A lei da Natureza
Ele agitará
o céu e a terra, para que apenas o que é mais firme permaneça: é um fogo
inextinguível, que faz com que somente aquilo que não pode ser extinto
permaneça eternamente de pé. Tal é a natureza de Deus: tão terrivelmente
pura que destrói tudo o que não é puro como o fogo, o que exige que haja pureza
em nossa forma de adorá-Lo. Ele sempre terá pureza. Não se trata de que o fogo
vá nos queimar se não O adorarmos; mas de que continuará ardendo dentro de nós até
que tudo o que é alheio a Ele se renda à Sua força — não mais com dor e
consumição [aflição, inquietação], mas como a consciência mais elevada da vida:
a presença de Deus.
[...]
Poderia
servir-lhes, de algum modo, de consolo, que se lhes diga que Deus os ama tanto
que arderá neles até purificá-los? ...Eles não querem estar limpos, e não
querem suportar um suplício.
[...]
Porque
aquilo que não pode ser removido deve permanecer. O que é imortal em Deus deve
permanecer no homem. A morte que há neles deve ser consumida. Nisso consiste
a lei da Natureza — isto é, a lei de Deus —: que tudo o que é destrutível deve
ser destruído.
[...]
O homem cujos atos são maus teme as chamas.
Mas as chamas não deixarão de vir apenas porque ele as teme ou as nega. É
inútil fugir. Pois o Amor é inexorável. Nosso Deus é um fogo inextinguível.
Ele não se manifestará até que tenha exigido o último centavo.
Cavernas
e películas
Se Deus vê
esse coração corroído pela ferrugem das atenções, carcomido em cavernas e
películas pelos vermes da ambição e da avareza, então teu coração é como
Deus o vê, porque Deus vê as coisas tal como são. E um dia serás forçado
a contemplar — não, a sentir — teu coração como Deus o vê.
[...]
E não é que
esta lição se aplique apenas àqueles que adoram Mammon… Aplica-se igualmente
àqueles que adoram o transitório; aos que buscam o louvor dos homens mais do
que o louvor de Deus; aos que estão dispostos a montar um espetáculo exibindo
ostentação de riqueza, gosto, intelecto, poder, arte ou qualquer tipo de
genialidade, para colecionar elogios que guardem em um depósito terreno. E não
apenas a esses, mas também àqueles cujos prazeres têm uma natureza ainda mais
evidentemente passageira, como os prazeres sensuais em todas as suas variantes
— mesmo os que contam com indulgência legal, se a alegria de ser se centra
neles —, é preciso compreender a terrível advertência contida nestas palavras.
Pois o dano não está em que tais prazeres sejam falsos como as ilusões da
magia, porque essa não é sua natureza; nem porque sejam passageiros e deixem
atrás de si uma amarga decepção — isso é, de longe, o melhor que se pode dizer
deles —; o dano está em que o imortal, o infinito, criado à imagem e semelhança
do eterno Deus, se liga ao que se deteriora e declina, aderindo a isso como se
fosse seu bem; permanece agarrado até que se torna infectado e impregnado por
suas enfermidades, que assumem no eterno uma forma mais terrível,
proporcional à superioridade de sua natureza.
Os
milagres
O Pai
disse: Isto é uma pedra. O Filho não diria: isto é um pedaço de pão. Nenhum fiat
criativo pode contradizer o outro. O Pai e o Filho são uma só mente.
[...]
O Senhor
podia ter fome, estar à beira da inanição, e ainda assim não transformaria em
outra coisa aquilo que o Pai havia criado. Não houve mudança desse tipo quando
as multidões foram alimentadas. Os pães e os peixes eram pães e peixes
anteriormente... Nesses milagres —e creio que em todos— houve apenas uma
aceleração das aparências: o fato de que algo fosse feito em um só dia,
aquilo que em condições normais teria levado mil anos, porque para Deus o tempo
não é o mesmo que para nós. Ele o faz... E não se trata do mais milagroso dos
processos. Na verdade, a maravilha do milho que cresce é, para mim, maior do
que a maravilha de alimentar milhares. É mais fácil compreender o poder
criativo que age num instante —imediatamente— do que aquele que opera nas
incontáveis e gentis, aparentemente esquecidas maravilhas do milharal.
