueles que insistem nessa idéia estão partindo de pressuposições metafísicas que são totalmente diferentes das nossas, e que freqüentemente promovem visões políticas e sociais que também são totalmente diferentes da nossa visão ortodoxa.

A ciência não está em conflito com nossa fé ortodoxa. Não temos nada a temer da investigação científica honesta. O cientificismo, por outro lado, é uma religião competidora. E temos de estar alertas para isso.

E que nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, que criou o universo sem os palpites de Carl Sagan ou Stephen J. Gould, pelas intercessões de Santo Inocêncio do Alaska e do abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de nós e conceda-nos uma entrada rica em Seu reino eterno.

Meu nome é Clark Carlton, falando para a Ancient Faith Radio.

4 de dezembro de 2007

Fé e ciência I: A ciência tem de ser materialista?

Creio que as grandes questões culturais e filosóficas de nosso tempo devam ser analisadas e entendidas a partir de uma mentalidade devidamente fundada na Tradição e na autoridade mística e dogmática dos Santos Padres. O podcast de Clark Carlton procura fazer exatamente isso, especialmente na série Faith and Science, já citada anteriormente, e cujas transcrições o autor gentilmente me encaminhou e que passo a publicá-las aqui.

Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra (Isaías 1:18-19).

Olá. Bem-vindos de volta ao programa Faith and Philosophy [Fé e Filosofia]. O assunto de hoje é Fé e Ciência.

Gostaria de novamente tocar num assunto do qual falei no começo deste ano, numa série sobre Ortodoxia e a cultura moderna. Já que a relação entre fé e ciência é um assunto sempre conflituoso neste país, achei que fosse uma boa idéia tentar dar meus pitacos a respeito.

Hoje, pretendo me focar especificamente na definição e no escopo da ciência, e, em particular, na sua relação com a doutrina filosófica do materialismo, que afirma que a matéria (acho que tenho que emendar essa fórmula um pouquinho, dizendo: matéria mais energia) é a única realidade.

Estou levantando essa questão porque uma das críticas mais comuns que os evangélicos fazem contra a ciência moderna é que ela é materialista. Isso parece ser algo ruim. Seria preciso uma abordagem científica que não estivesse comprometida com o materialismo. Uma que estivesse aberta a coisas como design e criação inteligentes.

Todavia, tais críticas, que encontramos nas obras de Philip Johnson, entre outros, tendem a fazer vista grossa a uma distinção crucial. Há uma diferença enorme entre materialismo enquanto pressuposição metodológica e materialismo enquanto pressuposição metafísica.

O que quero dizer é o seguinte: A ciência estuda o mundo material. Seu método básico é o da observação empírica. A razão e a matemática são invocadas para que tais observações façam sentido, mas isso não muda o fato de que a fundação de toda a ciência moderna é a observação. A ciência lida exclusivamente com o que pode ser experimentado e/ou medido.

Portanto, a ciência é metodologicamente materialista, pois lida exclusivamente com o mundo material. Quando um fato ou evento material é observado, os cientistas tentam encontrar uma causa para ele. É isso o que os cientistas fazem. Por isso, “ciência criacionista” é algo que não faz sentido. A ciência não tem como avaliar a afirmação de que algo na natureza (ou a natureza em si) foi causado por algo fora da natureza.

Nem mesmo a ciência do “design inteligente” faz sentido. Tudo bem, admito que certos aspectos do design inteligente tenham implicações filosóficas: por exemplo, o conceito de Michael Behe da complexidade irredutível. Contudo, mesmo isso não é ciência, pois se trata de uma crítica filosófica ao método científico em si. Ele diz que há certas coisas em nosso mundo que a seleção natural não é capaz de explicar. A propósito, eu concordo com essa idéia. Mas ela não fornece um modelo alternativo porque um Designer inteligente não é algo testável.

Mas e se não houver nenhuma resposta materialista a determinado problema? E daí? Bem, é neste ponto que a ciência pára de atuar. Pois a ciência é metodologicamente materialista e, portanto, por definição, limitada ao universo material. A ciência pode perguntar “Como?” no sentido de quais circunstância e ações materiais provocaram este evento em particular, mas ela não consegue perguntar “Por quê?”, filosoficamente falando.

Mas nós sabemos muito bem que os cientistas raramente se contentam com esse horizonte limitado. Para muitos, a ciência deve perguntar “Por quê?”. Porém, é neste ponto que cruzamos a fronteira da ciência genuína e entramos no cientificismo, e a demarcação entre uma coisa e outra é exatamente a adoção, por parte do cientificismo, do materialismo enquanto pressuposição metafísica.

Gente como Carl Sagan e Richard Dawkins podem ser considerados como expoentes desse tipo de raciocínio. Toda sua abordagem científica é marcada pela suposição metafísica de que o mundo material é tudo o que existe ou pode existir. Assim, a teoria da seleção natural, por exemplo, não apenas descreveria o processo mecânico pelo qual os organismos mudam e evoluem, mas é também a chave para entender o sentido de toda a existência biológica.

Ora, não há absolutamente nada científico nesse tipo de suposição. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein ensinava que se você desenhasse uma linha e dissesse “A realidade termina aqui”, você estaria fazendo uma afirmação metafísica, mesmo que dissesse que do outro lado dela não houvesse nada.

A ciência, enquanto ciência, deve ser agnóstica nessas questões porque estão além do seu escopo.