Nem só
de sentimento vive o homem
Então
foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E,
tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; e, chegando-se
a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se
tornem em pães. Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão
viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. (Mateus 4:1-4)
No aspecto
mais elevado da primeira tentação, partindo do fato de que um homem não pode
sentir as coisas que crê senão sob certas condições de bem-estar físico que
dependem do alimento, a resposta é a mesma: um homem não vive por seus
sentimentos mais do que vive por seu pão.
A
liberdade que nos une a Deus
Não é que
Deus, pelo dom instantâneo de Seu Espírito, faça sempre com que nos sintamos
bem, que desejemos o bem, que amemos a pureza, que aspiremos a Ele e a cumprir
Sua Vontade. Disso se conclui que ou Ele não quer, ou não pode fazer tal coisa.
Se não quer, é porque não seria bom que assim fosse. Se não pode, então é
porque não o faria se pudesse, pois, do contrário, seria concebível para a
mente de Deus uma condição melhor do que a do próprio Deus... Eis a verdade:
Ele quer que sejamos feitos à Sua imagem e semelhança, que escolhamos o
bem, que rejeitemos o mal. Como poderia conseguir isso se Ele nos
movesse a cada instante desde dentro, como faz nos intervalos divinos, em
direção à beleza da santidade?... Porque Deus fez tanto nossa
individualidade quanto nossa dependência, e a primeira é até uma maravilha
maior. Ele criou nossa separação dEle, que, por meio da
liberdade, deveria unir-nos divina e amorosamente a Ele, com uma nova e
inescrutável maravilha de amor; pois a Divindade ainda está em sua [nossa] raiz,
é a seiva que alimenta nossas raízes individuais, e quanto mais livre é o
homem, tanto mais forte é o vínculo que o une Àquele que forjou sua liberdade.
Deus é o
Pai de todos e não apenas meu
Nunca
poderemos, digo, descansar no seio do Pai, até que a fraternidade se revele
completamente a nós no amor por nossos irmãos. Pois Ele não pode ser nosso Pai,
a menos que seja também o deles; e se não O vemos e O sentimos como Pai deles,
não poderemos saber que é o nosso.
A ação
do amor
Se um homem
não ama, a falta de amor deve parecer racional. Pois ninguém ama porque vê o
motivo, mas porque ama. Não se pode dar razão humana alguma para a
necessidade mais elevada da existência divinamente criada. Porque as razões
sempre descem de cima para baixo. [Em outras palavras, embora MacDonald
certamente não tenha isso em mente, pelo menos não desta forma, os princípios da
virtude do intellectus seriam as “razões que descem de cima para baixo”,
ou seja, são elementos que vêm de fora (ou melhor, do alto). Veja algo sobre
isso aqui. Mas nada disso explica a ação do
amor em si, ou seja, o amor é algo cuja existência é “divinamente
criada” em nós, faz parte da natureza humana. A inatividade do amor em si não
pode, portanto, ser explicada pela ausência ou mesmo presença de razões.]
A
zombaria como perda da fraternidade e sinal da inatividade do amor
Mas como
podemos amar uma mulher ou um homem… que é mesquinho, desagradável, queixoso,
vacilante, hipócrita, egoísta, vaidoso? Como amar alguém que pode até zombar
de nós (essa, a mais desumana das faltas humanas, pior em essência que a
própria morte)? Não há maneira de amar isso. O melhor dos homens o detesta
acima de tudo; o pior dos homens não pode amá-lo. Mas são esses “o homem”? …
Não existe dentro do homem e da mulher um elemento divino de fraternidade, algo
amável e amante —que se apaga lentamente, talvez—, algo que morre submetido ao
feroz calor das paixões vis, ou ao ainda mais horrendo e frio sepulcro do
egoísmo, que, apesar de tudo, está ali?... É a própria presença dessa
humanidade que se desvanece que torna possível odiarmos. Se fossem apenas
animais, e não homens e mulheres, os que nos ferissem, não odiaríamos: apenas
mataríamos.
[...]
O homem não
foi feito para a justiça em relação ao seu irmão, mas para o amor, que é
maior que a justiça e, além disso, a supera. A mera justiça é uma
impossibilidade, uma ficção da análise. [Sim, pois a justiça é uma virtude
moral que só faz sentido quando integrada à prudência e, por sua vez, à
inteligência.] Para que a justiça seja justiça, precisa ser muito mais do que
justiça. O amor é a lei de nossa condição, sem a qual não podemos fazer justiça
— assim como um homem não pode caminhar em linha reta quando anda na escuridão.