Deixe-me ilustrar isso melhor, citando Tomás de Aquino. Muitos aprenderam na faculdade as “Cinco Provas” de Tomás de Aquino para a existência de Deus. A essência de seu argumento é algo que mais tarde foi chamado de argumento cosmológico para a existência de Deus. Embora associemos este argumento com Tomás de Aquino, o grosso veio integralmente de Aristóteles.

Vou dar aqui uma versão “Reader´s Digest” da coisa. Sabemos que um corpo em repouso permanecerá em repouso até que uma força externa atue sobre ele. Portanto, se um objeto físico for movido, ele teve que ser movido por outro objeto ou força física. Pense num dominó, por exemplo. Se esse dominó cair, deve ter havido uma razão ou causa para isso. Uma rajada de vento, isto é, ar em movimento, deve ter atingido o dominó, ou um objeto caiu sobre ele (outro dominó, talvez). Mas o ponto é: o que quer que tenha movido o dominó também estava se movendo pois, do contrário, não teria movido o dominó.

Digamos que o dominó A tenha caído, ocasionando a queda subseqüente do dominó B. Mas eis a questão: O que fez o dominó A cair? Teoricamente, poderíamos prosseguir com essas perguntas para sempre, mas Aristóteles diz que não. Ele ensinava que o movimento teve que ter um início, para além do qual não poderíamos prosseguir. Mas o Primeiro Motor tinha que ter uma característica bastante particular. O Primeiro Motor não poderia ser movido, senão teríamos de perguntar o que o moveu. Portanto, o Primeiro Motor é um Motor Imóvel, e isto, Tomás de Aquino acrescenta, meio afoito para meu gosto, todo mundo sabe que é Deus.

O maior problema nessa história é que nem todo mundo concorda com Aristóteles, ou seja, nem todo mundo concorda que uma regressão infinita é impossível. Muitos cosmólogos modernos propõem um universo infinito, e isso não lhes dá nem um pouco de insônia.

Porém, este argumento nos ajudará a esclarecer o tópico aqui em discussão. A maioria das pessoas despreza o fato de que no contexto da disputa na qual as Cinco Provas se inserem o argumento cosmológico desempenha um papel importante. Tomás de Aquino está lidando com a objeção de que a existência de Deus seria desnecessária porque poderíamos explicar o mundo sem Deus. Se pensarmos a respeito, veremos que é exatamente o que muitos ateístas modernos e devotos do cientificismo dizem.

Ora, o ponto crucial do argumento de Tomás de Aquino é demonstrar que nenhum sistema é auto-explicativo. As leis da física explicam os movimentos no interior do cosmos, mas elas não podem explicar a existência do próprio cosmos. Em outras palavras, este argumento levanta a seguinte questão: Por que há algo ao invés do nada? O ponto crucial deste argumento é mostrar que a questão não pode ser respondida de dentro do próprio sistema.

Assim, chegamos a uma dicotomia cabal. Ou o mundo teve um Início, que situa-se fora do mundo e é completamente distinto de qualquer coisa do Cosmos (um Motor que move sem ser movido), ou o cosmos de uma forma ou de outra sempre existiu e sempre existe.

Se a primeira hipótese for a verdadeira, então temos de buscar um sentido para nossa existência fora da ciência; conforme notara Wittgenstein, se houver algum sentido no mundo, ele tem de estar fora do mundo. Por outro lado, se o mundo não teve começo então não pode ter sentido também. É simplesmente assim. A pergunta “Por quê?” seria não apenas irrelevante, mas sem sentido. Ela não pode nem mesmo ser perguntada.

Portanto, voltamos aonde começamos. A ciência pode responder à pergunta “Como?”. Como os furacões se formam? Como os organismos se adaptam ao meio-ambiente? etc. Mas a ciência não pode perguntar, muito menos responder, questões como: Por que há algo ao invés do nada? Qual o sentido da vida humana?

Mas sinto que estou indo longe demais, então vou continuar esse assunto na próxima semana, quando abordarei a questão da evolução.

E que nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que criou o universo sem a ajuda de cientistas ou pseudo-teólogos, pelas intercessões de Santo Inocêncio do Alaska e do abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de nós e conceda-nos uma entrada rica em Seu reino eterno.

Meu nome é Clark Carlton, falando para a Ancient Faith Radio.

9 de novembro de 2007

Deus e a ciência

Clark Carlton, professor de Filosofia e autor de livros de apologética da Igreja Ortodoxa, explica neste podcast que a ciência empírica pode e deve ser metodologicamente materialista e agnóstica, pois lida sempre com experiências e medidas, mas que muitos cientistas modernos inadvertidamente estendem o escopo da ciência e procuram aplicar essa metodologia agnóstica também à metafísica. É justamente neste ponto que cessa a ciência genuína e se inicia algo maligno: o cientismo (ou cientificismo), categoria na qual se enquadram Carl Sagan, Richard Dawkins etc. Há uma clara distinção entre o escopo da ciência e o escopo da religião, que não devem jamais se confundir nem mesmo precisam se harmonizar.

Em suma: as ciências podem explicar somente como os furacões se formam, como as borboletas se reproduzem etc., mas é incapaz, em si e por si, de explicar a si própria. Por exemplo, as leis da Física são capazes de explicar os movimentos que ocorrem no inteiror do cosmos, mas são incapazes de explicar a origem do próprio cosmos, que deve ser necessariamente algo exterior a si próprio).