[A exemplo do que ensinou Santo Agostinho, a saber, que o que rege o Estado
não é a justiça, mas o amor, e o que ensinou Santo Tomás de Aquino, a saber,
que o mundo foi criado na misericórdia, ou seja, no amor, não na justiça].
É difícil
satisfazer a Deus, mas é fácil agradá-Lo
Sustento
com toda a força do meu coração que apenas um cumprimento perfeito satisfará
a Deus; mas pensar que nada mais Lhe importa é uma das mentiras do inimigo. Que
pai não se alegra ao ver os primeiros passos, ainda vacilantes, de seu pequeno?
Que pai ficaria satisfeito com algo diferente do passo firme do filho adulto e
maduro?
O propósito
imediato dos mandamentos nunca foi que os homens chegassem a cumpri-los, mas
que, ao perceberem que não podiam fazer o que devia ser feito — ao perceberem
que quanto mais tentavam, mais se lhes exigia — fossem levados à fonte da vida
e da lei — de sua vida e de Sua lei — para buscar nEle o vigor vital
necessário para que o cumprimento da lei se tornasse possível, sim, tão
natural quanto necessário. [O Pe. Seraphim Rose, citando São Macário de Optina,ensinava algo parecido em relação à leitura dos Santos Padres,
a saber, para que cresçamos em humildade].
Servidão
Um homem
está nas mãos daquilo de que não pode se separar e que é menor do que ele.
A estratégia perdedora dos acumuladores de carniça
“Não posso
ser perfeito; é inútil; e Ele não espera que eu o seja.” Seria mais honesto se
tivesse dito: “Não quero ser perfeito; contento-me em ser salvo.” Como se não
lhe importasse ser perfeito como seu Pai o é no céu, mas apenas ser o que se
costuma chamar de salvo.
Ou estás
tão satisfeito com o que és, que nunca buscaste a vida eterna, nunca tiveste
fome e sede da retidão de Deus, da perfeição do teu ser? Se essa é tua
condição, então tens razões para te sentir aliviado: o Mestre não pretende que
vendas teus bens e dês aos pobres o que obtiveres. O que deves fazer é segui-Lo
e anunciar a boa nova! Tu, que não te preocupas com a retidão! Não és um
daqueles cuja companhia convém ao Mestre. Fica tranquilo, digo-te: Ele não te
exige nada, não te pedirá que abras tua bolsa para Ele; podes dar teu dinheiro
ou guardá-lo, para Ele isso nada significa... Vai e cumpre os mandamentos.
Já tens o bastante com os mandamentos. Já não és um filho no reino. Não
te importam os braços de teu Pai; só valorizas o abrigo que Seu teto pode
oferecer. Quanto ao teu dinheiro, que os mandamentos te mostrem como usá-lo. É
apenas uma triste presunção de tua parte perguntar se te é pedido tudo o que
tens... pois pedir ao Jovem Rico que vendesse tudo e O seguisse seria
conceder-lhe o título de nobreza de Deus — e a ti não se oferece tal coisa.
Isso te
consola? Tanto melhor para ti! ... Teu consolo é saber que o Senhor não tem
necessidade de ti; que não te exige que te desprendas do teu dinheiro, que Ele
não se oferece em troca. É verdade que não O vendeste por trinta moedas de
prata, mas estás satisfeito por não ter que comprá-Lo com tudo o que tens.
O homem
que, pela consciência do bem-estar, depende de algo que não seja a vida — a
vida essencial — é um escravo; apega-se a algo que é menor do que ele... As coisas
nos são dadas — e este corpo, a primeira entre elas — para que, através delas,
exercitemos tanto a independência quanto a posse genuína. Devemos possuí-las, e
não permitir que elas nos possuam. Seu uso próprio é como meio, como formas e
manifestações de menor grau daquelas coisas que são invisíveis — isto é,
invisíveis em si mesmas —, as coisas que pertencem não ao mundo do discurso,
mas ao mundo do silêncio; não ao mundo do que se mostra, mas ao mundo do ser, o
mundo que não pode ser removido, aquele que deve permanecer. Essas coisas
invisíveis tomam forma nas coisas do tempo e do espaço; e não é que venham a
existir, pois existem em e provêm da eterna Divindade; mas seu ser deve ser
conhecido por aqueles que se exercitam para o eterno, pois são essas coisas —
as invisíveis — que devem possuir os filhos e filhas de Deus. Mas, em vez de
estender o braço para alcançá-las, eles se apegam às suas formas, contemplam
essas coisas visíveis como as que devem possuir, e se enamoram dos corpos em
vez de fazê-lo das almas.
O
sagrado presente
A próxima
hora, o próximo momento, estão tão além de nosso entendimento e do cuidado de
Deus quanto o que acontecerá daqui a cem anos. Preocupar-se com o próximo
minuto é tão tolo quanto preocupar-se com o amanhã ou com qualquer dia dos
próximos mil anos: em todos os casos, nada podemos fazer, pois é Deus quem
faz tudo. As exigências de preparar o amanhã pertencem à tarefa de hoje; o
momento que coincide com o trabalho que deve ser feito é o momento que importa;
o instante seguinte não existe em lugar algum até que Deus o tenha feito.
A
preocupação que ocupa tua mente neste instante — ou aquela que apenas espera
que deixes o livro de lado para te assaltar — essa necessidade que não é
necessária é um demônio que está bebendo a fonte da tua vida. “Não; a minha é
uma preocupação razoável, uma que é inevitável, de fato.” Trata-se de algo que
precisas fazer exatamente agora? “Não.” Então estás permitindo que ela usurpe o
lugar daquilo para o qual verdadeiramente és chamado neste momento. “Não sou
necessário para nada neste momento.” Não, mas há isso — a maior coisa para a
qual alguém pode ser requerido. “Peço-te, do que se trata?” De confiar no Deus
vivo... “Já confio nEle quanto aos assuntos espirituais.” Tudo é um assunto
do espírito.
Deus não
chuta a porta
Deus também
não forçará nenhuma porta para entrar. Pode enviar uma tempestade sobre a casa;
o vento de Sua advertência pode agitar as portas e janelas, sim, estremecer a
casa até seus alicerces; mas nem então, nem mesmo assim, Ele entrará. A porta
deve ser aberta por uma mão voluntária, antes que o pé do Amor atravesse o
umbral. Ele vê como a porta se move por dentro. Cada tempestade não é senão um
assalto no cerco que o Amor realiza. O terror de Deus não é mais que a outra
face de Seu Amor; é amor que está do lado de fora, que estaria dentro; amor
que sabe que a casa não é realmente uma casa, mas apenas um lugar — até que Ele
entre.
Oração
de intercessão
E por que o
bem de alguém deveria depender da oração de outra pessoa? Só posso responder a
isso invertendo a pergunta: “Por que meu amor haveria de ser impotente para
ajudar outro?”.
A
sublevação eterna
Há espaço
infinito para a rebelião contra si mesmo.
Concessão
corretiva
Mesmo
aqueles que pedem em vão podem às vezes receber resposta às suas preces. O Pai
nunca dará ao filho que pede pão uma pedra; mas não estou certo de que nunca
lhe dê uma pedra, se foi isso que pediu. Se o Pai diz: “Meu filho, isso é uma
pedra, não um pão”, e o filho responde: “Tenho certeza de que é pão; eu o
quero”, não é bom que ele prove o seu “pão”?
A
justiça corretiva é inócua nos assuntos espirituais
É insignificante
para ti se o homem te concedeu teu direito ou não: é questão de vida
ou morte para ti se lhe concederes o dele. Pague ele ou não o que te deve, tu
estarás obrigado a pagar-lhe tudo o que lhe deves. Se lhe deves uma libra e
ele te deve um milhão, deves pagar-lhe a libra, quer ele te pague ou não o
milhão; não se podem estabelecer aqui paralelos com o mundo dos negócios. Se
ele, devendo-te amor, te entrega ódio, tu, que lhe deves amor, tens de pagá-lo.
[Veja o que diz Ivan Ilyin sobre a equidade e o ódio]
Ponto
morto
Ao homem é
difícil obter o que deseja, porque não deseja o melhor; a Deus é difícil dar,
porque Ele daria o melhor, e o homem não o aceitaria.
A vida não
existe só na alegria
A vida é
tudo. Muitos, sem dúvida, confundem a alegria de viver com a própria vida e, ao
sentir falta da alegria, definham com uma sede ao mesmo tempo pobre e
insaciável; contudo, essa sede aponta para uma única fonte. Ela [a pessoa] ama
o “eu”, não a vida, e o “eu” não é senão a sombra da vida. Quando se toma o
“eu” como a própria vida e se o coloca no centro do homem, ele se transforma em
uma morte viva dentro do homem — um demônio que ele adora como seu Deus — e esse
verme da morte eterna é colocado como um broche no peito, como seu único
gozo.
Acima de
tudo, evitemos o falso refúgio que oferece a derrota pelo cansaço, a rendição
desesperançada às coisas tal como são. É a vida que há em nós que está
descontente; precisamos de mais daquilo que está descontente [da vida], não
mais da causa do descontentamento [do eu].
Fogo divino
O fogo de
Deus, que é Seu ser essencial, Seu amor, Seu poder criador, é um fogo que não
se assemelha ao seu símbolo terrestre neste ponto: só queima à distância;
quanto mais alguém se afasta dEle, mais abrasado se torna.
Criação
Empregar a palavra “criação” para designar o
mais nobre êxito do gênio humano parece-me zombar da humanidade, que está ela
própria em processo de criação.
A
realidade é feita de coisas (ou, Os objetos da ciência não são reais)
A verdade
da flor não consiste nos fatos sobre ela, por mais corretos que sejam como
ciência ideal, mas no brilho, no semblante radiante, na alegria, na coisa
paciente sobre o trono de seu caule — aquilo que impele ao sorriso e à
lágrima... A ideia de Deus é a flor: Sua ideia não é a botânica da flor.
A botânica é apenas o meio, o caminho, o pincel e a tela em relação ao quadro
na mente do pintor.
O oxigênio
e o hidrogênio são a ideia divina da água? Deus uniu ambos os elementos apenas
para que o homem os separasse e os descobrisse? Ele permite que Seu filho
desmonte os brinquedos em peças; mas foram feitos para serem despedaçados?
[...] Não há água no oxigênio, nem água no hidrogênio; ela vem borbulhante e
fresca da imaginação do Deus vivo, a toda velocidade desde o grande trono
branco do glaciar. [...] Essa água é seu próprio ser e sua própria verdade, e
por isso é também uma verdade de Deus.
A verdade de
uma coisa, portanto, é seu florescimento — aquilo para o que foi feita, a
pedra superior colocada com alegria; a verdade na imaginação de um homem é o
poder de reconhecer essa verdade de uma coisa.
[Edward
Feser, em seu Scholastic Metaphysics,
explica precisamente isso: os átomos de hidrogênio e oxigênio existem apenas
virtualmente na água, ou seja, suas formas substanciais não estão realmente
ali. Em outras palavras, a forma substancial da água é algo que não se explica
pela mera soma, ou conjunção, ou composição, de seus átomos. Em ainda outras palavras,
a forma substancial da água é da água, apenas e tão-somente da água, e
também dos átomos que naquele momento a compõe. A forma substancial da água
permeia horizontalmente (em seus átomos) e, ao mesmo tempo, verticalmente (a água
como um todo).
Mario
Ferreira explica a mesma coisa com outras palavras, tanto em seu Ontologia e cosmologia quanto em seu Filosofia concreta.
Como lhe é característico, ele diria que a relação dos átomos de oxigênio e hidrogênio
é real, mas não é concreta. A relação desses átomos explica a passagem da água
em potência para a água em ato, mas a relação, ela mesma, precisa dos átomos,
por isso ela mesma não é concreta. Ela contém, nas palavras de Mario Ferreira,
o “germe do esquema”. Isso significa que a água em ato contém seu próprio
esquema concreto (esquema desta água), mas a mera relação entre as
partes não é este esquema concreto (ou “tensão”, ou “arithmós”).]
A via do
“animal santo” não existe
Aquele que
fosse em direção à verdade por mero impulso seria um animal santo, não um
verdadeiro homem. Relações, verdades, deveres — tudo isso se mostra ao homem
além de si mesmo, para que ele possa escolhê-los e ser um filho de Deus,
escolhendo a retidão como Ele. Daí a imensa tristeza que há na história
vitoriosa dos humanos, e a glória no que será revelado.
A liberdade
do Deus que deseja que suas criaturas sejam livres está em disputa com a
escravidão da criatura que cortaria o próprio caule de suas raízes apenas para
poder dizer que eram suas próprias raízes e amá-las; aquele que se regozija
de sua própria consciência, em vez de fazê-lo da vida dessa consciência;
aquele que mantém o equilíbrio apoiando-se na parede vacilante de seu próprio
ser, em vez de apoiar-se na rocha da qual essa parede é feita. Alguém assim
contempla o domínio que tem sobre si mesmo —a norma do maior pelo menor [ele se
refere ao conceito de servidão, a saber, a submissão do maior por algo que lhe
é menor]— como uma liberdade infinitamente maior que a correspondente ao
universo do ser de Deus. Se diz: “Pelo menos faço do meu jeito!”, eu respondo:
não sabes qual é o teu jeito e qual não é. Não tens ideia da procedência de
teus impulsos, teus desejos, tuas inclinações, tuas preferências. Às vezes
podem brotar como por acaso, como se te pedissem as entranhas; outras, do
rugido de um diabo incorpóreo que passava por ali; outras, da avareza anárquica
de algum ancestral de quem te envergonharias se o conhecesses; ou talvez
provenha de algum acorde distante de uma orquestra celestial. De qualquer modo,
no momento em que entra em tua consciência, tu o chamas “teu próprio jeito” e
te glorificas nisso.
A
vergonha é para os magnânimos
Podemos
confiar em Deus com nosso passado com tanto entusiasmo quanto confiamos nEle
com nosso futuro. Isso não nos fará mal, enquanto não tentarmos esconder algo,
enquanto estivermos dispostos a inclinar nossas cabeças com sincera vergonha
sempre que for adequado nos envergonharmos. A vergonha é algo de que se
envergonham apenas os que querem aparentar, não os que querem ser. A
vergonha é algo de que se envergonham aqueles que apenas desejam passar de ano,
não os que querem penetrar no cerne das coisas... Ser humildemente envergonhado
é mergulhar no purificador banho da verdade.
Cada um porta
a luz à sua maneira e deve compartilhar com os demais
Cada um de
nós é algo que o outro não é, e portanto sabe algo —ainda que saiba sem saber
que sabe— que nenhum outro sabe; e... é tarefa de todos, como membros do reino
da luz e herdeiros dele, oferecer sua parte ao restante.
É melhor
ser homem do que ser herói
Aprendi que
não é a mim mesmo, mas apenas à minha sombra que perdi. Aprendi que é melhor...
para um homem orgulhoso cair e receber uma lição de humildade do que erguer a
cabeça orgulhoso com uma inocência fingida. Aprendi que aquele que será um
herói dificilmente será um homem; que aquele que não será mais do que o
realizador de seu trabalho pode estar seguro de sua humanidade.
Depois
da morte a vida se enriquece
“Agora você
provou o sabor da morte”, disse o Velho. “Gostou?”. “Sim, gostei”, disse Mossy.
“É melhor que a vida.” “Não”, disse o Velho. “É apenas que contém mais
vida.”
É somente nEle
que a alma tem espaço suficiente. Em conhecê‑Lo está a vida e sua alegria. O
segredo do teu próprio coração jamais poderás conhecer; mas poderás conhecer
Aquele que conhece esse segredo.
Ensinamos
ao próximo pelo exemplo, não pelo discurso
Não
julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes
sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos tornarão a medir. E
por que reparas tu no cisco que está no olho do teu irmão, e não vês a trave
que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu
olho, e eis uma trave no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu
olho, e então verás claramente para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Mateus 7:1-5)
Se eu
tivesse mais da sabedoria da serpente... talvez soubesse que tentar com
demasiado empenho fazer com que as pessoas sejam boas é uma maneira de
torná-las piores; que o único modo de torná-las boas é ser bom, lembrando
em todo momento o cisco e a trave; e que o momento ideal para falar raramente
se apresenta, enquanto o ideal para agir está sempre aí.
Recordatório
Queixar-se
diante de Deus nos aproxima muito mais dEle do que se fôssemos indiferentes.
Fonte: C. S. Lewis, George MacDonald, Ediciones Rialp, Madrid, Espanha, 2017.
